O Conde de Monte Cristo
13. Aparição
21 Netuno e Riccia: Netuno é uma aldeia, situada no mar Tirreno, a sessenta quilômetros ao sudoeste de Roma; Riccia, um burgo, no alto dos montes Albanos.
22 Nesso e Djanira: na mitologia grega, Djanira, esposa de Hércules, foi seqüestrada pelo centauro Nesso, que tentou violentá-la. Hércules, vindo em seu socorro, matou o centauro, que, antes de morrer, deu a Djanira uma túnica envenenada, assegurando-lhe tratar-se de um símbolo da fidelidade conjugal.
23 “pastora dos Alpes”: M. de Florian, sobrinho de Voltaire, tradutor de Cervantes para o francês e autor de vários livros, entre fábulas e romances, publicou em 1804 o romance Claudine, ou la petit Savoyard, no qual a personagem-título era a pastora de um convento. O romance fez grande sucesso na época.
24 “Robert ou de Schnetz”: Léopold Robert (1754-1835), pintor suíço, e Jean-Victor Schnetz (1787-1870), pintor francês, eram famosos por seus quadros históricos no estilo neoclássico.
25 “o atalho do Averno”: na Eneida, cantoVI, v.126, Virgílio situa aí a entrada do reino dos mortos.
13. Aparição
Franz encontrara um meio-termo para Albert chegar ao Coliseu sem passar por nenhuma ruína antiga, e, por conseguinte, sem que os preparativos graduais tirassem do colosso uma ínfima parte de suas gigantescas proporções. Era seguir a via Sistina, dobrar em ângulo reto em frente à Santa Maria Maggiore e chegar pela via Urbana e San Pietro in Vincoli até a via del Colosseo.
Esse itinerário, aliás, oferecia outra vantagem: era não distrair em nada Franz da impressão que lhe produzira a história contada por mestre Pastrini, e na qual estava estranhamente envolvido seu misterioso anfitrião de Monte Cristo. Assim, enfiara-se no seu canto e se entregara a mil interrogações infinitas, que fizera a si próprio e para as quais, sem exceção, não encontrara uma resposta satisfatória.
Afora isso, outra coisa lembrara-lhe seu amigo Simbad, o marujo: eram as misteriosas relações entre os salteadores e os homens do mar. O que dissera mestre Pastrini sobre a proteção encontrada por Vampa nos barcos dos pescadores e dos contrabandistas lembrava a Franz aqueles dois bandoleiros corsos que ele encontrara ceando com a tripulação do pequeno iate, o qual desviara de sua rota para fundear em Porto Vecchio com o único fim de desembarcá-los em terra. O nome atribuído a seu anfitrião de Monte Cristo, pronunciado pelo seu anfitrião do Hotel de Londres, demonstrava-lhe que ele exercia sua filantropia tanto nas costas de Piombino, Civita Vecchia, Óstia e Gaete quanto nas da Córsega, da Toscana e da Espanha; e como ele mesmo, de acordo com a lembrança de Franz, falara de Túnis e de Palermo, aquela era uma prova de que ele abraçava um círculo de relações bem extenso.
Ainda que exercendo grande poder sobre o espírito do rapaz, todas essas reflexões desapareceram no instante em que ele viu erguer-se diante de si o espectro sombrio e gigantesco do Coliseu, através de cujas aberturas a lua projetava os longos e pálidos raios que caem dos olhos dos fantasmas.
O coche parou a alguns passos da Meta Sudans1. O cocheiro veio abrir a portinhola; os dois rapazes pularam do coche e se viram diante de um cicerone que aparecera de repente.
Como o do hotel os seguira, agora tinham dois.
Impossível, de toda forma, evitar em Roma esse luxo dos guias: além do cicerone genérico, que se apodera de você no instante em que você põe o pé na soleira da porta do hotel, e não o larga mais até o dia em que põe o pé fora da cidade, há também um cicerone específico vinculado a cada monumento, e eu diria até a cada setor do monumento. Julguem então por si mesmos se faltam ciceroni no Coliseu, isto é, no monumento por excelência, que fazia Marcial
dizer2: “Que Mênfis cesse de se vangloriar dos bárbaros milagres de suas pirâmides, que parem de cantar as maravilhas da Babilônia; tudo deve ceder diante do imenso trabalho do anfiteatro dos césares e todas as vozes da reputação deviam se juntar para enaltecer esse monumento.”
Franz e Albert não tentaram subtrair-se à tirania dos cicerones. De resto, isso seria dificílimo, considerando que apenas os guias têm direito a percorrer o monumento com tochas. Não opuseram nenhuma resistência, portanto, e entregaram-se de pés e mãos atados aos guias.
Franz conhecia aquele passeio por já tê-lo feito umas dez vezes. Mas como seu companheiro, novato, punha pela primeira vez os pés no monumento de Flávio Vespasiano, devo admitir a seu favor, apesar do falatório ignorante de seus guias, que estava impressionadíssimo. Quem não a conhece não faz a mínima idéia da majestade dessa ruína, cujas proporções ainda são duplicadas pela misteriosa claridade desse luar meridional, cujos raios parecem um crepúsculo do Ocidente.
Assim, mal Franz, o pensador, deu cem passos sob os pórticos interiores, deixando Albert com seus guias, que não tencionavam renunciar ao direito imprescritível de lhe revelar em todos os detalhes o Fosso dos Leões, o Camarim dos Gladiadores, o Pódio dos Césares, ele enveredou por uma escada em escombros e, deixando-os continuar sua rota simétrica, foi muito pura e simplesmente sentar-se à sombra de uma coluna, em frente a uma chanfradura que lhe permitia admirar o gigante de granito em toda sua maravilhosa extensão.
Franz estava ali havia uns quinze minutos, perdido, como eu disse, na sombra de uma coluna, observando Albert, que acabava de sair de um vomitório localizado na outra extremidade do Coliseu, acompanhado por seus dois carregadores de tochas, os quais, semelhantes a sombras que seguem um fogo-fátuo, desciam de degrau em degrau até os lugares reservados às vestais, quando julgou ouvir uma pedra rolando, desgarrada da escada em frente àquela que acabava de subir para chegar ao lugar aonde estava sentado. Decerto não é coisa rara uma pedra, pisoteada pelo tempo, se soltar e rolar no abismo; mas, dessa vez, parecia-lhe que a pedra cedera aos pés de um homem e que um barulho de passos vinha até ele, embora quem o provocava fizesse de tudo para abafá-lo.
Com efeito, ao cabo de um instante, um homem apareceu, saindo gradualmente da sombra à medida que subia a escada, cujo vão, situado defronte de Franz, era iluminado pela lua, mas cujos degraus, à medida que neles se descia, mergulhavam na escuridão.
