O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 87 de 119

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O Conde de Monte Cristo

8. A viagem

Depois, vendo que o rapaz ia soçobrar novamente na melancolia:

— Vamos, Albert — disse-lhe —, se confia em mim, vamos sair; uma volta pelo Bois, de faeton ou a cavalo, irá distraí-lo. Depois voltaremos e almoçaremos em algum lugar, você irá para as suas coisas, eu para as minhas.

— De acordo — disse Albert —, mas vamos a pé, acho que um pouco de cansaço me faria bem.

— Que seja! — aceitou Beauchamp.

E os dois amigos, saindo a pé, seguiram o bulevar. Ao chegarem à Madeleine, Beauchamp disse:

— Ora, já que estamos no caminho, vamos fazer uma visitinha ao sr. de Monte Cristo, ele o distrairá. É o homem perfeito para restaurar nosso espírito, na medida em que nunca faz muitas perguntas. Ora, na minha opinião, as pessoas que não fazem perguntas são os mais hábeis consoladores.

— Está bem. — disse Albert. — Vamos até lá, gosto dele.

1 “de uma república, de um reino e de um império”: a república da Helvécia, o reino da Lombardia e o Império Otomano.

8. A viagem

Monte Cristo deu um grito de alegria ao ver os dois moços juntos.

— Ah, ah! — disse ele. — Muito bem, então foi tudo esclarecido e conversado, espero?

— Sim — respondeu Beauchamp —, boatos absurdos que se desfizeram por si só e que, agora, caso se renovassem, teriam a mim como primeiro antagonista. Portanto, não falemos mais disso.

— Albert lhe dirá — retomou o conde — que foi o conselho que lhe dei.

A propósito — acrescentou —, encontram-me terminando a manhã mais execrável da minha vida, acho.

— O que está fazendo? — perguntou Albert. — Organizando seus papéis? Ao que parece...

— Graças a Deus, não são meus! Em meus papéis sempre reina uma ordem maravilhosa, visto que não tenho papéis. Estes são documentos do sr. Cavalcanti.

— Do sr. Cavalcanti? — perguntou Beauchamp.

— Ora! Não conhece o jovem patrocinado pelo conde? — perguntou Morcerf.

— Alto lá, vamos ser claros — respondeu Monte Cristo —, não patrocinei ninguém, muito menos o sr. Cavalcanti.

— E que vai se casar com a srta. Danglars no meu lugar; o que —

continuou Albert, tentando sorrir —, como naturalmente deve suspeitar, meu querido Beauchamp, me afeta cruelmente.

— Como!? Esse Cavalcanti vai se casar com a srta. Danglars? —

perguntou Beauchamp.

— Ora essa! Por acaso está chegando do fim do mundo? — indagou Monte Cristo. — O senhor, um jornalista, o arauto da boataria! Toda Paris só fala disso.

— E é o senhor, conde, quem promove esse casamento? — perguntou Beauchamp.

— Eu? Oh, cale-se, sr. noticiarista, não vá espalhar uma coisa dessas!

Eu? Misericórdia! Promover um casamento? Não, o senhor não me conhece. Ao contrário, opus-me a ele com todas as minhas forças, recusei-me a fazer o pedido.

— Ah, compreendo — disse Beauchamp —, por causa do nosso amigo Albert?

— Por minha causa? — disse o rapaz. — Oh, pelo amor de Deus! O

conde irá me fazer a justiça de atestar que sempre lhe supliquei, ao contrário, para romper o meu compromisso, que felizmente foi rompido. O

conde sugere que não é a ele que devo agradecer; pois seja,

erigirei, como os antigos, um altar Deo ignoto1.

— Ora — disse Monte Cristo —, tanto não tenho nada a ver com isso que estou estremecido com o sogro e com o rapaz. Apenas a srta. Eugénie, que me parece não ter uma vocação profunda para o casamento, vendo como eu estava pouco disposto a fazê-la desistir de sua preciosa liberdade, conservou a afeição por mim.

— E está a dizer que esse casamento está prestes a se realizar?

— Oh, meu Deus! Sim, apesar de todos os meus alertas! Quanto a mim, não conhecia o moço. Dizem-no rico e de boa família, mas a meu ver essas coisas são simples fofocas. Repeti isso à exaustão ao sr. Danglars, mas ele está enfeitiçado pelo seu cidadão de Lucca. Cheguei inclusive a lhe comunicar uma circunstância que, para mim, era mais grave: o rapaz foi trocado quando bebê, raptado por ciganos ou abandonado pelo preceptor, não sei ao certo. O que sei é que seu pai perdeu-o de vista há mais de dez anos; o que ele fez nesses dez anos de vida errante, só Deus sabe. Pois bem! De nada adiantou. Encarregaram-me de escrever ao major para lhe pedir os documentos; aqui estão eles. Irei enviá-los, mas, como Pilatos, lavo as mãos.

