O Conde de Monte Cristo
2. A ilha de Monte Cristo
Nada foi alterado, portanto, no plano já estabelecido. Estava combinado que deixariam o porto na noite seguinte e que fariam de tudo, o mar
estando bonito e o vento favorável, para se encontrar dali a duas noites nas águas da ilha neutra.
1 Górgona: ilha ao largo de Livorno, comuna na região da Toscana, na Itália.
2 Paoli: Pasquale Paoli (1725-1807), nacionalista corso que liderou os levantes populares contra as dominações genovesa e depois francesa na ilha. É considerado o pai da pátria corsa e o grande mentor da independência corsa no séc.XVIII.
3 Aleria: comuna francesa situada na Alta Córsega, a região setentrional da ilha.
4 “Dor, não és um mal” : palavras atribuídas por Cícero a Posidônio, filósofo grego, quando este recebeu o general Pompeu em Rodes, apesar de uma crise de gota.
5 Pangloss: personagem do romance Candide, de Voltaire. É tutor do protagonista enquanto moram na Alemanha e, depois, acompanha-o em algumas desventuras. Sua crença de que “não há conseqüência sem uma causa”, ou seja, de que tudo no mundo tem uma razão perfeita para existir, não apenas o mantém otimista frente às maiores desgraças, como também o leva a justificá-las.
6 Língua franca: expressão que designa o sabir, idioma que mesclava francês, italiano, espanhol, árabe e turco, muito usado nas relações comerciais entre europeus e os levantinos —
provenientes do Levante, isto é, da região costeira mediterrânica que, grosso modo, ia de Gaza, na Palestina, à Turquia.
2. A ilha de Monte Cristo Finalmente, por uma dessas felicidades inesperadas com que às vezes se deparam aqueles a quem o rigor do destino por tanto tempo fatigou, Dantès iria chegar ao seu objetivo de maneira simples e natural, desembarcando na ilha sem despertar nenhuma suspeita.
Apenas uma noite o separava da partida tão esperada.
Aquela noite foi uma das mais febris da vida de Dantès. Enquanto ela durou, todas as possibilidades, favoráveis ou não, apresentaram-se sucessivamente ao seu espírito. Quando fechava os olhos, via a carta do cardeal Spada escrita em caracteres flamejantes sobre a muralha; quando adormecia por um instante, os sonhos mais loucos rodopiavam no seu cérebro. Descia em cavernas com chão de esmeraldas, paredes de rubis, estalactites de diamantes. As pérolas caíam gota a gota, à maneira como em geral transpira a água subterrânea.
Edmond, fascinado, maravilhado, enchia os bolsos com as pedrarias; depois ele saía para o ar livre, e aquelas pedrarias transformavamse em simples cascalho. Tentava então retornar às cavernas maravilhosas, tão-somente vislumbradas, mas o caminho retorcia-se em espirais infinitas: a entrada voltara a ficar invisível. Ele procurava inutilmente em sua memória cansada a palavra mágica e misteriosa que abria as esplêndidas cavernas de Ali Babá
para o pescador árabe1. Tudo era inútil; o tesouro desaparecido voltara a ser propriedade dos gênios da terra, dos quais por um instante ele tivera a esperança de roubá-lo.
O dia apresentou-se quase tão febril quanto a noite; mas Dantès levou a lógica ao socorro da imaginação e conseguiu delinear um plano, até aquele momento vão e nebuloso em seu cérebro.
Chegou a noite e, com ela, os preparativos para a partida. Tais preparativos eram uma forma de Dantès esconder sua agitação. Pouco a pouco, conquistara autoridade sobre seus companheiros, como se fosse o dono da embarcação; e como suas ordens eram sempre claras, precisas e fáceis de executar, seus companheiros obedeciam-lhe não apenas com prontidão, mas até mesmo com prazer.
O velho homem do mar deixava-o agir. Ele também havia reconhecido a superioridade de Dantès sobre os outros marujos e sobre si próprio. Via naquele homem ainda jovem seu sucessor natural, e lamentava não ter uma filha para prender Edmond por meio dessa elevada aliança.
Às sete horas da noite estava tudo pronto; às sete horas e dez minutos dobravam o farol justamente no momento em que este se acendia.
