O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 115 de 119

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O Conde de Monte Cristo

16. O passado

2 “Abraão sacrificasse seu filho”: episódio do Gênesis, em que Deus pede uma prova de fé a Abraão, determinando que este levasse o filho, Isaac, para oferecê-lo em holocausto no monte

Moriá. Uma vez no local determinado, quando Abraão levantou a mão para sacrificar o filho, foi impedido pelo Anjo do Senhor.

16. O passado

O conde saiu com a alma atormentada daquela casa onde, segundo toda probabilidade, se despedira de Mercedes para sempre.

Desde a morte do pequeno Édouard, uma grande mudança se havia operado em Monte Cristo. Ao alcançar o ponto culminante da vingança pela subida lenta e tortuosa que empreendera, descortinara o abismo da dúvida do outro lado da montanha.

E mais: a conversa que acabava de ter com Mercedes despertara tantas lembranças em seu coração que essas próprias lembranças precisavam ser combatidas.

Um homem da têmpera do conde não se curvava por muito tempo à melancolia que invade os espíritos vulgares, conferindo-lhes uma originalidade aparente, porém matando as almas superiores. O conde disse consigo mesmo que, para ter quase chegado a se autocensurar por isso, era preciso que um erro houvesse se insinuado em seus cálculos.

— Enxergo mal o passado — disse ele —, mas não posso ter-me enganado dessa forma.

“O quê! — continuou. — O objetivo a que eu me propusera seria um objetivo insensato?! O quê! Eu estaria no caminho errado há dez anos?!

Não pode ser! Uma hora teria bastado para provar ao arquiteto que a obra na qual ele depositava todas as suas esperanças era uma obra, se não impossível, sacrílega! Não quero habituar-me a essa idéia, ela me enlouqueceria. O que falta hoje aos meus raciocínios é a apreciação exata do passado, pois revejo esse passado da outra ponta do horizonte. Com efeito, à medida que avançamos, à medida que nos afastamos, o passado se apaga, semelhante à paisagem através da qual caminhamos. Está acontecendo comigo o que acontece às pessoas que se feriram em sonho, olham e sentem o ferimento, mas não se lembram de o terem recebido.

Então adiante, homem regenerado; adiante, rico extravagante; adiante, sonhador vigilante; adiante, visionário todo-poderoso; adiante, milionário invencível. Reconsidera por um instante essa perspectiva da vida miserável e indigente, volta a percorrer os caminhos para onde a fatalidade o empurrou, para onde o infortúnio o impeliu, onde o desespero o recebeu.

Uma profusão de diamantes, ouro e felicidade hoje reflete seus raios nos cristais desse espelho em que Monte Cristo contempla Dantès. Esconde

esses diamantes, conspurca esse ouro, apaga esses raios. Rico, encontra o pobre; livre, encontra o prisioneiro; ressuscitado, encontra o cadáver.”

E, ao mesmo tempo em que assim meditava, Monte Cristo ia avançando pela rua de la Caisserie. Era a mesma pela qual, vinte e quatro anos antes, ele fora conduzido por uma escolta silenciosa e noturna. Essas casas, de aspecto risonho e animado, estavam, naquela noite escura, mudas e fechadas.

— São entretanto as mesmas — murmurou Monte Cristo —, a única diferença é que era noite, hoje é dia claro. É o sol que ilumina tudo isso e deixa a todos alegres.

Dirigiu-se para o cais pela rua Saint-Laurent e seguiu rumo aos armazéns. Era o local do porto de onde havia embarcado. Um barco de passeio avançava com seu pálio de cotim. Monte Cristo chamou o dono, que logo partiu em sua direção, com a urgência que imprimem a esse exercício os barqueiros com faro para uma boa gorjeta.

O tempo estava magnífico, o passeio foi uma festa. No horizonte, o sol ia caindo, vermelho e flamejante, sobre as ondas que incandesciam à sua aproximação. O mar, liso como um espelho, enrugava-se às vezes com os pulos dos peixes que, perseguidos por algum inimigo oculto, lançavam-se fora d’água para pedir sua salvação a outro elemento. Por fim, no horizonte viam-se passar, graciosas como cotovias migratórias, pesqueiros dirigindo-se às Margiutes ou cargueiros rumando à Córsega ou à Espanha.

