O Conde de Monte Cristo
3. Deslumbramento
4 Pelião: na mitologia grega, os titãs ergueram o monte Pelião para assim chegar ao topo do Olimpo, onde pretendiam destronar Zeus.
3. Deslumbramento
O sol chegara a aproximadamente um terço de sua trajetória e seus raios de maio incidiam, quentes e vivificantes, sobre aqueles rochedos, que por sua vez também pareciam sensíveis ao seu calor. Milhares de cigarras, invisíveis nas moitas, entoavam seu murmúrio monótono e contínuo; as folhas dos mirtos e das oliveiras agitavam-se farfalhantes, fazendo um barulho quase metálico; a cada passo que dava sobre o granito aquecido, Edmond espantava lagartos que pareciam esmeraldas; viam-se pular ao longe, sobre planos inclinados, as cabras selvagens que às vezes atraem caçadores; enfim, a ilha era habitada, viva, animada, e no entanto ali Edmond sentia-se sozinho sob a mão de Deus.
Vivia uma espécie de emoção semelhante ao temor, era aquela desconfiança do espaço aberto, que nos faz supor, mesmo no deserto, que olhos inquisidores estão abertos sobre nós.
Essa sensação foi tão forte que, no momento em que ia se pôr ao trabalho, Edmond parou, largou a picareta, pegou o fuzil novamente, escalou pela última vez a rocha mais elevada da ilha e de lá lançou um vasto olhar para tudo que o cercava.
Porém, é preciso dizer, o que atraiu sua atenção não foi nem a Córsega poética, da qual era possível enxergar até mesmo as casas, nem a Sardenha quase desconhecida que se lhe seguia, nem a ilha de Elba, de lembranças gigantescas, nem, por fim, aquela linha imperceptível que se estendia no horizonte e que, ao olho experiente do marinheiro, revelava Gênova, a soberba, e Livorno, a mercantil. Não: foram o bergantim que partira ao nascer do dia e a tartana que acabava de partir.
O primeiro estava a ponto de desaparecer no estreito de Bonifácio; a segunda, fazendo a rota oposta, costeava a Córsega, que se preparava para dobrar.
Essa visão tranqüilizou Edmond.
Dirigiu então os olhos para os objetos que o cercavam mais imediatamente; viu-se no ponto mais elevado da ilha, no topo de um cone, frágil estátua sobre um imenso pedestal; abaixo dele, nenhum homem; em torno dele, nenhum barco, nada senão o mar azulado que vinha quebrar na base da ilha e que esse choque eterno bordava com uma franja de prata.
Desceu então numa passada rápida e não obstante cheia de prudência.
Seu grande temor, num momento daqueles, era um acidente semelhante ao
que tão hábil e convincentemente simulara.
Dantès, como dissemos, voltara a percorrer os entalhes gravados nas rochas e constatara que sua linha conduzia a uma espécie de pequena enseada, escondida como uma antiga piscina de ninfa; a enseada era suficientemente larga em sua abertura e profunda em
seu bojo para que uma pequena embarcação do tipo das speronari1 pudesse entrar ali e ali permanecer oculta. Então, seguindo o fio das induções, esse fio que nas mãos do abade Faria ele vira guiar o espírito de maneira tão engenhosa pelo dédalo das probabilidades, conjecturou que o cardeal Spada, tomando cuidado para não ser visto, penetrara naquela enseada, ali escondera sua pequena embarcação, seguira a linha indicada pelos entalhes e, no fim dessa linha, havia enterrado seu tesouro.
Fora essa suposição que levara Dantès até as proximidades da rocha circular.
Apenas uma coisa preocupava Edmond e embaralhava todas as noções que tinha de dinâmica: como fora possível, sem fazer uso de forças consideráveis, içar aquela rocha, que pesava de duas a três toneladas, da espécie de base em que ela repousava?
De repente uma idéia ocorreu a Dantès. Em vez de a içarem, a teriam descido.
