O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 102 de 119

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O Conde de Monte Cristo

3. A aparição

— Preso! — exclamou Villefort. — Foi preso em Compiègne: terminou.

A sra. Danglars levantou-se, fria e pálida.

— Adeus, senhor — ela disse.

— Adeus, senhora — respondeu o procurador do rei, quase alegre, acompanhando-a até aporta.

Em seguida, voltando a seu gabinete:

— Vamos — disse ele, batendo na carta com o dorso da mão direita.

— Eu tinha uma fraude, três furtos e três incêndios, só me faltava um assassinato, agora não falta mais nada. A sessão será uma beleza.

1 “bípedes desplumados”: ver Parte III, cap.15, nota 123.

3. A aparição

Como dissera o procurador do rei à sra. Danglars, Valentine ainda não se restabelecera.

Alquebrada pelo cansaço, continuava efetivamente de cama, e foi em seu quarto, e pela boca da sra. de Villefort, que ela soube dos acontecimentos que acabamos de narrar, isto é, da fuga de Eugénie e da prisão de Andrea Cavalcanti, ou melhor, Benedetto, bem como da acusação de assassinato de que este era objeto.

Mas Valentine estava tão fraca que esse relato talvez não lhe houvesse causado todo o efeito que teria produzido sobre ela em seu estado de saúde normal.

Na verdade, eram tão-somente algumas idéias vagas, algumas formas difusas, além do mais misturadas a idéias estranhas e fantasmas fugazes que nasciam em seu cérebro enfermo, ou que passavam diante de seus olhos, e logo tudo se apagou, permitindo que as sensações pessoais imperassem novamente.

Durante o dia, Valentine agarrava-se à realidade por intermédio de Noirtier, que era transportado até o quarto da neta e ali ficava, acariciando-a com seu olhar paternal. Mais tarde, quando retornava do Palácio de Justiça, era Villefort por sua vez quem passava uma ou duas horas dividindo-se entre seu pai e sua filha.

Às seis horas, Villefort retirava-se para o seu gabinete. Às oito, chegava o sr. d’Avrigny, trazendo pessoalmente a poção noturna preparada para a moça. Em seguida levavam Noirtier.

Uma enfermeira escolhida pelo médico substituía todo mundo e só se retirava quando, por volta das dez ou onze horas, Valentine já dormia.

Ao descer, essa enfermeira devolvia as chaves do quarto ao próprio sr.

de Villefort, de maneira que não se podia mais chegar perto da doente a não ser passando pelos aposentos da sra. de Villefort e pelo quarto do pequeno Édouard.

Todas as manhãs, Morrel visitava Noirtier para saber notícias de Valentine, mas o jovem, coisa extraordinária, parecia cada dia menos preocupado.

Primeiro, Valentine, embora às voltas com uma violenta exaltação nervosa, melhorava dia após dia. Depois, Monte Cristo não lhe havia dito,

quando ele acorrera desvairado à sua casa, que, se em duas horas não morresse, Valentine estaria salva?

Ora, Valentine estava viva, e quatro dias se haviam passado.

A mencionada exaltação nervosa perseguia Valentine até em seu sono, ou melhor, no torpor que sucedia a sua jornada. Nessas horas, no silêncio da noite e da semipenumbra proporcionada pela mecha sobre a lareira e queimando em sua redoma de alabastro, ela assistia ao desfile das sombras que vêm povoar o quarto dos enfermos e dão calafrio com suas asas oscilantes.

A moça julgava então ver ora sua madrasta ameaçando-a, ora Morrel estendendo-lhe os braços, ora criaturas praticamente alheias à sua vida cotidiana, como o conde de Monte Cristo. Tudo, até os móveis, nesses momentos de delírio, parecia-lhe movediço, enevoado, e isso durava até as duas ou três da manhã, quando um sono de chumbo vinha raptar a moça e conduzi-la até o dia.

