O Conde de Monte Cristo
20. O 5 de outubro
— Do que preciso me arrepender?
1 Harpagon: nome do personagem que dá título à peça de Molière O avarento.
20. O 5 de outubro
Eram aproximadamente seis horas da tarde. Caía no céu, sobre o mar azulado, um dia cor de opala, no qual um belo sol de outono infiltrava seus raios de ouro.
O calor do dia extinguira-se gradualmente, e começava-se a sentir aquela brisa que parece a respiração da natureza, despertando depois da sesta ardente do meio-dia, num sopro delicioso que refresca as costas do Mediterrâneo e carrega, de margem a margem, o perfume das árvores, misturado ao vapor do oceano. Nesse imenso lago que se estende de Gibraltar aos Dardanelos, de Túnis a Veneza, um iate ligeiro, puro e elegante na forma, deslizava às primeiras emanações da noite. Seu movimento era o do cisne que abre as asas ao vento e parece deslizar na água. Avançava rápido e gracioso ao mesmo tempo, deixando atrás de si uma esteira fosforescente.
Pouco a pouco, o sol, cujos últimos raios havíamos saudado, desaparecera no horizonte ocidental. No entanto, como para dar razão aos sonhos loucos da mitologia, suas luzes indiscretas, ressurgindo no pico de cada onda, pareciam revelar que o deus
flamejante acabava de esconder-se no seio de Anfitrite1, que por sua vez em vão tentava esconder o amante nas pregas de seu manto azulado.
O iate avançava rapidamente, embora tudo sugerisse que o vento a impulsioná-lo mal daria para fazer flutuar a cabeleira cacheada de uma jovem.
De pé na proa, um homem alto, tez bronzeada, olho dilatado, via a terra aproximar-se dele sob a forma de uma massa escura, disposta em cone, surgindo por entre as ondas como um imenso chapéu catalão.
— Monte Cristo é aqui? — perguntou o viajante, às ordens de quem o iate momentaneamente parecia estar, com voz grave e marcada por uma profunda tristeza.
— Sim, Excelência — respondeu o capitão —, chegamos.
— Chegamos! — murmurou o viajante, num tom de indefinível melancolia.
Em seguida, acrescentou em voz baixa:
— Sim, deve ser este o porto.
E voltou a mergulhar em pensamentos, que se traduziam num sorriso mais triste do que lágrimas.
Minutos depois, avistaram em terra a luz de uma chama, que logo se apagou, e o estampido de uma arma de fogo chegou ao iate.
— Excelência — disse o capitão —, este é o sinal de terra, quer responder pessoalmente?
— Que sinal? — este perguntou.
O capitão apontou a mão para a ilha, em cujos flancos erguia-se, isolado e esbranquiçado, um grande floco de fumaça que se esgarçava ao subir.
— Ah, sim — disse ele, como que saindo de um sonho —, passe para cá.
O capitão estendeu-lhe uma carabina carregada. O viajante pegou-a, levantou-a lentamente e fez fogo para cima.
Dez minutos depois, as velas eram recolhidas e a âncora era lançada a quinhentos passos de um pequeno porto.
O bote já estava no mar, com quatro remadores e o piloto. O viajante desceu e, em vez de sentar-se na popa, forrada para ele com um tapete azul, manteve-se de pé e com os braços cruzados.
Os remadores esperavam, tendo os remos semi-erguidos, como pássaros secando as asas.
— Vamos! — disse o forasteiro.
Os oitos remos caíram no mar simultaneamente e sem respingar uma gota d’água. Em seguida, o bote, cedendo ao impulso, deslizou com rapidez.
Num instante chegaram a uma pequena enseada, aberta por uma chanfradura natural, e o bote tocou num fundo de areia fina.
— Excelência — disse o piloto —, suba nos ombros de dois dos nossos homens, eles irão carregá-lo até a terra firme.
O rapaz respondeu a esse convite com um gesto de completa indiferença, desvencilhou suas pernas do bote e enfiou-se na água, que subiu até sua cintura.
O capitão estendeu-lhe uma carabina carregada.
— Ah, Excelência — murmurou o piloto —, não é certo o que está fazendo, seremos censurados pelo patrão.
