O Conde de Monte Cristo
16. A alta e a baixa
6 Cagliostro: Alessandro Cagliostro (1743-95), ou conde Cagliostro, foi um viajante, ocultista, alquimista, curandeiro e maçom do séc.XVIII. Há quem associe seu nome a Giuseppe Bálsamo, italiano famoso como mágico e alquimista. Alexandre Dumas era um desses, tendo escrito um romance protagonizado por Bálsamo.
7 Potemkin: Grigori Alexandrovitch Orlov (1734-83), príncipe de Potemkin e amante da czarina Catarina II (1729-96), era famoso por ostentar sua riqueza.
8 Diógenes: Platão definiu o homem como um bípede desplumado; Diógenes depenou um galo e jogou-o diante dele, dizendo: “Eis o homem de Platão”. Diógenes Laércio, Vida de Diógenes, VI, XL.
9 “Noblet ... entrechats de sempre”: referência ao Balé dos nomes, peça famosa na época e interpretada por três dançarinas do corpo de baile do Ópera, Lise Noblet (1801-52), Julia e Pauline Leroux (1809-91).
10 Roberto Mário: Roberto é o nome do personagem-título, Mário, do cantor Giovanni de Candia, que entretanto só estrearia no Ópera em 1838, depois de terminada a ação do romance.
O príncipe de Granada é outro personagem da ópera.
11 Ver Parte II, cap.17, nota 142.
16. A alta e a baixa
Alguns dias depois desse encontro, Albert de Morcerf foi visitar Monte Cristo em sua casa dos Champs-Élysées, que já assumira o aspecto de palácio que o conde, graças à imensa fortuna de que dispunha, imprimia às suas residências, mesmo as mais temporárias.
Ele vinha renovar os agradecimentos da sra. Danglars, anteriormente manifestados numa carta assinada baronesa Danglars, cujo nome de batismo era Hermine de Salvieux.
Albert estava na companhia de Lucien Debray, que acrescentou às palavras do amigo alguns cumprimentos provavelmente não oficiais, mas cuja razão de ser, em virtude da elegância de seu olhar, o conde não podia suspeitar.
Pareceu-lhe inclusive que Lucien estava ali movido por uma dupla curiosidade, e que parte de tal sentimento emanava da rua de Chauséed’Antin. Com efeito, ele podia supor, sem medo de se enganar, que a sra. Danglars, incapaz de conhecer com os próprios olhos a alma de um homem que dava cavalos de trinta mil francos e ia ao Opéra com uma escrava grega vestindo um milhão em diamantes, encarregara os olhos com os quais tinha o hábito de ver de lhe dar informações sobre essa alma.
Mas o conde pareceu não desconfiar de qualquer correlação entre a visita de Lucien e a curiosidade da baronesa.
— Tem relações assíduas com o barão Danglars? — perguntou a Albert de Morcerf.
— Sim, sr. conde; sabe muito bem o que eu lhe disse.
— Isso ainda persiste?
— Mais que nunca — disse Lucien —, o negócio está fechado.
E Lucien, provavelmente julgando que aquela palavra imiscuída na conversa dava-lhe o direito de a esta permanecer alheio, instalou seu lornhão de tartaruga no olho e, levando o castão de ouro da bengala aos lábios, pôs-se a dar uma volta no aposento, examinando armas e quadros.
— Ah! — disse Monte Cristo. — Mas o senhor nunca me deu a entender que a solução seria tão imediata.
— Que posso fazer? As coisas caminham imperceptivelmente; enquanto não pensamos nelas, elas pensam em nós; e, quando nos voltamos, somos surpreendidos pela direção que tomaram. Meu pai e o sr. Danglars serviram juntos na Espanha, meu pai no exército, o sr. Danglars no setor de
víveres. Foi lá que meu pai, arruinado pela Revolução, e o sr. Danglars, que por sua vez nunca tivera patrimônio, lançaram os fundamentos, meu pai de sua fortuna política e militar, que é bela, o sr. Danglars, de sua fortuna política e financeira, que é magnífica.
Debray.
— Sim, com efeito — disse Monte Cristo —, durante a visita que lhe fiz, o sr. Danglars me falou sobre isso; e — ele continuou, dando um relance na direção de Lucien, que folheava certo álbum — é bonita a srta.
Eugénie? Pois creio me lembrar que Eugénie é seu nome.