A noite seguinte àquela manhã em que Valentine soubera da fuga de Eugénie e da prisão de Benedetto, quando, após se misturarem por um instante às sensações de sua própria existência, esses acontecimentos começaram a sair pouco a pouco de seu pensamento, após a debandada sucessiva de Villefort, d’Avrigny e Noirtier, enquanto soavam as onze horas em Saint-Philippe du Roule, e a acompanhante, tendo colocado ao alcance da mão da doente a beberagem preparada pelo médico e fechado a porta do seu quarto, escutava trêmula, na copa, para onde se retirara, os comentários dos criados, e mobiliava sua memória com as lúgubres histórias que, há três meses, entretinham as noites das antecâmaras do procurador do rei, uma cena inesperada aconteceu naquele quarto inexpugnável.

Já havia cerca de dez minutos que a enfermeira se retirara.

Valentine, às voltas, já por uma hora, com a febre que a visitava todas as noites, deixava sua cabeça, rebelde à sua vontade, prosseguir o trabalho ativo, monótono e implacável do cérebro que se desgasta ao repetir incessantemente os mesmos pensamentos ou engendrar as mesmas imagens.

A mecha da lamparina irradiava milhares de centelhas, todas carregadas de significações estranhas, quando de repente, ao seu bruxuleio, Valentine julgou ver sua estante de livros, numa reentrância da parede situada ao

lado da lareira, abrir-se lentamente sem que os trilhos nos quais parecia correr produzissem o menor barulho.

Em qualquer outra circunstância, Valentine teria puxado o cordão de seda da campainha e pedido socorro. Contudo, nada mais a impressionava no estado em que se encontrava. Tinha consciência de que todas as visões à sua volta eram filhas de seu delírio, convicção advinda de que, pela manhã, não restava nenhum vestígio de todos aqueles fantasmas noturnos, que desapareciam com o dia.

Atrás da porta surgiu uma silhueta humana.

Em virtude da febre, Valentine estava por demais familiarizada com esse tipo de aparição para se assustar. Apenas arregalou os olhos, esperando reconhecer Morrel.

A silhueta continuou a avançar na direção da sua cama, depois parou e pareceu escutar com uma atenção profunda.

Nesse momento, um lampejo da lamparina brincou no rosto do visitante noturno.

— Não é ele! — ela murmurou.

E esperou, convencida de que sonhava, de que o tal homem, como acontece nos sonhos, desapareceria ou se transformaria em algum outro personagem.

Ainda assim, apalpou seu pulso e, sentindo-o latejar violentamente, lembrou que o melhor meio de fazer desaparecer aquelas visões inoportunas era beber. O frescor da bebida, fabricada por sinal especificamente para acalmar as agitações de que Valentine se queixara ao médico, promovia, fazendo a febre baixar, uma renovação das sensações do cérebro. Depois que bebia, por um instante, ela sofria menos.

Sendo assim, Valentine estendeu a mão para pegar seu copo, que repousava num descanso de cristal. Mas, quando esticou seu braço trêmulo para fora da cama, a aparição deu, mais vigorosamente que nunca, dois novos passos em direção à cama, chegando tão perto dela que a jovem pôde ouvir sua respiração e julgou sentir a pressão de sua mão.

Dessa vez a ilusão, ou melhor, a realidade ultrapassava tudo que Valentine experimentara até o momento. Ela teve então a sensação de estar desperta e bem viva. Constatou que gozava de toda a sua razão, e tremeu.

A pressão que Valentine sentira tivera como objetivo deter-lhe o braço.

Valentine recolheu-o lentamente para si.

Então aquele rosto, de cujo olhar era impossível escapar e que, aliás, parecia antes protetor que ameaçador, aproximou-se da lamparina e examinou a beberagem, como se desejasse julgar sua transparência e pureza.

Mas esse primeiro teste não foi suficiente.

Esse homem, ou melhor, esse fantasma, pois caminhava tão sorrateiramente que o tapete abafava o barulho de seus passos, extraiu do copo uma colher da beberagem e ingeriu-a. Valentine observava o que acontecia diante de seus olhos com uma profunda sensação de estupor.

Ela tinha a forte impressão de que tudo aquilo estava prestes a desaparecer e dar lugar a outro quadro, mas o homem, em vez de evaporar como uma sombra, aproximou-se dela e, estendendo o copo, com uma voz transtornada, disse:

— Agora beba! Valentine estremeceu.