O rapaz continuou a avançar para a margem, seguindo dois marujos que escolhiam o melhor caminho sob as águas.
Trinta passos depois, tocavam terra firme. O rapaz batia os pés num terreno seco e buscava com os olhos à sua volta o trajeto provável que iriam indicar-lhe, pois a noite já caíra.
Quando voltou a cabeça, certa mão pousou em seu ombro, uma voz o fez estremecer.
— Boa-noite, Maximilien — dizia a voz —, você é pontual, obrigado.
— É o senhor, conde — exclamou o rapaz, com uma reação que parecia alegria, enquanto apertava com as duas mãos a mão de Monte Cristo.
— Sim, como vê, tão pontual quanto você. Mas está pingando,
querido amigo. Precisa trocar-se, como diria Calipso a Telêmaco2. Venha, tenho
aposentos preparados especialmente para você, onde esquecerá a fadiga e o frio.
Monte Cristo percebeu que Morrel virava de costas, e esperou.
O rapaz, de fato, via com surpresa que nenhuma palavra fora pronunciada por aqueles que o tinham trazido, pois não os pagara e apesar disso, já haviam partido. Ouvia-se inclusive a batida dos remos do bote, que voltava para o pequeno iate.
— Ah, sim — disse o conde —, está procurando seus marujos?
— Naturalmente. Não lhes dei nada e mesmo assim foram embora.
— Não se preocupe com isso, Maximilien — disse Monte Cristo, rindo
—, tenho um acordo com a marinha para que o acesso à minha ilha seja liberado de qualquer taxa de frete ou estadia. Sou isento, como se diz nos países civilizados.
Morrel olhou para o conde com espanto.
— Conde — disse-lhe —, o senhor não é mais o mesmo de Paris.
— Como assim?
— É. Aqui, o senhor ri.
O semblante de Monte Cristo entristeceu-se de repente.
— Faz bem em chamar-me à razão, Maximilien — disse ele. — Revê-lo era uma alegria para mim e eu esquecia que toda felicidade é passageira.
— Oh, não, não, conde! — exclamou Morrel, agarrando novamente as duas mãos do seu amigo. — Ao contrário, ria, seja feliz e prove-me com a sua indiferença que a vida só é ruim para os que sofrem. Oh, o senhor é caridoso, o senhor é bom, o senhor é grande, meu amigo, e é para me dar coragem que afeta essa alegria.
— Está enganado, Morrel — disse Monte Cristo —, eu estava realmente feliz.
— Então era de mim mesmo que estava esquecendo; melhor assim!
— O que quer dizer?
— O senhor sabe, amigo: como dizia o gladiador ao imperador entrando no circo, digo-lhe: “Aquele que vai morrer o saúda.”
— Não encontrou consolo? — perguntou Monte Cristo, olhando-o estranhamente.
— Oh! — fez Morrel, com um olhar cheio de tristeza. — Acreditou mesmo que isso era possível?
— Escute — disse o conde —, está ouvindo bem minhas palavras, não é, Maximilien? Você não me toma por um homem vulgar, por um tagarela que emite sons vagos e vazios de sentido. Quando lhe pergunto se encontrou consolo, falo como homem para quem o coração humano não tem mais segredo. Pois bem, Morrel, desçamos ao fundo de seu coração e o sondemos. Ainda perdura a impaciência fogosa da dor, que faz sobressaltar o corpo como sobressalta o leão picado pelo mosquito? A sede devoradora que só termina no túmulo? A idealização da saudade que lança o vivo fora da vida, no encalço do morto? Ou será apenas a prostração da coragem esgotada, o tédio que sufoca o raio de esperança que gostaria de brilhar? Ou será a perda da memória que traz a impotência das lágrimas? Oh, querido amigo, se for isso, se não consegue mais chorar, se julga morto seu coração entorpecido, se agora só tem forças em Deus, olhares para o céu, amigo, deixemos de lado as palavras estreitas demais para o sentido que lhes dá nossa alma. Maximilien, você está consolado, pare de se queixar.
