O Conde de Monte Cristo
5. A casa de Auteuil
— A Auteuil?
— Qual o problema? Que há de tão espantoso no fato de ir a Auteuil?, eu lhe pergunto. Quando eu me instalar em Auteuil, o senhor terá de ir, uma vez que faz parte da criadagem.
Bertuccio abaixou a cabeça diante do olhar imperioso do patrão e permaneceu paralisado, sem resposta.
— E essa agora! Que há com o senhor? Serei obrigado a tocar novamente a campainha para ter o meu coche? — disse Monte Cristo, num tom que Luís XIV imprimiu ao pronunciar o famoso: “Eu quase tive que esperar!”
Bertuccio foi num pulo do salão menor para o vestíbulo e gritou com uma voz rouca:
— Os cavalos de Sua Excelência!
Monte Cristo escreveu duas ou três cartas. Quando lacrava a última, o intendente apareceu:
— O coche de Sua Excelência está na porta — anunciou ele.
— Ótimo, pegue suas luvas e seu chapéu! — ordenou Monte Cristo.
— Devo acompanhar o sr. conde? — exclamou Bertuccio.
— Sem dúvida, é imprescindível que o senhor dê as suas ordens, uma vez que pretendo morar naquela casa.
Não havia exemplo de alguém um dia haver replicado uma injunção do conde; assim, o intendente, sem fazer qualquer objeção, foi atrás de seu patrão, que entrou no coche e lhe fez sinal para segui-lo. O intendente sentou-se respeitosamente no banco dianteiro.
5. A casa de Auteuil
Monte Cristo observara que, ao descer a escada, Bertuccio se persignara à maneira dos corsos, isto é, cortando o ar em cruz com o polegar, e que, ao ocupar seu lugar no coche, resmungara baixinho uma breve oração.
Qualquer um que não fosse curioso teria tido pena da singular repugnância manifestada pelo digno intendente quanto ao passeio extramuros planejado pelo conde; porém, ao que parece, este se mostrava curioso demais para dispensar Bertuccio da pequena viagem.
Em vinte minutos chegaram a Auteuil. A emoção do intendente só fazia crescer. Ao entrar no vilarejo, Bertuccio, encolhido no canto do coche, pôs-se a examinar com uma emoção febril cada uma das casas pelas quais passavam.
— Mande parar na rua de la Fontaine, no no28 — disse o conde, fitando impiedosamente o intendente ao qual dava essa ordem.
O suor escorreu do rosto de Bertuccio; entretanto ele obedeceu e, debruçando-se para fora do coche, gritou ao cocheiro:
— Rua de la Fontaine no28.
O no28 situava-se no fim do vilarejo. Durante a viagem, anoiteceu, ou melhor, uma nuvem negra carregada de eletricidade conferiu àquelas trevas prematuras o aspecto e a solenidade de um episódio dramático.
O coche parou e o lacaio precipitou-se para a portinhola, que abriu.
— Muito bem! — disse o conde. — Não vai descer, sr. Bertuccio? Vai ficar no carro? Mas que diabos anda ruminando esta noite? Bertuccio correu para a portinhola e apresentou seu ombro ao conde, que, dessa vez, apoiou-se nele e desceu um a um os três degraus do estribo.
— Bata — disse — e anuncie-me.
Bertuccio bateu, a porta se abriu e o caseiro apareceu.
— Quem é? — perguntou ele.
— É o seu novo patrão, bom homem — disse o intendente.
E estendeu ao caseiro o bilhete de identificação dado pelo tabelião.
— A casa foi então vendida? — perguntou o caseiro. — E é o senhor que vem morar aqui?
— Sim, meu amigo — disse o conde —, e espero que não sinta saudade do seu ex-patrão.
— Oh, senhor — disse o caseiro —, não vou sentir muita saudade, pois nos vemos muito raramente; há mais de cinco anos que não aparece, e ele fez bem, se fez!, em vender uma casa que não lhe servia de nada.
— E como se chamava seu ex-patrão? — perguntou Monte Cristo.
— Sr. marquês de Saint-Méran; ah, tenho certeza de que ele não vendeu a casa pelo que ela lhe custou.
