O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 53 de 119

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O Conde de Monte Cristo

13. Píramo e Tisbe

A palidez do conde, que havia alguns segundos ia aumentando, tornouse assustadora a essas palavras. Todo o sangue afluiu ao seu coração, ele não conseguia falar; sacou o relógio como se tivesse esquecido a hora, pegou seu chapéu, apresentou um cumprimento brusco e embaraçado à sra.

Herbault e, apertando as mãos de Emmanuel e de Maximilien, disse:

— Senhora, permita-me voltar de vez em quando para prestar-lhe minhas homenagens. Gosto da sua casa, e lhe sou grato pela acolhida, pois esta é a primeira vez que esqueci de mim em muitos anos.

E saiu com largas passadas.

— É um homem singular esse conde de Monte Cristo — disse Emmanuel.

— Sim — respondeu Maximilien —, mas me parece ter excelente coração, e tenho certeza de que gosta da gente.

— E eu! — respondeu Julie. — Sua voz me falou ao coração e por duas ou três vezes julguei que não era a primeira vez que a ouvia.

13. Píramo e Tisbe1

Quase no fim do faubourg Saint-Honoré, atrás de um belo palacete, notável entre as notáveis residências desse rico bairro, estende-se um vasto jardim cujas castanheiras frondosas ultrapassam os imensos paredões, altos como muralhas, e deixam, quando chega a primavera, cair suas folhas cor-de-rosa e brancas em dois vasos de pedra canelada, dispostos paralelamente sobre duas pilastras quadrangulares, nas quais se encaixa um portão gradeado da época de Luís XIII.

Essa entrada grandiosa está condenada, a despeito dos magníficos gerânios que crescem nos dois vasos e que balançam ao vento suas folhas marmorizadas e suas flores roxas, desde que os donos da propriedade, e isso faz muito tempo, contentaram-se com a posse do palacete, do pátio cheio de árvores que dá para o faubourg e do jardim fechado por esse portão, que dava antigamente para uma magnífica horta de meio hectare, anexa à propriedade. Porém, tendo o demônio da especulação riscado uma linha, isto é, uma rua, na extremidade dessa horta, e tendo a rua, mesmo antes de existir, recebido, graças a uma reluzente placa de ferro, um nome, os donos pensaram em vender aquela horta para assim construir algo com vista para a rua e competir com essa grande artéria de Paris chamada faubourg Saint-Honoré.

Em matéria de especulação, contudo, o homem põe e o dinheiro dispõe; a rua batizada morreu no berço: o comprador da horta, após ter pago pontualmente, não conseguiu revendê-la pela soma que pretendia e, esperando uma alta de preço que não podia deixar, cedo ou tarde, de indenizá-lo muito além de suas perdas passadas e do seu capital imobilizado, contentou-se em alugar aquele terreno a hortelões, mediante a soma de quinhentos francos por ano.

Isso significava dinheiro empregado a meio por cento, o que não é muito para os tempos que correm, quando tanta gente o emprega a cinqüenta, e ainda considera o dinheiro um recurso medíocre.

Entretanto, como dissemos, o portão gradeado do jardim, que antigamente dava para a horta, está condenado e a ferrugem corrói as suas dobradiças; e não é só isso: para que ignóbeis verdureiros não conspurquem com seus reles olhares o interior do terreno aristocrático, uma cerca de tábuas foi aplicada nas barras até uma altura de seis pés. É

verdade que as tábuas não estão ajustadas a ponto de impedir um olhar

furtivo por entre as brechas; mas essa casa é uma casa severa, que não teme as indiscrições.

Nessa horta, em vez de couves, cenouras, rabanetes, ervilhas e melões, crescem grandes alfafas, única lavoura a sugerir que ainda se dá atenção àquele sítio abandonado. Um portãozinho baixo, abrindo-se para a rua planejada, dá acesso a esse terreno cercado de muros, que seus locatários acabam de abandonar em virtude de sua infertilidade, e que, depois de uma semana, em vez de render meio por cento, como no passado, não rende mais absolutamente nada.

