O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 32 de 119

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O Conde de Monte Cristo

9. O 5 de setembro

— Sim, senhor — respondeu Julie.

— Promete que fará?

— Juro.

— Ótimo! Adeus, senhorita. Continue sempre a moça bondosa e santa que é, e tenho esperanças de que Deus a recompensará dando-lhe Emmanuel como marido.

Julie soltou um gritinho, ficou vermelha como uma cereja e segurou no corrimão para não cair.

O estrangeiro seguiu adiante dirigindo-lhe um aceno de despedida.

No pátio encontrou Penelon, que segurava um maço de cem francos em cada mão e parecia não conseguir se decidir a levá-los consigo.

— Venha, meu amigo — disse-lhe o estrangeiro —, preciso conversar com o senhor.

1 Tábua de Pitágoras: tabela de multiplicação atribuída ao fi lósofo grego Pitágoras (584a.C.-496

a.C.).

2 Montredon: antigo nome da ilha do Farol, já citada anteriormente. Trata-se de uma praia de areia, daí a fala do marujo.

9. O 5 de setembro

O prazo concedido pelo representante da Casa Thomson & French, no momento em que Morrel menos esperava, pareceu ao infeliz armador um desses retornos de felicidade que anunciam ao homem que o destino finalmente cansou de espezinhá-lo.

No mesmo dia, contou o que lhe acontecera à filha, à mulher e a Emmanuel, e um pouco de esperança, se não de tranqüilidade, penetrou na família. Mas infelizmente Morrel não tinha negócios apenas com a Casa Thomson & French, que se mostrara tão conciliadora. Como ele dizia, no comércio temos sócios, não amigos. Por mais que se interrogasse profundamente, não conseguia entender aquela atitude generosa dos srs.

Thomson e French; só a explicava pela reflexão inteligentemente egoística que essa firma teria feito: mais vale sustentar um homem que nos deve perto de trezentos mil francos e ter esses trezentos mil francos no fim de três meses do que apressar sua ruína e reaver seis ou oito por cento do capital.

Infelizmente, fosse por ódio ou cegueira, nem todos os sócios de Morrel fizeram a mesma reflexão, alguns chegaram inclusive a fazer a reflexão oposta. As duplicatas assinadas por Morrel foram então apresentadas à tesouraria com um escrupuloso rigor e, graças ao prazo concedido pelo inglês, foram quitadas por Coclès com absoluta transparência. Coclès, portanto, permaneceu em sua tranqüilidade fatídica. Apenas o sr. Morrel percebeu com terror que, se tivesse que pagar, dia 5, os cem mil francos de Boville e, dia 30, os trinta e dois mil e quinhentos francos de duplicatas para as quais, bem como para a dívida com o inspetor das prisões, tinha um prazo, seria a partir daquele mês um homem arruinado.

A opinião de todo o comércio de Marselha era de que, sob os sucessivos reveses que o afligiam, Morrel não iria resistir. O espanto então foi grande ao verem seu mês fechado com a pontualidade de costume. Entretanto, isso não fez com que a confiança voltasse aos espíritos, e adiaram unanimemente para o fim do mês seguinte a declaração de falência do desafortunado armador.

O mês inteiro passou-se em esforços inauditos por parte de Morrel para mobilizar todos os seus recursos. Em outros tempos, suas promissórias, em qualquer data que fosse, eram aceitas com confiança, e até mesmo requisitadas. Morrel tentou negociar promissórias para noventa dias e

encontrou todos os bancos fechados. Felizmente, tinha algumas receitas com as quais podia contar; essas receitas se concretizaram. Morrel viu-se então em condições de cumprir seus compromissos quando chegou o fim de julho.

 

De resto, não se voltou a ver em Marselha o representante da Casa Thomson & French; no dia seguinte ou dois dias após sua visita ao sr.

Morrel, ele havia desaparecido; ora, como em sua passagem pela cidade ele só estivera com o prefeito, o inspetor das prisões e o sr. Morrel, sua passagem não deixara outro vestígio senão a diferente lembrança que essas três pessoas guardaram dele. Quanto aos marujos do Pharaon, deviam ter encontrado trabalho, pois desapareceram também.

O capitão Gaumard, recuperado da indisposição que o retivera em Palma, retornou por sua vez. Hesitou em se apresentar na residência do sr.

