O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 69 de 119

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O Conde de Monte Cristo

10. O gabinete do procurador do rei

1 Paul: moeda dos Estados romanos.

2 Eldorado e Potosí: Eldorado é uma terra fantástica, cheia de riquezas, na América; Potosí, no antigo vice-reino do Peru, atual Bolívia, é o nome dado à região das minas de prata que fizeram a fortuna do império colonial espanhol.

3 Ali Tebelin: ver Parte II, cap.6, nota 22.

10. O gabinete do procurador do rei

Deixemos o banqueiro voltar no galope de seus cavalos e acompanhemos a sra.

Danglars em seu passeio matinal.

Dissemos que meio-dia e meia a senhora pedira seus cavalos e saíra de coche.

Ela se dirigiu para os lados do faubourg Saint-Germain, entrou na rua Seine e mandou parar na travessa da Pont-Neuf.

Desceu e atravessou a passagem. Vestia-se muito simplesmente, como convém a uma mulher de bom gosto que sai de manhã.

Na rua Guénégaud, entrou num fiacre e deu como destino a rua do Harlay.

Mal entrou no coche, tirou do bolso um véu não muito espesso, que prendeu em seu chapéu de palha; em seguida colocou o chapéu na cabeça e viu com satisfação, mirando-se num espelhinho de bolso, que não revelava aos olhares dos outros senão sua pele branca e a pupila faiscante do seu olho.

O fiacre atravessou a Pont-Neuf e adentrou a praça Dauphine pelo pátio do Harlay. Quando a portinhola se abriu, a sra. Danglars pagou e, lançando-se pela escada, que transpôs com agilidade, logo estava no salão dos Passos Perdidos.

Pela manhã, além da azáfama dos negócios, há muita gente ocupada no Palácio de Justiça, e pessoas ocupadas não olham muito para as mulheres; portanto, a sra. Danglars atravessou o salão dos Passos Perdidos sem ser mais notada que outras dez mulheres à espera de seus advogados.

Havia uma aglomeração na sala de espera do sr. de Villefort, mas a sra.

Danglars não precisou sequer pronunciar o seu nome. Assim que apareceu, um funcionário levantou-se, foi até ela, perguntou-lhe se ela não era a pessoa que tinha um compromisso com o sr. procurador do rei e, à sua resposta afirmativa, conduziu-a, por um corredor reservado, ao gabinete do sr. de Villefort.

O magistrado escrevia, sentado em sua poltrona, de costas para a porta.

Ouviu a porta se abrir, o funcionário pronunciar estas palavras: “Entre, senhora!” e a porta se fechar, sem esboçar um único movimento; porém, assim que percebeu os passos do funcionário se distanciarem, virou-se

com um gesto brusco, foi fechar os ferrolhos, puxar as cortinas e inspecionar cada canto do gabinete.

Quando teve a certeza de não ser mais visto nem ouvido, acalmou-se:

— Obrigado, senhora — disse ele —, por sua pontualidade.

E ofereceu um assento à sra. Danglars, que o aceitou, pois seu coração batia tão intensamente que ela quase não respirava.

— Pois é — disse o procurador do rei, sentando-se por sua vez e fazendo sua poltrona descrever um semicírculo, de modo a ficar de frente para a sra. Danglars —, faz muito tempo, minha cara, que não tenho a felicidade de conversar a sós consigo; e, para meu grande pesar, aqui estamos prontos a ter uma conversa bem difícil.

— Apesar disso, cavalheiro, o senhor vê que vim ao seu primeiro chamado, embora decerto essa conversa seja ainda mais difícil para mim que para o senhor.

Villefort sorriu amargamente.

— Então é verdade — ele disse, respondendo muito antes ao seu próprio pensamento do que às palavras da sra. Danglars — que todos os nossos expedientes deixaram vestígios, uns escuros, outros luminosos, em nosso passado! Então é verdade que todos os nossos passos nesta vida são como a marcha do réptil sobre a areia sulcando o solo! Que tristeza! Para muitos, esse rastro é um rastro de lágrimas!

— Cavalheiro — disse a sra. Danglars —, pode compreender minha perturbação, não é mesmo? Oh, ajude-me, por favor! Esta sala, por onde tantos culpados passaram trêmulos e envergonhados, esta poltrona, em que me vejo por minha vez envergonhada e trêmula...! Oh, admita, preciso de toda a minha razão para não ver em mim uma mulher culpada e, no senhor, um juiz ameaçador.

Villefort balançou a cabeça e soltou um suspiro.

