O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 74 de 119

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O Conde de Monte Cristo

15. A sra. de Saint-Méran

— Oh, seu amigo, senhora, não tenho essa pretensão — disse o conde

—, mas, em todo caso, sou seu mui respeitoso criado.

A condessa partiu com um inexprimível aperto no coração; antes que tivesse dado dez passos, o conde viu-a levar o lenço aos olhos.

— O senhor e minha mãe tiveram alguma diferença? — perguntou Albert, perplexo.

— Ao contrário — respondeu o conde —, uma vez que ela acaba de me dizer diante do senhor que somos amigos.

E olharam para o salão que Valentine e o sr. e sra. de Villefort acabavam de deixar.

Não precisamos dizer que Morrel foi atrás deles.

15. A sra. de Saint-Méran

Uma cena lúgubre acabava efetivamente de se desenrolar na casa do sr.

de Villefort. Após a saída das duas damas para o baile, ao qual todos os esforços da sra. de Villefort não foram capazes de convencer o marido a acompanhá-la, o procurador do rei fechara-se em seu gabinete, como de hábito, com uma pilha de documentos que teria intimidado qualquer um, mas que, no cotidiano de sua vida, mal eram suficientes para satisfazer seu voraz apetite de trabalhador.

Mas, dessa vez, os documentos não passavam de mera desculpa.

Villefort não estava se recolhendo para trabalhar, mas para refletir; e, depois de fechar a porta e ordenar que só o importunassem se algo importante acontecesse, sentou-se em sua poltrona e voltou a passar novamente na memória tudo que, de sete ou oito dias para cá, fazia transbordar a taça de suas tristes aflições e amargas recordações.

Portanto, em vez de atacar as pastas amontoadas à sua frente, ele abriu uma gaveta da escrivaninha, manipulou um segredo e retirou o maço de suas anotações pessoais, manuscritos preciosos, entre os quais classificara e etiquetara, com números que só ele conhecia, os nomes de todos aqueles que, em sua carreira política, em seus negócios financeiros, em suas perseguições nos tribunais ou em seus amores misteriosos, haviam se tornado seus inimigos.

O número deles era bem grande, agora que ele começara a vacilar.

Entretanto, todos aqueles nomes, por mais poderosos e formidáveis que fossem, haviam-no feito sorrir muitas vezes, como sorri o viajante que, do ponto culminante da montanha, contempla a seus pés os picos escarpados, as trilhas impraticáveis e as arestas dos precipícios os quais, para vencer, levou tanto tempo e galgou tão penosamente.

Depois de repassar todos aqueles nomes na memória, de os haver relido, estudado e comentado em suas listas, balançou a cabeça.

— Não — murmurou —, nenhum desses inimigos teria esperado paciente e laboriosamente este dia para vir me esmagar agora com

o meu segredo. Às vezes, como diz Hamlet1, o barulho das coisas mais profundamente sepultadas sai da terra e, como o fogo do fósforo, corre loucamente pelo ar; mas são chamas que iluminam apenas por um momento para depois se extinguirem. A história deve ter sido contada pelo

corso a algum padre, que a deve ter passado adiante por sua vez. O sr. de Monte Cristo, uma vez informado, para esclarecer...

“— Mas para que esclarecer — prosseguiu Villefort após um instante de reflexão. — Que interesse tem o sr. de Monte Cristo, o sr. Zaccone, filho de um armador de Malta, explorador de uma mina de prata na Tessália, pela primeira vez na França, em esclarecer um fato sombrio, nebuloso e inútil como este? Em meio às informações incoerentes que me foram dadas pelo abade Busoni e por lorde Wilmore, pelo amigo e pelo inimigo, apenas uma coisa ressaiu clara, precisa, patente aos meus olhos: é que em nenhuma época, em nenhum momento, em nenhuma circunstância, houve o menor contato entre nós dois.”

Mas Villefort dizia-se essas palavras sem acreditar nelas de fato. O mais terrível para ele ainda não era a revelação, pois podia negar ou mesmo responder; preocupava-se pouco com aquele Mene Tequel

Peres2, que aparecia de repente em letras de sangue na parede; o que o preocupava era conhecer o corpo a quem pertencia a mão que as traçara.

