O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 48 de 119

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O Conde de Monte Cristo

8. O crédito ilimitado

1 “tão mal batizado”: Benedetto, em italiano, significa “abençoado”.

8. O crédito ilimitado

No dia seguinte, por volta das duas da tarde, uma caleche, atrelada a dois magníficos cavalos ingleses, parou em frente à porta de Monte Cristo. Um homem vestindo um casaco azul, com botões de seda da mesma cor, um colete branco, atravessado por uma enorme corrente de ouro, e uma calça cor de avelã, com cabelos tão negros e cobrindo de tal maneira as sobrancelhas que despertavam a suspeita de não serem naturais, tanto pareciam em desarmonia com as rugas inferiores que não conseguiam esconder; um homem, enfim, de cinqüenta a cinqüenta e cinco anos, que buscava ostentar quarenta, passou a cabeça pela portinhola de um cupê, em cujo painel estava pintada uma coroa de barão, e despachou seu groom para perguntar ao porteiro se o conde de Monte Cristo encontrava-se em casa.

Enquanto aguardava, esse homem considerou, com uma atenção tão minuciosa que beirava a impertinência, o exterior da residência, o que era possível distinguir do jardim, e a libré de alguns criados, que iam e vinham. O olhar desse homem era vivo, mas antes astucioso que espiritual.

Seus lábios eram tão finos que, em vez de se projetarem para fora, entravam na boca; finalmente, o tamanho e a proeminência das maçãs do rosto, sinal infalível de astúcia, a depressão na testa, a intumescência do occipital, que ultrapassava em muito grandes orelhas das menos aristocráticas, contribuíam para dar, levando-se em conta o conjunto da fisionomia, um caráter quase repugnante ao aspecto desse personagem, entretanto, bastante recomendável aos olhos do vulgo, por seus cabelos magníficos, pelo enorme diamante que exibia na camisa e pela fita vermelha que se estendia de uma lapela à outra do casaco.

O groom bateu na guarita do porteiro e perguntou:

— Não é aqui a residência do conde de Monte Cristo?

— É aqui que reside Sua Excelência — respondeu o porteiro —, mas...

Consultou Ali com o olhar.

Ali fez um sinal negativo.

— Mas...? — perguntou o groom.

— Mas Sua Excelência não está recebendo — respondeu o porteiro.

— Nesse caso, eis o cartão do meu patrão, o sr. barão Danglars.

Entregue-o ao conde de Monte Cristo, dizendo-lhe que, ao se dirigir para a Câmara, meu patrão fez um desvio para ter a honra de visitá-lo.

— Eu não falo com Sua Excelência — disse o porteiro. — O mordomo cumprirá a missão.

O groom voltou para o coche.

— E então? — perguntou Danglars.

O menino, todo envergonhado pela lição que acabava de receber, deu ao patrão a resposta que recebera do porteiro.

— Oh — reagiu Danglars —, então é um príncipe esse cavalheiro, que é chamado de Excelência e a quem apenas um mordomo pode dirigir-se; não faz mal, como ele tem um crédito comigo, terá de me procurar quando quiser dinheiro.

E Danglars jogou-se de volta no fundo do coche gritando para o condutor, de maneira a ser ouvido do outro lado da rua:

— À Câmara dos Deputados!

Através de uma gelosia de seu pavilhão, Monte Cristo, avisado a tempo, observara o barão e o estudara, com a ajuda de um excelente binóculo, com não menos atenção que o sr. Danglars dedicara à análise da casa, do jardim e das librés.

— Definitivamente — fez ele com um gesto de repulsa e enfiando os tubos de seu binóculo num estojo de marfim —, é uma criatura feia esse homem; é impressionante, quando o vemos reconhecemos a serpente de fronte achatada, o abutre de crânio protuberante e o bútio de bico aguçado!

— Ali! — gritou. Então deu uma batida num gongo de cobre. Ali apareceu. — Chame Bertuccio — disse.

No mesmo instante, Bertuccio entrou.

— Vossa Excelência mandou me chamar? — perguntou o intendente.