— O marquês de Saint-Méran! — exclamou Monte Cristo. — Mas esse nome não me é estranho — disse o conde. — Marquês de Saint-Méran...
E pareceu vasculhar a memória.
— Velho fidalgo — continuou o caseiro —, um fiel servidor dos Bourbon; tinha uma filha única, a qual ele casou com o sr. de Villefort, que foi procurador do rei em Nîmes e depois em Versalhes. Monte Cristo lançou um olhar que encontrou Bertuccio mais lívido que a parede na qual se apoiava para não cair.
— E essa moça não morreu? — perguntou Monte Cristo. — Acho que ouvi alguma coisa sobre isso.
— Sim, senhor, há vinte e um anos, e desde então estivemos apenas três vezes com o infeliz marquês.
— Obrigado, obrigado — disse Monte Cristo, avaliando a prostração do intendente, que não podia mais esticar aquela corda sem arrebentá-la. —
Dême luz, homem.
— Devo acompanhá-lo, senhor?
— Não é necessário, Bertuccio iluminará meu caminho.
E Monte Cristo acrescentou a essas palavras duas moedas de ouro, que provocaram uma explosão de bênçãos e suspiros.
— Ah, cavalheiro! — disse o caseiro, após ter procurado inutilmente no aparador da lareira e nas prateleiras circunvizinhas. — É que não tenho velas aqui.
— Pegue uma das lanternas do coche, Bertuccio, e mostre-me os aposentos — disse o conde.
O intendente obedeceu sem replicar, mas era fácil ver, pelo tremor da mão que segurava a lanterna, o quanto lhe custava obedecer.
A casa de Auteuil.
Percorreram um rés-do-chão bastante amplo, um primeiro andar composto de uma sala de visitas, um banheiro e dois quartos de dormir.
Por um dos quartos, chegava-se a uma escada em espiral que dava num jardim.
— Veja, uma escada de serviço — disse o conde —, isso é muito cômodo. Ilumine, sr. Bertuccio; passe na frente e vamos ver aonde essa escada nos leva.
— Senhor — disse Bertuccio —, ela dá no jardim.
— E como sabe disso, pode fazer o favor de me dizer?
— Isto é, suponho que dê.
— Muito bem, vamos nos certificar.
Bertuccio deu um suspiro e seguiu na frente. A escada terminava efetivamente no jardim.
Na porta do lado de fora, o intendente se deteve.
— Adiante, sr. Bertuccio! — exclamou o conde.
Mas o homem quem ele se dirigia estava atônito, estúpido, aniquilado.
Seus olhos esbugalhados procuravam em torno de si como os vestígios de um passado terrível, e seus punhos crispados pareciam tentar rechaçar lembranças assustadoras.
— E então? — insistiu o conde.
— Não, não! — exclamou Bertuccio, apoiando a mão no canto da parede interna. — Não, senhor, não irei adiante, é impossível!
— O que está dizendo? — articulou a voz irresistível de Monte Cristo.
— Há de admitir, sr. conde — exclamou o intendente —, que isso não é normal; que, precisando comprar uma casa em Paris, compre-a justamente em Auteuil e que, comprando-a em Auteuil, sua casa seja o no28 da rua de la Fontaine! Ah, por que não lhe contei tudo antes, meu senhor! Com certeza não teria exigido que eu viesse. Não esperava que a casa do sr.
conde fosse justamente esta. Como se não houvesse em Auteuil outra casa senão a casa do assassinato!
— Oh, oh! — fez Monte Cristo, detendo-se subitamente. — Que palavra feia acaba de pronunciar! Homem endemoniado! Corso empedernido!
Sempre cheio de mistérios ou superstições! Vamos, pegue essa lanterna e visitemos o jardim; comigo, não precisa ter medo, espero!
Bertuccio segurou firme a lanterna e obedeceu.
A porta, ao se abrir, revelou um céu baço no qual a lua se esforçava em vão para lutar contra um mar de nuvens, que a cobriam com suas ondas escuras, por ela iluminadas um instante e que em seguida se perderam, mais escuras ainda, nas profundezas do infinito.