Quando finalmente parecia estar conseguindo se acalmar e, em vez daquele futuro político que entrevira algumas vezes em seus sonhos de ambição, ia se contentando, por medo de despertar esse inimigo adormecido havia tanto tempo, com um futuro restrito às alegrias do lar, um barulho de coche reverberou no pátio. Então ele ouviu na escada os passos de uma pessoa idosa, depois soluços e exclamações de tristeza, como os criados fazem quando querem se mostrar tocados pela dor de seus patrões.

Correu para destravar o ferrolho de seu gabinete. Dali a pouco, sem ser anunciada, uma velha senhora entrou, de xale nos braços e chapéu nas mãos. Seus cabelos embranquecidos revelavam uma testa macilenta como marfim amarelo, e seus olhos, em cujos cantos a idade escavara rugas profundas, quase desapareciam sob o rosto inchado pelo pranto.

— Ah, que desgraça! Eu também vou morrer!

Oh, sim, com certeza, morrerei!

— Oh, senhor! — exclamou. — Ah, que desgraça! Eu também vou morrer! Oh, sim, com certeza, morrerei!

Desabando numa poltrona mais próxima da porta, ela explodiu em soluços.

Os criados, de pé na soleira da porta e não ousando avançar, observavam o velho criado de Noirtier, que, tendo escutado aquele barulho do quarto do patrão, também acorrera e se mantinha atrás dos outros. Villefort levantou-se e precipitou-se para sua sogra, pois era ela mesma.

— Oh, meu Deus, senhora — perguntou —, o que aconteceu? O que a transtorna dessa maneira? E o sr. de Saint-Méran não está consigo?

— O sr. de Saint-Méran está morto — disse a velha marquesa, sem preâmbulo, sem expressão e com uma espécie de estupor.

Villefort recuou um passo e bateu as mãos uma na outra.

— Morto...! — balbuciou. — Morto assim... de repente?

— Há uma semana — continuou a sra. de Saint-Méran —, embarcamos no coche após o jantar. O sr. de Saint-Méran estava doente havia alguns dias: entretanto, a idéia de rever nossa querida Valentine deu-lhe coragem e, apesar das dores, quis partir, quando, a trinta quilômetros de Marselha, viu-se presa, após ter ingerido suas pastilhas habituais, de um sono tão profundo que não me parecia natural. Mesmo assim, hesitei em acordá-lo, ainda que seu rosto me parecesse avermelhado e as veias de suas têmporas pulsassem com mais violência que de costume. Porém, como anoitecera e eu não enxergava mais nada, deixei-o dormir. Dali a pouco ele soltou um grito cavo e dilacerante, como o de um homem que sofre no sono, e jogou a cabeça para trás num movimento brusco. Chamei o criado, mandei o postilhão parar, chamei o sr. de Saint-Méran, fiz-lhe respirar meu frasco de sais; tudo se acabara, ele estava morto, e foi ao lado de seu cadáver que cheguei a Aix.

Villefort permanecia estupefato e boquiaberto.

— E a senhora chamou um médico, decerto?

— Na mesma hora; mas, como eu lhe disse, era tarde demais.

— Sem dúvida, mas pelo menos ele podia identificar a doença da qual o infeliz marquês morrera.

— Meu Deus! Sim, senhor, ele me disse: parece que foi uma apoplexia fulminante.

— E o que fez a senhora?

— O sr. de Saint-Méran sempre disse que, se morresse longe de Paris, desejava que seu corpo fosse trasladado para o túmulo da família. Mandei colocá-lo num caixão de chumbo e o precedo em alguns dias.

— Oh, meu Deus, pobre mãe — exclamou Villefort —, ter de tomar essas providências depois de tamanho golpe, e na sua idade!

— Deus me deu forças até o fim; a propósito, esse querido marquês decerto teria feito por mim o que fiz por ele. A bem da verdade, depois que o deixei para trás, sinto-me como uma louca. Já não consigo chorar; segundo dizem, na minha idade não temos mais lágrimas, mesmo assim acho que enquanto sofrêssemos deveríamos poder chorar. Onde está Valentine, senhor? Foi por ela que viemos, quero ver Valentine.

Villefort achou de péssimo tom dizer que Valentine estava num baile; disse apenas à marquesa que sua neta saíra com a madrasta e que iriam avisá-la.

— Imediatamente, senhor, imediatamente, eu lhe suplico — disse a velha dama.

Villefort colocou o braço da sra. de Saint-Méran sob o seu e conduziu-a a seus aposentos.