— Sim, senhor — disse o conde. — Viu os cavalos que acabam de parar à minha porta?

— Naturalmente, Excelência, são inclusive muito bonitos.

— Como é possível — disse Monte Cristo, franzindo o cenho —, quando lhe peço os dois cavalos mais vistosos de Paris, que haja na cidade dois outros cavalos tão vistosos quanto os meus, e que esses cavalos não estejam nas minhas cavalariças?

Ao cenho franzido e à entonação severa dessa voz, Ali abaixou a cabeça.

— Não é culpa sua , bom Ali — disse o conde em árabe, com uma brandura que não julgaríamos possível em sua voz, nem em sua fisionomia

—, você não é especialista em cavalos ingleses.

A serenidade voltou aos traços de Ali.

— Sr. conde — disse Bertuccio —, os cavalos que menciona não estavam à venda.

Monte Cristo deu de ombros:

— Saiba, sr. intendente, que tudo está sempre à venda para quem sabe dar o preço.

— O sr. Danglars pagou dezesseis mil francos por eles, sr. conde.

— E daí?! Tinha que lhe ter oferecido trinta e dois mil; ele é banqueiro, e um banqueiro nunca perde a oportunidade de dobrar seu capital.

— O sr. conde está falando sério? — indagou Bertuccio.

Monte Cristo olhou para o intendente como se estivesse perplexo com essa pergunta.

— Esta noite — disse ele — tenho uma visita a fazer; quero esses dois cavalos atrelados ao meu coche com arreios novos.

Bertuccio retirou-se fazendo uma mesura; perto da porta, parou e perguntou:

— A que horas Sua Excelência pretende fazer essa visita?

— Às cinco — respondeu Monte Cristo.

— Observo a Vossa Excelência que são duas horas — atreveu-se o intendente.

— Sei disso — contentou-se em responder o conde. Em seguida, voltando-se para Ali, ordenou:

— Desfile todos os cavalos diante da patroa; que ela escolha a parelha mais conveniente e mande me dizer se quer jantar comigo. Nesse caso, que a mesa seja posta em seus aposentos; vá e, ao descer, chame o mordomo.

Ali mal acabava de sair, e o mordomo entrou por sua vez.

— Sr. Baptistin — disse o conde —, há um ano que está a meu serviço; é hora da prova que imponho a todo o meu pessoal: o senhor me convém.

Baptistin inclinou-se.

— Resta saber se eu lhe convenho.

— Oh, sr. conde! — apressou-se a dizer Baptistin.

— Escute até o fim — continuou o conde. — O senhor ganha mil e quinhentos francos por ano, isto é, o salário de um bom e bravo oficial que arrisca a vida todos os dias; o senhor tem uma mesa que muitos chefes de repartição, infelizes servos infinitamente mais atarefados que o senhor, invejariam. Criado, o senhor mesmo tem criados que cuidam da sua roupa e de suas necessidades. Além dos mil e quinhentos francos de salário, o

senhor me rouba, nas compras que faz para a minha toalete, cerca de outros mil e quinhentos francos.

— Oh, Excelência!

— Não estou me queixando, sr. Baptistin, isso é razoável; entretanto, quero que tudo isso pare por aqui. O senhor não encontraria em lugar nenhum um emprego igual a esse que sua boa estrela lhe proporcionou.

Nunca espanco meus criados, nunca praguejo, nunca dou vazão à minha raiva, perdôo sempre um erro, jamais uma negligência ou um esquecimento. Minhas ordens são geralmente lacônicas, mas claras e precisas; prefiro repeti-las duas vezes, até três, a vê-las mal interpretadas.

Sou suficientemente rico para saber tudo que quero saber, e sou muito curioso, tome cuidado. Portanto, se eu viesse a saber que o senhor falou bem ou mal de mim, comentou minhas atitudes, vigiou minha conduta, o senhor deixaria imediatamente a minha casa. Nunca advirto os criados mais de uma vez. Está avisado, vá!

Baptistin inclinou-se e deu três ou quatro passos para se retirar.