Morrel, mas este soube de sua chegada e foi pessoalmente encontrá-lo. O

digno armador sabia antecipadamente, pelo relato de Penelon, do comportamento corajoso do capitão durante todo o naufrágio, e foi ele que tentou consolá-lo. Levava-lhe o montante do seu soldo, que o capitão Gaumard não teria ousado ir receber.

Quando descia a escada, o sr. Morrel encontrou Penelon, que ia subindo.

Penelon, aparentemente, fizera bom uso do dinheiro, pois vestia roupas novinhas em folha. Ao se deparar com o armador, o digno timoneiro pareceu embaraçadíssimo; enfiou-se no canto mais afastado do corredor, passou alternadamente seu tabaco de mascar da bochecha esquerda para a direita e da direita para a esquerda, revolvendo olhos arregalados e assustados, respondendo apenas com uma pressão tímida ao aperto de mão que lhe ofereceu com sua cordialidade de costume o sr. Morrel. O sr.

Morrel atribuiu o embaraço de Penelon à elegância de sua toalete: era evidente que o bom homem não pagara do seu bolso aquele luxo todo; então já estava empregado a bordo de algum navio, e sua vergonha resultava de que não tinha, se assim podemos nos exprimir, feito o luto completo pelo Pharaon. Talvez inclusive viesse para informar ao capitão Gaumard sua boa sorte e lhe contar as prodigalidades de seu novo patrão.

— Boa gente — disse Morrel afastando-se —, possa seu novo patrão amá-los como eu os amei e ser mais feliz do que eu!

Agosto transcorreu em tentativas incessantemente renovadas por Morrel de recuperar sua antiga linha de crédito ou abrir uma nova. No dia 20 de agosto soube-se em Marselha que ele comprara uma passagem numa

 

diligência e comentou-se então que a falência devia ser declarada no fim do mês corrente e que Morrel partira antes para não assistir a esse ato cruel, delegado provavelmente ao seu representante oficial Emmanuel e seu tesoureiro Coclès. Porém, contrariando todas as previsões, quando chegou o dia 1o de agosto, o guichê da tesouraria abriu como de costume.

Coclès apareceu atrás da gradinha, calmo como o justo de

Horácio1,

examinou com a atenção de sempre o título que lhe apresentavam e, da primeira até a última, pagou as duplicatas com a mesma pontualidade.

Houve inclusive dois pagamentos a investidores, previstos pelo sr. Morrel e que Coclès pagou com a mesma pontualidade das duplicatas nominais ao armador. Ninguém entendia mais nada, e adiavam, com a tenacidade particular dos profetas do mau agouro, a falência para o fim de setembro.

No dia 1o o sr. Morrel chegou. Era esperado por toda a família com grande ansiedade; daquela viagem a Paris deveria resultar sua última esperança de salvação. Morrel pensara em Danglars, então milionário e outrora seu devedor, uma vez que fora por recomendação de Morrel que Danglars conseguira um emprego junto ao banqueiro espanhol com quem começara sua imensa fortuna. Agora, dizia-se, Danglars possuía seis ou oito milhões, um crédito ilimitado. Danglars, sem tirar um escudo do bolso, podia salvar Morrel; avalizando um único empréstimo, Morrel estava salvo. Morrel vinha pensando em Danglars fazia tempo: mas há certas repulsas instintivas que não dominamos, e Morrel adiara o máximo possível recorrer a esse supremo recurso. Estava certo, pois voltara prostrado sob a humilhação de uma recusa.

Assim, ao voltar, Morrel não exalara nenhuma queixa, não proferira nenhuma recriminação; beijara chorando a mulher e a filha, estendera a mão amistosa para Emmanuel, fechara-se em seu gabinete do segundo andar e chamara Coclès.

— Dessa vez — haviam dito as duas mulheres a Emmanuel —, estamos perdidos.

Em seguida, num breve conciliábulo entre elas, tinha sido combinado que Julie escreveria a seu irmão, num quartel em Nîmes, para que viesse sem perda de tempo.

As pobres mulheres sentiam instintivamente que precisavam de todas as forças para resistir ao golpe que as ameaçava.

A propósito, Maximilien Morrel, embora com apenas vinte e dois anos, já tinha grande influência sobre o pai.