— E eu — replicou —, digo a mim mesmo que meu lugar não é na poltrona do juiz, mas no banco dos réus.

— O senhor? — perguntou a sra. Danglars, perplexa.

— Sim, eu.

— Creio que da sua parte, cavalheiro, seu puritanismo exagera a situação — disse a sra. Danglars, cujos olhos tão belos iluminaram-se fugazmente.

— Esses rastros, mencionados pelo senhor, foram deixados por todas as juventudes ardentes. No fundo das paixões, além do prazer, há sempre uma

pitada de remorso. Foi para isso que o Evangelho, esse eterno recurso dos sofredores, ofereceu-nos como esteio a admirável

parábola da menina pecadora e da mulher adúltera1. Dessa forma, confesso, reportando-me a esses delírios de juventude, às vezes acho que Deus me perdoará, pois, se não a desculpa, pelo menos a compensação esteve presente nos meus sofrimentos; mas o senhor, que tem o senhor a temer de tudo isso, visto que aos homens todos desculpam e o escândalo enobrece?

— A senhora me conhece — replicou Villefort —, não sou um hipócrita, ou pelo menos não faço hipocrisia sem motivos. Se a minha fronte é severa, é porque muitos infortúnios a cobriram; se o meu coração virou pedra, foi para resistir aos golpes que recebeu. Eu não era assim na minha mocidade, eu não era assim naquela noite de noivado em que estávamos todos sentados em torno de uma mesa da rua do Corso em Marselha.

Porém, desde então, muita coisa mudou em mim e ao meu redor; passei a vida a perseguir coisas difíceis e a destruir, diante das dificuldades, aqueles que, voluntária ou involuntariamente, por livre-arbítrio ou por acaso, viram-se colocados no meu caminho para me proporcionar tais empecilhos. É raro aquilo que ardentemente desejamos não ser ardentemente proibido por aqueles de quem o queremos obter ou de quem o tentamos arrancar. Nesse sentido, a maior parte das vilanias dos homens simplesmente apareceu diante deles, disfarçada sob a forma especiosa da necessidade; além do mais, cometida a maldade num momento de exaltação, de medo ou delírio, vemos que teria sido possível passar perto dela e a evitado. O meio que teria sido correto empregar, que não enxergamos na hora, cegos que estávamos, apresenta-se aos nossos olhos claro e simples; então nos dizemos: “Como não fiz isso em vez daquilo?”

As damas, ao contrário, muito raramente são atormentadas por remorsos, pois muito raramente a decisão emana delas, seus infortúnios quase sempre lhes são impostos, seus erros quase sempre são o crime de um outro.

— Em todo caso, cavalheiro, há de convir que — respondeu a sra.

Danglars —, se cometi um erro, mesmo esse erro tendo sido pessoal, recebi uma severa punição ontem à noite.

— Pobre mulher! — disse Villefort, apertando-lhe a mão. — Demasiado severa para suas forças, pois por duas vezes a senhora quase sucumbiu, e apesar disso...

— O quê?

 

O gabinete do procurador do rei.

— O quê! Sinto-me na obrigação de lhe pedir... Reúna toda a sua coragem, senhora, pois ainda não chegamos ao fim.

— Meu Deus! — exclamou ela, assustada. O que mais vem por aí?

— A senhora enxerga apenas o passado, e decerto ele é triste. Pois bem!

Imagine um futuro ainda mais triste, um futuro... terrível com certeza...

sangrento talvez!

A baronesa conhecia a calma de Villefort; ficou tão apavorada com sua exaltação que abriu a boca para gritar, mas o grito morreu em sua garganta.

— Como esse terrível passado ressuscitou? — exclamou Villefort. —

Como, do fundo da tumba e do fundo dos nossos corações, onde dormia, pôde ele sair como um fantasma para empalidecer nossas faces e corar nossas frontes?

— Ai de nós! — disse Hermine. — O acaso, possivelmente.

— O acaso! — repetiu Villefort. — Não, não, senhora, não existe acaso!

— Claro que existe; não foi um acaso, fatal, é verdade, que causou tudo isso? Não foi o acaso que fez o conde de Monte Cristo comprar aquela casa? Não foi o acaso que o impeliu a escavar o quintal? Não foi o acaso, enfim, que desenterrou aquela infeliz criança de sob as árvores? Pobre inocente criatura saída de mim, a quem nunca pude dar um beijo, mas a quem dei muitas lágrimas. Ah, meu coração desfaleceu quando o conde mencionou esses amados despojos encontrados sob as flores!

