O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 42 de 119

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O Conde de Monte Cristo

2. O café-da-manhã

46 “A pontualidade é a polidez dos soberanos” : palavras atribuídas a Luís XVIII.

47 Doze pares: no tempo do império carolíngio, de Carlos Magno (c.742-814), os doze pares de França seriam algo equivalente aos cavaleiros da Távola Redonda do mitológico rei Artur.

48 “novos vencedores franceses”: referindo-se àqueles que participaram do cerco de Constantine (ver nota 34 neste mesmo capítulo).

2. O café-da-manhã

O conde, lembramos, era um comensal sóbrio. Ao fazer essa observação, Albert revelava um temor de que, de cara, a vida parisiense desagradasse ao forasteiro pelo seu lado mais material, mas ao mesmo tempo o mais necessário.

— Meu caro conde — disse ele —, o senhor me encontra vítima de um receio, o de que a cozinha da rua du Helder não lhe agrade tanto quanto a da praça di Spagna. Eu deveria ter-lhe perguntado seu gosto para mandar preparar alguns pratos de sua predileção.

— Se me conhecesse mais — respondeu sorrindo o conde —, não se daria a esse trabalho humilhante por um viajante como eu, que sobreviveu sucessivamente com macaroni em Nápoles, polenta em

Milão, olla podrida em Valência, pilau em Constantinopla, carri1 na Índia e ninhos de andorinha na China. Não existe culinária para um cosmopolita como eu.

Como de tudo e em toda parte, apenas como pouco; e hoje, que o senhor censura minha sobriedade, estou no meu dia de apetite, pois não como desde ontem de manhã.

— Como, desde ontem de manhã! — exclamaram os demais. — Não come há vinte e quatro horas?

— Não — respondeu Monte Cristo. — Fui obrigado a me afastar do meu caminho e pedir informações nos arredores de Nîmes, de maneira que estava um pouco atrasado e não quis parar.

— E comeu no seu coche? — perguntou Morcerf.

— Não, dormi, como acontece quando me entedio sem ter coragem de me distrair ou quando sinto fome sem ter vontade de comer.

— Mas consegue controlar o sono? — perguntou Morrel.

— Um pouco.

— Tem uma receita para isso?

— Infalível.

— Isso seria excelente para nós, os africanos, pois nem sempre temos o que comer e raramente temos do que beber — disse Morrel.

— Sim — concordou Monte Cristo. — Infelizmente, minha receita, perfeita para um homem como eu, que leva uma vida bastante fora do comum, seria muito perigosa se ministrada a um exército, que não despertaria quando precisassem dele.

— E podemos saber que receita é essa? — perguntou Debray.

— Oh, meu Deus, sim — disse Monte Cristo —, não faço segredo dela: é uma mistura de excelente ópio, que fui buscar eu mesmo em Cantão, para ter certeza de tê-lo puro, e do melhor haxixe colhido no Oriente, isto é, entre o Tigre e o Eufrates; junte esses dois ingredientes em porções iguais e faça umas pílulas, que devem ser engolidas no momento exigido.

Dez minutos depois, o efeito se faz sentir. Perguntem ao sr. barão Franz d’Épinay; creio que ele experimentou um dia.

— Sim — respondeu Morcerf —, ele me falou alguma coisa sobre isso, guardou inclusive boas recordações.

— Mas — disse Beauchamp, que em sua condição de jornalista era bastante incrédulo — o senhor carrega sempre essa droga consigo?

— Sempre — respondeu Monte Cristo.

— Seria indiscrição pedir para ver essas preciosas pílulas? — continuou Beauchamp, querendo testar o estrangeiro.

— Não, senhor — respondeu o conde.

E tirou do bolso uma maravilhosa bonbonnière esculpida em uma única esmeralda e fechada com um trinco de ouro, que, destravado, dava passagem a uma bolinha esverdeada e do tamanho de uma ervilha. Essa bola tinha um cheiro acre e penetrante; havia quatro ou cinco iguais na esmeralda, capaz de conter uma dúzia.

A bonbonnière deu a volta na mesa, mas era muito mais para examinarem a admirável esmeralda que para ver ou farejar as pílulas que os comensais a passavam de um para o outro.

— E é o seu cozinheiro que lhe prepara essa iguaria? — perguntou Beauchamp.

