O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 95 de 119

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O Conde de Monte Cristo

16. Valentine

— Edmond Dantès!

16. Valentine

É fácil imaginar onde Morrel tinha um compromisso e na casa de quem era o seu encontro.

Morrel, portanto, ao se despedir de Monte Cristo, encaminhou-se lentamente para a casa de Villefort.

Dissemos lentamente: afinal Morrel dispunha de mais de meia hora para dar quinhentos passos. No entanto, apesar desse tempo mais que suficiente, tivera pressa em despedir-se de Monte Cristo, ansioso por ficar sozinho com seus pensamentos.

Conhecia bem os horários de Valentine, a hora em que ela, ajudando no almoço de Noirtier, tinha certeza de não ser importunada nesse piedoso dever. Noirtier e Valentine haviam-lhe concedido duas visitas por semana, e ele iria usufruir desse direito. Quando chegou, Valentine o esperava. Preocupada, quase fora de si, agarrou-lhe a mão e o arrastou para diante de seu avô.

Essa preocupação, levada, como dizíamos, até quase o desvario, era fruto dos rumores que a aventura de Morcerf provocara na sociedade.

Todos sabiam, em sociedade tudo se sabe, do enfrentamento do Opéra. Na casa de Villefort, ninguém duvidava que um duelo resultasse inevitavelmente desse enfrentamento. Valentine, com seu instinto de mulher, adivinhara que Morrel seria a testemunha de Monte Cristo e, com a coragem bem conhecida do rapaz, com a amizade profunda que ela sabia que tinha pelo conde, temia que ele não tivesse forças para se limitar ao papel passivo que lhe era atribuído.

Logo, é compreensível a avidez com que os detalhes foram solicitados, fornecidos e recebidos, e Morrel pôde ler uma alegria esfuziante nos olhos de sua bem-amada, quando ela soube que o terrível episódio tivera um desfecho tão feliz quanto inesperado.

— Agora — disse Valentine, fazendo sinal para Morrel sentar-se ao lado do velho e sentando-se por sua vez no banquinho onde repousavam os pés dele —, falemos um pouco de nós. Sabia, Maximilien, que passou por um instante pela cabeça do vovô deixar a casa e comprar um apartamento fora do palacete do sr. de Villefort?

— Claro — disse Maximilien —, lembro-me desse plano, que inclusive mereceu meus aplausos.

— Pois bem — disse Valentine —, redobre os aplausos, Maximilien, pois vovô retomou-o.

— Viva! — saudou Maximilien.

— E sabe — disse Valentine — o motivo que o vovô alega para deixar a casa?

Noirtier olhava para sua neta a fim de lhe impor silêncio com o olho, mas Valentine não olhava para Noirtier. Seus olhos, seu olhar, seu sorriso, era tudo para Morrel.

— Oh, seja qual for o motivo alegado pelo sr. Noirtier — exclamou Morrel —, declaro que é bom.

— Excelente — disse Valentine. — Ele acha que o ar do faubourg SaintHonoré não é nada bom para mim.

— É verdade, Valentine. — concordou Morrel. — O sr. Noirtier pode ter razão, você não anda bem de uns dias para cá.

— Um pouquinho, de fato — respondeu Valentine. — Então o vovô constituiu-se em meu médico e, como o vovô sabe tudo, tenho total confiança nele.

— Mas então é verdade que está doente, Valentine? — perguntou Morrel, ansiosamente.

— Oh, meu Deus, isso não se chama doença. Sinto um mal-estar difuso, somente. Perdi o apetite meu estômago parece travar uma luta para aceitar alguma coisa.

Noirtier não perdia uma palavra de Valentine.

— E qual é o tratamento que segue para essa doença desconhecida?

— Oh, muito simples — respondeu Valentine. — Todas as manhãs tomo uma colher da poção que trazem para o meu avô. Quando digo uma colher, comecei por uma, agora estou em quatro. Meu avô sustenta que é uma panacéia.

