O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 70 de 119

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O Conde de Monte Cristo

11. Um baile de verão

— Tenho um sono de bebê, não se lembra?

O rosto da baronesa ficou roxo e a palidez se espalhou pelo de Villefort.

— É verdade — ele disse, tão baixo que mal se ouviu.

— E agora? — perguntou a baronesa.

— E agora! Sei muito bem o que me resta a fazer — declarou Villefort.

— Em no máximo uma semana saberei quem é esse sr. de Monte Cristo, de onde vem, para onde vai e por que discorre à nossa frente sobre crianças desenterradas de seu jardim.

Villefort pronunciou essas palavras com uma ênfase que provocaria calafrios no conde, caso este as pudesse ter ouvido.

Em seguida, apertou a mão que a baronesa hesitava em lhe oferecer e a acompanhou respeitosamente até a porta.

A sra. Danglars chamou outro fiacre, que a levou à travessa do lado oposto da qual estavam seu coche e o condutor. Este, à sua espera, cochilava tranqüilamente no assento.

1 “da menina pecadora e da mulher adúltera”: a pecadora perdoada e amada, Lucas, VII, 36-50; a mulher adúltera, João, VIII, 1-11.

2 Na Parte VI, cap.13, Andrea dirá ter nascido “na noite de 27 para 28 de setembro de 1817”.

 

11. Um baile de verão

Naquele mesmo dia, por volta da hora em que a sra. Danglars fazia a visita, por nós relatadas, ao gabinete do sr. procurador do rei, uma caleche de viagem, ao entrar na rua du Helder, atravessava o portão do no27 e parava no pátio.

Ao cabo de um instante, a portinhola se abriu e a sra. de Morcerf desceu, amparada pelo braço do filho.

Assim que acompanhou a mãe até os aposentos dela, Albert pediu um banho, seus cavalos e, após se vestir com a ajuda do criado de quarto, ordenou que o levassem aos Champs-Éysées, até a casa do conde de Monte Cristo.

O conde recebeu-o com seu sorriso habitual. Era uma coisa estranha: ninguém parecia conseguir conquistar um centímetro do coração ou do espírito desse homem. Os que pretendiam, se podemos dizer assim, forçar a passagem de sua intimidade, encontravam um muro.

Morcerf, que corria em sua direção de braços abertos, ao vê-lo, e a despeito do seu sorriso amistoso, deixou cair os braços e não ousou senão lhe estender a mão.

Monte Cristo, por sua vez, tocou-a, mas sem apertá-la, como sempre.

— Muito bem! Aqui estou — disse ele —, caro conde.

— Seja bem-vindo.

— Cheguei há uma hora.

— De Dieppe?

— De Le Tréport.

— Ah, é verdade.

— E a minha primeira visita é para o senhor.

— Muito generoso de sua parte — disse Monte Cristo, como se tivesse falado coisa completamente diversa.

— Então, vejamos, alguma novidade?

— Novidade? O senhor pergunta isto a mim, a um estrangeiro!

— Explico-me: quando pergunto pelas novidades, estou indagando se fez alguma coisa por mim?

— Então havia me encarregado de alguma missão? — indagou Monte Cristo, com uma inquietude gozadora.

— Vamos, vamos — disse Albert —, não finja indiferença. Dizem que existem fluidos sensitivos que ignoram as distâncias. Pois bem! Em Le

Tréport, recebi um choque elétrico; se não trabalhou por mim, pelo menos pensou em mim.

— Isso é possível — disse Monte Cristo. — Com efeito, pensei no senhor; mas a corrente magnética de que eu era condutor agia, confesso, independentemente da minha vontade.

— Sério! Conte-me isso, por favor.

— É fácil, o sr. Danglars jantou na minha casa.

— Isso eu sei muito bem, uma vez que foi para fugir de sua presença que viajamos, minha mãe e eu.

— Mas ele jantou com o sr. Andrea Cavalcanti.

— Seu príncipe italiano?

— Não exageremos. O sr. Andrea atribui-se apenas o título de visconde.

— Atribui-se, foi o que ouvi?

— Sim: atribui-se.

— Logo, não o é?

— Ora, e como eu vou saber? Ele se atribuiu o título, eu lhe atribuo, todos lhe atribuem; não é como se ele o possuísse?

— O senhor é de fato um homem estranho, admita. E daí?

— E daí o quê?

— O sr. Danglars então jantou em sua casa?

— Sim.

— Com seu visconde Andrea Cavalcanti?

— Com o visconde Andrea Cavalcanti, o marquês seu pai, a sra.