— Não, senhor — disse Monte Cristo —, não deixo assim meus prazeres reais à mercê de mãos indignas. Sou um excelente químico, eu mesmo preparo minhas pílulas.

— Eis uma admirável esmeralda e a maior que já vi, embora minha mãe tenha algumas jóias de família muito especiais — disse Château-Renaud.

— Eu tinha três iguais a essa — replicou o conde de Monte Cristo

—; dei uma ao Grão-Senhor2, que a engastou em seu sabre; a outra ao nosso Santo Padre, o papa, que a mandou incrustar em sua tiara ao lado de uma esmeralda similar, porém menos bela, que

fora dada ao seu predecessor, Pio VII3, pelo imperador Napoleão; guardei a terceira para mim e a mandei lapidar, o que lhe tirou metade do valor, embora a tenha tornado mais cômoda para o uso que eu queria lhe dar.

 

— Eis uma admirável esmeralda e a maior que já vi ...

Todos olhavam para Monte Cristo com espanto; este falava com tanta simplicidade que era evidente que ou dizia a verdade ou estava louco; entretanto, a esmeralda em suas mãos fazia com que se inclinassem naturalmente pela primeira suposição.

— E o que lhe deram esses dois soberanos em troca desse magnífico presente? — perguntou Debray.

— O Grão-Senhor, a liberdade de uma mulher — respondeu o conde.

— Nosso Santo Padre, o papa, a vida de um homem. De maneira que uma vez na minha vida fui tão poderoso quanto se Deus me tivesse feito nascer nos degraus de um trono.

— E foi Peppino que o senhor libertou, não foi? — exclamou Morcerf.

— Foi nele que o senhor aplicou seu direito de misericórdia?

— Talvez — disse Monte Cristo, sorrindo.

— Sr. conde, não faz idéia do prazer que sinto ouvindo-o falar assim!

— disse Morcerf. — Eu o anunciara aos meus amigos como um homem fabuloso, como um encantador das Mil e uma noites, como um feiticeiro da Idade Média; mas os parisienses são pessoas tão sutis em paradoxos que tomam por caprichos da imaginação as verdades mais incontestáveis, quando essas verdades não se encaixam em todas as esferas de sua vida cotidiana. Por exemplo, aqui estão Debray, que lê, e Beauchamp, que publica todos os dias que interpelaram e depenaram no bulevar um membro atrasado do Jockey Club; que assassinaram quatro pessoas na rua Saint-Denis ou no faubourg Saint-Germain; que prenderam dez, quinze, vinte ladrões, seja num café do bulevar du Temple, seja nas Termas de Juliano, e os quais contestam a existência dos bandidos da

Maremma4, dos campos de Roma ou dos pântanos Pontins. Diga-lhes então pessoalmente, por favor, senhor conde, que fui raptado por esses bandidos e que, sem a sua generosa interferência, eu estaria esperando, segundo toda a probabilidade, a ressurreição eterna nas catacumbas de São Sebastião, em vez de lhes dar de comer na minha indigna casinha da rua du Helder.

— Bah! — fez Monte Cristo. — O senhor tinha prometido nunca mais falar dessa ninharia.

— Não fui eu, sr. conde! — exclamou Morcerf. — Foi um outro a quem o senhor prestou o mesmo serviço que a mim e que o senhor teria confundido comigo. Falemos disso, ao contrário, eu lhe peço; pois, caso se disponha a falar desse episódio, é possível que não apenas repita um pouco do que já sei, como também muito do que não sei.

— Mas me parece — disse o conde sorrindo — que o senhor desempenhou nesse episódio um papel suficientemente relevante para saber tão bem quanto eu o que aconteceu.

— Promete que, se eu disser tudo que sei — sugeriu Morcerf —, dizer por sua vez tudo que eu não sei?

— É bastante justo — respondeu Monte Cristo.

