O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 101 de 119

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O Conde de Monte Cristo

2. A lei

Seja como for, ambos encabeçam a lista dos mais perversos imperadores de Roma.

2. A lei

Vimos a tranqüilidade com que a srta. Danglars e a srta. d’Armilly haviam operado sua transformação e empreendido sua fuga: é que estavam todos muito atarefados com seus próprios assuntos para se ocuparem com os delas.

Deixemos o banqueiro, suor na testa, somar diante do fantasma da bancarrota as imensas colunas do seu passivo, e sigamos a baronesa, que, depois de por um instante sentir-se esmagada sob a violência do golpe que acabava de atingi-la, fora encontrar o seu conselheiro de sempre, Lucien Debray.

Afinal, a baronesa contava com aquele casamento para finalmente livrar-se de uma tutela que, em se tratando de uma moça do caráter de Eugénie, não deixava de ser mais que embaraçosa. Afinal, nessa espécie de contrato implícito que mantém o laço hierárquico da família, a mãe só tem poderes sobre a filha se for para esta exemplo constante de bom comportamento e modelo de perfeição.

Ora, a sra. Danglars temia a perspicácia de Eugénie e os conselhos da srta. d’Armilly, tendo surpreendido alguns olhares desdenhosos lançados por sua filha a Debray, olhares que indicavam ter Eugénie conhecimento de todo o segredo de suas relações amorosas e pecuniárias com o secretário pessoal do ministro. Contudo, uma interpretação mais sagaz e aprofundada teria demonstrado à baronesa que Eugénie detestava Debray não por ele ser um estorvo e um escândalo na casa paterna, mas simplesmente porque ela o enquadrava na categoria daqueles bípedes que Diógenes tentava não chamar mais de homens e que Platão designava com a

perífrase “bípedes desplumados” 1.

Do seu ponto de vista, e infelizmente neste mundo cada um tem seu ponto de vista pessoal, o que nos impede de enxergar o ponto de vista alheio, a sra. Danglars lamentava infinitamente que o casamento de Eugénie houvesse se frustrado, não porque tal união fosse conveniente, harmoniosa e devesse fazer a felicidade da filha, mas porque o casamento restituiria-lhe a liberdade.

Então, como íamos dizendo, ela correu até a casa de Debray, o qual, após ter assistido, como Paris inteira, à cerimônia do contrato e ao escândalo daí resultante, apressara-se a se retirar para o clube onde, com alguns amigos, comentava o acontecimento que naquele instante constituía a

conversa de três quartos dessa cidade eminentemente mexeriqueira conhecida como a capital do mundo.

Enquanto a sra. Danglars, de vestido preto e com o rosto coberto por um véu, subia a escada que conduzia ao apartamento de Debray, apesar da certeza que o porteiro lhe dera de que o jovem não estava em casa, Debray estava ocupado rechaçando a insinuação de um amigo que tentava provar-lhe que, depois daquele terrível pandemônio, era seu dever como amigo da casa desposar a srta. Eugénie Danglars e seus dois milhões.

Debray defendia-se feito alguém que só deseja ser vencido, pois muitas vezes essa idéia apresentara-se por si só ao seu espírito. A bem da verdade, conhecendo Eugénie e seu caráter independente e altivo, ele assumia de tempos em tempos uma atitude toda defensiva, alegando ser aquela união impossível, mas não obstante deixava-se afagar silenciosamente pela idéia maldita, que, no dizer de todos os moralistas, preocupa sem cessar o homem mais probo e puro, latente no fundo de sua alma como Satã atrás da cruz. O chá, o jogo e a conversa, interessante, como vemos, uma vez que nela se discutiam tão graves interesses, prosseguiram até a uma da manhã.

Durante esse tempo, a sra. Danglars, introduzida pelo camareiro de Lucien, esperava, de véu e arfante, na saleta verde, entre duas corbelhas de flores que ela mesma enviara pela manhã, e que Debray, deve-se dizer, arrumara, hierarquizara e podara com um capricho que fez a infeliz mulher perdoar sua ausência.

Às onze e quarenta, a sra. Danglars, cansada de esperar em vão, entrou novamente no fiacre e voltou para casa.

As mulheres de uma certa casta têm isto em comum com as cortesãs afortunadas: em geral, nenhuma delas volta para casa depois da meianoite. A baronesa entrou no palacete com a mesma precaução que Eugénie acabara de tomar para sair. Subiu celeremente, e com o coração apertado, a escada de seus aposentos, contíguos, como sabemos, aos de Eugénie.

