O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 63 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

4. Como livrar um jardineiro dos arganazes que comem seus pêssegos

— Sim, vá lá, na estrada de Bayonne.

— É o de Châtillon.

— E o seguinte a Châtillon?

— É o da torre de Montlhéry, creio.

— Obrigado, até logo! Sábado, contarei-lhes minhas impressões.

Na porta, o conde encontrou os dois notários que acabavam de deserdar Valentine e se retiravam, encantados por terem patrocinado um ato que não podia deixar de lhes conferir grande honra.

1 Montanha: ver Parte I, cap.11, nota 58.

2 “Duchâtel ou Montalivet”: Charles-Marie Tanneguy (1803-67), conde de Duchâtel, sucessor de Marthe-Camille Bachasson (1801-80), conde de Montalivet, no Ministério do Interior.

3 Τηλε γραφειν: transliterando, tele graphein, isto é, “escrita de longe”.

4. Como livrar um jardineiro dos arganazes que comem seus

pêssegos1

Não na mesma noite, como dissera, mas na manhã seguinte, o

conde de Monte Cristo saiu pela barreira do Inferno2, tomou a estrada de Orléans, passou pela aldeia de Linas, sem parar no telégrafo que, justamente no momento de sua passagem, movia seus longos braços descarnados, e alcançou a torre de Montlhéry, situada, como todos sabem, no local mais elevado da planície desse nome.

Ao pé da colina, o conde apeou e, por um pequeno atalho circular, com quarenta e cinco centímetros de largura, começou a subir a montanha; chegando ao topo, viu-se detido por uma sebe na qual frutas verdes haviam sucedido às flores róseas e brancas.

Monte Cristo procurou o portão do cercadinho e não demorou a encontrá-lo. Era uma treliça de madeira, com as dobradiças de vime rangendo e fechando com um prego e um barbante. Num instante ele dominou o mecanismo e o portão se abriu.

O conde viu-se então num pequeno jardim de seis metros de comprimento por três e meio, limitado de um lado pela parte da cerca na qual encaixava-se a engenhosa engrenagem que descrevemos sob o nome de portão, e do outro pela velha torre que a hera recobria, entremeada por goivos e cravos-da-índia.

Não diríamos, ao vê-la assim enrugada e florida como uma avó a quem seus netos vêm desejar Feliz Natal, que ela pudesse contar muitos dramas terríveis se juntasse uma voz aos ouvidos ameaçadores que um velho provérbio atribui às muralhas.

Esse jardim era atravessado por uma aléia arenosa de cascalho vermelho, sobre a qual se curvava, com tons que teriam rejubilado

os olhos de Delacroix, nosso Rubens3 moderno, as franjas de um grande buxeiro, velho de muitos anos. Essa aléia tinha a forma de um 8, e girava prolongando-se, de maneira a perfazer num jardim de seis metros um passeio de dezoito. Nunca Flora, a sorridente e viçosa deusa dos bons jardineiros latinos, fora homenageada com um ritual tão minucioso e puro quanto o que lhe dedicavam no cercadinho.

Com efeito, das vinte roseiras que compunham o canteiro, nenhuma folha exibia vestígios de parasita, nenhum filamento, o pequeno cacho de pulgões verdes que devastam e roem as plantas cultivadas em terreno úmido. Entretanto, não era umidade que faltava a esse jardim; a terra

negra como breu e a folhagem opaca das árvores atestam-no suficientemente. Aliás, a umidade artificial teria prontamente substituído a umidade natural, graças a uma bacia cheia de água enfiada num canto do jardim, na qual estacionavam, sobre um tapete verde, uma rã e um sapo, que, por incompatibilidade de gênios provavelmente, mantinhamse sempre, dando-se as costas, em dois pontos opostos do círculo.

Nenhum capim, aliás, brotava nas aléias, nenhuma folha parasita nas platibandas. Uma jovem dama limparia e podaria com menos zelo os gerânios, cactos e azaléias de sua jardineira de porcelana do que o fazia o dono até então invisível do cercadinho.

Após ter fechado o portão, prendendo o barbante no prego, Monte Cristo deteve-se e abraçou a propriedade com o olhar.