— Pois bem — volveu Morcerf —, ainda que o meu amor-próprio sofra com isso, durante três dias julguei-me objeto das provocações de uma jovem mascarada que eu tomava por descendente das

Túlias ou das Popéias5, ao passo que eu era pura e simplesmente objeto das provocações de uma labrega; e observem que digo labrega para não dizer camponesa. O

que sei é que, como um tolo, mais tolo ainda que aquele de quem eu falava há pouco, tomei por essa camponesa um bandido adolescente de quinze a dezesseis anos, de queixo imberbe, cintura fina, que, quando eu estava

prestes a me dar licença, depositando um beijo sobre seu ombro casto, colocou a pistola na minha garganta e, com a ajuda de sete ou oito comparsas, me levou, ou melhor, me arrastou para o fundo das catacumbas de São Sebastião, onde encontrei um erudito chefe de bandidos, palavra de honra, o qual lia os Comentários de César, e que se dignou a interromper sua leitura para me dizer que, se no dia seguinte, às seis horas da manhã, eu não tivesse despejado quatro mil escudos em sua caixa, no dia seguinte às seis horas e quinze minutos eu teria deixado de existir completamente.

A carta existe, Franz a guardou, assinada por mim, com um pós-escrito do chefe Luigi Vampa. Se não acreditam, escrevo para Franz, que mandará autenticar as assinaturas. Eis o que sei. Agora, o que não sei é como o senhor foi capaz, meu caro conde, de impor tão grande respeito aos bandidos de Roma, que tão poucas coisas respeitam. Confesso que Franz e eu ficamos pasmos de admiração.

— Nada mais simples — respondeu o conde —, conheço o famoso Vampa há mais de cinco anos. Ainda menino e quando ainda era pastor, um dia em que lhe dei alguma moeda de ouro por me haver indicado o caminho, ele me deu, por sua vez, para não ficar me devendo nada, um punhal esculpido por ele, o qual o senhor deve ter visto na minha coleção de armas. Mais tarde, fosse por ter esquecido essa troca de singelos presentes, capazes de estimular a amizade entre nós, fosse porque não me reconheceu, Vampa tentou me raptar; mas fui eu ao contrário que o capturei junto com uma dúzia dos seus homens. Eu poderia têlo entregue à justiça romana, que é sumária e teria sido ainda mais célere a seu respeito, mas não fiz nada disso. Mandei-os embora, ele e os comparsas.

— Com a condição de que não pecassem mais — disse o jornalista, rindo. — Vejo com satisfação que cumpriram escrupulosamente tal promessa.

— Não, senhor — respondeu Monte Cristo —, com a simples condição de que me respeitassem para sempre, a mim e aos meus amigos. Talvez lhes pareça estranho o que vou lhes dizer, aos senhores, socialistas, progressistas, humanitaristas; mas nunca me preocupo com o próximo, nunca tento proteger a sociedade que não me protege, e digo mais, que geralmente só se preocupa comigo para me prejudicar; negando-lhes minha estima e mantendo-me neutro a seu respeito, são a sociedade e o meu próximo que continuam a me dever.

— Finalmente! — exclamou Château-Renaud. — Eis o primeiro homem corajoso que ouço pregar o egoísmo leal e brutalmente: que coisa mais bonita! Bravo, sr. conde!

— Pelo menos é sincero — disse Morrel —, mas estou certo de que o sr.

conde não se arrependeu de uma vez ter negligenciado os princípios que, não obstante, acaba de nos expor de forma tão absoluta.

— E de que forma negligenciei esses princípios, cavalheiro? —

perguntou Monte Cristo, que de tempos em tempos sentia-se impelido a observar Maximilien com tanta atenção que já por duas ou três vezes o intrépido rapaz abaixara o rosto diante do olhar claro e límpido do conde.

— Ora — respondeu Morrel —, ao libertar o sr. de Morcerf, a quem o senhor não conhecia, parece-me ter prestado um serviço ao seu próximo e à sociedade.

— Da qual ele constitui o mais belo ornamento — disse gravemente Beauchamp, esvaziando de um trago uma taça de champanhe.

— Meu caro — exclamou Morcerf —, ei-lo arrebatado pelo raciocínio, o senhor, isto é, um dos lógicos mais implacáveis que conheço; verá daqui a pouco, claramente demonstrado, que, longe de ser um egoísta, é, ao contrário, um filantropo. Ah, conde, o senhor se diz oriental, levantino, malaio, hindu, chinês, selvagem; chama-se Monte Cristo pelo nome de família, Simbad, o marujo, pelo nome de batismo, e eis que no mesmo dia em que põe o pé em Paris já dá mostras de possuir instintivamente o grande mérito ou o grande defeito de nossos excêntricos parisienses, isto é, o de usurpar os vícios que não tem e esconder as virtudes que tem!

