O Conde de Monte Cristo
8. A Casa Morrel & Filho
Sendo assim, não viu o inglês dobrar e guardar no bolso a denúncia escrita por Danglars sob o caramanchão do La Réserve, que exibia o selo dos Correios de Marselha de 27 de fevereiro, entrega das 6 da tarde.
Ainda que tivesse visto, convém no entanto dizer, dava pouquíssima importância àquele papel e imensa importância aos seus duzentos mil
francos para se opor ao gesto do inglês, por mais incorreto que fosse.
— Obrigado — disse este, fechando ruidosamente o livro de registros.
— Tenho o que preciso; agora sou eu quem devo cumprir minha promessa: faça-me uma simples transferência do seu crédito e reconheça nessa transferência ter recebido o valor de seu investimento; vou contar a soma.
E cedeu seu lugar na escrivaninha ao sr. de Boville, que a ela se instalou sem-cerimônia e apressou-se em fazer a transferência pedida, enquanto o inglês contava títulos bancários sobre o arquivo.
1 Drapeau Blanc: jornal monarquista que circulou de junho de 1819 a fevereiro de 1827, e depois de julho de 1829 a julho de 1830.
8. A Casa Morrel & Filho
Quem houvesse deixado Marselha alguns anos antes, tendo conhecido o interior da Casa Morrel & Filho, e voltado na época de que estamos falando, teria ali se deparado com uma grande mudança.
Em vez daquela atmosfera de vida, abastança e felicidade que emana, por assim dizer, de uma firma próspera; em vez daquelas fisionomias alegres mostrando-se por trás das cortinas das janelas, daqueles funcionários atarefados atravessando corredores com uma pena atrás da orelha; em vez daquele pátio abarrotado de pacotes, ecoando gritos e risadas de mensageiros, essa pessoa teria observado, à primeira vista, alguma coisa de triste e morto. No corredor deserto e no pátio vazio, dos numerosos funcionários que antigamente povoavam os escritórios, apenas dois haviam restado: o primeiro era um rapaz de vinte e três ou vinte e quatro anos chamado Emmanuel Herbant, o qual namorava a filha do sr.
Morrel e permanecera na firma a despeito das tentativas de seus pais de tirá-lo de lá; o outro era um envelhecido moço da tesouraria, chamado Coclès, apelido que lhe haviam dado os rapazes que antigamente povoavam essa grande colméia fervilhante, hoje quase inabitada, o qual tão bem e tão completamente substituíra seu verdadeiro nome que, segundo toda probabilidade, ele sequer teria atendido se o chamassem hoje por esse nome.
Coclès permanecera no serviço do sr. Morrel e, na situação do nobre homem, ocorrera uma singular mudança: fora ao mesmo tempo promovido a tesoureiro e rebaixado à categoria de empregado doméstico.
Nem por isso deixava de ser o mesmo Coclès, bondoso, paciente, devotado, mas inflexível a respeito da aritmética, única matéria acerca da qual desafiaria o mundo inteiro, inclusive o sr. Morrel, e
isto conhecendo apenas sua tábua de Pitágoras1, que sabia na ponta da língua, para onde quer que estivesse virada e qualquer que fosse o erro no qual se tentasse fazê-lo cair.