Era um moço determinado e direito. No momento em que se tratara de abraçar uma profissão, seu pai não quisera lhe impor previamente um futuro e consultou as inclinações do jovem Maximilien. Este então havia declarado que desejava seguir a carreira militar; fizera, por conseguinte, excelentes estudos, entrara por concurso na Escola Politécnica e saíra de lá subtenente no 53o regimento de infantaria. Havia um ano ocupava aquele posto e tinha a promessa de ser promovido a tenente na primeira oportunidade. No regimento, Maximilien Morrel era elogiado como rígido observador não apenas de todas as obrigações impostas ao soldado, como de todos os deveres sugeridos ao homem, e só era chamado de o estóico.

Não é preciso dizer que muitos daqueles que lhe davam esse epíteto o repetiam apenas como papagaios, pois sequer sabiam o que isso queria dizer.

Era esse moço que sua mãe e sua irmã chamavam em seu socorro para apoiá-las na circunstância grave que percebiam que iam enfrentar.

Não haviam se enganado sobre a gravidade daquela circunstância, pois, um instante depois que o sr. Morrel entrou no gabinete com Coclès, Julie viu este último sair de lá pálido, trêmulo e com o semblante completamente transtornado.

Quis interrogá-lo, quando ele passava perto dela; mas o bom homem, continuando a descer a escada com uma precipitação que não lhe era costumeira, contentou-se em exclamar, levantando os braços:

— Oh, senhorita, senhorita! Que desgraça terrível! E quem um dia poderia acreditar numa coisa dessas!

Um instante depois, Julie viu-o subir de novo, carregando dois ou três livros-caixa, uma pasta e um saco de dinheiro.

Morrel consultou os livros, abriu a pasta, contou o dinheiro.

Todos os seus recursos somavam seis ou oito mil francos, suas receitas até o dia 5 quatro ou cinco mil; o que perfazia, calculando pelo máximo, um ativo de catorze mil francos para fazer face a uma promissória de duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos. Não havia nem como oferecer um adiantamento daqueles.

Entretanto, quando Morrel desceu para jantar, parecia bastante calmo.

Essa calma assustou as duas mulheres além do que poderia ter feito o mais profundo abatimento.

Depois do jantar, Morrel tinha o costume de sair; ia tomar seu café

no Clube dos Fócidos2 e ler o Sémaphore3: naquele dia não saiu e tornou a

subir para o seu gabinete.

Quanto a Coclès, parecia inteiramente perplexo. Durante uma parte do dia ficara no pátio, sentado numa pedra, com a cabeça descoberta sob um sol de trinta graus.

Emmanuel tentava tranqüilizar as mulheres, mas não era eloqüente. O

jovem estava suficientemente a par dos negócios da firma para não perceber que uma grande catástrofe pairava sobre a família Morrel.

Anoiteceu: as duas mulheres permaneciam de vigília, esperando que ao descer de seu gabinete Morrel entrasse no cômodo onde costumavam ficar; mas ouviram-no passar diante da porta, abafando seus passos provavelmente no receio de ser chamado.

Elas aguçaram os ouvidos, ele voltou para o gabinete e trancou a porta por dentro.

A sra. Morrel mandou sua filha ir se deitar; em seguida, meia hora depois que Julie se retirara, levantou-se, tirou os sapatos e foi até o corredor espiar pela fechadura o que o marido fazia.

No corredor percebeu uma sombra que se retirava: era Julie, também preocupada, que se antecipara à mãe.

A jovem foi até a sra. Morrel.

— Ele está escrevendo — disse.

As duas mulheres se entenderam sem falar.

A sra. Morrel curvou-se até a altura da fechadura. Com efeito, Morrel escrevia; porém, o que não observara a moça, e a sra. Morrel observou, é que seu marido escrevia em papel timbrado.

Ocorreu-lhe a terrível idéia de que ele fazia seu testamento; ficou arrepiada dos pés à cabeça, e no entanto teve forças para não dizer nada.

No dia seguinte, o sr. Morrel parecia completamente calmo; ficou em seu escritório como de costume, desceu para o desjejum como de costume, apenas depois do jantar sentou sua filha perto de si, pegou a cabeça da jovem nos braços e a manteve longamente contra o seu peito.

À noite, Julie disse à mãe que, embora aparentemente calmo, notara que o coração do pai batia violentamente.

Os dois dias seguintes transcorreram praticamente da mesma forma. Na noite de 4 de setembro, o sr. Morrel voltou a pedir à filha a chave de seu gabinete.

Julie estremeceu diante deste pedido, que lhe pareceu sinistro. Por que seu pai lhe pedia aquela chave que ela nunca largava e que só lhe era

pedida em sua infância para castigá-la?!