O intendente quis tomar a esquerda.
— De jeito nenhum, senhor — disse o Monte Cristo —, para que ir pelas aléias? Temos aqui um belo gramado, vamos em frente.
Bertuccio enxugou o suor que escorria de sua testa, mas obedeceu; entretanto, continuava a desviar para a esquerda.
Monte Cristo, ao contrário, privilegiava a direita. Ao chegar a um arvoredo, parou.
O intendente não se agüentou:
— Afaste-se, senhor! — exclamou. — Afaste-se, eu suplico, o senhor está exatamente no lugar!
— Que lugar?
— O mesmo lugar onde ele caiu.
— Meu caro sr. Bertuccio — disse Monte Cristo rindo —, componhase, eu lhe ordeno; não estamos em Sartene ou em Corte. Isto aqui não é um terreno baldio, mas um jardim inglês, mal conservado, concordo, mas não convém caluniá-lo por isso.
— Senhor, saia daí! Saia daí, eu suplico!
— Senhor, saia daí, eu suplico!
— Creio que está enlouquecendo, seu Bertuccio — disse friamente o conde. — Se assim for, avise-me, pois mandarei interná-lo em alguma casa de saúde antes que aconteça uma tragédia.
— Ai de mim, Excelência! — disse Bertuccio, balançando a cabeça e juntando as mãos numa atitude que teria feito o conde rir, se pensamentos de um interesse superior não o tivessem arrebatado nesse momento, desviando sua atenção para as menores expansões daquela consciência temerosa. — Ai de mim, Excelência, a tragédia aconteceu!
— Sr. Bertuccio — disse o conde —, sinto-me muito à vontade para lhe dizer que, gesticulando dessa forma, vai torcer os braços e que está
revolvendo os olhos como um possuído de cujo corpo o diabo não quer sair; ora, já observei que o diabo mais tinhoso em permanecer em seu posto é quase sempre um segredo. Eu o sabia corso, eu o sabia sombrio e sempre ruminando alguma velha história de vendetta, e fechava os olhos para isso na Itália, porque na Itália esse tipo de coisa faz parte da tradição, mas na França quase todos consideram o assassinato uma coisa de muito mau gosto: há policiais designados para prender quem o comete, juízes que o condenam e cadafalsos que o vingam.
Bertuccio juntou as mãos, e como, ao executar essas diferentes evoluções, não abandonava sua lanterna, a luz iluminava seu rosto transtornado.
Monte Cristo examinou-o com o mesmo olhar que em Roma examinara o suplício de Andrea; então, num tom de voz que fez novo arrepio percorrer o corpo do desventurado intendente, disse:
— O abade Busoni então mentiu para mim quando, depois de sua viagem à França, em 1829, encaminhou-o a mim, munido de uma carta de recomendação na qual me enaltecia suas preciosas qualidades. Muito bem!
Vou escrever para o abade; irei responsabilizá-lo pelo seu protegido e com certeza saberei tudo sobre essa história de assassinato. Porém, aviso-lhe, sr. Bertuccio, que, quando eu moro num determinado país, tenho o hábito de me conformar às suas leis, e não sinto vontade nenhuma de me enredar com a justiça da França por sua causa.
— Oh, não faça isso, Excelência! Não o servi fielmente? — suplicou Bertuccio, desesperado. — Sempre fui honesto e inclusive, sempre que pude, pratiquei boas ações.
— Não digo que não — replicou o conde —, mas por que diabos está agitado dessa maneira? Isso é mau sinal: uma consciência limpa não provoca essa palidez nas faces, esse tremor nas mãos de um homem...
— Mas, sr. conde — respondeu Bertuccio, hesitando —, o senhor mesmo não me disse que o sr. abade Busoni, que ouviu minha confissão nas prisões de Nîmes, lhe avisara, ao me encaminhar à sua casa, que eu tinha uma grave acusação pesando sobre mim?
— Sim, mas como ele o encaminhava a mim dizendo que o senhor daria um excelente intendente, julguei que tinha roubado, só isso!
— Oh, sr. conde! — fez Bertuccio, com menosprezo.