Podia ser um turista como ele, preferindo a meditação solitária à tagarelice irrelevante de seus guias, e, por conseguinte, sua aparição nada tinha que pudesse surpreendê-lo; porém, pela hesitação com que subiu os últimos degraus, pela maneira como, ao chegar na plataforma, se deteve e pareceu escutar, era evidente que fora ali com um objetivo específico e que estava à espera de alguém.
Com um movimento instintivo, Franz esquivou-se o mais que pôde atrás da coluna.
A dez pés do solo onde estavam ambos, a abóbada estava esburacada e uma abertura redonda, semelhante à de um poço, permitia avistar o céu todo cheio de estrelas.
Em torno dessa abertura, que talvez há centenas de anos já desse passagem aos raios da lua, cresciam moitas, cujos recortes verdes e débeis destacavam-se nitidamente do azul fosco do firmamento, enquanto grandes cipós e potentes galhos de trepadeiras pendiam desse terraço superior e balançavam sob a abóbada, feito cordas flutuantes.
O personagem cuja chegada misteriosa atraíra a atenção de Franz estava instalado numa semipenumbra, que não lhe permitira distinguir seus traços, mas que entretanto não era suficientemente escura para impedi-lo de examinar sua roupa: estava agasalhado num grande casaco marrom do qual uma das abas, aberta sobre seu ombro esquerdo, escondia-lhe a parte inferior do rosto, enquanto seu chapéu de abas largas cobria a parte superior. Apenas a extremidade de suas roupas achava-se iluminada sob a luz oblíqua que passava pela abertura, permitindo distinguir uma calça preta emoldurando graciosamente uma bota de verniz.
Aquele homem pertencia evidentemente, se não à aristocracia, pelo menos à alta sociedade.
Depois de alguns minutos ali, começou a dar sinais visíveis de impaciência, quando então um ligeiro ruído se fez ouvir no terraço
superior.
No mesmo instante, uma sombra pareceu interceptar a luz, um homem surgiu no vão da abertura, mergulhou seu olhar penetrante nas trevas e percebeu o homem do casaco; imediatamente ele agarrou um punhado dos cipós pendentes e das trepadeiras flutuantes, deixou-se deslizar e, chegando a três ou quatro pés do solo, saltou com leveza. Vestia a roupa de um genuíno indivíduo do
Trastevere3.
— Desculpe, Excelência — disse ele em dialeto romano —, por tê-lo feito esperar. Mesmo assim, me atrasei apenas poucos minutos. Acaba de dar dez horas em São João de Latrão.
— Fui eu que me antecipei e não o senhor que se atrasou — respondeu o estranho no mais puro toscano. — Portanto, nada de cerimônia; aliás, se me tivesse feito esperar, eu logo imaginaria ter sido por algum motivo independente de sua vontade.
— E teria tido razão, Excelência. Venho do castelo Sant’Angelo, e tive todas as dificuldades do mundo para falar com Beppo.
— Quem é esse Beppo?
— Beppo é um empregado da prisão, a quem dou um dinheirinho para saber o que se passa dentro do castelo de Sua Santidade.
— Ah, ah! Vejo que é um homem precavido, meu caro!
— Que posso fazer, Excelência! Nunca se sabe o que pode acontecer; talvez um dia eu também seja apanhado na rede, como o pobre Peppino, e precise de um rato para roer as malhas da minha
prisão4.
— Resumindo, o que soube?
— Haverá duas execuções terça-feira às duas horas, como é hábito em Roma nas aberturas das grandes festas. Um condenado será
mazzolato5;
trata-se de um miserável que matou o padre por quem foi criado e que não nos interessa em nada. O outro será decapitato, e este é o coitado do Peppino.
— O que o senhor queria, meu caro? O senhor inspira um terror tão grande, não apenas ao governo pontifício mas também aos reinos vizinhos, que eles desejam a qualquer custo dar um exemplo.
— Mas Peppino nem sequer faz parte do meu bando; é um pobre pastor que não cometeu outro crime a não ser nos fornecer víveres.
— O que o torna um perfeito cúmplice. Tanto que estão cheios de considerações para com ele; em vez de torturá-lo, como ao senhor se um dia lhe puserem as mãos, vão se contentar em guilhotiná-lo. De toda
forma, isso irá variar os entretenimentos do povo e haverá espetáculo para todos os gostos.
— Sem contar aquele que estou preparando e pelo qual ninguém espera
— respondeu o indivíduo do Trastevere.
— Meu caro amigo, permita-me dizer — disse o homem do casaco —
que o senhor me parece disposto a fazer alguma besteira.
— Estou disposto a tudo para impedir a execução do pobre-diabo que está em dificuldades por ter me servido; per la Madona! Eu me veria como um covarde se não fizesse alguma coisa por esse bravo rapaz!
— E o que fará?
— Espalharei vinte homens em volta do cadafalso e, quando o trouxerem, ao meu sinal, atacaremos a escolta com punhais e o libertaremos.
— Isso me parece muito arriscado, e não tenho dúvida de que o meu plano é melhor que o seu.
— E qual é o seu plano, Excelência?
— Darei mil piastras a alguém que conheço e que obterá o adiamento da execução de Peppino para o ano que vem; em seguida, ao longo do ano, darei mil piastras a outro alguém que conheço e o farei fugir da prisão.
— Tem certeza de que vai dar certo?
— Pardieu — disse em francês o homem do casaco.
— Perdão? — perguntou o trasteverino.
— Quero dizer, meu caro, que farei mais sozinho com o meu ouro que o senhor e toda a sua gente com seus punhais, pistolas, carabinas e trabucos.
Portanto, não se preocupe.
— Magnífico; mas, se fracassar, estaremos preparados.
— Continuem a postos, se for do seu agrado, mas esteja certo de que obterei o indulto.
— É depois de amanhã, terça-feira. Muito cuidado, pois o senhor tem apenas amanhã.
— Ora! O dia compõe-se de vinte e quatro horas, cada hora compõe-se de sessenta minutos, cada minuto compõe-se de sessenta segundos; em oitenta e seis mil e quatrocentos segundos é possível fazer muita coisa.
— Como saberemos se foi bem-sucedido, Excelência?
— É muito simples; aluguei as três últimas janelas do Café Ruspoli; se eu conseguir o indulto, as duas janelas do canto serão guarnecidas com
damasco amarelo, mas a do meio será guarnecida com damasco branco e uma cruz vermelha.
— Perfeito. E por intermédio de quem o senhor fará chegar o indulto?
— Envie-me um dos seus homens disfarçado de penitente e entregarei a ele. Graças ao seu disfarce, ele chegará ao pé do cadafalso e dará a bula ao chefe da confraria, que a levará ao carrasco. Nesse ínterim, dê a notícia a Peppino; que ele não morra de medo ou enlouqueça, pois isto significaria uma despesa inútil de nossa parte.
— Escute, Excelência — disse o camponês —, sabe que lhe sou leal e tem certeza disso, pois não?
