O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 108 de 119

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O Conde de Monte Cristo

9. A partilha

2 “estrofes de Malherbe para du Périer”: alusão à obra do poeta francês François de Malherbe (1555-1628), autor de Consolação ao sr. du Périer, em que se lê: “Tua dor, du Périer, será então infinita,/ E os tristes discursos/ Que te insuflam ao espírito a amizade paternal/ Aumentá-la-ão sempre?/ A infelicidade de tua filha descida ao túmulo/ Por uma morte comum/ É porventura um labirinto/ Onde sua razão se perde?”

3 Jairo: alusão ao episódio bíblico no qual Jesus ressuscita a filha de Jairo, mencionada nos evangelhos de Marcos, V, 22-43, de Mateus, IX, 18-26, e de Lucas, VIII, 40-56.

9. A partilha

Naquele hotel da rua de Saints-Pères, que Albert de Morcerf escolhera para sua mãe e para ele, o primeiro andar, composto de um pequeno apartamento completo, estava alugado a um personagem bastante misterioso.

Esse personagem era um homem cujo rosto nem o próprio porteiro vira, seja entrando ou saindo, pois, no inverno, ele enfiava o queixo numa dessas gravatas vermelhas como têm os cocheiros de casas respeitáveis, que aguardam os patrões à saída dos espetáculos, e, no verão, escapulia sempre precisamente no momento em que seria possível vê-lo passando em frente à guarita. Convém dizer que, ao contrário de todos os costumes de praxe, esse morador do hotel não era bisbilhotado por ninguém e que o rumor corrente, segundo o qual seu incógnito escondia um indivíduo de status e com o braço comprido, contribuía para respeitarem suas misteriosas aparições.

Suas visitas eram sempre as mesmas, embora às vezes se adiantassem ou atrasassem. Mas, quase sempre, inverno ou verão, era por volta das quatro horas que ele tomava posse de seu apartamento, onde nunca passava a noite.

Às três e meia, no inverno, o fogo era aceso por uma criada discreta, que cuidava do pequeno apartamento. Às três e meia, no verão, sorvetes eram servidos pela mesma criada.

Às quatro horas, como dissemos, o misterioso personagem chegava.

Vinte minutos depois, um coche parava diante do hotel. Uma mulher vestida de preto ou azul-escuro, mas sempre envolta num grande véu, saltava, passava como uma sombra pela guarita e subia a escada sem que se ouvisse um único degrau estalar sob seus delicados pés.

Não ocorreu a ninguém perguntar aonde ela ia.

Seu rosto, como o do desconhecido, era portanto completamente estranho para os dois guardas da porta, porteiros exemplares, únicos talvez, na imensa confraria dos porteiros da capital, capazes de tal discrição.

Desnecessário dizer que ela nunca ia além do primeiro andar. Arranhava a porta de uma maneira especial, a porta abria, fechava hermeticamente, e isso era tudo.

Para sair do hotel, manobra idêntica à usada para ali entrar.

A desconhecida saía antes, sempre de véu, e entrava em seu coche, que ora desaparecia por uma ponta da rua, ora pela outra. Então, vinte minutos depois, o desconhecido saía por sua vez, imerso em sua gravata ou escondido pelo seu lenço, e também desaparecia.

No dia seguinte àquele ao qual o conde de Monte Cristo visitara Danglars, o do enterro de Valentine, o morador misterioso apareceu por volta das dez da manhã, em vez de chegar, como habitualmente, às quatro da tarde.

Quase imediatamente, e sem respeitar o intervalo de praxe, um coche de aluguel estacionou, e a dama do véu subiu rapidamente a escada.

A porta abriu e fechou.

Porém, antes mesmo que a porta se fechasse, a dama exclamou:

— Oh, Lucien! Oh, meu amigo!

Desta forma o porteiro, que, acidentalmente, ouvira aquela exclamação, soube então pela primeira vez que seu inquilino chamava-se Lucien. No entanto, como era um porteiro-modelo, prometeu-se não dizer nada nem à própria mulher.

— E então! O que há, querida amiga? — perguntou aquele cujo nome fora revelado pela perturbação ou a impaciência da dama do véu. —

Vamos, fale.

— Posso contar com você, meu amigo?

— Claro, e sabe disso. Mas o que há? Seu bilhete desta manhã deixoume terrivelmente perplexo. Aquela caligrafia precipitada, desordenada.

Vejamos, me acalme ou me apavore de vez!

— Lucien, um grande acontecimento! — disse a mulher, pregando em Lucien um olhar inquisitivo. — O sr. Danglars partiu esta noite.

— Partiu! O sr. Danglars partiu? E para onde foi?

— Não sei.

— Como? Não sabe? Então partiu para não voltar mais?