— Meu caro visconde — disse Monte Cristo —, não vejo em tudo que eu disse ou fiz uma única palavra que me valha, da sua parte e da parte desses cavalheiros, o suposto elogio que acabo de receber. O senhor não era um estranho para mim, uma vez que eu o conhecia, lhe havia cedido dois quartos, oferecido um desjejum, emprestado um dos meus coches, juntos víramos passar as máscaras na rua do Corso e assistíramos de uma janela da praça del Popolo a uma execução que o impressionou tanto que o senhor quase desmaiou. Ora, pergunto a todos os senhores, podia eu deixar meu hóspede nas garras desses terríveis bandidos, como os senhores os chamam? Aliás, como sabem, ao ir em seu socorro minha segunda intenção era usá-lo para me introduzir nos salões de Paris quando eu viesse visitar a França. É possível que por um breve tempo o senhor tenha considerado essa resolução um plano vago e fugaz; mas hoje, como pode

 

ver, é uma boa e bela realidade, diante da qual deve curvar-se sob o risco de descumprir sua palavra.

— E vou cumpri-la — disse Morcerf —, mas temo por sua desilusão, meu caro conde, o senhor, habituado aos terrenos acidentados, aos fatos pitorescos, aos fantásticos horizontes. Por aqui não verá sombra de um episódio do gênero a que sua vida aventureira o acostumou. Nosso Chimborazzo é Montmartre; nosso Himalaia é o

monte Valérien; nosso Grande Deserto6 é a planície de Grenelle, aliás parece que lá estão perfurando um poço artesiano para que as caravanas disponham de água.

Temos ladrões, muitos até, embora não tantos quanto dizem, mas esses ladrões receiam muito mais o guarda medíocre que o fidalgo imponente; enfim, a França é um país tão prosaico e Paris, uma cidade tão civilizada, que o senhor não encontrará, procurando em nossos oitenta e cinco departamentos, repito, oitenta e cinco departamentos, pois, naturalmente, separo a Córsega da França, que o senhor não encontrará em nossos oitenta e cinco departamentos uma única montanha sobre a qual não haja um telégrafo e uma única caverna um pouco escura na qual um comissário de polícia não tenha mandado instalar um bico de gás. Sendo assim, há apenas um favor que posso lhe prestar, meu caro conde, e para este coloco-me à sua disposição: apresentá-lo em toda parte, ou fazê-lo ser apresentado pelos meus amigos, claro. Aliás, o senhor não precisa de ninguém para isso; com seu nome, sua fortuna e sua inteligência — Monte Cristo inclinou-se com um sorriso ligeiramente irônico —, qualquer um se apresenta por si mesmo em qualquer lugar e é bem recebido em toda parte.

Portanto, só lhe posso ser útil numa coisa. Se porventura determinados hábitos da vida parisiense, determinadas experiências do conforto, determinado conhecimento dos nossos bazares podem me recomendar ao senhor, ponho-me à sua disposição para lhe encontrar uma casa conveniente. Não me atrevo a lhe sugerir que partilhe comigo meus aposentos como partilhei os seus em Roma, eu, que não professo o egoísmo, mas que sou egoísta por excelência; pois na minha casa, exceto eu, não haveria sequer uma sombra, a menos que essa sombra fosse a de uma mulher.

— Ah — disse o conde —, eis uma ressalva conjugal. Com efeito, em Roma o senhor mencionou alguma coisa sobre um casamento esboçado; devo felicitá-lo por sua felicidade próxima?

— A coisa continua em estado de projeto, senhor conde.

— E quem diz projeto — replicou Debray — quer dizer eventualidade.

— Em absoluto! — disse Morcerf. — Meu pai o exige, e espero de fato, o quanto antes, apresentar-lhes, se não minha mulher, pelo menos minha prometida: a srta. Eugénie Danglars.

— Eugénie Danglars! — repetiu Monte Cristo. — Espere: o pai dela não é o senhor barão Danglars?

— Ele mesmo — respondeu Morcerf —, mas de baronato recém-criado.

— Oh, que importa — replicou Monte Cristo —, se ele prestou ao Estado serviços que fizeram jus a essa distinção?