— Conde — disse Morrel, com sua voz suave e firme ao mesmo tempo
— escute, como escuta o homem que fala com o dedo apontado para a terra e os olhos erguidos para o céu. Vim para junto do senhor para morrer nos braços de um amigo. Claro, há pessoas que amo: amo minha irmã Julie, amo seu marido Emmanuel. Mas preciso de alguém que abra seus braços fortes e sorria para mim nos meus últimos instantes. Minha irmã iria desfazer-se em lágrimas e desmaiaria. Eu a veria sofrer, e já sofri muito. Emmanuel iria arrancar-me a arma das mãos e encheria a casa com seus gritos. O senhor, conde, de quem tenho a palavra, o senhor que é mais que um homem, eu o chamaria de um deus, se não fosse mortal. O senhor me conduzirá com delicadeza e ternura, não é, até as portas da morte?
— Amigo — disse o conde —, resta-me ainda uma dúvida: estaria tão fraco a ponto de usar o orgulho para ostentar sua dor?
— Não, veja, sou simples — disse Morrel, estendendo a mão ao conde —, e meu pulso não bate nem mais forte nem mais lentamente que o normal. Não, sinto-me no fim da estrada. Não, não irei adiante. O senhor falou em esperar e ter esperanças. Sabe o que fez, maldito sábio? Esperei um mês, isto é, sofri um mês! Tive esperanças! O homem é uma criatura fraca e miserável. Esperanças em quê? Não faço a mínima idéia, alguma coisa desconhecida, absurda, insana! Um milagre... qual? Só Deus pode dizer, Ele, que misturou à nossa razão a loucura chamada esperança. Sim, esperei, sim, tive esperanças, conde, e de quinze minutos para cá o senhor, sem o saber e por mil vezes, partiu e torturou meu coração, pois cada uma
de suas palavras provou que não há mais esperanças para mim. Oh, conde, a morte me será um repouso doce e voluptuoso!
Morrel pronunciou estas últimas palavras com uma explosão de energia que fez o conde estremecer.
— Amigo — continuou Morrel, vendo que o conde se calava —, o senhor designou-me o dia 5 de outubro como o término da prorrogação que me pediu... amigo, 5 de outubro é hoje...
Morrel puxou seu relógio.
— São nove horas, ainda tenho três horas de vida.
— Está bem — respondeu Monte Cristo —, venha.
Morrel acompanhou mecanicamente o conde, e já estavam na caverna, que Maximilien ainda não vira.
Encontrou tapetes sob os pés, uma porta se abriu, perfumes o envolveram, uma luz forte golpeou seus olhos.
Morrel parou, hesitando em avançar. Desconfiava das inebriantes delícias que o cercavam.
Monte Cristo atraiu-o lentamente.
— Não seria ótimo — ele disse — se empregássemos nossas últimas três horas como os antigos romanos que, condenados por Nero, seu imperador e rebento, sentavam-se à mesa coroados de flores e aspiravam a morte junto com o perfume dos girassóis e das rosas?
Morrel sorriu.
— Como quiser — disse ele. — A morte é sempre a morte, isto é, o esquecimento, isto é, a ausência de vida e, por conseguinte, de dor.
Sentou-se. Monte Cristo sentou-se diante dele.
Estavam na maravilhosa sala de jantar que já descrevemos, e onde estátuas de mármore carregavam na cabeça cestos sempre cheios de flores e frutas.
Morrel observara tudo vagamente, e era provável que nada tivesse visto.
— Vamos falar de homem para homem — disse ele, olhando fixamente para o conde.
— Comece — este respondeu.
— Conde — prosseguiu Morrel —, o senhor é o resumo de todos os conhecimentos humanos, dando-me a impressão de ter vindo de um mundo mais avançado e inteligente que o nosso.
— Há um pouco de verdade nisso, Morrel — disse o conde, com aquele sorriso melancólico que o fazia tão belo —, vim de um planeta chamado
sofrimento.
— Acredito em tudo que me diz sem procurar o sentido profundo de suas palavras, conde. A prova é que me disse para viver, e vivi; para ter esperanças, e quase as tive. Atrevo-me portanto a lhe perguntar, conde, como se o senhor já houvesse morrido uma vez: é muito doloroso?
Monte Cristo observava Morrel com uma indefinível expressão de ternura.