A moça olhou para o sr. Morrel.

— Que fiz de errado, meu pai — disse ela — para que queira essa chave de volta?

— Nada, minha filha, nada — respondeu o infeliz Morrel, a quem esse pedido tão simples fez brotar lágrimas nos olhos —, apenas preciso dela.

Julie fingiu procurar a chave.

— Devo ter deixado no meu quarto — disse.

E saiu: porém, em vez de se dirigir ao quarto, desceu e correu para consultar Emmanuel.

— Não entregue essa chave ao seu pai — disse este —, e amanhã de manhã, se possível, não saia de perto dele.

Ela tentou questionar Emmanuel; mas este não sabia mais nada, ou não queria dizer mais nada.

Durante toda a noite de 4 para 5 de setembro, a sra. Morrel permaneceu com o ouvido colado ao revestimento de madeira. Escutou o marido andar agitado pelo quarto até as três da manhã.

Apenas às três horas ele se atirou na cama.

As duas mulheres passaram a noite juntas. Desde a noite da véspera esperavam por Maximilien.

Às oito horas, o sr. Morrel entrou no quarto delas. Estava calmo, mas liase a agitação da noite em seu rosto pálido e desfeito.

As mulheres não ousaram lhe perguntar se dormira bem.

Morrel tratou melhor a mulher e foi mais paternal com a filha do que jamais fora; não conseguia despregar os olhos de sua pobre filha e parar de abraçá-la.

Julie lembrou-se da recomendação de Emmanuel e fez menção de ir atrás do pai quando ele saiu; mas este a repeliu delicadamente:

— Faça companhia à sua mãe — disse-lhe. Julie quis insistir.

— É uma ordem! — disse Morrel.

Era a primeira vez que Morrel dizia à filha: “É uma ordem!”, mas dizia aquilo num tom marcado por uma doçura tão paternal que Julie não ousou dar um passo à frente.

Ficou no mesmo lugar, de pé, muda e imóvel. Um instante depois, a porta se reabriu e ela sentiu braços a rodeando e uma boca colando à sua testa.

Levantou os olhos e soltou uma exclamação de alegria:

— Maximilien, meu irmão! — exclamou.

A esse grito, a sra. Morrel acorreu e se lançou nos braços do filho.

— Mamãe — disse o rapaz olhando alternadamente para a sra. Morrel e sua filha —, qual é o problema? Sua carta me assustou e vim correndo.

— Julie — disse a sra. Morrel, fazendo sinal para o rapaz —, vá dizer ao seu pai que Maximilien acaba de chegar.

A moça correu para fora quarto, mas, no primeiro degrau da escada, encontrou um homem com uma carta nas mãos.

— Não é a srta. Julie Morrel? — disse o homem, com um sotaque italiano dos mais pronunciados.

— Sim, senhor — respondeu Julie balbuciante. — Mas que quer de mim? Não o conheço.

— Leia esta mensagem — disse o homem, estendendo-lhe um bilhete.

Julie hesitava.

— Diz respeito à salvação do seu pai — disse o mensageiro. A moça arrancou-lhe o bilhete das mãos.

Abriu-o então vivamente e leu:

Vá imediatamente à rua das Allées de Meilhan, entre na casa no15, peça à zeladora a chave do quarto do quinto andar, entre nesse quarto, pegue no canto da lareira uma bolsa de seda vermelha e leve essa bolsa para o seu pai.

É importante que seja antes das onze horas.

A senhorita me prometeu obedecer cegamente, lembro-lhe essa promessa.

SIMBAD, O MARUJO

A moça deu um grito de alegria, levantou os olhos, procurando, para interrogá-lo, o homem que lhe entregara o bilhete, mas ele desaparecera.

Ela então voltou os olhos para o bilhete e o leu pela segunda vez e percebeu que havia um post-scriptum.

Leu:

É importante que a senhorita cumpra essa missão pessoalmente e sozinha; se for acompanhada ou alguém mais se apresentar, a zeladora responderá que não sabe do que se trata.

Esse post-scriptum foi uma poderosa correção à alegria da moça. Não teria nada a temer? Não seria alguma armadilha que lhe preparavam? Sua inocência deixava-a sem saber que perigos podia correr uma moça de sua idade, mas não precisamos conhecer o perigo para temer; há inclusive uma coisa a ser observada, é que são justamente os perigos desconhecidos que inspiram os maiores terrores.

Julie hesitava, resolveu pedir um conselho.

