O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 57 de 119

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O Conde de Monte Cristo

17. O major Cavalcanti

5 Grão-referendário: título dado, entre os pares de França, àquele encarregado de colocar o selo do Parlamento nos atos dele emanados e de cuidar de seus arquivos.

6 No canto X do “Inferno” (v.52-72), na Divina comédia, Dante encontra o pai de Guido, seu

“melhor amigo”, o epicurista Cavalcante Cavalcanti. A ironia do conde completa-se na referência ao genealogista francês Pierre d’Hozier (1592-1660).

7 A citação é de Plutarco, mas eis a versão de Dumas: “Certo dia, por um acaso incrível, Lúculo não tinha convidado ninguém para sentar à sua mesa. Seu cozinheiro veio lhe pedir ordens:

‘Estou sozinho’, disse Lúculo. O cozinheiro, pensando que um jantar de dez ou doze mil sestércios poderia bastar, agiu nesse sentido. Terminado o jantar, Lúculo mandou chamá-lo e repreendeu-o vigorosamente. O cozinheiro desculpou-se, dizendo-lhe: ‘Mas o senhor estava sozinho.’ ‘É justamente nos dias em que estou sozinho à mesa’, respondeu Lúculo, ‘que é preciso cuidar do meu jantar; pois, nesse dia, Lúculo janta na casa de Lúculo’.” (in Memórias gastronômicas de todos os tempos, op.cit.)

 

17. O major Cavalcanti

Nem o conde nem Baptistin haviam mentido ao anunciarem a Morcerf aquela visita do major de Lucca, a qual servia de pretexto para Monte Cristo recusar o jantar a ele oferecido.

Acabava de dar sete horas, e o sr. Bertuccio, de acordo com as ordens que recebera, partira às duas para Auteuil, quando um fiacre parou à porta do palacete e pareceu fugir todo encabulado mal havia despejado perto do portão um homem de cerca de cinqüenta e dois anos, vestindo um desses redingotes verdes com alamares pretos, cujo estilo é imperecível, ao que parece, na Europa. Uma calça folgada de lã azul, botas ainda bem limpas, embora de verniz duvidoso e com solas um pouco grossas, luvas de gamo, um chapéu que se aproximava pela forma de um chapéu de policial, um colarinho preto, contornado por um debrum branco, o qual, se porventura seu proprietário não o usasse por livre e espontânea vontade, poderia ter passado por uma golilha: eram estes os pitorescos trajes nos quais se apresentou o personagem que tocou na entrada, perguntando se não era no no30 dos Champs-Élysées que morava o sr. conde de Monte Cristo, e que, à resposta afirmativa do porteiro, entrou, fechou o portão atrás de si e dirigiu-se para a escadaria da entrada.

A cabeça pequena e angulosa desse homem, seus cabelos grisalhos, seu bigode cheio e esbranquiçado fizeram-no ser reconhecido por Baptistin, que, informado de seus traços exatos, esperava-o antes do vestíbulo. Dessa forma, mal ele pronunciou seu nome diante do inteligente servo, Monte Cristo foi avisado de sua chegada.

O forasteiro viu-se introduzido no salão mais simples. O conde aguardava-o ali e foi até ele com uma expressão risonha.

— Ah, caro senhor — disse —, seja bem-vindo. Eu estava à sua espera.

— É mesmo? — disse o homem de Lucca. — Sua Excelência me esperava?

— Sim, fui avisado da sua chegada hoje às sete horas.

— Da minha chegada? Então estava avisado?

— Precisamente.

— Ah, melhor assim! Temia, confesso, que tivessem se esquecido dessa pequena precaução.

— Qual?

— De avisá-lo.

 

— Oh, de forma alguma!

— Mas tem certeza de que não está enganado?

— Ah, caro senhor, seja bem-vindo. Eu estava à sua espera.

— Tenho certeza.

— Era de fato a mim que Vossa Excelência esperava hoje às sete horas?

— Era de fato ao senhor. A propósito, verifiquemos.

— Oh, não precisava ter o trabalho de me esperar — disse o homem de Lucca.

— Ao contrário! Ao contrário! — disse Monte Cristo. O homem de Lucca pareceu ligeiramente inquieto.

— Vejamos — disse Monte Cristo —, o cavalheiro não é o sr. marquês Bartolomeo Cavalcanti?

— Bartolomeo Cavalcanti — repetiu o homem de Lucca —, é exatamente isso.

— Ex-major no exército da Áustria?

— Era major que eu era? — perguntou timidamente o velho militar.

— Sim — disse Monte Cristo —, era major. É o nome que damos na França à patente que o senhor tinha na Itália.