— Espero que sim, pelo menos.
— Ótimo! Se o senhor salvar Peppino, será mais que lealdade no futuro, será obediência.
— Cuidado com o que diz, meu caro! Talvez um dia eu o lembre disso, pois talvez um dia, também, precise de você...
— Saiba então, Excelência, que me encontrará na hora da necessidade como eu o encontrei a essa mesma hora; e, se por acaso estiver do outro lado do mundo, bastará me escrever: “Faça isso”, e eu o farei, palavra de...
— Schhh! — fez o desconhecido. — Ouço um barulho.
— São turistas visitando o Coliseu com tochas.
— É tolice que nos deixemos ver juntos. Esses guias são informantes e poderiam reconhecê-lo; por mais honrosa que seja a nossa amizade, caro amigo, se souberem que somos ligados como somos, essa ligação, tenho grande receio, me faria perder parte da minha credibilidade.
— Então, se o senhor conseguir o indulto...
— A janela do meio guarnecida com uma cortina de damasco branco e uma cruz vermelha.
— Se não conseguir... ?
— Três cortinas amarelas.
— Nesse caso... ?
— Nesse caso, meu amigo, brinque à vontade com seu punhal, dou-lhe permissão e estarei lá para assistir.
— Adeus, Excelência, conto com o senhor, conte comigo.
A essas palavras, o indivíduo do Trastevere desapareceu pela escada, enquanto o desconhecido, cobrindo mais que nunca o rosto com o casaco, passou a dois passos de Franz e desceu na arena pelos degraus externos.
Um segundo depois, Franz ouviu seu nome ressoar sob as abóbadas: era Albert que o chamava.
Antes de responder, esperou que os dois homens ganhassem distância, sem se preocupar em lhes informar que haviam tido uma testemunha que, embora sem ver seus rostos, não perdera uma palavra de sua conversa.
Dez minutos depois, Franz deslizava para o Hotel de Londres, escutando com uma distração bastante impertinente a erudita
dissertação que Albert fazia, citando Plínio e Calpúrnio6, sobre as redes guarnecidas de pontas de ferro que impediam os animais ferozes de avançar nos espectadores.
Deixava-o continuar sem contradizê-lo; tinha pressa em ficar sozinho para pensar sem distração no que acabava de acontecer à sua frente.
Daqueles dois homens, um lhe era claramente estranho, e era a primeira vez que o via e ouvia, mas não se dava o mesmo com o outro; e, embora Franz não tivesse distinguido seu rosto, constantemente tragado pela sombra ou escondido pelo casaco, as vibrações daquela voz o haviam impressionado suficientemente da primeira vez que as ouvira para que pudessem um dia voltar a ressoar à sua frente sem que as reconhecesse.
Havia, sobretudo nas entonações sarcásticas, alguma coisa de estridente e metálico, que o fizera estremecer nas ruínas do Coliseu tanto quanto na caverna de Monte Cristo.
Franz estava totalmente convencido de que aquele homem não era outro senão Simbad, o marujo.
Em qualquer outra circunstância, a curiosidade que lhe inspirara tal homem teria sido tão grande que ele teria se apresentado à sua frente; mas, naquela oportunidade, a conversa que acabava de ouvir era demasiado íntima para que ele não fosse contido pelo medo, bastante sensato, de que sua aparição não o agradaria. Deixara-o, portanto, afastar-se, como vimos, mas prometendo-se, caso o encontrasse de novo, não deixar escapar a segunda oportunidade como fizera com a primeira.
Franz estava preocupado demais para dormir bem. Sua noite foi empregada em passar e repassar no espírito todas as circunstâncias relacionadas ao homem da caverna e ao desconhecido do Coliseu, e que tendiam a fazer desses dois personagens o mesmo indivíduo; quanto mais Franz refletia, mais se aferrava a essa opinião.
Dormiu com o raiar do dia, o que fez com que só acordasse bem tarde.
Albert, como autêntico parisiense, já tomara suas precauções para a noite.
Mandara reservar um camarote no Teatro Argentina.
Franz tinha várias cartas a escrever para a França, deixou portanto o coche com Albert o resto do dia.
Às cinco horas, Albert voltou; entregara suas cartas de recomendação, tinha convites para todas as noites e vira Roma.
Um dia fora suficiente para Albert fazer tudo isso.
Sem falar que teve tempo de se informar da ópera em cartaz e dos atores que a representariam.
A peça intitulava-se Parisina7; os atores tinham nome: Coselli,
Moriani e a Spech8.
Nossos dois rapazes não estavam tão infelizes, como podemos ver; iriam assistir à representação de uma das melhores óperas do autor
de Lucia di Lammermoor9, com três dos artistas mais famosos da Itália.
Albert jamais se habituara aos teatros ultramontanos, com lugares cativos na frente e desprovidos tanto de galerias quanto de camarotes abertos; era duro para um homem que tinha sua poltrona
no Bouffe10 e uma cota do camarote infernal no Opéra11. O que não impedia Albert de fazer toaletes flamejantes todas as vezes que ia ao Opéra com Franz; toaletes vãs; pois, temos que admitir, para vergonha de um dos representantes mais dignos da nossa moda, embora há quatro anos sulcasse a Itália em todos os sentidos, Albert não tivera uma única aventura amorosa.
Às vezes Albert tentava brincar a esse respeito, mas no fundo ficava singularmente mortificado; ele, Albert de Morcerf, um dos moços mais concorridos, continuava deixando a desejar. A coisa era ainda mais penosa na medida em que, de acordo com o modesto costume dos nossos queridos compatriotas, Albert partira de Paris com a convicção de que teria os maiores sucessos na Itália e faria as delícias do bulevar de Gand com o relato de suas façanhas.
Coitado! Não lhe acontecera nada disso: as encantadoras condessas genovesas, florentinas e napolitanas estavam presas não aos seus maridos, mas aos seus amantes, e Albert adquirira a cruel convicção de que as italianas levam pelo menos uma vantagem sobre as francesas, a de serem fiéis à sua infidelidade.
Não quero dizer que na Itália, como em toda parte, não haja exceções.
Em contrapartida, Albert era não apenas um cavalheiro definitivamente elegante, como também um homem muito inteligente; além do mais, era visconde: visconde de nobreza recente, é verdade, mas hoje ninguém
precisa justificar seus títulos, não interessa se datam de 1399 ou de 1815!
Acima de tudo isso, pairavam cinqüenta mil libras de renda. Mais do que o necessário, como se vê, para estar na moda em Paris. Era então de certa forma humilhante ainda não ter sido seriamente notado por ninguém em nenhuma das cidades pelas quais passara.
Mas ele esperava se recuperar em Roma, o Carnaval sendo, em todos os países da Terra que celebram essa adorável instituição, uma época de liberdade, quando até os mais severos deixam-se arrastar por alguma loucura. Ora, como o Carnaval começava no dia seguinte, era muito importante que Albert mostrasse seu cartão de visita antes dessa abertura.