— E a srta. d’Armilly — perguntou Beauchamp —, que cara fez para o senhor, que lhe rouba a aluna?

— Nem lhe conto! Não sei muito bem, mas parece que está de partida para a Itália. A sra. Danglars me falou sobre ela e me pediu cartas de recomendação para os impresarii. Escrevi umas linhas para o diretor do Teatro Valle, que me deve uns favores. Mas o que tem, sr. Albert? Parece triste; será que, sem saber, está apaixonado pela srta. Danglars?

— Não que eu saiba — disse Albert, sorrindo tristemente.

Beauchamp foi admirar os quadros.

— Agora conversemos — continuou Monte Cristo —, o senhor não está no seu normal. O que há? Pode dizer.

— Estou com enxaqueca.

— Ora, ora, meu caro visconde — disse Monte Cristo —, nesse caso tenho um remédio infalível para lhe oferecer: um remédio que sempre funcionou comigo diante de alguma contrariedade.

— E qual é? — perguntou o rapaz.

— A mudança de ares.

— Verdade? — perguntou Albert.

— Sim; e veja, como neste momento estou mais que contrariado, vou mudar de ares. Deseja me acompanhar?

— O senhor, contrariado, conde! — exclamou Beauchamp. — E com o quê?

— Que graça! O senhor fala como se estivesse fora do mundo. Queria muito vê-lo com uma investigação sendo realizada na sua casa!

— Uma investigação! Que investigação?

— A que o sr. de Villefort está fazendo contra o meu amável assassino, uma espécie de salteador foragido, ao que parece.

— Ah, é verdade — disse Beauchamp —, li a notícia nos jornais. E

quem é esse tal de Caderousse?

— Bem... tudo indica ser um provençal. O sr. de Villefort ouviu falar dele quando estava em Marselha, e o sr. Danglars lembra-se de ter estado com ele. Daí resulta que o sr. procurador do rei assume o caso com muito afinco, o qual, ao que parece, interessa sobremaneira o chefe de polícia, e que, graças a esse interesse que tanto me enaltece, há quinze dias despacham para cá todos os bandidos que conseguem catar em Paris, ou nos arredores, a pretexto de que são os assassinos do sr. Caderousse. Daí resulta que, nestes três meses, se isso continuar, não haverá ladrão ou assassino neste belo reino de França que não conheça a planta da minha casa na palma da mão. Por conseguinte, tomei o partido de abandoná-la completamente e ir para tão longe quanto a terra puder me carregar. Venha, visconde, levo-o comigo.

— Será uma satisfação.

— Então, combinado?

— Sim, mas para onde?

— Já lhe disse, para onde o ar é puro, para onde o barulho adormece, para onde, por mais orgulhosos que sejamos, sentimo-nos humildes e nos julgamos pequenos. Gosto desse rebaixamento,

eu, considerado o senhor do universo como Augusto2.

— Aonde vai, afinal?

— Ao mar, visconde, ao mar. Sou um marujo, veja só; ainda criança, fui embalado nos braços do venerável Oceano e no seio da bela

Anfitrite3;

brinquei com o manto verde de um e com o vestido azulado da outra; amo

o mar como a uma amante e, quando fico muito tempo sem vê-lo, sinto sua falta.

— Vamos, conde, vamos!

— Ao mar?

— Sim.

— Aceita?

— Aceito.

— Ótimo, visconde, haverá esta noite, no meu pátio, um briska4 de viagem, no qual é possível deitar como em sua cama; esse briska estará atrelado com quatro cavalos de posta. Sr. Beauchamp, cabem quatro confortavelmente. Quer vir conosco? Eu o levo!

— Obrigado, acabo de chegar do mar.

— Como! Está vindo do mar?

— Mais ou menos. Acabo de fazer uma viagenzinha às ilhas dos

Borromeus5.

— E daí! Venha mesmo assim — insistiu Albert.

— Não, caro Morcerf, você deve entender. A partir do momento em que recuso, a coisa é impossível. Aliás, é importante — acrescentou, abaixando a voz — eu permanecer em Paris, nem que seja para vigiar a correspondência do jornal.

