O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 28 de 119

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O Conde de Monte Cristo

5. A estalagem da Ponte do Gard

No dia seguinte, as pessoas nas casas de quem ele entrara para fazer todas essas perguntas receberam de presente uma barca catalã novinha, guarnecida com duas redes de arrastão e uma de rocega.

Essas boas pessoas bem que quiseram agradecer a seu generoso interrogador; porém, ao deixá-los, e após ter dado algumas ordens a um marinheiro, este foi visto montando um cavalo e deixando Marselha pela porta de Aix.

1 Filocteto: ferido e exalando um odor pestilencial, Filocteto foi deixado na ilha de Tenedos por seus companheiros a caminho de Tróia. Dez anos mais tarde, diante do oráculo de que as flechas de Filocteto eram indispensáveis para a vitória grega, Ulisses foi resgatar o guerreiro abandonado. Filocteto é personagem-título de uma das sete tragédias remanescentes de Sófocles.

5. A estalagem da Ponte do Gard

Aqueles que, como eu, percorreram a região do Midi francês puderam observar, entre Bellegarde e Beaucaire, mais ou menos a meio caminho da aldeia para a cidade, porém mais próximo de Beaucaire que de Bellegarde, uma pequena estalagem onde, de uma placa de zinco, que range ao menor vento, pende uma grotesca representação da ponte do Gard. Essa pequena estalagem, tomando como ponto de referência o curso do Ródano, está situada no lado esquerdo da estrada, com os fundos dando para o rio; ela é acompanhada pelo que no Languedoc chama-se um jardim: isto significa que a face oposta àquela que abre sua porta aos viajantes dá para um cercado onde rastejam algumas oliveiras depauperadas e algumas figueiras silvestres de folhagem prateada pela poeira; nos espaços vazios crescem, à guisa de legumes, alhos-porós, pimentas e cebolinhas; finalmente, em um de seus cantos, como uma sentinela esquecida, um grande pinheiro guarda-sol projeta melancolicamente seu caule flexível, enquanto sua fronde, aberta em leque, crepita sob um sol de trinta graus.

Todas essas árvores, altas ou baixas, curvam-se naturalmente, inclinadas na direção por onde passa o mistral, um dos três flagelos da Provença, os outros dois, como se sabe ou não se sabe, sendo o

Durance e o Parlamento1.

Aqui e ali na planície dos arredores, que se parece com um grande lago de poeira, vegetam algumas hastes de trigo que os horticultores da região cultivam certamente por curiosidade, cada uma servindo de poleiro para uma cigarra que persegue com seu canto áspero e monótono os viajantes desgarrados naquelas ermas paisagens.

Fazia aproximadamente sete ou oito anos que essa pequena estalagem era tocada por um homem e uma mulher, que tinham como criados apenas uma camareira chamada Trinette e um cavalariço que atendia pelo nome de Pacaud; dupla cooperação que, em todo caso, bastava amplamente para as exigências do serviço, depois que um canal escavado entre Beaucaire e AigueMortes fizera prevalecer vitoriosamente o transporte marítimo, mais rápido, sobre o terrestre, e o coche sobre a diligência.

Esse canal, como para tornar ainda mais veementes as queixas do infeliz estalajadeiro por ele arruinado, passava, entre o Ródano que o alimenta e a estrada que lhe faz concorrência, a uns cem passos perto da estalagem de que acabamos de dar uma insuficiente porém fiel descrição.

O hoteleiro que tocava a pequena estalagem podia ser um homem

de quarenta a quarenta e cinco anos2, alto, ressequido e nervoso, tipo genuinamente meridional, com olhos escuros e brilhantes, nariz bico de águia e dentes brancos como os de um animal carnívoro. Seus cabelos, que pareciam, apesar dos primeiros sopros da velhice, não se decidir a embranquecer, eram, bem como sua barba, que ele usava como um colar, espessos, crespos e pintalgados aqui e ali por alguns fios brancos. Sua pele, naturalmente morena, cobrira-se de uma nova camada de cor marrom, em virtude do hábito que o pobre-diabo adquirira de ficar de manhã até de noite na soleira da porta para ver se, a pé ou de coche, não lhe chegava algum freguês; espera quase sempre infrutífera, durante a qual ele não opunha à ardência devoradora do sol outra proteção para o rosto além de um lenço vermelho amarrado na cabeça, à maneira dos muleiros espanhóis. Esse homem era o nosso velho conhecido Gaspard Caderousse.

