O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 19 de 119

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O Conde de Monte Cristo

17. A cela do abade

6 Lavoisier: Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-94), químico francês, foi o primeiro cientista a enunciar o princípio da conservação da matéria. Além disso, identificou e batizou o oxigênio e participou da reforma da nomenclatura química. Autor de um grande Tratado elementar de química, Lavoisier foi também inspetor nacional das companhias de fabricação de pólvora.

Nomeado fermier général (espécie de arrecadador de impostos), foi guilhotinado durante a Revolução Francesa.

7 Cabanis: Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808), médico, fisiologista e filósofo francês, eleito para a Academia Francesa em 1803.

8 Estrabão (c.63 a.C-c.24 d.C.): historiador, geógrafo e filósofo grego, autor da monumental Geographia, um tratado de dezessete livros contendo a história e descrições de povos e locais de todo o mundo que lhe era conhecido na época.

9 Jornandès: historiador do séc.VI de origem ostrogoda, que escrevia em latim. Foi um burocrata, talvez um bispo e, no fim da vida, dedicou-se ao metiê de historiador. Dele se conhecem duas obras: uma crônica do povo godo e uma história de Roma.

10 Bossuet: Jacques-Benigne Bossuet (1627-1704), bispo e teólogo francês. Um dos primeiros a defender a teoria do absolutismo político, é autor de Política segundo a Sagrada Escritura, livro em que defende a origem divina do poder real.

17. A cela do abade

Após ter passado, curvando-se, mas ainda assim sem grande facilidade, pela passagem subterrânea, Dantès chegou à extremidade oposta do túnel, que dava na cela do abade. Nesse ponto a passagem se estreitava e mal havia espaço suficiente para um homem deslizar se arrastando. A cela do abade era lajeada, e tinha sido erguendo uma daquelas lajes colocada no canto mais escuro que ele havia começado a laboriosa operação a cujo fim Dantès assistira.

Assim que entrou e se pôs de pé, o rapaz examinou a cela com grande atenção. À primeira vista, não apresentava nada de particular.

— Bom — disse o abade —, é apenas meio-dia e quinze, temos ainda algumas horas à nossa frente.

Dantès olhou à sua volta, procurando o relógio no qual o abade pudera consultar as horas de maneira tão precisa.

— Veja esse raio de luz entrando pela janela — disse o abade —, e observe na parede as linhas que tracei. Graças a essas linhas, que correspondem ao duplo movimento da Terra e à elipse que esta descreve em torno do Sol, vejo as horas mais pontualmente do que se tivesse um relógio, pois um relógio se deteriora, ao passo que o Sol e a Terra nunca se deterioram.

Dantès nada compreendera dessa explicação; sempre acreditara, ao ver o Sol nascer por trás das montanhas e morrer no Mediterrâneo, que era ele que se movia e não a Terra. Esse duplo movimento do globo que ele habitava, e que no entanto ele não percebia, parecia-lhe quase impossível; em cada uma das palavras de seu interlocutor via mistérios da ciência tão admiráveis de escavar quanto aquelas minas de ouro e diamantes que ele visitara

numa viagem que fizera ainda criança a Guzarate e a Golconda1.

— Vejamos — disse ele ao abade —, estou curioso para examinar seus tesouros.

O abade dirigiu-se até a lareira e deslocou, com o cinzel que continuava em suas mãos, a pedra que antigamente formava o átrio e que escondia uma cavidade bastante profunda; era nessa cavidade que estavam guardados todos os objetos que ele mencionara para Dantès.

— O que deseja ver primeiro? — perguntou ele.

— Mostre-me sua grande obra sobre o reino na Itália.

Faria tirou do precioso armário três ou quatro rolos de panos enrolados sobre si mesmos, como folhas de papiro: eram faixas de lona, com cerca de dez centímetros de largura por quarenta e cinco de comprimento.

Aquelas faixas, numeradas, estavam cobertas por uma letra que Dantès conseguiu ler, pois estavam escritas na língua materna do abade, isto é, o italiano, idioma que em sua condição de provençal Dantès compreendia perfeitamente.

— Veja — disse ele —, está tudo aqui. Faz mais ou menos uma semana que pus a palavra fim embaixo da sexagésima oitava faixa. Duas camisas minhas e tudo que eu tinha de lenços foi nisso; se um dia eu voltar a ser livre e houver em toda a Itália um tipógrafo que ouse me publicar, minha reputação está feita.

— Sim — disse Dantès —, estou vendo. Por favor, agora mostre as penas com que escreveu esta obra.

— Veja — disse Faria.

E mostrou ao rapaz um pequeno bastão com quinze centímetros de comprimento, grosso como o cabo de um pincel, em cuja ponta e em torno do qual, amarrada com uma linha, estava uma daquelas cartilagens, ainda manchada de tinta, de que o abade falara a Dantès; era alongado no bico e fendido como uma pena comum.

Dantès examinou-o, procurando com os olhos o instrumento com que aquilo pudera ser esculpido de maneira tão correta.

— Ah, sim — disse Faria —, o canivete, não é? É minha obra-prima; fiz, assim como aquela faca ali, com um velho castiçal de ferro.

O canivete cortava como uma navalha. Quanto à faca, tinha a vantagem de servir ao mesmo tempo de faca e punhal.