E ele mesmo se lançou para o topo da rocha, a fim de procurar o local de sua base principal.
Com efeito, logo percebeu que havia um pequeno declive escavado; a rocha deslizara sobre sua base e viera parar em seu lugar; uma outra rocha, do tamanho de uma pedra de corte comum, servira-lhe de calço; pedrinhas e seixos haviam sido cuidadosamente dispostos para apagar qualquer solução de continuidade; essa pequena obra de pedreiro havia sido coberta com terra, o capim crescera, o musgo se espalhara, algumas sementes de mirtos e lentiscos haviam caído por ali e a velha rocha parecia soldada no chão.
Dantès retirou um pouco de terra com precaução e confirmou, ou julgou confirmar, todo aquele engenhoso artifício.
Pôs-se então a atacar com sua picareta aquela muralha intermediária cimentada pelo tempo.
Após dez minutos de trabalho, a muralha cedeu e um buraco que dava para enfiar um braço foi aberto.
Dantès cortou a oliveira mais resistente que conseguiu encontrar, despiu-a de seus galhos, introduziu-a no buraco e fez uma alavanca com ela.
Mas a rocha era ao mesmo tempo pesada demais e muito bem calçada pela rocha inferior para que uma força humana, fosse a do próprio Hércules, a pudesse abalar.
Dantès concluiu então que seu ataque deveria ser dirigido ao calço propriamente dito.
Mas como?
Dantès olhou em volta, como fazem os homens embaraçados; e seu olhar caiu num chifre de carneiro cheio de pólvora que seu amigo Jacopo lhe deixara.
Sorriu: a invenção infernal iria fazer o seu trabalho.
Com ajuda da picareta, Dantès escavou, entre a rocha superior e aquela sobre a qual estava pousada, um conduto de mina, como costumam fazer os pioneiros quando querem poupar ao braço do homem um cansaço excessivo, depois o recheou com pólvora; em seguida, esfiapando seu lenço e passandoo no salitre, fez uma mecha com ele.
Ateado o fogo a essa mecha, Dantès se afastou.
A explosão não se fez esperar: a rocha superior foi num instante erguida pela incalculável força, a rocha inferior fez-se em pedaços. Pela pequena abertura que Dantès fizera, escapou todo um mundo de insetos frenéticos e uma enorme serpente, guardiã daquele caminho misterioso, rastejou sobre suas espirais azuladas e desapareceu.
Dantès aproximou-se: a rocha superior, agora sem a base, inclinava-se sobre o abismo; o intrépido explorador contornou-a, escolheu o ponto mais vacilante, apoiou sua alavanca em uma de
suas arestas e, igual a Sísifo2,
enrijeceu-se com toda sua força contra a rocha.
A rocha, já abalada pela comoção, vacilou; Dantès redobrou seus esforços. Parecia um daqueles titãs que desenraizam montanhas para guerrear com o senhor dos deuses. Finalmente a rocha cedeu, rolou, pulou, precipitou-se e desapareceu, tragada pelo mar.
Ela deixava a descoberto um lugar em forma de círculo e revelava uma argola de ferro incrustada no centro de uma laje que tinha a forma de um quadrado.
Dantès soltou um grito de alegria e espanto. Nunca resultado mais magnífico coroara uma primeira tentativa.
Quis continuar, mas suas pernas tremiam tanto, seu coração batia tão violentamente, uma nuvem tão ardente passava diante dos seus olhos, que foi obrigado a parar.
Esse momento de hesitação teve a duração do relâmpago. Logo Edmond enfiou sua alavanca na argola, levantou-a vigorosamente e a laje destravada se abriu, revelando a inclinação íngreme de uma espécie de escada, que adentrava a penumbra de uma caverna cada vez mais escura.
Outro qualquer teria se precipitado, soltado gritos de alegria; Dantès parou, empalideceu, desconfiou.