— Ah, você é um excelente amigo! — disse Albert. — Sim, tem razão, vigie, com atenção redobrada, Beauchamp, e tente descobrir o inimigo a quem se deve essa revelação.

Albert e Beauchamp despediram-se. Aquele último aperto de mão encerrava todos os sentidos que seus lábios não podiam exprimir diante de um estranho.

— Excelente rapaz esse Beauchamp! — disse Monte Cristo, após a saída do jornalista. — Não acha, Albert?

— Oh, sim, um homem de bom coração, asseguro-lhe. Também gosto dele com toda a força da minha alma. Mas, agora que estamos sozinhos, embora para mim seja indiferente, para onde vamos?

— Para a Normandia, se não se opuser.

— Magnífico. Vamos ficar em pleno campo, não é? Nada de gente, nada de vizinhos?

— Ficaremos a sós, com cavalos para correr, cães para caçar e um bote para pescar, isso é tudo.

— É exatamente o que preciso. Avisarei a minha mãe e estou às suas ordens.

— Mas — disse Monte Cristo —, será que lhe darão a permissão?

— Para quê?

— Para ir à Normandia.

— A mim? E acha que não sou livre?

— Para ir aonde quer, sozinho, sei muito bem, uma vez que o encontrei desgarrado na Itália.

— E então?

— Mas e para viajar com o homem chamado conde de Monte Cristo?

— O senhor tem memória curta, conde.

— Como assim?

— Já não mencionei toda a simpatia que minha mãe nutre pelo senhor?

— Como disse Francisco I, a mulher varia muito, é uma onda, diz

Shakespeare6; um era um grande rei, e o outro, um grande poeta, ambos deviam conhecer a mulher.

— Sim, a mulher; mas a minha mãe não é a mulher, é uma mulher.

— O senhor perdoa um estrangeiro por não compreender plenamente todas as sutilezas de sua língua?

— Quero dizer que minha mãe é econômica em seus sentimentos mas, depois que os concede, é para sempre.

— Ah, é verdade — disse Monte Cristo, suspirando. — E o senhor acha que ela me concede a honra de dispensar-me um sentimento outro que não a mais perfeita indiferença?

— Escute! Já lhe disse e repito — insistiu Morcerf —, o senhor deve ser realmente um homem muito estranho e muito superior.

— Oh!

— Sim, pois minha mãe deixou-se arrebatar, não direi pela curiosidade, mas pelo interesse que o senhor lhe inspira. Quando estamos sozinhos, só falamos do senhor.

— E ela o aconselha a desconfiar desse Manfred7?

— Ao contrário, diz-me: “Morcerf, vejo no conde uma nobre natureza; procure ser amado por ele.”

Monte Cristo desviou os olhos e soltou um suspiro.

— Ah, realmente? — duvidou ele.

— Portanto, pode ver — continuou Albert — que em vez de se opor à minha viagem, ela a aprovará com entusiasmo, pois vai ao encontro das

recomendações que me faz todos os dias.

— Está bem — encerrou Monte Cristo —, até a noite. Esteja aqui às cinco horas; chegaremos lá à meia-noite ou uma hora.

— Como? A Le Tréport...

— A Le Tréport ou nas cercanias.

— Percorre duzentos e cinqüenta quilômetros em apenas oito horas?

— Ainda é muito — disse Monte Cristo.

— Decididamente, o senhor é o homem dos prodígios, assim vai conseguir não apenas superar as ferrovias, o que não é muito difícil, sobretudo na França, mas também andará mais rápido que o telégrafo.

— Até isso acontecer, visconde, continuamos precisando de sete ou oito horas para chegar lá; portanto, seja pontual.

— Fique tranqüilo, não tenho outra coisa para fazer até lá a não ser me preparar.

— Até as cinco, então.

— Até as cinco.

Albert saiu. Monte Cristo, após lhe ter feito, sorrindo, um aceno com a cabeça, permaneceu pensativo e absorto numa profunda meditação.

Finalmente, passando a mão na testa, como que para fugir do devaneio, foi ao gongo e bateu duas vezes.

Ao soar dos dois toques de gongo emitidos por Monte Cristo, Bertuccio entrou.

— Mestre Bertuccio — disse ele —, não é amanhã, não é depois de amanhã, como eu pensara inicialmente, é esta noite que parto para a Normandia; o senhor tem tempo de sobra até as cinco; mande avisar os palafreneiros da primeira escala para a troca dos cavalos. O sr. de Morcerf me acompanha. Vá!