Em meio à tristeza geral que invadira a Casa Morrel, Coclès era aliás o único que permanecia impassível. Porém, que ninguém se engane quanto a isso; tal impassibilidade não resultava de falta de afeição, mas, ao contrário, de uma inabalável convicção. Assim como os ratos que, dizem, abandonam pouco a pouco um navio previamente condenado pelo destino a perecer no mar, de maneira que esses hóspedes egoístas o abandonam
completamente no momento em que ele levanta a âncora, da mesma forma, dizíamos, toda aquela massa de amanuenses e empregados que tirava sua subsistência da firma do armador desertara, pouco a pouco, do escritório e do armazém; ora, Coclès vira todos irem embora sem sequer pensar em conferir a causa de sua partida; tudo, como dissemos, reduzia-se para Coclès a uma questão de algarismos. Já há vinte anos na Casa Morrel, vira os pagamentos serem efetuados sempre tão franca e regularmente que não admitia a hipótese de tal regularidade ser interrompida e tais pagamentos suspensos, assim como o moleiro dono de um moinho abastecido pelas águas de um caudaloso rio não admite que esse rio possa parar de correr. Com efeito, até esse momento, nada ainda abalara a convicção de Coclès. O último fim de mês fora fechado com uma pontualidade rigorosa. Coclès apontara um erro de setenta centavos cometido pelo sr. Morrel em seu prejuízo e, no mesmo dia, levara os catorze sous excedentes ao sr. Morrel. Este, com um sorriso melancólico, os pegara e deixara cair numa gaveta praticamente vazia, dizendo:
— Coclès, o senhor é a pérola dos tesoureiros.
E Coclès se retirara contentíssimo, pois um elogio do sr. Morrel, essa pérola das pessoas honestas de Marselha, lisonjeava mais Coclès que uma gratificação de cinqüenta escudos.
Depois desse fim de mês tão vitoriosamente fechado, porém, o sr.
Morrel passara horas cruéis. Para enfrentar aquele fim de mês, havia reunido todos os seus recursos, e ele mesmo, temendo que o rumor de sua angústia se espalhasse por Marselha se o vissem recorrer a tais extremos, fizera uma viagem até a feira de Beaucaire para vender algumas jóias pertencentes à sua mulher e à sua filha, além de uma parte da sua prataria.
Mediante tal sacrifício, tudo ainda se passara honrosamente para a Casa Morrel; mas o caixa havia ficado completamente vazio. O crédito, apavorado pelo boato que corria, retraíra-se com seu egoísmo habitual; e, para fazer face aos cem mil francos que deveriam ser pagos no dia 5 do presente mês ao sr. de Boville, e aos outros cem mil francos que iriam vencer no dia 5 do mês seguinte, a única esperança real do sr. Morrel residia no Pharaon, cuja partida fora informada por uma embarcação que levantara âncora ao mesmo tempo que ele e chegara a porto seguro.
Mas essa embarcação, proveniente de Calcutá como o Pharaon, já chegara havia quinze dias, ao passo que do Pharaon não se tinha notícia.
Foi nesse estado de coisas que, no dia seguinte àquele em que concluíra com o sr. de Boville o importante negócio já mencionado, o representante da Thomson & French, de Roma, apresentou-se na casa do sr. Morrel.
Emmanuel o recebeu. O rapaz, que se assustava a cada novo rosto que aparecia, pois cada novo rosto anunciava um novo credor, o qual, receoso, vinha questionar o dono da firma, o rapaz, como dizíamos, quis poupar ao seu patrão o aborrecimento dessa visita. Interrogou o recém-chegado, mas este declarou que nada tinha a dizer ao sr. Emmanuel e que era com o sr.
Morrel em pessoa que desejava falar. Emmanuel, suspirando, chamou Coclès. Coclès apareceu e o rapaz ordenou-lhe que conduzisse o estrangeiro até o sr. Morrel.
Coclès foi na frente e o estrangeiro o seguiu.
Na escada, encontraram uma bonita moça de dezesseis a dezessete anos, que olhou para o estrangeiro com inquietação.
Coclès não notou aquela expressão em seu rosto, que não obstante pareceu não ter escapado ao estrangeiro.
— O sr. Morrel está no gabinete, srta. Julie? — perguntou o tesoureiro.
— Sim, pelo menos acho que está — disse a rapariga, hesitante. — Vá verificar, Coclès, e, se meu pai estiver lá, anuncie o cavalheiro.
— Anunciar-me seria inútil, senhorita — respondeu o inglês —, o sr.