— Sim — respondeu ele —, sim, claro, dói muito se você romper brutalmente o invólucro mortal que pede obstinadamente para viver. Se fizer sua carne gritar sob os dentes imperceptíveis de um punhal, se esburacar com uma bala ignara, e sempre pronta a se extraviar no caminho o seu cérebro, que geme ao menor choque, claro, sofrerá e deixará dolorosamente a vida, julgando-a, a partir de sua agonia desesperançosa, melhor que um repouso comprado tão caro.
— Sim, compreendo — disse Morrel —, assim como a vida, a morte tem seus segredos de dor e volúpia. Tudo está em conhecê-los.
— Exatamente, Maximilien, e acaba de dizer a palavra definitiva. A morte é, dependendo do empenho que aplicamos em ficar bem ou mal com ela, ou uma amiga, que nos embala tão serenamente quanto uma ama-deleite, ou uma inimiga, que nos arranca violentamente a alma do corpo. Um dia, quando nosso mundo já houver existido por mais mil anos, quando nos tivermos tornado senhores de todas as forças destrutivas da natureza para pô-las a serviço do bem-estar da humanidade, quando o homem conhecer, como você dizia há pouco, os segredos da morte, ela passará a ser tão doce e voluptuosa quanto o sono degustado nos braços da nossa bem-amada.
— E se o senhor desejasse morrer, conde, saberia morrer assim?
— Sim.
Morrel estendeu-lhe a mão.
— Agora compreendo — disse ele — por que marcou este encontro aqui, nesta ilha desolada no meio de um oceano, neste palácio subterrâneo, sepulcro de fazer inveja a um faraó. É porque gosta de mim, não é, conde?
É porque gosta de mim a ponto de me proporcionar uma dessas mortes que mencionava ainda há pouco, a morte sem agonia, a morte que me permita expirar pronunciando o nome de Valentine e apertando a sua mão, não é?
— Sim, Morrel, adivinhou certo — disse o conde com simplicidade —, e é assim que eu entendo.
— Obrigado. A idéia de que amanhã não sofrerei mais é grata ao meu coração.
— Não vai sentir saudades de nada? — perguntou Monte Cristo.
— Não — respondeu Morrel.
— Nem mesmo de mim? — perguntou o conde, profundamente emocionado.
Morrel estacou. Seu olho tão cristalino de repente ficou opaco, em seguida brilhou de maneira inusitada. Uma grande lágrima brotou e rolou, escavando um sulco de prata em sua face.
— O quê! — disse o conde. — Morrerá ainda com saudades de alguma coisa na Terra!
— Oh, eu lhe imploro — exclamou Morrel, com uma voz enfraquecida
—, vamos parar por aqui, conde, não prolongue o meu suplício!
O conde achou que Morrel fraquejava.
Essa crença momentânea ressuscitou nele a horrível dúvida, já uma vez dominada no castelo de If.
“Minha tarefa”, pensou ele, “é restituir este homem à felicidade. Vejo essa restituição como um peso que contrabalança o prato em que deixei cair o mal. Porém, e se eu estivesse enganado, e se esse homem não fosse suficientemente infeliz para merecer a felicidade! Maldição! O que seria de mim, que só consigo esquecer o mal fantasiando o bem?”
— Escute, Morrel — disse o conde —, vejo que seu sofrimento é imenso, mas, apesar disso, você crê em Deus e não quer arriscar a salvação da sua alma.
Morrel sorriu tristemente.
— Conde — disse ele —, o senhor sabe que não faço poesia à toa, mas, juro, minha alma não me pertence mais.
— Escute, Morrel — disse Monte Cristo —, não tenho nenhum parente no mundo, como sabe. Habituei-me a vê-lo como um filho. Pois bem! Para salvar o meu filho, eu sacrificaria minha vida, quanto mais minha fortuna!
— Que quer dizer com isso?
— Quero dizer, Morrel, que você quer deixar a vida porque não conhece todos os deleites que a vida permite a uma grande fortuna. Morrel, possuo cerca de cem milhões, eles são seus. Com uma fortuna dessas você pode alcançar todos os objetivos a que se propõe. É ambicioso? Todos os caminhos lhe serão abertos. Revire o mundo, mude a cara dele, entregue-se a prazeres dementes, seja criminoso se precisar, mas viva.