Do lado da residência, as mencionadas castanheiras que coroam o muro não impedem outras árvores luxuriantes e floridas de insinuar os galhos ávidos de ar por entre seus intervalos. Num canto onde a folhagem é tão frondosa que a luz mal penetra, um grande banco de pedra e cadeiras de jardim sugerem um local de reunião ou o refúgio favorito de algum morador do palacete, situado a cem passos, e que mal percebemos através da muralha verde que o cerca. Finalmente, a escolha desse recanto misterioso é ao mesmo tempo justificada pela ausência de sol, pelo frescor eterno, mesmo durante os dias mais quentes do verão, pelo chilrear dos pássaros e pela distância da casa e da rua, isto é, dos negócios e do barulho.

À tardinha de um dos dias mais quentes que a primavera já proporcionou aos moradores de Paris, havia nesse banco de pedra um livro, uma sombrinha, uma cesta de costura e um lenço de cambraia começando a ser bordado; e, não longe desse banco, perto do portão, de pé diante das tábuas, espreitando a divisória da cerca, uma jovem mulher tinha seus olhos mergulhados por uma fenda no jardim deserto já nosso conhecido.

Quase no mesmo instante, o portãozinho desse terreno fechava-se sem barulho, e um homem jovem, alto, forte, vestindo um blusão de brim grosseiro, gorro de veludo, mas cujos bigodes, barba e cabelos pretos esmeradamente tratados destoavam um pouco daquela roupa simples, após um rápido relance lançado ao redor para se certificar de que ninguém o espiava, passou por esse portão, fechando-o atrás de si, e dirigiu-se num passo precipitado até a cerca.

À visão daquele a quem esperava, mas não provavelmente naqueles trajes, a moça teve medo e fez menção de recuar.

 

No entanto, através dos vãos da cerca, o rapaz, com um olhar que não pertence senão aos amantes, vira flutuar o vestido branco e a longa faixa azul. Ele correu para a divisória e, aproximando sua boca de uma brecha, disse:

— Não tenha medo, Valentine, sou eu. A moça se aproximou.

— Oh — disse ela —, por que chegou tão tarde hoje? Não sabe que daqui a pouco vamos jantar e que precisei de muita diplomacia e esperteza para me livrar da minha madrasta, que me vigia, da minha aia, que me espiona, e do meu irmão, que me atormenta, para vir trabalhar aqui nesse bordado, que, eu receio, nunca chegará ao fim? Depois, quando houver se desculpado pelo atraso, você me dirá que roupa nova é essa que houve por bem adotar e quase fez com que não o reconhecesse.

— Não tenha medo, Valentine, sou eu.

— Querida Valentine — disse o rapaz —, você está muito acima do meu amor para que eu me atreva a falar dele. Apesar disso, todas as vezes que a vejo preciso lhe dizer que a adoro, para que o eco das minhas próprias palavras acaricie delicadamente o meu coração quando não está mais

diante de mim. Agradeço-lhe agora pela repreensão; é encantadora, pois me prova, não ouso dizer que estava à minha espera, mas que pensava em mim. Queria saber a causa do meu atraso e o motivo do meu disfarce; vou lhe dizer e espero que os desculpe: escolhi uma profissão.

— Uma profissão! Que significa isso, Maximilien? E por acaso somos suficientemente felizes para que brinque com os nossos assuntos?

— Oh — exclamou o rapaz —, Deus me livre de brincar com o que é a minha vida; porém, cansado de correr pelos campos e escalar muralhas, seriamente assustado com a idéia que uma noite dessas a senhorita incutiu em mim, segundo a qual um dia seu pai me faria julgar como ladrão, o que comprometeria a honra de todo o exército francês, e não menos assustado com a possibilidade de que viessem a desconfiar, ao verem perambular eternamente por esse terreno, onde não há mais uma única cidadela a ser sitiada ou a menor casamata a ser defendida, um capitão dos spahis, virei hortelão e adotei o uniforme da minha profissão.

— Mas que loucura!

— Ao contrário, é a coisa mais sensata, creio, que fiz na minha vida, pois nos dá toda a segurança.

— Como assim? Explique-se.