— Pois bem! Isso não é verdade, senhora, e sou obrigado a lhe contar uma coisa terrível — respondeu Villefort, com uma voz cava. — Não, não houve despojos encontrados sob as flores; não, não houve criança desenterrada; não, não precisa chorar; não, não precisa gemer: precisa tremer!

— Que quer dizer com isso? — gritou a sra. Danglars, estremecendo.

— Quero dizer que o sr. de Monte Cristo, ao escavar ao pé daquelas árvores, não podia encontrar nem esqueleto de criança, nem ferragens de arca, pois não havia nada disso sob aquelas árvores.

— Não havia nada disso! — repetiu a sra. Danglars, fixando no procurador do rei olhos cuja pupila, assustadoramente dilatada, indicava o terror.

— Não havia nada disso! — repetiu, como uma pessoa que tenta captar pelo som das palavras e o barulho da voz as idéias prestes a lhe escapar.

— Não! — confirmou Villefort, deixando a testa cair nas mãos. — Não, mil vezes não!

— Quer dizer que não foi lá que depositou a desgraçada criança, senhor?

Por que me enganar? Com que objetivo? Vamos, fale...

— Foi lá... Mas ouça, ouça, senhora, e irá lastimar-se por mim; por mim, que durante vinte anos carreguei, sem dividir nada consigo, o fardo de sofrimentos que vou lhe comunicar.

— Meu Deus! O senhor me assusta! Mas não importa, fale, sou toda ouvidos.

— A senhora sabe como terminou aquela dolorosa noite em que a senhora arfava em seu leito, naquele quarto de damasco vermelho, enquanto eu, quase tão ofegante, esperava o parto. A criança veio, recebi-a sem movimento, sem respiração, sem voz, nós a julgamos morta.

A sra. Danglars fez um movimento rápido, como se quisesse projetar-se da poltrona.

Mas Villefort deteve-a, juntando as mãos como para implorar sua atenção.

— Nós a julgamos morta — repetiu. — Coloquei-a numa arca que devia substituir o caixão, desci até o jardim, abri uma cova e enterrei-a às pressas. Mal eu terminava de cobri-la com terra, o braço do corso projetou-se na minha direção. Vi algo como uma sombra levantar-se e, como um relâmpago, brilhar. Senti uma dor, quis gritar, um calafrio percorreu meu corpo e apertou minha garganta... Caí agonizante, achando que estava morto. Nunca irei esquecer sua sublime coragem, quando, depois que recuperei a consciência, arrastei-me arfante até o pé da escada, onde, arfante por sua vez, a senhora me socorreu. Convinha manter silêncio sobre a terrível catástrofe; a senhora teve coragem de retornar à sua casa, amparada pela ama-de-leite; um duelo foi o pretexto para o meu ferimento. Contrariando todas as expectativas, o segredo permaneceu conosco; fui transportado para Versalhes; lutei três meses contra a morte; finalmente, quando parecia reconectado à vida, recomendaram-me o sol e o ar do Midi. Fui carregado por quatro homens de Paris até Chalon, fazendo trinta quilômetros por dia. A sra. de Villefort seguia a padiola em seu coche. Em Chalon, vi-me em pleno Saône, depois atravessei o Ródano e, contando apenas com a velocidade do carregador, desci até Arles, depois de Arles, embarquei novamente na minha liteira e prossegui viagem até Marselha. Minha convalescença durou seis meses; não mais ouvi falar da senhora, não ousei me informar do seu paradeiro. Quando regressei a Paris, soube que, viúva do sr. de Nargonne, a senhora desposara o sr.

Danglars.

“Em que pensei depois que recobrei a consciência? Sempre na mesma coisa, sempre no cadáver de criança que, todas as noites, nos meus sonhos, alçavase do seio da terra e pairava sobre a cova, ameaçando-me com o olhar e o gesto. Portanto, assim que pus os pés em Paris, fui em busca de informações; a casa não havia sido habitada desde que dela saímos, mas acabava de ser alugada por nove anos. Fui procurar o locatário, fingi um desejo profundo de não ver aquela casa, que pertencia ao pai e à mãe da minha mulher, passar para mãos estranhas; ofereci uma indenização a fim de que rompessem o contrato; pediram seis mil francos, eu teria dado dez, vinte mil. Eu os tinha comigo, e providenciei imediatamente a assinatura da rescisão. Quando obtive essa tão desejada cessão, parti no galope para Auteuil. Ninguém, desde que eu havia saído, entrara na casa.

