O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 106 de 119

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O Conde de Monte Cristo

7. A assinatura Danglars

Ao entrar no quarto, o olhar de Noirtier encontrou o do abade e sem dúvida julgou ver alguma coisa especial, pois dele não largou mais.

D’Avrigny recomendou ao sacerdote não apenas a morta, mas o vivo, e o sacerdote prometeu a d’Avrigny dispensar suas preces a Valentine e seus cuidados a Noirtier.

O abade comprometeu-se a isso solenemente e, sem dúvida para não ser importunado em suas preces e para que Noirtier não fosse importunado em sua dor, ele foi, assim que o sr. d’Avrigny saiu do quarto, fechar não apenas os trincos da porta pela qual o médico acabava de sair, mas também os trincos da que conduzia aos aposentos da sra. de Villefort.

7. A assinatura Danglars

O dia seguinte amanheceu triste e nublado. Os agentes funerários haviam realizado sua fúnebre tarefa durante a noite e acomodado o corpo instalado sobre a cama no sudário que envolve lugubremente os defuntos, dando-lhes, independentemente do que digam acerca da igualdade perante a morte, um último testemunho do luxo que amaram em vida.

Tal sudário não era outra coisa senão uma peça de esplêndida cambraia que a moça comprara quinze dias antes.

À noite, homens chamados para isso haviam transportado Noirtier do quarto de Valentine para o dele. Contrariando todas as expectativas, o velho não criara nenhuma dificuldade ao deixar a neta.

O abade Busoni velara até o dia nascer e, em seguida, retirara-se para sua casa sem avisar a ninguém.

Por volta das oito da manhã, d’Avrigny voltara, encontrando Villefort a caminho do quarto de Noirtier, e o acompanhara para saber como o velho passara a noite.

Encontraram-no na grande poltrona que lhe servia de cama, repousando num sono suave e quase risonho.

Ambos pararam, perplexos, à porta.

— Veja — disse d’Avrigny a Villefort, que olhava o pai adormecido —, a natureza consegue acalmar as dores mais fortes. Naturalmente, ninguém diria que o sr. Noirtier não amava a neta; no entanto, dorme.

— Sim, tem razão — respondeu um pasmo Villefort —, está dormindo, e isso é muito estranho, pois a menor contrariedade deixa-o insone noites a fio.

— O sofrimento prostrou-o — replicou d’Avrigny.

E ambos voltaram pensativos para o gabinete do procurador do rei.

— Já eu, não preguei o olho — disse Villefort, apontando sua cama intacta para d’Avrigny. — O sofrimento não me abate, há duas noites que não durmo. Mas, em compensação, observe o meu gabinete, como escrevi, meu Deus, durante esses dois dias e duas noites...! Como esquadrinhei esse dossiê, como fiz anotações nesse auto de acusação contra o assassino Benedetto! Oh, trabalho, trabalho! Minha paixão, minha alegria, minha fúria, cabe a ti amainar todas as minhas dores!

E apertou convulsivamente a mão de d’Avrigny.

— Precisa de mim? — perguntou o médico.

— Não — disse Villefort —, peço apenas que volte às onze horas, por favor. É ao meio-dia que se dará... a partida... Meu Deus! Minha pobre filha! Filha querida!

E o procurador do rei, de repente um homem como outro qualquer, levantou os olhos para os céus e suspirou.

— O senhor permanecerá então no salão de visitas?

— Não, tenho um primo que se encarregou dessa triste honra. Vou trabalhar, doutor. Quando eu trabalho, tudo desaparece.

Com efeito, o médico mal passara pela porta e o procurador do rei já voltara ao trabalho.

Na escada da entrada, d’Avrigny encontrou o parente mencionado por Villefort, personagem insignificante tanto nesta história como na família, uma dessas criaturas desde o nascimento fadadas a desempenhar um papel prestativo no mundo.

Ele havia sido pontual, trajava luto, com um crepe no braço, e dirigira-se aos aposentos do primo com um semblante afetado, o qual pretendia exibir enquanto necessário, e ir embora em seguida.