— Conde, tenho sua palavra — respondeu Morrel friamente, e acrescentou puxando o relógio —, são onze e meia.
— Morrel! Cogita isso, na minha frente, na minha casa?
— Então deixe-me partir — disse Maximilien, agora abatido —, ou vou achar que não me ama por mim, mas pelo senhor.
E levantou-se.
— Está bem — disse Monte Cristo, cujo semblante iluminou-se diante dessas palavras —, como quiser, Morrel, sei que é inflexível. Sim, você está profundamente infeliz. Como disse, apenas um milagre poderia curá-lo. Sente-se, Morrel, e aguarde.
Morrel obedeceu. Monte Cristo, por sua vez, levantou-se e foi pegar, num armário meticulosamente trancado e cuja chave ele carregava presa numa corrente de ouro, um pequeno cofre de prata magnificamente esculpido e trabalhado, cujos ângulos representavam quatro figuras curvadas, semelhantes àquelas cariátides de olhos vazios, sob a forma de mulheres, símbolo de anjos que aspiram ao céu.
Pôs o cofre sobre a mesa.
Abriu-o e tirou uma caixinha de ouro cuja tampa era erguida pela pressão de uma mola secreta.
Essa caixa continha uma substância untuosa e gelatinosa, de cor indefinível em virtude do reflexo do ouro reluzente, das safiras, dos rubis e das esmeraldas que enfeitavam a caixa.
Era como um refulgir de azul, púrpura e ouro.
O conde capturou uma pequena quantidade dessa substância com uma colher de prata dourada e a ofereceu a Morrel, fixando nele um longo olhar.
Foi então possível constatar que a substância era esverdeada.
— Aqui está o que me pediu — disse ele. — Aqui está o que lhe prometi.
— Enquanto ainda vivo — disse o rapaz, tomando a colher das mãos de Monte Cristo —, agradeço-lhe do fundo do coração.
O conde pegou uma segunda colher e abasteceu-a uma segunda vez na caixa de ouro.
— O que vai fazer, amigo? — perguntou Morrel, agarrando sua mão.
— Ora, Morrel — disse-lhe sorrindo —, acho, Deus me perdoe, que estou tão cansado da vida quanto você, e já que a oportunidade se apresenta...
— Pare! — exclamou o rapaz. — Oh, o senhor, que ama, o senhor, que é amado, o senhor, que tem a fé da esperança, oh, não faça o que vou fazer.
De sua parte, seria um crime. Adeus, meu nobre e generoso amigo, vou contar a Valentine tudo o que fez por mim.
E, lentamente, sem nenhuma hesitação a não ser a pressão da mão esquerda que ele estendia ao conde, Morrel engoliu, ou melhor, saboreou a misteriosa substância oferecida por Monte Cristo.
Então ambos se calaram. Ali, silencioso e atento, trouxe o tabaco e os narguilés, serviu o café e desapareceu.
Pouco a pouco, as lamparinas empalideceram nas mãos das estátuas de mármore que as sustentavam e o perfume das caçoulas pareceu menos penetrante a Morrel.
Sentado à sua frente, Monte Cristo observava-o do fundo da penumbra, e Morrel via apenas o brilho dos olhos do conde.
Uma imensa aflição apoderou-se do rapaz. Ele sentia o narguilé escapar de suas mãos; os objetos perdiam imperceptivelmente forma e cor; seus olhos viam abrir-se como que portas e cortinas na parede.
— Amigo — disse ele —, sinto que estou morrendo. Obrigado.
Fez um esforço para estender-lhe a mão pela última vez, mas essa mão sem forças voltou a cair junto a si.
Pareceu-lhe então que Monte Cristo sorria, não mais o seu riso estranho e assustador, que tantas vezes permitira-lhe vislumbrar os mistérios daquela alma profunda, mas com a benevolente compaixão que os pais sentem pelos seus filhinhos quando estes deliram.
Ao mesmo tempo, o conde crescia a seus olhos. Sua estatura, quase duplicada, desenhava-se contra os forros vermelhos. Ele jogara para trás seus cabelos pretos e aparecia de pé e altivo como um desses anjos com que os maus são ameaçados no dia do Juízo Final.