Morrel não conhece o meu nome. Mas basta esse bom homem dizer que sou o representante oficial dos srs. Thomson e French, de Roma, com os quais a firma do sr. seu pai mantém relações.
A rapariga empalideceu e continuou a descer, enquanto Coclès e o estrangeiro continuavam a subir.
Ela entrou no escritório onde ficava Emmanuel, e Coclès, com a ajuda de uma chave que estava em seu poder, e que anunciava suas entradas solenes diante do patrão, abriu uma porta envidraçada no fim do corredor do segundo andar, introduziu o estrangeiro num vestíbulo, abriu uma segunda porta, que fechou atrás de si e, após ter deixado por um instante sozinho o representante da Thomson & French, reapareceu fazendo-lhe sinal de que podia entrar.
O inglês entrou; encontrou o sr. Morrel sentado diante de uma mesa, empalidecendo ao se deparar com as assustadoras colunas do livro-caixa onde estava inscrito seu passivo.
Ao ver o estrangeiro, o sr. Morrel fechou o livro, levantou-se e ofereceu-lhe um assento; em seguida, ao ver o estrangeiro sentar, sentou-se
também.
Catorze anos haviam mudado muito o digno comerciante, que, aos trinta e seis anos no começo dessa história, estava agora prestes a completar cinqüenta: seus cabelos haviam embranquecido, sua testa estava sulcada por rugas de preocupação; seu olhar, enfim, outrora tão firme e determinado, tornara-se vago e irresoluto, parecendo temer sempre a obrigação de se fixar ou numa idéia ou num homem.
O inglês olhou para ele com um misto evidente de curiosidade e interesse.
— O cavalheiro — disse Morrel, cujo mal-estar parecia redobrar a esse exame — deseja falar comigo?
— Sim, senhor. Sabe da parte de quem venho, não?
— Da parte da Casa Thomson & French, pelo menos ao que me disse meu tesoureiro.
— Ele lhe disse a verdade, senhor. A Casa Thomson & French tinha, no correr deste mês e do próximo, trezentos ou quatrocentos mil francos a pagar na França, e conhecendo a rigorosa pontualidade do senhor, reuniu todos os papéis que pôde encontrar sob sua assinatura e me encarregou, à medida que esses papéis vencessem, de receber os fundos junto ao senhor e investi-los.
Morrel soltou um longo suspiro e passou a mão em sua testa coberta de suor.
— Então — perguntou Morrel —, o senhor tem promissórias assinadas por mim?
— Sim, senhor, uma soma bastante considerável.
— Quanto? — perguntou Morrel, tentando emprestar segurança à própria voz.
— Ora, para começar temos aqui — disse o inglês, tirando um maço de papéis do seu bolso — uma transferência de duzentos mil francos feita à nossa firma pelo sr. de Boville, o inspetor das prisões. Reconhece dever essa soma ao sr. de Boville?
— Sim, senhor, trata-se de um investimento que ele fez na minha firma, a quatro e meio por cento, já se vão cinco anos...
— E que o senhor deve quitá-lo...
— Metade no dia 5 deste mês, metade no 5 do próximo mês.
— É isso; e ainda tenho aqui trinta e dois mil e quinhentos francos, no correr desse mês: são promissórias assinadas pelo senhor e passadas à
nossa ordem por avalistas.
— Eu as reconheço — disse Morrel, cujo rosto o vermelho da vergonha tingia enquanto pensava que, pela primeira vez na vida, talvez não conseguisse honrar sua assinatura. — É tudo?
— Não, senhor, tenho também esses valores para o fim do mês que vem, passados a nós pela Casa Pascal e a Casa Wild & Turner, de Marselha, somando cinqüenta e cinco mil francos aproximadamente; ao todo são duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos.
Impossível descrever o que sofria o infeliz Morrel durante essa enumeração.
— Duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos — repetiu ele mecanicamente.