Dantès examinou esses diferentes objetos com a mesma atenção com que, nas lojas de quinquilharias de Marselha, às vezes examinara instrumentos fabricados por selvagens e trazidos dos mares do Sul por capitães de longo curso.

— Quanto à tinta — disse Faria —, já sabe como procedo; fabrico-a à medida das minhas necessidades.

— Me espanta agora uma coisa — disse Dantès —, é que os dias tenham lhe bastado para toda essa empreitada.

— Eu tinha as noites — respondeu Faria.

— As noites! Então tem a natureza dos gatos e enxerga à noite?

— Não; mas Deus deu ao homem a inteligência para compensar a precariedade de seus sentidos: fabriquei luz.

— Como assim?

— Da carne que me trazem separo a gordura, derreto-a e tiro dela uma espécie de óleo compacto. Examine a minha vela.

E o abade mostrou a Dantès uma espécie de lampião, semelhante aos utilizados na iluminação pública.

— Mas e o fogo?

— Aqui estão duas pedras e pano queimado.

— Mas e os fósforos?

— Fingi uma doença de pele, pedi enxofre, e me deram.

Dantès colocou os objetos que segurava sobre a mesa e abaixou a cabeça, esmagado pela perseverança e a força daquela inteligência.

— Isso não é tudo — continuou Faria —, pois é desaconselhável guardar todos os seus tesouros num único esconderijo; fechemos este.

Recolocaram a laje no lugar; o abade espalhou um pouco de pó em cima, passou o pé para apagar todo vestígio de solução de continuidade, avançou para sua cama e moveu-a do lugar.

Atrás da cabeceira, ocultado por uma pedra que o vedava quase hermeticamente, estava um buraco, e, nesse buraco, uma escada de corda com oito a dez metros de comprimento.

Dantès examinou-a: era de uma resistência a toda prova.

— Quem lhe forneceu o material necessário para esse trabalho

maravilhoso? — perguntou Dantès.

— Em primeiro lugar, algumas camisas que eu tinha, depois os lençóis da minha cama, que, durante três anos de cativeiro em Fenestrelle, desfiei.

Quando me transferiram para o castelo de If, encontrei meios de trazer comigo esse tecido desfiado; continuei o trabalho aqui.

— Mas ninguém percebia que os lençóis da sua cama não tinham mais bainha?

— Eu os recosturava.

— Com o quê?

— Com esta agulha.

E o abade, levantando uma aba de seus andrajos, mostrou a Dantès uma longa haste, aguda e ainda com linha, que carregava consigo.

— Sim — prosseguiu Faria —, primeiro eu tinha pensado em empenar essas barras e fugir por esta clarabóia, que é um pouco maior que a sua,

como vê, a qual eu teria alargado um pouco mais no momento da minha evasão; mas percebi que essa clarabóia dava para um pátio interno, e desisti do projeto como muito arriscado. Entretanto, conservei a escada para uma circunstância imprevista, para uma dessas evasões de que eu lhe falava, e que o acaso propicia.

Dantès, ao mesmo tempo em que fingia examinar a escada, pensava dessa vez em outra coisa; uma idéia lhe ocorrera. É que aquele homem, tão inteligente, tão engenhoso, tão profundo, talvez enxergasse claro na escuridão de seu próprio infortúnio, que ele próprio nunca conseguira entender direito.

— Em que está pensando? — perguntou o abade, sorrindo e tomando a concentração de Dantès por uma admiração levada ao extremo.

— Penso antes de tudo em uma coisa, a enorme soma de inteligência requerida para chegar aonde chegou; que teria feito, uma vez livre?

— Nada, talvez; esse transbordamento do meu cérebro evaporou-se em banalidades. É preciso o infortúnio para escavar certas jazidas misteriosas escondidas na inteligência humana; é preciso pressão para fazer a pólvora explodir. O cativeiro reuniu num único ponto todas as minhas faculdades que flutuavam aqui e ali; elas colidiram num espaço exíguo; e, o senhor sabe, da colisão das nuvens resulta a eletricidade, da eletricidade, o relâmpago, do relâmpago, a luz.

— Não, não sei nada — disse Dantès, abatido pela própria ignorância.

— Uma parte das palavras que o senhor pronuncia consiste de palavras vazias de sentido para mim; o senhor deve ser muito feliz por ser tão sábio!

O abade sorriu.

— O senhor dizia que pensava em duas coisas...

— Sim.

— E me deu a conhecer a primeira; e a segunda?

— A segunda é que o senhor me contou sua vida, mas o senhor não conhece a minha.

— Sua vida, meu rapaz, é demasiado curta para encerrar fatos de qualquer importância.

— Ela encerra uma imensa desgraça — disse Dantès —, uma desgraça que não mereci; e eu gostaria, para não blasfemar contra Deus, como fiz algumas vezes, de me vingar dos homens causadores do meu infortúnio.

— Quer dizer que se presume inocente do fato que lhe imputam?

— Completamente inocente, juro pela cabeça das duas únicas pessoas que me são caras, pela cabeça do meu pai e de Mercedes.

— Vejamos — disse o abade, fechando seu esconderijo e movendo novamente a cama para o lugar —, conte-me então sua história.