— Muito bonita, ou melhor, belíssima — respondeu Albert —, mas de uma beleza que não aprecio. Sou um indigno!
— Já fala como se fosse o marido!
— Oh! — disse Albert, olhando ao redor para ver, por sua vez, o que fazia Lucien.
— Eu diria — disse Monte Cristo, baixando a voz — que o senhor não me parece muito entusiasmado com esse casamento!
— A srta. Danglars é rica demais para mim — disse Morcerf —, isso me assusta.
— Deixe disso! — replicou Monte Cristo. — É uma bela rainha; o senhor também não é rico?
— Meu pai possui algo como umas cinqüenta mil libras de renda e talvez me dê dez ou doze quando eu me casar.
— De fato isso é pouco — disse o conde —, principalmente em Paris; mas a fortuna não é tudo neste mundo, um belo nome e um elevado status social também têm valor. Seu nome é célebre, sua posição, magnífica, e depois o conde de Morcerf é um soldado e é agradável ver essa integridade de Bayard aliar-se à pobreza de
Duguesclin1; o desinteresse é o mais belo raio de sol sob o qual pode reluzir uma nobre espada. Quanto a mim, ao contrário, julgo essa união mais que auspiciosa: a srta. Danglars o enriquecerá e o senhor a enobrecerá.
Albert balançou a cabeça e ficou pensativo.
— Há mais uma coisa — ele disse.
— Confesso — prosseguiu Monte Cristo — que me custa compreender essa repugnância por moça tão rica e bela.
— Oh, meu Deus — disse Morcerf —, essa repugnância, se repugnância há, não é apenas da minha parte!
— Mas da parte de quem então? Pois o senhor me disse que o seu pai desejava esse casamento.
— Da parte da minha mãe, e minha mãe é um olho prudente e seguro.
Pois, veja, ela não sorriu diante dessa união; ela tem não sei que tipo de prevenção contra os Danglars.
— Oh — disse o conde num tom um pouco forçado —, isso pode ser revertido; a sra. condessa de Morcerf, que é a distinção, a aristocracia, o refinamento em pessoa, hesita um pouco em tocar mãos plebéias, grosseiras e rudes: isso é natural.
— Não creio que se trate disso — disse Albert. — Sei é que me parece que esse casamento, caso se realize, a fará infeliz. Faz seis semanas que devíamos nos reunir para discutir certos arranjos, mas tive uma enxaqueca daquelas...
— Verdadeira? — perguntou o conde sorrindo.
— Oh, bastante verdadeira, o medo provavelmente... tanto que adiaram a reunião para dois meses depois. Não tenho por que ter pressa, o senhor compreende; ainda não fiz vinte e um anos, e Eugénie tem apenas
dezessete; mas os dois meses expiram na semana que vem. O acordo precisa ser concretizado. Não pode imaginar, meu caro conde, o quanto estou embaraçado... Ah, como o senhor é feliz em ser livre!
— Ora, seja livre também; o que o impede, posso perguntar?
— Oh, seria uma decepção enorme para o meu pai se eu não me casasse com a srta. Danglars.
— Case-se então — disse o conde, com um singular movimento dos ombros.
— Sim — disse Morcerf —, mas para minha mãe não será uma decepção, será um sofrimento.
— Então não se case — disse o conde.
— Veremos, vou tentar, o senhor me dará um conselho, não é mesmo?
E, se possível, irá me tirar desse embaraço. Oh, para não fazer minha excelente mãe sofrer, acho que eu brigaria com o conde meu pai.
Monte Cristo esquivou-se; parecia perturbado.
— Ei! — disse Morcerf a Debray, que estava sentado numa poltrona funda junto à ponta do salão, segurando com a mão direita um lápis e com a esquerda uma caderneta. — Que está fazendo, um croqui ao estilo de Poussin?
— Eu? — reagiu ele tranqüilamente. — Oh, imagine, um croqui, gosto demais de pintura para fazer uma coisa dessas! De jeito nenhum, faço justo o oposto de pintura, faço números.
— Números?
— Sim, faço contas; isso lhe diz respeito indiretamente, visconde; calculo quanto o banco de Danglars ganhou com a última alta do Haiti: de duzentos e seis o fundo pulou para quatrocentos e nove em três dias, e o prudente banqueiro comprara muito a duzentos e seis. Deve ter ganho trezentas mil libras.
— Não foi sua melhor tacada — disse Morcerf. — Ele não ganhou um milhão este ano com os títulos da Espanha?