— Ou o homem do telégrafo tem jardineiros o ano inteiro — disse ele

— ou é apaixonado pela agricultura.

De repente esbarrou em alguma coisa, agachada atrás de um ancinho cheio de folhagem. Essa alguma coisa ergueu-se, deixando escapar uma exclamação que descrevia seu espanto, e Monte Cristo viu-se diante de um labrego de uns cinqüenta anos colhendo morangos, os quais colocava sobre folhas de parreira.

Havia doze folhas de parreira e quase outros tantos morangos.

O labrego, ao se levantar, quase deixou cair os morangos, as folhas e o prato.

— Está fazendo sua colheita, senhor? — perguntou Monte Cristo sorrindo.

— Perdão, cavalheiro — respondeu o labrego, levando a mão ao gorro

—, não estou lá em cima, é verdade, mas desci agorinha mesmo.

— Não vou importuná-lo em nada, meu amigo — disse o conde. —

Colha seus morangos, se é que ainda lhe sobrou algum.

— Ainda tenho dez — disse o homem —, pois aqui estão onze deles e eu tinha vinte e um, cinco a mais que o ano passado. Mas isso não surpreende, a primavera foi quente este ano, e o que os morangos precisam, veja bem, cavalheiro, é de calor. Eis por quê, em vez dos dezesseis que tive o ano passado, este ano, tenho este ano, veja bem, onze já colhidos, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito. Ai, meu Deus, faltam dois, estavam aqui ainda ontem, cavalheiro, estavam aqui, tenho certeza, eu os contei. Só pode ter sido o filho da dona Simon que os afanou de mim; eu o vi rondando por aqui esta manhã. Ah, o

patifezinho, roubar dentro de um cercado! Então ele não sabe aonde isso pode levá-lo?

— Com efeito — concordou Monte Cristo —, é grave, mas há de considerar o quinhão de juventude do delinqüente e de sua gula.

— Claro — disse o jardineiro —, mesmo assim não deixa de ser muito desagradável. Mas, outra vez perdão, cavalheiro; estaria eu fazendo um chefe esperar?

E interrogava com um olhar receoso o conde e seu sobretudo azul.

— Acalme-se, amigo — respondeu ele, com o sorriso que fazia, ao seu bel-prazer, tão terrível ou tão benevolente, e que dessa vez exprimia somente a benevolência —, não sou um chefe em inspeção, mas um simples viajante movido pela curiosidade e que começa inclusive a se autocensurar pela visita, pois percebe que faz o senhor perder o seu tempo.

— Oh, o meu tempo não é caro — replicou o labrego com um sorriso melancólico. — Ainda assim é tempo do governo e eu não deveria desperdiçá-lo, mas recebi um sinal me comunicando que podia descansar por uma hora — dirigiu os olhos para um quadrante solar, pois havia de tudo naquele cercado da torre de Monthléry, inclusive um quadrante solar — e, como vê, ainda tinha dez minutos à minha frente; além do mais, os morangos estão maduros, e um dia a mais... A propósito, acredita, cavalheiro, que os arganazes comem tudo?

— Não, que coisa impressionante! — respondeu gravemente Monte Cristo. — Arganazes são uma vizinhança intolerável, senhor, para nós que não os comemos com mel cristalizado, como faziam os romanos.

— Ah, os romanos os comiam? — indagou o jardineiro. — Comiam arganazes?

— Li isso em Petrônio4 — disse o conde.

 

— Acalme-se, amigo.

— Verdade? Não deve ser bom, apesar de dizerem: “Gordo como um arganaz”. E não espanta, senhor, que os arganazes sejam gordos, visto que dormem o dia inteirinho, só acordando à noite, para roerem. Veja, o ano passado eu tinha quatro abricós; eles me roubaram um. Tinha um pêssego, um só, verdade que é uma fruta rara; pois bem, cavalheiro, devoraram metade dele do lado da muralha; um pêssego soberbo, excelente. Nunca comi um melhor.

— O senhor o comeu? — perguntou Monte Cristo.