Dantès então contou o que chamava de sua história, e que se limitava a uma viagem à Índia e a duas ou três viagens ao Levante; acabou chegando à sua última travessia, à morte do capitão Leclère, ao pacote entregue por ele ao grão-marechal, à entrevista com o grão-marechal, à carta que este lhe entregou e destinada a um certo sr. Noirtier; enfim, à sua chegada à Marselha, à sua entrevista com seu pai, ao seu amor por Mercedes, ao almoço de seu noivado, à sua prisão, ao seu interrogatório, à sua prisão provisória no Palácio de Justiça, finalmente à sua prisão definitiva no castelo de If. A partir desse ponto, Dantès ignorava tudo, até mesmo há quanto tempo achava-se ali.

Terminado o relato, o abade refletiu profundamente.

— Há — disse no fim de um instante —, um axioma de direito de grande profundidade, e que se refere ao que eu lhe dizia há pouco: a menos que o pensamento do mal nasça numa mente corrompida, a natureza humana rechaça o crime. Por outro lado, a civilização nos deu necessidades, vícios, apetites capciosos que às vezes têm o poder de sufocar nossos bons instintos e nos levam ao mal. Daí a máxima: “Se quiser descobrir o culpado, vá direto naquele a quem interessa o crime cometido!” A quem seu desaparecimento interessava?

— A ninguém, meu Deus! Eu era tão pouca coisa.

— Não responda assim, pois a resposta carece ao mesmo tempo de lógica e de filosofia; tudo é relativo, caro amigo, desde o rei que contraria seu futuro sucessor até o empregado que contraria o estagiário: se o rei morre, o sucessor herda uma coroa; se o empregado morre, o estagiário herda mil e duzentos líquidos de salário. Esses mil e duzentos líquidos de salário constituem seu patrimônio; são-lhe tão necessários para viver quanto os doze milhões de um rei. Todos os indivíduos sem exceção, desde a base até o topo da escala social, agrupam em torno de si todo um mundinho de interesses, com seus turbilhões e átomos vorazes, como os mundos de Descartes. Mas esses mundos continuam se ampliando à medida que sobem. É uma espiral invertida, em equilíbrio instável.

Voltemos então ao seu mundo. O senhor ia ser nomeado capitão do Pharaon?

— Sim.

— Ia se casar com uma bela moça?

— Sim.

— Alguém tinha interesse em que o senhor não se tornasse capitão do Pharaon? Alguém tinha interesse em que o senhor não se casasse com Mercedes? Responda antes a primeira pergunta, a ordem é a chave de todos os problemas. Alguém tinha interesse em que o senhor não se tornasse capitão do Pharaon?

— Não; eu era muito querido a bordo. Se os marujos tivessem podido eleger um chefe, tenho certeza de que eu teria sido o eleito. Apenas um homem tinha motivos para não gostar de mim, um homem com quem eu me desentendera recentemente e a quem desafiara para um duelo, que ele recusara.

— Ora, vamos! Como se chama esse homem?

— Danglars.

— Qual sua função a bordo?

— Era contador.

— Se o senhor tivesse se tornado capitão, iria mantê-lo em seu posto?

— Não se a coisa dependesse de mim, pois julguei observar algumas infidelidades em suas contas.

— E por acaso alguém assistiu à sua última entrevista com o capitão Leclère?

— Não, estávamos a sós.

— Alguém poderia ter ouvido a conversa dos senhores?

— Sim, pois a porta estava aberta; inclusive... espere... sim, sim, Danglars passou justamente no momento em que o capitão Leclère me entregava a encomenda destinada ao grão-marechal.

— Bom — disse o abade —, estamos no caminho certo. Levou alguém à terra com o senhor quando fez escala na ilha de Elba?

— Ninguém.

— Entregaram-lhe uma carta?

— Sim, o grão-marechal.

— Que fez com essa carta?

— Guardei-a na minha carteira.

— Tinha então uma carteira com o senhor? Como uma carteira contendo uma carta oficial podia caber no bolso de um marinheiro?

— Tem razão, minha carteira ficara no navio.

— Então foi apenas a bordo que o senhor guardou a carta na carteira?

— Sim.

— De Porto Ferraio até chegar a bordo, que fez com a carta?

— Segurei-a em minhas mãos.

— Logo, quando embarcou no Pharaon, todos puderam ver que o senhor estava com uma carta?

— Sim.

— Danglars também?

— Danglars também.

— Agora, escute bem; reúna todas as suas lembranças; lembra-se em que termos estava redigida a denúncia?

— Oh, sim! Reli-a três vezes, e cada palavra permanece na minha memória.

— Repita-a para mim.

Dantès concentrou-se por um instante.

— Ei-la — disse — textualmente:

O sr. procurador do rei fica avisado, por um amigo do trono e da religião, que o assim chamado Edmond Dantès, imediato do navio Pharaon, chegado de Esmirna esta manhã, antes de fazer escalas em Nápoles e Porto Ferraio, foi encarregado, por Murat, de uma carta para o usurpador, e pelo usurpador, de uma carta para o comitê bonapartista de Paris.

A prova de seu crime pode ser obtida com sua detenção, pois a carta será encontrada com ele, ou na casa de seu pai, ou em sua cabine a bordo do Pharaon.

O abade ergueu os ombros.