Sua mulher, cujo nome de solteira era Madeleine Radelle, ao contrário dele tornara-se uma mulher pálida, magra e doentia. Nascida nas cercanias de Arles, vira, ao mesmo tempo em que conservava os traços primitivos da beleza tradicional dos compatriotas, seu rosto se deteriorar lentamente pelo acesso quase contínuo de uma dessas febres latentes tão comuns entre as populações vizinhas dos lagos de Aigue-Mortes e dos pântanos da Camargue. Mantinha-se portanto quase sempre sentada e trêmula no fundo do seu quarto, situado no primeiro andar, estendida numa poltrona ou recostada em sua cama, enquanto o marido montava sua guarda habitual na porta: guarda que ele prolongava tanto mais de bom grado na medida em que, ao se ver na companhia de sua mal-humorada cara-metade, esta sempre o perseguia com eternas lamúrias contra o destino, lamúrias às quais o marido respondia geralmente com estas meras palavras filosóficas:

— Cale-se, Carconte! É a vontade de Deus.

Esse apelido devia-se ao fato de que Madeleine Radelle nascera na aldeia de Carconte, situada entre Salon e Lambesc. Ora, obedecendo a uma tradição da região, que dita que designemos quase sempre as pessoas por um apelido em vez de pelo nome, seu marido substituíra Madeleine por este, mais suave e melodioso talvez, para seu rústico linguajar.

— Cale-se, Carconte! É a vontade de Deus.

Entretanto, apesar dessa suposta resignação aos decretos da Providência, não acreditemos que nosso estalajadeiro não sentisse profundamente o estado de miséria a que o reduzira aquele maldito canal de Beaucaire, ou que fosse invulnerável às lamúrias incessantes com que sua mulher o perseguia. Era, como todos os meridionais, um homem sóbrio e sem grandes necessidades, mas vaidoso nas coisas exteriores. Na época de sua prosperidade, por exemplo, não deixava passar uma tourada, nem uma procissão da

Tarasca3, sem comparecer levando a Carconte, ele no traje pitoresco dos homens do Midi, com algo de catalão e andaluz ao mesmo tempo; ela na encantadora roupa típica das mulheres de Arles, a qual parece emprestada da Grécia e da Arábia. Pouco a pouco, no entanto, correntes de relógios, colares, faixas multicoloridas, decotes bordados, casacos de veludo, meias de marcas elegantes, perneiras coloridas e sapatos com fivelas de prata haviam desaparecido; Gaspard Caderousse, não podendo mais se mostrar à altura de seu esplendor passado, desistira

por ele e pela mulher de todas essas pompas mundanas, cujos rumores alegres, surdamente roendo-se por dentro, ele ouvia ecoar até sua pobre estalagem, que insistia em manter, mais como um abrigo que um investimento.

Caderousse ficara portanto, como de costume, uma parte da manhã em frente à porta, passeando seu olhar melancólico de um pequeno gramado careca, onde ciscavam algumas galinhas, até as duas pontas do caminho deserto, que embicava de um lado para o Midi e do outro para o norte.

Então, de repente, a voz azeda da mulher obrigou-o a deixar o posto. Ele voltou resmungando e subiu ao primeiro andar, deixando contudo a porta escancarada, como para convidar os viajantes a não esquecê-la ao passarem.

No momento em que Caderousse entrava, a longa estrada que mencionamos, percorrida por seus olhares, estava tão nua e solitária quanto o deserto ao meio-dia; estendia-se, branca e infinita, entre dois renques de árvores esqueléticas, e compreendia-se perfeitamente por que nenhum viajante, livre para escolher outra hora do dia, se arriscaria naquele apavorante Saara.

Entretanto, a despeito de todas as probabilidades, se tivesse permanecido em seu posto, Caderousse teria visto despontar, para o lado de Bellegarde, um cavaleiro e um cavalo chegando naquela andadura honesta e amistosa que indica as melhores relações entre o cavalo e o cavaleiro; o primeiro era um cavalo húngaro, deslocando-se agradavelmente a furta-passo; o segundo era um abade trajando preto e com um chapéu-de-três-bicos, malgrado o calor devorador do sol então a pino; iam ambos apenas num trote mais que razoável.