O mar estava calmo, um vento fresco soprava do sudoeste; navegavam sob um céu azul, onde Deus também acendia sucessivamente seus faróis, cada qual um mundo em si. Dantès declarou que todos podiam ir se deitar, ele se encarregaria do leme.
Quando o Maltês (assim chamavam Dantès) terminou de fazer
semelhante declaração, era o que bastava, todos foram dormir tranqüilos.
Isso acontecia algumas vezes: Dantès, rebento sozinho no mundo, sentia de vez em quando necessidades imperiosas de solidão. Ora, existe solidão ao mesmo tempo mais infinita e poética que a de um barco flutuando isolado no mar, na escuridão da noite, no silêncio da imensidão e sob o olhar do Senhor?
Dessa vez a solidão foi povoada por seus pensamentos, a noite, iluminada por suas ilusões, o silêncio, animado por suas promessas.
Quando o capitão acordou, o navio singrava a todo pano. Não havia um farrapo de lona que não estivesse inflado pelo vento; faziam mais de duas léguas e meia por hora.
A ilha de Monte Cristo crescia no horizonte.
Edmond entregou a embarcação ao seu dono e foi se deitar por sua vez na rede que lhe pertencia; porém, apesar da noite de insônia, não conseguiu pregar os olhos um só instante.
Duas horas depois, ele subiu para a ponte; a embarcação dobrava a
ilha de Elba. Estavam na altura de Marciana2 e acima da ilha achatada e verde da Pianosa. Via-se projetado no azul do céu o cume resplandecente de Monte Cristo.
Dantès ordenou ao timoneiro que pusesse a barra a bombordo, a fim de deixar a Pianosa à direita, calculando que essa manobra encurtasse a rota em dois ou três nós.
Por volta das cinco da tarde, tiveram a visão completa da ilha. Graças à limpidez atmosférica que caracteriza a luz derramada pelos raios do sol poente, percebiam-se seus menores detalhes.
Edmond devorava com os olhos aquele bloco de rochas que passava por todas as cores crepusculares, do cor-de-rosa vivo ao azul-escuro; de tempos em tempos, lufadas de ar quente batiam-lhe no rosto; sua testa arroxeava-se, uma nuvem púrpura passava diante dos seus olhos.
Nunca um jogador, cuja fortuna inteira está em jogo, sentiu, por um lance de dados, as angústias sentidas por Edmond em seus paroxismos de esperança.
Anoiteceu; às dez horas lançaram ferros. A Jeune-Amélie chegara primeiro ao encontro.
Dantès, malgrado o habitual autocontrole, não conseguiu se conter.
Foi o primeiro a pular na praia; se fosse atrevido como Brutus3, teria beijado a terra.
Era noite fechada, mas às onze horas a lua surgiu do meio do mar, tingindo de prata cada pequeno movimento das águas; seus raios, à medida que ela despontava, começaram a se lançar, em brancas
cascatas de luz, sobre as pedras empilhadas daquele outro Pelião4. A ilha era conhecida da tripulação da Jeune-Amélie: era uma de suas escalas de rotina. Quanto a Dantès, reconhecera-a em todas as suas viagens ao Levante, mas nunca pusera os pés nela.
Ele interrogou Jacopo.
— Onde vamos passar a noite?
— Ora, a bordo da tartana — respondeu o marujo.
— Não ficaríamos melhor nas cavernas?
— Que cavernas?
— Ora, nas cavernas da ilha.
— Não sei de cavernas — disse Jacopo.
Um suor frio escorreu pela fronte de Dantès.
— Não existem cavernas em Monte Cristo? — perguntou.
— Não.
Dantès ficou perplexo por um instante; então supôs que as cavernas poderiam ter desmoronado por um acidente qualquer, ou mesmo ter sido vedadas, em nome de maiores precauções, pelo cardeal Spada.
Tudo então se resumia, nesse caso, a descobrir tal abertura perdida.
Seria inútil procurá-la à noite. Dantès adiou a exploração para o dia seguinte. Aliás, um sinal transmitido a meia légua no mar, e ao qual a Jeune-Amélie logo respondeu com sinal idêntico, indicou que chegara o momento de se pôr ao trabalho.