Morrel, abatido, entregue, afundou em sua poltrona. Um torpor aveludado insinuou-se em cada uma de suas veias. Uma mudança de idéias ornamentou, por assim dizer, sua fronte, assim como uma nova disposição de desenhos ornamenta o caleidoscópio.
Deitado, nervoso, ofegante, Morrel não sentia mais nada vivo nele a não ser esse sonho. Parecia-lhe entrar de velas desfraldadas no vago delírio que precede esse outro desconhecido que chamamos de morte.
Tentou mais uma vez estender a mão para o conde, mas dessa vez sua mão sequer se mexeu. Quis articular um supremo adeus, sua língua
enrolou-se pesadamente em sua garganta como uma pedra que tampasse um sepulcro.
Seus olhos carregados de langores fecharam-se à sua revelia. Entretanto, por trás de suas pálpebras, agitava-se uma imagem que ele reconheceu a despeito da penumbra na qual se julgava mergulhado.
Era o conde, que acabava de abrir uma porta.
Quase instantaneamente um imenso clarão irradiando-se de um quarto contíguo, ou melhor, de um palácio contíguo, inundou a sala onde Morrel entregava-se à sua doce agonia.
Então ele viu surgir no umbral daquela sala, e no limiar dos dois quartos, uma mulher belíssima.
Pálida e com um sorriso delicado, parecia o anjo da misericórdia exorcizando o anjo das vinganças.
“Será o céu já abrindo-se para mim?”, pensou o moribundo. “Esse anjo é bem parecido com o que perdi.”
Monte Cristo apontou, para a jovem, o sofá onde Morrel estava deitado.
Ela avançou para ele com as mãos unidas e um sorriso nos lábios.
“Valentine! Valentine!”, gritou Morrel do fundo da alma.
Mas sua boca não proferiu um som e, como se todas as suas forças houvessem se concentrado nessa emoção íntima, deu um suspiro e fechou os olhos.
Valentine precipitou-se até ele.
Os lábios de Morrel ainda esboçaram um movimento.
— Ele a chama — disse o conde —, ele a chama do fundo de seu sono, aquele a quem entregou seu destino e que a morte quis separar. Mas felizmente eu estava aqui e venci a morte! Valentine, agora não precisam mais separar-se sobre a Terra, pois, para encontrá-la, ele se precipitava para o túmulo. Sem mim, vocês dois morreriam. Devolvo um ao outro, espero que Deus leve em conta essas duas existências que salvo!
Valentine agarrou a mão de Monte Cristo, num impulso de alegria irresistível, e levou-a aos seus lábios.
— Oh, agradeça-me o quanto puder — disse o conde —, oh, repita para mim incansavelmente, repita para mim que a fiz feliz! Não sabe como preciso dessa certeza.
— Será o céu já abrindo-se para mim?
— Oh, sim, sim, agradeço-lhe do fundo do coração — disse Valentine
—, e, se duvida da sinceridade, da minha gratidão, não hesite! Pergunte a Haydée, interrogue minha querida irmã Haydée, que desde a nossa partida da França fez-me esperar pacientemente, falando-me do senhor, do dia bem-aventurado que hoje reluz para mim.
— Então gosta de Haydée? — perguntou Monte Cristo, com uma emoção que em vão tentava dissimular.
— Oh, do fundo da alma!
— Muito bem! Escute, Valentine — disse o conde —, tenho um favor a pedir.
— Para mim, oh, Deus! E eu mereço isso?
— Sim, você chamou Haydée de irmã. Que ela seja efetivamente sua irmã, Valentine, devolva a ela tudo que julga dever a mim. Protejam-na, Morrel e você, pois — a voz do conde esteve prestes a se apagar na garganta — agora ela ficará sozinha no mundo...
quê?
— Sozinha no mundo! — repetiu uma voz atrás do conde. — E por Monte Cristo voltou-se.
Haydée estava ali, de pé, pálida e gelada, olhando para o conde com uma expressão de mortal estupor.