— Descanse, minha mãe — disse ele.

A marquesa ergueu a cabeça a essa palavra e, vendo o homem que lembrava sua filha tão saudosa que, para ela, revivia em Valentine, sentiu-se golpeada por aquela palavra, mãe, e não conseguiu reprimir as lágrimas, caindo de joelhos numa poltrona onde afundou sua venerável cabeça.

Villefort deixou-a aos cuidados das mulheres, enquanto o velho Barrois subia esbaforido até os aposentos de seu patrão; pois nada assusta tanto os idosos como a morte deixar por um instante sua companhia para ir golpear outro velho. Em seguida, enquanto a sra. de Saint-Méran, ainda ajoelhada, rezava do fundo do coração, ele mandou chamar um fiacre e foi pessoalmente pegar a mulher e a filha na residência da sra. de Morcerf para levá-las para casa. Quando apareceu na porta do salão, estava tão pálido que Valentine correu até ele gritando:

— Oh, papai! Aconteceu uma desgraça!

— Sua bondosa avó acaba de chegar, Valentine — disse o sr. de Villefort.

— E meu avô? — perguntou a rapariga, toda trêmula.

A resposta do sr. de Villefort resumiu-se a oferecer o braço à filha.

Na hora certa: Valentine, tomada por uma vertigem, cambaleou; a sra.

de Villefort correu para ampará-la e ajudou o marido a carregá-la para o fiacre, dizendo:

— Que coisa estranha! Quem poderia suspeitar disso? Oh, sim, que coisa estranha!

E toda aquela família pesarosa saiu assim, exalando sua tristeza, como uma fumaça preta, em meio ao resto dos convidados.

No pé da escada, Valentine encontrou Barrois, que a esperava:

— O sr. de Noirtier deseja vê-la esta noite — ele disse baixinho.

— Diga-lhe que irei assim que sair dos aposentos da minha querida avó

— respondeu Valentine.

Na delicadeza de sua alma, a moça compreendera que quem mais precisava dela naquele momento era a sra. de Saint-Méran.

Valentine encontrou sua avó na cama; mudas carícias, corações confrangidos, suspiros entrecortados, lágrimas ardentes, eis os únicos

detalhes transmissíveis dessa entrevista, à qual assistia, de braço dados com seu marido, a sra. de Villefort, cheia de respeito, ao menos aparentemente, pela pobre viúva.

No fim de um instante, ela se debruçou no ouvido de seu marido e disse:

— Com sua permissão, é melhor eu me retirar, pois minha presença ainda parece afligir sua sogra.

A sra. de Saint-Méran ouviu-a.

— Sim, sim — disse ela no ouvido de Valentine —, que ela se vá; mas, você, fique.

Enquanto isso, Barrois subira pela primeira vez para junto do velho Noirtier; este ouvira o barulho pela casa e enviara, como dissemos, o antigo criado para se informar.

Quando este voltou, aquele olhar tão vivo e acima de tudo tão inteligente interrogou o emissário:

— Sinto muito, senhor — disse Barrois —, aconteceu um grande infortúnio: a sra. de Saint-Méran está aqui, e seu marido morreu.

O sr. de Saint-Méran e Noirtier nunca haviam sido amigos íntimos; entretanto, sabemos o efeito que sempre causa sobre um velho o anúncio da morte de outro velho.

Noirtier deixou a cabeça cair sobre o peito, como um homem atormentado ou como um homem que pensa; depois fechou apenas um olho.

— A srta. Valentine? — disse Barrois. Noirtier fez sinal de que sim.

— Ela está no baile, sabe muito bem disso, uma vez que ela veio se despedir do senhor em vestido de gala.

Noirtier fechou novamente o olho esquerdo.

— Sim, quer vê-la?

O velho fez sinal de que era este o seu desejo.

— Muito bem, sem dúvida vão buscá-la na casa da sra. de Morcerf; vou esperá-la chegar e lhe direi para vir aqui. Assim está bom?

— Sim — respondeu o paralítico.

Barrois ficou à espreita do retorno de Valentine e, como vimos, quando ela retornou, expôs-lhe o desejo do avô.

Em virtude desse desejo, Valentine foi até o quarto de Noirtier ao sair dos aposentos da sra. Saint-Méran, que, agitada como havia estado, acabara por sucumbir ao cansaço e dormia um sono febril.