Danglars, o sr. e a sra. de Villefort, pessoas encantadoras, o sr. Debray, Maximilien Morrel e depois, quem mais... espere... ah!, o sr. de ChâteauRenaud.

— Falaram de mim?

— Não foi pronunciada uma palavra — Que pena.

— Por que lamenta? Se o esqueceram, me parece, ao agirem assim não fizeram o que o senhor desejava?

— Meu caro conde, se não falaram de mim é porque pensaram muito, e é isso que me desespera.

— Que lhe importa, uma vez que a srta. Danglars não estava entre os que pensavam? Ah, é verdade que ela podia pensar em casa.

— Oh, quanto a isto, não, tenho certeza; ou, se ela pensava, era certamente da mesma forma que penso nela.

— Que tocante! — ironizou o conde. — Quer dizer que se detestam?

— Escute — disse Morcerf —, se a srta. Danglars fosse mulher para ter pena do martírio que eu não sofro por ela, recompensando-me ao quebrar as convenções matrimoniais decretadas por nossas famílias, isso me seria muito conveniente. Em suma, acredito que a srta. Danglars pode ser uma amante encantadora; mas, como mulher, raios...

— Quer dizer — gracejou Monte Cristo — que essa é sua maneira de pensar no futuro?

— Oh, meu Deus, sim, um pouco brutal, é verdade, mas pelo menos cristalina. Ora, uma vez que não posso tornar esse sonho realidade; uma vez que, para alcançar determinado objetivo, é preciso que a srta. Danglars venha a ser minha mulher, isto é, que more comigo, pense ao meu lado, cante ao meu lado, faça versos e música a dez passos da minha pessoa, e isso durante todo o tempo da minha vida, então fico apavorado. Uma amante, meu caro conde, podemos abandonar; mas uma esposa, que diabo!, é outra coisa, conservamos para sempre, de perto ou de longe, cabe ressaltar. Ora, é terrível conservar a srta. Danglars para sempre, ainda que de longe.

— O senhor é difícil, visconde.

— Sim, pois freqüentemente penso numa coisa impossível.

— No quê?

— Em encontrar uma mulher para mim como meu pai encontrou para ele.

Monte Cristo empalideceu e fitou Albert, que brincava com magníficas pistolas, cujas molas fazia ranger nervosamente.

— Quer dizer que seu pai foi muito feliz? — ele perguntou.

— O senhor conhece minha opinião sobre minha mãe, sr. conde: um anjo do céu; ei-la ainda bela, sempre inteligente, melhor que nunca. Chego de Le Tréport; para qualquer outro filho, ora, meu Deus, fazer companhia à sua mãe seria uma magnanimidade ou uma obrigação; mas, no meu caso, passei quatro dias a sós com ela, mais satisfeito, mais tranqüilo, mais poético, eu diria, do que se tivesse conduzido a

Le Tréport a rainha Mab ou Titânia1.

— É uma perfeição desesperadora, e o senhor dá, a todos que o escutam, grande vontade de permanecer celibatários.

 

A avenida dos Champs-Élysées.

— Eis justamente porquê — continuou Morcerf —, sabendo existir no mundo mulher tão maravilhosa, não faço questão de me casar com a srta.

Danglars. Já reparou como às vezes o nosso egoísmo reveste de cores brilhantes tudo que nos pertence? O diamante que faiscava

na vitrine de Marlé ou de Fossin2 torna-se muito mais bonito quando passa a ser nosso; porém, se a evidência nos obrigar a reconhecer que existe outro de constituição ainda mais cristalina, e nos virmos obrigados a exibir eternamente esse diamante inferior a um outro, compreende o sofrimento?

— Frívolo! — murmurou o conde.

— Eis porque vou pular de alegria o dia em que a srta. Eugénie perceber que não passo de um átomo franzino e que, se mal possuo cem mil francos, ela possui milhões.

Monte Cristo sorriu.

— Eu tinha pensado em outra coisa — continuou Albert. — Franz gosta das coisas excêntricas, e eu quis, à sua revelia, fazê-lo apaixonar-se pela

srta. Danglars; porém, depois de quatro cartas que lhe escrevi no estilo mais sedutor possível, Franz respondeu, com a maior naturalidade: “Sou excêntrico, não nego, mas a minha excentricidade não chega a ponto de faltar com a minha palavra após tê-la empenhado.”

— Eis o que chamo de amizade devota: oferecer a alguém a mulher que só se quer a título de amante.

Albert sorriu e acrescentou:

— A propósito, nosso prezado Franz está para chegar; mas isso não deve interessar ao senhor, acho que não gosta dele...