— Bem — disse o homem de Lucca —, de minha parte, não peço mais que isso, o senhor compreende...

— Por sinal, o senhor não veio aqui espontaneamente — interrompeu Monte Cristo.

— Oh, com toda a certeza!

— Foi encaminhado por alguém.

— Sim.

— Terá sido por aquele excelente abade Busoni?

— É isso! — exclamou alegremente o major.

— E tem uma carta?

— Aqui está.

— Meu Deus, até que enfim. Passe-a para cá.

E Monte Cristo pegou a carta, que abriu e leu.

O major observava o conde com olhos arregalados, os quais passeavam curiosamente pelos recantos do aposento, mas que voltavam invariavelmente a seu proprietário.

— Isso mesmo... esse querido abade, “o major Cavalcanti, um digno advogado de Lucca, descendente dos Cavalcanti de Florença” — continuou Monte Cristo ao mesmo tempo que lia —, “gozando de uma fortuna de meio milhão de rendimentos”.

Monte Cristo levantou os olhos do papel e fez um saudação.

— Meio milhão, diz ele; caramba!, meu caro sr. Cavalcanti.

— Existe esse meio milhão? — perguntou o homem de Lucca.

— Com toda a certeza; e deve ser assim, pois o abade Busoni é o homem que melhor conhece as grandes fortunas da Europa.

— Tudo bem quanto ao meio milhão — disse o homem de Lucca —, mas, palavra de honra, eu não achava que o montante fosse tão alto.

— Porque o senhor tem um administrador desonesto; que quer, caro sr.

Cavalcanti, não há como fugir disso!

— O senhor acaba de me abrir os olhos — disse gravemente o homem de Lucca —, porei o engraçadinho na rua.

Monte Cristo continuou:

— “E a quem falta apenas uma coisa para ser feliz.”

— Oh, meu Deus, sim! Apenas uma — disse o homem de Lucca suspirando.

— “Reencontrar um filho adorado.”

— Um filho adorado!

— “Raptado quando era criança ou por um inimigo de sua nobre família ou por ciganos.”

— Aos cinco anos de idade — repetiu o homem de Lucca, com um profundo suspiro e levantando os olhos para o céu.

— Pobre pai! — disse Monte Cristo. O conde continuou:

— “Devolvo-lhe a esperança, devolvo-lhe a vida, sr. conde, anunciandolhe que o senhor poderá ajudá-lo a encontrar esse filho, que há quinze anos ele procura em vão.”

O homem de Lucca olhou para Monte Cristo com uma indefinível expressão de preocupação.

— Posso ajudá-lo — respondeu Monte Cristo. O major pôs-se de pé.

— Ah, ah! — disse ele. — A carta era então verdadeira até o fim?

— Duvidou disso, caro sr. Bartolomeo?

— De forma alguma, jamais! Como poderia! Um homem grave, um homem de caráter religioso como o abade Busoni, não seria capaz de tal brincadeira; mas o senhor não leu tudo, Excelência.

— Ah! é verdade — disse Monte Cristo —, há um post-scriptum.

— Sim — repetiu o homem de Lucca —, há... um... post-scriptum.

— “Para não causar ao major Cavalcanti o estorvo de transferir fundos do seu banqueiro, envio-lhe uma letra de câmbio de dois mil francos para suas despesas de viagem, e um crédito, com o senhor, da soma de quarenta e oito mil francos, que o senhor continua a me dever.”

Os olhos do major acompanharam esse post-scriptum com uma visível ansiedade.

— Bom! — contentou-se em dizer o conde.

— Ele disse bom — murmurou consigo o homem de Lucca, para depois balbuciar. — Dessa forma... senhor...

— Dessa forma...? — perguntou Monte Cristo.

— Dessa forma, o post-scriptum...

— E daí! O post-scriptum...?

— É recebido tão favoravelmente quanto o resto da carta?

— Com certeza. Temos uma conta, o abade Busoni e eu; não sei se são exatamente quarenta e oito mil libras que lhe devo; mas umas poucas cédulas não vão criar rusgas entre nós. Ora quer dizer que atribuía grande importância a esse post-scriptum, caro sr. Cavalcanti?

— Confesso — respondeu o homem de Lucca — que, depositando plena confiança na assinatura do abade Busoni, não viajei precavido; de maneira que, se esses recursos me faltassem, eu me veria muito atrapalhado em Paris.

— E um homem como o senhor atrapalha-se em algum lugar? —

indagou Monte Cristo. — Por favor!

— E como! Sem conhecer ninguém — explicou o homem de Lucca.

— Mas o senhor é conhecido.