— Escute, meu caro — disse Lucien —, aqui está o conde de Monte Cristo, que lhe dirá, como os italianos: “Danaro e santia/ Meta della
meta” 2. E isso ainda é muito. Da mesma forma, quando me vêm com essa lengalenga, dou de ombros.
— Ora, estão falando do Haiti? — perguntou Monte Cristo.
— Oh, o Haiti é outra coisa; o Haiti é o écarté3 da agiotagem francesa.
Podemos gostar da bouillote, prezar o uíste, ser loucos pelo bóston, e
mesmo assim cansar de tudo isso; mas voltamos sempre ao écarté: é o nosso antipasto. Por exemplo, ontem o sr. Danglars vendeu a quatrocentos e seis e embolsou trezentos mil francos; se houvesse esperado o dia de hoje, o fundo voltava a cair a duzentos e cinco e, em vez de ganhar trezentos mil francos, ele perdia vinte ou vinte e cinco mil.
— E por que o fundo caiu de quatrocentos e nove para duzentos e cinco?
— perguntou Monte Cristo. — Desculpe, sou muito ignorante a respeito das peripécias da Bolsa.
— Porque — respondeu Albert, rindo — as notícias se sucedem e não coincidem.
— Minha nossa! — exclamou o conde. — O sr. Danglars joga para ganhar ou perder trezentos mil francos num dia! Quer dizer que é imensamente rico?
— Não é ele quem joga! — corrigiu vivamente Lucien. — É a sra.
Danglars; ela é realmente intrépida.
— Mas você, Lucien, que é razoável e conhece a frágil estabilidade das notícias, uma vez que está na fonte delas, deveria impedi-la — disse Morcerf com um sorriso.
— Como posso fazer isso, se nem o marido consegue? — perguntou Lucien. — Você conhece o temperamento da baronesa; ninguém tem influência sobre ela, e ela só faz o que quer.
— Oh, se eu estivesse no seu lugar! — especulou Albert.
— E daí?
— Eu a curaria; seria um serviço a ser prestado a seu futuro genro.
— Como assim?
— Por Deus! É muito fácil. Eu lhe daria uma lição.
— Uma lição?
— Sim. Sua posição de secretário do ministro lhe dá uma grande autoridade em relação às notícias; basta você abrir a boca para os agentes de câmbio estenografarem imediatamente suas palavras; faça-a perder uma centena de mil francos sucessivamente, e isso a fará prudente.
— Não compreendo — balbuciou Lucien.
— Entretanto, é cristalino — respondeu o rapaz com uma ingenuidade que nada tinha de afetada. — Anuncie-lhe uma bela manhã alguma coisa de insólita, uma notícia telegráfica que apenas você poderia saber; que Henrique IV, por exemplo, foi visto ontem
na casa de Gabrielle4; assim os fundos irão subir, ela planejará a jogada dela na Bolsa com base nisso e
decerto perderá, pois Beauchamp escreverá no dia seguinte em seu jornal:
“É um equívoco as pessoas bem-informadas sugerirem que o rei Henrique IV foi visto anteontem na casa de Gabrielle, esse fato é completamente inexato; o rei Henrique IV não deixou a Pont-Neuf.”
Lucien começou a rir com o canto dos lábios. Monte Cristo, embora aparentemente indiferente, não havia perdido uma palavra da conversa, e seu olho penetrante chegara inclusive a ler um segredo no embaraço do secretário.
Tal embaraço de Lucien, que escapara completamente a Albert, fez com que o primeiro abreviasse a visita.
Seu desconforto era visível. Ao acompanhá-lo até a porta, o conde disselhe algumas palavras em voz baixa, às quais ele respondeu:
— Será um prazer, sr. conde, aceito.
O conde voltou até o jovem de Morcerf.
— Não acha, pensando bem — disse-lhe —, que errou ao falar sobre sua sogra como o fez na frente do sr. Debray?
— Por favor, sr. conde, não pronuncie essa palavra antecipadamente.
— Agora sério e sem exageros, a condessa é assim tão contrária a esse casamento?
— A ponto de a baronesa raramente nos visitar, e minha mãe, acho que foi duas vezes em sua vida na casa da sra. Danglars.