— Sem dúvida! Às dez da noite, seus cavalos conduziram-no até a barreira de Charenton. Lá ele encontrou uma berlinda de viagem toda preparada e embarcou com o criado, dizendo ao cocheiro que ia até Fontainebleau.

— E daí? Onde está querendo chegar?

— Espere, meu amigo. Ele deixou uma carta para mim.

— Uma carta?

— Sim, leia.

E a baronesa puxou do bolso uma carta já sem o lacre, que apresentou a Debray.

Debray, antes de ler, hesitou por um instante, como se procurasse adivinhar o teor da carta, ou melhor, como se, independentemente desse teor, estivesse decidido a tomar antecipadamente um partido.

Ao cabo de alguns segundos, sua decisão estava tomada, sem dúvida, pois ele leu.

Eis o que continha essa mensagem, que deixara transtornada a sra.

Danglars:

Senhora e mui fiel esposa.

Sem dar-se conta, Debray parou e olhou para a baronesa, que corou até a raiz dos cabelos.

— Leia — disse ela. Debray continuou:

Quando receber esta carta, a senhora não terá mais marido! Oh, não dispare tão precipitadamente o alarme. Não terá mais marido como não terá mais filha, isto é, estarei em uma das trinta ou quarenta estradas que levam para fora da França.

Devo-lhe explicações e, como a senhora é mulher capaz de compreendê-las em sua plenitude, aqui estão elas.

Preste atenção: hoje vieram descontar um título de cinco milhões, paguei-o. Outro da mesma quantia seguiu-se quase imediatamente. Adiei-o para amanhã. Parto hoje para evitar esse amanhã, que me seria demasiado desagradável suportar.

Compreende isto, não é mesmo, senhora e preciosíssima esposa?

Quero dizer: a senhora compreende porque sabe tão bem quanto eu dos meus negócios.

Sabe inclusive mais que eu, considerando que, em se tratando de dizer para onde foi uma boa metade da minha fortuna, ainda recentemente bastante respeitável, eu seria incapaz, ao passo que a senhora, ao contrário, tenho certeza, a senhora se sairia muito bem.

Pois as mulheres têm instintos infalíveis, explicam inclusive o maravilhoso por uma álgebra concebida por elas mesmas. Eu, que só conhecia meus números, não tenho mais nada depois que eles me enganaram.

Teria porventura, senhora, se admirado com a rapidez da minha queda?

Teria ficado um tanto ofuscada pela incandescente evaporação dos meus lingotes?

Quanto a mim, confesso, vi apenas fogo. Espero que tenha encontrado um pouco de ouro nas cinzas.

É com essa consoladora esperança que me afasto, senhora e prudentíssima esposa, sem que a minha consciência em nada me censure por abandoná-la. Restam-lhe amigos, as cinzas mencionadas, e, cúmulo da felicidade, a liberdade que me apresso em restituir-lhe.

Não obstante, senhora, é chegado o momento de introduzir uma palavrinha de explicação íntima nesta rubrica.

Enquanto alimentei a esperança de que a senhora trabalhasse para o bem-estar de nossa casa e para a fortuna de nossa filha, fechei filosoficamente os olhos. Todavia, como fez da minha casa uma vasta ruína, não quero servir de alicerce para a fortuna de outro.

Aceitei-a rica, mas pouco honrada.

Perdoe-me falar com essa franqueza, porém, como provavelmente falo apenas para nós dois, não vejo por que maquiar minhas palavras.

Aumentei nossa fortuna, que durante mais de quinze anos foi crescente, até o momento em que catástrofes ainda desconhecidas e ininteligíveis para mim vieram arrebatá-la e destruí-la, sem que, posso dizê-lo, eu tivesse qualquer culpa nisso.

Quanto à senhora, trabalhou apenas para aumentar a sua, no que foi muito bem-sucedida, estou moralmente convencido disso.

Deixo-a, portanto, como a aceitei, rica, mas pouco honrada. Adeus.

A partir de hoje, também trabalharei por conta própria.

Creia em toda a minha gratidão pelo exemplo que me deu e que irei seguir.

Seu mui devotado marido, BARÃO DANGLARS

A baronesa acompanhara Debray com os olhos durante essa longa e penosa leitura. Vira, a despeito da conhecida fleugma do rapaz, seu rosto mudar de cor uma ou duas vezes.

Ao terminar, ele fechou lentamente o papel em suas dobras e voltou à sua atitude pensativa.

— O que acha? — perguntou a sra. Danglars, compreensivelmente ansiosa.

— O que acho, senhora? — repetiu mecanicamente Debray.

— Que conclusão tira dessa carta?

— É muito simples: concluo que o sr. Danglars partiu com suspeitas.