Tinha grande receio de provocar comentários. Acreditava piamente —

pobre mulher, pelo menos nesse ponto respeitável — na inocência da filha e em sua fidelidade ao lar paterno!

Já em seu quarto, foi escutar na porta de Eugénie. Não escutando nenhum barulho, tentou entrar, mas a porta estava trancada.

A sra. Danglars achou que Eugénie, cansada das terríveis emoções da noite, fora deitar-se e dormia.

Chamou a camareira e interrogou-a.

— A srta. Eugénie — respondeu a camareira — foi para o quarto com a srta. d’Armilly, onde tomaram chá juntas. Depois me dispensaram, dizendo não precisarem mais de mim.

Desde então, a camareira encontrava-se na copa e, como todo mundo, julgava estarem as duas moças no quarto.

A sra. Danglars, portanto, foi para a cama sem a sombra de uma dúvida.

No entanto, tranqüila quanto aos indivíduos, seu espírito voltou a lidar com os fatos.

A srta. Eugénie foi para o quarto com a srta. d’Armilly.

À medida que as idéias clareavam em sua cabeça, aumentavam as proporções da cena do contrato: não era mais um escândalo, era uma catástrofe; não era mais uma vergonha, era uma ignomínia.

À sua revelia, portanto, a baronesa lembrou que não tivera piedade da infeliz Mercedes, recentemente aviltada, graças ao marido e ao filho, por uma desgraça igualmente funesta.

“Eugénie está perdida e nós também”, ruminou ela. “O caso, tal como irá apresentar-se, cobre-nos de opróbrio, pois, numa sociedade como a nossa, certos ridículos são chagas vivas, sangrentas, incuráveis.

“Que sorte Deus ter dado a Eugénie esse caráter estranho que tantas vezes me fez tremer!”

E seu olhar de gratidão ergueu-se ao céu, cuja misteriosa providência dispõe antecipadamente os acontecimentos e que às vezes, de um defeito, até mesmo de um vício, forja uma felicidade.

Em seguida, seu pensamento atravessou o espaço como faz, abrindo as asas, o pássaro sobre um abismo, e deteve-se em Cavalcanti.

“Aquele Andrea era um miserável, um ladrão, um assassino e, no entanto possuía maneiras que indicavam uma educação quase boa, quando não uma educação completa. Afinal, ele havia se apresentado na sociedade com o aparato de uma grande fortuna, com o endosso de nomes honrados.”

Como ver claro naquele dédalo? A quem dirigir-se para sair daquela posição cruel? Debray — a quem ela recorrera num primeiro impulso de mulher que procura socorro no homem amado e que às vezes a leva à perdição —, só podia lhe dar um conselho: era alguém mais poderoso que ela devia procurar.

A baronesa pensou então no sr. de Villefort.

Havia sido o sr. de Villefort que desejara a prisão de Cavalcanti; havia sido o sr. de Villefort que, sem piedade, trouxera o caos para o seio de sua família, como se esta fosse uma família estranha.

Por outro lado, pensando bem, o procurador do rei não era um homem impiedoso. Era um magistrado escravo de seus deveres, um amigo leal e inabalável, que, abruptamente, embora com mão firme, passara o bisturi na corrupção. Não era um carrasco, era um cirurgião, um cirurgião que desejara, aos olhos da sociedade, isolar a honra dos Danglars da ignomínia daquele rapazola incorrigível que eles haviam apresentado como seu genro.

A partir do momento em que o sr. de Villefort, amigo da família Danglars, agia assim, só era possível supor que o procurador não soubesse de nada antecipadamente e não tivesse se prestado a nenhum dos ardis de Andrea.

O comportamento de Villefort, pensando bem, aparecia então à baronesa sob uma luz razoável, em função dos benefícios que lhes proporcionava a ambos.

A inflexibilidade do procurador do rei, entretanto, não devia ir além desse ponto. Ela iria procurá-lo no dia seguinte e conseguiria dele, se não que faltasse a seus deveres de magistrado, pelo menos que lhes concedesse toda a latitude de sua indulgência.

A baronesa invocaria o passado, rejuvenesceria suas lembranças, suplicaria em nome de uma época de culpa, mas feliz. O sr. de Villefort abafaria o caso, ou pelo menos permitiria — e para fazer isso, bastava dirigir os olhos para o outro lado — que Cavalcanti fugisse e julgaria o crime exclusivamente sob a sombra penal da chamada “revelia”.

Foi somente então que, mais tranqüila, ela pegou no sono.