— É claro como o dia — disse ele —, é preciso ter o coração muito ingênuo e muito generoso para não ter matado a charada desde o início.

— Acha? — exclamou Dantès. — Ah! Seria muita infâmia!

— Como era a caligrafia habitual de Danglars?

— Uma bela cursiva.

— Como era a caligrafia da carta anônima?

— Uma escrita invertida. O abade sorriu.

— Tosca, não é?

— Insolente demais para ser tosca.

— Espere — disse ele.

Pegou sua pena, ou melhor, o que assim chamava, embebeu-a na tinta e escreveu com a mão esquerda, numa linha preparada para esse fim, as duas ou três primeiras linhas da denúncia.

Dantès recuou e fitou o abade quase com terror.

— Oh, é espantoso como aquela letra se parece com esta! — exclamou.

— É que a denúncia tinha sido escrita com a mão esquerda. Observei uma coisa — continuou o abade.

— O quê?

— Que todas as caligrafias traçadas com a mão direita variam de uma para a outra e todas as caligrafias traçadas com a mão esquerda se assemelham.

— Então viu tudo, observou tudo?

— Continuemos.

— Oh, sim, sim!

— Passemos à segunda pergunta.

— Estou ouvindo.

— Alguém tinha interesse em que o senhor não se casasse com Mercedes?

— Sim! Um rapaz que a amava.

— Seu nome.

— Fernand.

— É um nome espanhol?

— Ele era catalão.

— Acha que ele seria capaz de escrever a carta?

— Não! Este teria me apunhalado, só isso.

— É, está na natureza do espanhol: um assassinato, sim, uma covardia, não.

— A propósito — continuou Dantès —, ele ignorava todos os detalhes que constavam da denúncia.

— O senhor os forneceu a alguém?

— A ninguém.

— Nem mesmo à sua noiva?

— Nem mesmo à minha noiva.

— Foi Danglars.

— Oh, agora tenho certeza!

— Espere... Danglars conhecia Fernand?

— Não... sim.. Estou lembrando...

— De quê?

— Na antevéspera do meu casamento eu os vi juntos, sentados no caramanchão do seu Pamphile. Danglars estava amistoso e trocista, Fernand, pálido e transtornado.

— Estavam sozinhos?

— Não, estava com eles um terceiro colega, que eu conhecia bem, a quem provavelmente haviam sido apresentados, um alfaiate chamado Caderousse; mas este já estava bêbado; espere... espere... Como não me lembrei disso? Perto da mesa em que eles bebiam havia um tinteiro, papel, penas — Dantès cobriu o rosto com as mãos. — Oh, miseráveis, miseráveis!

— Quer saber mais uma coisa? — disse o abade rindo.

— Sim, sim, uma vez que o senhor aprofunda tudo, uma vez que o senhor enxerga claro em todas as coisas, quero saber por que não fui interrogado senão uma vez, por que não me deram um julgamento, e como posso estar condenado sem sentença.

— Oh, isto — disse o abade —, isto é um pouco mais grave; a justiça tem aspectos sombrios e misteriosos difíceis de penetrar. O que fizemos até aqui no caso dos seus dois amigos foi brincadeira de criança; para algo assim, vai ter que me fornecer indicações mais precisas.

— Interrogue-me, pois na verdade o senhor vê a minha vida com mais clareza do que eu mesmo.

— Quem o interrogou? Foi o procurador do rei, o substituto, o juiz de instrução?

— Foi o substituto.

— Jovem ou velho?

— Jovem: vinte e sete ou vinte oito anos.

— Bem, ainda não corrupto, mas já ambicioso — disse o abade. —

Como ele o tratou?

— Mais educada que severamente.

— O senhor contou-lhe tudo?

— Tudo.

— E as maneiras dele mudaram no decorrer do interrogatório?

— Por um instante se alteraram, quando ele leu a carta que me comprometia; pareceu aterrado com a minha desgraça.

— Com a sua desgraça?

— Sim.

— E tem certeza de que era sua desgraça que ele lastimava?

— Pelo menos deu-me uma grande prova de sua solidariedade.

— Por exemplo?

— Queimou a única prova material que podia me comprometer.

— Qual? A denúncia?

— Não, a carta.

— Tem certeza disso?

— Aconteceu na minha frente.

— As coisas mudam de figura; esse homem poderia ser um celerado mais profundo que o senhor imagina.

— O senhor me dá calafrios, juro por Deus! — disse Dantès. — Então este mundo é povoado por tigres e crocodilos?

— Sim, mas tigres e crocodilos bípedes são mais perigosos que os outros.

— Continuemos, continuemos.

— Com prazer; o senhor dizia que ele queimou a carta na sua frente...

— Sim, dizendo-me: “Veja, esta é a única prova contra o senhor e estou destruindo-a.”

— Esse comportamento é sublime demais para ser natural.

— Acha?

— Tenho certeza. A quem essa carta estava endereçada?

— Ao sr. Noirtier, rua Coq-Héron, no13, Paris.

— Acha possível que seu substituto tivesse algum interesse em que essa carta desaparecesse?

— Sim, pois ele me fez prometer duas ou três vezes, para o meu bem, dizia ele, que não mencionaria a carta a ninguém e me fez jurar que não pronunciaria o nome do destinatário.