— Ou, como o senhor era corso, que não havia conseguido resistir ao desejo de fazer uma pele, como lá se diz, por antífrase, quando, ao
contrário, o correto seria dizer desfazer uma.
— Está bem! Sim, meu senhor, sim, meu bondoso senhor, foi isso! —
gritou Bertuccio, atirando-se aos joelhos do conde. — Sim, foi uma vingança, juro, uma simples vingança.
— Compreendo; o que não compreendo é por que justamente esta casa o exalta a esse ponto.
— Mas, meu senhor, não seria isso natural — replicou Bertuccio —, uma vez que foi nesta casa que a vingança se consumou?
— O quê! Na minha casa!
— Oh, meu senhor, ela ainda não lhe pertencia —, respondeu Bertuccio, ingenuamente.
— Mas então a quem pertencia? Ao sr. marquês de Saint-Méran, nos disse, creio, o caseiro. Que diabos então o senhor tinha para se vingar do marquês de Saint-Méran?
— Oh, não era dele, meu senhor, era de um outro.
— Estranha coincidência — disse Monte Cristo, parecendo ceder às suas reflexões —, o senhor ver-se, completamente por acaso, sem nenhuma preparação, na casa onde aconteceu uma cena que lhe dá remorsos tão horríveis.
— Meu senhor — disse o intendente —, é a fatalidade a causa de tudo isso: primeiro, o senhor compra uma casa precisamente em Auteuil, essa casa é a casa onde cometi um assassinato; o senhor desce ao jardim precisamente pela escada por onde ele desceu; o sr. se detém exatamente no lugar onde ele recebeu o golpe; a dois passos, sob esse plátano, ficava o fosso onde ele acabava de enterrar o filho; ora, isso tudo não pode ser obra do acaso, não, pois, se assim fosse, o acaso se assemelharia muito à Providência.
— Pois bem, vejamos, sr. corso, suponhamos que seja a Providência; da minha parte, sempre suponho tudo que se queira; aliás, convém fazer concessões aos espíritos dos doentes. Vamos, recomponha-se e me conte essa história.
— Só a contei uma vez, e foi para o abade Busoni. Tais coisas —
acrescentou Bertuccio, balançando a cabeça — só podem ser ditas sob o sigilo da confissão.
— Nesse caso, meu caro Bertuccio — disse o conde —, preferirá que eu o devolva ao seu confessor; o senhor, como ele, dará um belo abade, cartuxo ou bernardino, e aí poderão conversar sobre seus segredos. Quanto a mim, porém, sinto um pouco de medo de uma companhia apavorada com fantasmas; não me agrada um empregado meu que se nega a atravessar o meu jardim à noite. Além do mais, admito, não me desperta a curiosidade saber como seria a visita de um comissário de polícia; pois fique ciente do seguinte, seu Bertuccio: na Itália, só se compra a justiça quando ela se cala, mas na França, ao contrário, apenas quando ela fala. Maldição! Eu o julgava um tantinho corso, um contrabandista mediano, um ótimo intendente, mas vejo que ainda é mais versátil. O senhor não me pertence mais, sr. Bertuccio.
— Oh, patrão, patrão! — desesperou-se o intendente, aterrado a essa ameaça. — Oh, se a garantia do meu emprego depende disso, falarei, direi tudo; e se eu o deixar, pois bem!, então será para marchar até o cadafalso.
— Nesse caso, a coisa muda de figura — disse Monte Cristo —, mas, se quiser mentir, reflita: é preferível que não fale nada.
— Não, senhor, juro pela salvação da minha alma, contarei tudo! Pois o próprio abade soube apenas uma parte do meu segredo. Mas, antes de qualquer coisa, suplico-lhe, afaste-se desse plátano; veja, o luar vai iluminar aquela nuvem, e aí, posicionado como está, embrulhado nesse casaco que me esconde sua silhueta, que se parece ao do sr. de Villefort..
— Como! — exclamou Monte Cristo. — Foi o sr. de Villefort...
— Vossa Excelência o conhece?
— O ex-procurador do rei em Nîmes?
— Sim.
— Que havia se casado com a filha do marquês de Saint-Méran?
— Sim.