Ao chegar diante da porta, detiveram-se: teria sido difícil saber se foi o cavalo que parou o homem ou o homem, o cavalo; em todo caso, o cavaleiro apeou e, puxando o animal pela rédea, foi prendê-lo em um basculante escalavrado que possuía apenas uma alavanca; depois, avançando para a porta e enxugando sua fronte reluzente de suor com um lenço de algodão vermelho, o abade bateu três vezes na soleira com a ponta metálica da bengala que segurava.

Logo um grande cachorro preto levantou-se e deu alguns passos, latindo e mostrando seus dentes brancos e aguçados; dupla demonstração hostil que comprovava sua falta de traquejo com a sociedade.

Não demorou e um passo pesado sacudiu a escada de madeira colada na parede; por ela descia, curvado e se arrastando, o anfitrião da modesta estalagem à porta da qual estava o abade.

— Cá estou — gritava Caderousse espantadíssimo —, cá estou! Quer se calar, Margottin! Não tenha medo, senhor, ele ladra mas não morde.

Deseja vinho, pois não? Afinal, o calor está indecente... Ah, perdão —

interrompeu Caderousse, percebendo o tipo de viajante com que lidava —, perdão, não sabia a quem eu tinha a honra de receber; o que deseja, o que exige, sr. abade? Estou às suas ordens.

O abade fitou aquele homem durante dois ou três segundos com uma atenção estranha, procurando inclusive atrair a atenção do hoteleiro para si; depois, ao perceber que os traços deste não exprimiam outro sentimento senão a surpresa de não receber resposta, julgou que era hora de acabar com aquela surpresa e disse com um forte sotaque italiano:

— Não é o signore Caderousse?

— Sim, senhor — disse o estalajadeiro, talvez ainda mais espantado com a pergunta do que ficara com o silêncio —, sou ele mesmo; Gaspard Caderousse, para servi-lo.

— Gaspard Caderousse... sim, creio que são estes o nome e o sobrenome; o senhor morava antigamente na rua Allées de Meilhan, não é mesmo? No quarto andar?

— Exatamente.

— E exercia a profissão de alfaiate?

— Sim, mas a coisa acabou mal: faz tanto calor naquela maldita Marselha que vão acabar, creio, não vestindo mais nada. Mas, a propósito do calor, não deseja algo para refrescar, sr. abade?

— Aceito, dê-me uma garrafa do seu melhor vinho, por favor, e retomaremos a conversa onde a deixamos.

— Como for do seu agrado, sr. abade — disse Caderousse.

E para não perder essa oportunidade de dar vazão a uma das últimas garrafas de vinho de Cahors que lhe restavam, Caderousse correu para erguer um alçapão que havia no próprio piso dessa espécie de cômodo térreo, que servia ao mesmo tempo de sala e cozinha.

Ao fim de cinco minutos, quando ele reapareceu, encontrou o abade sentado num escabelo, o cotovelo apoiado numa mesa comprida, enquanto Margottin, parecendo ter feito as pazes com ele ao ouvir que, contrariando

a rotina, aquele peculiar forasteiro iria tomar alguma coisa, alongava sobre sua coxa o pescoço pelado e o olho langoroso.

— O senhor vive sozinho? — perguntou o abade a seu anfitrião, enquanto este colocava diante dele a garrafa de vinho.

— Oh, meu Deus, sim! Sozinho ou quase isso, sr. abade, pois tenho minha mulher, que não pode ajudar em nada, considerando que está sempre doente, a coitada da Carconte.

— Ah, é casado! — disse o abade, com uma espécie de interesse e lançando à sua volta um olhar que parecia avaliar, em seu mísero valor, o parco mobiliário do infeliz casal.

— Percebe que não sou rico, não é, sr. abade? — disse Caderousse, suspirando. — Mas, que quer!? Não basta ser um homem honesto para prosperar neste mundo.

O abade deteve sobre ele um olhar penetrante.