— Quer dizer, a metade que sobrou, o senhor entende. Estava uma delícia, senhor. Ah, caramba, esses senhores não escolhem os piores pedaços. É como o filho da dona Simon, não escolheu os piores morangos, ora bolas! Mas esse ano — continuou o horticultor —, fique tranqüilo, isso não vai acontecer, ainda que eu tenha, quando as frutas estiverem prestes a amadurecer, de passar a noite vigiando-as.

Monte Cristo vira o suficiente. Todo homem tem sua paixão, que o devora no fundo da alma, como cada fruto, seu verme; a do homem do telégrafo era a fruticultura. Ele começou a recolher as folhas de parreira

que escondiam os cachos do sol, satisfazendo com isso o coração do jardineiro.

— O senhor veio visitar o telégrafo? — ele perguntou.

— Sim, senhor, mas claro, se não for proibido pelos regulamentos.

— Oh, não é proibido, de jeito nenhum — disse o jardineiro —, na medida em que não há nada de perigoso, visto que ninguém sabe ou pode saber o que falamos.

— Foi justamente o que me disseram — replicou o conde —, que o senhor repetia sinais incompreensíveis até mesmo para si próprio.

— Com certeza, senhor, e prefiro assim — disse rindo o homem do telégrafo.

— Por que prefere assim?

— Porque dessa forma não tenho responsabilidade. Sou uma máquina, mais nada; contanto que funcione, não podem exigir outra coisa de mim.

“Diabos”, disse Monte Cristo consigo mesmo, “será que porventura topei com um homem sem ambições? Por Deus, seria muito azar!”

— Cavalheiro — principiou o jardineiro, consultando seu quadrante solar —, os dez minutos vão expirar, volto ao meu posto. Gostaria de subir comigo?

— Pois não.

E Monte Cristo entrou efetivamente na torre, dividida em três andares; o de baixo continha algumas ferramentas de jardinagem, como pás, ancinhos e regadores, encostados na muralha: era todo o mobiliário.

O segundo era a habitação cotidiana, ou melhor, noturna, do funcionário.

Continha alguns míseros utensílios de cozinha, uma cama, uma mesa, duas cadeiras, uma moringa de pedra, mais alguns legumes secos pendurados no teto e que o conde identificou como ervilhas-de-cheiro e feijões-da-Espanha, cujas sementes o labrego conservava na casca. Ele etiquetara tudo aquilo com o desvelo de um professor de botânica do Jardim Botânico.

— É preciso estudar muito para se operar um telégrafo, meu caro? —

perguntou Monte Cristo.

— Não é o estudo que demora muito, é o pagamento.

— E quanto recebe de salário?

— Mil francos, senhor.

— Não é alto.

— Não, mas temos direito ao alojamento, como pode ver. Monte Cristo examinou o recinto e murmurou.

— Tomara que ele não se apegue ao alojamento.

Passaram ao terceiro andar; era o dormitório do telégrafo. Monte Cristo observou sucessivamente os dois controles de ferro com a ajuda dos quais o funcionário fazia a máquina operar.

— Muito interessante — ele disse —, mas com o passar do tempo não é uma vida que lhe parece insípida?

— É, no começo dá torcicolo de tanto olhar, mas no fim de um ou dois anos a gente acostuma; além do mais, temos horas de recreação e feriados.

— Feriados?

— Sim.

— Quais?

— Os dias nublados.

— Ah, compreendo.

— São meus dias de festa; nesses dias desço até o jardim e planto, corto, podo, mato as lagartas; resumindo, o tempo passa.

— Há quanto tempo está aqui?

— Há dez anos, mais cinco recebendo a verba incorporada, quinze.

— Está com...?

— Cinqüenta e cinco anos.

— Quanto tempo de serviço precisa para se aposentar?

— Oh, senhor, vinte e cinco anos!

— E de quanto é essa aposentadoria?

— De cem escudos.

— Pobre humanidade! — murmurou Monte Cristo.

— O que disse, senhor? — perguntou o funcionário.

— Disse que é muito interessante.

— O quê?

— Tudo que está me mostrando... E não compreende nada dos seus sinais?

— Absolutamente nada.

— Nunca tentou compreender?

— Nunca, para quê?

— Ora, há sinais que se destinam diretamente ao senhor.