— Sem dúvida, mas isso é tudo que tem a me dizer?

— Não compreendo — disse Debray, num tom glacial.

— Ele foi embora! Definitivamente! Para não voltar nunca mais!

— Oh! — fez Debray. — Não se fie nisso, baronesa.

— Ora, estou lhe dizendo, ele não vai voltar. Conheço-o, é um homem inabalável em todas as decisões que emanam de seu interesse. Se me houvesse julgado útil para alguma coisa, teria me levado. Se me deixa em Paris, é porque nossa separação pode beneficiar seus planos. Logo, ela é irrevogável e estou livre para sempre — acrescentou a sra. Danglars, com a mesma expressão de súplica.

Mas Debray, em vez de responder, deixou-a naquela ansiosa interrogação do olhar e do pensamento.

— E então! — ela disse finalmente. — Não me responde, cavalheiro?

— Mas eu tenho somente uma pergunta a lhe fazer: o que imagina para o futuro?

— Era o que eu ia lhe perguntar — respondeu a baronesa, com o coração disparado.

— Ah, — fez Debray —, então é um conselho que me pede?

— Sim, é um conselho que peço — confirmou a baronesa, com o coração apertado.

— Então, se é um conselho que me pede — respondeu friamente o rapaz

—, meu conselho é que faça uma viagem.

— Viajar! — exclamou a sra. Danglars.

— Exatamente. Como bem disse o sr. Danglars, a senhora é rica e totalmente livre. Pelo menos a meu ver, depois do duplo escândalo do casamento rompido da srta. Eugénie e do sumiço do sr. Danglars, uma ausência de Paris será absolutamente necessária. O importante é que todos a saibam abandonada e a julguem pobre, pois ninguém perdoa opulência e uma casa faustosa em se tratando da mulher de um falido. Para resolver o primeiro problema, bastam duas semanas em Paris repetindo a todo mundo que foi abandonada e contando para suas melhores amigas, que irão repetir a história pelos salões, como se deu esse abandono. Em seguida, a senhora sairá do palacete, lá deixará suas jóias, abandonará seu patrimônio e todos irão gabar seu desprendimento e elogiá-la. Todos então irão sabê-la abandonada e julgá-la pobre, pois apenas eu conheço sua situação financeira, colocando-me à sua disposição para prestar-lhe contas como parceiro leal.

A baronesa, pálida, aterrada, escutara esse discurso com tanto pasmo e desespero quanto Debray usara de calma e indiferença ao pronunciá-lo.

— Abandonada! — ela repetiu. — Oh, realmente abandonada... Sim, tem razão, cavalheiro, e ninguém duvidará do meu abandono.

Foram as únicas palavras que essa mulher, tão orgulhosa e tão violentamente apaixonada, conseguiu responder a Debray.

— Mas rica, riquíssima, eu diria — continuou Debray, sacando sua carteira e espalhando na mesa alguns papéis nela guardados.

A sra. Danglars esperou, ocupadíssima que se achava em amortecer as batidas do coração e segurar as lágrimas que sentia nascer na beira das pálpebras. Porém, o sentimento de dignidade acabou por prevalecer na baronesa, e, mesmo sem conseguir dominar o coração, ela conseguiu pelo menos não verter uma lágrima sequer.

— Senhora — disse Debray —, somos sócios há cerca de seis meses. A senhora forneceu um capital inicial de cem mil francos. Essa sociedade começou em abril deste ano. Em maio, ganhamos quatrocentos e cinqüenta mil francos. Em junho, o lucro elevou-se a novecentos mil. Em julho,

acrescentamos um milhão e setecentos mil francos ao capital. Lembra-se?

Com os títulos espanhóis. Em agosto, perdemos, no começo do mês, trezentos mil francos, mas no dia 15 nos recuperamos e no fim do mês ganhamos a revanche, pois nossas contas, atualizadas desde o dia da nossa associação até ontem, quando as interrompi, apresentam um ativo de dois milhões e quatrocentos mil francos, isto é, um milhão e duzentos mil francos para cada um de nós. Por outro lado — continuou Debray, consultando seu caderno com o método e a tranqüilidade de um cambista

—, totalizamos oitenta mil francos relativos aos juros compostos dessa soma que ficou em minhas mãos.

— Mas — interrompeu a baronesa —, que significam esses juros, uma vez que o senhor não investiu esse dinheiro?

— Peço desculpas, senhora — disse Debray friamente —, eu dispunha de uma procuração sua para investi-los, e dela fiz uso. Logo, são quarenta mil francos de juros relativos à sua metade, mais os cem mil francos do investimento inicial, ou seja, um milhão trezentos e quarenta mil francos.