— Enormes — disse Beauchamp. — Embora liberal na alma, em 1829

ele conseguiu um empréstimo de seis milhões para o rei Carlos X, que o fez, minha nossa, barão e cavaleiro da Legião de Honra, de maneira que usa a fita, não no bolso do colete, como poderíamos crer, mas com toda a pompa na lapela do casaco.

— Ah! — disse Morcerf, rindo. — Beauchamp, Beauchamp, guarde

isso para o Corsaire e o Charivari7, mas poupe meu futuro sogro na minha frente.

Depois, voltando-se para Monte Cristo:

— Mas o senhor acaba de pronunciar seu nome como alguém que conhecesse o barão... — disse ele.

— Não o conheço — respondeu displicentemente Monte Cristo —, mas provavelmente não vou demorar a conhecê-lo, visto que tenho um crédito aberto junto a ele pelas firmas Richard & Blount, de Londres, Arstein & Eskeles, de Viena, e Thomson & French, de Roma.

Ao pronunciar estes dois últimos nomes, Monte Cristo olhou para Maximilien Morrel com o rabo do olho.

Se o estrangeiro esperara produzir algum efeito sobre Maximilien Morrel, não se enganara. Maximilien estremecera como se houvesse recebido um choque elétrico.

— Thomson & French — disse ele —, conhece tal estabelecimento, senhor?

— São meus banqueiros na capital do mundo cristão — respondeu tranqüilamente o conde. — Posso lhe ser útil em alguma coisa junto a eles?

— Oh, sr. conde, talvez pudesse ajudar em nossas buscas, infrutíferas até o momento; há muito tempo essa firma fez um favor à nossa, e sempre, não sei por quê, negou nos ter feito esse favor.

— Às suas ordens, cavalheiro — respondeu Monte Cristo, inclinando-se.

— Entretanto — disse Morcerf —, o sr. Danglars nos afastou singularmente do assunto da nossa conversa. Tratava-se de encontrar uma moradia à altura do conde de Monte Cristo; vejamos, senhores, juntemos forças para produzir uma idéia. Onde instalaremos este novo hóspede da grande Paris?

— No faubourg Saint-Germain — disse Château-Renaud. — O

cavalheiro encontrará lá um encantador palacete entre um pátio e um jardim.

— Bah! Château-Renaud — disse Debray — você só conhece o triste e bisonho faubourg Saint-Germain; não lhe dê ouvidos, sr. conde, instale-se na Chaussé-d’Antin; é o verdadeiro centro de Paris.

— Bulevar do Opéra — disse Beauchamp —, num sobrado. O sr. conde mandará instalar almofadas drapejadas de prata e verá, fumando seu chibuque ou ingerindo suas pílulas, toda a capital desfilar diante dos seus olhos.

— E você, Morrel — disse Château-Renaud —, não tem uma idéia, não sugere nada?

— Realmente — disse sorrindo o rapaz —, ao contrário, tenho uma, mas esperava que o cavalheiro se deixasse tentar por alguma das brilhantes ofertas que acabam de lhe fazer. Agora, como ele não responde, creio poder oferecer-lhe um apartamento numa casinha

encantadora, toda Pompadour8, que minha irmã aluga há um ano na rua Meslay.

— O senhor tem uma irmã? — perguntou Monte Cristo.

— Tenho sim, e uma excelente irmã.

— Casada?

— Há uns nove anos.

— Feliz? — perguntou novamente o conde.

— Tão feliz quanto é permitido a uma criatura humana sê-lo —

respondeu Maximilien. — Ela se casou com o homem a quem amava, o qual nos permaneceu fiel durante a nossa maré de azar: Emmanuel Herbaut.

Monte Cristo sorriu imperceptivelmente.

— Eu moro lá seis meses por ano — continuou Maximilien —, e estarei, com meu cunhado Emmanuel, à disposição do sr. conde para todas as informações que precisar.

— Um momento! — exclamou Albert, antes que Monte Cristo tivesse tido tempo de responder. — Preste atenção no que faz, sr. Morrel, irá enclausurar um viajante, Simbad, o marujo, na vida do lar; de um homem que está aqui para conhecer Paris, o senhor vai fazer um patriarca.

— Oh, absolutamente — respondeu Morrel sorrindo —, minha irmã tem vinte e cinco anos, meu cunhado, trinta: são jovens, alegres e felizes; aliás, o sr. conde se sentirá em casa e só encontrará seus anfitriões quando lhe aprouver descer até a casa deles.