— Eu! — estranhou Monte Cristo. — Ora, meu caro visconde, de onde tirou a idéia de que eu não gostava do sr. Franz? Eu gosto de todo mundo.

— E eu estou incluído nesse todo mundo... obrigado.

— Oh, não vamos confundir — disse Monte Cristo. — Gosto de todo mundo da maneira que Deus nos ordenou que amássemos ao nosso próximo, de maneira cristã; mas, na realidade, odeio apenas determinadas pessoas. Voltemos ao sr. Franz d’Epinay. Então ele está para chegar?

— Sim, convocado pelo sr. de Villefort, tão ansioso, ao que parece, de casar a srta. Valentine quanto o sr. Danglars de casar a srta. Eugénie.

Decididamente, deve ser muito cansativo ser pai de moças importantes; acho que isso lhes dá febre e que seu pulso bate noventa vezes por minuto, até se verem livres delas.

— Mas o sr. d’Épinay não é como o senhor; ele aceita com paciência o infortúnio.

— Melhor que isso, ele o leva a sério; usa gravatas brancas e já fala de sua família. Em todo caso, tem grande consideração pelos Villefort.

— Merecida, não é mesmo?

— Creio que sim. O sr. de Villefort sempre passou por um homem severo, mas justo.

— Já era tempo — disse Monte Cristo —, pelo menos existe uma pessoa que o senhor não trata como ao coitado do sr. Danglars.

— Isso talvez se deva ao fato de eu não estar sendo obrigado a me casar com sua filha — respondeu Albert rindo.

— Na verdade, meu caro, o senhor é de uma vaidade revoltante.

— Eu?

— Sim, o senhor. Pegue, então, um charuto.

— Com muito prazer. E por que sou vaidoso?

— Porque está aí se defendendo, relutando a se casar com a srta.

Danglars. Ora, meu Deus, deixe as coisas acontecerem e talvez você não seja o primeiro a faltar com a palavra.

— Bah! — fez Albert, arregalando os olhos.

— É verdade! Sem dúvida, meu caro visconde, não o colocarão numa igreja à força, que diabos! Agora, falando sério — continuou Monte Cristo, mudando a entonação —, sua vontade é romper?

— Eu daria cem mil francos por isso.

— Excelente! Comemore: o sr. Danglars está disposto a pagar o dobro para atingir o mesmo objetivo.

— Tal felicidade é, de fato, real? — animou-se Albert, que, apesar disso, não pôde impedir que uma nuvem imperceptível pairasse sobre sua fronte.

— Mas, meu caro conde, o sr. Danglars tem motivos para isso?

— Ah, eis que surge a natureza orgulhosa e egoísta! Enfim encontro o homem que pretende esburacar o amor-próprio do outro a machadadas, mas grita quando esburacam o seu com uma agulha.

— Não! Mas é que me parece que o sr. Danglars...

— Deveria estar deslumbrado com o senhor, não é mesmo? Pois bem! O

sr. Danglars é um homem de mau gosto, convenhamos, e está ainda mais deslumbrado com outro...

— Com quem, afinal?

— Ignoro; estude, observe, capte as alusões quando passarem, e faça bom proveito.

— Bem, compreendo; escute, minha mãe... não, minha mãe, não, desculpe, meu pai, teve a idéia de dar um baile.

— Um baile nesta época do ano?

— Os bailes de verão estão na moda.

— Mesmo que não estivessem, bastaria a condessa querer e eles ficariam.

— Ou algo parecido. O senhor compreende, são bailes puro-sangue; os que permanecem em Paris no mês de julho são parisienses autênticos.

Pode encarregar-se de convidar os srs. Cavalcanti?

— Daqui a quantos dias terá lugar o seu baile?

— Será no sábado.

— O sr. Cavalcanti pai terá partido.

— Mas o sr. Cavalcanti filho fica. Quer se encarregar de levar o sr.

Cavalcanti filho?

— Escute, visconde, não conheço o sr. Cavalcanti filho.

— Não o conhece?

— Não; vi-o pela primeira vez há três ou quatro dias, e não respondo por nada.

— Mas o senhor o recebe com cordialidade!

— Comigo, é diferente; ele me foi recomendado por um excelente abade, que pode por sua vez ter sido ludibriado. Convide-o diretamente, será ótimo assim, mas não me peça que o apresente; se mais tarde ele viesse a se casar com a srta. Danglars, o senhor me acusaria de manipulação e iria querer cortar a minha garganta; aliás, não sei nem se eu mesmo irei.

— Aonde?

— Ao seu baile.

— Por que não iria?