— Sim, homem honesto; disso posso me vangloriar, senhor —

continuou o estalajadeiro, sustentando o olhar do abade com uma das mãos no peito e balançando a cabeça de cima para baixo —, e nos dias de hoje nem todo mundo pode dizer o mesmo.

— Melhor ainda se aquilo de que se vangloria for verdade — disse o abade —, pois, cedo ou tarde, tenho a firme convicção, o homem honesto é recompensado e o mau, castigado.

— É sua condição que o leva a dizer isso, é sua condição que o leva dizer isso — repetiu Caderousse, com uma expressão amarga. — Em todo caso, somos livres para não acreditar no que diz.

— Está errado em falar assim, cavalheiro — disse o abade —, pois daqui a pouco talvez eu próprio venha a lhe servir de prova do que afirmo.

— Que quer dizer com isso? — perguntou Caderousse, espantado.

— Quero dizer que antes de tudo preciso me certificar de que o senhor é aquele com quem devo lidar.

— Que provas quer que eu lhe dê?

— Conheceu em 1814 ou 1815 um marujo chamado Dantès?

— Dantès...! Se conheci esse pobre Edmond? Quer a minha palavra? Era inclusive um dos meus melhores amigos! — exclamou Caderousse, cujo rosto era invadido por um vermelho arroxeado, enquanto o olho claro do abade parecia se dilatar, abrangendo por inteiro aquele a quem interrogava.

— É, creio que se chamava realmente Edmond.

— Se ele se chamava Edmond, o menino! Quer a minha palavra? Tão verdadeira quanto me chamo Gaspard Caderousse! E o que aconteceu com ele, senhor, esse coitado do Edmond? — continuou o estalajadeiro. — Por acaso o teria conhecido? Ainda vive? Está livre? É feliz?

— Morreu prisioneiro, mais desesperado e miserável que os forçados que arrastam sua bola de ferro na prisão de Toulon.

Uma palidez mortal sucedeu em Caderousse o rubor que antes dele se apoderara. Ele virou o rosto e o abade percebeu que enxugava uma lágrima com o canto do lenço vermelho que lhe servia de chapéu.

— Pobre menino! — murmurou Caderousse. — Pois bem! Eis mais uma prova do que eu lhe dizia, sr. abade, que o bom Deus só era bom para os maus. Ah — continuou Caderousse, com aquele linguajar pitoresco da gente do Midi —, o mundo vai de mal a pior, que caiam então do céu dois dias de pólvora e uma hora de fogo, e que tudo se acabe!

— O senhor parece gostar desse menino do fundo do coração, senhor...

— especulou o abade.

— Sim, gostava muito dele — confirmou Caderousse —, embora deva me censurar por ter invejado sua felicidade uma vez. Mas desde então, juro, palavra de Caderousse, lastimei muito sua má sorte.

Fez-se um instante de silêncio durante o qual o olhar fixo do abade não parou um instante de interrogar a fisionomia volúvel do estalajadeiro.

— E conheceu o pobre menino? — continuou Caderousse.

— Fui chamado ao seu leito de morte para lhe oferecer os últimos consolos da religião — respondeu o abade.

— E qual foi a causa da morte? — perguntou Caderousse com uma voz estrangulada.

— E de que se morre na prisão, quando se morre dentro dela com trinta anos, senão da própria prisão?

Caderousse enxugou o suor que escorria em sua testa.

— O que há de estranho em tudo isso — volveu o abade — é que Dantès, em seu leito de morte, pelo Cristo cujos pés beijou, sempre me jurou que ignorava a verdadeira causa do seu cativeiro.

— É verdade, é verdade — murmurou Caderousse —, ele não podia sabê-lo; não, sr. abade, o pobre menino não estava mentindo.

— Por isso ele me encarregou de esclarecer seu infortúnio, que ele próprio nunca conseguira esclarecer, e reabilitar sua memória, se porventura essa memória estivesse manchada.

E o olhar do abade, tornando-se cada vez mais fixo, devorou a expressão quase sombria estampada no rosto de Caderousse.