Valentine sorria, mas havia algo triste e doentio em seu olhar.

Maximilien, inebriado de amor, fitava-a em silêncio. Ela estava belíssima, mas sua palidez tinha um tom mais fosco, seus olhos faiscavam um fogo mais ardente que de hábito, e suas mãos, geralmente de um branco feito madrepérola pareciam mãos de cera, que um matiz amarelado invadira com o tempo.

De Valentine, o rapaz dirigiu os olhos para Noirtier. Este considerava com sua estranha e profunda inteligência a moça absorta em seu amor.

Mas ele também, como Morrel, seguia o rastro de um sofrimento latente,

 

aliás tão pouco visível que escapara aos olhares de todos, exceto aos do avô e aos do namorado.

— Mas — disse Morrel — eu imaginava que essa poção, da qual você chega a tomar quatro colheres, fosse receitada para o sr. Noirtier...

— Sei que é muito amargo — disse Valentine —, tão amargo que tudo que bebo depois parece ter o mesmo gosto.

Noirtier olhou para a neta com um olhar indagador.

— Sim, vovô — disse Valentine —, é sim. Ainda há pouco, antes de vir para cá, bebi um copo de água com açúcar. Pois bem, deixei metade, tão amarga me pareceu.

Noirtier empalideceu e fez sinal de que queria falar. Valentine levantou-se para pegar o dicionário.

Noirtier olhou para a neta com um olhar indagador.

Noirtier seguiu-a com os olhos, visivelmente angustiado.

Com efeito, o sangue subia à cabeça da moça, suas faces coravam.

— Nossa! — ela exclamou, sem perder nada da faceirice. — Que estranho: ficou tudo escuro! Será o sol batendo nos meus olhos?

E apoiou-se no puxador da janela.

— Não está fazendo sol — disse Morrel, ainda mais preocupado com a expressão do rosto de Noirtier que com a indisposição de Valentine.

E correu para Valentine. A moça sorriu.

— Fique tranqüilo, vovô — ela disse a Noirtier —, fique tranqüilo, Maximilien, não é nada, e a coisa já passou. Mas escutem! Não é o barulho de um coche que ouço no pátio?

Abriu a porta de Noirtier, correu até a janela do corredor e voltou precipitadamente.

— Sim — ela disse —, é a sra. Danglars e a filha que vêm nos fazer uma visita. Adeus, tenho que ir, pois viriam me procurar aqui. Ou melhor, até logo, fique perto do vovô, Maximilien, prometo não demorar.

Morrel seguiu-a com os olhos, viu-a fechar a porta e ouviu-a subir a escadinha que levava tanto aos aposentos da sra. de Villefort como aos seus.

Assim que ela desapareceu, Noirtier fez sinal para Morrel pegar o dicionário. Morrel obedeceu. Guiado por Valentine, ele se habituara rapidamente a entender o velho.

Entretanto, por mais habituado que estivesse, e como precisava passar em revista parte das vinte e quatro letras do alfabeto e procurar cada palavra no dicionário, foi só no fim de dez minutos que o pensamento do velho foi traduzido por estas palavras: “Pegue o copo d’água e a garrafa que estão no quarto de Valentine.”

Morrel chamou imediatamente o criado que substituíra Barrois e, em nome de Noirtier, deu-lhe essa ordem.

O criado voltou um instante depois.

A garrafa e o copo estavam completamente vazios. Nortier fez sinal de que queria falar.

— Por que o copo e a garrafa estão vazios? — perguntou. — Valentine disse que bebera apenas metade do copo.

A tradução dessa nova pergunta exigiu mais cinco minutos.

— Não sei — respondeu o criado —, mas a camareira está nos aposentos da srta. Valentine. Talvez ela os tenha esvaziado.

— Vá perguntar a ela — disse Morrel, traduzindo dessa vez o pensamento de Noirtier com o olhar.

O criado saiu e voltou quase imediatamente.