— Sim, senhor — respondeu o inglês. — Ora — continuou ele, após um instante de silêncio —, não lhe esconderei, sr. Morrel, que, embora fazendo jus à sua probidade sem manchas até o presente, corre em Marselha que o senhor não estaria em condições de fazer face aos seus compromissos.
Após essa introdução quase brutal, Morrel empalideceu terrivelmente.
— Cavalheiro — disse ele —, até o presente, e faz mais de vinte e quatro anos que recebi a firma das mãos do meu pai, firma que ele mesmo administrou durante trinta e cinco anos, ou nenhum título assinado por Morrel & Filho foi apresentado à contabilidade sem ser pago.
— Sim, sei disso — respondeu o inglês —, mas, de homem honrado para homem honrado, fale francamente, pagará estes com a mesma pontualidade?
Morrel estremeceu e olhou aquele que lhe falava com mais segurança do que o fizera até então.
— Às perguntas feitas com tal franqueza — disse ele —, convém dar uma resposta franca. Sim, cavalheiro, pagarei se, como espero, meu navio chegar a porto seguro, pois essa chegada me restituirá o crédito que os sucessivos acidentes de que fui vítima me confiscaram; mas, se porventura o Pharaon, esse último recurso de que dependo, vier a me faltar...
As lágrimas subiram aos olhos do coitado do armador.
— E então — perguntou seu interlocutor —, se esse último recurso vier a lhe faltar...?
— Pois bem — continuou Morrel —, cavalheiro, é cruel dizer isso...
contudo, já acostumado aos infortúnios, precisarei me acostumar à
vergonha, pois bem, creio que serei obrigado a suspender meus pagamentos.
— Não tem nenhum amigo que possa ajudá-lo nesse caso? Morrel sorriu tristemente.
— Nos negócios, cavalheiro — ele disse —, não temos amigos, o senhor sabe muito bem disso, temos apenas sócios.
— É verdade — murmurou o inglês. — Então tem apenas uma única esperança?
— Uma única.
— A última?
— A última.
— De maneira que, se essa esperança lhe faltar...
— Estou perdido, cavalheiro, completamente perdido.
— Quando eu vinha para sua casa, um paquete adentrava o porto.
— Sei disso, cavalheiro. Um rapaz que permaneceu fiel apesar da minha má sorte passa parte do tempo num mirante situado no alto da casa, na esperança de vir a ser o primeiro a me anunciar uma boa notícia. Eu soube por ele da entrada desse paquete.
— E não é o seu?
— Não, é um navio paquete, o Gironde; vem da Índia também, mas não é o meu.
— Talvez ele saiba de alguma coisa acerca do Pharaon e lhe traga alguma notícia.
— Será que preciso lhe dizer, senhor?! Meu receio de saber notícias do meu três-mastros é quase tão grande quanto o de permanecer na incerteza.
A incerteza ainda é esperança.
Em seguida, o sr. Morrel acrescentou com uma voz abafada:
— Esse atraso não é natural; o Pharaon partiu de Calcutá em 5 de fevereiro; há mais de um mês devia estar aqui.
— O que é isso? — perguntou o inglês, aguçando os ouvidos. — E o que quer dizer esse barulho?
— Oh, meu Deus, meu Deus! — exclamou Morrel, empalidecendo. — O
que mais será?
Com efeito, faziam um grande barulho na escada; pessoas iam e vinham, ouvia-se até mesmo um grito de dor.
Morrel levantou-se para abrir a porta, mas faltaram-lhe forças e ele voltou a afundar na poltrona.
Os dois homens ficaram um em frente ao outro, Morrel tremendo dos pés à cabeça, o estrangeiro olhando-o com uma expressão de profunda piedade. O barulho cessara, mas entrementes parecia que Morrel esperava alguma coisa; aquele barulho tinha uma causa, devia ter uma
conseqüência.
Pareceu ao estrangeiro que subiam suavemente a escada e que os passos, de várias pessoas, paravam no corredor.