— Um inglês rico — continuou o abade —, seu companheiro de infortúnio e que saiu da prisão na segunda Restauração, possuía um diamante de grande valor. Ao sair da prisão, quis deixá-lo para Dantès, que, numa doença, cuidara dele como um irmão, como testemunho de sua gratidão. Dantès, em vez de usá-lo para subornar seus carcereiros, que aliás podiam pegá-lo e traí-lo depois, conservou-o sempre zelosamente para o caso de vir a sair da prisão; pois, se isso acontecesse, sua fortuna estaria assegurada com a simples venda do tal diamante.

— Era então, como o senhor diz — perguntou Caderousse, com olhos ardentes —, um diamante de grande valor?

— Tudo é relativo — retrucou o abade —, de um grande valor para Edmond; o diamante estava avaliado em cinqüenta mil francos.

— Cinqüenta mil francos! — disse Caderousse. — Mas então era grande como uma noz?

— Não, não desse jeito, mas vai julgar por si mesmo, pois tenho-o comigo. Caderousse pareceu procurar sob as roupas do abade a jazida a que este se referia.

O abade tirou do bolso uma caixinha de escumilha preta, abriu-a e fez brilhar aos olhos fascinados de Caderousse a faiscante maravilha admiravelmente engastada num anel.

— E isso vale cinqüenta mil francos?

— Sem o engaste, que tem também o seu valor — disse o abade.

E fechou o escrínio, recolocando no bolso o diamante que continuou a faiscar no fundo do pensamento de Caderousse.

— Mas como esse diamante foi parar em suas mãos, sr. abade? —

perguntou Caderousse. — Edmond então o fez seu herdeiro?

— Não, mas seu executor testamentário. “Eu tinha três bons amigos e uma noiva, ele me disse: todos os quatro, tenho certeza, lamentam amargamente por mim: um desses bons amigos chamava-se Caderousse.”

Caderousse estremeceu.

“— O outro” — continuou o abade, sem dar mostras de perceber a emoção de Caderousse —, “o outro chamava-se Danglars; o terceiro” —

acrescentou —, “embora meu rival, também gostava de mim.”

Um sorriso diabólico iluminou os traços de Caderousse, que fez um gesto para interromper o abade.

— Espere — disse o abade —, deixe-me terminar, e se tiver alguma observação a fazer, faça-a daqui a pouco. “O outro, embora meu rival, também gostava de mim e se chamava Fernand; quanto à minha noiva, seu nome era...” Não me lembro do nome da noiva.

— Mercedes — disse Caderousse.

— Ah, sim, é isso — continuou o abade, com um suspiro abafado —, Mercedes.

— E então? — perguntou Caderoussse.

— Passe-me a garrafa d’água — disse o abade. Caderousse apressou-se a obedecer.

O abade encheu o copo e deu uns goles.

— Onde estávamos? — perguntou ele, descansando o copo na mesa.

— A noiva chamava-se Mercedes.

— Sim, é isso. “O senhor irá a Marselha...” Ainda é Dantès falando, compreende?

— Perfeitamente.

— “O senhor venderá esse diamante, fará cinco cotas e irá dividi-las entre esses bons amigos, as únicas criaturas que me amaram na Terra!”

— Como cinco cotas? — disse Caderousse. — O senhor nomeou apenas quatro pessoas.

— Porque a quinta está morta, pelo que me disseram... A quinta era o pai de Dantès.

— Pesarosamente! Sim — disse Caderousse, movido pelas paixões que se entrechocavam dentro dele —, pesarosamente! Sim, o pobre homem, está morto.

— Soube desse fato em Marselha — respondeu o abade, fazendo um esforço para parecer indiferente —, mas essa morte aconteceu há tanto tempo que não consegui colher nenhum detalhe... O senhor saberia alguma coisa sobre o fim desse velho?

— Ora essa! — disse Caderousse. — Quem pode saber disso melhor que eu? Eu morava porta a porta com o bom homem... Oh, meu Deus! Sim: quase um ano depois do desaparecimento do

filho4, o coitado do velho morreu!

— Mas morreu de quê?

— Os médicos chamaram sua doença de... gastroenterite, acho; quem o conhecia disse que morreu de sofrimento... e eu, que quase o vi morrer, digo que ele morreu...

Caderousse se interrompeu.

— Morreu de quê? — retomou o abade, ansiosamente.

— Pois bem! Morreu de fome!

— De fome!? — exclamou o abade, dando um pulo de seu escabelo.