— Calma — ele disse consigo —, tenhamos juízo! Acostumados à adversidade, não nos deixemos abater por uma decepção; ou terá sido para nada que eu sofri! O coração se despedaça quando, após ter se dilatado exageradamente pelo bafejo quente da esperança, ele retorna e se encerra na fria realidade! Faria teve um sonho: o cardeal Spada não enterrou nada nessa caverna, talvez até mesmo nunca tenha vindo aqui, ou, se veio, César Bórgia, o intrépido aventureiro, o infatigável e sombrio ladrão, veio depois dele, descobriu seu rastro, seguiu as mesmas pistas que eu, como eu levantou essa pedra e, tendo descido antes de mim, nada deixou para eu pegar depois.
Ficou por um momento imóvel, pensativo, os olhos fixos naquela abertura escura e profunda.
— Ora, agora que não conto com mais nada, agora que me dizem ser loucura conservar qualquer esperança, a continuação dessa aventura é para mim questão de curiosidade, e nada mais.
E permaneceu imóvel, meditando.
— Sim, sim, esta é uma aventura mais adequada à vida ao mesmo tempo sombria e luminosa desse príncipe bandido, à rede de eventos estranhos que compõem a trama multicolorida de sua existência; esse fabuloso acontecimento deve se encadear inevitavelmente às outras coisas; sim, Bórgia veio aqui uma noite qualquer, com um archote em uma das mãos, uma espada na outra, enquanto a vinte passos dele, ao pé dessa rocha talvez, permaneciam, sombrios e ameaçadores, dois esbirros interrogando a terra, o ar e o mar, enquanto seu senhor entrava, como estou prestes a fazer, sacudindo as trevas com seu braço temível e flamejante.
“Sim; mas a que esbirros terá revelado dessa forma o seu segredo, o que César terá feito deles? — perguntou-se Dantès.
“O que fizeram — respondeu sorrindo — os coveiros de Alarico3,
enterrados com o sepultado.
“Entretanto, se ele tivesse vindo aqui — continuou Dantès —, teria descoberto o tesouro e se apossado dele; Bórgia, o homem que comparava a Itália a uma alcachofra e que a comia folha a folha, sabia muito bem o valor do tempo para perder o seu recolocando essa rocha em sua base.
“Desçamos.”
Então desceu, o sorriso da dúvida nos lábios, murmurando esta expressão lapidar da sabedoria humana: “Quem sabe...!”
Porém, em vez das trevas que esperava encontrar, em vez de uma atmosfera difusa e viciada, Dantès não viu senão uma suave luminosidade decomposta num matiz azulado; o ar e a luz entravam não apenas pela abertura que acabava de ser feita, mas também pelas gretas de rochas invisíveis da superfície externa, através das quais via-se o azul do céu, onde brincavam os galhos trêmulos dos carvalhos verdes e as nervuras espinhentas e rastejantes das sarças.
Após alguns segundos de permanência naquela caverna, cuja atmosfera, mais quente que úmida, mais odorante que inodora, estava para a temperatura da ilha assim como a luz azul estava para o sol, o olhar de Dantès, habituado, como dissemos, às trevas, conseguiu sondar os ângulos mais recônditos da gruta; ela era de granito, e suas facetas cravejadas faiscavam como diamantes.
— Pobre de mim! — pensou Edmond sorrindo. — Eis provavelmente todos os tesouros que o cardeal deixou; esse bondoso abade, ao ver em sonho essas paredes resplandecentes, deve ter alimentado ricas esperanças.
Mas Dantès lembrou-se dos termos do testamento, que sabia de cor: “No ângulo mais afastado da segunda abertura”, dizia ele.
Até ali, penetrara somente na primeira caverna; precisava agora achar a entrada da segunda.
Dantès orientou-se: a segunda caverna devia naturalmente embrenharse no interior da ilha; ele estudou o caminho das pedras e foi bater numa parede onde lhe pareceu que a abertura deveria estar, provavelmente disfarçada com um cuidado ainda maior.