Apesar desse bonito céu, apesar daquelas barcas de contornos graciosos, apesar da luz dourada que inundava a paisagem, o conde, envolto em seu sobretudo, lembrava-se, um a um, de todos os detalhes da terrível viagem: a luz singular e isolada, queimando nos catalães, a visão do castelo de If, que o informou do seu destino, a luta com os policiais, quando quis atirar-se no mar, seu desespero, quando se viu dominado, e a sensação fria da ponta do cano da carabina encostada em suas têmporas, como um aro de gelo.

Pouco a pouco, como fontes renascidas com o verão, que, formadas as nuvens de outono, umedecem pouco a pouco e começam a brotar gota a gota, o conde de Monte Cristo sentiu igualmente brotar em seu peito aquele velho fel extravasado que outrora inundara o coração de Edmond Dantès.

Um barco de passeio avançava com seu pálio de cotim.

A partir desse momento, terminaram para ele o céu bonito, as embarcações graciosas, a luz ardente. O céu velou-se com crepes fúnebres e a aparição do negrume gigante conhecido como castelo de If o fez estremecer, como se lhe tivesse aparecido de repente o fantasma de um inimigo mortal.

Eles chegaram.

Instintivamente o conde recuou até a ponta do barco. O barqueiro em vão disse-lhe com sua voz mais gentil:

— Vamos ancorar, senhor.

Monte Cristo recordou que, naquele mesmo lugar, naquele mesmo rochedo, fora violentamente arrastado pelos guardas e obrigado a subir aquela rampa com os rins fustigados pela ponta de uma baioneta.

Da primeira vez, o percurso parecera bem longo a Dantès. Monte Cristo julgou-o bem curto. Cada remada fazia respingar, com a poeira úmida do mar, um milhão de pensamentos e lembranças.

Desde a Revolução de Julho1 não havia mais prisioneiros no castelo de If. Um posto destinado a impedir o contrabando ocupava solitário suas guaritas de vigilância. Um zelador aguardava os curiosos no portão para mostrar-lhes aquele monumento de terror, agora um monumento de curiosidade.

E não obstante, mesmo informado acerca de todos esses detalhes, quando entrou sob a abóbada, quando desceu a escada escura, quando foi conduzido às masmorras que pedira para ver, uma fria palidez invadiu sua fronte, cujo suor gelado escorreu até o seu coração.

O conde procurou saber se restava ainda algum velho carcereiro do período da Restauração, mas todos haviam se aposentado ou mudado de emprego.

O zelador que o acompanhava estava ali apenas desde 1830. O conde foi conduzido à sua masmorra.

Reviu o dia lívido atravessando o respiradouro estreito, o lugar onde ficava a cama, retirada desde então e, atrás da cama, embora vedado, mas ainda visível pelas pedras mais recentes, o túnel escavado pelo abade Faria.

Monte Cristo sentiu suas pernas fraquejarem. Pegou um banquinho de madeira e sentou-se.

— Contam alguma história sobre esse castelo sem ser a do cativeiro

de Mirabeau2? — perguntou o conde. — Há alguma tradição sobre essas lúgubres moradas, nas quais relutamos em crer que homens tenham um dia confinado, com vida, seu semelhante?

— Sim, senhor — respondeu o zelador. — Precisamente acerca desta masmorra, o carcereiro Antoine me contou uma.

Monte Cristo tremeu. O carcereiro Antoine era o seu carcereiro. Havia praticamente esquecido seu nome e seu rosto, mas, pronunciado o nome, reviu-o tal como era, com a fisionomia tomada pela barba, sua roupa marrom e seu molho de chaves, cujo tilintar ainda julgava ouvir.

O conde voltou-se e pensou vê-lo na penumbra do corredor, adensada ainda mais pela luz do archote que queimava nas mãos do zelador.