— De fome! Os mais vis animais não morrem de fome! Os cães que erram pelas ruas encontram a mão piedosa que lhes atira um pedaço de pão; e um homem, um cristão, morre de fome no meio de outros homens que se dizem cristãos como ele! Impossível! Oh, impossível!

— O que eu disse está dito — continuou Caderousse.

— E está errado — disse uma voz na escada —, em que está se intrometendo?

Os dois homens se voltaram e viram, através dos balaústres da escada, a cabeça doentia da Carconte; ela se arrastara até ali e escutava a conversa sentada no último degrau, com a cabeça apoiada nos joelhos.

— Em que você está se intrometendo pergunto eu, mulher — retrucou Caderousse. — O cavalheiro pede informações, a boa educação manda que eu as dê.

— Sim, mas a prudência manda que você as recuse. Quem sabe com que intenção querem lhe fazer falar, imbecil?

— Com uma excelente, senhora, por isso respondo eu — disse o abade.

— Seu marido, portanto, nada tem a temer; deixe-o responder francamente.

— Nada a temer... sei! No início, são belas promessas, então simplesmente nos dizem para nada temer, e depois vão embora sem cumprir coisa alguma do que prometeram; uma bela manhã a desgraça cai sobre o pobre mundo sem que saibamos de onde vem.

— Fique tranqüila, boa mulher, asseguro-lhe que a desgraça não lhes atingirá por meu intermédio.

A Carconte resmungou algumas palavras que não se conseguiu ouvir, deixou cair sobre os joelhos sua cabeça por um instante erguida e continuou a tremer de febre, deixando seu marido livre para continuar a conversa, mas acomodada de maneira a não perder uma palavra.

Durante esse tempo, o abade bebera alguns goles d’água e havia se recomposto.

— Quer dizer — prosseguiu ele — que o infeliz velhinho estava abandonado desse jeito por todos para morrer de uma morte dessas?

— Oh, senhor — continuou Caderousse —, não foram nem Mercedes, a catalã, nem o sr. Morrel que o abandonaram; mas o pobre velho tomou-se de uma antipatia profunda por Fernand, este mesmo — continuou Caderousse, com um sorriso irônico — que Dantès lhe disse ser um de seus amigos.

— Não era então? — disse o abade.

— Gaspard! Gaspard! — murmurou a mulher do alto da escada. —

Preste atenção ao que vai dizer.

Caderousse fez um gesto de impaciência e, sem dar outra resposta àquela que o interrompia, respondeu ao abade:

— Alguém pode ser amigo de quem cobiça sua mulher? Dantès, que tinha um coração de ouro, chamava todas essas pessoas de amigas...

Coitado do Edmond! Na realidade, foi melhor que ele nada soubesse; teria-lhe sido muito difícil perdoá-los na hora da morte... E, digam o que disserem — continuou Caderousse, em seu linguajar a que não faltava uma espécie de poesia rude —, ainda tenho mais medo da maldição dos mortos que do ódio dos vivos.

— Imbecil! — disse a Carconte.

— Então o senhor sabe — continuou o abade — o que Fernand fez contra Dantès.

— Sim, acho que sei muito bem.

— Fale então.

— Gaspard, faça o que quiser, você é o chefe da casa — disse a mulher

—, mas se confiasse em mim não diria nada.

— Dessa vez, acho que tem razão, mulher — disse Caderousse.

— Então não quer dizer nada? — perguntou o abade.

— Para quê? — disse Caderousse. — Se o menino estivesse vivo e viesse me procurar para saber de uma vez por todas quem são seus amigos e inimigos, não digo que não; mas ele está embaixo da terra, pelo que me diz, não pode mais odiar, não pode mais se vingar. Apaguemos tudo isso.

— Então quer — disse o abade — que eu dê a essas pessoas, que o senhor dá por indignas e falsos amigos, uma recompensa destinada à fidelidade?

— É verdade, tem razão — disse Caderousse. — Aliás, que significaria para eles agora o legado do coitado do Edmond? Uma gota d’água caindo no mar!

— Sem contar que essas pessoas podem esmagá-lo com um gesto —

disse a mulher.

— Como assim? Essas pessoas então se tornaram ricas e poderosas?

— Quer dizer que o senhor não conhece sua história?