— Obrigado, cavalheiro, obrigado — disse Monte Cristo —, irei me contentar, caso me dê essa honra, em ser apresentado pelo senhor à sua irmã; mas não aceitei a oferta de nenhum desses cavalheiros porque já tenho minha moradia toda preparada.

— Como! — exclamou Morcerf. — Então vai se hospedar num hotel?

Seria muito desconfortável para o senhor.

— Por acaso eu estava desconfortável em Roma? — perguntou Monte Cristo.

— Pelo amor de Deus! Em Roma — disse Morcerf — o senhor gastou cinqüenta mil piastras para mobiliar um apartamento; presumo que não esteja disposto a repetir tamanha despesa todos os dias.

— Não foi isso que me decidiu — respondeu Monte Cristo —, mas eu estava resolvido a ter uma casa em Paris, uma casa minha, quero dizer.

Enviei meu criado na frente e ele já deve ter comprado essa casa e mobiliado-a para mim.

— Mas quer dizer que tem um criado que conhece Paris! — exclamou Beauchamp.

— Assim como eu, é a primeira vez que ele vem à França; é negro e não fala — disse Monte Cristo.

— Então, é Ali? — perguntou Albert, em meio à surpresa geral.

— Sim, senhor, é o próprio Ali, meu núbio, meu mudo, que o senhor viu em Roma, creio.

— Sim, claro — respondeu Morcerf —, lembro-me perfeitamente. Mas como encarregou um núbio de comprar uma casa em Paris, e um mudo, de mobiliá-la? O pobre coitado deve ter se atrapalhado todo!

— Está redondamente enganado. Tenho certeza, ao contrário, de que ele terá escolhido todas as coisas de acordo com meu gosto, pois, como sabem, meu gosto não é o de todo mundo. Ele chegou há uma semana; deve ter corrido a cidade com o instinto de um bom cão caçando solitário;

ele conhece meus caprichos, minhas fantasias, minhas necessidades; deve ter organizado tudo ao meu jeito. Estava avisado de que eu chegaria hoje às dez horas; às nove horas estava à minha espera na barreira de Fontainebleau; entregou-me esse papel; é meu novo endereço: pegue, leia.

E Monte Cristo passou um papel para Albert.

— Champs-Élysées 30 — leu Morcerf.

— Ah, eis uma coisa realmente original! — Beauchamp não pôde evitar de dizer.

— E bastante principesca — acrescentou Château-Renaud.

— Como! Não conhece a sua casa? — perguntou Debray.

— Não — respondeu Monte Cristo —, já lhes disse que não queria chegar atrasado. Fiz minha toalete no coche e desembarquei na porta do visconde.

Os rapazes entreolharam-se; não sabiam se era uma comédia representada por Monte Cristo, mas tudo que saía da boca daquele homem tinha, a despeito do caráter original, uma simplicidade tão elegante que não se podia supor que ele mentisse. Aliás, por que mentiria?

— Teremos então que nos contentar — disse Beauchamp — em prestar ao sr. conde todos os pequenos serviços que estão ao nosso alcance. Eu, em minha posição de jornalista, abro-lhe os teatros de Paris.

— Obrigado, cavalheiro — disse Monte Cristo, sorrindo. — Meu intendente já tem ordens para alugar um camarote em cada um deles.

— E seu intendente também é núbio e mudo? — perguntou Debray. — Não, cavalheiro, é simplesmente um compatriota dos senhores, se é que um corso pode ser compatriota de alguém: o sr. de Morcerf conhece-o.

— Seria por acaso o bravo signor Bertuccio, tão eficiente em alugar janelas?

— Exatamente, e o senhor o viu na minha casa no dia em que tive a honra de recebê-lo para o desjejum. É um excelente homem, que foi um pouco soldado, um pouco contrabandista, um pouco de tudo que se pode ser, enfim. Desconfio inclusive que tenha alguma pendência com a polícia, por uma ninharia, algo como uma punhalada.

— E escolheu esse honesto cidadão do mundo como seu intendente, sr.

conde? — disse Debray. — Quanto ele lhe rouba por ano?

— Pois bem, palavra de honra — disse o conde —, tenho certeza que não mais que um outro qualquer; mas toca meus negócios, não conhece a impossibilidade e conservo-o comigo.