Haviam colocado ao alcance de sua mão uma mesinha sobre a qual ficava uma garrafa de laranjada, sua bebida habitual, e um copo.

Em seguida, como dissemos, a moça deixara a cama da marquesa para dirigir-se ao quarto de Noirtier.

Valentine foi dar um beijo no velho, que a observou tão ternamente que a moça sentiu brotar em seus olhos lágrimas cuja fonte julgava exaurida.

O velho insistia com o olhar.

— Sim, sim — disse Valentine —, você quer dizer que continuo a ter um bom avô, certo?

O velho fez sinal de que efetivamente era isso que seu olhar queria dizer.

— Ai! Felizmente... — respondeu Valentine. — Sem isso, o que seria de mim, meu Deus?

Era uma hora da manhã. Barrois, com vontade de ir deitar, observou que, depois de uma noite tão dolorosa, todo mundo precisava de descanso.

O velho não quis dizer que sua forma de descansar era ver a neta.

Despediuse de Valentine, a quem efetivamente o sofrimento e o cansaço conferiam um ar melancólico.

No dia seguinte, ao entrar no quarto de sua avó, Valentine encontrou-a na cama. A febre não baixara, ao contrário, um fogo escuro brilhava nos olhos da velha marquesa, que parecia às voltas com uma violenta irritação nervosa.

— Oh, meu Deus, querida vovó, a senhora piorou? — exclamou Valentine, ao perceber todos aqueles sintomas de agitação.

— Não, minha filha, não — disse a sra. de Saint-Méran —, mas aguardava impaciente que você chegasse para mandar chamar seu pai.

— Meu pai? — perguntou Valentine, preocupada.

— Sim, quero falar com ele.

Valentine não se atreveu a contrariar o desejo da avó, cujo motivo aliás ignorava, e um instante depois Villefort entrou.

— Senhor — disse a sra. de Saint-Méran, sem circunlóquios e como se parecesse temer que o tempo lhe faltasse —, trata-se, o senhor me escreveu, de um casamento para essa criança?

— Sim, senhora — respondeu Villefort —, é inclusive mais que um projeto, é um compromisso.

— O nome do seu genro é sr. Franz d’Épinay?

— Sim, senhora.

— É o filho do general d’Épinay, que era dos nossos e foi assassinado alguns dias antes de o usurpador voltar da ilha de Elba?

— Esse mesmo.

— Essa aliança com a neta de um jacobino não o repugna?

— Nossas dissensões civis felizmente extinguiram-se, minha mãe —

disse Villefort. — O sr. d’Épinay era uma criança quando seu pai morreu; ele conhece muito pouco o sr. de Noirtier, e o verá, se não com prazer, pelo menos com indiferença.

— É um partido conveniente?

— Sob todos os aspectos.

— O rapaz...?

— Goza da consideração geral.

— É correto?

— É um dos homens mais distintos que conheço.

Durante toda essa conversa, Valentine permanecera muda.

— Pois bem, senhor — disse após alguns segundos de reflexão a sra. de Saint-Méran —, é preciso se apressarem, pois tenho pouco tempo de vida.

— A senhora! A senhora, vovó! — exclamaram o sr. de Villefort e Valentine.

— Sei o que digo — replicou a marquesa. — Portanto, precisam correr a fim de que, não tendo mais mãe, ela tenha pelo menos a avó para abençoar seu casamento. Sou a única que lhe resta do lado da minha infeliz Renée, que o senhor tão rápido esqueceu, cavalheiro.

— Ah, senhora! — exclamou Villefort. — Esquece-se de que convinha dar uma mãe a essa pobre órfã.

— Uma madrasta nunca é uma mãe, senhor! Mas não é disso que se trata, trata-se de Valentine; deixemos os mortos sossegados no seu canto.

Tudo isso era dito com tal volubilidade e ênfase que havia alguma coisa na conversa que se assemelhava a um começo de delírio.

— Será feito de acordo com seu desejo, senhora — disse Villefort —, e isso, com toda a boa vontade, visto que seu desejo coincide com o meu; e, a chegada próxima do sr. d’Épinay a Paris...

— Querida vovó — disse Valentine —, o decoro, o luto ainda recente...

Gostaria então de fazer um casamento sob tão tristes auspícios?