Pois bem, senhora, tive a precaução de realizar seu dinheiro anteontem, bem recentemente como vê, algo parecia dizer-me que eu seria chamado urgentemente a prestar-lhe contas. Seu dinheiro está aqui, metade em promissórias, metade em títulos ao portador. Digo aqui, e é verdade, pois, como não julgava minha casa suficientemente segura, como não julgava os contadores suficientemente confiáveis, e como o patrimônio fala ainda mais alto que os contadores, como, enfim, a senhora não tem o direito de comprar nada e nada possuir fora da sociedade conjugal, guardei toda a soma, hoje sua única fortuna, num pequeno estojo embutido no fundo desse armário, um cofre cuja fabricação, para maior segurança, é de minha lavra. Agora, minha cara — continuou Debray, abrindo o armário primeiro e o estojo depois —, aqui estão oitocentas promissórias de mil francos cada uma, que lembram, como pode ver, um grosso álbum dentro de uma proteção de ferro; junto a ações no valor de vinte e cinco mil francos.

Quanto ao seu saldo, que perfaz algo, creio, em torno de cento e dez mil fracos, aqui está um título de crédito à vista a ser descontado no meu banqueiro, e, como meu banqueiro não é o sr. Danglars, o título será pago, pode ficar tranqüila.

A sra. Danglars pegou mecanicamente o título, as ações e o maço de promissórias.

Aquela enorme fortuna, espalhada na mesa, parecia uma ninharia.

A sra. Danglars, com os olhos secos, mas o peito estufado pelos soluços, recolheu-a, guardou o estojo metálico na bolsa, enfiou em sua carteira as ações, o título de crédito, e, de pé, pálida, muda, esperou uma palavra doce que a consolasse por ser tão rica.

Mas esperou em vão.

— Agora — disse Debray —, tem à sua disposição uma existência magnífica, algo como sessenta mil libras de renda, o que é uma enormidade para uma mulher que está impedida de ostentar grandes luxos, pelo menos durante um ano. Isso é um privilégio digno de todos os caprichos que lhe passarem pela cabeça. Sem falar que, caso julgue insuficiente a sua parte, tomando como referência o passado que lhe foge, pode abastecer-se na minha, senhora. E estou disposto a lhe oferecer, oh!, à guisa de empréstimo, naturalmente, tudo que possuo, ou seja, um milhão e sessenta mil francos.

— Obrigado, senhor — agradeceu a baronesa —, obrigado. Recebo de suas mãos, como sabe, muito mais do que precisa uma pobre mulher que não pretende, pelo menos por um longo tempo, reaparecer na sociedade.

Debray espantou-se por um instante, mas recobrou-se e fez um gesto que poderia ser traduzido pela mais polida fórmula de exprimir a seguinte idéia: “Sua alma, sua palma!”

É possível que a sra. Danglars houvesse, até este momento, alimentado alguma esperança, mas, quando viu o gesto de descaso que acabava de escapar a Debray e o olhar oblíquo de que esse gesto se acompanhava, bem como a reverência profunda e o silêncio significativo que os seguiu, ela levantou a cabeça, abriu a porta e, sem raiva, sem sobressalto, mas também sem hesitação, lançou-se pela escada, desdenhando até mesmo dirigir um último cumprimento ao homem que a deixava partir daquele jeito.

— Bah! — disse Debray quando ela se foi. — Planos, planos! Ela ficará no palacete, lerá romances e, não podendo apostar na Bolsa,

apostará no lasquenê1.

E pegou novamente seu caderno, ticando meticulosamente as somas que acabava de pagar.

— Ainda tenho um milhão e sessenta mil francos — disse ele. — Que pena que a srta. de Villefort tenha morrido! Aquela mulher me convinha sob todos os aspectos, eu bem que me casaria com ela.

E, fleugmaticamente, como era seu hábito, antes de sair ainda esperou vinte minutos depois da partida da sra. Danglars.

Durante esses vinte minutos, Debray fez contas, com o relógio de bolso ao seu lado.

Personagem diabólico que qualquer imaginação temerária teria

criado com maior ou menor felicidade se Le Sage2 não houvesse adquirido prioridade em sua obra-prima, Asmodeu, que retirava o reboco das casas para espionar seu interior, teria desfrutado de um singular espetáculo se houvesse retirado, no momento em que Debray fazia contas, o reboco do hotelzinho da rua Saint-Germain-des-Prés.

Em cima desse quarto em que Debray acabava de dividir dois milhões e meio com a sra. Danglars, havia outro quarto, também ocupado por moradores nossos conhecidos, cujo papel nos fatos narrados até aqui foi tão importante que os reencontramos com certo interesse.

Os ocupantes desse quarto eram Mercedes e Albert.