— Muito bem! Fui procurar o dono desse terreno; o arrendamento aos antigos locatários chegara ao fim e o aluguei novamente. Toda essa alfafa que você vê me pertence, Valentine; nada me impede de construir uma cabana nesse feno e morar agora a vinte passos de você. Oh, não posso conter minha alegria e minha felicidade! Acredita, Valentine, que há quem pague por essas coisas? Impossível, não é mesmo? Pois bem! Toda essa felicidade, toda essa ventura, toda essa alegria pelas quais eu teria dado dez anos da minha vida, me custam, adivinhe quanto...? Quinhentos francos por ano, pagáveis por trimestre. Assim, como pode ver, não há mais nada a temer. Estou na minha casa, posso colocar escadas no meu muro e olhar por cima, e tenho o direito, sem medo de que uma patrulha venha me importunar, de lhe dizer que a amo, enquanto seu orgulho não se sentir ferido ao ouvir essa palavra sair da boca de um pobre operário vestindo uma roupa de trabalho e usando um gorro.

Valentine soltou um gritinho alegre de surpresa; depois, bruscamente:

— Ai de nós, Maximilien! — disse ela com tristeza, como se uma nuvem de ciúme de repente encobrisse o raio de sol que iluminava o seu coração.

— Agora teremos muita liberdade, nossa felicidade nos fará tentar a Deus; vamos nos iludir com a nossa segurança e nossa segurança nos levará à perdição.

— Como pode me dizer isso, querida, a mim que, desde que a conheço, provo-lhe todos os dias que subordinei meus pensamentos e minha vida à sua vida e a seus pensamentos? O que a fez confiar em mim? Minha felicidade, não é mesmo? Quando você me falou que um vago instinto lhe dizia que estava correndo um grande perigo, coloquei meu devotamento a seu serviço, sem lhe pedir outra recompensa senão a felicidade de servi-la.

Durante esse tempo, será que, por uma palavra, um sinal, dei-lhe ensejo de se arrepender por me haver distinguido dentre os que se teriam regozijado de morrer por você? Você me disse, pobre menina, que estava noiva do sr.

d’Épinay, que seu pai se decidira por essa aliança, isto é, que ela era uma certeza, pois tudo que o sr. de Villefort quer acontece infalivelmente. Pois bem! Permaneci na sombra, esperando tudo, não da minha vontade, não da sua, mas dos acontecimentos da Providência, de Deus, e ainda assim você me ama, teve pena de mim, Valentine, e o admitiu; obrigado por essa doce palavra, só lhe peço que me repita de tempos em tempos fazendo-me esquecer de tudo.

— Foi isso que lhe deu coragem, Maximilien, e foi isso que fez da minha vida ao mesmo tempo um mar de rosas e um inferno, a ponto de eu me perguntar freqüentemente o que é preferível, o tormento que outrora me causavam o rigor da minha madrasta e sua preferência cega pelo meu meio-irmão ou a felicidade repleta de perigos que desfruto quando estou com você.

— Perigo! — exclamou Maximilien. — Como pode dizer palavra tão dura e tão injusta! Já viu escravo mais submisso que eu? Você permitiu que eu lhe dirigisse a palavra algumas vezes, Valentine, mas me proibiu de segui-la; obedeci. Depois que descobri um jeito de freqüentar esse terreno, de conversar com você através dessa cerca, estar enfim tão perto de você sem vê-la, alguma vez já pedi, fale, para tocar a bainha do seu vestido através dessas tábuas? Alguma vez já dei um passo para transpor esse muro, obstáculo ridículo para a minha juventude e a minha força? Jamais uma única censura sobre o seu rigor, jamais um desejo expresso em voz alta; permaneci fiel à minha palavra como um cavaleiro dos tempos antigos. Admita pelo menos isso para que eu não a repute injusta.