— A propósito — continuou o conde —, esquecia-me de dizer que, todos os anos, invisto determinada quantia em benefício dos meus criados.

Os que demito perdem necessariamente esse dinheiro, do qual usufruem os que ficam e que a ele terão direito após a minha morte. Faz um ano que o senhor está comigo, sua fortuna começou, dê-lhe seqüência.

Essa alocução, feita diante de Ali, que permanecia impassível, considerando-se que não entendia uma palavra de francês, produziu sobre o sr. Baptistin um efeito que compreenderão todos os que estudaram a fisiologia do empregado doméstico francês.

— Farei tudo para me conformar em todos os pontos aos desejos de Vossa Excelência — ele disse. — Nesse sentido, vou adotar Ali como modelo.

— Oh, em absoluto! — disse o conde, com uma frieza de mármore. —

Ali tem muitos defeitos misturados às suas qualidades; portanto, não o tome como exemplo, pois ele é uma exceção; Ali não recebe salários, não é um criado, é meu escravo, é meu cão; se faltasse com seu dever, não iria despedilo, mas matá-lo.

Baptistin arregalou os olhos.

— Duvida? — disse Monte Cristo.

E repetiu para Ali as mesmas palavras que acabava de dizer a Baptistin.

Ali escutou, sorriu, aproximou-se do seu patrão, pôs um joelho no chão e

lhe beijou respeitosamente a mão.

Esse pequeno corolário da lição levou ao clímax da estupefação o sr.

Baptistin.

O conde fez sinal a Baptistin para sair e que Ali o seguisse. Ambos passaram ao seu gabinete e ali conversaram longamente.

Às cinco horas, o conde deu três toques no seu gongo. Um toque chamava Ali, dois toques, Baptistin, três toques, Bertuccio.

O intendente entrou.

— Meus cavalos! — disse Monte Cristo.

— Estão no coche, Excelência — replicou Bertuccio. — Devo acompanhar o sr. conde?

— Não, o cocheiro, Baptistin e Ali, isso basta.

O conde desceu e viu, atrelados a seu coche, os cavalos que admirara pela manhã no coche de Danglars.

Passando perto deles, lançou-lhes um olhar apressado.

— São bonitos, de fato — disse —, e fez bem em comprá-los; é verdade que um pouco atrasado.

— Excelência — disse Bertuccio —, não foi fácil comprá-los, e custaram bem caro.

— Os cavalos são menos belos por isso? — perguntou o conde, dando de ombros.

— Se Vossa Excelência está satisfeita — disse Bertuccio —, tudo está bem. Aonde vai Vossa Excelência?

— Rua de la Chaussée-d’Antin, à casa do barão Danglars.

Essa conversa deu-se no alto da escada. Bertuccio deu um passo para descer o primeiro degrau.

— Espere, senhor — disse Monte Cristo, detendo-o. — Preciso de um pedaço de terra à beira-mar, na Normandia, por exemplo, entre o Havre e Boulogne. Eu lhe dou margem para trabalhar, como vê. Seria preciso que, nessa propriedade, houvesse um pequeno porto, uma pequena enseada, uma pequena baía, aonde minha corveta pudesse entrar e ancorar; ela precisa apenas de quatro metros e meio de água. A embarcação ficará sempre a postos para se pôr ao largo, a qualquer hora do dia ou da noite que me aprouver lhe dar o sinal. O senhor se informará em todos os cartórios a respeito de uma propriedade nessas condições que lhe exponho; quando tiver conhecimento de alguma, irá visitá-la e, se ficar satisfeito,

compre-a no seu nome. A corveta deve estar a caminho de Fécamp, correto?

— Eu a vi partir na mesma noite em que deixamos Marselha.

— E o iate?

— O iate tem ordens para permanecer em Martigues.

— Bem! O senhor se corresponderá de tempos em tempos com os dois capitães que as comandam, de modo a que eles não fiquem relaxados.

— E quanto ao barco a vapor?

— Que está em Chalon-sur-Saône?

— Sim.

— As mesmas ordens que para os dois veleiros.

— Perfeitamente!