No dia seguinte, às nove horas, a sra. Danglars levantou-se e, sem chamar a camareira, sem dar sinal de vida a ninguém, vestiu-se com a mesma simplicidade da véspera, desceu a escada, saiu do palacete, andou até a rua de Provence, entrou num fiacre e dirigiu-se à casa do sr. de Villefort.

Fazia um mês que essa casa maldita apresentava o aspecto lúgubre de um leprosário onde a peste fora declarada. Uma parte dos aposentos estava fechada por dentro e por fora. Os postigos, fechados, abriam-se apenas por um instante para arejar. Via-se então aparecer nessa janela a cabeça aturdida de um criado, depois a janela voltava a se fechar, como a lápide lacra um sepulcro, e os vizinhos comentavam baixinho:

— Será que hoje é dia de ver um caixão sair da residência do sr.

procurador do rei?

A sra. Danglars sentiu um calafrio diante do aspecto daquela casa desolada. Desceu do fiacre, com as pernas trêmulas, aproximou-se da porta fechada e tocou.

Foi somente ao terceiro toque da sineta, cujo som lúgubre parecia, por sua vez, participar da tristeza geral, que um porteiro apareceu, entreabrindo o portão na exata medida para deixar passar suas palavras.

Viu uma mulher, uma dama da sociedade, uma senhora elegantemente vestida, e, entretanto, o portão continuou quase fechado.

— Abra logo! — ordenou a baronesa.

— Em primeiro lugar, quem é a senhora? — indagou o porteiro.

— Quem sou eu? Ora, você me conhece muito bem!

— Não conhecemos mais ninguém, senhora.

— Mas está louco, meu amigo?! — exclamou a baronesa.

— Vem da parte de quem?

— Oh, isso é demais!

— Senhora, perdão, são ordens: seu nome?

— Sra. baronesa Danglars. Você já me viu vinte vezes.

— É possível, senhora. Agora, o que deseja?

— Oh, como você está esquisito! Irei queixar-me ao sr. de Villefort da impertinência dos seus empregados.

— Senhora, não é impertinência, é precaução. Ninguém entra aqui sem uma palavra do sr. d’Avrigny, ou sem ter algum assunto com o procurador do rei.

— Pois bem! Meu assunto é justamente com o sr. procurador do rei.

— Assunto urgente?

— O que acha? Se ainda não dei meia-volta para subir neste fiacre?

Mas, basta: eis o meu cartão, leve-o a seu patrão.

— A senhora aguardará o meu retorno?

— Sim, vá.

O porteiro fechou o portão, deixando a sra. Danglars na rua.

A baronesa, é verdade, não esperou muito. Um instante depois, o portão voltou a abrir um vão suficiente para lhe dar passagem. Ela passou e o portão se fechou.

Ao chegar ao pátio, o porteiro, sem perder o portão de vista um instante, puxou um apito do bolso e apitou.

O mordomo do sr. de Villefort apareceu na escada da entrada.

— A senhora desculpará esse bom homem — disse ele, postando-se diante da baronesa —, mas suas ordens são rigorosas, e o sr. de Villefort encarregou-me de lhe transmitir que não podia fazer de outro jeito.

No pátio estava um fornecedor, introduzido com as mesmas precauções e cujas mercadorias eram vistoriadas.

A baronesa subiu a escada. Sentia-se profundamente impressionada com aquela tristeza, que expandia, por assim dizer, o círculo da sua. Sempre guiada pelo mordomo, foi introduzida, sem que seu guia a perdesse de vista, no gabinete do magistrado.

Embora a sra. Danglars estivesse muito preocupada com o motivo que a levava até ali, a recepção que lhe fora dispensada pela criadagem parecera-lhe tão indigna que ela começou pelas queixas.

Mas Villerfort soergueu sua cabeça prostrada pela dor e olhou para ela com um sorriso tão triste que as reclamações morreram em seus lábios.

— Perdoe meus serviçais por um terror pelo qual não posso culpá-los.

Para eles, agora, todos são suspeitos.

A sra. Danglars já ouvira comentários na sociedade sobre aquele terror apontado pelo magistrado, mas nunca teria acreditado, se não tivesse visto com os próprios olhos, que a atomosfera houvesse chegado àquele ponto.

— Então também está vivendo um infortúnio? — perguntou ela.

— Sim, senhora — respondeu o magistrado.

— Então tem pena de mim?

— Sinceramente.

— E sabe o que me traz aqui?

— Veio falar-me dos seus problemas, não é?

— Sim, senhor, uma terrível desgraça.