Bertuccio obedeceu, e um picador correu até Pontoise a fim de anunciar que o coche de viagem passaria às seis horas em ponto. O palafreneiro despachou um expresso para a escala seguinte, o qual despachou outro; e, seis horas depois, todas as escalas dispostas no caminho encontravam-se avisadas.

Antes de partir, o conde subiu aos aposentos de Haydée, anunciou-lhe sua partida, disse-lhe o lugar para onde iria e deixou toda a casa aos seus cuidados.

Albert foi pontual. A viagem, sombria no começo, logo se iluminou pelo efeito físico da rapidez. Morcerf nunca imaginara tal velocidade.

— Com efeito — disse Monte Cristo —, com um coche fazendo dez quilômetros por hora, com essa lei estúpida que proíbe os viajantes de fazer ultrapassagens sem pedir licença, e que faz com que um viajante doente ou asmático tenha o direito de prender em sua traseira os viajantes bem-dispostos e saudáveis, não há locomoção possível; da minha parte, evito esse inconveniente viajando com meu próprio postilhão e meus próprios cavalos, não é, Ali?

E o conde, passando a cabeça pela portinhola, lançou um grito que deu asas aos cavalos; estes não corriam mais, voavam. O coche disparava como um trovão pela estrada real, e todos desviavam para ver passar aquele meteoro flamejante. Ali, repetindo o mesmo grito, sorria, mostrando os dentes brancos, apertando as rédeas espumantes em suas mãos fortes, incitando os cavalos, cujas belas crinas espalhavam-se ao vento. Ali, o filho do deserto, achava-se em seu elemento e, com o rosto moreno, os olhos ardentes, o albornoz para a neve, assemelhava-se, em meio à poeira que

levantava, ao gênio do simum8 e ao deus do furacão.

— Aí está — disse Morcerf — uma volúpia que eu não conhecia, é a volúpia da velocidade.

E as últimas nuvens em seu semblante dissiparam-se como se o ar que ele atravessava carregasse essas nuvens consigo.

— Mas onde diabos descobre cavalos como esses? — perguntou Albert.

— Manda-os fabricar sob encomenda?

— Isso mesmo — respondeu o conde. — Há seis anos, descobri na Hungria um famoso puro-sangue conhecido por sua velocidade. Comprei-o nem sei mais por quanto; foi Bertuccio quem pagou. No mesmo ano, ele gerou trinta e duas crias. É toda essa prole do mesmo pai que vamos passar em revista. São todos iguais, negros, sem uma única mancha, exceto uma estrela na cabeça, pois, para esse privilegiado do haras, as éguas foram selecionadas, assim como para um paxá, suas favoritas.

— É admirável! Mas, diga-me, conde, o que faz com todos esses cavalos?

— Como pode ver, viajo com eles.

— Mas não viaja o tempo todo, concorda?

— Quando não me forem mais úteis, Bertuccio irá vendê-los. Ele afirma que podem me render trinta ou quarenta mil francos.

— Mas não existe rei da Europa suficientemente rico para comprá-los.

— Nesse caso, Bertuccio irá vendê-los a um modesto vizir do Oriente, que esvaziará seu tesouro para pagar por eles e que voltará a abastecer esse tesouro ministrando bastonadas na sola dos pés dos seus súditos.

— Conde, posso comunicar-lhe um pensamento que me ocorreu?

— Pois não.

— É que, depois do senhor, o sr. Bertuccio deve ser o cidadão mais rico da Europa.

— Pois o senhor se engana, visconde. Tenho certeza de que se revirasse os bolsos de Bertuccio, não encontraria mais que dez sous.

— Como assim? — perguntou o rapaz. — Então o sr. Bertuccio é um fenômeno? Ah, meu caro conde, não exagere no maravilhoso, caso contrário, aviso-lhe desde já, não acreditarei mais no senhor.

— O maravilhoso nunca se aplica à minha pessoa, Albert. Números e razão, só isso. A propósito, o que me diz deste dilema: um intendente rouba, mas por que rouba?

— Ora, porque é de sua natureza, me parece — disse Albert —, ele rouba por roubar.

— Pois bem, não, está enganado: rouba porque tem mulher, filhos, desejos ambiciosos para si e para a família; rouba sobretudo porque não tem certeza de que ficará para sempre ao lado de seu amo e quer garantir um futuro para si. Pois bem! O sr. Bertuccio não tem ninguém no mundo.