— Em primeiro lugar, porque o senhor ainda não me convidou.

— Vim expressamente para entregar em mãos seu convite.

— Oh, muito simpático; mas pode ser que me veja impossibilitado.

— Depois que eu lhe disser uma coisa, o senhor será suficientemente gentil para sacrificar a nosso favor todas as suas impossibilidades.

— Então diga-a.

— É um pedido da minha mãe.

— A sra. condessa de Morcerf? — perguntou o conde, estremecendo.

— Ah, conde — disse Albert —, aviso-lhe que a sra. de Morcerf conversa livremente comigo; e, se não sentiu vibrar dentro de si as fibras sensitivas que eu mencionava ainda há pouco, é porque carece completamente dessas fibras, pois durante quatro dias falamos apenas do senhor.

— De mim? Desse jeito o senhor me envaidece!

— Escute, isso é privilégio do seu status: ser um problema vivo.

— Ah, quer dizer que também sou um problema para sua mãe? Na verdade, eu a julgava suficientemente razoável para não se entregar a esses arroubos da imaginação!

— Problema, meu caro conde, problema para todos, para minha mãe e para os demais; problema aceito, mas não resolvido, o senhor permanece em estado de enigma, fique tranqüilo. Minha mãe só continua a perguntar como o senhor pode ser tão jovem. Creio que, no fundo, enquanto a condessa G... o toma por lorde Ruthwen, minha mãe o toma por

Cagliostro3, ou pelo conde de Saint-Germain4. Na primeira vez que for visitar a sra. de Morcerf, ratifique nela essa opinião. Isso não lhe será difícil, pois o senhor possui a pedra filosofal de um e a inteligência do outro.

— Agradeço por ter me avisado — disse o conde, sorrindo —, vou tentar estar à altura de tantas suposições.

— Então irá no sábado?

— Sendo um pedido da sra. de Morcerf.

— Muito amável da sua parte.

— E o sr. Danglars?

— Oh, este já recebeu um convite triplo; meu pai se encarregou disso.

Vamos tentar também ter o grande d’Aguessau5 e o sr. de Villefort; mas não temos muita esperança.

— A esperança é a última que morre, diz o provérbio.

— O senhor dança, caro conde?

— Eu?

— Sim, o senhor? O que haveria de espantoso se dançasse?

— Realmente, enquanto não se passa dos quarenta... Não, não danço; mas gosto de apreciar a dança. E a sra. de Morcerf, dança?

— Nunca, tampouco; vocês podem conversar, ela tem tanta vontade de conversar com o senhor!

— Realmente?

— Palavra de honra! E declaro que o senhor é o primeiro homem pelo qual minha mãe manifestou essa curiosidade.

Albert pegou seu chapéu e se levantou; o conde acompanhou-o até a porta.

— Faço-me uma censura — disse Monte Cristo parando no alto da escada.

— Qual?

— Fui indiscreto, não devia ter lhe falado do sr. Danglars.

— Ao contrário, fale mais, fale quando quiser, fale sempre; mas da mesma forma.

— Ótimo, o senhor me tranqüiliza. A propósito, quando chega o sr.

d’Épinay?

— Daqui a cinco ou seis dias, no máximo.

— E quando ele se casa?

— Assim que o sr. e a sra. de Saint-Méran chegarem.

— Traga-o para me visitar quando estiver em Paris. Embora o senhor acredite que não gosto dele, declaro que ficaria feliz em vê-lo.

— Muito bem, vossas ordens serão executadas, alteza.

— Até logo!

— Até sábado, em todo caso; sem falta, não é mesmo?

— Ora, eu lhe dei minha palavra.

O conde acompanhou Albert com os olhos, acenando-lhe com a mão.

Em seguida, quando subiu no faeton, voltou-se e, dando com Bertuccio atrás de si, perguntou:

— E então?

— Ela foi ao Palácio — respondeu o intendente.

— Ficou muito tempo?

— Uma hora e meia.

— E voltou para casa?

— Diretamente.

— Ótimo, meu caro sr. Bertuccio — alegrou-se o conde. — E agora, se tenho um conselho a lhe dar, é ir à Normandia para ver se não encontra o pedaço de terra de que lhe falei.

Bertuccio saudou e, como seus desejos estavam em perfeita harmonia com a ordem que recebera, partiu naquela mesma noite.

1 “rainha Mab ou Titânia”: Titânia, a rainha das fadas, na peça Sonhos de uma noite de verão, de Shakespeare, é a imagem transposta da rainha Mab da tradição popular inglesa, mencionada por Mercutio em Romeu e Julieta, ato I, cena IV.