Com essa intenção, portanto, havia alugado um dos camarotes mais visíveis do teatro, e feito, para a ocasião, uma toalete irrepreensível. Era na primeira fila, equivalente à galeria na França. Em todo caso, lá e cá as três primeiras fileiras são igualmente aristocráticas, sendo chamadas por essa razão de fileiras nobres.
A propósito, esse camarote, no qual cabiam doze com folga, custara aos dois amigos um pouco menos caro que um camarote de quatro
pessoas no Ambigu12.
Albert ainda tinha outra esperança, de que, se acontecesse de ocupar um lugar no coração de uma bela romana, isso o levasse naturalmente a conquistar um posto no coche, e, por conseguinte, a ver o Carnaval do alto de um veículo aristocrático ou de uma sacada principesca.
Todas essas considerações animavam Albert mais que nunca. Ele dava as costas para os atores, debruçava-se para fora do camarote e mirava todas as beldades femininas com um binóculo de quinze centímetros de comprimento.
Isso não fazia com que nenhuma delas recompensasse, com um olhar sequer, ainda que de curiosidade, toda a agitação a que Albert se entregava.
Com efeito, toda a platéia conversava sobre seus assuntos, seus amores, seus programas, sobre o Carnaval que começava no dia seguinte, a semana Santa que se aproximava, sem prestar a menor atenção aos atores ou à peça, à exceção dos momentos importantes, quando então todos se voltavam, fosse para ouvir uma parte do recitativo de Coselli, fosse para aplaudir algum feito brilhante de Moriani, fosse para gritar bravo para a Spech; em seguida, as conversas particulares readquiriam seu ritmo normal. Perto do fim do primeiro ato, a porta de um camarote até ali ainda vazio se abriu, e Franz viu entrar uma pessoa à qual tivera a honra de ter sido apresentado em Paris, que ele julgava ainda na França. Albert viu o movimento esboçado pelo amigo a essa aparição e, voltando-se para ele, perguntou:
— Conhece essa mulher?
— Conheço; que acha dela?
— Encantadora, meu caro, e loura. Oh, que cabelo adorável! É francesa?
— É veneziana.
— E você a chama de...
— Condessa G...
— Oh, conheço-a de nome! — exclamou Albert. — Dizem que é tão inteligente quanto bonita. Diacho, quando penso que poderia tê-la conhecido no último baile da sra. de Villefort, no qual ela estava presente, e que desprezei isso: sou um grande tolo!
— Quer que eu repare esse erro? — perguntou Franz.
— Como! Conhece-a tão intimamente assim para me acompanhar ao seu camarote?
— Tive a honra de falar com ela três ou quatro vezes na vida; mas, como sabe, isso é rigorosamente o bastante para não se cometer uma inconveniência.
Nesse momento, a condessa avistou Franz e lhe fez um aceno gracioso com a mão, ao qual ele respondeu com uma respeitosa inclinação da cabeça.
— Ora, mas parece que está nas boas graças dela! — admirou-se Albert.
— Pois bem! Eis o que o engana, fazendo-nos, a nós franceses, cometer tolices sem conta no estrangeiro; é o fato de submetermos tudo aos nossos pontos de vista parisienses; na Espanha, e sobretudo na Itália, não julgue nunca a intimidade das pessoas pela liberalidade dos cumprimentos.
Conquistei apenas a simpatia da condessa, ponto final.
— Simpatia do coração? — perguntou Albert, rindo.
— Não, de espírito, só isso — respondeu seriamente Franz.
— E quando isso aconteceu?
— Durante um passeio ao Coliseu, semelhante ao que fizemos juntos.
— Ao luar?
— Sim.
— Sozinhos?
— Praticamente!
— E conversaram...
— Sobre os mortos.
— Ah — exclamou Albert —, muito recreativo, de fato! Pois bem!
Quanto a mim, prometo-lhe que, se tiver a felicidade de ser o consorte dessa bela condessa num passeio desse tipo, só falarei dos vivos.
— E talvez cometa um erro.
— Enquanto isso não acontece, vai me apresentar a ela como prometeu?
— Assim que o pano cair.
— Como é longo esse maldito primeiro ato!
— Escute o finale, é belíssimo, e Coselli canta-o admiravelmente.
— Sim, que estilo!
— A Spech é dramática demais nessa passagem.
— Dá para entender que, depois de ouvir a Sontag e a Malibran13. ..
— Não acha excelente a técnica de Moriani?
— Não gosto dos morenos que cantam louro.
— Ah, meu caro — disse Franz, voltando-se, enquanto Albert continuava a espiar pelo binóculo —, você é muito difícil.
Finalmente o pano caiu para grande satisfação do visconde de Morcerf, que pegou seu chapéu, ajeitou rapidamente o cabelo, a gravata, os punhos, e lembrou a Franz que estava à sua espera.
Como, de sua parte, a condessa, que Franz interrogava com os olhos, sugeriu-lhe com um sinal que seria bem-vindo, ele não tardou a satisfazer a pressa de Albert. Seguido por seu companheiro, que aproveitou o percurso para retificar os vincos que os movimentos pudessem ter imprimido à gola de sua camisa e à lapela de seu casaco, contornou o hemiciclo e foi bater no camarote no4, ocupado pela condessa.
Imediatamente o rapaz que sentava ao lado dela na frente do camarote se levantou, cedendo o lugar, segundo o costume italiano, ao recém-chegado, que deve cedê-lo por sua vez à chegada de outra visita.
Franz apresentou Albert à condessa como um dos nossos mais distintos rapazes por sua posição social e sua inteligência; o que, aliás, era verdade; pois em Paris, e no meio em que vivia, Albert era um cavalheiro irrepreensível. Acrescentou que, desesperado por não ter conseguido aproveitar a temporada da condessa em Paris para ser apresentado a ela, Albert o encarregara de reparar esse erro, missão que cumpria pedindo à
condessa, em relação à qual ele próprio precisaria de um intermediário, para desculpá-lo por sua indiscrição.
A condessa respondeu dirigindo um encantador cumprimento a Albert e estendendo a mão para Franz.
Albert, convidado por ela, ocupou o lugar vazio na frente, enquanto Franz sentou-se na segunda fileira, atrás da condessa.
Albert descobrira um excelente assunto para conversar: era Paris; falava de amigos que tinha em comum com a condessa. Franz percebeu que ele estava em seu terreno. Deixou-o à vontade e, pedindo-lhe seu gigantesco binóculo, começou por sua vez a explorar a sala.
Sozinha na frente de um camarote, sentada na terceira fileira diante deles, estava uma mulher admiravelmente bela, vestindo um traje típico grego, que usava com tanta desenvoltura que era evidente ser seu traje habitual.