Porém, por força de uma estranha intuição, não foi nem à mãe nem ao irmão que recorreu, foi a Emmanuel.

Desceu, contou-lhe o que acontecera no dia em que o emissário da Thomson & French tinha ido ao escritório de seu pai; mencionou a cena da escada, repetiu-lhe a promessa que ela fizera e lhe mostrou a mensagem.

— A senhorita deve comparecer — disse Emmanuel.

— Comparecer? — murmurou Julie.

— Sim, vou acompanhá-la.

— Mas não viu que tenho de estar sozinha?

— Estará sozinha também — respondeu o moço —, mas vou esperá-la na esquina da rua du Musée; e se a senhorita demorar a ponto de me causar qualquer preocupação, então irei procurá-la e, palavra de honra, malditos sejam aqueles de quem a senhorita tiver alguma queixa.

— Então, Emmanuel — continuou hesitando a moça —, na sua opinião eu devo ir ao encontro?

— Sim; o mensageiro não lhe disse que se tratava da salvação do seu pai?

— Mas pense bem, Emmanuel, que perigo ele corre? — perguntou a moça.

Emmanuel hesitou por um instante, mas o desejo de convencer a moça de uma vez e sem demora prevaleceu.

— Escute — disse-lhe, — hoje é 5 de setembro, não é?

— Sim.

— Hoje, às onze horas, seu pai tem perto de trezentos mil francos a pagar.

— Sim, sabemos disso.

— Muito bem — disse Emmanuel —, o que tem no caixa não chega a quinze mil.

— Então o que vai acontecer?

— Vai acontecer que se hoje, antes das onze horas, seu pai não encontrar alguém que o socorra, ao meio-dia ele será obrigado a se declarar em bancarrota.

— Oh, venha, venha! — exclamou a moça, arrastando o moço com ela.

Durante esse tempo, a sra. Morrel contara tudo ao filho.

O rapaz sabia muito bem que, em conseqüência dos sucessivos reveses sofridos por seu pai, grandes mudanças haviam ocorrido no padrão de vida da família; mas ignorava que as coisas houvessem chegado àquele ponto.

Ficou arrasado.

Em seguida, de repente, precipitou-se para fora dos aposentos e subiu rapidamente a escada, pois julgava o pai em seu gabinete, mas foi inútil bater.

Ao chegar à porta do gabinete, ouviu a do quarto se abrir, virou-se e viu seu pai. Em vez de subir direto para o gabinete, o sr. Morrel voltara para lá, saindo apenas agora.

O sr. Morrel deu um grito de surpresa ao se deparar com Maximilien; ignorava a chegada do rapaz. Ficou parado ali mesmo, apertando com o braço esquerdo algo que mantinha escondido sob o redingote.

Maximilien desceu vigorosamente a escada e se lançou no pescoço do pai; porém, de repente, recuou, deixando apenas a mão direita apoiada no peito do pai.

— Papai, papai! Em nome dos céus — exclamou o rapaz —, por que essas armas?

— Maximilien — respondeu Morrel, olhando fixamente para o filho —, você é um homem, e um homem honrado; venha, vou lhe contar.

E Morrel subiu com uma passada firme até seu gabinete, enquanto Maximilien o seguia vacilante.

Morrel abriu a porta e a fechou atrás do filho; em seguida atravessou o vestíbulo, aproximou-se da escrivaninha, deixou as pistolas num canto da mesa e apontou para o filho, com a ponta do dedo, um livro-caixa aberto.

Esse livro-caixa era o retrato fiel da situação.

Morrel tinha a pagar dentro de meia hora duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos.

Possuía ao todo quinze mil duzentos e cinqüenta e sete francos.

— Leia — disse Morrel.

O rapaz leu e ficou por um instante como que esmagado.

Morrel não dizia uma palavra; que teria podido dizer que modificasse o inexorável decreto dos números!

— E o senhor fez tudo que podia, meu pai — perguntou o rapaz, no fim de um instante —, para superar essa infelicidade?

— Sim — respondeu Morrel.

— Não conta com nenhuma receita?

— Com nenhuma.

— Esgotou todos os seus recursos?

— Todos.

— E dentro de meia hora — disse Maximilien com uma voz sombria —, nosso nome estará desonrado!

— O sangue lava a desonra — disse Morrel.

— Tem razão, meu pai, eu compreendo.

Em seguida, estendendo as mãos para as pistolas:

— Há uma para o senhor e uma para mim — disse ele —, obrigado!