— Quando a propriedade estiver comprada, quero postos de muda de cinqüenta em cinqüenta quilômetros na estrada do Norte e na estrada do Midi.

— Vossa Excelência pode contar comigo.

O conde esboçou um gesto de satisfação, desceu os degraus e pulou no coche, que, puxado pelo trote da magnífica parelha, só parou em frente ao palacete do banqueiro.

Danglars presidia uma comissão, designada para discutir uma ferrovia, quando lhe vieram anunciar a visita do conde de Monte Cristo. A sessão, em todo caso, estava praticamente encerrada.

Ao nome do conde, ele se levantou.

— Cavalheiros — disse, dirigindo-se aos seus colegas, dos quais vários eram ilustres membros de uma ou outra Câmara —, perdoem-me se me despeço assim; mas imaginem os senhores que a financeira Thomson & French, de Roma, me envia um tal de conde de Monte Cristo, abrindolhe um crédito ilimitado no meu banco. É a brincadeira mais esdrúxula que meus congêneres estrangeiros já fizeram comigo. Fiquei muito curioso, palavra de honra, os senhores compreendem, e ainda estou curioso. Passei esta manhã na casa do pretenso conde. Se fosse um conde de verdade, hão de convir que não seria tão rico. O cavalheiro não está recebendo. Que lhes parece? Isso são modos da nobreza ou, os de alguma beldade exibidas pelo sr. de Monte Cristo? De toda forma, a casa situada nos Champs-Élysées lhe pertence, segundo me informei, e pareceu-me digna. Mas um crédito ilimitado — emendou Danglars, rindo sua risada má — torna mais que exigente o banqueiro em cujo estabelecimento o crédito é aberto. Portanto, tenho pressa em ver nosso homem. Julgo-me ludibriado. Mas eles não sabem com quem estão lidando; ri melhor quem ri por último.

Ao dizer essas palavras, com uma ênfase que lhe inflou as narinas, o sr.

barão despediu-se de seus convidados e passou para um salão branco e dourado que era famoso na rua Chausée-d’Antin.

Foi de lá que deu ordens para introduzirem o visitante, disposto a conhecê-lo de uma vez por todas.

O conde estava de pé, considerando algumas cópias de Albano e

do Fattore1, que impingiram ao barão como originais, e que, não obstante serem cópias, destoavam drasticamente das folhagens douradas de todas as cores que decoravam os tetos.

Ao barulho que Danglars fez ao entrar, o conde se voltou.

Danglars cumprimentou-o ligeiramente com a cabeça e fez sinal ao conde para que sentasse numa poltrona de madeira dourada, estofada de cetim branco bordado com fios de ouro.

O conde sentou-se.

— É ao sr. de Monte Cristo que tenho a honra de falar?

— E eu — respondeu o conde — ao senhor barão Danglars, cavaleiro da Legião de Honra, membro da Câmara dos Deputados?

Monte Cristo repetia todos os títulos que vira no cartão do barão.

Danglars sentiu a estocada e mordeu os lábios.

— Desculpe-me, cavalheiro — disse ele —, por não ter me referido de saída ao título com o qual o senhor me foi anunciado; porém, como sabe, vivemos sob um governo popular e sou um representante dos interesses do povo.

— Ou seja — espicaçou Monte Cristo —, ao mesmo tempo em que preservou o hábito de ser chamado de barão, perdeu o de chamar os outros de conde.

— Ah, tampouco faço questão do meu, senhor — respondeu displicentemente Danglars. — Eles me nomearam barão e fizeram-me cavaleiro da Legião de Honra por alguns serviços prestados, mas...

 

Danglars sentiu a estocada e mordeu os lábios.

— Mas o senhor abdicou dos seus títulos, como fizeram outrora os srs.

de Montmorency e de La Fayette2? É um belo exemplo a ser seguido, senhor.

— Não completamente, entretanto — disse Danglars, embaraçado. —

Para os criados, o senhor entende...

— Sim, para o seu pessoal, o senhor é fidalgo; para os jornalistas, senhor; e para os eleitores, cidadão. São nuances que combinam bem com o governo constitucional. Compreendo perfeitamente.