— A senhora quer dizer uma desventura.

— Desventura! — exclamou a baronesa.

— Infelizmente, senhora — respondeu o procurador do rei, com sua calma imperturbável —, agora só considero desgraça as coisas irreparáveis.

— Ora! E o senhor acredita que irão esquecer...?

— Tudo se esquece, senhora — disse Villefort. — Sua filha irá casar-se amanhã, se não for hoje; daqui a uma semana, se não for amanhã. E, quanto a lastimar pelo futuro da srta. Eugénie, não creio que seja esta sua intenção.

A sra. Danglars encarou Villefort, estupefata diante daquela calma quase escarninha.

— Estou na casa de um amigo? — perguntou, num tom cheio de dolorosa dignidade.

— Sabe que sim — respondeu Villefort, cujas faces cobriram-se, com essa garantia que dava, de um leve rubor.

Com efeito, essa garantia fazia alusão a acontecimentos bem diferentes daqueles que os ocupavam àquela hora, a baronesa e a ele.

— Se é assim, meu caro Villefort — disse a sra. Danglars —, seja mais afetuoso. Fale como amigo não como magistrado, e não me diga para ficar alegre quando estou profundamente infeliz.

Villefort inclinou-se.

— Quando ouço falar de desgraças, senhora — disse ele —, adquiri há três meses o péssimo hábito de pensar nas minhas, e então essa dinâmica egoísta da competição efetua-se à minha revelia dentro de mim. Eis

porquê, ao lado das minhas desgraças, as suas pareciam-me uma desventura; eis porquê, ao lado da minha posição funesta, a sua parecia-me uma posição invejável. Mas isso a contraria, vamos adiante. A senhora dizia...?

— Quero saber do senhor, meu amigo — retomou a baronesa —, em que pé está o caso desse impostor?

— Impostor! — repetiu Villefort. — Decididamente, minha cara, é um pressuposto na senhora atenuar certas coisas e exagerar outras. Impostor, o sr. Andrea Cavalcanti, quer dizer, o sr. Benedetto?! Está enganada, senhora, o sr. Benedetto é pura e simplesmente um assassino.

— Não nego a justiça de sua retificação, porém, quanto mais o senhor investir contra esse infeliz, mais irá magoar minha família. Vamos, esqueça-o por um momento. Em vez de o perseguir, deixe-o fugir.

— A senhora chegou tarde demais, as ordens já foram dadas.

— Muito bem! Se o prenderem... Acha que irão prendê-lo?

— Assim espero.

— Se o prenderem... escute, sempre ouço dizer que as prisões estão lotadas, pois bem!, mantenha-o na prisão.

O procurador do rei fez um gesto negativo.

— Pelo menos até a minha filha casar com alguém — acrescentou a baronesa.

— Impossível, senhora. A justiça tem suas formalidades.

— Até mesmo para mim? — disse a baronesa, entre sorridente e séria.

— Para todos — respondeu Villefort —, e para mim também, como para os demais.

— Ah! — fez a baronesa, sem acrescentar em palavras o que seu pensamento acabava de trair com aquela exclamação.

Villefort encarou-a com o olhar que usava para sondar pensamentos.

— Sim, sei o que quer dizer — ele acrescentou. — Faz alusão a esses rumores terríveis que correm na sociedade, segundo os quais todas essas mortes que há três meses me enlutam, que essa morte a que Valentine, como por milagre, acaba de escapar, não são naturais.

— Não era nisso que eu pensava — disse com vivacidade a sra.

Danglars.

— Sim, era nisso que pensava, senhora, e nada mais justo, pois não podia fazer outra coisa senão pensar nisso, e a senhora ruminava baixinho:

“Tu, que persegues o crime, responde: Por que permanecem impunes tantos crimes ao teu redor?”

A baronesa empalideceu.

— Não era o que perguntava para si mesma, senhora?

— Pois bem! Admito.

— Vou lhe dar a resposta.

Villefort aproximou sua poltrona da cadeira da sra. Danglars. Em seguida, apoiando ambas as mãos em sua mesa e assumindo uma entonação mais cava que de costume, ele disse:

— Há crimes que permanecem impunes porque os autores não são conhecidos e porque tememos decepar uma cabeça inocente no lugar de uma cabeça culpada. Contudo, quando esses criminosos forem conhecidos

— Villefort apontou para um crucifixo em frente à sua mesa —, quando esses criminosos forem conhecidos — repetiu —, pelo Deus vivo, senhora, seja quem for, morrerão! Agora, depois do juramento que lhe acabo de fazer, e que irei manter, senhora, ouse pedir-me perdão para esse miserável!