— Noirtier? — repetiu o abade. — Noirtier? Conheci um Noirtier no

tribunal da antiga rainha da Etrúria2, um Noirtier que havia sido girondino sob a Revolução. Como era o nome do substituto?

— De Villefort.

O abade caiu na gargalhada. Dantès o olhava com estupefação.

— Que tem o senhor? — disse ele.

— Está vendo esse raio de luz? — perguntou o abade.

— Sim.

— Excelente! Agora tudo me parece mais claro que esse raio transparente e luminoso. Desafortunada criança, desafortunado rapaz! E

esse magistrado foi bom para o senhor?

— Sim.

— Esse digno substituto queimou, destruiu a carta?

— Sim.

— Esse honesto abastecedor de carrasco lhe fez jurar que o senhor nunca pronunciaria o nome de Noirtier?

— Sim.

— Esse Noirtier, infeliz cego que o senhor é, sabe quem era esse Noirtier? Esse Noirtier era o pai dele!

Um raio, caído nos pés de Dantès e cavando à sua frente um abismo, no fundo do qual se abrisse o inferno, teria produzido um efeito menos imediato, menos elétrico, menos esmagador que essas palavras inesperadas; ele se levantou e pegou a cabeça com as duas mãos, como que para impedi-la de explodir.

— O pai dele! O pai dele! — gritou.

— Sim, o pai dele, que se chama Noirtier de Villefort — concluiu o abade.

Então uma luz fulgurante atravessou o cérebro do prisioneiro, tudo que permanecera obscuro para ele foi no mesmo instante iluminado por uma luz intensa. Aquelas tergiversações de Villefort durante o interrogatório, aquela carta destruída, o juramento exigido, aquela voz quase suplicante do magistrado, que, em vez de ameaçar, parecia implorar, tudo lhe voltou à memória; deu um grito, vacilou um instante como um homem bêbado; depois, precipitando-se pelo vão que levava da cela do abade à sua:

— Oh — disse ele —, preciso ficar sozinho para refletir sobre tudo isso.

E, chegando à sua masmorra, desabou em sua cama, onde o carcereiro o encontrou à noite, sentado, olhos esgazeados, traços contraídos, mas imóvel e mudo como uma estátua.

Durante essas horas de meditação, que se escoaram como segundos, tomara uma terrível decisão e fez um juramento impressionante.

Uma voz arrancou Dantès desse devaneio, era a do abade Faria, que, tendo recebido por sua vez a visita do seu carcereiro, vinha convidar Dantès para cear com ele. Seu status de louco varrido, e sobretudo de louco bufão, propiciava ao prisioneiro alguns privilégios, como o de ter um pão um pouco mais branco e uma garrafinha de vinho aos domingos.

Ora, estavam em pleno domingo, e o abade vinha convidar seu jovem companheiro para dividir o pão e o vinho.

Dantès foi atrás dele; todas as linhas de sua fisionomia haviam se recobrado e ocupado seu lugar habitual; mas com uma rigidez e uma firmeza, se é que podemos dizer, que acusavam uma decisão tomada. O

abade fitou-o intensamente.

— Sinto muito por tê-lo ajudado em suas investigações e lhe ter dito o que disse — falou.

— Por quê? — perguntou Dantès.

— Porque instilei um sentimento que não estava em seu coração: a vingança.

Dantès sorriu.

— Mudemos de assunto — disse ele.

O abade ainda o observou por um instante e balançou tristemente a cabeça; em seguida, como pedira Dantès, mudou de assunto.

O velho prisioneiro era um desses homens cuja conversação, como a das pessoas que sofreram muito, contém ensinamentos numerosos e encerra um interesse obstinado; mas ela não era egoísta; e o infeliz nunca falava de seus infortúnios.

Dantès escutava cada uma de suas palavras com admiração: algumas delas correspondiam a idéias que ele já tinha e a conhecimentos que eram do âmbito de sua condição de homem do mar, outras referiam-se a coisas desconhecidas e, como as auroras boreais que iluminam os navegadores nas latitudes austrais, descortinavam para o rapaz paisagens e horizontes novos, iluminados com seus fantásticos relâmpagos. Dantès compreendeu a felicidade que experimentaria um ser inteligente ao seguir aquele espírito elevado nas altitudes morais, filosóficas ou sociais em que tinha o hábito de planar.

— O senhor poderia me ensinar um pouco do que sabe — sugeriu Dantès —, nem que fosse para não se entediar comigo. Parece-me agora que deve preferir a solidão a um companheiro sem educação e sem importância como eu. Se consentir no que lhe peço, prometo-lhe nunca mais falar em fugir.

O abade sorriu.

— Ai de mim, criança! — disse ele. — A ciência humana é limitada, e quando eu tiver lhe ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que falo, o senhor saberá o que sei; ora, precisamos de meros dois anos para despejá-la do meu espírito para o seu.

— Dois anos! — exclamou Dantès. — Acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?

— Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim. Aprender não é saber; há sabidos e sábios; é a memória que faz os primeiros, é a filosofia que faz os outros.

— Mas é possível aprender filosofia?

— Filosofia não se aprende; a filosofia é a reunião das ciências adquiridas pelo gênio que as aplica; a filosofia é a nuvem reluzente em que o Cristo pôs o pé para subir aos céus.