— Quer que eu lhe conte, cavalheiro? — perguntou o zelador.

— Sim — disse Monte Cristo —, fale.

E pôs a mão no peito para reprimir a violenta pulsação do coração, assustado por ouvir alguém contar sua própria história.

— Fale — repetiu.

— Faz muito tempo — contou o zelador —, essa masmorra era ocupada por um prisioneiro, um homem perigosíssimo, ao que parece, e ainda mais perigoso por ser muito esperto. Outro homem habitava esse castelo ao mesmo tempo que ele. Este não era mau; era um coitado de um padre louco.

— Ah, sim, louco — repetiu Monte Cristo. — E qual era sua loucura?

— Oferecia milhões a quem se dispusesse a libertá-lo.

Monte Cristo ergueu os olhos para o céu, mas não viu o céu; havia um véu de pedra entre ele e o firmamento. Pensou consigo que existiu um véu não menos espesso entre os olhos daqueles a quem o abade Faria oferecia os tesouros e os tesouros que este lhes oferecia.

— Os prisioneiros podiam se ver? — perguntou Monte Cristo.

— Oh, não, senhor, era expressamente proibido, mas eles driblaram a proibição abrindo um túnel que ia de uma masmorra à outra.

— E qual dos dois abriu esse túnel?

— Oh, o rapaz, com certeza — disse o porteiro. — O rapaz era engenhoso e forte, ao passo que o pobre abade era velho e fraco. E não se esqueça de que sua mente já estava por demais debilitada para acompanhar uma idéia.

— Cegos...! — murmurou Monte Cristo.

— O fato é — continuou o zelador — que o rapaz escavou esse túnel.

Com o quê? Ignoramos, mas escavou-o, e a prova é que ainda vemos os vestígios. Ali, vê?

E aproximou o archote da parede.

— Daí resultou que os dois prisioneiros comunicavam-se. Quanto tempo durou essa comunicação? Ignoramos. Ora, um dia o velho prisioneiro caiu doente e morreu. Adivinhe o que fez o rapaz? — perguntou o zelador, interrompendo-se.

— Fale.

— Carregou o defunto, deitou-o em sua própria cama com o rosto virado para a parede, depois voltou à masmorra vazia, fechou o buraco e se enfiou na mortalha do defunto. Já viu coisa parecida?

Monte Cristo fechou os olhos e sentiu-se novamente experimentando todas as impressões que sentira quando aquela lona grosseira, ainda impregnada pelo frio que o cadáver lhe transmitira, arranhou o seu rosto.

O carcereiro continuou:

— Então veja, este era o plano: ele achava que os mortos eram enterrados no castelo de If; naturalmente, como desconfiava que não se desperdiçavam caixões com os prisioneiros, pretendia levantar a terra com os próprios ombros. Contudo, infelizmente havia no castelo uma tradição que frustrava seu plano: não se enterravam os mortos, apenas prendiam uma bola de ferro em seus pés e os atiravam ao mar. Assim foi feito.

Nosso homem viu-se atirado à água do alto da muralha. No dia seguinte encontraram o verdadeiro defunto na cama dele e entenderam tudo, pois os coveiros então disseram o que não haviam se atrevido a dizer até aquele momento; que, quando o corpo fora lançado no vazio, tinham ouvido um grito terrível, imediatamente abafado pela água na qual o fugitivo desapareceu.

O conde respirou com dificuldade, o suor colava em sua testa, a angústia atormentava seu coração.

— Não! — murmurou. — Não! A dúvida que me assaltou era um começo de esquecimento, mas aqui o coração é novamente escavado e volta a ter sede de vingança.

— E nunca mais ouviram falar do prisioneiro? — perguntou ele.

— Nunca, nunca mais. Olhe, de duas, uma: ou ele caiu na horizontal, e, como caía de uns quinze metros, terá morrido instantaneamente...

— O senhor disse que haviam prendido uma bola de ferro nos pés dele: ele caiu de pé.

— Ou caiu de pé — continuou o zelador —, e então o peso do ferro arrastou-o para o fundo, onde ficou, o infeliz!