— A srta. Valentine passou pelo quarto dela para se dirigir ao da sra. de Villefort — disse ele —, e, ao passar, como tinha sede, bebeu o que restava no copo. Quanto à garrafa, o sr. Édouard esvaziou-a para fazer uma piscina para os seus patos.

Noirtier levantou os olhos para o céu como faz um jogador que aposta tudo que tem.

A partir desse momento os olhos do velho fixaram-se na porta e não desgrudaram mais de lá.

Eram, com efeito, a sra. Danglars e sua filha que Valentine tinha visto.

Foram levadas até o quarto da sra. de Villefort, que preferira receber em seus aposentos; eis por que Valentine passara por lá, pois seu quarto ficava quase ao lado do de sua madrasta, os dois estando separados apenas pelo de Édouard.

As duas mulheres entraram no salão com aquela espécie de rigidez solene pressagiadora de um comunicado importante.

Uma nuance é imediatamente percebida entre pessoas do mesmo grupo social. A sra. de Villefort respondeu àquela formalidade com formalidade.

Nesse instante, Valentine entrou e fizeram-se novas mesuras.

— Querida amiga — disse a baronesa, enquanto as duas moças davamse as mãos —, vim com Eugénie para ser a primeira a lhe anunciar, para breve, o casamento de minha filha com o príncipe Cavalcanti.

Danglars mantivera o título de príncipe. O banqueiro amigo do povo julgara que soava melhor que conde.

— Então, permita que eu lhe dê meus sinceros parabéns — respondeu a sra. de Villefort. — O sr. príncipe Cavalcanti parece um rapaz de raras qualidades.

— Escute — disse a baronesa, sorrindo —, como sua amiga, devo dizerlhe que o príncipe ainda não nos parece ser o que será. Há nele um pouco dessa estranheza que nos faz, a nós franceses, reconhecer à primeira vista um fidalgo italiano ou alemão. Entretanto, sugere um coração boníssimo, uma inteligência brilhante, e quanto às formalidades, o sr.

Danglars dá a entender que a fortuna é majestosa, palavras dele.

— E depois — disse Eugénie, folheando o álbum da sra. de Villefort —, acrescente a isso, minha mãe, que a senhora tem uma inclinação muito especial por esse rapaz.

— Claro — disse a sra. de Villefort —, não preciso lhe perguntar se partilha dessa inclinação.

— Eu? — respondeu Eugénie com o desembaraço de sempre. — Oh, nem um pouco, senhora. Minha vocação não era agrilhoar-me às preocupações de um lar ou aos caprichos de um homem, fosse qual fosse.

Minha vocação era ser artista e, por conseguinte, ter o coração, a pessoa e o pensamento livres.

Eugénie pronunciou estas palavras num tom tão vibrante e firme que o rosto de Valentine ficou vermelho. A tímida jovem não conseguia compreender aquela natureza vigorosa que parecia não ter nenhum dos recatos femininos.

— De toda forma — continuou Eugénie —, uma vez que estou destinada a ser casada, por bem ou por mal, devo agradecer à Providência, que pelo menos me propiciou a indiferença do sr. Albert de Morcerf. Sem essa Providência, hoje eu seria mulher de um homem desonrado.

— Isso não deixa de ser verdade — concordou a baronesa, com aquela singular ingenuidade que às vezes encontramos nas grandes damas e que o convívio plebeu não consegue fazê-las perder de todo —, isso não deixa de ser verdade. Sem essa hesitação dos Morcerf, minha filha casava-se com esse sr. Albert. O general fazia questão absoluta disso, tentou inclusive dobrar a vontade do sr. Danglars; escapamos de boa.

— Mas — disse timidamente Valentine —, será que toda a vergonha do pai recai no filho? O sr. Albert parece-me completamente inocente de todas as traições do general.

— Perdão, querida amiga — disse a implacável jovem —, o sr. Albert reivindicou tal vergonha e merece seu quinhão: após haver provocado o sr.

de Monte Cristo ontem no Opéra, parece que lhe pediu desculpas hoje no próprio local do duelo.