Era a primeira vez que uma de suas visões dirigia-se a ela com aquele timbre tão vivo.

Abriu a boca para gritar.

O homem pôs um dedo sobre seus lábios.

— Sr. conde de Monte Cristo! — ela murmurou.

Pelo pavor que se desenhava nos olhos da moça, pelo tremor de suas mãos, pelo gesto rápido que esboçou para se enrolar nos lençóis, era possível assistir ao derradeiro embate entre a dúvida e a convicção.

Todavia, a presença de Monte Cristo em sua casa a uma hora daquelas, sua entrada misteriosa, fantástica, inexplicável, através de uma parede, pareciam impossibilidades para a abalada razão de Valentine.

— Não grite, não se assuste — disse o conde —, não tenha, no fundo de seu coração, sequer o fulgor de uma dúvida ou a sombra de uma preocupação. O homem que vê à sua frente, pois desta vez a srta. Valentine goza da razão, isto não é uma ilusão, é o pai mais carinhoso e o amigo mais respeitoso que a senhorita pode sonhar.

Valentine não encontrou nada para responder. Sentia um medo tão grande da voz que revelava a presença real de quem lhe falava, que temia associá-la à sua, mas seu olhar assustado queria dizer: “Se suas intenções são puras, por que está aqui?”

Com sua fantástica sagacidade, o conde compreendeu tudo que se passava no coração da moça.

— Escute — disse ele —, ou antes, olhe para mim. Veja meus olhos avermelhados e meu rosto mais pálido que o habitual. Há quatro noites não prego o olho; há quatro noites velo pela senhorita, protejo-a, preservo-a para o nosso amigo Maximilien.

Um jato de sangue alegre invadiu rapidamente as faces da doente, pois o nome que o conde acabava de pronunciar eliminava o resíduo de desconfiança que este lhe inspirara.

— Maximilien...! — repetiu Valentine, tanto esse nome lhe era doce de pronunciar. — Maximilien! Ele então contou tudo para o senhor?

— Tudo. Ele me disse que a sua vida era a dele, e prometi-lhe que a senhorita viveria.

— Prometeu-lhe que eu viveria?

— Sim.

— Com efeito, o senhor acaba de falar de vigilância e proteção. Então é médico?

— Sim, e o melhor que o céu pode enviar-lhe neste momento, acredite em mim.

— Disse que velou por mim? — perguntou Valentine, preocupada. —

Onde, isso? Não percebi nada.

O conde apontou a mão na direção da estante.

— Eu estava escondido atrás dessa porta — disse ele —, essa porta dá na casa vizinha, por mim alugada.

Valentine, com um movimento de recatado orgulho, desviou os olhos e, com um terror soberano, disse:

— Senhor, o que fez é de uma demência sem igual, e essa proteção que me concedeu parece mais um insulto.

— Valentine — disse ele —, durante essa longa vigília, vi somente o seguinte: as pessoas que vinham ao seu quarto, a comida que preparavam para a senhorita, as bebidas que lhe serviram. Então, quando essas bebidas pareciam-me perigosas, eu entrava como acabo de entrar, esvaziava seu copo e substituía o veneno por uma infusão benigna, a qual, em vez da morte que lhe haviam preparado, fazia circular a vida em suas veias.

— O veneno! A morte! — exclamou Valentine, julgando-se novamente sob a influência de alguma alucinação febril. — O que está dizendo, cavalheiro?

— Schhh! — fez Monte Cristo, levando de novo o dedo aos lábios dela.

— Sim, minha filha, eu disse o veneno; sim, eu disse a morte, e repito, a morte, mas antes beba isto. — O conde tirou do bolso um vidrinho contendo uma bebida vermelha da qual despejou algumas gotas no copo.

— E, quando tiver bebido, não tome mais nada à noite.

Valentine estendeu a mão, porém, mal tocara no copo, retirou-a, aterrada. Monte Cristo pegou o copo, bebeu metade e o apresentou a Valentine, que engoliu sorrindo o resto da bebida que ele continha.

— Oh, sim — disse ela —, reconheço o gosto das minhas beberagens noturnas, dessa água que restituía um pouco de frescor ao meu peito, um pouco de calma ao meu cérebro. Obrigada, cavalheiro, obrigada.