— Lamenta por ele?

— Claro que sim, embora estivesse no seu elemento.

— Que quer dizer com isso?

— Que corria um rumor de que o infeliz era, em sua época, um oficial da marinha detido por bonapartismo.

— Verdade — murmurou o conde para si mesmo —, Deus criou-te para pairar acima das ondas e das chamas. Quer dizer que o infeliz marujo vive na lembrança de alguns contadores de histórias; contam sua terrível peripécia diante da lareira, e o instante em que ele rasga o espaço para ser tragado pelo mar profundo dá arrepios. — E então perguntou bem alto: —

Nunca souberam seu nome?

— Ora — disse o guarda —, e de que jeito? Era conhecido apenas como número 34.

— Villefort, Villefort! — murmurou Monte Cristo. — Eis o que muitas vezes você deve ter ruminado quando meu espectro atormentava suas insônias.

— Deseja continuar a visita? — perguntou o zelador.

— Sim, principalmente se me mostrar a cela do infeliz abade.

— Ah! A de número 27?

— Sim, a 27 — repetiu Monte Cristo.

E pareceu-lhe ainda ouvir a voz do abade Faria quando perguntou seu nome e o abade gritara esse número através dos muros.

— Venha.

— Espere — disse Monte Cristo — até eu olhar pela última vez esta masmorra.

— Isso vem a calhar — disse o guia —, esqueci a chave da outra.

— Vá buscá-la.

— Deixo o archote.

— Não, leve-o.

— Mas ficará sem luz.

— Enxergo no escuro.

— Puxa, é como ele.

— Ele quem?

— O número 34. Dizem que estava de tal forma acostumado com o breu que teria encontrado um alfinete no canto mais escuro de sua masmorra.

— Ele precisou de dez anos para isso — murmurou o conde. O guia afastou-se, levando o archote.

O conde falara a verdade. Em dez minutos no escuro, enxergou tudo como em pleno dia.

Olhou então à sua volta e reconheceu efetivamente a masmorra.

— Sim — disse ele —, eis a pedra na qual eu me sentava! Eis a marca dos meus ombros, que imprimiram seu relevo na parede! Eis o vestígio do sangue que escorreu da minha testa no dia em que tentei arrebentar a cabeça contra a parede! Oh, esses algarismos... lembro-me deles... eu os fiz num dia em que calculava a idade do meu pai, para saber se o reencontraria vivo, e a idade de Mercedes, para saber se a reencontraria livre... Tive um fio de esperança após concluir o cálculo... Não levei em conta nem a fome nem a infidelidade.

E um riso amargo escapou da boca do conde. Acabava de ver, como num sonho, seu pai levado ao túmulo... Mercedes caminhando para o altar!

Na outra parede da muralha, uma inscrição chamou sua atenção.

Destacava-se, ainda branca, na parede esverdeada:

— “Meu Deus” — leu Monte Cristo —, “preservai a minha memória!”

— Oh sim! — exclamou. — Foi a única prece dos meus últimos tempos.

Eu não pedia mais a liberdade, pedia a memória, tinha medo de enlouquecer e esquecer. Deus, haveis conservado a minha memória, e eu me lembro. Obrigado, obrigado, meu Deus!

Nesse momento, a luz do archote dançou nas paredes. Era o guia que vinha descendo.

Monte Cristo foi até ele.

— Siga-me — disse o guia.

E, sem necessidade de retornar ao ar livre, fez-lhe percorrer uma galeria subterrânea que levava a uma entrada diferente.

Ali também Monte Cristo foi assaltado por um mundo de pensamentos.

A primeira coisa que o impressionou foi o meridiano traçado na parede, com a ajuda do qual o abade Faria contava as horas. Em seguida, o que restara da cama na qual o prisioneiro morrera.

A essa visão, em vez das angústias que o conde sentira em sua masmorra, um sentimento delicado, carinhoso, um sentimento de gratidão, inflou seu peito, e duas lágrimas rolaram de seus olhos.