Mercedes mudara muito nos últimos dias, não porque, mesmo na época de sua grande fortuna, houvesse um dia ostentado o fausto arrogante que, visivelmente, contrasta com todas as classes e faz com que não mais reconheçamos a mulher quando ela aparece vestida com simplicidade; nem tampouco porque houvesse caído naquele estado de depressão em que somos compelidos a vestir a libré da miséria. Não, Mercedes mudara porque seu olho deixara de brilhar, porque sua boca deixara de sorrir, porque, enfim, um perpétuo embaraço detinha em seus lábios a palavra desenvolta antes lançada por um espírito sempre a postos.

Não havia sido a pobreza que fizera murchar o espírito de Mercedes, não era a falta de coragem que lhe tornava a pobreza tão opressiva.

Mercedes, expulsa do ambiente em que vivia, perdida na nova esfera que escolhera para si, como alguém saindo de um salão esplendidamente iluminado para entrar subitamente nas trevas, parecia uma rainha que troca um palácio por uma cabana e que, reduzida ao estritamente necessário, não se reconhece nem na louça de barro que é obrigada a levar para mesa, nem na enxerga que sucedeu sua cama.

Com efeito, a bela catalã, ou a nobre condessa, não tinha mais nem seu olhar altivo, nem seu sorriso sedutor, pois, detendo os olhos no que a rodeava, não via senão objetos aflitivos. Era um quarto forrado com um desses papéis acinzentados, que os proprietários avaros escolhem preferencialmente por sujarem menos; era um piso sem tapete; eram os

móveis que chamavam a atenção e obrigavam a vista a constatar a pobreza de um falso luxo, em suma, todas as coisas que dilaceravam, com seus tons gritantes, a harmonia tão necessária a olhos habituados a um ambiente elegante.

Era ali que a sra. de Morcerf morava desde que deixara sua casa. Diante daquele perpétuo silêncio, sua cabeça rodopiava como rodopia a do explorador à beira de um abismo. Percebendo que a todo momento Albert olhava para ela furtivamente, a fim de avaliar o estado de seu coração, ela se limitava a um monótono sorriso dos lábios, que, na ausência daquele fogo tão doce do sorriso dos olhos, causava o efeito de uma simples reverberação da luz, isto é, uma luminosidade sem calor.

Quanto a Albert, estava preocupado, desambientado, incomodado por um resquício de luxo que o impedia de assumir seu status atual. Queria sair sem luvas, mas achava suas mãos muito brancas; queria atravessar a cidade a pé, mas achava suas botas demasiado reluzentes.

Entretanto, essas duas criaturas tão nobres e inteligentes, indissoluvelmente unidas por um laço de amor materno e filial, tiveram êxito em se compreender sem falar e em economizar todos os preâmbulos usados entre amigos para estabelecer a verdade material de que a vida depende.

Albert finalmente conseguira dizer à sua mãe, sem fazê-la empalidecer:

— Mãe, não temos mais dinheiro.

Mercedes jamais conhecera a autêntica miséria. Freqüentemente, em sua juventude, ela mesma falara de pobreza, mas não era em absoluto a mesma coisa. Necessidade e privação são dois sinônimos em cujo intervalo abrese um mundo.

Entre os catalães, Mercedes precisara de mil coisas, mas nunca lhe faltaram outras tantas. Se as redes estivessem boas, pegavam peixe; se vendessem peixe, tinham linha para reparar as redes.

Enfim, sem amizades, tendo apenas uma paixão que não influenciava em nada nos detalhes materiais da situação, cada um pensava em si, apenas em si, em si e nada mais.

Mercedes, do pouco que tinha, fazia sua parte tão generosamente quanto possível. Agora tinha duas partes para fazer, e isso com nada.

O inverno ia chegando. Mercedes, naquele quarto espartano e já frio, não tinha fogo, ela cuja casa era aquecida por um aquecedor de mil ramificações, desde a entrada até a alcova. Não tinha uma modesta

florzinha, ela cujo apartamento era uma estufa quente povoada a peso de ouro!

Mas tinha seu filho....

A exaltação de um dever talvez exagerado mantivera-os até então nas esferas superiores.

Exaltação é quase entusiasmo, e o entusiasmo deixa as pessoas insensíveis às coisas da terra.

Mas o entusiasmo acalmara-se e, pouco a pouco, fora preciso descer novamente do país dos sonhos para o mundo das realidades.

Era preciso falar do real, depois de haverem esgotado todo o ideal.

— Minha mãe — dizia Albert, no exato momento em que a sra.

Danglars descia a escada —, vamos contar toda a nossa riqueza, por favor.

Preciso de um total para pôr meus planos em ação.