— Sendo assim — disse o conde —, atrevo-me a lhe falar de coração aberto: o sr. Danglars é meu banqueiro, o sr. de Villefort cumulou-me de gentilezas como gratidão por um serviço que lhe prestei, pessoalmente, graças a um feliz acaso. Vislumbro atrás de tudo isso uma avalanche de jantares e recepções. Ora, para não ser um estorvo pomposo, e, se preferir, até mesmo para ter o mérito de tomar a dianteira, planejei reunir na minha casa de campo de Auteuil o sr. e a sra. Danglars e o sr. e a sra. de Villefort.
Se eu convidá-lo para esse jantar, bem como o sr. conde e a sra. condessa de Morcerf, não irá tal reunião parecer uma espécie de encontro matrimonial, ou melhor, não irá a sra. condessa de Morcerf considerar a coisa dessa forma, sobretudo se o sr. barão de Danglars me der a honra de levar sua filha? Nesse caso, sua mãe terá horror a mim, o que não quero em absoluto; faço questão, ao contrário, e diga-lhe isso todas as vezes que tiver uma chance, de cair em suas boas graças.
— Puxa, conde — disse Morcerf —, agradeço-lhe pela franqueza que usou comigo, e aceito a exclusão a mim proposta. Embora diga que faça
questão de cair nas boas graças da minha mãe, não precisa se preocupar.
— Acha? — perguntou Monte Cristo, interessado.
— Oh, tenho certeza! Quando se despediu outro dia, conversamos uma hora sobre o senhor... Mas, mas voltando ao assunto, perfeito! Se minha mãe viesse a saber dessa atenção de sua parte, e tomarei a liberdade de contar-lhe, tenho certeza de que ficaria muitíssimo agradecida. É verdade que, por outro lado, meu pai ficaria furioso.
O conde começou a rir.
— Ótimo! — disse ele a Morcerf. — O senhor está avisado. Porém, acho que apenas o seu pai ficará furioso; o sr. e a sra. Danglars vão me considerar um homem de péssimas maneiras. Eles sabem que nos freqüentamos com certa intimidade, que o senhor inclusive é meu mais antigo amigo parisiense e, não o encontrando em minha casa, vão me perguntar por que não o convidei. Tente pelo menos arranjar um compromisso anterior que pareça verossímil, do qual me dará ciência por meio de um bilhete. O senhor sabe: com banqueiros, vale o escrito.
— Farei melhor que isso, sr. conde — disse Albert. — Minha mãe quer respirar o ar marinho. Para que dia está marcado o seu jantar?
— Sábado.
— Hoje é terça-feira; amanhã à noite partimos; depois de amanhã bem cedinho estaremos em Le Tréport. Saiba, conde, que o senhor é um homem encantador quando deixa as pessoas à vontade desse jeito!
— Eu!? Na verdade, o senhor me superestima; quero apenas ser simpático consigo.
— Em que dia fez os seus convites?
— Hoje mesmo.
— Ótimo! Vou correr até a casa do sr. Danglars para lhe avisar que minha mãe e eu deixamos Paris amanhã. Não estive com o senhor; por conseguinte, nada sei sobre o seu jantar.
— Está louco! E o sr. Debray, que acaba de vê-lo na minha casa?!
— Ah, é verdade!
— Ao contrário, estive com o senhor e o convidei para o jantar com toda a naturalidade, e o senhor, ingenuamente, respondeu-me que não poderia comparecer porque estava de partida para Le Tréport.
— Ótimo! Então está resolvido. Mas e o senhor, irá visitar minha mãe antes de amanhã?
— Antes de amanhã é difícil; além disso, eu chegaria em meio a seus preparativos de viagem.
— Pois bem! Faça algo ainda melhor; o senhor era apenas um homem encantador, será um homem adorável.
— Que preciso fazer para alcançar essa sublimidade?
— O que precisa fazer?
— Eu é que pergunto.
— Hoje o senhor está livre como o ar; venha jantar comigo; estaremos en petit comité, apenas o senhor, minha mãe e eu. O senhor mal esteve com ela; agora poderá vê-la mais de perto. É uma mulher extraordinária, e só lamento uma coisa: é que não exista outra com vinte anos a menos; logo haveria, juro, uma condessa e uma viscondessa de Morcerf. Quanto a meu pai, não irá encontrá-lo. Tem compromisso essa noite e vai jantar na casa do
grão-referendário5. Venha, recordaremos nossas viagens. O senhor, que viu o mundo inteiro, nos contará suas aventuras; nos contará a história dessa bela grega que estava consigo a outra noite no Opéra, que o senhor diz ser sua escrava mas que trata como princesa. Falaremos italiano e espanhol. Vamos, aceite; minha mãe lhe será grata.