Às onze horas, os coches fúnebres chacoalharam sobre as pedras do pátio e a rua do faubourg Saint-Honoré foi tomada pelos murmúrios da multidão, ávida tanto pelas alegrias como pelo luto dos ricos, e que acorre a um enterro pomposo com a mesma sofreguidão que a um casamento de duquesa.

Pouco a pouco, a câmara fúnebre foi sendo tomada. Primeiro por uma parte de nossos velhos conhecidos, isto é, Debray, Château-Renaud, Beauchamp. Em seguida, por todos os personagens das ruas, da literatura e do exército, uma vez que o sr. de Villefort ocupava, menos pela origem social que pelo mérito pessoal, uma das primeiras posições na sociedade parisiense.

O primo mantinha-se à porta e recepcionava a todos. Para os indiferentes, convém dizer, era um grande alívio ver ali outro indiferente, que não exigia dos convidados fisionomia mentirosa ou falsas lágrimas, como teriam feito um pai, um irmão ou um noivo.

Os que se conheciam atraíam-se pelo olhar e formavam grupos.

Pouco a pouco, a câmara fúnebre foi sendo tomada.

 

Um desses grupos compunha-se de Debray, Château-Renaud e Beauchamp.

— Uma moça tão jovem! — lamentou Debray, pagando, como todos também faziam à sua revelia, um tributo ao infausto acontecimento. —

Que pena! Tão rica! Tão bonita! Podia imaginar uma coisa dessas, ChâteauRenaud, quando viemos, faz quanto tempo...? Três semanas, um mês no máximo, para assinar aquele contrato que não foi assinado?

— Juro que não — disse Château-Renaud.

— Conhecia a srta. de Villefort?

— Conversei com ela uma ou duas vezes, num baile da sra. de Morcerf.

Pareceu-me encantadora, embora com um temperamento um tanto melancólico. Onde está a madrasta? Você sabe?

— Foi passar o dia com a mulher desse digno cavalheiro que nos recebe.

— Quem será ele?

— Quem?

— O cavalheiro que nos recepciona. Um deputado?

— Não — respondeu Beauchamp —, sou condenado a ver nossos dignitários todos os dias, e sua cara me é desconhecida.

— Comentou essa morte no jornal?

— O artigo não é meu, mas foi comentado. Duvido mesmo que de modo agradável ao sr. de Villefort. Diz o artigo, creio, que, se quatro óbitos sucessivos houvessem ocorrido em outro lugar afora a casa do sr.

procurador do rei, o sr. procurador do rei decerto teria ficado mais aflito.

— Em todo caso — disse Château-Renaud —, o dr. d’Avrigny, que é o médico da minha mãe, é de opinião que ele está desesperado.

— Mas, o que está procurando, Debray?

— Procuro o sr. de Monte Cristo — respondeu o rapaz.

— Encontrei-o no bulevar a caminho daqui. Parecia apressado, ia visitar seu banqueiro — disse Beauchamp.

— Seu banqueiro? O banqueiro dele não é Danglars? — perguntou Château-Renaud a Debray.

— Acho que sim — respondeu o secretário pessoal ligeiramente perturbado —, mas o sr. de Monte Cristo não é o único ausente aqui. Não vejo Morrel.

— Morrel! Será que ele os conhecia? — perguntou Château-Renaud.

— Creio que ele foi apresentado apenas à sra. de Villefort.

— Não importa, ele deveria ter vindo — disse Debray. — Que assunto ele terá para esta noite? Este enterro é a notícia do dia. Mas, schhh!, façamos silêncio, ali está o sr. ministro da Justiça e dos Cultos, que se verá obrigado a fazer seu pequeno speech para o primo lacrimejante.

E os três rapazes aproximaram-se da porta para ouvir o pequeno speech do sr. ministro da Justiça e dos Cultos.

Beauchamp dissera a verdade. A caminho do compromisso fúnebre, encontrara Monte Cristo, que, por sua vez, dirigia-se ao palacete de Danglars, na rua de la Chaussée d’Antin.

O banqueiro, de sua janela, percebera o coche do conde entrando no pátio, e encaminhara-se em sua direção com um rosto entristecido, mas afável.