— Minha filha — interrompeu a velha com veemência —, não me venha com essas razões banais que impedem os espíritos fracos de

construir solidamente o seu futuro. Eu também fui casada no leito de morte da minha mãe e, asseguro-lhe, não fui infeliz por causa disso.

— De novo essa idéia de morte! — exclamou Villefort.

— De novo! Sempre! Estou lhe dizendo que vou morrer, está ouvindo!

Muito bem, antes de morrer, quero ter visto meu genro; quero ordenar-lhe que faça minha neta feliz; quero ler em seus olhos se pretende me obedecer; quero conhecê-lo, em suma, pessoalmente — continuou a velha, com uma expressão assustadora —, para vir buscá-lo do fundo da minha sepultura se ele não for o que deve ser, se não for o que precisa ser.

— Senhora — disse Villefort —, convém afastar de si essas idéias exaltadas, que chegam a beirar a loucura. Os mortos, uma vez deitados no túmulo, dormem ali sem jamais se reerguer.

— Oh, sim, sim, vovó, acalme-se! — interveio Valentine.

— E eu, senhor, estou lhe dizendo que não é de forma alguma como acredita. Passei uma noite terrível, pois me via de certa forma dormindo como se minha alma já pairasse acima do meu corpo. Meus olhos, que eu fazia de tudo para abrir, fechavam-se à minha revelia; e no entanto sei muito bem que isso vai lhes parecer impossível, principalmente ao senhor.

Pois bem! De olhos fechados vi, exatamente onde o senhor está, vindo desse canto onde há uma porta que dá para o gabinete de toalete da sra. de Villefort, vi entrar sorrateiramente uma forma branca.

Valentine deu um grito.

— Era a febre que a agitava, senhora — disse Villefort.

— Duvide se quiser, mas tenho certeza do que digo: vi uma forma branca; e, como se Deus temesse que eu recusasse o testemunho de apenas um dos meus sentidos, ouvi meu copo se mexer, isso, isso, este mesmo que está aqui, ali na mesa.

— Oh, vovó, era um sonho!

— Tanto não era um sonho que estendi a mão para a sineta e, a esse gesto, a sombra desapareceu. A camareira, então, entrou com uma luz. Os fantasmas só se mostram aos que devem vê-los: era a alma do meu marido. Pois bem! Se a alma do meu marido volta para me chamar, por que a minha alma, por sua vez, não voltaria para defender minha filha? O

laço é ainda mais direto, me parece.

 

— ... ouvi meu copo se mexer ...

— Oh, senhora — disse Villefort, remoendo-se a contragosto até o fundo de suas entranhas —, não estimule essas idéias lúgubres; vai morar conosco, viverá muito tempo feliz, amada, honrada, e a faremos esquecer...

— Nunca! Nunca! Nunca!! — disse a marquesa. — Quando chega o sr.

d’Épinay?

— Está sendo esperado de uma hora para outra.

— Ótimo; assim que ele chegar, avise-me. Temos que correr, correr.

Depois, gostaria de consultar um tabelião para me certificar de que todo o nosso patrimônio caberá a Valentine.

— Oh, vovó — murmurou Valentine, pousando seus lábios na testa ardente da ancestral —, então querem me fazer morrer? Meu Deus, está com febre! Não é um tabelião que precisamos chamar, é um médico!

— Um médico? — a velha reagiu, dando de ombros. — Não estou doente; tenho sede, só isso.

— Que quer beber, vovó?

— Como sempre, você sabe muito bem, minha laranjada. Meu copo está ali naquela mesa, passe-o para mim, Valentine.

Valentine serviu a laranjada da garrafa no copo e pegou-o com certo pavor para dá-lo à avó, pois era o mesmo copo que, como ela havia dito, fora tocado pela sombra.

A marquesa esvaziou o copo de um só gole.

Em seguida, revirou-se no travesseiro, repetindo:

— O tabelião! O tabelião!

O sr. de Villefort saiu. Valentine sentou-se perto da cama da avó. A pobre criança parecia ela também ter grande necessidade desse médico que recomendara à avó. Um rubor igual ao de uma chama queimava suas faces, a respiração estava curta e ofegante, seu pulso batia como se tivesse febre.

Isso porque a infeliz menina pensava no desespero de Maximilien quando soubesse que a sra. de Saint-Méran, em vez de ser sua aliada, agia, sem o conhecer, como se fosse inimiga dele.