— Vejamos — disse Dantès —, o que vai me ensinar primeiro? Tenho pressa em começar, tenho sede de ciência.

— Tudo! — disse o abade.

Com efeito, à noite, os dois prisioneiros estabeleceram um plano de estudo que começou a ser executado no dia seguinte. Dantès tinha uma memória prodigiosa, uma imensa facilidade de concepção: a disposição matemática de sua mente o tornava apto a compreender tudo pelo cálculo, ao passo que a poesia do marujo corrigia tudo que podia haver de demasiado material na demonstração reduzida à secura dos algarismos ou à monotonia das retas; aliás, já sabia italiano e um pouco de grego moderno, que aprendera em suas viagens ao Oriente. Com essas duas línguas, não demorou a compreender o mecanismo de todas as demais e, ao cabo de seis meses, começara a falar espanhol, inglês e alemão.

Como ele prometera ao abade Faria, fosse porque a distração que lhe proporcionava o estudo fazia as vezes de liberdade, fosse porque era, como já vimos, um rigoroso cumpridor de sua palavra, não falava mais em fugir, e os dias escoavam-se para ele rápidos e instrutivos. No fim de um ano, era outro homem.

Quanto ao abade Faria, Dantès observava que, apesar da distração que sua presença trouxera ao seu cativeiro, entristecia a cada dia. Um pensamento incessante e eterno parecia assediar seu espírito; caía em profundos devaneios, suspirava involuntariamente, levantava-se de súbito, cruzava os braços e perambulava sozinho por sua prisão.

Um dia, estacou de repente no centro de um daqueles círculos cem vezes repetidos que descrevia em torno de sua cela e exclamou:

— Ah, se não existisse sentinela!

— Não haverá sentinela se assim o desejar — disse Dantès, que lhe acompanhara o pensamento através da caixa craniana como através de um cristal.

— Mas já lhe disse — continuou o abade —, abomino o assassinato.

— Não obstante, esse assassinato, caso cometido, o será por instinto de nossa preservação, por razões de defesa pessoal.

— Não interessa, eu seria incapaz.

— Mas pensa na fuga, ainda assim?

— Incessantemente, incessantemente — murmurou o abade.

— E descobriu um jeito, não é? — perguntou Dantès, vivamente.

— Sim, se por uma eventualidade qualquer pusessem na galeria uma sentinela cega e surda.

— Ela ficará cega, ela ficará surda — respondeu o rapaz num tom resoluto que assustou o abade.

— Não, não! — ele gritou. — Impossível!

Dantès quis que ele continuasse a falar no assunto, mas o abade balançou a cabeça e se recusou a responder.

Três meses se passaram.

— O senhor é forte? — perguntou um dia o abade a Dantès.

Dantès, sem responder, pegou o cinzel, retorceu-o como uma ferradura e o endireitou.

— Promete não matar a sentinela senão como último recurso?

— Sim, pela minha honra.

— Então — disse o abade —, podemos executar o nosso plano.

— E de quanto tempo vamos precisar para executá-lo?

— Um ano, pelo menos.

— Mas podemos pôr mãos à obra?

— Imediatamente.

— Oh, veja, perdemos um ano! — exclamou Dantès.

— Acha que o perdemos? — disse o abade.

— Oh, perdão, perdão! — exclamou Edmond, corando.

— Schhh! — fez o abade. — Um homem nunca passa de um homem; e o senhor é um dos melhores que conheci. Veja, aqui tem o meu plano.

O abade mostrou então a Dantès um desenho traçado por ele: era a planta de sua cela, da de Dantès e da galeria que unia a ambas. No meio dessa galeria, desenhara um túnel semelhante ao que é praticado nas minas. Esse túnel levaria os dois prisioneiros sob a galeria percorrida pela sentinela; uma vez ali, empreenderiam uma ampla escavação, soltando as lajes que formavam o piso da galeria; a laje, num dado momento, cederia sob o peso do soldado, que desapareceria tragado pela escavação. Dantès então se arrojaria sobre ele no momento em que, assustado com a queda, ele não conseguiria se defender, o amarraria, o amordaçaria, e todos os dois então, passando por uma das janelas dessa galeria, desceriam ao longo da muralha externa com ajuda da escada de corda e escapariam.

Dantès bateu palmas e seus olhos brilharam de alegria; o plano era tão simples que tinha tudo para ser bem-sucedido.

No mesmo dia os mineradores puseram mãos à obra, com ardor redobrado, na medida em que esse trabalho sucedia um longo repouso e não passava, segundo todas as probabilidades, de uma extensão do pensamento íntimo e secreto de ambos.

Nada os interrompia, a não ser a hora em que cada um era obrigado a voltar para sua cela a fim de receber a visita do carcereiro. De toda forma, tinham adquirido o hábito de distinguir, pelo ruído imperceptível dos passos, o momento em que aquele homem descia, e nunca nem um nem outro foram pegos de surpresa. A terra por eles extraída do novo túnel, e que teria acabado por obstruir o antigo, era lançada aos pouquinhos, e com precauções inauditas, por um ou por outro, através das grades da masmorra de Dantès ou da masmorra de Faria: pulverizavam-na com cuidado e o vento da noite a carregava para longe sem deixar vestígios.

