O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 22 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

20. O cemitério do castelo de If

— Ora, que bobagem — resmungou o médico, com a impiedade

característica das pessoas de sua profissão. — Trata-se de um homem de igreja: Deus respeitará seu status e não dará ao inferno o perverso prazer de lhe entregar um padre.

Uma explosão de risos seguiu-se a essa piada maldosa. Enquanto isso, a operação de amortalhamento prosseguia.

— Até a noite! — disse o diretor, quando a coisa terminou.

— A que horas? — perguntou o atendente.

— Entre dez e onze.

— Velaremos o morto?

— Para quê? Fecharemos a masmorra como se ele estivesse vivo, só isso. Então os passos se afastaram, as vozes se enfraqueceram, o estrépito da porta com suas trancas escandalosas e seus ferrolhos rangentes se fez ouvir; um silêncio mais lúgubre que o da solidão, o silêncio da morte, invadia tudo, penetrando na alma gelada do rapaz.

Ele então ergueu a laje lentamente com a cabeça e lançou um olhar explorador para a cela.

O lugar encontrava-se vazio; Dantès saiu do túnel.

1 Pianosa: ilha distante cerca de vinte quilômetros da ilha de Elba.

20. O cemitério do castelo de If

Na cama, deitado ao comprido e tenuamente iluminado por um dia de neblina que penetrava pela clarabóia, via-se um saco de lona grosseira, sob cujas dobras desenhava-se confusamente uma forma longa e rígida: era a última mortalha de Faria, aquela mortalha que, nas palavras dos atendentes, era tão barata. Dessa forma, tudo terminara. Uma separação material já existia entre Dantès e seu velho amigo; ele não podia mais ver os olhos que haviam permanecido abertos como se para enxergar depois da morte, não podia mais apertar aquela mão industriosa que erguera para ele o véu sobre as coisas ocultas. Faria, o útil, o bom companheiro com quem se dera tão bem, não existia mais senão em sua lembrança. Ele então sentou-se na cabeceira daquela cama terrível e mergulhou numa sombria e amarga melancolia.

Sozinho! Voltara a ser sozinho! Voltara a cair no silêncio, a estar diante do nada!

Sozinho! Sequer a visão, sequer a voz do único ser humano que ainda o prendia à terra! Não era preferível, como Faria, partir para esclarecer junto a Deus o enigma da vida, mesmo arriscando-se a atravessar a porta lúgubre dos sofrimentos?

A idéia do suicídio, afastada pelo amigo, eliminada por sua presença, voltou então a se erguer, como um fantasma, perto do cadáver de Faria.

— Se eu pudesse morrer — pensava Dantès —, iria para onde ele vai e decerto o reencontraria. Mas como morrer? Nada mais fácil —

acrescentou rindo. — Vou ficar aqui, pular em cima do primeiro que entrar, estrangulá-lo e serei guilhotinado.

Porém, como é comum nas horas de grande sofrimento, assim como nas grandes tempestades, o abismo se situar entre a crista de duas ondas, Dantès recuou à idéia daquela morte infamante e passou bruscamente desse desespero para uma sede ardente de vida e liberdade.

— Morrer! Oh, não! — exclamou. — Não teria valido a pena ter vivido tanto, ter sofrido tanto, para morrer agora! Morrer era bom quando eu me propusera a isso, em outros tempos, anos atrás: mas agora seria realmente um pouco demais ajudar o meu miserável destino. Não, quero viver, quero lutar até o fim; quero reconquistar a felicidade que me roubaram! Antes de morrer, não posso esquecer que tenho meus carrascos para castigar e,

talvez, quem sabe, alguns amigos para recompensar. Mas agora irão me esquecer aqui, e só sairei da minha masmorra como Faria.

Ao dizer isso, contudo, Edmond ficou imóvel, os olhos esbugalhados, como um homem golpeado por uma idéia súbita, mas a quem essa idéia apavora; levantou-se de repente, levou a mão à testa como se fosse vítima de uma vertigem, deu duas ou três voltas ao redor da cela e voltou a parar diante da cama...