“Eram cinco horas da tarde, subi ao quarto vermelho e esperei a noite chegar.

“Ora, tudo que eu vinha me dizendo ao longo de um ano durante minha agonia contínua reproduziu-se, mais ameaçador que nunca, no meu pensamento.

“Aquele corso que me declarara a vendetta, que me seguira de Nîmes a Paris; aquele corso, que se escondera no jardim e me golpeara, me viu abrindo a cova, me viu enterrando a criança; ele poderia vir a conhecer a senhora; talvez a conhecesse... Não a faria pagar, um dia, pelo segredo desse terrível episódio...? Não seria para ele uma doce vingança, quando ficasse sabendo que eu não morrera com sua punhalada? Era urgente, portanto, que, antes de qualquer coisa e a qualquer custo, eu destruísse todos os vestígios materiais; não restaria senão a realidade avassaladora na minha lembrança.

“Por causa disso eu havia anulado o contrato, por causa disso eu viera, por causa disso eu esperei.

“Anoiteceu, deixei a escuridão ganhar corpo; não havia luz no quarto, onde rajadas de vento sacudiam os postigos, atrás dos quais, a todo instante, eu julgava ver algum espião emboscado. De tempos em tempos eu estremecia; parecia-me ouvir seus gemidos atrás de mim, naquela cama, e não me atrevia a olhar. Meu coração batia em meio ao silêncio e eu o sentia bater tão violentamente que temi que meu ferimento terminasse por reabrir. Ouvi extinguirem-se, um após o outro, todos aqueles diversos ruídos campestres. Percebi que não tinha mais nada a temer, que não podia ser visto nem ouvido, e resolvi descer novamente.

“Escute, Hermine, julgo-me tão corajoso quanto qualquer outro homem, mas, quando retirei do meu peito aquela chavinha da escada, tão cara a nós dois e que a senhora quis prender numa argola de ouro, quando abri a porta, quando, através das janelas, vi uma lua pálida lançar, sobre os degraus em espiral, uma longa faixa de luz branca igual a um espectro, colei na parede, quase gritei; achei que ia enlouquecer.

“Enfim, consegui me controlar. Desci a escada, degrau a degrau; a única coisa que não conseguia dominar era um estranho tremor nos joelhos.

Agarrei-me ao corrimão; se o tivesse largado um instante, teria desabado.

“Cheguei à porta de baixo; do lado de fora dessa porta, uma pá estava encostada no muro. Peguei uma lamparina baça; no meio do gramado, parei para acendê-la, e segui adiante.

“Era fim de novembro, todo o verdor do jardim desaparecera, as árvores eram apenas esqueletos com longos braços descarnados e as folhas faziam ranger o cascalho sob meus passos.

“O terror fustigava tão intensamente o meu coração que, ao me aproximar da moita, saquei do bolso uma pistola e a engatilhei.

Permanecia em mim a impressão de ver, através dos galhos, a figura do corso.

“Iluminei a moita com a lamparina baça; não havia ninguém. Dei uma olhada ao redor, estava efetivamente sozinho; nenhum barulho perturbava o silêncio da noite, exceto o pio de uma coruja, que lançava seu grito agudo e lúgubre como se convocasse os fantasmas da noite.

“Prendi a lamparina na forquilha de um galho que eu notara um ano antes, exatamente no lugar onde parei para abrir a cova.

“Durante o verão, o mato crescera abundante no local; chegado o outono, ninguém estivera lá para capinar. Entretanto, uma área de vegetação mais rala chamou minha atenção. Era evidente que havia sido ali que eu remexera a terra. Pus mãos à obra.

“Finalmente chegara o momento que eu aguardava havia mais de um ano. “Cheio de esperança, trabalhei, sondei cada tufo de capim, julgando sentir uma resistência na ponta da pá: nada! E, entretanto, fiz um buraco duas vezes maior que o primeiro. Supus que me iludira, que me enganara de lugar; orientei-me, observei as árvores, procurei reconhecer os detalhes que me haviam impressionado. Uma aragem fria e aguda soprava por entre os galhos secos, mas, apesar disso, o suor escorria da minha testa. Lembrei que recebera a punhalada justamente quando pisoteava a terra para fechar a cova; ao pisotear esta terra, apoiara num tronco de ébano; atrás de mim estava uma pedra artificial destinada a servir de banco a quem passeasse por ali; pois, ao cair, minha mão, que acabava de soltar o ébano, sentira a frieza dessa pedra. À minha direita, o ébano, atrás mim, a pedra; caí e assim fiquei, pus-me novamente de pé e comecei a cavar e alargar o buraco: nada, sempre nada! A arca não estava lá!