Atrás dela, na sombra, desenhava-se a forma de um homem cujo rosto era impossível discernir.
Franz interrompeu a conversa de Albert e da condessa para perguntar a esta última se conhecia a bela albanesa, tão digna de atrair não só a atenção dos homens, como a das mulheres.
— Não — disse ela —, tudo que sei é que está em Roma desde o começo da temporada; pois, na abertura do teatro, eu a vi onde está agora; e faz um mês que não perde uma única representação, ora acompanhada pelo homem que está com ela neste momento, ora simplesmente escoltada por um criado negro.
— Qual é a sua opinião sobre ela, condessa?
— Extremamente bela. Medora14 devia se parecer com essa mulher.
Franz e a condessa trocaram um sorriso. Ela voltou a conversar com Albert, e Franz a observar sua albanesa.
O pano se abriu com um balé. Era um daqueles bons balés italianos, encenados pelo famoso Henry, que conquistara como coreógrafo, na Itália, uma reputação colossal, a qual o infeliz veio a perder no Teatro Náutico; um daqueles balés em que todo mundo, desde o protagonista até o último coadjuvante, tem tanta importância na ação que cento e cinqüenta pessoas fazem o mesmo gesto ao mesmo tempo e levantam o mesmo braço ou a mesma perna.
O balé intitulava-se Dorlisca.
Franz estava preocupado demais com sua bela grega para dar atenção ao balé, por mais interessante que este fosse. Quanto a ela, sentia um prazer visível com o espetáculo, prazer que fazia um contraste supremo com a despreocupação profunda do seu acompanhante, o qual, enquanto durou a obra-prima coreográfica, não fez um movimento, parecendo, apesar do barulho infernal que faziam os trompetes, os címbalos e os cálamos na orquestra, saborear as doçuras celestiais de um sono tranqüilo e radioso.
Finalmente o balé terminou e o pano caiu em meio aos aplausos frenéticos de uma platéia inebriada.
Graças a esse hábito de partir a ópera com um balé, os entreatos são muito curtos na Itália, os cantores têm tempo de descansar e mudar de figurino enquanto os bailarinos executam suas piruetas e elaboram seus entrechats.
A bela grega.
Teve início a abertura do segundo ato; aos primeiros golpes de arco, Franz viu o dorminhoco se levantar lentamente e se aproximar da grega,
que se voltou para lhe dirigir algumas palavras e de novo apoiou os cotovelos no balaústre do camarote.
O rosto de seu interlocutor continuava na sombra, e Franz era incapaz de distinguir qualquer um de seus traços.
O pano abriu, a atenção de Franz foi necessariamente atraída pelos atores, e seus olhos abandonaram por um instante o camarote da bela grega para se concentrarem no palco.
O ato começa, como sabemos, com o dueto do sonho: Parisina, dormindo, deixa escapar diante de Azzo o segredo de seu amor por Ugo; o esposo traído passa por todos os tormentos do ciúme, até que, convencido de que sua mulher lhe é infiel, acorda-a para lhe anunciar sua vingança iminente.
Esse dueto é um dos mais belos, mais expressivos e mais terríveis já saídos não fosse considerado um melômano aficcionado, aquilo produziu sobre ele um efeito profundo. Ia, por conseguinte, juntar seus aplausos aos da sala, quando suas mãos, prestes a se reunir, permaneceram afastadas, e o bravo que escapava de sua boca expirou em seus lábios.
O homem do camarote ficara de pé, e, com a cabeça na luz, Franz acabava de identificar o misterioso habitante de Monte Cristo, aquele cujo aspecto e voz, na noite anterior, julgara reconhecer nas ruínas do Coliseu.
Não havia dúvida, o estranho viajante morava em Roma.
A expressão da fisionomia de Franz estava certamente em harmonia com a perturbação que essa aparição lançava em seu espírito, pois a condessa olhou para ele, caiu na risada e perguntou-lhe o que tinha.
— Sra. condessa — respondeu Franz —, eu quis saber ainda há pouco se conhecia aquela mulher albanesa; agora lhe pergunto se conhece seu marido.
— Tão pouco quanto a ela — respondeu a condessa.
— Nunca prestou atenção nele?
— Aí está uma pergunta bem à francesa! O senhor sabe muito bem que, para nós, italianas, não existe outro homem no mundo a não ser o que amamos!
— Está certo — respondeu Franz.
— Seja como for — ela disse, encostando o binóculo de Albert nos próprios olhos e dirigindo-o para o camarote —, deve ser algum novo desterrado, algum fantasma que saiu do túmulo com a autorização do coveiro, pois me parece terrivelmente pálido.
— Ele é sempre assim — respondeu Franz.
— Conhece-o então? — perguntou a condessa. — Então sou eu quem lhe pergunto quem ele é.
— Creio já tê-lo visto e acho que o reconheço.
— É mais que compreensível — ela disse, fazendo um meneio com seus belos ombros, como se um calafrio corresse por suas veias —, um homem desses não dá para esquecer.
O efeito que Franz sentira não era então uma impressão particular, uma vez que outra pessoa o sentia como ele.
— E então — perguntou Franz à condessa, depois que ela fez questão de olhar pelo binóculo mais uma vez —, que pensa desse homem?
— Que parece lorde Ruthwen15 em carne e osso.
Com efeito, essa segunda evocação a Byron impressionou Franz: se havia um homem capaz de convencê-lo da existência de vampiros, era aquele homem.
— Preciso saber quem é — disse Franz, levantando-se.
— Oh, não! — exclamou a condessa. — Não, não me deixe, conto com o senhor para me levar em casa, está preso.
— Como! Está realmente com medo? — perguntou-lhe Franz, debruçando-se em seu ouvido.
— Escute — disse-lhe ela —, Byron jurou para mim que acreditava em vampiros, disse inclusive que já vira alguns, descreveu-me sua fisionomia.
Pois bem, é literalmente como ele: aqueles cabelos pretos, aqueles olhos imensos, luzindo uma chama estranha, aquela palidez mortal; além do mais, observe que ele não está com uma mulher igual às outras mulheres, está com uma estrangeira... uma grega, uma cismática... provavelmente alguma feiticeira como ele. Por favor, não vá. Comece amanhã sua investigação se bem lhe aprouver, mas hoje declaro que está preso.
Franz insistiu.
— Escute — disse ela, levantando-se —, vou embora; não posso ficar até o fim do espetáculo, tenho um mundo de gente em casa: seria tão pouco galante a ponto de me negar sua companhia?
Não havia outra resposta a dar senão pegar o chapéu, abrir a porta e oferecer o braço à condessa.
Foi o que ele fez.
A condessa estava de fato muito abalada; e o próprio Franz não conseguia escapar de certo terror supersticioso, tanto mais espontâneo na medida em que, se na condessa devia-se uma sensação instintiva, nele era o resultado de uma lembrança.