Morrel deteve sua mão.

— E sua mãe... e sua irmã... quem as alimentará? Um arrepio percorreu o corpo inteiro do rapaz.

— Meu pai — disse ele — está pensando em me dizer para viver?

— Sim, é o que lhe digo — disse Morrel —, pois é seu dever; você tem o temperamento calmo, forte, Maximilien... Maximilien, você não é um homem comum; não lhe exijo nada, não lhe ordeno nada, apenas lhe digo: examine sua situação como se fosse um estranho e julgue-a por si mesmo.

O rapaz refletiu por um instante, e uma expressão de resignação sublime apareceu-lhe nos olhos; ele não fez senão retirar, com um movimento lento e triste, sua dragona e contra dragona, insígnias de sua patente.

— Pois bem — disse estendendo a mão para Morrel —, morra em paz, papai! Eu viverei.

Morrel fez menção de se lançar de joelhos diante do filho. Maximilien o puxou para si e esses nobres corações bateram por um instante um contra o outro.

— Sabe que não tenho culpa? — disse Morrel. Maximilien sorriu.

— Eu sei, meu pai, que o senhor é o homem mais honesto que já conheci.

— Pois bem, está tudo dito: agora volte para junto de sua mãe e sua irmã.

— Papai — disse o rapaz, dobrando o joelho —, abençoe-me.

Morrel pegou a cabeça do filho entre suas mãos, aproximou-a dele, e nela imprimiu várias vezes os lábios.

— Oh, sim, sim, sim — disse —, eu o abençôo em meu nome e em nome de três gerações de homens inatacáveis. Escute agora o que eles dizem pela minha voz: o edifício que o infortúnio destruiu, a Providência pode reconstruir. Ao me verem morto de uma morte desse tipo, os mais

inexoráveis terão piedade de você; talvez lhe concedam o prazo que me teriam recusado; trabalhe então para que a palavra infame não seja pronunciada; ponha mãos à obra, trabalhe, meu jovem, lute com ardor e coragem: vivam, você, sua mãe e sua irmã, do estrito necessário, a fim de que, dia a dia, o patrimônio daqueles a quem devo aumente e frutifique em suas mãos. Pense que o dia da reabilitação será um belo dia, um grande dia, um dia solene, o dia em que nesse mesmo escritório você dirá: “Meu pai morreu porque não podia fazer o que faço hoje; mas morreu tranqüilo e calmo, porque sabia que eu o faria ao morrer.”

— Oh, papai, papai — exclamou o rapaz —, se apesar de tudo o senhor pudesse viver!

— Se eu vivesse, tudo mudaria; se eu vivesse, o interesse se transformaria em dúvida, a piedade, em volúpia; se eu vivesse, não seria nada além de um homem que faltou com a palavra, que descumpriu seus compromissos, não seria nada além de um falido, em suma. Se eu morrer, ao contrário, pense nisso, Maximilien, meu cadáver será apenas o de um homem honesto e desgraçado. Vivo, meus melhores amigos evitariam minha casa; morto, Marselha inteira me acompanhará chorando até a minha última morada; vivo, você teria vergonha do meu nome; morto, você erguerá a cabeça e dirá: “Sou o filho daquele que se matou porque, pela primeira vez, foi obrigado a faltar com a palavra.”

O rapaz soltou um gemido, mas pareceu resignado. Era a segunda vez que a convicção entrava não em seu coração, mas em seu espírito.

— E agora — disse Morrel —, deixe-me sozinho e trate de afastar as mulheres.

— Não quer falar com a minha irmã? — perguntou Maximilien.

A última e frágil esperança do rapaz nessa entrevista, eis por que a sugeria. O sr. Morrel balançou a cabeça.

— Estive com ela pela manhã — respondeu —, e fiz minha despedidas.

— Não tem nenhuma recomendação particular a me fazer, meu pai?

— perguntou Maximilien, com uma voz alterada.

— Sim, meu filho, uma recomendação sagrada.

— Fale, meu pai.

— A Casa Thomson & French é a única que por humanidade, ou talvez por egoísmo, quem sou eu para ler o coração dos homens, teve pena de mim. Seu representante, aquele que, daqui a dez minutos, se apresentará para receber o montante de uma duplicata de duzentos e oitenta e sete mil

e quinhentos francos, não direi que me concedeu, mas me ofereceu três meses. Que essa firma seja a primeira a ser reembolsada, meu filho, que esse homem seja sagrado para você.