— Oh, senhor — replicou a sra. Danglars —, tem certeza de que ele é tão culpado como dizem?

— Veja sua ficha: Benedetto, primeira condenação, cinco anos a ferros por falsificação, aos dezesseis anos. Um rapaz promissor, como vê. Depois evadido, depois assassino.

— E quem é esse miserável?

— Ora, sabe-se lá! Um vagabundo, um corso.

— Então ninguém procurou por ele?

— Ninguém. Seus pais não são conhecidos.

— Mas e aquele homem que veio de Luca?

— Outro patife como ele, talvez seu cúmplice. A baronesa juntou as mãos, aflita.

— Villefort! — ela rogou, com sua entonação mais meiga e carinhosa.

— Por Deus, senhora — respondeu o procurador do rei, com uma firmeza não isenta de secura —, por Deus! Nunca me peça misericórdia para um culpado.

“Quem sou eu? A lei. Por acaso a lei tem olhos para ver sua tristeza?

Tem ouvidos para ouvir sua voz amável? Tem memória para levar em consideração seus delicados pensamentos? Não, senhora, a lei ordena e, quando a lei ordena, ela ataca.

 

Villefort apontou para um crucifixo em frente à sua mesa.

“A senhora me dirá que sou um ser vivo e não um código; um homem, e não um compêndio. Olhe para mim, olhe ao meu redor. Os homens me trataram como irmão? Amaram-me? Foram indulgentes comigo?

Pouparam-me? Alguém pediu misericórdia para o sr. de Villefort e foi concedida a esse alguém misericórdia para o sr. de Villefort? Não, não, não! Insultado, sempre insultado! “A senhora obstina-se, mulher, ou seja, sereia que é, em me falar com esse olhar sedutor e expressivo, sugerindo-me que devo ruborizar. Pois muito bem: sim, ruborizar pelo que a senhora sabe e, talvez, por uma outra coisa também. “Mas, enfim, depois que eu mesmo falhei, e mais profundamente que os outros talvez, pois bem!, depois disso desnudei os outros para encontrar a chaga, e nunca deixei de encontrá-la, digo mais, sempre encontrei com felicidade, com alegria, esse estigma da fraqueza ou da perversidade humana.

“Pois, todo homem que eu considerava culpado, e todo culpado que eu condenava, parecia-me uma prova viva, mais uma prova, de que eu não era

uma

hedionda

exceção!

Infelizmente,

desafortunadamente,

desgraçadamente, todo mundo é pérfido, senhora, cabe a nós prová-lo e aniquilar a perfída.”

Villefort pronunciou estas últimas palavras com uma raiva febril, o que conferia à sua linguagem uma eloqüência feroz.

— Ora — replicou a sra. Danglars, fazendo uma última tentativa —, está me dizendo que esse rapaz é um aventureiro, órfão e abandonado por todos?

— Tanto pior, tanto pior, quer dizer, tanto melhor. A Providência o fez assim para que ninguém tivesse que chorar por ele.

— Isso é escarnecer do fraco, senhor.

— O fraco que assassina!

— A desonra dele respingará sobre a minha casa.

— Não tenho eu a morte na minha?

— Oh — exclamou a baronesa —, o senhor não tem pena dos outros.

Pois bem! Sou eu quem lhe digo: não irão ter pena do senhor!

— Chega! — interrompeu Villefort, erguendo seu braço num gesto de ameaça.

— Ao menos, se ele for preso, adie o processo desse infeliz até a próxima magistratura. Isso nos dará seis meses para que o esqueçam.

— Em hipótese alguma — recusou Villefort —, ainda tenho cinco dias.

O inquérito está concluído. Cinco dias é mais que o necessário, aliás, não compreende, senhora, que eu também preciso esquecer? Pois bem! Quando estou trabalhando, e trabalho noite e dia, quando estou trabalhando, há momentos em que não lembro mais e, quando não lembro mais, sou feliz à maneira dos mortos. Ora, isso ainda é preferível a sofrer.

— Senhor, ele desapareceu. Acoberte sua fuga, a inércia é uma clemência fácil.

— Já lhe disse que é tarde demais! O telégrafo foi acionado assim que amanheceu e, neste exato momento...

— Senhor — disse o mordomo, entrando —, um dragão trouxe esse despacho do ministro do Interior.

Villefort pegou a carta e abriu-a com nervosismo. A sra. Danglars estremeceu de pavor, Villefort estremeceu de alegria.