A primeira coisa que o impressionou foi o meridiano traçado na parede.

— Era aqui — disse o guia — que ficava o abade louco. Era por ali que o rapaz vinha encontrá-lo — e apontou para Monte Cristo a boca do túnel, daquele lado ainda aberta. — Pela tonalidade da pedra — continuou o guia

—, um cientista constatou que os dois prisioneiros devem ter se comunicado durante dez anos. Coitados, devem ter se aborrecido muito durante esses dez anos!

Dantès pegou alguns luíses em seu bolso e estendeu a mão para aquele homem que, pela segunda vez, condoía-se dele sem conhecê-lo.

O zelador aceitou-os, julgando receber uns trocados, mas, à luz do archote, percebeu o valor da soma dada pelo visitante.

— O senhor se enganou — disse-lhe.

— Como assim?

— Foi ouro que o senhor me deu.

— Sei disso.

— Como? O senhor sabe?

— Sim.

— Sua intenção é dar-me esse ouro?

— Sim.

— E posso guardá-lo com a consciência limpa?

— Sim.

O zelador olhou para Monte Cristo com espanto.

— E honestidade3 — disse o conde, como Hamlet.

— Cavalheiro — replicou o zelador, que não ousava acreditar em sua ventura —, não compreendo sua generosidade.

— Entretanto, ela é fácil de compreender, meu amigo — disse o conde.

— Fui marinheiro e sua história me tocou mais que qualquer outra.

— Então, cavalheiro — disse o guia —, já que foi tão generoso, merece que eu lhe ofereça outra coisa.

— O que tem a me oferecer, meu amigo? Conchinhas, artefatos de palha? Obrigado.

— Nada disso, nada disso. Alguma coisa relacionada à história que contei há pouco.

— É mesmo?! — exclamou ansiosamente o conde. — O quê, então?

— Escute — disse o zelador —, eis o que aconteceu. Eu disse comigo: encontramos sempre alguma coisa numa cela onde um prisioneiro ficou durante quinze anos, e comecei a estudar as paredes.

— Ah! — exclamou Monte Cristo, lembrando-se do duplo esconderijo do abade. — De fato.

— Graças às minhas buscas — continuou o zelador —, descobri que soava oco na cabeceira da cama e sob a laje da lareira.

— Percebo — disse Monte Cristo.

— Levantei as pedras e encontrei...

— Uma escada de corda, ferramentas? — exclamou o conde.

— Como sabe? — perguntou o zelador, com espanto.

— Não sei, presumo — respondeu o conde. — Em geral é o tipo de coisas que encontramos em esconderijos de prisioneiros.

— Sim, senhor — disse o guia —, uma escada de corda e ferramentas.

— E guardou-as? — exclamou Monte Cristo.

— Não, senhor; vendi esses diferentes objetos, que eram curiosíssimos para os visitantes, mas fiquei com outra coisa.

— Mas com o quê, homem? — perguntou o conde, impaciente.

— Fiquei com uma espécie de livro escrito em tiras de pano.

— Oh! — exclamou Monte Cristo. — Ainda tem esse livro?

— Não sei se é um livro — disse o zelador —, mas guardei-o.

— Vá buscá-lo para mim, amigo, vá — disse o conde —, e, se for o que presumo, fique tranqüilo.

— Vou correndo, senhor. E o guia saiu.

Monte Cristo foi então ajoelhar-se piedosamente diante das ruínas daquela cama que a morte transformara em altar.

— Oh, meu segundo pai — disse ele —, tu que me deste a liberdade, a ciência e a riqueza; tu que, igual às criaturas de uma essência superior, detinhas o conhecimento do bem e do mal, se, no fundo do túmulo, subsiste alguma coisa de nós que estremece diante da voz dos que permaneceram sobre a terra, se, na transfiguração sofrida pelo cadáver, alguma coisa de animado flutua nos lugares onde amamos muito ou sofremos muito, nobre coração, espírito supremo, alma profunda, com uma palavra, um sinal, uma revelação qualquer, imploro-te, em nome desse amor paterno que me concedeste e desse respeito filial que te dediquei, apaga em mim o resquício da dúvida, pois, caso esta não se transformar em convicção, virá a ser um remorso.