Mais de uma vez Valentine cogitara contar tudo à sua avó, e não teria hesitado um único instante se Maximilien Morrel se chamasse Albert de Morcerf ou Raoul de Château-Renaud: mas Morrel era de casta plebéia, e Valentine sabia o desprezo que a orgulhosa marquesa de Saint-Méran tinha por tudo que não era de estirpe. Portanto, sempre que estivera prestes a vir à tona, este segredo fora repelido em seu coração pela triste certeza de que o revelaria inutilmente, e de que, uma vez ele conhecido pelo seu pai e sua madrasta, tudo estaria perdido.

Passaram-se duas horas. A sra. de Saint-Méran dormia um sono febril e agitado. O tabelião foi anunciado.

Embora esse anúncio tivesse sido feito em voz baixa, a sra. de Saint-Méran soergueu-se do travesseiro.

— O tabelião? — perguntou. — Que entre, que entre! O tabelião estava na porta; entrou.

— Saia, Valentine — disse a sra. de Saint-Méran—, e deixe-me a sós com o cavalheiro.

— Mas, vovó...

— Saia, saia.

A moça beijou a testa da velha e saiu com o lenço nos olhos.

Na porta, encontrou o criado de quarto, que lhe disse que o médico esperava no salão.

Valentine desceu rapidamente. O médico era amigo da família e, ao mesmo tempo, um dos homens mais talentosos da época. Gostava muito

de Valentine, cuja chegada ao mundo assistira. Tinha uma filha quase da mesma idade da srta. de Villefort, porém nascida de mãe tuberculosa, e sua vida era um temor constante a respeito da criança.

— Oh — disse Valentine —, caro sr. d’Avrigny, nós o esperávamos com grande impaciência. Mas, antes de qualquer coisa, como vão Madeleine e Antoinette?

Madeleine era filha do sr. d’Avrigny e Antoinette, sua sobrinha. O sr.

d’Avrigny sorriu tristemente.

— Antoinette, muito bem — respondeu —, Madeleine, excelente. Mas a senhorita mandou me chamar, querida criança? Espero que nem o seu pai nem a sra. de Villefort estejam doentes! Quanto a nós, embora seja visível que não podemos nos livrar de nossas aflições, presumo que precise de mim apenas para recomendá-la a não deixar nossa imaginação divagar...

Valentine corou; o sr. d’Avrigny era quase milagroso em matéria de adivinhações, pois era um desses médicos que continuam a tratar o físico pelo moral.

— Não — disse ela —, é por causa da minha infeliz avó. Já sabe da desgraça que se abateu sobre nós?

— Não sei de nada — disse o sr. d’Avrigny.

— Ai de mim! — disse Valentine, contendo os soluços. — Meu avô morreu.

— O sr. de Saint-Méran?

— Ele mesmo.

— Assim de repente?

— Um ataque fulminante de apoplexia.

— Uma apoplexia? — repetiu o médico.

— Sim. De maneira que a minha infeliz avó está com a idéia fixa de que seu marido, de quem nunca se separara antes, a está chamando e que ela vai se juntar a ele. Oh, sr. d’Avrigny, eu lhe peço que cuide da coitada da minha avó!

— Onde está ela?

— Em seu quarto, com o tabelião.

— E o sr. Noirtier?

— Sempre o mesmo, uma perfeita lucidez de espírito, mas a mesma imobilidade, o mesmo mutismo.

— E o mesmo amor pela senhorita, não é, minha querida?

— Sim — disse Valentine, suspirando —, ele gosta muito de mim.

— E quem não gostaria? Valentine sorriu tristemente.

— E o que tem sua avó?

— Uma singular excitação nervosa, um sono agitado e peculiar; esta manhã imaginava, enquanto dormia, que sua alma pairava acima do corpo, o qual ela via descansar: isso é delírio. Julga ter visto um fantasma entrar no quarto e ter ouvido o barulho que o suposto fantasma fazia ao tocar seu copo.

— Curioso — disse o médico —, eu não sabia que a sra. de Saint-Méran era sujeita a tais alucinações.

— Foi a primeira vez que a vi assim — disse Valentine —, e esta manhã ela me deu medo, achei que estava louca; e o meu pai, caro dr. d’Avrigny, que o senhor conhece como um espírito sério, pois bem!, até o meu pai ficou impressionado.

— Vamos examiná-la — disse o sr. d’Avrigny —, o que diz me parece bem estranho.