— Ora, sr. conde — disse ele, estendendo a mão a Monte Cristo —, veio expressar-me suas condolências. É verdade, a tragédia ronda a minha casa a ponto de, ao vê-lo, eu indagar a mim mesmo se não desejara mal a esses infelizes Morcerf, o que teria justificado o provérbio: “Quem mal deseja, por pior espera.” Pois bem! Juro que não, eu não desejava mal a Morcerf.

Talvez ele fosse um pouco presunçoso, para um homem que saiu do zero, como eu, devendo tudo a si mesmo, como eu, mas cada um com seus defeitos. Ah, meu caro conde, as pessoas da nossa geração... Mas, desculpe, o senhor não é da nossa geração, o senhor é um rapaz... As pessoas da nossa geração não estão com sorte este ano. Prova disso é nosso puritano procurador do rei, Villefort, que acaba de perder a filha.

Recapitulemos: Villefort, como dizíamos, perdendo toda a família de maneira estranha; Morcerf, desonrado e morto; eu, coberto de ridículo por esse celerado Benedetto, e como se não bastasse...

— Como se não bastasse o quê? — perguntou o conde.

— Ai de mim! Então não sabe?

— Uma nova tragédia?

— Minha filha...

— A srta. Danglars?

— Eugénie nos abandonou.

— Oh, meu Deus, o que está me dizendo!

— A verdade, meu caro conde. Não imagina como é feliz por não ter nem mulher nem filhos!

— Acha mesmo?

— Ah! Meu Deus!

— E me diz que a srta. Eugénie...

— Não suportou a afronta que esse miserável nos fez e pediu-me autorização para viajar.

— Então, partiu?

— A noite passada.

— Com a sra. Danglars?

— Não, com uma parenta... Mas nem por isso deixamos de perdê-la, nossa querida Eugénie, pois duvido que, com o caráter que lhe conheço, ela consinta em voltar à França um dia!

— Que deseja, meu caro barão — disse Monte Cristo —, mazelas de família, mazelas que seriam insuportáveis para um pobre-diabo cujo rebento constituísse toda a sua fortuna, mas toleráveis para um milionário.

Não adianta os filósofos falarem, os homens práticos sempre irão desmenti-los nesse aspecto: o dinheiro é consolo para muitas coisas. E o senhor deverá ficar mais consolado que qualquer um, se admitir a virtude desse bálsamo soberano; o senhor, o rei das finanças, o ponto de interseção de todos os poderes.

Danglars lançou um olhar oblíquo para o conde, para ver se ele zombava ou falava sério.

— Sim — disse então —, o fato é que a fortuna consola: sou rico.

— Tão rico, meu caro barão, que sua fortuna lembra as pirâmides. Se quisessem demoli-las, não ousariam; se ousassem, não conseguiriam.

Danglars sorriu diante do otimismo simplório do conde.

— Isso me lembra — disse ele — eu preparava cinco títulos de crédito quando o senhor entrou. Já havia assinado dois; permite que prepare os outros três?

— Pois não, meu caro barão, pois não.

Houve um instante de silêncio, durante o qual ouviu-se ranger a pena do banqueiro, enquanto Monte Cristo examinava os relevos dourados do teto.

— Títulos da Espanha — disse Monte Cristo —, títulos do Haiti, títulos de Nápoles?

— Não — disse Danglars rindo, com seu riso autosuficiente —, títulos ao portador, emitidos junto ao Banco da França. Veja — acrescentou —, sr.

conde, o senhor que é o imperador das finanças, como eu sou o rei, já viu muitos pedaços de papel dessas dimensões valerem cada um um milhão?

Monte Cristo pegou na mão, como que para pesá-los, os cinco pedaços de papel orgulhosamente apresentados por Danglars, e leu:

Solicito ao sr. diretor do Banco que mande pagar, sob minha ordem e fazendo uso do capital por mim depositado, a soma de um milhão, valor disponível em conta.

BARÃO DANGLARS

— Um, dois, três, quatro, cinco — fez Monte Cristo —, cinco milhões!

Puxa vida! Como consegue isso, sr. Creso1? !

— Cinco milhões! Puxa vida! Como consegue isso, sr. Creso?!

— É o meu jeito de fazer negócios — disse Danglars.

— É maravilhoso, principalmente, como não duvido, se essa soma for paga à vista.