— É verdade — disse Valentine, passando entre duas tábuas a ponta de um dos seus dedos esguios, no qual Maximilien pousou os lábios. — É

verdade, você é um namorado honesto. Mas, afinal, meu querido Maximilien, você agiu apenas no seu interesse; sabia muito bem que, no dia em que o escravo ficasse exigente, perderia tudo. Você me prometeu a amizade de um irmão, a mim que não tenho amigos, a mim que meu pai esquece, a mim que minha madrasta persegue e que só tem como consolação o velho paralítico, mudo, congelado, cuja mão é incapaz de apertar a minha, de quem apenas o olho é capaz de falar comigo e cujo coração bate provavelmente para mim com um resto de calor. Trapaça amarga do destino, que me faz inimiga e vítima de todos que são mais fortes que eu e me dá um cadáver como apoio e amigo! Oh, é verdade, Maximilien, repito, sou muito infeliz e você tem razão em me amar por mim e não por você!

— Valentine — disse o rapaz, profundamente emocionado —, não direi que você é meu único amor no mundo, pois amo também minha irmã e meu cunhado, mas é com um amor delicado e calmo, que em nada se assemelha ao sentimento que lhe dedico. Quando penso em você, meu sangue pulsa, meu peito infla, meu coração transborda; mas essa força, esse ardor, essa potência sobre-humana, eu os empregarei para amá-la apenas até o dia em que me disser para empregá-los em seu benefício.

Dizem que o sr. Franz d’Épinay ficará ausente mais um ano; em um ano, quantas oportunidades favoráveis podem nos sorrir, quantos acontecimentos podem nos ajudar! Portanto, continuemos a alimentar esperanças, é tão bom e doce ter esperanças! Porém, enquanto isso, você, Valentine, você que me censura pelo meu egoísmo, o que você foi para mim? A bela e fria estátua da Vênus casta. Em troca desse devotamento, dessa obediência, dessa contenção, o que me prometeu? Nada. O que me concedeu? Muito pouca coisa. Você me fala do sr. d’Épinay, seu noivo, e lamenta a idéia de um dia ser dele. Vamos, Valentine, isso é tudo que tem na alma? Como! Eu lhe empenho minha vida, entrego-lhe minha alma, dedico-lhe até a mais insignificante batida do meu coração, e quando sou todo seu, eu, quando digo comigo baixinho que morrerei se a perder, você não se aterroriza diante da simples idéia de pertencer a outro! Oh, Valentine, Valentine! E se eu fosse você, se me sentisse amado como você tem certeza de que é amada por mim, eu já teria passado cem vezes uma das mãos pelas tábuas dessa cerca e teria apertado a mão do infeliz

Maximilien, dizendo-lhe: “Sou sua, só sua, Maximilien, neste mundo e no outro.”

Valentine não respondeu nada, mas o rapaz ouvia-a suspirar e chorar. A reação de Maximilien foi instantânea.

— Oh — gritou —, Valentine, Valentine! Esqueça minhas palavras se nelas há qualquer coisa que possa magoá-la!

— Não — ela respondeu —, você tem razão; mas não vê que sou uma criatura infeliz, abandonada numa casa quase inóspita, pois meu pai é quase um estranho, e cuja vontade vem sendo minada há dez anos, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, pela vontade de ferro dos senhores que me oprimem? Ninguém sabe o que sofro e não o revelo a ninguém senão a você. Aparentemente, e aos olhos de todos, tudo é agradável para mim, tudo me sorri; na realidade, tudo me é hostil. A sociedade diz: “O sr. de Villefort é demasiado grave e severo para ser carinhoso com a filha; mas ela pelo menos teve a felicidade de encontrar uma segunda mãe na sra. de Villefort.” Pois bem! A sociedade se engana, meu pai me abandona com indiferença e minha madrasta me odeia com uma obstinação ainda mais terrível na medida em que é disfarçada por um eterno sorriso.

— Odiá-la! A você, Valentine! E como podem odiá-la?

— Ai de mim, querido! — suspirou Valentine. — Sou obrigada a confessar que esse ódio por mim é fruto de um sentimento quase natural.

Ela adora o filho, meu irmão Édouard.

— E daí?