— Sou conhecido, de maneira que...

— Termine, sr. Cavalcanti!

— De maneira que o senhor me entregará essas quarenta e oito mil libras?

— Ao primeiro pedido.

O major revolvia olhos arregalados e pasmos.

— Mas sente-se — disse Monte Cristo. — Na verdade, não sei onde estou com a cabeça... fiz o senhor ficar em pé durante quinze minutos.

— Não se incomode.

O major puxou uma poltrona e sentou.

— Agora — continou o conde —, quer tomar alguma coisa; um copo de xerez, de porto, de alicante?

— De alicante, já que insiste; é meu vinho predileto.

— Tenho um excelente. Com um biscoito, não é?

— Com um biscoito, já que me obriga a isso.

Monte Cristo tocou a campainha; Baptistin apareceu. O conde foi em sua direção.

— E então...? — perguntou baixinho.

— O rapaz chegou — respondeu o mordomo, no mesmo tom.

— Muito bem; onde o instalou?

— No salão azul, como Sua Excelência ordenara.

— Magnífico. Traga alicante e biscoitos. Baptistin saiu.

— Na verdade — disse o homem de Lucca —, estou meio sem-jeito por incomodá-lo tanto.

— Imagine! — disse Monte Cristo.

Baptistin voltou com os copos, o vinho e os biscoitos.

O conde encheu um copo e derramou no segundo apenas algumas gotas apenas do rubi líquido contido na garrafa, toda coberta de teias de aranha e

de todos os demais sinais que indicavam a antigüidade do vinho com muito mais segurança do que o fazem as rugas num homem.

O major não teve dúvidas em relação àquela divisão, pegou o copo cheio e um biscoito.

O conde ordenou a Baptistin que deixasse a bandeja ao alcance da mão de seu convidado, o qual, começando a degustar o alicante com a ponta dos lábios, fez uma careta de satisfação e introduziu delicadamente o biscoito no vinho.

— Quer dizer, cavalheiro — disse Monte Cristo —, que o senhor morava em Lucca, era rico, é nobre, gozava da consideração geral, possuía tudo que faz um homem feliz?

— Tudo, Excelência — disse o major, engolindo seu biscoito —, absolutamente tudo.

— E que só faltava uma coisa à sua felicidade?

— Apenas uma — disse o homem de Lucca.

— Reencontrar seu filho?

— Ah! — lamentou o major, pegando um segundo biscoito. — Mas isso me fazia muita falta.

O digno homem de Lucca levantou os olhos para o céu e tentou fazer um esforço para suspirar.

— Agora, vejamos, caro sr. Cavalcanti — recomeçou Monte Cristo —, de onde veio esse filho tão saudoso? Pois a mim me disseram que o senhor havia continuado solteiro.

— Achavam isso, senhor — disse o major — e até eu...

— Sim — emendou Monte Cristo —, e o até o senhor acreditou nessa história. Um pecado de juventude que queria esconder aos olhos de todos.

O homem de Lucca levantou-se, assumiu sua expressão mais calma e digna, ao mesmo tempo que abaixava modestamente os olhos, fosse para redobrar sua contenção, fosse para auxiliar sua imaginação, embora olhasse da esguelha para o conde, cujo sorriso estereotipado nos lábios continuava a anunciar a mesma benevolente curiosidade.

— Sim, senhor — disse ele —, eu queria esconder esse erro de todos.

— Não por sua causa — disse Monte Cristo —, pois um homem está acima dessas coisas.

— Oh, não por mim, decerto — disse o major com um sorriso, balançando a cabeça.

— Mas pela mãe do menino — disse o conde.

— Por sua mãe! — exclamou o homem de Lucca, pegando um terceiro biscoito. — Por sua pobre mãe!

— Então beba, caro senhor Cavalcanti — disse Monte Cristo, servindo ao homem de Lucca um segundo copo de alicante. — A emoção o está sufocando.

— Pela pobre mãe! — murmurou o homem de Lucca, testando se a força de vontade não poderia, ao agir sobre a glândula lacrimal, molhar o canto do seu olho com uma falsa lágrima.

— Que pertence a uma das primeiras famílias da Itália, suponho...

— Nascida em Fiesole1, sr. conde, nascida em Fiesole!

— Cujo nome é?

— Quer saber como se chama?

— Deus meu! — disse Monte Cristo. — Não precisa me dizer, já sei.

— O sr. conde sabe tudo — disse o homem de Lucca, inclinando-se.

— Oliva Corsinari, não é?

— Oliva Corsinari!

— Marquesa?

— Marquesa!

— A qual, não obstante, o senhor acabou por desposar, a despeito da oposição da família?