— Será — disse Danglars.

— Que coisa bonita dispor de um crédito desses! A bem da verdade, só em França vêem-se coisas assim: cinco pedaços de papel valendo cinco milhões. É preciso ver para crer.

— Duvida?

— Não.

— O senhor fala de um jeito... Vamos, desfrute desse prazer: acompanhe o meu contínuo ao banco e o verá sair de lá com títulos do Tesouro equivalentes a essa soma.

— Não — disse Monte Cristo, dobrando as cinco promissórias —, definitivamente, não. A coisa é por demais curiosa, de modo que farei pessoalmente a experiência. Meu crédito com o senhor era de seis milhões, saquei novecentos mil francos, são cinco milhões e cem mil francos que o senhor ainda me deve. Pego seus cinco pedaços de papel que considero válidos diante da simples visão de sua assinatura, e aqui está um

recibo geral de seis milhões que nos deixa quites. Eu o havia preparado com antecedência, e devo dizerlhe que preciso muito de dinheiro hoje.

E, com uma das mãos, Monte Cristo enfiou os cinco títulos de crédito no bolso, enquanto com a outra estendia seu recibo ao banqueiro.

Um raio caindo aos pés de Danglars não o teria aniquilado com terror maior.

— O quê! — balbuciou. — O quê, sr. conde, está sacando esse dinheiro?

Mas, perdão, perdão, esse é o dinheiro que dou aos hospícios, um depósito, e prometi pagar esta manhã.

— Ah — disse Monte Cristo —, então é diferente. Não faço questão dessas cinco promissórias precisamente, pague-me em outros valores. Foi por curiosidade que me apoderei delas, a fim de poder comentar em sociedade que, sem aviso nenhum, sem me pedir cinco minutos de prazo, o Banco Danglars me pagara cinco milhões à vista! Teria sido notável! Mas aqui estão os seus títulos. Pague-me de outra forma, repito.

E estendia os cinco títulos para Danglars, que, lívido, os alcançou num gesto instintivo, como o abutre estica a garra pelas grades de sua gaiola para capturar a carne que lhe roubam.

Subitamente recobrou-se, fez um esforço violento e conteve-se. Então sorriu, recompondo pouco a pouco os traços de seu semblante transtornado.

— Na verdade — disse ele —, um recibo seu é igual a dinheiro.

— Oh, meu Deus, sim! E se o senhor estivesse em Roma, bastaria apresentar um recibo meu para a Casa Thomson & French pagar-lhe, exatamente como faz o senhor agora.

— Perdão, sr. conde, perdão.

— Então posso ficar com esse dinheiro?

— Sim — disse Danglars, enxugando o suor que nascia na raiz de seus cabelos —, claro, fique com ele.

Monte Cristo voltou a guardar os cinco títulos no bolso, com o intraduzível esgar de fisionomia que significa: “Pense bem! Reflita! Se quiser se arrepender, ainda é tempo.”

— Não — disse Danglars —, não, em absoluto, fique com as minhas assinaturas. Mas, como sabe, nada mais formal que um capitalista e, como eu destinava esse dinheiro aos hospícios, cheguei a supor que os roubava, ao não entregar-lhes precisamente estes papéis, como se um escudo não fosse igual a outro qualquer. Peço desculpas!

E pôs-se a rir ruidosamente, mas com algum nervosismo.

— Aceito as desculpas — respondeu Monte Cristo graciosamente —, e embolso o dinheiro.

E enfiou as promissórias na carteira.

— Mas — disse Danglars —, não temos ainda uma soma de cem mil francos?

— Oh, uma bagatela — disse Monte Cristo. — O ágio deve chegar mais ou menos a isso. Fique com eles e estamos quites.

— Conde — disse Danglars —, está falando sério?

— Nunca brinco com banqueiros — replicou Monte Cristo, com uma gravidade que beirava a impertinência.

E encaminhou-se para a porta exatamente no momento em que o criado anunciava:

— O sr. de Boville, recebedor-geral dos hospícios.

— Pela minha fé — exclamou Monte Cristo —, parece que cheguei bem a tempo de usufruir de suas concorridas assinaturas!