Danglars voltou a morder os lábios; viu que, naquele terreno, não tinha como medir-se com Monte Cristo; tentou então retornar para um assunto que lhe era mais familiar.

— Sr. conde — disse, inclinando-se —, recebi uma carta de recomendação da Thomson & French.

— Fico encantado, sr. barão. Permita-me tratá-lo como o trata seu pessoal, é um mau hábito adquirido em países onde ainda há barões, justamente porque não se fazem mais deles. Fico encantado, eu dizia; não

será necessário que eu mesmo me apresente, o que é sempre muito constrangedor. O senhor então dizia que recebeu uma carta de recomendação?

— Sim — disse Danglars —, mas admito que não compreendi muito bem o seu sentido.

— Bah!

— E tinha tido inclusive a honra de passar em sua casa para lhe pedir algumas explicações.

— Faça isso, senhor, aqui estou; ouvindo e disposto a ouvir.

— Tenho essa carta comigo, creio — disse Danglars, vasculhando no bolso. — Sim, aqui está: esta carta abre para o sr. conde de Monte Cristo um crédito ilimitado no meu estabelecimento.

— Ora, sr. barão! Que vê de obscuro nessas palavras?

— Nada, meu caro; apenas a palavra ilimitado...

— Que diabo! Essa palavra não é francesa... ? Compreenda, são angloamericanos que escrevem.

— Oh, perfeitamente, senhor, e, no tocante à semântica, não há nada a reparar, o mesmo não acontecendo, porém, no que se refere à contabilidade.

— Será que, a seu ver, a Thomson & French — perguntou Monte Cristo com o ar mais ingênuo que pôde assumir — não é suficientemente sólida, sr. barão? Raios! Isso me deixaria preocupado, pois tenho alguns investimentos com eles.

— Ah, totalmente sólida! — respondeu Danglars, com um sorriso quase zombeteiro. — Mas o sentido da palavra ilimitado, em matéria de finanças, é tão vago...

— Que é ilimitado, não é mesmo? — disse Monte Cristo.

— É justamente isso, senhor, que eu queria dizer. Ora, o vago é a

dúvida, e, diz o sábio, “na dúvida, abstém-te” 3.

— O que significa — continuou Monte Cristo —, que, se a Thomson & French está disposta a fazer loucuras, o banco Danglars não está disposto a seguir seu exemplo.

— Como assim, sr. conde?

— Oh, é o que parece; os srs. Thomson & French fazem negócios sem algarismos; mas o sr. Danglars tem um limite para os seus; é um homem sábio, como dizia ainda há pouco.

— Senhor — respondeu altivamente o banqueiro —, ninguém ainda reclamou da minha tesouraria.

— Então — respondeu friamente Monte Cristo —, parece que serei o primeiro.

— O que o levaria a isso?

— As explicações que me pede, cavalheiro, e que mais parecem hesitações...

Danglars mordeu os lábios; era a segunda vez que era derrotado por aquele homem e, dessa vez, em seu próprio campo. Sua cortesia escarninha era apenas fingimento, chegava às raias da impertinência.

Monte Cristo, ao contrário, sorria com a maior boa vontade do mundo e exibia, quando assim desejava, certa expressão ingênua que lhe era muito vantajosa.

— Enfim, cavalheiro — disse Danglars após um momento de silêncio

—, vou tentar me fazer compreender, solicitando que determine o senhor mesmo a soma que pretende retirar do meu banco.

— Mas, senhor — replicou Monte Cristo, decidido a não perder uma polegada de terreno na discussão —, se requisitei um crédito ilimitado em seu estabelecimento, foi justamente porque não sabia de que soma precisaria.

O banqueiro julgou chegado o momento de tomar a dianteira; jogou-se para trás na poltrona e, com um sorriso pesado e orgulhoso, disse:

— Oh, senhor, não tenha medo de realizar seus desejos; poderá então se convencer de que o capital do banco Danglars, por mais limitado que seja, é capaz de satisfazer as mais amplas exigências, e ainda que pedisse um milhão...