— Meu Deus! Sim, acabei por fazê-lo.

— E — continuou Monte Cristo — está com seus documentos em ordem?

— Que documentos? — perguntou o homem de Lucca.

— Ora, a certidão de casamento com Oliva Corsinari e a certidão de nascimento da criança!

— A certidão de nascimento da criança?

— A certidão de nascimento de Andrea Cavalcanti, do seu filho; o nome dele não é Andrea?

— Acho que sim — disse o homem de Lucca.

— Como? O senhor acha?

— Caramba! Não ouso afirmar, faz tanto tempo que ele está desaparecido.

— É justo — disse Monte Cristo. — Enfim, tem todos esses documentos?

— Senhor conde, lastimo anunciar que, ignorando a necessidade de munir-me desses papéis, deixei de trazê-los comigo.

— Ah, diabos! — exclamou Monte Cristo.

— Eles eram absolutamente necessários?

— Indispensáveis!

O homem de Lucca esfregou a testa.

— Ah, per Baccho! — repetiu. — Indispensáveis!

— Sem dúvida; e se levantassem por aqui alguma dúvida sobre a validade do seu casamento, sobre a legitimidade do seu filho?!

— Está certo — disse o homem de Lucca. — Poderiam levantar dúvidas.

— Seria desagradável para o rapaz.

— Seria fatal.

— Isso poderia fazê-lo perder um magnífico casamento.

— O peccato!

— Na França, o senhor compreende, impera a severidade; não basta, como na Itália, procurar um padre e lhe dizer: “Nos amamos, case-nos.”

Existe o casamento civil na França e, para se casar civilmente, fazem-se necessários papéis que comprovem a identidade.

— A lástima é que não tenho esses papéis.

— Ainda bem que eu os tenho — disse Monte Cristo.

— O senhor?

— Sim.

— O senhor os tem?

— Eu os tenho.

— Ah, e essa! — exclamou o homem de Lucca, o qual, vendo o objetivo de sua viagem frustrado pela ausência dos papéis, temia que esse esquecimento criasse algum obstáculo às suas quarenta e oito mil libras.

— Ah, e essa! Que felicidade. Sim — repetiu —, que felicidade, pois eu não teria pensado nisso.

— Acredito, não se pode pensar em tudo. Mas felizmente o abade Busoni pensou nisso para o senhor.

— Veja só, esse querido abade!

— É um indivíduo precavido.

— É um indivíduo admirável — disse o homem de Lucca. — E ele os enviou para o senhor?

— Aqui estão.

O homem de Lucca juntou as mãos em sinal de admiração.

— O senhor casou-se com Oliva Corsinari na igreja de Santa Paula de Monte Cattini; aqui está a certidão do padre.

— Jesus, é mesmo! Aqui está ela — disse o major, perplexo.

— E aqui está a certidão de batismo de Andrea Cavalcanti, expedida pelo pároco de Seravezza.

— Está tudo em ordem — disse o major.

— Então pegue esse papéis, com os quais nada tenho a fazer, e entregue-os a seu filho, que os guardará com todo o carinho.

— Tenho certeza! Se ele os perdesse...

— E daí, se ele os perdesse? — perguntou Monte Cristo.

— E daí — respondeu o homem de Lucca — que seríamos obrigados a escrever para lá, e demora muito tirar outros.

— Com efeito, seria difícil — disse Monte Cristo.

— Quase impossível — respondeu o homem de Lucca.

— Folgo em saber que o senhor compreende o valor desses papéis.

— Para mim eles não têm preço.

— Agora — disse Monte Cristo —, e quanto à mãe do rapaz?

— E quanto à mãe do rapaz... — repetiu o major, preocupado.

— E quanto à marquesa Corsinari?

— Meu Deus! — disse o homem de Lucca, que vislumbrava dificuldades no horizonte. — Será que precisamos dela?

— Não — replicou Monte Cristo. — aliás, ela não...?

— Claro, claro — disse o major —, ela...

— Pagou seu tributo à natureza...?

— Desafortunadamente, sim! — disse com animação o homem de Lucca.

— Soube que ela morreu há dez anos — continuou Monte Cristo.

— E ainda choro sua morte, senhor — disse o major, puxando do bolso um lenço quadriculado e enxugando primeiro o olho esquerdo e depois o direito.

— Para o senhor ver — disse Monte Cristo —, somos todos mortais.

Agora o senhor compreende, caro sr. Cavalcanti, que é inútil saberem na França que o senhor está separado de seu filho há quinze anos. Todas essas histórias de ciganos que raptam crianças não têm crédito por aqui. O

senhor despachou-o para ser educado num colégio do interior e quer que ele termine essa educação no convívio da sociedade parisiense. Eis por que

o senhor deixou Viareggio, onde morava desde a morte de sua mulher. Isso será o suficiente.