— Mil desculpas — disse o conde. — O convite é dos mais delicados, e lamento profundamente não poder aceitá-lo. Não sou livre como o senhor pensa, e, ao contrário, tenho um compromisso muito importante.
— Atenção! O senhor acaba de me ensinar como, em se tratando de um jantar, nos desvencilhamos de uma coisa desagradável. Agora exijo uma prova. Felizmente, não sou banqueiro como o sr. Danglars; mas sou, aviso, tão incrédulo quanto ele.
— Então lhe darei essa prova — disse o conde. E tocou a campainha.
— Hum! — fez Morcerf. — Já é a segunda vez que o senhor se recusa a jantar com a minha mãe. Isso é coisa pensada, conde.
Monte Cristo estremeceu.
— Oh, nem diga isso! — disse ele. — Aliás, eis a prova que chega.
Baptistin entrou e postou-se de pé à porta, aguardando.
— Eu não estava ciente de sua visita, não é?
— Diabos! O senhor é um homem tão extraordinário que não responderei.
— Pelo menos eu não teria como adivinhar que o senhor me convidaria para jantar.
— Oh, quanto a isso, é provável.
— Pois muito bem! Escute. Baptistin... que lhe disse eu esta manhã quando o chamei ao meu gabinete de trabalho?
— Para fechar a porta do sr. conde depois do toque das cinco horas.
— E depois?
— Oh, sr. conde...! — disse Albert.
— Não, não; quero me livrar definitivamente dessa reputação misteriosa que o senhor me atribuiu, meu caro visconde. É muito difícil encarnar o Manfred eternamente. Quero viver numa casa de vidro. E depois...
Continue, Baptistin.
— Depois, para receber apenas o sr. major Bartolomeo Cavalcanti e seu filho.
— Está ouvindo, o sr. major Bartolomeo Cavalcanti, um homem da mais antiga nobreza da Itália e de quem Dante deu-se o trabalho de
ser o d’Hozier... lembra-se, ou não, no décimo canto do “Inferno” 6; além dele, seu filho, um rapaz encantador mais ou menos da sua idade, visconde, usando o mesmo título e que faz sua entrada no mundo parisiense com os milhões do seu pai. O major vai me trazer esta noite seu filho Andrea, o contino, como dizemos na Itália. Irá deixá-lo aos meus cuidados. Se ele tiver méritos, darei um empurrãozinho. O senhor me ajudará, não é mesmo?
— Sem dúvida! Esse major Cavalcanti então é um velho amigo seu? —
perguntou Albert.
— Em absoluto, é um digno fidalgo, muito educado, muito modesto, muito discreto, como tantos há na Itália, descendentes diretos das velhas famílias. Encontrei-o diversas vezes, em Florença, Bolonha, Lucca, e ele me avisou de sua chegada. Conhecidos de viagens são exigentes, reivindicam, em qualquer circunstância, a amizade que lhes dispensamos uma vez por acaso; como se o homem civilizado, que consegue conviver uma hora com qualquer um, não tivesse sempre uma segunda intenção!
Esse simpático major Cavalcanti vai rever Paris, que só viu de passagem, sob o Império, a caminho da gelada Moscou. Devo oferecer-lhe um bom jantar, ele me deixará o filho; prometerei cuidar dele, permitirei que faça todas as loucuras que lhe der na veneta, e estaremos quites.
— Magnífico! — exclamou Albert. — E vejo que o senhor é um excelente mentor. Então até logo, estaremos de volta no domingo. A propósito, recebi notícias de Franz.
— Verdade! — admirou-se Monte Cristo. — E ele continua gostando da Itália?
— Creio que sim; apesar de sentir saudades do senhor. Diz que o senhor era o sol de Roma, cujo céu, sem a sua presença, ficou nublado. Salvo engano, ele inclusive diz que chove por lá.
— Então seu amigo Franz me reavaliou?
— Ao contrário, continua a julgá-lo fantástico em primeiro grau; eis por que sente saudades do senhor.
— Rapaz encantador — disse Monte Cristo —, e pelo qual senti uma viva simpatia na primeira noite em que o vi, procurando uma ceia qualquer e dispondo-se a aceitar a minha. Ele é, creio, filho do general d’Épinay?