O conde abaixou a cabeça e juntou as mãos.

— Pronto, senhor! — disse uma voz atrás dele. Monte Cristo estremeceu e se voltou.

O zelador estendia-lhe aquelas tiras de pano sobre as quais o abade Faria desenrolara todos os tesouros de sua ciência. Aquele manuscrito era o grande estudo do abade Faria sobre a realeza na Itália.

O conde apoderou-se dele ansiosamente e, com os olhos batendo direto na epígrafe, leu:

Arrancarás os dentes do dragão e pisotearás os leões, disse o Senhor.

— Ah — exclamou —, aqui está a resposta! Obrigado, meu pai, obrigado!

E, tirando do bolso uma pequena carteira que continha dez títulos de mil francos cada um, disse:

— Tome, pegue essa carteira.

— É um presente?

— Sim, mas com a condição de somente olhar o conteúdo após a minha partida.

E, guardando no peito a relíquia que acabava de encontrar e que para si equivalia ao tesouro mais opulento, lançou-se para fora do subterrâneo. Ao retornar para o barco de passeio, ordenou:

— Para Marselha!

Em seguida, enquanto se afastava, com os olhos magnetizados pelo castelo de If, disse:

— Amaldiçoados sejam os que me enclausuraram nessa soturna prisão e os que se esqueceram de mim lá dentro.

Ao passar de volta em frente aos catalães, o conde desviou o olhar e, envolvendo a cabeça no sobretudo, murmurou o nome de uma mulher.

A vitória fora completa. O conde subjugara a dúvida por duas vezes.

Esse nome, por ele pronunciado com uma expressão de ternura que era quase amor, foi o de Haydée.

Ao desembarcar, Monte Cristo dirigiu-se para o cemitério, onde encontraria Morrel.

Ele também, dez anos antes, havia fervorosamente procurado um túmulo naquele cemitério, e o havia procurado em vão. Voltando para a França com milhões, não conseguira encontrar o túmulo de seu pai morto de fome.

Morrel bem que o marcara com uma cruz, mas essa cruz caíra, e o coveiro a queimara, como fazem os coveiros com todas as madeiras velhas que jazem nos cemitérios.

O digno negociante tivera mais sorte. Morto nos braços dos filhos, fora, conduzido por eles, repousar ao lado da mulher, que o precedera em dois anos na eternidade.

Duas grandes lápides de mármore, nas quais estavam gravados seus nomes, estendiam-se uma ao lado da outra num pequeno cercado, protegido por uma balaustrada de ferro e assombreado por quatro ciprestes.

Maximilien estava recostado em uma dessas árvores e olhava através das duas sepulturas.

Sua dor era profunda, quase desvairada.

— Maximilien — disse o conde —, não é aí que você deve olhar, é para lá! E apontou o céu.

— Os mortos estão em toda parte — disse Morrel. — Não foram estas suas palavras quando me fez sair de Paris?

— Maximilien — disse o conde —, você me pediu durante a viagem para passar uns dias em Marselha. Continua a ser este o seu desejo?

— Não tenho mais desejos, conde, mas me parece que eu esperaria menos penosamente aqui do que em qualquer outro lugar.

— Melhor assim, Maximilien, pois dessa forma despeço-me de você mas continuo com a sua palavra empenhada, certo?

— Ah! Irei esquecê-la, conde, irei esquecê-la!

— Não! Não irá esquecê-la, pois é acima de tudo um homem honrado, Morrel, pois você jurou, e vai jurar de novo.

— Oh, conde, tenha pena de mim! Conde, estou tão infeliz!

— Conheci um homem mais infeliz que você, Morrel.

— Impossível.

— Ai de mim! — disse Monte Cristo. — Este é um dos orgulhos da nossa funesta humanidade: cada homem julga-se mais infeliz que outro infeliz que chora e geme ao seu lado.

— O que há de mais infeliz que o homem perder o único bem que amava e desejava no mundo?