A embarcação retardatária, tranqüilizada pelo sinal de segurança convencionado para que pudesse se aproximar, não demorou a surgir, branca e silenciosa como um fantasma, e veio lançar âncora a um filame da margem.
Logo começou o translado.
Enquanto trabalhava, Dantès pensava no grito de alegria que, com uma única palavra, poderia provocar em todos aqueles homens caso externasse o incessante pensamento que zumbia em seus ouvidos e em seu coração.
Porém, muito pelo contrário, em lugar de revelar o magnífico segredo, temia já haver falado demais e, com suas idas e vindas, suas perguntas repetidas, suas observações minuciosas e sua preocupação permanente, ter despertado suspeitas. Felizmente, pelo menos nessa circunstância, um trágico passado refletia uma tristeza indelével em sua fisionomia, e os fulgores de alegria vislumbrados sob essa nuvem não passavam, na realidade, de relâmpagos.
Ninguém, portanto, desconfiava de nada, e quando, no dia seguinte, pegando um fuzil, chumbo e pólvora, Dantès manifestou o desejo de ir matar uma das numerosas cabras selvagens que eram vistas saltando entre os rochedos, essa incursão de Dantès foi atribuída tão-somente ao amor à caça ou ao desejo de solidão. Apenas Jacopo insistiu para acompanhá-lo.
Dantès não quis se opor, temendo, com esta recusa em ser acompanhado, inspirar alguma suspeita. Contudo, mal percorreu mil metros, tendo se deparado com a possibilidade de atirar e matar um cabrito, mandou Jacopo levá-lo para seus companheiros, sugerindo-lhes que o preparassem e lhe dessem um sinal, quando estivesse pronto, disparando um tiro de fuzil; alguns frutos secos e um garrafão de vinho de Montepulciano deveriam completar o cardápio da refeição.
Dantès seguiu adiante, voltando-se de tempos em tempos. Ao chegar ao cume de uma rocha, pôde observar, trezentos metros abaixo dele, seus companheiros, a quem Jacopo acabava de encontrar e que já se ocupavam ativamente dos preparativos do almoço, enriquecido, graças à habilidade de Edmond, com uma peça capital.
Edmond observou-os por um instante com o sorriso compreensivo e triste do homem superior.
— Daqui a duas horas — disse ele —, essas pessoas voltarão a partir, cinqüenta piastras mais ricas do que antes, para irem, arriscando a vida, atrás de outras cinqüenta; depois voltarão, seiscentas libras mais ricas, para dilapidar esse tesouro numa cidade qualquer, com a soberba dos sultões e a confiança dos nababos. Hoje a esperança faz com que eu despreze sua riqueza, que me parece a mais profunda miséria; amanhã talvez a decepção faça com que eu seja obrigado a olhar essa profunda
miséria como a suprema felicidade... Oh, não! — exclamou Edmond. —
Isso não vai acontecer; o sábio, o infalível Faria não iria se enganar apenas no tocante a esse assunto. Aliás, morrer ou continuar a levar aquela vida miserável e inferior eram a mesma coisa.
Assim, Dantès, que havia três meses não aspirava senão à liberdade, já não tinha liberdade suficiente e aspirava à riqueza; a culpa disso não era sua, mas de Deus, que, limitando a força do homem, proporcionou-lhe desejos infinitos! Entretanto, por uma trilha perdida entre duas muralhas de rochas, percorrendo um atalho escavado por um curso d’água e no qual, segundo toda a probabilidade, jamais um homem pusera os pés, Dantès se aproximara do lugar aonde as cavernas deviam ter existido. Ao mesmo tempo em que seguia o desenho do litoral e examinava compenetradamente os menores objetos, julgou observar em certas rochas entalhes gravados pela mão humana.
O tempo, que lança sobre toda coisa física seu manto de musgo, como sobre as coisas morais seu manto de esquecimento, parecia ter respeitado aqueles sinais traçados com certa regularidade, provavelmente com o intuito de indicar uma pista; de vez em quando, entretanto, os sinais desapareciam sob tufos de mirtos, que germinavam em grandes buquês carregados de flores ou sob líquens parasitas. Edmond precisava então afastar os galhos ou levantar o musgo para reencontrar os sinais que o guiavam nesse outro labirinto. Em todo caso, aqueles sinais haviam dado uma boa esperança a Edmond. Por que não teria sido o cardeal quem os entalhou para, no caso de uma catástrofe que ele não pudera prever tão completa, servirem de guia para seu sobrinho? Aquele local ermo era perfeito para um homem que desejasse enterrar um tesouro. Por outro lado, aqueles sinais infiéis não haveriam atraído outros olhos que não aqueles para os quais haviam sido entalhados, e teria a ilha das maravilhas sombrias guardado fielmente seu magnífico segredo?