A picareta ecoou por um instante, extraindo da rocha um som opaco, cuja solidez fazia o suor germinar na testa de Dantès; finalmente, pareceu ao mineiro perseverante que uma porção da muralha granítica respondia com um eco mais surdo e profundo ao chamado que lhe era feito; ele
aproximou seu olhar ansioso da muralha e reconheceu, com o tato do prisioneiro, o que ninguém mais talvez houvesse reconhecido: ali devia existir uma entrada.
Entretanto, para não fazer um trabalho inútil, Dantès, que, como César Bórgia, sabia o valor do tempo, sondou as outras paredes com sua picareta, interrogou o solo com a coronha do seu fuzil, abriu a areia nos lugares suspeitos e, sem nada encontrar, nada identificar, voltou ao trecho da muralha que devolvia aquele som consolador.
Bateu de novo e com mais força.
Observou então uma coisa singular, isto é, que, sob os golpes do instrumento, uma espécie de reboco, igual àquele aplicado nas muralhas para pintar a fresco, levantava-se e caía em escamas, revelando uma pedra esbranquiçada e mole, igual às nossas pedras de corte comuns. Alguém havia fechado a abertura do rochedo com pedras de outra natureza, depois passado o reboco sobre essas pedras e, sobre o reboco, imitado o matiz e o cristalino do granito.
Dantès bateu então com o lado pontiagudo da picareta, que entrou três centímetros na porta-muralha.
Ali era preciso escavar.
Por um estranho mistério da constituição humana, quanto mais se sucediam as provas de que Faria não estava enganado, o que deveria tranqüilizar Dantès, mais seu coração precário se deixava arrastar pela dúvida, chegando a beirar o desânimo. Aquela nova experiência, que lhe deveria ter dado novas forças, tirou as que lhe restavam. A picareta desceu, quase fugindo de suas mãos; ele descansou-a no solo, enxugou a testa e subiu novamente ao ar livre, dando a si mesmo o pretexto de verificar se alguém o espionava. A realidade, porém, é que precisava de ar, pois sentia-se a ponto de perder os sentidos.
A ilha estava deserta e o sol, em seu zênite, parecia cobri-la como um olho de fogo; ao longe, pequenos barcos de pescadores abriam suas velas sobre o mar de um azul-safira.
Dantès ainda não comera nada, mas seria perda de tempo fazê-lo num momento como aquele; engoliu uma talagada de rum e entrou na caverna com o coração determinado.
A picareta que lhe parecera tão pesada voltou a ficar leve; ele a ergueu como se fosse uma pluma e recomeçou vigorosamente o trabalho.
Depois de alguns golpes, percebeu que as pedras não estavam cimentadas, mas apenas justapostas umas sobre as outras e recobertas com o reboco que mencionamos. Assim, ele introduziu em uma das fissuras a ponta da picareta, jogou seu peso sobre o cabo e viu com alegria a pedra cair aos seus pés.
A partir desse momento, Dantès precisou apenas puxar cada pedra para si com o dente de ferro da picareta e todas elas, por sua vez, caíram perto da primeira.
Desde a abertura inicial, Dantès teria podido entrar; mas postergar alguns instantes significava adiar a certeza enquanto agarrava-se à esperança.
Finalmente, após nova hesitação momentânea, Dantès passou da primeira caverna para a segunda.
Essa segunda caverna era mais baixa, mais escura e com um aspecto mais assustador que a primeira; o ar, que nela só penetrava pela abertura feita ainda há pouco, tinha aquele cheiro mefítico que Dantès se espantara de não encontrar na primeira.
Dantès deu tempo para o ar exterior ressuscitar aquela atmosfera morta, e entrou.
À esquerda da entrada, havia um canto profundo e escuro.
Mas, como dissemos, para o olho de Dantès não existiam trevas. Ele sondou com o olhar a segunda caverna: vazia como a primeira. O tesouro, caso existisse, estava enterrado naquele canto escuro.