— Sem dúvida.

— E compreende estes?

— São sempre os mesmos.

— E o que dizem?

— Nada de novo... o senhor tem uma hora... ou até amanhã... — O que é perfeitamente inocente — disse o conde. — Mas, veja, não é seu interlocutor entrando em ação?

— Ah, é verdade; obrigado, senhor.

— E qual é a mensagem dele? Consegue entender alguma coisa?

— Sim, ele me pergunta se estou a postos.

— E vai lhe responder...?

— Com um sinal que indique ao mesmo tempo ao meu interlocutor da direita que estou a postos e ao meu interlocutor da esquerda que se prepare por sua vez.

— Muito engenhoso — disse o conde.

— Vai ver — respondeu com orgulho o labrego —, ele vai falar dentro de cinco minutos.

— Então tenho cinco minutos — disse Monte Cristo —, é mais tempo do que preciso. Prezado senhor, permita-me fazer-lhe uma pergunta.

— Faça.

— Gosta de jardinagem?

— Adoro.

— E ficaria feliz, em vez de ter um terraço de seis metros, em ter uma gleba de duas jeiras?

— Cavalheiro, eu a transformaria no paraíso terrestre.

— Vive mal com seus mil francos?

— Muito mal; mas, enfim, vou vivendo.

— Porém possui apenas um jardinzinho.

— Ai, é verdade, o jardim não é grande.

— Ainda por cima, do jeito que vai, está populado por arganazes que devoram tudo.

— É o meu flagelo.

— Diga-me, e se tiver a infelicidade de desviar a cabeça quando o interlocutor da direita for operar?

— Eu não o veria.

— E o que aconteceria?

— Eu não poderia repetir seus sinais.

— E daí?

— E daí que, deixando de repeti-los por negligência, eu teria que pagar uma multa.

— De quanto?

— De cem francos.

— Um décimo do salário; essa é boa!

— Ah! — suspirou o funcionário.

— Isso já lhe aconteceu? — perguntou Monte Cristo.

— Uma vez, cavalheiro, quando eu estava enxertando uma rosa-chá.

— Muito bem. Agora, e caso se distraísse e mudasse alguma coisa no sinal ou transmitisse um outro?

— Aí é diferente, eu seria despedido e perderia minha aposentadoria.

— Trezentos francos?

— Cem escudos, senhor; portanto, vê que eu nunca faria nada disso.

— Nem mesmo por quinze anos do seu salário? Vamos, não acha que isso merece reflexão?

— Por quinze mil francos?

— Nem mais nem menos.

— O cavalheiro me assusta.

— Até parece!

— Quer me seduzir?

— Exatamente! Quinze mil francos, compreende?

— Cavalheiro, deixe-me ver o meu interlocutor da direita!

— Ao contrário, não olhe, olhe para isto.

— Do que se trata?

— Como? Não conhece esses papeizinhos?

— Cheques ao portador!

— Perfeito, são quinze.

— E a quem pertencem?

— Ao senhor, se quiser.

— A mim! — exclamou o funcionário, sufocado.

— Oh, meu Deus, sim! Ao senhor, de pleno direito.

— Cavalheiro, veja, meu interlocutor da direita está operando.

— Deixe-o operar.

— O senhor me distraiu, serei multado.

— Isso lhe custará cem francos; como vê, tem todo o interesse em aceitar meus quinze cheques.

— Cavalheiro, o interlocutor da direita está impaciente, está repetindo os sinais.

— Esqueça-o e pegue.

O conde colocou o maço na mão do funcionário.

— Mas — disse ele —, isso não é tudo: com esses quinze mil francos o senhor não consegue sobreviver.

— Continuo no emprego.

— Não, irá perdê-lo; pois enviará um sinal diferente daquele de seu interlocutor.

— Oh, cavalheiro, o que está sugerindo?

— Uma brincadeira.

— Cavalheiro, a menos que eu seja obrigado...

— Pretendo efetivamente obrigá-lo...

E Monte Cristo sacou do bolso outro maço.