— Eis como sobreviveu quatro noites, Valentine — disse o conde. —

Mas e eu, como vivia? Oh, as horas cruéis que me fez passar! Oh, as terríveis torturas que me fez sofrer, quando eu via despejarem em seu copo o veneno mortal, temendo que a senhorita o bebesse antes que eu tivesse tempo de atirá-lo na lareira!

— Se está dizendo — respondeu Valentine no auge do terror — que sofreu mil torturas ao ver alguém despejar veneno no meu copo, então deve ter visto a pessoa que o despejava?

— Sim.

Valentine levantou-se um pouquinho e, protegendo seu colo, mais pálido que a neve, com a cambraia bordada, ainda úmida do suor frio do delírio e à qual começava a se misturar o suor ainda mais gelado do terror, repetiu a pergunta:

— Viu quem era?

 

— Schhh! Sim, minha filha, eu disse o veneno; sim, eu disse a morte.

— Sim — disse o conde uma segunda vez.

— O que diz é horrível, cavalheiro, deseja que eu acredite em alguma coisa infernal? O quê! Na casa do meu pai! O quê! No meu quarto! O quê!

Continuam a me assassinar no meu leito de sofrimento? Oh! Retire-se, cavalheiro, está tentando minha consciência, blasfemando contra a bondade divina, isso é impossível, inconcebível.

— E a senhorita seria a primeira que essa mão golpeia, Valentine? Não viu caírem à sua volta o sr. de Saint-Méran, a sra. de Saint-Méran, Barrois? Não teria visto cair o sr. Noirtier, se o tratamento que ele segue há um ano não o houvesse protegido e atuado contra o veneno pelo hábito do veneno?

— Oh, meu Deus — exclamou Valentine —, será por isso que, de um mês para cá, o vovô exige que eu divida com ele todas as suas infusões?

— Infusões — exclamou Monte Cristo — que têm um gosto amargo como o de uma casca de laranja quase seca!?

— Sim, meu Deus, sim!

— Ora, isso explica tudo — disse Monte Cristo. — Ele também sabe que estão envenenando por aqui, e talvez quem seja o envenenador.

“Ele propiciou defesas à senhorita, sua neta bem-amada, contra a substância mortal, e a substância mortal perdeu força com esse esboço de rotina! Eis como a senhorita ainda vive, o que eu não conseguia entender, depois de ter sido envenenada nos últimos quatro dias com um veneno que em geral não perdoa.”

— Mas então quem é o assassino, o homicida?

— Devolvo-lhe a pergunta: nunca viu alguém entrando à noite no seu quarto?

— E como! Julguei muitas vezes ver passar algo como sombras, essas sombras aproximaram-se, afastaram-se, desapareceram. Mas eu achava que eram visões da minha febre. Agora mesmo, quando o senhor entrou, pois bem, achei que estava delirando, ou sonhando.

— Então não sabe quem é a pessoa que atenta contra sua vida?

— Não — respondeu Valentine —, por que alguém desejaria a minha morte?

— Então irá saber — disse Monte Cristo, aguçando os ouvidos.

— Como assim? — perguntou Valentine, olhando com terror à sua volta.

— Afinal, esta noite a senhorita não tem mais febre nem delírio, afinal, esta noite a senhorita está bem desperta, afinal, eis que chega a meia-noite, a hora dos assassinos.

— Meu Deus, meu Deus! — disse Valentine, enxugando com a mão o suor que brotava de sua testa.

Com efeito, a meia-noite soava lenta e tristemente, e cada golpe do martelo de bronze parecia golpear o coração da jovem.

— Valentine — continuou o conde —, peça socorro a todas as suas forças, comprima seu coração dentro do peito, prenda sua voz na garganta, finja dormir, e verá, você verá!

Valentine agarrou a mão do conde.

— Acho que ouvi um barulho — disse ela —, vá!

— Adeus, ou melhor, até já — respondeu o conde.

Em seguida, com um sorriso tão triste e paternal que fez o coração da moça rejubilar-se de gratidão, dirigiu-se na ponta dos pés para a porta da estante.