— Total: nada — disse Mercedes, sorrindo com melancolia.

— De forma alguma, mamãe, total: três mil francos, para começar e, com esses três mil francos, pretendo nos proporcionar uma vida adorável.

— Filho! — suspirou Mercedes.

— Oh, querida mãe — disse o rapaz —, gastei muito o dinheiro da senhora para saber o quanto ele vale. É uma enormidade, veja bem, três mil francos, e construí sobre essa soma um futuro milagroso de eterna segurança.

— Está falando isso, querido — continuou a pobre mãe —, mas, pense bem, vamos aceitar esses três mil francos? — disse Mercedes, ruborizando.

— Mas é o que está combinado, me parece — disse Albert, num tom firme. — Vamos aceitá-los na medida mesma em que não os temos, pois estão, como sabe, enterrados no jardim daquele prediozinho da rua das Allées de Meilhan, em Marselha... Com duzentos francos, nós dois iremos a Marselha.

— Com duzentos francos! — disse Mercedes. — Está pensando com clareza, Albert?

— Oh, sobre isso me informei nas diligências e nos barcos a vapor, e já fiz as contas. A senhora reserva sua passagem para Châlons, no cupê. Está vendo, mamãe, que a trato como uma rainha, trinta e cinco francos.

Albert pegou uma pena e escreveu:

Cupê _____ 35 fr

De Châlons a Lyon, a senhora vai de barco a vapor _____ 6 fr

De Lyon a Avignon, também de barco a vapor _____ 16 fr De Avignon a Marselha _____ 7 fr

Despesas de viagem _____ 50 fr

Total _____ 114 fr

— Vamos colocar cento e vinte — acrescentou Albert sorrindo. — Vê como sou generoso, mamãe?

— Mas, e você, coitado?

— Eu! Não viu que estou reservando oitenta francos para mim? Um rapaz, mamãe, não precisa de todo esse conforto. Aliás, sei o que significa viajar.

— Com sua carruagem e seu criado.

— De qualquer maneira, mãe.

— Então está bem! — disse Mercedes. — Mas, e esses duzentos francos?

— Esses duzentos francos, aqui estão eles, e mais duzentos. Pegue, vendi meu relógio por cem francos e os berloques, por trezentos. Que beleza! Berloques valendo três vezes o relógio... Sempre essa maldita mania pelo supérfluo. Portanto, estamos ricos, uma vez que, em vez dos cento e catorze francos necessários para sua viagem, a senhora agora tem duzentos e cinqüenta.

— Mas não temos que pagar alguma coisa aqui neste hotel?

— Trinta francos, mas vou pagá-los dos meus cento e cinqüenta francos.

Ou seja, tudo em ordem. Considerando que, a rigor, só preciso de oitenta francos para minha viagem, estou nadando no luxo. Mas isso não é tudo.

Que acha disso, mãe?

E Albert tirou de uma caderneta com fecho de ouro — resto de seus antigos caprichos ou talvez, quem sabe, uma recordação carinhosa de alguma daquelas mulheres misteriosas e incógnitas que iam visitá-lo —

uma cédula de mil francos.

— O que significa isso? — perguntou Mercedes.

— Mil francos, mãe. Oh, é totalmente honesto!

— Mas de onde vêm esses mil francos?

— Ouça, mãe, e não se emocione muito.

E Albert, levantando-se, foi beijar a mãe nas duas faces, depois deteve-se para fitá-la.

— Não faz idéia, minha mãe, como acho a senhora bonita! — disse o rapaz, com um profundo sentimento de amor filial. — Na verdade, a senhora é ao mesmo tempo a mais bela e a mais nobre de todas as mulheres que conheci!

— Filho querido — disse Mercedes, tentando em vão conter uma lágrima que apontava no canto de sua pálpebra.

— Na verdade, faltava-lhe apenas a infelicidade para transformar o meu amor em adoração.

— Não sou infeliz, pois tenho meu filho — disse Mercedes. — Não serei infeliz enquanto o tiver.

— Ah, justamente — disse Albert —, mas é neste ponto que começam as provações, mamãe. Sabe o que está combinado?

— Então temos alguma combinação? — perguntou Mercedes.

— Sim, está combinado que a senhora ficará em Marselha e que eu partirei para a África, onde, no lugar do nome que abandonei, elevarei o nome que assumi.

Mercedes suspirou.

— Pois bem, minha mãe, ontem alistei-me nos spahis — acrescentou o rapaz, baixando os olhos com certa vergonha, pois ele mesmo não sabia o quanto esse baixar de olhos era sublime. — Ou melhor, julguei que o meu corpo pertencia-me de fato e que

podia vendê-lo. Desde ontem estou substituindo alguém3. Eu me vendi, como se diz, e — acrescentou, tentando sorrir — mais caro do que julgava valer, isto é, por dois mil francos.