Percebeu que ela tremia ao subir no coche.
Acompanhou-a até em casa: não havia ninguém lá e ninguém a esperava; ele a censurou por isso.
— Na verdade — disse-lhe ela —, não me sinto muito bem e preciso ficar a sós; a visão daquele homem me deixou transtornada.
Franz esboçou uma risada.
— Não ria — disse ela —, aliás, sua risada não é sincera. E prometa-me uma coisa.
— O quê?
— Prometa.
— Tudo que quiser, exceto desistir de descobrir quem é esse homem.
Tenho motivos que não posso lhe dizer para saber quem ele é, de onde vem e para onde vai.
— De onde vem, ignoro; mas, para onde vai, posso dizer-lhe; vai para o inferno com certeza.
— Voltemos à promessa que queria arrancar de mim, condessa — disse Franz.
— Ah, é de voltar diretamente para o hotel e não tentar ver esse homem esta noite. Há certas afinidades entre as pessoas de quem nos despedimos e as pessoas que encontramos. Não sirva de veículo entre esse homem e eu.
Amanhã, corra atrás dele se bem lhe aprouver; mas nunca me apresente a ele, se não quiser me matar de medo. Dito isto, boa-noite; trate de dormir; quanto a mim, sei muito bem que não vou pregar o olho.
E, a essas palavras, a condessa despediu-se de Franz, deixando-o sem saber se ela se divertira às suas custas ou se realmente sentira tanto medo.
Ao voltar para o hotel, Franz encontrou Albert vestindo um robe de chambre, de polainas, e voluptuosamente estendido numa poltrona enquanto fumava seu charuto.
— Ah, é você! — disse-lhe ele. — Palavra que só o esperava amanhã.
— Meu caro Albert — respondeu Franz —, fico feliz por encontrar a oportunidade de lhe dizer de uma vez por todas que você faz uma idéia errada das mulheres italianas; parece-me, entretanto, que suas desventuras amorosas deveriam ter servido para se livrar dela.
— Que remédio! Essas mulheres demoníacas são incompreensíveis!
Elas lhe dão a mão e apertam a sua; falam com você baixinho e pedem
para você levá-las em casa; com menos da metade uma parisiense já perderia a reputação!
— Mas é justamente porque nada têm a esconder e vivem à luz do dia que as mulheres são tão sem-cerimônia no belo país onde o
ecoa o sì16,
como diz Dante. Aliás, você viu muito bem que a condessa sentiu medo de verdade.
— Medo de quê? Daquele honesto cavalheiro que estava à nossa frente com a grega bonita? Mas eu quis esclarecer as coisas quando saíram, e cruzei com eles no corredor. Não sei onde diabos você arranjou todas essas idéias do outro mundo! É um rapaz muito formoso, muito bem vestido, e que, tudo indica, veste-se na França
com o Blain ou o Humann17; um pouco pálido, é verdade, mas você sabe que palidez é marca de distinção.
Franz sorriu, Albert tinha grandes aspirações a ser pálido.
— Eu também — disse-lhe Franz — estou convencido de que as idéias da condessa sobre esse homem são insensatas. Ele falou perto de você?
Você ouviu alguma palavra que tenha dito?
— Ele falou, mas em romaico. Identifiquei o idioma por algumas palavras gregas desfiguradas. Devo lhe dizer, meu caro, que no colégio eu era um ás em grego.
— Então ele falava romaico?
— É provável.
— Não resta dúvida — murmurou Franz —, é ele.
— Que disse?
— Nada. O que faz por aqui?
— Estava lhe preparando uma surpresa.
— Qual?
— Sabia que é impossível arranjar uma caleche?
— Caramba! E não fizemos de tudo que era humanamente possível para arranjar uma?
— Pois bem! Tenho uma idéia maravilhosa.
Franz olhou para Albert como um homem que não depositava muita confiança em sua imaginação.
— Meu caro — disse Albert —, você está me honrando com um olhar que mereceria que eu lhe pedisse uma reparação.
— Estou pronto a fazê-la, caro amigo, se a idéia for tão engenhosa quanto diz.
— Escute.
— Estou escutando.
— Não há jeito de arranjar coche, não é?
— Não.
— Nem cavalos?
— Tampouco.
— Mas será que arranjamos uma carroça?
— Talvez.
— Uma junta de bois?
— É provável.
— Muito bem, meu caro! Eis os nossos apetrechos. Vou mandar decorar a carroça, nos fantasiamos de lavradores napolitanos e
representamos ao natural o magnífico quadro de Léopold Robert18. Se, para maior semelhança, a condessa quiser vestir uma fantasia de mulher de Puzzole ou de Sorrento, isso completará a mascarada, e ela é suficientemente bonita para que a apontem como o modelo para a mulher com a criança.
— Puxa! — exclamou Franz. — Dessa vez tem razão, doutor Albert, eis uma idéia realmente boa.
— E toda nacional, imitação dos reis indolentes, meu caro, só isso! Ah, senhores romanos, acham que correremos pelas suas ruas a pé
como os lazzaroni19, e isso porque os senhores não dispõem de caleches e cavalos?
Deixem estar! Vamos inventá-los!
— E já contou a alguém sobre essa idéia triunfal?
— Ao nosso hoteleiro. Quando voltei da rua, chamei-o aqui em cima e lhe expus as minhas pretensões. Ele me garantiu que nada era mais fácil; eu queria dourar os chifres dos bois, mas ele me disse que isso exigiria três dias; portanto, temos que dispensar esse supérfluo.
— E onde ele está?
— Quem?
— Nosso hoteleiro?
— Atrás da coisa. Amanhã talvez já seja tarde.
— De maneira que ele vai nos responder esta noite?
— Estou à espera dele.
Nesse momento a porta se abriu, e mestre Pastrini enfiou a cabeça.
— Permesso? — perguntou ele.
— Claro que é permitido! — exclamou Franz.
— E então? — disse Albert. — Encontrou a carroça requisitada e os bois solicitados?
— Achei melhor que isso — declarou ele, com uma fisionomia de plena satisfação.
— Muito cuidado, meu caro hoteleiro — disse Albert —, o melhor é inimigo do bom.
— Que Vossas Excelências confiem em mim — respondeu mestre Pastrini, num tom contido.
— Mas enfim o que aconteceu? — perguntou Franz por sua vez.
— Por acaso sabiam — perguntou o hoteleiro — que o conde de Monte Cristo está hospedado neste mesmo andar?
— Acredito deveras — disse Albert —, uma vez que é por causa dele que estamos alojados como dois estudantes da rua Saint Nicolas du Chardonnet.
— Pois bem, ele está ciente do embaraço em que se encontram e manda-lhes oferecer dois lugares em seu coche e dois lugares em suas janelas do Palácio Ruspoli.
Albert e Franz entreolharam-se.