Uma chave foi introduzida na fechadura da primeira porta e ouviu-se a porta ranger.
— Apenas duas pessoas possuem a chave daquela porta — murmurou Morrel —, Coclès e Julie.
Ao mesmo tempo, a segunda porta se abriu e eles viram aparecer a moça, pálida, com as faces banhadas de lágrimas.
Morrel levantou-se trêmulo e apoiou-se no braço de sua poltrona, sem poder mais ficar de pé. Sua voz queria interrogar, porém ele não tinha mais voz.
— Oh, meu pai! — exclamou a jovem, com as mãos unidas em súplica
— Perdoe a sua filha por ser a mensageira de uma notícia ruim!
Morrel empalideceu terrivelmente; Julie lançou-se em seus braços.
— Oh, papai, papai! — disse ela. — Coragem!
— Então o Pharaon naufragou? — perguntou Morrel, com uma voz estrangulada.
A moça não respondeu, mas fez um sinal afirmativo com a cabeça, apoiada no peito do pai.
— E a tripulação? — perguntou Morrel.
— Salva — disse a moça —, salva pelo navio bordelês que acaba de entrar no porto.
Morrel levantou as duas mãos para o céu com uma expressão de resignação e de sublime gratidão.
— Obrigado, meu Deus! — disse Morrel. — Pelo menos golpeais apenas a mim.
Por mais fleugmático que fosse o inglês, uma lágrima umedeceu sua pálpebra.
— Entrem — disse Morrel —, entrem, pois presumo que todos estejam na porta.
Com efeito, mal pronunciara essas palavras, a sra. Morrel entrou soluçando; Emmanuel a seguia; ao fundo, na saleta, viam-se os rudes
semblantes de sete ou oito marujos seminus. À vista daqueles homens, o inglês estremeceu; deu um passo em sua direção, mas se conteve e se recolheu, ao contrário, no canto mais escuro e afastado do gabinete.
A sra. Morrel foi sentar-se na poltrona, tomou uma das mãos do marido entre as suas, enquanto Julie permanecia recostada no peito do pai.
Emmanuel ficara a meio caminho do quarto e parecia servir de elo entre o grupo da família Morrel e os marujos que estavam à porta.
— Como isso aconteceu? — perguntou Morrel.
— Aproxime-se, Penelon — disse o rapaz —, e relate o acontecido.
Um velho marinheiro, bronzeado pelo sol do equador, avançou revolvendo nas mãos os restos de um chapéu.
— Bom-dia, sr. Morrel — disse ele, como se tivesse deixado Marselha na véspera e chegasse de Aix ou de Toulon.
— Bom-dia — disse o armador, não conseguindo deixar de sorrir em meio às suas lágrimas. — Mas, onde está o capitão?
— No que se refere ao capitão, sr. Morrel, ficou doente em Parma; porém, se Deus quiser, não será nada e o senhor o verá chegar dentro de alguns dias tão bem de saúde quanto nós dois.
— Ótimo... agora, fale, Penelon — disse o sr. Morrel.
Penelon, passando o tabaco que mascava da bochecha direita para a bochecha esquerda, pôs a mão diante da boca, virou de lado, lançou na saleta um longo jato de saliva escura, avançou e, equilibrando-se nos quadris, disse:
— Na oportunidade, sr. Morrel, estávamos alguma coisa como entre o cabo Branco e o cabo Mogador, navegando sob uma bonita brisa sul-sudoeste, após nos arrastarmos durante uma semana de calmaria, quando o capitão Gaumard aproxima-se de mim, devo dizer que eu estava no leme, e me diz: “Seu Penelon, o que acha daquelas nuvens que se levantam ao longe no horizonte?”
“Eu estava justamente olhando para elas naquele momento.
“— O que acho, capitão?! Acho que estão se formando um pouco mais rápido que de costume e que são mais negras do que convém a nuvens que não tenham más intenções.