— Porque amanhã, minha filha, você será livre — respondeu o conde
—, porque voltará a ocupar o lugar que lhe é devido no mundo, porque não quero que o meu destino ofusque o seu. Filha de príncipe! Devolvo-lhe as riquezas e o nome do seu pai!
Haydée empalideceu, abriu as mãos diáfanas como faz a virgem que se recomenda a Deus e, com uma voz enrouquecida pelas lágrimas, perguntou:
— Então, meu amo, vai me deixar?
— Haydée! Haydée! Você é jovem, você é bela. Esqueça até mesmo o meu nome e seja feliz.
— Está bem — disse Haydée —, suas ordens serão executadas, meu amo. Esquecerei até mesmo o seu nome e serei feliz.
Recuou um passo para retirar-se.
— Oh, meu Deus — exclamou Valentine, ao mesmo tempo que amparava a cabeça prostrada de Morrel em seu ombro —, então não percebe como ela está pálida, não compreende o sofrimento dela?
Haydée dirigiu-se a ela com uma voz dilacerante:
— Como quer que ele me compreenda, minha irmã? Ele é meu amo, sou sua escrava. Ele tem o direito de não enxergar.
O conde estremeceu diante das modulações daquela voz, que foi despertar até as fibras mais secretas do seu coração. Seus olhos encontraram os da jovem e não conseguiram resistir ao seu brilho.
— Meu Deus, meu Deus! — disse Monte Cristo. — Seria então verdade o que me sugere, Haydée?! Seria feliz a meu lado?
— Sou jovem — ela respondeu serenamente —, amo a vida que você nunca deixou de tornar doce para mim, e lamentaria morrer.
— Quer dizer então que, se eu a deixasse, Haydée...
— Eu morreria, meu amo, sim!
— Quer dizer que me ama?
— Oh, Valentine, ele pergunta se o amo. Valentine, diga para ele se você ama Maximilien!
O conde sentiu seu peito expandir-se e seu coração dilatar-se. Abriu os braços, Haydée correu para ele dando um grito.
— Oh, sim, amo-o! Amo-o como se ama um pai, um irmão, um marido!
Amo-o como se ama a vida, como se ama a Deus, pois, para mim, você é a mais bela, a melhor e a maior das criaturas!
— Que então seja feito como você deseja, meu anjo querido! — disse o conde. — Deus, que me jogou contra os meus inimigos, e me fez vencedor, Deus, vejo claramente, não quer esse arrependimento no termo da minha vitória. Eu queria me punir, Deus quer me perdoar. Então me ama, Haydée? Quem sabe seu amor não fará com que eu me esqueça do que preciso esquecer?
— O que está dizendo, meu amo? — perguntou a jovem.
— Estou dizendo que uma palavra sua, Haydée, iluminou-me mais que vinte anos de minha lenta sabedoria. Só tenho você no mundo, Haydée, por seu intermédio agarro-me à vida, por você posso sofrer e ser feliz.
— Está ouvindo, Valentine? — exclamou Haydée. — Ele diz que por mim ele pode sofrer, por mim, que daria a vida por ele!
O conde retraiu-se por um instante.
— Terei vislumbrado a verdade? — disse ele. — Oh, meu Deus! Tanto faz! Recompensa ou castigo, aceito esse destino! Venha, Haydée, venha...
E enlaçando com o braço a cintura da moça, apertou a mão de Valentine e desapareceu.
Quase uma hora se passou, durante a qual, arfante, sem voz, olhos concentrados, Valentine permaneceu junto a Morrel. Finalmente sentiu seu coração bater, um sopro imperceptível abrir seus olhos e o leve frêmito que anuncia o retorno da vida percorrer todo o corpo do rapaz.
Seus olhos enfim se abriram, mas fixos e como que desatinados a princípio. Então a visão voltou, precisa, real; com a visão, o sentimento, com o sentimento, a dor.
— Oh! — ele exclamou desesperado. — Continuo vivo! O conde me enganou!
E sua mão estendeu-se para a mesa e pegou uma faca.
— Querido — disse Valentine com seu adorável sorriso —, acorde e olhe para onde estou.
Morrel deu um grito impressionante e, delirando, cheio de dúvidas, fascinado como que por uma visão celestial, caiu de joelhos...