— Mas — indagou Albert —, devemos aceitar a oferta desse estranho, de um homem que não conhecemos?
— Que tipo de homem é esse conde de Monte Cristo? — indagou Franz ao hoteleiro.
— Um importante grão-senhor siciliano ou maltês, não sei ao certo,
mas nobre como um Borghese20 e rico como uma jazida de ouro.
— Que tipo de homem é esse conde de Monte Cristo?
— Parece-me — disse Franz a Albert — que, se tivesse tão boas maneiras como diz nosso hoteleiro, esse homem deveria ter feito seu convite chegar a nós de outra forma, seja nos escrevendo, seja...
Nesse momento bateram à porta.
— Entre — disse Franz.
Um criado, vestindo uma libré muito elegante, apareceu no umbral do quarto.
— Da parte do conde de Monte Cristo, para o sr. Franz d’Épinay e o sr.
visconde Albert de Morcerf — disse ele.
E apresentou ao hoteleiro dois cartões, que ele passou aos rapazes.
— O sr. de Monte Cristo — continuou o criado — pede autorização aos cavalheiros para, na qualidade de vizinho, se apresentar amanhã de manhã em seus aposentos; ele terá a honra de se informar junto a esses cavalheiros a que hora estarão disponíveis.
— Caramba — disse Albert a Franz —, não há nada a corrigir, está tudo aí.
— Transmita ao conde — respondeu Franz — que nós é que teremos a honra de visitá-lo.
O criado se retirou.
— Eis o que chamo de um ataque de elegância — disse Albert. — Está bem, o senhor tinha toda a razão, mestre Pastrini, o seu conde de Monte Cristo é um homem educadíssimo.
— Então aceitam a oferta dele?
— Naturalmente — respondeu Albert. — Mas admito: sinto pena pela nossa carroça e pelos lavradores; e, se não fossem as janelas do Palácio Ruspoli para compensar o que perdemos, creio que voltaria à minha primeira idéia. Que me diz, Franz?
— Como você, digo que são as janelas do Palácio Ruspoli que me decidem — respondeu Franz a Albert.
Com efeito, essa oferta de dois lugares numa janela do Palácio Ruspoli lembrara a Franz a conversa que havia escutado, nas ruínas do Coliseu, entre o seu desconhecido e o seu sujeito do Trastevere, conversa em que o homem do casaco assumiu o compromisso de obter o indulto do condenado. Ora, se o homem do casaco era, como tudo levava Franz a crer, o mesmo cuja aparição na sala Argentina tanto o preocupara, ele decerto o reconheceria, e então nada o impediria de satisfazer a curiosidade a seu respeito. Franz passou parte da noite a sonhar com aquelas duas aparições e a ansiar pelo dia seguinte. Na verdade, tudo deveria se esclarecer então; e, dessa vez, a menos que seu anfitrião de Monte Cristo
possuísse o anel de Giges21 e, graças a esse anel, a faculdade de se tornar invisível, não haveria como ele lhe escapar. Assim, Franz acordou antes das oito horas.
Quanto a Albert, como não tinha os mesmos motivos de Franz para ser matinal, ainda dormia a sono solto.
Franz mandou chamar o hoteleiro, que se apresentou obsequioso como sempre.
— Mestre Pastrini — disse-lhe —, não há uma execução marcada para hoje?
— Sim, Excelência; mas se me pergunta isso para conseguir uma janela, chega tarde demais.
— Não — respondeu Franz. — Aliás, se eu quisesse de fato assistir
a esse espetáculo, creio que encontraria lugar no monte Pincio22.
— Oh, presumo que Vossa Excelência não queira se imiscuir com a ralé, uma vez que lá fica o seu anfiteatro natural.
— É quase certo eu não ir — disse Franz. — Mas gostaria de saber alguns detalhes.
— Quais?
— Gostaria de saber o número de condenados, seus nomes e o gênero de seu suplício.
— Isso vem bem na hora, Excelência! Acabam justamente de me entregar as tavolette.
— Que são as tavolette?
— As tavolette são tabuinhas de madeira afixadas em todas as esquinas na véspera das execuções e nas quais são inscritos os nomes dos condenados, a causa da condenação e o modo de suplício. Esse aviso tem como objetivo convidar os fiéis a rezar a Deus para que dê um arrependimento sincero aos culpados.
— E lhe entregam essas tavolette para o senhor juntar suas preces às dos fiéis? — perguntou Franz com um ar de dúvida.
— Não, Excelência; eu me entendi com o rapaz e ele me traz isso da mesma forma que me traz cartazes de espetáculos, a fim de que, se algum hóspede meu quiser assistir à execução, esteja informado.
— Puxa, mas esta é uma consideração de grande delicadeza! —
exclamou Franz.
— Oh — disse mestre Pastrini sorrindo —, posso me gabar de fazer tudo ao meu alcance para satisfazer os nobres estrangeiros que me honram com sua confiança.
— Estou vendo, meu caro hospedeiro! E é o que vou repetir a quem quiser ouvir, fique certo disso. Enquanto isso, gostaria de ler uma dessas tavolette.
— É muito fácil — respondeu o hoteleiro, abrindo a porta —, mandei afiar uma no corredor.
Saiu, soltou a tavoletta e trouxe-a para Franz. Eis a tradução literal do cartaz patibular:
Comunicamos a todos que terça-feira, 22 de fevereiro, primeiro dia do Carnaval, serão executados na praça del Popolo, por decreto do tribunal de La Rota, os assim designados Andrea Rondolo, culpado de assassinato sobre a pessoa mui respeitável e venerável de don César Terlini, cônego da igreja de São João de Latrão, e o assim designado Peppino, vulgo “Rocca Priori”, culpado de cumplicidade com o detestável bandoleiro Luigi Vampa e os homens de seu bando.
O primeiro será mazzolato. E o segundo, decapitato.
As almas caridosas são rogadas a pedir a Deus um arrependimento sincero para os dois desditosos condenados.
Era justamente o que Franz ouvira na antevéspera, nas ruínas do Coliseu, e nada mudara no programa: os nomes dos condenados, a causa de seu suplício e o gênero de execução eram exatamente os mesmos.
Portanto, segundo toda a probabilidade, o sujeito de Trastevere não era outro senão o bandoleiro Luigi Vampa e o homem do casaco, Simbad, o marujo, que, em Roma, como em Porto Vecchio e Túnis, prosseguia no curso de suas expedições filantrópicas.
Enquanto isso o tempo passava, eram nove horas, e Franz ia acordar Albert quando, para seu grande espanto, viu-o sair já vestido do quarto. O
Carnaval galopara em sua cabeça e o despertara mais cedo do que o amigo esperava.
— Muito bem — disse Franz ao hoteleiro —, agora que estamos ambos prontos, acredita o senhor, meu caro Pastrini, que podemos nos apresentar ao conde de Monte Cristo?