— Impossível! — disse a sra. de Villefort.

— Ah, querida amiga — disse a sra. Danglars com a mesma ingenuidade já assinalada —, a fonte é segura; soube disso pelo sr. Debray, que estava presente à retratação.

Valentine também conhecia a verdade, mas não respondeu. Transportada por uma palavra a suas recordações, achava-se em pensamento no quarto de Noirtier, onde Morrel a esperava.

Mergulhada nessa espécie de contemplação interior, Valentine abandonara a conversa por um instante. Ter-lhe-ia sido inclusive impossível repetir o que fora dito nos últimos minutos, quando de repente a mão da sra. Danglars, apoiando-se em seu braço, arrancou-a do devaneio.

— O que houve, senhora? — disse Valentine, estremecendo ao contato dos dedos da sra. Danglars, como se atingida por um choque elétrico.

— Houve, minha querida Valentine, que você parece estar doente, ou não? — disse a baronesa.

— Eu? — fez a moça, passando a mão sobre sua testa ardente.

— Sim. Olhe-se nesse espelho. A senhorita corou e empalideceu três ou quatro vezes no espaço de um minuto.

— Realmente — exclamou Eugénie —, você está muito pálida!

— Oh, não se preocupe, Eugénie, já estou assim há alguns dias.

E, por menos astuciosa que fosse, a rapariga viu naquilo uma oportunidade para se ausentar. Aliás, a sra. de Villefort veio em sua ajuda.

— Retire-se, Valentine — disse ela. — Você está de fato doente, e essas senhoras saberão perdoá-la. Beba um copo de água pura e ficará boa.

Valentine beijou Eugénie, cumprimentou a sra. Danglars, já de pé para se retirar, e saiu.

— Essa infeliz criança — disse a sra. de Villefort quando Valentine saiu

— preocupa-me seriamente, e não será uma surpresa para mim se lhe acontecer um acidente grave.

Enquanto isso, Valentine, numa espécie de exaltação de que não se dava conta, atravessara o quarto de Édouard sem responder a qualquer maldade da criança e, através do seu próprio quarto, chegou à escadinha. Havia descido todos os degraus, menos os três últimos, já ouvia a voz de Morrel e quando, de repente, uma nuvem passou diante dos seus olhos, seu pé dormente falseou, suas mãos não tiveram mais força para segurar no corrimão e, resvalando na parede, ela antes rolou os três últimos degraus do que os desceu.

Morrel deu um pulo. Abriu a porta e encontrou Valentine estendida no corredor.

Rápido como o relâmpago, pegou-a nos braços e sentou-a numa poltrona. Valentine reabriu os olhos.

— Oh, como sou desastrada! — disse ela com uma volubilidade febril.

— Então não sei mais ficar de pé? Esqueci que havia três degraus antes do corredor!

— Por acaso se machucou, Valentine? — assustou-se Morrel. — Oh, meu Deus! Meu Deus!

Valentine olhou ao redor; viu o mais profundo pavor estampado nos olhos de Noirtier.

— Não se assuste, vovô — ela disse, tentando sorrir —, não foi nada, não foi nada... minha cabeça rodou, só isso.

— Outro mal-estar! — exclamou Morrel, juntando as mãos. — Oh, cuidado, Valentine, por favor!

— Mas não é nada disso — respondeu Valentine —, estou dizendo que passou e que não era nada. Agora vou contar-lhes a novidade: daqui a uma semana Eugénie se casa, e daqui a três dias haverá uma espécie de grande festim, um almoço de noivado. Estamos todos convidados, meu pai, a sra.

de Villefort e eu... pelo que julguei entender, pelo menos.

— Quando chegará a nossa vez de cuidar desses detalhes? Oh, Valentine, você, que tem tanta influência sobre o nosso bondoso avô, faça ele lhe responder: em breve!

— Quer dizer — perguntou Valentine — que você conta comigo para acelerar o ritmo e avivar as promessas do vovô?