— Oh, oh! — murmurou. — Quem me envia esse pensamento? Sereis vós, meu Deus? Já que apenas os mortos saem livremente daqui, ocupemos o lugar dos mortos.

E sem se dar tempo de voltar atrás nessa decisão, como que para não dar chance ao pensamento de destruir aquela resolução desesperada, debruçou-se em direção ao saco hediondo, abriu-o com a faca que Faria fabricara, retirou o cadáver do saco, levou-o para sua cela, deitou-o em sua cama, vestiu-o com o farrapo de pano que ele próprio tinha o costume de usar, cobriu-o com sua coberta, beijou uma última vez aquela fronte gelada, tentou fechar aqueles olhos rebeldes, que insistiam em permanecer abertos, aterradores pela ausência de pensamento, girou a cabeça para a parede, de modo a que o carcereiro, ao trazer a refeição da noite, julgasse que ele estava deitado, como era seu hábito, voltou a entrar no túnel, puxou a cama para a muralha, entrou na outra cela, pegou no armário a agulha, a linha, tirou seus andrajos para que sentissem claramente a carne nua sob a lona, enfiou-se no saco rasgado, assumiu a postura do cadáver e fechou a costura por dentro.

Se porventura alguém entrasse naquele momento, poderia ouvir seu coração batendo.

De fato, Dantès poderia ter esperado a visita da noite, mas temia que até lá o diretor mudasse de opinião e levassem o cadáver.

Então sua última esperança estaria perdida.

Em todo caso, agora seu plano estava decidido. Eis o que esperava fazer.

Se durante o trajeto os coveiros constatassem que carregavam um vivo em vez de carregarem um morto, Dantès não lhes daria tempo de caírem em si; com uma vigorosa facada abriria o saco de cima a baixo, aproveitaria o terror deles e escaparia; se quisessem prendê-lo, usaria da faca.

Se o levassem para o cemitério e o depositassem num fosso, deixava-se cobrir de terra; depois, como estaria de noite, assim que os coveiros

tivessem lhe dado as costas, abriria uma passagem através da terra revolvida e fugiria: esperava que o volume não fosse muito pesado a fim de poder erguê-lo.

Caso estivesse enganado, se, ao contrário, a terra fosse pesada demais, morreria sufocado e, tanto melhor!, estava tudo acabado.

Dantès não comera desde a véspera, mas não pensara na fome de manhã e ainda não pensava. Sua posição era muito precária para lhe dar tempo de deter seu pensamento em alguma outra idéia.

O principal perigo que Dantès corria era de o carcereiro, ao levar sua sopa das sete horas, perceber a substituição promovida; felizmente, vinte vezes, fosse por misantropia, fosse por cansaço, Dantès recebera o carcereiro deitado; e, nesse caso, o homem geralmente depositava seu pão e sua sopa na mesa e se retirava sem lhe falar.

Mas, daquela vez, o carcereiro poderia interferir em seu mutismo habitual, dirigir-se a Dantès e, percebendo que ele não lhe respondia, aproximar-se da cama e tudo descobrir.

Quando chegou perto das sete horas da noite, as angústias de Dantès começaram de fato. Com uma das mãos procurava abafar as batidas do coração, enquanto com a outra enxugava o suor de sua testa, que lhe escorria pelas têmporas. De vez em quando calafrios percorriam-lhe o corpo inteiro e lhe apertavam o coração como um torno selado. Achava então que iria morrer. As horas passaram sem que se ouvisse um movimento no castelo, e Dantès compreendeu que escapara do primeiro perigo; era um bom augúrio. Finalmente, na hora estipulada pelo governador, passos se fizeram ouvir na escada. Edmond compreendeu que chegara o momento; invocou toda a sua coragem, prendeu a respiração; quem dera pudesse prender também as pulsações precipitadas de suas artérias.

Detiveram-se à porta, as passadas eram duplas. Dantès presumiu que eram os dois coveiros que vinham buscá-lo. Essa suspeita transformou-se em certeza quando ouviu o barulho que faziam ao pousarem a padiola.

A porta se abriu, uma luz velada atingiu os olhos de Dantès. Através da lona que o cobria, viu duas sombras se aproximarem da cama. Uma terceira, junto à porta, segurava um archote. Cada um dos homens que se haviam aproximado da cama agarrou o saco por uma ponta.