— Por acaso está brincando? — disse Monte Cristo.

— Eu disse um milhão — repetiu Danglars com uma pose ridícula.

— E que faria eu com um milhão? — devolveu o conde. — Por Deus!

Cavalheiro, se eu precisasse de apenas um milhão, não teria aberto um crédito para essa ninharia. Um milhão? Um milhão eu trago sempre na minha pasta ou no meu nécessaire de viagem.

E Monte Cristo retirou de uma caderneta, onde estavam seus cartões de visita, duas apólices do Tesouro de quinhentos mil francos cada uma, pagáveis ao portador.

Convinha aniquilar, e não irritar, um homem como Danglars. A bordoada teve seu efeito, o banqueiro vacilou e sentiu a vertigem,

arregalando para Monte Cristo dois olhos atônitos, cujas pupilas dilatavam-se pavorosamente.

— Vamos, admita — disse Monte Cristo — que está desafiando a Thomson & French. Meu Deus! É muito simples: previ o caso e, embora bastante alheio aos negócios, tomei minhas precauções. Aqui estão outras duas cartas iguais a que lhe é dirigida; uma é do banco Arnstein & Eskeles, de Viena, para o sr. barão de Rothschild, a outra é do banco Baring, de Londres, para o sr. Laffitte. Basta uma palavra do cavalheiro para que eu acabe com todas as suas preocupações, apresentando-me em uma ou outra dessas duas casas.

Estava feito: Danglars deu-se por vencido. Abriu com um terror visível a carta da Alemanha e a carta de Londres, que o conde lhe estendia na ponta dos dedos, e verificou a autenticidade das assinaturas com uma minúcia que teria sido insultuosa para Monte Cristo se ele não contasse com a perplexidade do banqueiro.

— Oh, cavalheiro, aqui estão três assinaturas que valem muitos milhões — disse Danglars, levantando-se como para saudar a força do ouro personificada no homem que tinha à sua frente. — Três créditos ilimitados em nossos estabelecimentos! Perdoe-me, sr. conde, porém, mesmo deixando de lado a desconfiança, é impossível não me admirar.

— Oh, um banco feito o seu não se admiraria com isso! — disse Monte Cristo, na maior polidez. — Nesse caso, pode enviar-me algum dinheiro, não é mesmo?

— Diga, sr. conde; estou às suas ordens.

— Ótimo! — concluiu Monte Cristo. — Agora que nos entendemos, pois nos entendemos, não é mesmo?

Danglars fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— E não tem mais nenhuma desconfiança? — continuou Monte Cristo.

— Oh, sr. conde! — exclamou o banqueiro. — Nunca tive nem sombra.

— Não, o senhor queria uma prova, só isso. Muito bem — repetiu o conde —, agora que nos entendemos, agora que não tem mais nenhuma desconfiança, estipulemos, se fizer a gentileza, uma soma geral para o primeiro ano: seis milhões, por exemplo.

— Seis milhões, pois não! — disse Danglars, sufocado.

— Se eu precisar de mais — emendou mecanicamente Monte Cristo —, engordamos um pouco esta cifra; mas não pretendo passar mais de um ano na França, e durante esse ano não creio que ultrapasse essa quantia...

Enfim, veremos... Queira, para começar, despachar quinhentos mil francos para mim amanhã. Estarei em casa até o meio-dia e, se porventura não estiver, deixarei um recibo com o meu intendente.

— O dinheiro estará em sua casa às dez horas da manhã, sr. conde —

respondeu Danglars. — Quer ouro, cartas de crédito, ou dinheiro?

— Ouro e cartas de crédito; meio a meio, por favor. E o conde se levantou.

— Devo lhe confessar uma coisa, sr. conde — disse Danglars por sua vez.

— Eu julgava ter noções precisas sobre todas as grandes fortunas da Europa. Não obstante, a sua, que me parece considerável, era, admito, completamente desconhecida para mim. Ela é recente?