— Quer dizer — espicaçou Château-Renaud — que está com casa montada; tem um palacete nos Champs-Élysées, criados, intendente, só lhe falta uma amante.

Albert sorriu: pensava na bela grega que vira no camarote do conde no Teatro Valle e no Teatro Argentina.

— Tenho algo melhor que isso — retrucou Monte Cristo —, tenho uma escrava. Os senhores alugam suas amantes no Opéra, no Vaudeville, no Teatro de Variedades; eu comprei a minha em Constantinopla; custou mais caro, porém, nesse aspecto, já não preciso me preocupar.

— Mas se esquece — disse rindo Debray — que somos, como disse o rei Carlos, francos no nome, francos na natureza; não sabe que, ao tocar o pé na terra da França, sua escrava tornou-se livre?

— Quem lhe dirá isso? — perguntou Monte Cristo.

— Ora, o primeiro que aparecer.

— Ela só fala romaico.

— Então é diferente.

— Mas pelo menos a veremos? — perguntou Beauchamp. — Ou, já tendo um mudo, também tem eunucos?

— Juro que não — disse Monte Cristo —, não levo o orientalismo a esse ponto. Tudo que me cerca é livre para me deixar, e, ao me deixar, não precisará mais de mim nem de ninguém; talvez por isso ninguém me deixe.

Há muito tempo já haviam passado aos doces e aos charutos.

— Meu caro — disse Debray enquanto se levantava —, são duas e meia, seu convidado é encantador, mas não existe boa companhia que não abandonemos, inclusive às vezes por uma que é má; preciso voltar ao meu Ministério. Mencionarei o conde ao ministro, precisamos saber quem de fato ele é.

— Cuidado — disse Morcerf —, os mais espertos desistiram disso.

— Bah! Destinamos três milhões à nossa polícia; é verdade que eles são quase sempre gastos antes, mas isso não interessa, ainda sobram uns cinqüenta mil francos para aplicarmos.

— E quando souber quem ele é, você me dirá?

— Prometo. Até logo, Albert; senhores, seu humílimo... E, ao sair, Debray gritou bem alto no vestíbulo:

— Mande avançar!

— Bom — disse Beauchamp a Albert —, não vou à Câmara, mas posso oferecer a meus leitores uma coisa melhor que um discurso de Danglars.

— Por misericórdia, Beauchamp, nem uma palavra, eu lhe suplico; não me tire o mérito de apresentá-lo e explicá-lo. Ele não é curioso?

— Ele é melhor que isso — respondeu Château-Renaud —, é realmente um dos homens mais extraordinários que conheci em minha vida. Você vem, Morrel?

— Levarei apenas o tempo de entregar meu cartão ao conde, que vai me prometer uma visitinha à rua Meslay 14.

— Esteja certo de que não deixarei de ir, senhor — disse o conde, inclinando-se.

E Maximilien Morrel saiu com o barão Château-Renaud, deixando Monte Cristo a sós com Morcerf.

1 Olla podrida, pilau e carri: olla podrida é uma mistura de carnes, guarnições de legumes e temperos, longamente cozida e apimentada; pilau é um arroz semicozido, com gordura, temperado à base de pimenta vermelha e misturado com carne assada; carri, um prato de carne de ave doméstica, preparado com uma combinação de temperos.

2 Grão-Senhor: título do sultão do império otomano.

3 Pio VII: nome adotado por Barnaba Chiaramonti (1742-1823) quando de sua entronização como sumo pontífice em 1800. O presente de Napoleão, um anel de esmeralda, é um fato histórico, que precedeu sua coroação como imperador pelo papa, em 1804.

4 Maremma: pântanos da Itália central.

5 “Túlias ou Popéias”: Túlia, na história mitológica de Roma, era filha do rei Sérvio Túlio e mulher de Tarquínio Soberbo. Instigou o marido a expulsar o pai do trono e, após o assassinato deste último, passou com seu carro por cima do cadáver; Popéia Sabina era esposa do futuro imperador Oto quando sua beleza atraiu a atenção de Nero. Tornou-se inicialmente sua amante, e, depois do divórcio de Otávia, sua esposa. “A imperatriz tinha tudo que desejava, exceto bondade” (Tácito). Encorajou o assassinato de Agripina (a Jovem) e morreu grávida depois de ser chutada pelo marido. Foi deificada.