“— É a minha opinião também — disse o capitão —, e vou continuar tomando as minhas precauções. Estamos com velas demais para o vento que vai fazer daqui a pouco... Olá! Apertem bem os sobrejoanetes e abaixem o pitifoque.
“Já não era sem tempo; a ordem ainda não estava executada e o vento já estava em nosso encalço e a embarcação adernava.
“— Bem — disse o capitão —, ainda temos muita vela, dê um jeito de amarrar a vela principal.
“Cinco minutos depois, a vela principal estava amarrada e navegávamos apenas com a mezena, as velas da gávea e os joanetes.
“— E agora, seu Penelon — me disse o capitão —, por que está balançando a cabeça?
“— Porque, veja bem, no seu lugar eu não me contentaria com isso.
“— Acho que tem razão, velho — disse ele —, vamos ter uma ventania.
“— Ah, capitão, e eu lhe respondo: quem apostasse que lá adiante está batendo uma ventania ainda ganharia alguma coisa em cima disso; é uma bela e boa tempestade, ou então não me chamo Penelon!
“Isso significa que víamos o vento chegar como vemos chegar a
areia em Montredon2; felizmente o responsável era um homem que conhecia aquilo. “— Arranje-se para pegar duas rizes nas velas da gávea! — gritou o capitão —, afrouxe as bolinas, braceie a barlavento, recolha as velas da gávea, examine as talhas sobre as vergas!”
— Isso não basta naquelas paragens — interrompeu o inglês. — Eu teria pego quatro rizes e me livrado da mezena.
Essa voz firme, sonora e inesperada, fez todo mundo tremer. Penelon colocou a mão sobre os olhos e olhou para aquele que antecipava tão magistralmente a manobra de seu capitão.
— Fizemos ainda melhor que isso, senhor — disse o velho marujo, com certo respeito —, pois orçamos a brigandina e colocamos a barra ao vento para correr à frente da tempestade. Dez minutos depois, amarrávamos as velas da gávea e seguíamos secos de velas.
— A embarcação era muito velha para arriscar isso — discordou o inglês.
— Pois foi justamente o que nos desgraçou. Ao cabo de doze horas, em que balançamos como se o diabo tivesse pego em armas, declarou-se uma infiltração de água. “Penelon — disse-me o capitão —, acho que estamos afundando, meu velho; passe-me então o leme e desça ao porão.”
“Entrego-lhe o leme, desço; já havia um metro de água. Subo de novo gritando: ‘Às bombas! às bombas!’ Mas, claro, já era tarde demais! Assim mesmo pusemos mãos à obra; mas acho que quanto mais água tirávamos mais entrava.
“— Ah! palavra de honra — disse eu quatro horas depois — já que afundamos, deixe afundar, morre-se apenas uma vez!
“— É assim que dá o exemplo, mestre Penelon? — disse o capitão. —
Pois muito bem... espere, espere!
“Foi pegar uma pistola em sua cabine.
“— O primeiro que largar a bomba de sucção — ele disse —, eu arrebento seus miolos!”
— Muito bem — disse o inglês.
— Os bons motivos são a melhor coisa para dar coragem — continuou o marujo —, ainda mais que nesse ínterim o tempo clareara e o vento diminuíra; mas nem por isso a água deixava de subir, não muito, cinco centímetros talvez por hora, mas, enfim, subia. Cinco centímetros por hora, veja o senhor, não parece nada; mas em doze horas isso significa nada menos que sessenta centímetros, e sessenta centímetros é mais que meio metro. Meio metro mais um, que já tínhamos, dá um metro e meio.
Ora, quando uma embarcação tem um metro e meio de água na barriga, pode ser considerada hidrópica.
“— Pronto — disse o capitão —, já chega, e o sr. Morrel nada tem a nos censurar: fizemos o possível para salvar o barco; agora temos que tratar de salvar os homens. Para a chalupa, grumetes, e mais rápido!