Gasta meu dinheiro sem prestar contas, tem certeza de que nunca vai me deixar.

— Por quê?

— Porque eu não encontraria um melhor.

— O senhor está girando num círculo vicioso, o das probabilidades.

— Oh, em absoluto, estou no terreno das certezas. O bom serviçal, para mim, é aquele sobre o qual tenho direito de vida e de morte.

— E tem direito de vida e de morte sobre Bertuccio? — perguntou Albert.

— Sim — respondeu friamente o conde.

Há palavras que fecham uma conversa qual uma porta de aço. O sim do conde era uma dessas palavras.

O restante da viagem transcorreu com a mesma rapidez; os trinta e dois cavalos, divididos em oito quadrigas, fizeram seus duzentos e cinqüenta quilômetros em oito horas.

No meio da noite, chegaram à porta de um belo parque. O porteiro estava de pé e havia aberto o portão. Fora avisado pelo palafreneiro da última muda.

Eram duas e meia da madrugada. Morcerf foi conduzido até os seus aposentos. Encontrou prontos um banho e uma ceia. O criado, que viera na boléia do último coche, estava às suas ordens. Baptistin, que fizera a viagem na boléia da frente, estava à disposição do conde.

Albert tomou seu banho, ceou e se deitou. Foi embalado a noite inteira pelo rumor melancólico das marolas. Ao despertar, foi direto até a janela, abriu-a e se viu num pequeno terraço, onde tinha, à sua frente, o mar, isto é, a imensidão, e, atrás de si, um belo parque, adjacente a uma pequena floresta.

Numa enseada razoavelmente ampla ondulava uma pequena corveta de casco estreito e mastros arrojados, os quais exibiam na ponta uma bandeira com o brasão de Monte Cristo, que representavam uma montanha de ouro pousada num mar azul, tendo uma cruz vermelha em seu cume, o que podia ser tanto uma alusão a seu nome — alusivo ao monte Calvário, transformado pela Paixão de Nosso Senhor numa montanha mais preciosa que se fosse de ouro, e à cruz infame, que Seu sangue divino santificou —, quanto a alguma lembrança pessoal de sofrimento e regeneração, sepultada na noite do passado misterioso desse homem. Em torno da cruz, diversas canoas pertencentes aos pescadores dos vilarejos vizinhos pareciam humildes súditos à espera das ordens de sua rainha.

Como em todos os lugares onde se detinha o conde de Monte Cristo, nem que fosse para passar dois dias, a vida ali era organizada pelo termômetro do mais confortável possível. Assim, a vida tornava-se fácil instantaneamente.

Albert encontrou em seu vestíbulo dois fuzis e todos os apetrechos necessários a um caçador. Um recinto com pé direito mais alto e situado no rés-do-chão era reservado a todos os engenhosos artefatos que os ingleses, grandes pescadores, porque pacientes e ociosos, ainda não puderam ver adotados pelos renitentes pescadores franceses.

Todo o dia foi gasto nesses exercícios diversos, nos quais, por sinal, Monte Cristo, era um ás. Mataram uma dúzia de faisões no parque, pescaram outras tantas trutas nos ribeirões, jantaram num quiosque com vista para o mar e tomaram o chá na biblioteca.

No cair da noite do terceiro dia, Albert, esgotado e saciado daquela vida que parecia ser um jogo para Monte Cristo, dormia numa poltrona próxima à janela, enquanto o conde fazia, com seu arquiteto, a planta de uma estufa que pretendia instalar na casa. Foi quando o barulho de um cavalo esmagando as pedrinhas da estrada fez a cabeça do rapaz levantar.

Ele olhou pela janela e, com uma surpresa das mais desagradáveis, avistou no pátio seu criado de quarto, a quem havia dispensado para não estorvar Monte Cristo.

— Florentin aqui! — exclamou, dando um pulo na poltrona. — Será que minha mãe está doente?

E se precipitou para a porta do quarto.

Monte Cristo seguiu-o com os olhos e viu-o abordar o criado, que, ainda esbaforido, tirou do bolso um embrulhinho fechado. O embrulhinho continha um jornal e uma carta.

— De quem é essa carta? — perguntou Albert, impaciente.

— Do sr. Beauchamp — respondeu Florentin.

— Foi então o sr. Beauchamp que o mandou até aqui?

— Sim, senhor. Ele me chamou à casa dele, me deu o dinheiro necessário para a viagem, providenciou um cavalo de muda e me fez prometer não parar até encontrar o patrão. Fiz a viagem em quinze horas.