— Oh, certamente! — respondeu ele. — O conde de Monte Cristo é madrugador, e tenho certeza de que já está de pé há mais de duas horas.
— E julga o senhor que não há indiscrição em nos apresentarmos agora?
— Em absoluto.
— Nesse caso, Albert, se estiver pronto...
— Mais do que pronto — disse Albert.
— Vamos agradecer ao nosso vizinho pela cortesia.
— Vamos!
Franz e Albert tinham apenas o corredor para atravessar, o hoteleiro passou à frente e tocou para eles; um criado veio abrir.
— I signori francesi — disse o hoteleiro.
O criado fez uma cortesia e sinalizou-lhes para que entrassem.
Atravessaram dois aposentos mobiliados com um luxo que não julgavam existir no hotel de mestre Pastrini, chegando finalmente a um salão de uma elegância completa. Um tapete turco estendia-se no assoalho e os móveis mais confortáveis ofereciam suas almofadas fofas e seus espaldares reclinados. Magníficos quadros de mestres, entremeados por esplêndidos troféus de guerra, encontravam-se pendurados nas paredes, e grandes reposteiros estampados esvoaçavam nas portas.
— Se Suas Excelências quiserem fazer a gentileza de sentar — disse o criado —, vou avisar o sr. conde.
E sumiu por uma das portas.
No momento em que essa porta se abriu, o som de uma guzla23 chegou até os dois amigos, mas logo se extinguiu: a porta, aberta e fechada quase ao mesmo tempo, não deixara, por assim dizer, penetrar no salão senão uma lufada de harmonia.
Franz e Albert trocaram um olhar e admiraram os móveis, quadros e armas. Tudo isso, à segunda vista, parecia-lhes ainda mais magnífico que à primeira.
— E então! — perguntou Franz ao amigo. — Que me diz sobre tudo isso?
— Caramba, meu caro, digo que é preciso que nosso vizinho seja um grande investidor, que apostou na baixa em títulos espanhóis, ou algum príncipe que viaja incógnito.
— Schhh! — fez Franz. — É o que vamos saber, pois aí vem ele.
Com efeito, o barulho de uma porta se abrindo acabava de chegar até os visitantes; e quase imediatamente o reposteiro que a cobria, erguendo-se, deu passagem ao dono de todas aquelas riquezas.
Albert avançou em sua direção, mas Franz continuou pregado no lugar.
Aquele que acabava de entrar não era outro senão o homem do casaco no Coliseu, o desconhecido do camarote, o misterioso anfitrião da ilha de Monte Cristo.
1 Meta Sudans: fonte construída por Tito Flávio Domiciano (51-96), imperador romano de 81 a 96.
2 “que fazia Marcial dizer” : referência ao primeiro capítulo da obra de Marcial (c.40-102) De spetaculis, intitulado “O anfiteatro de Domiciano”.
3 “genuíno indivíduo do Trastevere”: habitante do bairro popular na margem direita do rio Tibre.
4 “rato para roer as malhas”: alusão à fábula “O leão e o rato”, de La Fontaine (1621-95).
5 Mazzolato: executado com uma clava, ou maça, de madeira ou metal.
6 Plínio e Calpúrnio: o Plínio aqui referido pode ser Gaius Plinius Secundus, um nobre romano, cientista e historiador que morreu na erupção do Vesúvio em 79 d.C., também chamado de Plínio, o Velho, ou seu sobrinho-neto, Gaius Plinius Caecilius Secundus (62-113), estadista, orador e escritor, também chamado Plínio, o Jovem. Tito Calpúrnio Sículo, poeta bucólico romano do séc.VI, famoso por suas éclogas.
7 Parisina: tragédia lírica composta por Pietro Mascagni (1863-1945), cujo libreto, baseado no poema homônimo de Lord Byron, foi escrito pelo poeta e político italiano Gabriele D’Annunzio (1863-1938).
8 Coselli, Moriani e Spech: respectivamente Domenico Coselli (1801-55), Napoleone Moriani (1806-77) e a soprano conhecida como La Spech, que encarnou o papel-título nesta montagem.
Ao que parece, o autor fez uma pequena confusão entre o compositores.
9 Lucia di Lammermoor: ópera de Gaetano Donizetti (1797-1848), com libreto de Salvatore Cammarano (1801-52), baseada no romance The Bride of Lammermoor, de Walter Scott.
10 Bouffe: apelido do teatro Opéra Comique.
11 “camarote infernal no Ópera”: setor do teatro onde se concentravam os jovens rapazes das famílias ricas de Paris, os “leões”.
12 Ambigu: teatro cujo nome completo era Ambigu-Comique, luxuosamente reconstruído em 1828 após um incêndio, no qual eram levados melodramas.
13 Sontag e Malibran: Henriette Sontag (1806-54), soprano; Madame Malibran (1808-36), mezzo-contralto.
14 Medora: personagem do poema de Lord Byron, The Corsair, no qual é amante de Conrad, o chefe dos piratas, e morre de tristeza após ter recebido a notícia da morte do homem que amava.
15 Lorde Ruthwen: nome de um vampiro presente em várias obras literárias e teatrais de grande sucesso na época.
16 “onde ecoa o sì” : referência à Divina comédia de Dante, “Inferno”, canto XXXIII, v.79-80:
“Ai Pisa, vitupério que és das gentes/ da bela terra lá onde o sì soa.”
17 Blain e Humann: costureiros parisienses da moda em Paris naquela época.
18 Léopold Robert: sobre L. Robert, ver, nesta Parte, a nota 87. Aqui o autor parece referirse especificamente ao quadro Moisson dans les Marais pontins, de 1831. Nele, uma charrete de rodas altas, puxada por uma parelha de bois, transporta uma mulher sentada com uma criança nos braços.
19 Lazzaroni: termo derivado do nome Lázaro, personagem do Novo Testamento, que na Itália designava os membros das classes mais baixas da sociedade, o equivalente ao “populacho”.
20 Borghese: família de mecenas italianos da Renascença, originária da região de Siena. Reuniu uma magnífica coleção de obras de arte em seu palácio de Roma, a Villa Borghese, próximo à praça del Popolo.
21 Anel de Giges: referência a um episódio narrado por Platão, em A República. Nele, um pastor chamado Giges encontra uma cratera aberta por uma tempestade. Ao descer pelo buraco, vê um enorme cavalo de bronze, com aberturas laterais. Dentro do cavalo ele descobre o cadáver de um homem com um anel no dedo. Ao colocar o anel do defunto, Giges descobre que, virando o anel para a palma de sua mão, ele se torna invisível. O episódio mostra como Giges, a partir do momento que detém este poder, comete vários atos condenáveis, como seduzir a rainha, matar o soberano e usurpar o poder.
22 Monte Pincio: colina urbanizada com jardins que domina a praça del Popolo.