— Sim, meu pai — disse Maximilien.

— E agora, mais uma vez, adeus — disse Morrel —, vá, vá, preciso ficar sozinho; você encontrará meu testamento na escrivaninha do meu quarto.

O rapaz continuou de pé, inerte, tendo apenas a força da vontade, mas não a da execução.

— Escute, Maximilien — disse o pai —, suponha que eu seja um soldado como você, que tenha recebido a ordem de conquistar um reduto, e que você sabe que devo ser morto ao conquistá-lo, você não me diria o que disse ainda há pouco: “Vá, meu pai, pois o senhor se desonrará se viver, e mais vale a vida que a vergonha!”?

— Sim, sim — disse o rapaz —, sim.

E, apertando convulsivamente Morrel em seus braços, conformou-se:

— Vá, meu pai.

E precipitou-se para fora do gabinete.

Quando o filho saiu, Morrel ficou por um instante de pé, com os olhos fixos na porta; depois esticou a mão, encontrou o cordão de uma campainha e o acionou.

Dali a pouco, Coclès apareceu.

Não era mais o mesmo homem; aqueles três dias de resignação o haviam prostrado. Este pensamento, “a Casa Morrel vai suspender seus pagamentos”, o curvava para a terra mais do que teriam feito vinte outros anos nas costas.

— Meu bom Coclès — falou Morrel, num tom cuja expressão seria impossível reproduzir —, você vai ficar no vestíbulo. Quando esse cavalheiro, que já veio há três meses, você sabe, o representante da Thomson & French, vier, você o anunciará.

Coclès não respondeu nada; fez um sinal com a cabeça, foi sentar no vestíbulo e esperou.

Morrel jogou-se de novo na cadeira; seus olhos se dirigiram para o pêndulo. Restavam-lhe sete minutos, apenas isso; o ponteiro caminhava com uma rapidez incrível; parecia vê-lo em movimento.

O que se passou então, nesse momento supremo, no espírito daquele homem, que, ainda jovem, em conseqüência de um raciocínio talvez falso,

ou ao menos especioso, iria se separar de tudo que amava no mundo e deixar a vida, que tinha para ele todas as ternuras da família, é impossível de exprimir. Seria preciso ver, para se fazer uma idéia, sua testa coberta de suor, e entretanto resignada, seus olhos molhados de lágrimas, e entretanto erguidos ao céu.

O ponteiro continuava sua trajetória, as pistolas estavam carregadas; ele esticou a mão, pegou uma e murmurou o nome da filha.

Em seguida largou a arma mortal, pegou da pena e escreveu umas poucas palavras.

Pareceu então que não se despedira suficientemente da filha querida.

Então voltou-se para o pêndulo; não contava mais minuto por minuto, mas segundo por segundo.

Pegou novamente a arma, a boca entreaberta e os olhos fixados no ponteiro; depois estremeceu ao barulho que ele próprio fazia armando o cão.

Nesse momento, um suor mais frio atravessou sua testa, uma angústia mais mortal apertou seu coração.

Ouviu a porta da escada ranger.

Em seguida abriu-se a do seu gabinete. O pêndulo ia dar onze horas.

Morrel não se voltou, esperou estas palavras de Coclès: “O

representante da Casa Thomson & French”.

E aproximou a arma da boca...

De repente ouviu um grito: era a voz da filha.

Voltou-se e percebeu Julie; a pistola escapou-lhe das mãos.

— Papai! — exclamou a jovem, ofegante e quase morrendo de alegria.

— Salvo! O senhor está salvo!

E jogou-se nos braços do pai, erguendo na mão uma bolsa de seda vermelha.

— Salvo, minha filha! — disse Morrel. — Que quer dizer?

— Sim, salvo! Veja, veja — disse a moça.

Morrel pegou a bolsa e estremeceu, pois uma vaga recordação lembroulhe o objeto que havia lhe pertencido.

De um lado estava a duplicata de duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos.

A duplicata estava quitada.

Do outro, um diamante do tamanho de uma avelã, com estas três palavras escritas num pedaço de pergaminho: “Dote de Julie”.

 

Morrel passou a mão na testa: julgava estar sonhando. Nesse momento o pêndulo deu onze badaladas.

O timbre vibrou para ele como se cada martelada de aço vibrasse o seu próprio coração.

— Agora, minha filha — disse ele —, explique-se. Onde encontrou essa bolsa?