— Não, senhor — respondeu Monte Cristo. — Ela é, ao contrário, de data bem remota: era uma espécie de tesouro de família na qual não se podia mexer, e portanto os juros acumulados triplicaram o capital; a época fixada pelo testamenteiro prescreveu há apenas alguns anos: e assim, faço uso dela há apenas alguns anos, e sua ignorância a esse respeito é bastante natural; em todo caso, o senhor a conhecerá melhor dentro em breve.

E o conde fez acompanhar essas palavras de um dos sorrisos de cera que tanto amedrontavam Franz d’Épinay.

— Com seu bom gosto e suas intenções, cavalheiro — continuou Danglars —, o senhor vai espalhar um luxo pela capital que irá nos esmagar a todos, pobres e singelos milionários. Entretanto, como me parece um diletante, pois quando entrei o senhor admirava meus quadros, peço permissão para lhe mostrar minha galeria: toda ela de quadros antigos, todos quadros de mestres autenticados como tais; não gosto dos modernos.

— Tem razão, senhor, pois eles em geral têm um grande defeito: o de ainda não terem tido tempo de se tornarem antigos.

— Posso lhe mostrar algumas estátuas de Thorwaldsen, Bartolini,

Canova4, todos artistas estrangeiros? Como vê, não aprecio os artistas franceses.

— Tem o direito de ser injusto com eles, senhor, são seus compatriotas.

— Mas tudo isso ficará para mais tarde, quando houvermos nos conhecido melhor. Por hoje, contento-me, caso me permita, claro, apresentar-lhe à baronesa Danglars; peço desculpas pela precipitação, mas um cliente como o senhor faz praticamente parte da família.

Monte Cristo inclinou-se em sinal de que aceitava a honra que o financista dispunha-se a lhe conceder.

Danglars tocou; um lacaio, vestindo uma libré reluzente, apareceu.

— A sra. baronesa está em seus aposentos? — perguntou Danglars.

— Sim, sr. barão — respondeu o lacaio.

— Sozinha?

— Não, a senhora está recebendo.

— Não será indiscreto apresentá-lo na frente de outros, não é mesmo, sr.

conde? Não está incógnito...

— Não, sr. barão — disse Monte Cristo, sorrindo —, não me arrogo esse direito.

— E quem está na companhia da baronesa? O sr. Debray? — perguntou Danglars, com uma bonomia que fez Monte Cristo, já informado sobre os transparentes segredos íntimos do financista, sorrir interiormente.

— Sim, o sr. Debray, sr. barão — respondeu o lacaio. Danglars fez um sinal com a cabeça.

Depois, voltando-se para Monte Cristo, explicou:

— O sr. Lucien Debray é um velho amigo nosso, secretário particular do ministro do Interior. Quanto à minha mulher, foi benévola ao se casar comigo, pois pertence a uma antiga família, é uma senhora de Salvieux, viúva em primeiras núpcias do sr. coronel barão de Nargonne.

— Não tenho a honra de conhecer a senhora Danglars; mas já estive com o sr. Lucien Debray.

— Ora! — exclamou Danglars. — Onde isso?

— Na casa do sr. de Morcerf.

— Ah! Conhece o visconde? — interessou-se Danglars.

— Vimo-nos reunidos em Roma, na época do Carnaval.

— Ah, sim — disse Danglars —, não ouvi falar de alguma coisa como uma aventura singular, com bandoleiros e ladrões nas ruínas? Ele foi tirado de lá milagrosamente. Creio que comentou alguma coisa sobre isso à minha mulher e à minha filha na sua volta da Itália.

— A senhora baronesa está à espera dos cavalheiros — disse o lacaio ao voltar.

— Passo à frente do senhor para lhe mostrar o caminho — anunciou Danglars, fazendo uma mesura.

— E eu o sigo — respondeu Monte Cristo.

1 Albano e Fattore: Francesco Albani (1578-1660), vulgo Albano, pintor barroco italiano, conhecido pelo ar gracioso de suas imagens; Luca Giordano (1632-1705), Il Fattore ou “o fazedor”, ou ainda Il Fa Presto, “aquele que faz rápido”, pintor da corte espanhola de imensa produção, entre a qual se destacam as pinturas feitas para o palácio do Escorial.