— Exatamente.
— O mesmo que foi assassinado tão miseravelmente em 1815?
— Pelos bonapartistas.
— É isso! Caramba, gosto dele! Não existem planos de casamento para ele também?
— Sim, deve casar-se com a srta. de Villefort.
— É mesmo?
— Assim como eu devo me casar com a srta. Danglars — replicou Albert rindo.
— Está rindo...
— Sim.
— Por que ri?
— Rio porque me parece ver desse lado a mesma simpatia pelo casamento que há do outro lado entre a srta. Danglars e eu. Mas, o senhor há de convir, meu caro conde, que estamos falando das mulheres como as mulheres falam dos homens; isso é imperdoável!
Albert levantou-se.
— Já vai?
— A pergunta é boa! Há duas horas que o importuno e tem a polidez de me perguntar se vou embora! Na verdade, conde, o senhor é o homem mais gentil da Terra! E seus criados, como são educados! O sr. Baptistin, principalmente! Nunca consegui ter um assim. Os meus parecem todos inspirar-se nos criados do Théâtre Français, os quais, justamente por terem apenas uma palavra a dizer, vêm sempre dizê-la na ribalta. Assim, caso se desfaça do sr. Baptistin, peço-lhe a preferência.
— Está concedida.
— Isso não é tudo, espere: transmita meus cumprimentos ao seu discreto homem de Lucca, ao fidalgo Cavalcanti dei Cavalcanti; e, se por acaso ele quiser casar o filho, encontre para este uma mulher bem rica, bem nobre, por parte de mãe, pelo menos, e, claro, baronesa por parte de pai. Posso ajudá-lo.
— Oh, oh! — respondeu Monte Cristo. — Sério, está certo disso?
— Sim.
— Preste atenção! Não se deve jurar nada.
— Ah, conde — exclamou Morcerf —, que favor me prestaria, e como eu ficaria cem vezes grato, se, por sua causa, eu continuasse solteiro por mais uns dez anos.
— Tudo é possível — respondeu Monte Cristo gravemente.
Despedindo-se de Albert, ele entrou em seu aposentos e bateu três vezes no gongo.
Bertuccio apareceu.
— Senhor Bertuccio — disse ele —, fique sabendo que sábado à noite darei uma recepção na casa de Auteuil.
Bertuccio sentiu um calafrio.
— Muito bem, patrão — disse ele.
— Preciso do senhor — continuou o conde — para que tudo esteja preparado adequadamente. Aquela casa é muito bonita, ou pelo menos pode ficar muito bonita.
— Seria preciso mudar tudo para chegar a isso, sr. conde, pois as pinturas envelheceram.
— Pois refaça-as todas, à exceção de uma, a vermelha do quarto de dormir das senhoras. Deixe-a exatamente como está.
Bertuccio inclinou-se.
— Tampouco mexa no jardim; mas no pátio faça o que quiser; prefiro inclusive que não o reconheçam.
— Farei o melhor possível para que o sr. conde fique satisfeito. Eu ficaria mais seguro, entretanto, se o sr. conde pudesse me dizer suas intenções para o jantar.
— Na verdade, sr. Bertuccio — disse o conde —, desde que está em Paris sinto-o um pouco desorientado, hesitante; então não me conhece mais?
— Mas Sua Excelência poderia pelo menos me dizer quem são seus convidados!
— Ainda não sei de nada, e o senhor tampouco precisa saber.
Lúculo janta na casa de Lúculo7, ponto final.
Bertuccio inclinou-se e saiu.
1 “integridade de Bayard... Duguesclin”: Pierre Terrail (1473-1524), o cavaleiro de Bayard, foi um militar francês que entrou para a história como um modelo de honradez; Bertrand Duguesclin (1320-80), horói militar francês famoso por suas façanhas. Entretanto, na juventude, havia sido deserdado pelo pai.
2 Danaro e santia/ Meta della meta: “Dinheiro e santidade/ Metade da metade.” (Nota do Autor.)
3 Écarté: jogo de cartas, normalmente jogado a dois, com trinta e duas cartas.
4 Henrique IV e Gabrielle: Henrique, o Grande (1553-1610), rei da França e que tinha por amante Gabrielle d'Estrées (c.1570-99). Henrique foi quem, ao se converter ao catolicismo para poder reinar, cunhou a célebre frase: “Paris bem vale uma a missa.”