Entretanto, a aproximadamente duzentos metros do porto, pareceu a Edmond, ainda escondido dos seus companheiros pelos acidentes do terreno, que os entalhes se interrompiam; tampouco levavam a alguma caverna. Uma grande rocha redonda, pousada numa base sólida, era o único destino a que pareciam conduzir. Edmond pensou que, em vez de ter chegado ao fim, talvez estivesse, muito pelo contrário, só no começo; deu então meia-volta e retornou sobre seus passos.
Enquanto isso seus companheiros preparavam o almoço, pegavam água na fonte, transportavam o pão e as frutas para terra firme e cozinhavam o cabrito. Justamente no momento em que o retiravam de seu espeto improvisado, avistaram Edmond, que, leve e atrevido como uma camurça, saltava de pedra em pedra. Dispararam um tiro de fuzil para lhe dar o sinal. O caçador logo mudou de direção e voltou correndo para eles. Mas, no momento em que todos o seguiam com os olhos na espécie de vôo que ele executava, tachando aquela destreza de temeridade, e como para dar razão aos seus receios, Edmond pisou em falso; viram-no vacilar no cume de um rochedo, soltar um grito e desaparecer.
Todos acorreram num único impulso, pois gostavam de Edmond, apesar de sua superioridade; mas foi Jacopo o primeiro a chegar.
Encontrou Edmond estendido, sangrando e quase sem sentidos; devia ter rolado de uma altura de trinta e cinco ou quarenta metros. Introduziramlhe na boca algumas gotas de rum, e esse remédio, que já surtira tanta eficácia sobre ele, produziu o mesmo efeito que da primeira vez.
Edmond reabriu os olhos, queixou-se de uma dor aguda no joelho, um grande peso na cabeça e pontadas insuportáveis nas costas. Quiseram transportá-lo até a praia; porém, quando o tocaram, embora fosse Jacopo quem dirigisse os trabalhos, ele declarou gemendo que estava sem forças para agüentar a remoção.
O almoço, compreensivelmente, estava fora de questão para Dantès; mas ele exigiu que seus companheiros, por não terem razões como as suas para fazer dieta, retornassem à base. Quanto a si próprio, sugeriu que carecia apenas de um pouco de repouso e que o encontrariam melhor quando voltassem.
Os marujos não se fizeram de rogados. Estavam com fome, o aroma do cabrito chegava até eles e não se faz muita cerimônia entre lobos-do-mar.
Uma hora depois, voltaram. Tudo que Edmond conseguira fazer tinha sido arrastar-se por uma dezena de passos para se apoiar numa rocha musgosa.
Porém, longe de se amenizarem, as dores de Dantès pareciam aumentar em intensidade. O velho capitão, que tinha de partir pela manhã para ir depositar seu carregamento na fronteira do Piemonte e da França, entre Nice e Fréjus, insistiu para que Dantès tentasse se levantar. Dantès fez esforços sobre-humanos para obedecer ao incentivo, mas a cada esforço voltava a cair gemendo e empalidecendo.
— Ele quebrou as costelas — disse baixinho o capitão. — Não importa!
É um bom companheiro e não podemos abandoná-lo; vamos transportá-lo até a tartana.
Mas Dantès declarou que preferia morrer onde estava a suportar as dores atrozes que lhe provocariam o deslocamento, por menor que fosse.
— Muito bem — disse o capitão —, aconteça o que acontecer, ninguém poderá dizer que deixamos sem socorro um bravo companheiro como o senhor. Partiremos apenas à noite.
Essa sugestão impressionou muito os marujos, embora nenhum deles a rejeitasse, ao contrário. O capitão era um homem tão rígido que era a primeira vez que o viam desistir de um plano ou, pelo menos, adiar sua execução.