“Escute, sr. Morrel — continuou Penelon —, nós amamos de fato o Pharaon, mas por mais que o marinheiro ame seu navio, ama ainda mais a própria pele. Portanto, não esperamos ele falar duas vezes; dito isto, o senhor vê que a embarcação se queixava e parecia nos dizer: ‘Podem ir embora, mas vão logo!’ E ele não mentia, o pobre Pharaon; sentíamos literalmente ele se afundar sob nossos pés. Tanto é que, num piscar de olhos, a chalupa estava no mar e nós oito dentro dela.
“O capitão desceu por último, ou melhor, não, não desceu, pois não queria deixar o navio, fui eu que o peguei à força e joguei para os colegas, depois pulei por minha conta. Já não era sem tempo. Quando eu acabava de pular, o tombadilho arrebentou com um barulho que parecia o canhoneio de um brigue de quarenta e oito peças de artilharia.
“Dez minutos depois, ele mergulhou a proa, depois a popa, em seguida começou a girar sobre si mesmo, como um cachorro atrás do próprio rabo; e depois, adeus, camaradas, brrru...! tudo estava acabado, era o fim do Pharaon!
— ... fui eu que o peguei à força e joguei para os colegas ...
“Quanto a nós, ficamos três dias sem beber nem comer; de modo que já falávamos em tirar a sorte para saber quem alimentaria os demais, quando avistamos o Gironde: fizemos sinais, ele nos viu, embicou a proa em nossa direção, nos mandou sua chalupa e nos recolheu. Eis como a coisa aconteceu, sr. Morrel, palavra de honra! Pela minha fé de marujo! Não é, pessoal?”
Um murmúrio geral de aprovação demonstrou que o narrador reunira todos os sufrágios graças à verdade do que dizia e ao pitoresco dos detalhes.
— Bem, meus amigos — disse o sr. Morrel —, vocês são corajosos, e eu já sabia que a tragédia da qual eu era vítima não tinha outro culpado senão o meu destino. É vontade de Deus e não culpa dos homens. Adoremos a vontade de Deus. Mas, me digam, quanto vocês têm a receber de soldo?
— Bah! Não falemos nisto, sr. Morrel.
— Pelo contrário, falemos — disse o armador com um sorriso triste.
— Já que insiste, temos três meses a receber... — disse Penelon.
— Coclès, pague duzentos francos a cada um desses bravos. Em outros tempos — continuou Morrel —, eu teria acrescentado: dê a cada um duzentos francos de gratificação; mas os tempos são ingratos, meus amigos, e o pouco de dinheiro que me resta não me pertence mais. Então me desculpem e não deixem de me apreciar menos por isto.
Penelon fez uma careta de enternecimento, voltou-se para os seus companheiros, trocou algumas palavras com eles e voltou.
— A propósito, sr. Morrel — disse ele, passando seu tabaco para o outro lado da boca e lançando outra cusparada na saleta, que foi fazer companhia à primeira —, a propósito...
— De quê?
— Do dinheiro...
— Qual é o problema?
— O problema! Sr. Morrel, meus colegas estão dizendo que por enquanto se contentarão com cinqüenta francos cada um e esperarão pelo restante.
— Obrigado, meus amigos, obrigado! — exclamou o sr. Morrel, comovido até o fundo do coração. — Todos vocês têm o coração de ouro; mas peguem, peguem e, se encontrarem um bom trabalho, candidatem-se, estão livres.
Esta última parte da frase teve um efeito prodigioso nos dignos marujos.
Olharam-se uns para os outros com a expressão perturbada. Penelon, cuja respiração vacilava, quase engoliu seu tabaco; felizmente levou a mão à garganta a tempo.
— Como, sr. Morrel — disse ele, com uma voz estrangulada —, como!?
Está nos despedindo! Então está descontente conosco?