— Num prédio da rua das Allées de Meilhan, no no15, no canto da lareira de um modesto quartinho no quinto andar.

— Mas — exclamou Morrel —, essa bolsa não é sua.

Julie estendeu ao pai o bilhete que tinha recebido de manhã.

— E você foi sozinha a essa casa? — disse Morrel após ter lido.

— Emmanuel me acompanhou, meu pai. Ele devia me esperar na

esquina da rua du Musée; mas, estranho, quando voltei, não estava mais lá.

— Sr. Morrel! — gritou uma voz na escada. — Sr. Morrel!

— É a voz dele — disse Julie.

— Salvo! O senhor está salvo!

Nesse instante Emmanuel entrou, o rosto transfigurado pela alegria e a emoção.

— O Pharaon! — exclamou. — O Pharaon!

— O que tem o Pharaon? Enlouqueceu, Emmanuel? Sabe muito bem que ele naufragou.

— O Pharaon! Senhor, o Pharaon foi avistado; o Pharaon está entrando no porto.

Morrel caiu de novo na cadeira, faltavam-lhe forças; sua inteligência recusava-se a registrar essa série de acontecimentos incríveis, insólitos, fabulosos.

Foi a vez de seu filho entrar.

— Papai — exclamou Maximilien —, então o senhor achava que o

Pharaon estava perdido? A vigia o avistou, ele está entrando no porto.

— Meus amigos — disse Morrel —, se for assim, temos que acreditar num milagre de Deus! Impossível! Impossível!

Mas o que era real e não menos incrível era aquela bolsa que ele segurava nas mãos, era aquela duplicata quitada, era aquele diamante magnífico.

— Ah, senhor — disse Coclès por sua vez —, que significa isso, o Pharaon?

— Vamos, meus filhos — disse Morrel, levantando-se —, vamos ver, e que Deus tenha piedade de nós se for uma notícia falsa.

Desceram; a sra. Morrel esperava no meio da escada: a pobre mulher não ousara subir.

Num instante, estavam na Canebière. Havia uma multidão no porto.

Toda essa multidão abriu passagem para Morrel.

— O Pharaon! O Pharaon! — diziam todas as vozes.

Com efeito, coisa maravilhosa, inaudita, em frente à torre Saint-Jean, uma embarcação, estampando na popa estas palavras escritas em letras brancas: Le Pharaon (Morrel & Filho, de Marselha), exatamente da envergadura do outro Pharaon e carregado, como o outro, de cochinilha e índigo, lançava âncora e recolhia velas; na ponte, o capitão Gaumard dava suas ordens e o mestre Penelon fazia sinais para o sr. Morrel.

Não havia mais dúvida: o testemunho dos sentidos estava ali, e dez mil pessoas vinham confirmar esse testemunho.

Enquanto Morrel e seu filho se abraçavam na plataforma, sob os aplausos de toda a cidade testemunha daquele prodígio, um homem, cujo

rosto estava semicoberto por uma barba negra, e que, escondido atrás da guarita de um policial, contemplava essa cena com enternecimento, murmurou estas palavras:

— Seja feliz, nobre coração; seja abençoado por todo o bem que fez e que ainda fará; e que minha gratidão permaneça na sombra assim como sua boa ação.

Com um sorriso em que transpareciam alegria e felicidade, deixou o refúgio onde se escondera e, sem que ninguém lhe desse atenção, tão preocupados estavam todos com o acontecimento do dia, desceu uma dessas escadinhas que servem de desembarcadouro e chamou três vezes:

— Jacopo! Jacopo! Jacopo!

Aproximou-se então uma chalupa, acolheu-o a bordo e o conduziu a um iate ricamente aparelhado, para cuja ponte ele se lançou com a agilidade de um marujo; dali, olhou mais uma vez para Morrel, que, chorando de alegria, distribuía cordiais apertos de mão a toda aquela multidão e agradecia com um olhar vago aquele benfeitor desconhecido a quem parecia procurar no céu.

— E agora — disse o desconhecido —, adeus bondade, humanidade, gratidão... Adeus a todos os sentimentos que regozijam o coração...! Tomei o lugar da Providência para recompensar os bons... que o Deus vingador me ceda o seu para punir os maus!

A essas palavras, fez um sinal e, como se esperasse apenas esse sinal para partir, o iate logo fez-se ao mar.

1 “o justo de Horácio” : referência a uma passagem das Odes, III, v.1.