— A arca não estava lá? — murmurou a sra. Danglars, sufocada pelo terror.

— Não pense que me limitei a essa tentativa — continuou Villefort —, não. Vasculhei a moita; imaginei que o assassino, tendo desenterrado a arca e julgando tratar-se de um tesouro, dela quisera se apoderar e a carregara consigo; em seguida, constatando seu erro, fizera por sua vez

 

outro buraco e a enterrara novamente: nada. Ocorreu-me que talvez ele não tivesse tomado tantas precauções e simplesmente a abandonara num canto qualquer. Para verificar essa primeira hipótese e fazer uma busca, eu precisava aguardar o amanhecer. Subi de novo para o quarto e aguardei.

— ... nada, sempre nada! A arca não estava lá!

— Oh, meu Deus!

— Amanheceu, desci mais uma vez. Fui direto até a moita. Esperava descobrir pistas que me houvessem escapado na escuridão. Eu cavara uma área de terra com mais de seis metros quadrados, numa profundidade de mais de sessenta centímetros.

Um assalariado teria suado um dia inteiro para fazer o que eu fiz em uma hora. E nada, não vi absolutamente nada.

“Comecei então a procurar a arca, baseado na suposição de que ele a jogara num canto qualquer. Isso devia ter acontecido ao longo do caminho que levava até o portão de saída; mas essa nova investigação foi tão inútil quanto a primeira e, com o coração apertado, voltei à moita, na qual porém já não depositava mais nenhuma esperança.”

— Oh — exclamou a sra. Danglars —, qualquer um teria enlouquecido!

— Por um momento imaginei que iria fazê-lo — admitiu Villefort —, mas não tive essa felicidade; porém, apelando para minhas forças e, por conseguinte, para minhas idéias, me perguntei: “Por que aquele homem teria carregado o cadáver?”

— Mas o senhor mesmo disse — respondeu a sra. Danglars —, para ter uma prova.

— Claro que não, senhora, não podia mais ser por isso; ninguém guarda um cadáver durante um ano. Este é levado até um magistrado, a quem se presta um depoimento. Ora, não havia acontecido nada disso.

— Muito bem! E daí? ... — perguntou Hermine, toda palpitante.

— E daí que existe algo mais terrível, mais fatal, mais assustador para nós; e daí que a criança talvez esteja viva e que o assassino pode tê-la salvado.

A sra. Danglars explodiu num grito terrível, agarrando as mãos de Villefort, e exclamou:

— Meu filho estava vivo! O senhor enterrou meu filho vivo! Não tinha certeza de que meu filho estava morto e o enterrou! Ah...!

A sra. Danglars levantara e pusera-se diante do procurador do rei, cujos punhos apertava entre suas mãos delicadas, de pé e quase ameaçadora.

— Como vou saber? Estou supondo isso como poderia estar supondo outra coisa — respondeu Villefort, com o olhar fixo indicando que esse homem tão poderoso estava prestes a atingir os limites do desespero e da loucura.

— Ah, meu filho, meu pobre filho! — exclamou a baronesa, voltando a desabar em sua poltrona e sufocando as lágrimas num lenço.

Villefort recobrou-se e compreendeu que, para desviar a tempestade maternal formando-se sobre sua cabeça, precisava fazer a sra. Danglars sentir o mesmo terror que ele sentia.

— Compreende então que, se for assim — ele disse, levantando-se por sua vez e se aproximando da baronesa para lhe falar mais baixo —, estamos perdidos. Essa criança vive, alguém sabe que ela vive, alguém sabe o nosso segredo; e, se Monte Cristo fala na nossa frente de uma criança desenterrada de um lugar onde essa criança não estava mais, é ele quem detém esse segredo.

— Deus, Deus justo, Deus vingador! — murmurou a sra. Danglars. A resposta de Villefort resumiu-se a uma espécie de rugido.

— Mas e a criança, e a criança, cavalheiro? — repetiu a mãe obstinada.

— Oh, como a procurei! — respondeu Villefort, retorcendo os próprios braços. — Quantas vezes a chamei em minhas longas noites insones!

Quantas vezes desejei uma riqueza de rei para comprar um milhão de segredos de um milhão de homens e encontrar meu segredo entre os seus!