No dia seguinte, aos primeiros raios do dia, Morrel e Valentine passeavam de braços dados pela praia, Valentine contando a Morrel como Monte Cristo aparecera em seu quarto, como lhe revelara tudo, como lhe
fizera tocar o crime com o dedo, e por fim como a havia milagrosamente salvado da morte, fazendo ao mesmo tempo com que todos a julgassem morta.
Haviam encontrado aberto o portão da caverna e saído. O céu expunha as últimas estrelas da noite no azul da madrugada.
Então Morrel avistou na penumbra de um aglomerado de rochas um homem que esperava um sinal para avançar. Apontou aquele homem para Valentine.
— Ah, é Jacopo — disse ela —, o capitão do iate. E, com um gesto, chamou-o.
— Tem alguma coisa a nos dizer? — perguntou Morrel.
— Tenho uma carta do conde para o senhor.
— Do conde! — murmuraram em uníssono os dois jovens.
— Sim, leia.
Morrel abriu a carta e leu:
Querido Maximilien, Há uma feluca ancorada para você. Jacopo irá levá-los até Livorno, onde o sr. Noirtier espera sua neta, a qual ele deseja abençoar antes que ela acompanhe você ao altar. Tudo que está nessa caverna, meu amigo, minha casa dos ChampsElysées e meu pequeno castelo de Le Tréport são o presente de núpcias que Edmond Dantès oferece ao filho do seu patrão Morrel. A srta. de Villefort fará a gentileza de pegar metade, pois suplico a ela que dê aos pobres de Paris toda a fortuna que lhe couber da parte de seu pai, que enlouqueceu, e da parte de seu irmão, falecido em setembro último com sua madrasta.
Diga ao anjo que vai olhar por sua vida, Morrel, para rezar às vezes por um homem que, como Satã, julgou-se por um instante igual a Deus, mas reconheceu, com toda a humildade de um cristão, que o poder supremo e a sabedoria infinita são atributos exclusivamente divinos. Essas preces talvez venham a suavizar o remorso que ele carrega no fundo do seu coração.
Quanto a você, Morrel, eis todo o segredo de minhas atitudes para consigo: não existe nem felicidade nem infelicidade neste mundo, existe a comparação de uma com a outra, só isso.
Apenas aquele que atravessou o extremo infortúnio está apto a sentir a extrema felicidade.
É preciso ter desejado morrer, Maximilien, para saber como é bom viver.
Portanto, vivam e sejam felizes, filhos diletos do meu coração, e nunca se esqueçam de que, até o dia em que Deus dignar-se a desvelar o futuro para o homem, toda a sabedoria humana estará nestas duas palavras:
Esperar e ter esperança.
Seu amigo, EDMOND DANTES
CONDE DE MONTE CRISTO
Durante a leitura dessa carta, que o informava acerca da loucura de seu pai e da morte de seu irmão, loucura e morte que ela ignorava, Valentine
empalideceu, um doloroso suspiro escapou de seu peito, e lágrimas, não menos pungentes por serem silenciosas, rolaram sobre suas faces. A felicidade custava-lhe muito caro.
Morrel, preocupado, olhou à sua volta.
— Para falar a verdade — disse ele —, o conde exagera em sua generosidade. Valentine irá contentar-se com metade da minha modesta fortuna. Onde está o conde, meu amigo? Leve-me até ele.
Jacopo apontou a mão para o horizonte.
— O quê! Que significa isso? — perguntou Valentine. — Onde está Haydée?
— Olhem — disse Jacopo.
Os olhos dos dois jovens concentraram-se numa linha indicada pelo marujo. Sobre essa linha azul-escura, que separava no horizonte o céu do Mediterrâneo, avistaram uma vela branca, grande como a asa de um albatroz.
— Partiu! — exclamou Morrel. — Partiu! Adeus, meu amigo, meu pai!
— Partiu! — murmurou Valentine. — Adeus, amiga! Adeus, irmã!
— Quem sabe voltaremos a nos encontrar um dia? — disse Morrel, enxugando uma lágrima.
— Querido — disse Valentine —, o conde não acaba de nos dizer que a sabedoria humana cabe inteira em duas palavras?
“Esperar e ter esperança.”
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