Mais de um ano se passou nesse trabalho, executado tendo como únicas ferramentas um cinzel, uma faca e uma alavanca de madeira; durante esse ano, ao mesmo tempo em que trabalhavam, Faria continuava a instruir Dantès, falando-lhe ora numa língua, ora em outra, ensinando-lhe a história das grandes nações e dos grandes homens que vez por outra deixam atrás de si um desses riscos luminosos que denominamos glória.

Além disso, o abade, homem cosmopolita e aristocrata, exibia em suas maneiras uma espécie de majestade melancólica da qual Dantès, graças ao dom de assimilação que a natureza lhe concedera, soube extrair o refinamento elegante que lhe faltava e as maneiras aristocráticas em geral adquiridas apenas no convívio das classes elevadas ou na companhia dos homens superiores.

No fim de quinze meses, o túnel estava terminado; a escavação estava feita sob a galeria; ouvia-se a sentinela indo e vindo, e os dois operários, obrigados a esperar por uma noite escura e sem lua para tornar sua evasão ainda mais segura, tinham agora apenas um temor: era ver o solo, muito cediço, afundar por si só sob os pés do soldado. Remediaram esse inconveniente instalando uma espécie de pequena viga, que haviam encontrado nas fundações, como escora. Dantès estava ocupado em fixá-la quando de repente ouviu o abade Faria, que permanecera na cela do rapaz, onde se empenhava por sua vez em afiar um pino destinado a sustentar a escada de corda, chamando-o num tom angustiado. Dantès retornou

rapidamente e percebeu o abade, de pé no meio da cela, pálido, suor na testa e mãos crispadas.

— Oh, meu Deus! — exclamou Dantès. — Que aconteceu e que tem o senhor?

— Rápido, rápido! — disse o abade. — Ouça-me.

Dantès olhou para o rosto lívido de Faria, para os seus olhos cingidos por um círculo azulado, seus lábios brancos, seus cabelos eriçados; apavorado, deixou cair no chão o cinzel que tinha na mão.

— Mas o que houve? — exclamou Edmond.

— Estou perdido! — disse o abade. — Escute. Uma doença terrível, talvez mortal, vai me arrebatar, a crise está chegando, sinto-a: já fui vítima disso no ano que precedeu meu encarceramento. Para essa doença não há senão um remédio, e vou lhe dizer: corra até a minha cela e levante o pé da cama; esse pé é oco; encontrará ali um vidrinho de cristal cheio até a metade com um licor vermelho, traga-o para mim; ou melhor, não, não, eu poderia ser surpreendido aqui; ajude-me a voltar para minha cela enquanto ainda tenho forças. Quem sabe o que vai acontecer durante essa crise?

Dantès, sem perder a cabeça embora a tristeza que sentia fosse imensa, entrou no túnel, arrastando seu infeliz companheiro atrás de si, conduzindo-o com uma piedade infinita até a extremidade oposta, e alcançou a cela do abade, a quem instalou em sua cama.

— Obrigado — disse o abade, arrepiado como se saísse de uma água gelada. — Eis a crise chegando, vou entrar em catalepsia; é possível que eu perca todos os movimentos, não solte nenhum gemido; mas também é possível que eu espume, enrijeça, grite; faça de modo a que não ouçam meus gritos: isto é o mais importante, corremos o risco de me transferirem para outra cela e ficaríamos separados para sempre. Quando me vir imóvel, frio e morto, por assim dizer, só então, ouça bem, descerre meus dentes com a faca, pingue na minha boca entre oito e dez gotas desse licor, assim talvez eu recupere os sentidos.

— Talvez? — exclamou Dantès dolorosamente.

— Socorro! Socorro! — exclamou o abade. — Estou me... estou me...

O acesso foi tão súbito e violento que o infeliz prisioneiro não conseguiu terminar a frase iniciada; uma nuvem atravessou sua fronte, rápida e escura como as tempestades no mar; a crise dilatou seus olhos, retorceu sua boca, arroxeou suas faces; ele se agitou, espumou, rugiu;

apesar disso, como ele próprio recomendara, Dantès abafou seus gritos sob sua coberta. Aquilo durou duas horas. Então, mais inerte que uma rocha, mais pálido e frio que o mármore, mais dilacerado que um junco pisoteado, ele caiu, enrijeceu-se ainda mais numa última convulsão e ficou lívido.

Edmond esperou que a morte aparente houvesse invadido o corpo e congelado até o coração; pegou então a faca, introduziu a lâmina entre os dentes, entreabriu com infinita dificuldade os maxilares crispados, contou uma atrás da outra dez gotas da poção vermelha, e esperou.

Uma hora transcorreu sem que o velho esboçasse o menor movimento.

Dantès temia ter esperado além da conta e o observava com ambas as mãos enfiadas nos cabelos. Finalmente uma ligeira coloração apareceu em suas faces, seus olhos, que haviam permanecido abertos e átonos, recuperaram o olhar, um débil suspiro escapou de sua boca, ele fez um movimento.

— Salvo! Salvo! — exclamou Dantès.

... contou uma atrás da outra dez gotas da poção vermelha, e esperou.

O doente ainda não conseguia falar, mas estendeu, com uma ansiedade visível, a mão em direção à porta. Dantès prestou atenção e ouviu os passos do carcereiro; iam dar sete horas e Dantès não tivera oportunidade de contar o tempo.