— Como ainda está pesado, para um velho tão magro! — comentou um deles, erguendo-o pela cabeça.

— Dizem que cada ano acrescenta meia libra ao peso dos ossos — disse o outro, pegando-o pelos pés.

— Deu o nó? — perguntou o primeiro.

— Seria muito idiota se o tivesse dado; para que carregarmos peso inutilmente? — disse o segundo. — Darei o nó quando chegarmos.

— Você está certo; então vamos.

“Por que esse nó?”, indagou-se Dantès.

O suposto morto foi carregado da cama para a padiola. Edmond enrijecia-se para melhor representar seu papel de defunto. Foi colocado na padiola; e o cortejo, iluminado pelo homem com o archote, que caminhava à frente, subiu a escada.

De repente o ar frio e áspero da noite o inundou. Dantès reconheceu o mistral. Foi uma sensação súbita, cheia de delícias e angústias ao mesmo tempo.

Os carregadores deram cerca de vinte passos, depois pararam e pousaram a padiola no chão.

Um dos carregadores se afastou e Dantès ouviu seus sapatos ecoarem nas lajes.

“Onde será que estou?”, perguntou-se.

— Não é nada leve esse sujeito! — disse o que permanecera perto de Dantès, sentando-se na beirada da padiola.

O primeiro impulso de Dantès foi o de escapar, felizmente se conteve.

— Ilumine aqui, animal — disse aquele dos dois carregadores que se afastara —, ou nunca encontrarei o que procuro.

O homem com o archote obedeceu à intimação, embora, como vimos, esta tivesse sido feita em termos pouco educados.

“O que será que ele está procurando?”, perguntou-se Dantès. — Uma pá, provavelmente.

Uma exclamação satisfeita indicou que o coveiro encontrara o que procurava.

— Finalmente — disse o outro —, já não era sem tempo.

— Sim — respondeu o primeiro —, embora ele não tenha perdido nada por esperar.

Com essas palavras, aproximou-se de Edmond, que ouviu depositarem perto de si um bloco pesado e ruidoso; no mesmo instante, uma corda apertou seus pés, fazendo uma pressão forte e dolorosa.

— Ótimo! O nó está dado? — perguntou o coveiro que permanecera inativo.

— E muito bem dado; respondo por ele.

— Nesse caso, adiante.

E a padiola, erguida, seguiu adiante.

Deram aproximadamente cinqüenta passos e pararam para abrir uma porta; depois continuaram seu caminho. À medida que avançavam, o barulho das ondas quebrando-se contra os rochedos sobre os quais está assentado o castelo chegava com mais nitidez aos ouvidos de Dantès.

— Que tempo horrível! — disse um dos carregadores. — O mar não deve estar nada acolhedor esta noite.

— É, o abade vai acabar se molhando — disse o outro, e ambos caíram na gargalhada.

Dantès não entendeu muito bem a piada, mas nem por isso deixou de ficar de cabelo em pé.

— Bom, aqui estamos! — disse o primeiro.

— Avance mais, avance mais — disse o outro —, você sabe muito bem que o último ficou no caminho, arrebentado nos rochedos, e que no dia seguinte o diretor falou que éramos preguiçosos.

Deram mais quatro ou cinco passos, continuando a subir, então Dantès sentiu que o agarravam pela cabeça, pelos pés, e que o balançavam.

— Um — disseram os coveiros.

— Dois.

— Três!

Imediatamente Dantès viu-se lançado, sem exagero, num enorme vazio, atravessando os ares como um pássaro ferido, caindo, caindo sem parar, com um terror que lhe gelava o coração. Embora puxado para baixo por alguma coisa pesada que acelerava seu vôo, pareceu-lhe que aquela queda já durava um século. Enfim, com um barulho indescritível, entrou como uma flecha numa água gelada que o fez soltar um grito, calado no mesmo instante pela imersão.

Dantès fora atirado ao mar, para cujo fundo o arrastava uma bola de ferro de dezessete quilos presa nos pés.

O mar é o cemitério do castelo de If.