— Acha?

— Com certeza.

— Então, ótimo.

— Se viessem a saber alguma coisa sobre essa separação...

— Ah, sim. O que eu diria?

— Que um preceptor infiel, subornado pelos inimigos da sua família...

— Pelos Corsinari?

— Claro... raptara essa criança para que seu nome se extinguisse.

— Está certo, uma vez que ele é filho único.

— Muito bem! Agora que está tudo acertado, que suas lembranças, renovadas, não irão traí-lo, o senhor provavelmente adivinhou que eu lhe preparei uma surpresa?

— Agradável? — perguntou o homem de Lucca.

— Ah — disse Monte Cristo —, vejo que não se consegue enganar nem o olho nem o coração de um pai!

— Hum! — fez o major.

— Fizeram-lhe alguma revelação indiscreta, ou melhor, o senhor pressentiu que ele estava aqui?

— Quem, aqui?

— Sua criança, seu filho, seu Andrea.

— Pressenti — respondeu o homem de Lucca com a maior fleugma do mundo. — Então ele está aqui?

— Aqui mesmo — disse Monte Cristo. — Quando o mordomo entrou, ainda há pouco, avisou-me da sua chegada.

— Ah, excelente! Ah, excelente! — disse o major, agarrando a cada exclamação os alamares de sua polonesa.

— Meu caro senhor — disse Monte Cristo —, compreendo toda a sua emoção, o senhor precisa de tempo para se recobrar; quero também preparar o rapaz para esse encontro tão desejado, pois presumo que ele não esteja menos impaciente que o senhor.

— Também acho — disse Cavalcanti.

— Muito bem! Daqui a quinze minutinhos estaremos prontos.

— Quer dizer que irá trazê-lo à minha presença, que leva sua bondade a ponto de apresentá-lo pessoalmente a mim?

— Não, não pretendo em absoluto colocar-me entre um pai e seu filho, os senhores ficarão a sós, sr. major; mas fique tranqüilo, pois, mesmo no caso de a voz do sangue permanecer muda, o senhor não terá com que se enganar; ele entrará por esta porta. É um formoso rapaz louro, um pouco louro demais talvez, de maneiras solícitas; o senhor verá.

— A propósito — disse o major —, sabia que só trouxe comigo os dois mil francos que esse bondoso abade Busoni me entregou? E tudo se foi na viagem...

— E o senhor precisa de dinheiro... é muito justo, senhor Cavalcanti.

Pronto, aqui está, para arredondar, oito notas de mil francos.

Os olhos do major brilharam como um carbúnculo.

— São quarenta mil francos que lhe devo — disse Monte Cristo.

— Vossa Excelência quer um recibo? — perguntou o major, enfiando as notas no bolso interno de sua polonesa.

— Para quê? — disse o conde.

— Ora, para acertar suas contas com o abade Busoni.

— Vá lá! O senhor me dará um recibo geral quando receber os quarenta últimos mil francos. Entre pessoas honestas, precauções desse tipo são desnecessárias.

— Ah, sim, é verdade — disse o major —, entre pessoas honestas.

— Agora, uma última palavra, marquês.

— Diga.

— Permite uma pequena recomendação, não é mesmo?

— E como não! Peço-a.

— Não seria nada mal se deixasse de usar essa polonesa.

— Realmente?! — espantou-se o major, olhando o traje com certa complacência.

— Sim, isso ainda é usado em Viareggio, mas em Paris há muito tempo essa roupa, por mais elegante que seja, saiu de moda.

— Que desagradável — disse o homem de Lucca.

— Se fizer muita questão, pegue-a de volta quando for embora.

— Mas o que vou vestir?

— O que tiver em suas malas.

— Como assim, nas minhas malas?! Tenho apenas uma bolsa.

— Consigo, presumo. Para que se estorvar? Aliás, um velho soldado gosta de caminhar com equipamento ligeiro.

— Foi justamente por isso...

— Mas o senhor é um homem precavido e mandou suas malas na frente.

Elas chegaram ontem no Hotel des Princes, na rua Richelieu. É lá que seus aposentos estão reservados.

— Então, nessas malas...

— Suponho que tenha tido a precaução de mandar seu criado embalar tudo de que vai precisar: roupas à paisana, uniformes. Nas ocasiões importantes, vista a farda, vai causar boa impressão. Não se esqueça da sua cruz. Zombam dela na França, mas continuam a usá-la.