O rapaz correu para o túnel, desapareceu por ele, recolocou a laje depois de passar a cabeça e voltou para sua cela.

Um instante depois, a porta se abriu e o carcereiro, como de hábito, encontrou o prisioneiro sentado em sua cama.

Mal lhe deu as costas, mal o barulho dos passos se perdeu na galeria, Dantès, devorado pela aflição, retomou, sem pensar em comer, o caminho que acabava de percorrer; erguendo a laje com a cabeça, entrou novamente na cela do abade.

Este voltara a si, mas continuava prostrado na cama, inerte e sem forças.

— Não esperava revê-lo — ele disse a Dantès.

— Por que não? — perguntou o rapaz. — Então esperava morrer?

— Não; mas está tudo pronto para sua fuga e imaginei que o senhor iria fugir.

O rubor da indignação coloriu as faces de Dantès.

— Sem o senhor! — exclamou. — Julgou-me realmente capaz de uma coisa dessas?

— Agora vejo que estava enganado — disse o doente. — Ah, sinto-me fraco, consumido, destruído!

— Coragem, suas forças voltarão — disse Dantès, sentando-se perto da cama de Faria e pegando-lhe as mãos.

O abade balançou a cabeça.

— A última vez — disse ele —, a crise durou meia hora, depois tive fome e me levantei sozinho; hoje não consigo mexer nem a perna esquerda nem o braço direito; minha cabeça está confusa, o que atesta um derrame cerebral. Na terceira vez, ficarei inteiramente paralisado ou então morrerei sob o golpe.

— Não, não, fique tranqüilo, não vai morrer; essa terceira crise, caso aconteça, o encontrará livre. Nós o salvaremos como dessa vez, ou melhor, pois teremos todo o socorro necessário.

— Meu amigo — disse o velho —, não se iluda, a crise que acabo de sofrer me condena à prisão perpétua: para alguém fugir, precisa poder andar.

— Pois bem! Esperaremos uma semana, um mês, dois meses, se for preciso; nesse intervalo, suas forças voltarão; está tudo preparado para nossa fuga e podemos escolher a hora e o momento. O dia em que tiver forças suficientes para nadar, ótimo!, nesse dia poremos nosso plano em ação.

— Não nadarei mais — disse Faria —, este braço está paralisado não por um dia, mas para sempre. Levante-o e veja o senhor mesmo quanto ele pesa.

O rapaz soergueu o braço, que caiu insensível. Ele soltou um suspiro.

— Está convencido agora, não está, Edmond? — disse Faria. —

Acredite em mim, sei o que digo: desde o primeiro ataque desse mal, não parei de refletir. Já o esperava, pois é uma herança de família; meu pai morreu na terceira crise, meu bisavô também. O médico que compôs essa poção para mim, e que não é outro senão o famoso Cabanis, me vaticinou a mesma sorte.

— O médico está enganado — exclamou Dantès. — Quanto à sua paralisia, não me atrapalha, irei prendê-lo a meus ombros e nadarei arrastando-o.

— Mocinho — disse o abade —, o senhor é marujo, é nadador, por conseguinte deve saber que um homem carregado com tal fardo não daria cinqüenta braçadas no mar. Pare de se iludir com quimeras em que nem mesmo o seu coração acredita: permanecerei aqui até soar a hora da minha libertação, a qual talvez agora seja meramente a hora da morte. Quanto ao senhor, fuja, parta! O senhor é jovem, atlético e forte, não se preocupe comigo, devolvo-lhe sua palavra.

— Se é assim — disse Dantès —, então ficarei também.

Em seguida, levantando-se e estendendo uma mão solene sobre o velho:

— Pelo sangue de Cristo, juro não abandoná-lo até sua morte.

Faria considerou aquele rapaz tão nobre, tão simples, tão brioso, e leu em seus traços, animados pela expressão do devotamento mais puro, a sinceridade de sua afeição e a lealdade de seu juramento.

— Está bem — disse o doente —, aceito, obrigado. Depois, estendendo-lhe a mão:

— O senhor talvez seja recompensado por esse devotamento tão desinteressado — ele disse. — Mas como eu não posso e o senhor não quer partir, é importante vedarmos o subterrâneo sob a galeria: ao caminhar, o soldado pode perceber a sonoridade oca do local, chamar a

atenção de um inspetor, e então seríamos descobertos e separados. Vá executar essa tarefa, na qual infelizmente não posso mais ajudá-lo; trabalhe nisso a noite inteira se for preciso, e volte apenas de manhã, depois da visita do carcereiro; tenho algo importante a lhe comunicar.

Dantès pegou a mão do abade, que o tranqüilizou com um sorriso, e saiu obediente e respeitoso para com seu velho amigo.

1 Guzarate (ou Guzerate, ou ainda Gujarate): o segundo estado mais industrializado da Índia.

Está localizado no oeste do país, e sua capital é Gandhinagar. Golconda (ou Golkonda): antigo reino muçulmano situado na região centro-sul do atual território da Índia. Sua capital, homônima, que se encontra em ruínas, era famosa por suas muralhas e por um extraordinário sistema acústico, que facilitava a comunicação das sentinelas a longa distância.