— E daí!? Acho estranho misturar ao que dizíamos um assunto de dinheiro. E daí!? Meu amigo, acho que pelo menos o ódio que ela nutre por mim tem essa origem. Ela não tem fortuna pessoal, já eu sou rica pelo ramo da minha mãe e tal fortuna ainda será mais que duplicada pela do sr.

e da sra. de Saint-Méran, que um dia virá para as minhas mãos. Pois bem, acho que ela está com inveja. Oh, meu Deus! Se eu pudesse lhe dar metade dessa fortuna e me sentir na casa do sr. de Villefort como uma filha na casa de seu pai, faria isso agora mesmo, não duvide.

— Pobre Valentine!

— Sim, sinto-me acorrentada e ao mesmo tempo tão fraca que esses elos parecem me sustentar e tenho medo de rompê-los. Além disso, meu pai não é um homem cujas ordens possam ser impunemente infringidas. É

poderoso contra mim, seria contra você, seria contra o próprio rei, protegido que é por um passado sem mácula e por uma posição quase

inatacável. Oh, Maximilien, juro-lhe, não luto porque receio magoá-lo com essa luta.

— Mas, enfim, Valentine — replicou Maximilien —, por que não ter esperanças, por que ver o futuro sempre sombrio?

— Ah, meu amigo, porque eu o julgo pelo passado!

— Entretanto, vejamos, se não sou um partido ilustre do ponto de vista aristocrático, por outro lado prezo, sob muitos aspectos, a sociedade na qual você vive. A época em que havia duas Franças na França não existe mais; as mais ilustres famílias da monarquia fundiram-se com as famílias do Império, a aristocracia da lança desposou a aristocracia do canhão.

Muito bem! Da minha parte, pertenço a esta última: tenho um belo futuro no exército, desfruto de uma fortuna limitada, mas independente; a memória do meu pai, enfim, é venerada em nossa terra como a de um dos negociantes mais honestos que já existiram. Digo nossa terra, Valentine, porque você é quase de Marselha.

— Não me fale de Marselha, Maximilien, basta essa palavra para me lembrar minha bondosa mãe, aquele anjo que todos prantearam, e que, depois de velar pela filha durante sua curta passagem pela Terra, ainda vela por ela, pelo menos é o que espero, em sua eterna morada no céu. Oh, se a coitada da minha mãe estivesse viva, Maximilien, eu não teria mais nada a temer; eu lhe diria que o amo e ela nos protegeria!

— Infelizmente, Valentine — disse Maximilien —, se ela vivesse, provavelmente eu não lhe conheceria, pois, como você mesmo disse, você seria feliz se ela vivesse, e Valentine feliz teria me olhado desdenhosamente do alto de sua grandeza.

— Ah, meu amigo — exclamou Valentine —, agora é você que está sendo injusto... Mas, diga-me...

— Que quer que eu lhe diga? — respondeu Maximilien, vendo que Valentine hesitava.

— Diga-me — continuou a moça —, será que já houve no passado alguma desavença entre o seu pai e o meu?

— Não que eu saiba — respondeu Maximilien —, exceto pelo fato de seu pai ter sido um partidário mais que zeloso dos Bourbon e o meu, um homem fiel ao imperador. É, presumo, tudo que houve de discordância entre eles. Mas por que esse pergunta, Valentine?

— Vou lhe contar — disse Valentine —, pois você tem que saber de tudo. Muito bem! Foi no dia em que sua indicação para oficial da Legião

de Honra foi publicada no jornal. Estávamos todos na casa do meu avô, o sr. Noirtier, e lá estava também o sr. Danglars, aquele banqueiro cujos cavalos quase mataram minha mãe e meu irmão anteontem, conhece? Eu lia o jornal em voz alta para o meu avô, enquanto aqueles senhores conversavam sobre o casamento da srta. Danglars. Quando cheguei no parágrafo que lhe dizia respeito e que eu já lera, pois desde a manhã da véspera você havia me anunciado a boa nova; quando cheguei, como ia dizendo, no parágrafo que lhe dizia respeito, eu estava felicíssima... mas tremia toda vendo-me obrigada a pronunciar seu nome em voz alta, e decerto o teria omitido se não temesse que interpretassem mal o meu silêncio; então, reuni toda a minha coragem, e li.

— Querida Valentine!