— Então esses mil francos...? — disse Mercedes, estremecendo.

— É metade da soma, mamãe; a outra virá daqui a um ano.

Mercedes ergueu os olhos aos céus com uma expressão que nada poderia reproduzir, e as duas lágrimas represadas no canto de sua pálpebra, transbordando a emoção interior, escorreram silenciosamente ao longo de suas faces.

— O preço do seu sangue! — murmurou ela.

— Sim, se eu for morto — disse Morcerf, rindo —, mas, lhe asseguro, mãe, que, ao contrário, tenho a intenção de defender cruelmente a minha pele. Nunca senti tanta vontade de viver quanto agora.

— Meu Deus, meu Deus! — fez Mercedes.

— Aliás, por que insiste em querer me matar, mamãe?! Por acaso

Lamoricière, esse outro Ney4 do Midi, foi morto? Por acaso

Changarnier5

foi morto? Por acaso Bedeau6 recebeu algum ferimento? Por acaso, Morrel, que conhecemos, foi morto? Pense na sua alegria, mamãe, quando

me vir voltar com meu uniforme de gala! Declaro que, nesse aspecto, pretendo ser soberbo, e escolhi esse regimento por vaidade.

Mercedes suspirou, embora tentasse sorrir. Aquela santa mãe hesitava em deixar para o filho todo o peso do sacrifício.

— Isso quer dizer, minha mãe — continuou Albert —, que já são mais de quatro mil francos garantidos para a senhora. Quatro mil francos darão para a senhora viver pelo menos dois anos!

— Supõe que sim? — perguntou Mercedes.

Essas palavras escaparam da condessa, bem como uma dor tão verdadeira que seu verdadeiro sentido não escapou a Albert. Este sentiu um aperto no coração e, pegando carinhosamente a mão de Mercedes, disse:

— Sim, viverá! — enfatizou ele.

— Viverei! — exclamou Mercedes. — Mas você não partirá, não é, meu filho?

— Partirei, minha mãe — disse Albert, com uma voz firme e calma. —

A senhora me ama o suficiente para não permitir que eu fique ocioso e inútil ao seu lado. Aliás, já assinei.

— Você agirá segundo sua vontade, meu filho, eu agirei segundo a de Deus.

— De maneira alguma segundo a minha vontade, mamãe, mas segundo a razão, a necessidade. Somos duas criaturas desesperadas, não é mesmo?

O que é a vida para a senhora hoje? Nada. O que é a vida para mim? Oh, muito pouca coisa sem a senhora, mãe, acredite, pois, sem a senhora, essa vida, juro, teria terminado no dia em que suspeitei do meu pai e reneguei seu nome! Enfim, viverei, se me prometer que irá manter a esperança. Se me delegar a tarefa da sua felicidade futura, duplicará minhas forças.

Agora, irei procurar o governador7 da Argélia, é um coração leal e, o mais importante, essencialmente soldado. Conto-lhe a minha lúgubre história, peço-lhe para voltar de quando em quando os olhos para a minha conduta e, caso ele acredite em mim, caso olhe para mim, antes de seis meses serei ou oficial ou defunto. Se for oficial, seu futuro estará assegurado, mamãe, pois terei dinheiro para a senhora e para mim e, além disso, um novo nome de que ambos teremos orgulho, uma vez que será seu verdadeiro nome. Se eu morrer... muito bem! Então, querida mãe, a senhora poderá morrer se assim o desejar, e nossos infortúnios irão consumir-se por seu próprio excesso.

— Está bem — respondeu Mercedes, com seu olhar nobre e eloqüente

—, tem razão, meu filho. Mostremos, a determinadas pessoas que nos observam e esperam nossos atos para nos julgar, que pelo menos somos dignos de ser lastimados.

— Mas nada de idéias fúnebres, mamãe! — exclamou o rapaz. — Juro que somos, ou pelo menos podemos ser, felizes. A senhora é ao mesmo tempo uma mulher inteligente e capaz de resignação. Quanto a mim, adquiri gostos mais simples e controlei minhas paixões, espero. Uma vez na tropa, ficarei rico, uma vez na casa do sr. Dantès, a senhora irá serenar.

Vamos tentar! Por favor, mamãe, vamos tentar!

— Sim, vamos tentar, meu filho, pois você precisa viver, precisa ser feliz — respondeu Mercedes.

— Então, minha mãe, nossa partilha está feita — acrescentou o rapaz, fingindo grande desembaraço. — Podemos partir hoje mesmo. Vamos, como eu disse, já reservei sua passagem.

— Mas, e a sua, meu filho?