Dantès, porém, recusou-se a aceitar que cometessem, por sua causa, tão grave infração às regras da disciplina vigente a bordo.
— Não — disse ele ao capitão —, fui um desastrado e é justo que eu seja castigado por essa tolice. Deixem comigo uma pequena provisão de torradas, um fuzil, pólvora e balas para matar cabritos, ou quem sabe para me defender, e uma picareta para que eu construa, caso demorem muito a voltar para me buscar, uma espécie de casa.
— Mas morrerá de fome — disse o capitão.
— Prefiro isso — respondeu Edmond — a agüentar as dores indescritíveis que um simples movimento me faz sentir.
O capitão voltou-se para o lado da embarcação, que balançava ao começar seu aparelhamento no pequeno porto, pronta para retornar ao mar assim que terminassem os preparativos.
— O que quer que façamos, então, Maltês?! — exclamou ele. — Não podemos abandoná-lo assim e, ao mesmo tempo, não podemos ficar!
— Podem ir, podem ir! — enfatizou Dantès.
— Ficaremos pelo menos uma semana ausentes — disse o capitão —, e ainda teremos que nos desviar da nossa rota para vir pegá-lo.
— Escutem — disse Dantès —, se daqui a dois ou três dias encontrarem algum barco pesqueiro ou outro qualquer vindo para essas paragens, recomendem-me a ele, pagarei vinte e cinco piastras pela minha volta a Livorno. Se não encontrarem nenhum, voltem.
O capitão balançou a cabeça.
— Veja, capitão Baldi, há um meio de conciliar tudo — disse Jacopo.
— Vá, eu fico com o ferido para cuidar dele.
— Você aceita renunciar à sua parte na divisão — espantou-se Edmond
— para ficar comigo?
— Sim — disse Jacopo —, e sem arrependimento.
— Você é um bom rapaz, Jacopo — disse Edmond —, Deus recompensará sua boa vontade; mas não preciso de ninguém, obrigado; um dia ou dois de repouso vão me recuperar, e espero encontrar nessas pedras algumas ervas que são excelentes para contusões.
E um sorriso estranho percorreu os lábios de Dantès; ele apertou a mão de Jacopo com efusão, mas permaneceu irredutível em sua decisão de ficar, e de ficar sozinho.
Os contrabandistas forneceram a Edmond tudo o que havia pedido e foram embora, não sem se voltar diversas vezes, dirigindo-lhe a cada uma delas sinais de um cordial adeus, ao que Edmond respondia apenas com a mão, como se não conseguisse mexer o resto do corpo.
Quando eles desapareceram, Dantès murmurou, rindo:
— É estranho, que entre homens assim o que encontremos provas de amizade e gestos de companheirismo.
Arrastou-se então com cuidado até o cume de um rochedo que lhe descortinava a vista do mar e de lá viu a tartana terminar seu aparelhamento, levantar âncora, oscilar graciosamente como uma gaivota prestes a alçar vôo, e partir.
Ao fim de uma hora, ela desaparecera completamente; pelo menos, de onde estava o ferido, era impossível divisá-la.
Então Dantès se levantou, mais ágil e ligeiro que um dos cabritos que saltitavam por entre os mirtos e lentiscos daqueles rochedos selvagens, pegou o fuzil com uma das mãos, a picareta com a outra, e correu para aquela rocha na qual desembocavam os entalhes que observara nas rochas.
— E agora — exclamou, lembrando-se da história do pescador árabe que Faria lhe contara —, agora, abre-te, Sésamo!
E agora, abre-te, Sésamo!
1 “pescador árabe” : aqui o autor talvez confunda Ali Babá com Simbad, pois o primeiro não era um pescador, e sim um pobre vendedor de lenha.
2 Marciana: pequena ilha e marina a oeste da ilha de Elba.
3 “atrevido como Brutus” : referência à História romana, I, cap.LXVI, de Tito Lívio (59 a.C-17
d.C.). Nesta passagem, Lucius Junius Brutus chegara a Delfos para consultar, com os filhos de Tarquínio, a profetisa segundo a qual o primeiro que beijasse a mãe possuiria o poder absoluto.
Brutus fingiu levar um tombo e beijou a terra, “mãe comum de todos os homens”.