— Pois bem! Assim que seu nome ressoou, meu pai voltou a cabeça. Eu estava tão persuadida, veja como sou louca!, de que todo mundo ia ser golpeado por esse nome como se ele fosse um raio, que acreditei ver meu pai estremecer, bem como, quanto a este, era uma ilusão, tenho certeza, bem como o sr. Danglars.

“— Morrel — disse o meu pai —, espere um instante! — E ele franziu o cenho. — Seria um desses Morrel de Marselha, um desses radicais bonapartistas que nos criaram tanta dificuldade em 1815?

“— Sim — respondeu o sr. Danglars —, creio inclusive que é o filho do velho armador.”

— Não acredito! — exclamou Maximilien. — E qual foi a resposta do seu pai, diga, Valentine?

— Oh, uma coisa horrível que não me atrevo a repetir!

— Por favor — pediu Maximilien, sorrindo.

— O imperador deles — disse meu pai franzindo o cenho outra vez —

sabia pôr aqueles fanáticos em seu lugar. Ele os chamava de “carne para canhão”, e era o único nome que mereciam. Vejo com alegria que o novo governo vem revigorando esse princípio salutar. Ainda que não seja em seu nome que ele preserva a Argélia, eu o felicitaria por isso, embora ela nos custe tão caro.

— É de fato uma política muito brutal — disse Maximilien. — Mas não ruborize, querida amiga, pelo que disse o sr. de Villefort; meu corajoso pai não ficava em nada atrás do seu nesse ponto, e repetia sem parar: “Por que será que o imperador, que cria tantas coisas belas, não cria um regimento de juízes e advogados e os despacha todos para a linha de fogo?” Como vê,

querida, os partidos equivalem-se quanto ao pitoresco da expressão e à delicadeza do pensamento. Mas e o sr. Danglars, qual foi seu comentário depois dessa tirada do procurador do rei?

— Oh, ele se pôs a rir, com aquela risada furtiva que lhe é peculiar e que soa feroz para mim. No instante seguinte, os dois se levantaram e foram embora. Só então percebi que o meu avô estava todo agitado. Preciso lhe dizer, Maximilien, que apenas eu pressinto as agitações desse infeliz paralítico, e aliás já desconfiava que a conversa que se dera à sua frente, pois não davam mais a mínima para o coitado do meu avô!), o impressionara bastante, considerando que haviam falado mal do seu imperador, e, ao que parece, ele era fanático por Napoleão.

— Trata-se, com efeito — disse Maximilien —, de um dos nomes mais conhecidos do Império: foi senador, e, como você sabe ou não sabe, Valentine, participou de praticamente todas as conspirações bonapartistas tramadas sob a Restauração.

— Sim, já ouvi algumas vezes sussurrarem essas coisas, que me parecem estranhas: o avô bonapartista, o pai monarquista; enfim, que se há de fazer...? Voltei-me então para ele, que me apontou o jornal com os olhos.

“— Que há com o senhor, vovô? — perguntei-lhe. — Está contente?

“Ele fez sinal de que sim com a cabeça.

“Com o que o meu pai acaba de dizer? “Fez sinal de que não.

“— Com o que disse o sr. Danglars? “Fez mais uma vez sinal de que não.

“— É então por causa da nomeação do sr. Morrel — eu não ousava dizer Maximilien — como oficial da Legião de Honra? “Fez sinal de que sim.

“— Acredita nisso, Maximilien? Ele estava contente por você ter sido nomeado oficial da Legião de Honra, você que meu avô nem conhece.

Talvez fosse loucura da parte dele, pois dizem que está voltando à infância; mas adorei aquele sim.”

— É curioso — pensou Maximilien. — Seu pai então me odiaria, em contrapartida seu avô... Que coisa estranha essa história de amores e ódios partidários!

— Schh! — fez Valentine subitamente. — Esconda-se, fuja; vem vindo alguém!

Maximilien precipitou-se para o ancinho e começou a capinar impiedosamente a alfafa.

— Senhorita! Senhorita! — gritou uma voz atrás das árvores. — A sra.

de Villefort está à sua procura e a chama; há uma visita no salão.