Danglars empalideceu pela segunda vez e rapidamente despediu-se do conde.

Monte Cristo trocou um cumprimento cerimonioso com o sr. de Boville, que se mantinha de pé na sala de espera e que, após a passagem de Monte Cristo, foi imediatamente introduzido no gabinete do sr. Danglars.

Teria sido possível vislumbrar a fisionomia tão séria do conde iluminarse com um efêmero sorriso ao ver a carteira que o sr. recebedor dos hospícios segurava na mão.

Monte Cristo encontrou seu coche na porta e ordenou que o levassem diretamente ao banco.

Nesse ínterim, Danglars, contendo toda a sua emoção, ia ao encontro do recebedor-geral.

Desnecessário dizer que o sorriso e a amabilidade estavam estereotipados em seus lábios.

— Bom-dia — disse ele —, meu caro credor, pois eu apostaria que é o credor que me visita.

— O senhor adivinhou, barão — disse o sr. de Boville —, os hospícios apresentam-se-lhe na minha pessoa. As viúvas e órfãos vêm pelas minhas mãos pedir uma esmola de cinco milhões.

— E falam por aí que devemos nos condoer dos órfãos! — gracejou Danglars, prolongando a piada. — Pobres crianças!

— Portanto, aqui estou em nome deles — disse o sr. de Boville. — Deve ter recebido minha carta ontem...

— Sim.

— Aqui está o meu recibo.

— Meu caro sr. de Boville — disse Danglars —, suas viúvas e órfãos farão a bondade de esperar vinte e quatro horas, visto que o sr. de Monte Cristo, que o senhor acaba de ver sair daqui... Viu-o, não é mesmo?

— Sim, e daí?

— Pois bem! O sr. de Monte Cristo levou esses cinco milhões!

— Como assim?

— O conde dispunha de um crédito ilimitado comigo, crédito aberto pela Casa Thomson & French, de Roma. Ele veio solicitar uma soma de cinco milhões de uma tacada só. Dei-lhe um título de crédito junto ao Banco da França, pois lá que meu capital está depositado. E compreenda, eu recearia, retirando das mãos do sr. diretor dez milhões no mesmo dia, que ele julgasse a coisa muito estranha. Daqui a dois dias — acrescentou Danglars sorrindo —, não lhe negarei nada.

— Nossa! — exclamou o sr. de Boville, no tom da mais completa incredulidade. — Cinco milhões para esse cavalheiro por quem passei e que me cumprimentou como se eu o conhecesse?

— Talvez ele o conheça sem que o senhor o conheça. O conde de Monte Cristo conhece todo mundo.

— Cinco milhões!

— Aqui está o recibo que me deu. Faça como são Tomé2: veja e apalpe.

O sr. de Boville pegou o papel que o sr. Danglars lhe apresentava e leu: Recebi do sr. barão Danglars a soma de cinco milhões e cem mil francos, soma a ser coberta, quando lhe aprouver, pela Casa Thomson & French, de Roma.

— Nossa, é verdade! — espantou-se o recebedor.

— Conhece a Casa Thomson & French?

— Sim — disse o sr. de Boville —, há muito tempo fizemos um negócio de duzentos mil francos, mas nunca mais ouvi falar neles depois disso.

— É um dos melhores estabelecimentos da Europa — disse Danglars, jogando displicentemente em sua escrivaninha o recibo que acabava de resgatar das mãos do sr. de Boville.

— E ele tinha, como quem não quer nada, cinco milhões apenas com o senhor? Ora! Mas é então um nababo esse conde de Monte Cristo?

— Juro por Deus! Não entendo muito bem, mas ele possuía três créditos ilimitados: um comigo, outro com Rothschild, outro com Laffitte, e —

acrescentou distraidamente Danglars —, como pode ver, deu-me a preferência, deixando cem mil francos à guisa de ágio.

O sr. de Boville exprimiu todos os sinais da maior admiração.

— Preciso visitá-lo — disse ele — para obter alguma doação piedosa.

— Oh, é como se já tivesse nas mãos! Só de esmolas ele distribui mais de vinte mil francos por mês.

— Esplêndido. A propósito, usarei como exemplo junto a ele o caso da sra. de Morcerf e seu filho.