Albert abriu a carta, arrepiado. Às primeiras linhas, deu um grito e pegou o jornal com um tremor visível.

De repente seus olhos se escureceram, suas pernas pareceram bambear e, prestes a cair, ele se apoiou em Florentin, que esticava o braço para ampará-lo.

— Pobre rapaz! — murmurou Monte Cristo, tão baixo que ele mesmo não foi capaz de ouvir o som das palavras de compaixão que pronunciava.

— Fica então atestado que o erro dos pais recairá nos filhos até a

terceira e quarta gerações9.

Durante esse tempo, Albert recobrara as forças e, continuando a ler, sacudiu seus cabelos sobre a testa molhada de suor. Esmigalhando a carta e o jornal, disse:

— Florentin, seu cavalo está em condições de retomar o caminho para Paris?

— É um pangaré estropiado.

— Oh, meu Deus! E como estava a casa quando você saiu?

— Bem calma; porém, ao voltar da casa do sr. Beauchamp, encontrei a patroa aos prantos; ela me perguntou quando o senhor voltaria. Então eu lhe disse que ia procurá-lo da parte do sr. Beauchamp. Seu primeiro gesto foi estender o braço como para me deter; mas, após um instante de reflexão, disse:

“— Sim, Florentin, vá, e que ele volte.”

— Sim, minha mãe, sim — disse Albert —, estou a caminho, fique tranqüila, e maldito o infame...! Mas, antes de tudo, é preciso partir.

Foi até o aposento onde deixara Monte Cristo.

Não era o mesmo homem, cinco minutos haviam bastado para operar em Albert uma triste metamorfose. Saíra de seu temperamento habitual, voltava com a voz alterada, o rosto sulcado por vermelhões febris, o olho faiscando sob pálpebras riscadas por veias azuis e o andar cambaleante de um bêbado.

— Conde — disse ele —, obrigado pela boa hospitalidade, da qual eu gostaria de desfrutar por mais tempo, mas preciso voltar a Paris.

— Aconteceu alguma coisa?

— Uma grande desgraça, mas deixe-me ir, trata-se de uma coisa tão preciosa quanto a minha vida. Não faça perguntas, conde, eu lhe suplico, dê-me um cavalo!

— Minhas cavalariças estão ao seu dispor, visconde — disse Monte Cristo. — Mas vai se matar de cansaço se for montado. Pegue uma caleche, um cupê, um coche qualquer.

— Não, demoraria muito. Além disso, preciso desse cansaço que o senhor receia por mim, ele me fará bem.

Albert deu alguns passos, rodopiando como um homem atingido por uma bala, e foi afundar numa cadeira perto da porta.

 

— De quem é essa carta?

Monte Cristo não percebeu essa segunda fraqueza. Estava na janela e gritava:

— Ali, um cavalo para o sr. de Morcerf; rápido, ele está com pressa!

Essas palavras restituíram vida a Albert, que se arrojou para fora do quarto, seguido pelo conde.

— Obrigado! — murmurou o rapaz, pulando na sela. — Você voltará o mais rápido que puder, Florentin. Há uma senha para que me entreguem os cavalos?

— Nenhuma a não ser entregar o que está montando; outro virá selado imediatamente.

Albert ia arrancar, deteve-se.

— Talvez ache a minha partida estranha, absurda — disse o rapaz. —

Não imagina como algumas linhas escritas num jornal podem deixar um homem desesperado. Pois bem! — acrescentou, lançando-lhe o jornal. —

Leia isto, mas apenas quando eu tiver partido, a fim de que não me veja envergonhado.

Enquanto o conde pegava o jornal, ele enfiou as esporas, que acabavam de ajustar em suas botas, na barriga do cavalo, o qual, surpreso com a existência de um cavaleiro que julgava necessário aplicar nele esse tipo de estimulante, partiu como um tiro de besta.

O conde seguiu o rapaz com os olhos e um sentimento de compaixão infinita, e foi só quando ele desapareceu completamente que, dirigindo os olhos para o jornal, leu estas linhas:

Esse oficial francês a serviço de Ali, paxá de Janina, citado, há três semanas, pelo jornal L’Impartial, e que não apenas entregou os castelos de Janina, como vendeu seu benfeitor aos turcos, chamava-se efetivamente nessa época Fernand, como afirmou nosso preclaro confrade.

Desde então, porém, acrescentou a seu nome de batismo um título de nobreza e um nome de terra.