Enfim, um dia em que eu novamente pegava na pá pela centésima vez, perguntei-me pela centésima vez também o que aquele corso pudera fazer da criança: uma criança é um estorvo para um fugitivo; talvez, ao perceber que ela ainda vivia, a tivesse jogado no rio.

— Oh, impossível! — exclamou a sra. Danglars. — É possível assassinar um homem por vingança, mas ninguém afoga uma criança a sangue-frio!

— Talvez — continuou Villefort — ele a tenha deixado no Albergue de Crianças Abandonadas.

— Oh, sim, sim! — exclamou a baronesa. — É lá que o meu filho está, senhor!

— Corri até o albergue e soube que, exatamente naquela noite, a

noite de 20 de setembro2, uma criança fora deixada na torre; estava embrulhada na metade de uma toalha de mesa de cambraia fina, intencionalmente rasgada. Essa metade de toalha estampava uma metade de coroa de barão e a letra H.

— É isso mesmo, é isso mesmo! — exclamou a sra. Danglars. — Toda a minha roupa de mesa estampava essa marca; o sr. de Nargonne era barão e meu nome é Hermine. Obrigado, meu Deus! Meu filho não morreu!

— Não, não morreu!

— E o senhor diz isso... diz isso sem recear me matar de alegria! Onde está ele? Onde está o meu filho?

Villefort deu de ombros.

— Eu lá sei? — respondeu. — Acha que, se soubesse, a faria passar por todas essas gradações, como faria um dramaturgo ou um romancista?

Quem me dera, não possuo esse talento. Transcorridos cerca de seis meses, uma mulher foi reivindicar a criança com a outra metade da toalha de mesa. Esta mulher forneceu todas as garantias exigidas pela lei, e a criança lhe foi entregue.

— Mas o senhor devia ter-se informado acerca dessa mulher, era fundamental tê-la descoberto.

— E em que acha que me empenhei, senhora? Simulei uma investigação criminal, pondo em seu encalço tudo que a polícia possui de perdigueiros

treinados e agentes hábeis. Seguimos seu rastro até Châlons, onde o perdemos.

— Perderam?

— Sim, perdemos; perdemos para sempre.

A sra. Danglars escutara esse relato com um suspiro, uma lágrima, um grito para cada circunstância.

— E isso é tudo? — ela perguntou. — O senhor se limitou a isso?

— Oh, não! — exclamou Villefort. — Nunca parei de procurar, de indagar, de me informar, embora precise admitir que, de uns dois ou três anos para cá, relaxei um pouco. Mas, hoje mesmo, vou recomeçar com mais perseverança e obstinação do que nunca; e, tome nota, terei êxito, a senhora verá; pois não é mais a consciência que me incita, é o medo.

— O conde de Monte Cristo, porém — replicou a sra. Danglars —, desconhece todos esses fatos; caso contrário, suponho que não desejaria ter qualquer relação conosco.

— Oh, a maldade dos homens é muito profunda — disse Villefort —, pois é mais profunda que a bondade de Deus. Reparou nos olhos desse homem, enquanto falava conosco?

— Não.

— Mas por acaso já parou para examiná-lo mais detidamente?

— Sem dúvida. É estranho, ponto final. Apenas uma coisa me impressionou, é que ele não tocou em nada durante o magnífico jantar que nos ofereceu, não reivindicou a sua porção de nenhum dos pratos.

— Sim! Sim! — exclamou Villefort. — Também notei isso! Se soubesse o que sei agora, tampouco eu teria tocado em alguma coisa, pois imaginaria que ele pretendia nos envenenar.

— E estaria enganado, como vê.

— Sim, sem dúvida; mas, creia, esse homem tem outros planos. Eis por que a chamei aqui, eis porque pedi para falar consigo, eis porque quis precavê-la contra todos, mas sobretudo contra ele. Diga-me — continuou Villefort, fixando seus olhos na baronesa ainda mais profundamente do que o fizera até então —, não comentou nossa relação com ninguém?

— Nunca, com ninguém.

— A senhora compreende — emendou afetuosamente Villefort — que, ao dizer com ninguém, perdoe-me pela insistência, quero dizer com ninguém no mundo, pois não?

— Oh, sim, sim, compreendo muito bem — enfatizou a baronesa, ruborizando. — Nunca, juro!

— Não tem o hábito de escrever à noite o que aconteceu durante a manhã? Não mantém um diário?

— Não! Ai de mim! Minha vida é uma grande frivolidade; eu mesma esqueço o que fiz durante o dia.

— Sabe se fala enquanto dorme?