— Que caso?

— Eles doaram toda a sua fortuna aos hospícios.

— Que fortuna?

— A fortuna deles, a do general de Morcerf, do finado.

— E com que propósito?

— Com o propósito de livrarem-se de um patrimônio vil.

— Vão viver do quê?

— A mãe recolhe-se na província e o filho alista-se.

— Ora, ora — disse Danglars —, isso é que é escrúpulo.

— Registrei o ato de doação ontem.

— E quanto eles possuíam?

— Oh, nada demais: entre duzentos e trezentos mil francos. Mas voltemos aos nossos milhões.

— Pois não — disse Danglars, com a maior naturalidade do mundo —, então tem pressa desse dinheiro?

— Claro que sim; nossa verificação contábil acontecerá amanhã.

— Amanhã! Por que não me disse logo? Mas é um século, amanhã! A que horas é a auditoria?

— Às duas.

— Mande alguém ao meio-dia — disse Danglars com um sorriso.

O sr. de Boville não respondeu muita coisa. Fazia sim com a cabeça e remexia na carteira.

— Mas, espere! Estou pensando — disse Danglars —, faça melhor.

— Que quer que eu faça?

— O recibo do sr. de Monte Cristo vale dinheiro. Mostre esse recibo no Rothschild ou no Laffite, e irão aceitá-lo de olhos fechados.

— Apesar de resgatável em Roma?

— Com certeza. Irá custar-lhe apenas uma comissão de cinco ou seis mil francos.

O recebedor deu um pulo para trás.

— Mas, de jeito nenhum! Não, prefiro esperar amanhã. Que idéia!

— Julguei por um instante, perdoe-me — disse Danglars, com uma suprema impudência —, que tinha um pequeno déficit a descoberto.

— Eu! — exclamou o recebedor.

— Escute, isso é normal e, nessas horas, fazemos um sacrifício.

— Graças a Deus, não! — disse o sr. de Boville.

— Então, até amanhã, não é mesmo, meu caro recebedor?

— Sim, até amanhã. Mas sem falta, não é?

— Ora! Está brincando! Mande alguém ao meio-dia, e o banco será avisado.

— Virei eu mesmo.

— Melhor ainda, pois assim terei o prazer de encontrá-lo. Apertaram-se as mãos.

— A propósito — disse o sr. de Boville —, não vai ao enterro da infeliz srta. de Villefort, cujo cortejo fúnebre encontrei no bulevar?

— Não — disse o banqueiro —, ainda sou ridicularizado em função do caso Benedetto e mantenho-me recluso.

— Bah! Que bobagem? E o senhor lá teve culpa de alguma coisa?

— Escute, meu caro recebedor, quando se carrega um nome impoluto como eu, ficamos suscetíveis.

— Toda a sociedade está solidária consigo, acredite. Sobretudo, a dor pela senhorita sua filha é geral.

— Pobre Eugénie! — suspirou Danglars. — Sabia que foi para um convento?

— É mesmo?

— Ai, infelizmente, é a pura verdade. No dia seguinte ao episódio, resolveu partir com uma amiga dela, religiosa. Foi procurar um convento bem severo, na Itália ou na Espanha.

— Oh, que terrível!

E, com essa exclamação, o sr. de Boville retirou-se, externando mil protestos de condolência ao pai.

Mas ainda não estava do lado de fora quando Danglars, com uma energia gestual que apenas compreenderia quem viu Frédérick

atuando em Robert Macaire3:

— Imbecil!

E, amarfanhando o recibo de Monte Cristo numa pequena carteira, acrescentou:

— Venha ao meio-dia; ao meio-dia já estarei longe.

Deu então duas voltas na fechadura, esvaziou todas as gavetas do cofre, juntou cerca de cinqüenta mil francos em títulos, queimou diversos papéis, colocou outros em evidência e começou a escrever uma carta que lacrou, subscrevendo-a: “À sra. baronesa Danglars”.

— Esta noite — murmurou —, eu mesmo irei deixá-la em sua penteadeira. Em seguida, pegando um passaporte na gaveta.

— Ótimo — disse ele —, dois meses de validade.

— Ótimo, dois meses de validade.