— Quanto a mim, devo permanecer ainda uns dois ou três dias, mãe. É

um começo de separação, e precisamos nos acostumar. Preciso de algumas recomendações, algumas informações sobre a África. Encontro com a senhora em Marselha.

— Pois bem, que seja! Partamos — disse Mercedes, envolvendo-se no único xale que trouxera e que por acaso consistia num cashmere preto caríssimo —, partamos!

Albert recolheu às pressas os seus papéis, tocou a sineta para pagar os trinta francos que devia ao dono do hotel e, oferecendo o braço à mãe, desceu a escada.

Alguém descia na frente deles. Esse alguém, ouvindo o frufru de um vestido de seda no corrimão, voltou-se.

— Debray! — murmurou Albert.

— Você, Morcerf! — respondeu o secretário do ministro, detendo-se no degrau em que se achava.

Em Debray, a curiosidade prevaleceu sobre o desejo de se manter incógnito; aliás, fora reconhecido.

De fato, causava espécie encontrar naquele hotel obscuro o rapaz cuja desventura recentemente causara tanto impacto em Paris.

— Morcerf! — repetiu Debray.

 

Depois, percebendo na penumbra o aspecto ainda jovem e o véu preto da sra. de Morcerf:

— Oh, perdão — acrescentou com um sorriso —, até mais ver, Albert.

Albert compreendeu o pensamento de Debray.

— Mãe, este é o sr. Debray, um ex-amigo meu.

— Mãe — disse ele, voltando-se para Mercedes —, este é o sr. Debray, secretário do ministro do Interior, um ex-amigo meu.

— Como ex-? — balbuciou Debray. — Que quer dizer com isso?

— Digo isso, sr. Debray — explicou Albert —, porque hoje não tenho mais amigos e não os devo mais ter. Agradeço-lhe muito a gentileza de me haver cumprimentado, cavalheiro.

Debray subiu dois degraus e foi dar um enérgico aperto de mão no seu interlocutor.

— Acredite, meu caro Albert — disse ele com a emoção de que era capaz —, que me solidarizo imensamente com o seu sofrimento e coloco-

me à sua disposição para qualquer coisa.

— Obrigado, cavalheiro — disse Albert sorrindo —, mas em meio a essa desgraça continuamos suficientemente ricos para não precisar recorrer a ninguém. Deixamos Paris e, paga nossa viagem, ainda ficaremos com cinco mil francos.

Debray, que tinha um milhão na carteira, ruborizou e, por menos poético que fosse, esse espírito exato não pôde deixar de refletir que não havia muito tempo o prédio onde estavam abrigava duas mulheres, das quais uma, justamente desonrada, saía pobre, com cento e cinqüenta mil francos na bainha do casaco, e a outra, injustamente condenada mas sublime em seu infortúnio, via-se rica de alguns tostões.

Esse paralelo desmontou suas polidas articulações, a filosofia do exemplo esmagou-o. Ele balbuciou algumas palavras genéricas de civilidade e desceu rapidamente.

Naquele dia, os funcionários do Ministério, a ele subordinados, foram obrigados a aturar o seu mau humor.

À noite, porém, tornou-se proprietário de uma belíssima mansão, de frente para o bulevar La Madeleine, e viu-se beneficiário de cinqüenta mil libras de renda.

No dia seguinte, no instante em que Debray assinava a escritura, isto é, às cinco horas da tarde, a sra. de Morcerf, após ter beijado carinhosamente o seu filho e por ele ser carinhosamente beijada, embarcava no cupê da diligência, que se fechou atrás dela.

Um homem estava escondido no entreposto da transportadora

Laffitte8,

atrás de uma daquelas janelas em arco entre o rés-do-chão e o primeiro andar, que ficam em cima dos escritórios. Este homem viu Mercedes embarcar, viu a diligência partir, viu Albert afastando-se.

Passou então a mão na cabeça cheia de dúvidas, e exclamou:

— Oh, meu Deus! Como vou fazer para devolver a esses dois inocentes a felicidade que lhes roubei? Conto com a Sua ajuda.

1 Lasquenê: jogo de cartas.

2 Le Sage: ver Parte III, cap.14, nota 107.

3 “estou substituindo alguém”: ver Parte I, cap.6, nota 14.

4 “Lamoricière, esse outro Ney”: Christophe-Léon-Louis Juchault de Lamoricière (1806- 65) general francês que serviu nas campanhas da Argélia a partir de 1830 e dez anos depois foi

promovido a marechal-de-campo; Ney Michel (1769-1815) um dos mais famosos marechais-de-campo de Napoleão, extremamente popular junto às tropas, condenado à morte por Luís XVIII durante a Segunda Restauração.