A hora da angústia havia chegado. Sessenta centímetros a escavar, era tudo que restava a Dantès entre a suprema alegria e o supremo desespero.
Ele avançou para o local e, como que tomado por uma resolução súbita, atacou o solo ousadamente.
No quinto ou sexto golpe de picareta, o ferro bateu no ferro.
Jamais dobre fúnebre, jamais som de gongo produziu tal efeito naquele que o ouviu. Dantès não poderia ter encontrado nada que o deixasse mais pálido.
Sondou ao lado do lugar onde já sondara e encontrou a mesma resistência, mas não o mesmo som.
— É um baú de madeira, revestido de ferro — disse ele.
Nesse momento, uma sombra rápida passou, interceptando o dia. Dantès deixou a picareta cair, pegou o fuzil, transpôs a entrada e projetou-se para o dia.
Uma cabra selvagem pulara por cima da primeira entrada da caverna e pastava a poucos passos.
Era uma bela oportunidade de garantir o jantar, mas Dantès teve medo de que a detonação do fuzil atraísse alguém.
Refletiu por um instante, cortou uma árvore resinosa, foi acendê-la no fogo ainda vivo onde os contrabandistas haviam preparado o almoço e voltou com essa tocha.
Não queria perder nenhum detalhe do que ia ver.
Aproximou a tocha do buraco informe e inacabado, constatando que não se enganara: seus golpes haviam acertado alternadamente ferro e madeira.
Fincou sua tocha no solo e voltou ao trabalho.
Num instante, uma área de aproximadamente noventa centímetros de comprimento por sessenta de largura foi removida, e Dantès pôde identificar um baú de madeira de carvalho revestido de ferro cinzelado.
No meio da tampa reluziam, sobre uma placa de prata que a terra não escurecera, o brasão da família Spada, isto é, uma espada disposta na vertical sobre um escudo ovalado, como são os escudos italianos, e encimada por um chapéu de cardeal.
Dantès reconheceu o brasão com facilidade: o abade Faria o desenhara para ele inúmeras vezes!
Agora não restava mais dúvida, o tesouro de fato estava ali; não se tomam tantas precauções para depositar um baú vazio num lugar daqueles.
Em pouquíssimo tempo, toda a área em volta do baú foi escavada, e Dantès viu aparecer, sucessivamente, a fechadura central, instalada entre dois cadeados, e as alças das faces laterais; tudo isso cinzelado como se fazia naquela época, quando a arte tornava preciosos os metais mais vis.
Dantès pegou o baú pelas alças e tentou levantá-lo: era impossível.
Dantès tentou abri-lo: fechadura e cadeados estavam trancados. Os fiéis guardiões pareciam não querer entregar o tesouro.
Dantès introduziu o lado pontiagudo de sua picareta entre o baú e a tampa, jogou seu peso sobre o cabo da picareta e a tampa, após ter rangido, fez-se em pedaços. Uma grande brecha nas tábuas tornou as ferragens inúteis, e elas caíram por sua vez, apertando ainda com suas garras tenazes as tábuas despedaçadas pela queda, e o baú se ofereceu à vista.
Uma febre vertiginosa se apoderou de Dantès. Ele pegou seu fuzil, armou-o e o colocou atrás de si. Primeiro fechou os olhos, como fazem as crianças, para perceber, na noite cintilante de sua imaginação, mais
estrelas do que são capazes de contar num céu ainda claro, então voltou a abri-los e ficou deslumbrado.
Três compartimentos dividiam o baú.
No primeiro, brilhavam rutilantes escudos de ouro com reflexos alaranjados.
No segundo, lingotes mal polidos e organizadamente arrumados, que tinham ouro puro no peso e no valor.
No terceiro, finalmente, cheio pela metade, Edmond remexeu aos punhados os diamantes, as pérolas e os rubis que, numa cascata ofuscante, faziam, caindo uns sobre os outros, o barulho da geada nas vidraças.