— Escute, Morrel — disse Monte Cristo —, e concentre seu espírito por um instante no que lhe direi. Conheci um homem que, como você, depositou todas as suas esperanças de felicidade numa mulher. Esse homem era jovem, tinha um pai a quem amava, uma noiva que adorava, ia casar-se com ela quando um desses caprichos da sorte, capaz de pôr em dúvida a bondade de Deus, se Deus não se revelasse mais tarde mostrando que para Ele tudo é um meio de conduzir à Sua unidade infinita, de repente rouboulhe a liberdade, a noiva, o futuro com o qual sonhava e que julgava o seu, pois, cego como estava, só podia ler no presente, para atirá-lo no fundo de uma masmorra.

— Ah! — retrucou Morrel. — De uma masmorra saímos no fim de uma semana, no fim de um mês, no fim de um ano.

— Ele ficou catorze anos, Morrel — disse o conde, colocando a mão no ombro do rapaz.

Maximilien estremeceu.

— Catorze anos! — murmurou.

— Catorze anos — repetiu o conde. — Ele também, durante esses catorze anos, passou por momentos de desespero; ele também, como você, Morrel, julgando-se o mais infeliz dos homens, quis se matar.

— E o que aconteceu? — perguntou Morrel.

— O que aconteceu! No momento supremo, Deus revelou-se a ele humanamente, pois Deus não faz milagres. Talvez, à primeira vista, ele não houvesse compreendido essa misericórdia infinita do Senhor, pois é preciso tempo para pálpebras coladas pelas lágrimas abrirem-se novamente, mas acabou arranjando paciência e esperou. Um dia saiu milagrosamente do túmulo, transfigurado, rico, poderoso, quase deus. Seu primeiro grito foi para o pai: o pai estava morto!

— No meu caso também, meu pai está morto — disse Morrel.

— Sim, mas o seu pai morreu nos seus braços, amado, feliz, honrado, rico, ancião. O pai dele fora enterrado pobre, desesperançoso, duvidando de Deus. Como se não bastasse, quando, dez anos após a sua morte, o filho procurou seu túmulo, este havia desaparecido e ninguém pôde dizer-lhe:

“É aqui que repousa no Senhor o coração que tanto te amou.”

— Oh! — lamentou Morrel.

— Como vê, esse homem era um filho mais infeliz que você, Morrel, pois não sabia sequer onde encontrar o túmulo do pai.

— Mas — disse Morrel —, pelo menos restava-lhe uma mulher a quem havia amado.

— Está enganado, Morrel, esta mulher...

— Estava morta? — exclamou Morrel.

— Pior que isso: havia sido infiel, havia se casado com um dos perseguidores do seu noivo. Como vê, Morrel, esse homem era um amante mais infeliz que você!

— E Deus enviou consolo para esse homem? — perguntou Morrel.

— Pelo menos enviou-lhe a serenidade.

— E esse homem ainda pode vir a ser feliz um dia?

— Ele tem esperanças, Maximilien.

O rapaz deixou a cabeça cair em seu peito.

— Tem a minha palavra — disse ele, depois de um instante de silêncio e estendendo a mão para Monte Cristo. — Mas lembre-se...

— No dia 5 de outubro, Morrel, estarei à sua espera na ilha de Monte Cristo. No dia 4, um iate estará à sua espera no porto de

Bastia. Esse iate se chamará Eurus4; dê o seu nome ao capitão, que o conduzirá até mim.

Combinado, Maximilien?

— Combinado, conde, e cumprirei nossa combinação: mas lembre-se que em 5 de outubro...

— Menino, que ainda não sabe o que é a palavra de um homem... Já lhe disse vinte vezes que, nesse dia, se você ainda desejasse morrer, eu o ajudaria, Morrel. Adeus.

— Está de partida?

— Sim, tenho compromissos na Itália. Deixo-o sozinho, sozinho às voltas com a desgraça, sozinho com essa águia de poderosas asas que o Senhor envia a seus eleitos para transportá-los até Seus pés.