— Não, conte-me.

Caderousse pareceu refletir um instante.

— Não, na verdade — ele disse —, seria muito longo.

— Tem a liberdade de se calar, meu amigo — disse o abade, no tom da mais profunda indiferença —, e respeito seus escrúpulos; aliás, sua atitude é a de um homem realmente bom: não toquemos mais no assunto, então.

De que estava eu encarregado? De uma mera formalidade. Venderei então o diamante.

E tirou o diamante do bolso, abriu o escrínio e o fez brilhar aos olhos deslumbrados de Caderousse.

— Ora, venha ver, mulher! — chamou este, com uma voz rouca.

— Um diamante! — exclamou a Carconte, levantando-se e descendo num passo firme a escada. — Que diabos de diamante é esse?

— Não ouviu, mulher? — disse Caderousse. — É um diamante que o menino nos legou: para seu pai primeiro, para seus três amigos, Fernand, Danglars e eu, e para Mercedes, sua noiva. O diamante vale cinqüenta mil francos.

— Oh, que bela jóia! — ela disse.

— O quinto dessa soma então nos pertence?

— Sim, cavalheiro — respondeu o abade —, mais a parte do pai de Dantès, que me julgo autorizado a dividir por quatro.

— E por que para os quatro? — perguntou a Carconte.

— Por que eram os quatro amigos de Edmond.

— Amigos não são aqueles que traem! — murmurou surdamente por sua vez a mulher.

— Pois é, pois é — disse Caderousse —, era o que eu dizia: é quase uma profanação, quase um sacrilégio, recompensar a traição, o crime talvez.

— Terá sido o senhor que assim o quis — prosseguiu tranqüilamente o abade, recolocando o diamante no bolso de sua batina. — Agora me dê o endereço dos amigos de Edmond a fim de que eu possa executar suas últimas vontades.

O suor escorria em pesadas gotas da testa de Caderousse; ele viu o abade se levantar, dirigir-se para a porta, como que para dar uma olhada de aviso

a seu cavalo, e voltar.

Caderousse e sua mulher entreolharam-se com uma expressão indescritível.

— O diamante ficaria todinho para nós — disse Caderousse.

— Você acha? — respondeu a mulher.

— Um homem da Igreja não iria nos enganar.

— Faça como quiser — disse a mulher — eu é que não vou me intrometer.

E voltou em direção à escada tremendo, sempre resmungando; seus dentes batiam, apesar do forte calor que fazia.

No último degrau, ela se deteve por um instante.

— Pense bem, Gaspard! — alertou.

— Já decidi — disse Caderousse.

A Carconte entrou no quarto soltando um suspiro; ouviu-se o teto gritar sob seus passos até ela alcançar sua poltrona, na qual caiu pesadamente.

— O senhor decidiu o quê? — perguntou o abade.

— Dizer-lhe tudo — respondeu Caderousse.

— Creio, na verdade, que é o melhor a fazer — disse o abade. — Não que eu quisesse saber as coisas que o senhor gostaria de me ocultar: mas, enfim, se puder me levar a distribuir o legado segundo os anseios do testador, será melhor.

— Assim espero — respondeu Caderousse, com as faces inflamadas pelo rubor da esperança e da cupidez.

— Estou ouvindo — disse o abade.

— Espere — replicou Caderousse —, poderíamos ser interrompidos no ponto mais interessante, o que seria desagradável; aliás, ninguém precisa saber que o senhor esteve aqui.

E foi até a porta da estalagem e a fechou, nela colocando, por uma precaução extra, a barra noturna.

Durante esse tempo, o abade escolhera um lugar para ouvir confortavelmente; sentara-se num canto, de maneira a permanecer na sombra, enquanto a luz bateria em cheio no rosto de seu interlocutor. Com a cabeça inclinada, as mãos postas, ou melhor, crispadas, ele se preparava para ouvir com o máximo de atenção.

Caderousse aproximou um escabelo e sentou à sua frente.

— Lembre-se que não o estou forçando a nada! — disse a voz trêmula da Carconte, como se através do assoalho pudesse ver a cena que se

anunciava.

— Está bem, está bem — disse Caderousse —, não falemos mais nisso; assumo toda a responsabilidade.

E começou.