— Aqui estão outros dez mil francos — ele disse. — Com os quinze mil que estão no seu bolso, temos vinte e cinco mil. Com cinco mil francos, o senhor comprará uma bonita casinha e duas jeiras de terra: com os outros vinte mil, terá mil francos de renda.

— Uma gleba de duas jeiras?

— E mil francos de renda.

— Meu Deus! Meu Deus!

— Mas então pegue!

E Monte Cristo colocou à força os dez mil francos na mão do funcionário.

— Que devo fazer?

— Nada de muito difícil.

— O que, afinal?

— Repetir estes sinais aqui.

Monte Cristo tirou do bolso um papel no qual havia três sinais tracejados e números indicando a ordem em que deviam ser registrados.

— Não vai demorar, como pode ver.

— Sim, mas...

— É com esse método que o senhor terá pêssegos, e mais.

O método funcionou; vermelho de febre e suando em bicas, o labrego executou sucessivamente os três sinais fornecidos pelo conde, apesar dos enérgicos movimentos do interlocutor da direita, que, sem entender nada daquela mudança, começava a crer que o homem dos pêssegos enlouquecera.

Quanto ao interlocutor da esquerda, repetiu conscienciosamente os mesmos sinais, que foram recolhidos em definitivo pelo Ministério do Interior.

— Está rico agora — disse Monte Cristo.

— Sim — respondeu o funcionário —, mas a que preço!

— Escute, meu amigo — disse Monte Cristo —, não quero que fique com remorsos; portanto, acredite em mim, pois, juro, não causou mal algum a ninguém e serviu aos desígnios de Deus.

O funcionário olhava para os cheques, apalpava-os, contava-os. Estava pálido, ficou vermelho; finalmente, precipitou-se para o quarto a fim de beber um copo d’água, mas não teve tempo de alcançar a jarra, desmaiando em meio a seus feijões secos.

Cinco minutos depois que a notícia telegráfica chegara ao Ministério, Debray mandou atrelar os cavalos em seu cupê e correu à casa de Danglars.

— Seu marido possui títulos do empréstimo espanhol? — perguntou à baronesa.

— Acho que sim! Cerca de seis milhões.

— Mande-o vender ao preço que for.

— Por que isto?

— Porque Don Carlos fugiu de Bourges e entrou na Espanha5.

— Como sabe disso?

— Ora — disse Debray, sacudindo os ombros —, como sei das notícias.

A baronesa não esperou que ele repetisse: correu aos aposentos do marido, que por sua vez correu até o seu corretor, ordenando-lhe que vendesse a qualquer preço.

Quando viram que o sr. Danglars estava vendendo, os fundos espanhóis caíram imediatamente. Com isso, Danglars perdeu quinhentos mil francos, mas livrou-se de todos os títulos.

 

A Bolsa de Valores.

À noite, lia-se no Messager:

Despacho telegráfico O rei don Carlos escapou da vigilância de que era objeto em Bourges e voltou para a Espanha, pela fronteira da Catalunha.

Barcelona sublevou-se em seu favor.

Durante toda a noite espalhou-se o boato da clarividência de Danglars, que vendera seus títulos, e da felicidade do agiota, que perdia apenas quinhentos mil francos com esse golpe.

Os que haviam conservado seus títulos ou comprado os de Danglars trocaram olhares, sentindo-se arruinados, e passaram uma péssima noite.

No dia seguinte, lia-se no Moniteur:

Foi sem nenhum fundamento que o Messager noticiou ontem a fuga de don Carlos e a revolta de Barcelona.

O rei don Carlos não deixou Bourges e a península goza da mais profunda tranqüilidade.

Um sinal telegráfico, mal interpretado devido à neblina, provocou esse equívoco.

Os fundos subiram ao dobro da cifra da qual haviam caído.

Isso significou, em perdas e no que deixou de ganhar, um milhão de diferença para Danglars.

— Bom! — disse Monte Cristo a Morrel, que se encontrava em sua casa no momento em que era anunciada a estranha reviravolta da Bolsa de que Danglars fora vítima. — Acabo de fazer, por vinte e cinco mil francos, uma descoberta pela qual teria pago cem mil.

— O que descobriu?

— Descobri como livrar um jardineiro dos arganazes que comem seus pêssegos.