— Não, meus filhos — disse o armador. — Não, não estou descontente com vocês, muito pelo contrário. Não, não os estou demitindo. Mas, que querem, não tenho mais navios, não preciso mais de marujos.
— Como não tem mais navio! — exclamou Penelon. — Ora, o senhor construirá outros, vamos esperar. Deus é testemunha, sabemos o que é velejar contra o vento!
— Não tenho mais dinheiro para construir navios, Penelon — disse o armador com um triste sorriso —, logo, não posso aceitar sua oferta, por mais gentil que seja.
— Ora essa! Se não tem dinheiro, não precisa nos pagar; faremos como fez esse coitado do Pharaon, navegaremos sem vela, e não se fala mais nisso!
— Basta, basta, meus amigos — disse Morrel, arfando de emoção. —
Vão, por favor. Nos encontraremos em tempos melhores. Emmanuel —
acrescentou o armador —, acompanhe-os e se empenhe para que meus desejos sejam realizados.
— Pelo menos até logo, não é, sr. Morrel? — disse Penelon.
— Sim, meu amigos, pelo menos é o que espero; vão.
E fez um sinal para Coclès, que saiu na frente. Os marujos seguiram o tesoureiro, e Emmanuel seguiu os marujos.
— Agora — disse o armador à mulher e à filha —, deixem-me sozinho por um instante; tenho que conversar com o cavalheiro.
E apontou com os olhos o representante da Casa Thomson & French, que durante toda a cena permanecera em pé e imóvel num canto, participando apenas com as poucas palavras que relatamos. As duas mulheres ergueram os olhos para o estrangeiro, de quem se haviam esquecido completamente, e se retiraram; porém, ao se retirarem, a moça dirigiu para esse homem um relance sublime de súplica, ao qual ele respondeu com um sorriso que um observador imparcial teria ficado surpreso de ver naquele rosto de gelo. Os dois homens ficaram sozinhos.
— Muito bem, senhor! — disse Morrel, deixando-se cair em sua poltrona. — O senhor viu tudo, ouviu tudo, não tenho mais nada a lhe dizer.
— Vi, senhor — disse o inglês —, que foi vítima de uma nova e imerecida tragédia, como as outras, o que só faz aumentar meu desejo de lhe ser agradável.
— Oh, senhor! — disse Morrel.
— Vejamos — disse o estrangeiro. — Sou um de seus principais credores, não é mesmo?
— Pelo menos é o que está de posse das promissórias de mais curto prazo.
— Quer um prazo maior para me pagar?
— Um prazo poderia me salvar a honra e, por conseguinte, a vida.
— Precisa de quanto tempo? Morrel hesitou.
— Dois meses — disse.
— Muito bem — disse o estrangeiro —, dou-lhe três.
— Mas acha que a Thomson & French...
— Fique tranqüilo, senhor, assumo toda a responsabilidade. Hoje é dia 5
de junho.
— Exato.
— Pois bem, renove todas essas promissórias para 5 de setembro; e 5 de setembro, às onze da manhã (o pêndulo marcava onze horas em ponto naquele momento), apresentar-me-ei em sua casa.
— Ficarei à sua espera — disse Morrel —, ou o senhor será pago, ou estarei morto.
Estas últimas palavras foram pronunciadas tão baixinho que o estrangeiro não conseguiu ouvi-las.
As promissórias foram renovadas, as velhas, rasgadas, e o pobre armador tinha ainda três meses à sua frente para reunir seus últimos recursos.
O inglês recebeu seus agradecimentos com a fleugma peculiar à sua nação e despediu-se de Morrel, que o acompanhou abençoando-o até a porta.
Ao descer a escada, encontrou Julie. A moça fingia estar descendo, mas na realidade o aguardava.
— Oh, senhor! — ela disse, juntando as mãos.
— A senhorita — disse o estrangeiro — receberá um dia uma correspondência assinada... Simbad, o marujo... faça minuciosamente o que lhe disser esta carta, por mais estranha lhe pareça a recomendação.