Após ter tocado, apalpado, enfiado suas mãos trêmulas no ouro e nas pedras preciosas, Edmond levantou e começou a correr através das cavernas com a exaltação palpitante de um homem à beira da loucura.
Subiu numa rocha de onde podia descortinar o mar e não viu nada; estava sozinho, completamente sozinho, com suas riquezas incalculáveis, inauditas, fabulosas, que lhe pertenciam. Entretanto, estava sonhando ou acordado? Sonhava um sonho fugaz ou abraçava a realidade corpo a corpo?
... e o baú se ofereceu à vista.
Precisava rever seu ouro e, no entanto, sentia que não teria forças para suportar tal visão naquele momento. Por um instante, apoiou as duas mãos no alto da cabeça, como para impedir a fuga de sua razão; em seguida disparou por toda a ilha, sem seguir nenhuma trilha, pois não as há na ilha de Monte Cristo, e sim traçando retas, pondo em fuga as cabras selvagens e assustando as aves marinhas com seus gritos e gesticulações. Depois, tomando um desvio, voltou, ainda incrédulo, precipitando-se da primeira caverna para a segunda e vendo-se em face daquela mina de ouro e diamantes.
Dessa vez caiu de joelhos, apertando o coração aos pulos com suas mãos convulsivas, murmurando uma prece inteligível apenas para Deus.
Logo sentiu-se mais calmo e, por conseguinte, mais feliz, pois somente a partir desse instante começou a acreditar na sua boa sorte.
Começou então a contar sua fortuna; havia mil lingotes de ouro de um quilo a um quilo e meio cada um; em seguida, empilhou vinte e cinco mil escudos de ouro, cada um deles podendo alcançar oitenta francos em nossa moeda atual, todos com a efígie do papa Alexandre VI e de seus predecessores, e então percebeu que o compartimento estava cheio apenas até a metade; finalmente, mediu dez vezes a capacidade de suas mãos em pérolas, pedrarias, diamantes, muitos dos quais, lapidados pelos melhores ourives da época, dispunham de um valor de execução notável, mesmo quando comparado a seu valor intrínseco.
Dantès viu o dia cair e se extinguir pouco a pouco. Receou ser surpreendido caso permanecesse na caverna e saiu com seu fuzil na mão.
Um pedaço de torrada e alguns goles de vinho foram a sua ceia. Em seguida, recolocou a pedra, deitou em cima dela e com dificuldade dormiu algumas horas, vedando com seu corpo a entrada da caverna.
Aquela noite foi uma das duas ou três noites ao mesmo tempo deliciosas e terríveis que aquele homem de emoções fulminantes já passara em sua vida.
1 Speronare: tipo de embarcação maltesa, de fundo chato e cujas proa e popa são aquadradadas.
2 Sísifo: na mitologia grega, Sísifo era considerado o mais astuto de todos os mortais e em mais de uma oportunidade enganou aos deuses e à própria morte. Ao morrer de velhice, foi enviado por Zeus ao Hades, o mundo dos mortos. Lá julgado por sua rebeldia, foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore com as mãos até o cume de uma montanha.
Sempre que estava prestes a alcançar seu intento, porém, a pedra rolava novamente montanha abaixo.
3 “coveiros de Alarico” : “Alarico, prestes a embarcar para a Sicília, morreu em Consenza. À
guisa de sepultura, seus soldados, com a ajuda de uma tropa de cativos, desviaram o curso do Buzento e mandaram cavar uma vala para o seu chefe no meio do leito seco. De volta ao seu curso normal, o rio cobriu o túmulo, enquanto, nas margens, degolava-se até o último dos escravos que haviam trabalhado na obra funerária – a fim de que o mistério do túmulo permanecesse um segredo entre eles e os mortos. ... Mil e quinhentos anos depois desse evento, eu atravessava a Calábria em meio ao terremoto que acabava de abalá-la de ponta a ponta. O