O Conde de Monte Cristo
19. A terceira crise
— Você é meu filho, Dantès! — exclamou o velho. — É o filho do meu cativeiro. Meu status me obrigava ao celibato: Deus o enviou a mim para consolar ao mesmo tempo o homem que não podia ser pai e o prisioneiro que não podia ser livre.
E Faria estendeu o braço ainda útil para o rapaz, que se agarrou em seu pescoço chorando.
1 A latere: expressão latina que dá a idéia de um mensageiro fingido, ou “lateral”, que não explicita o desejo de quem o enviou.
2 “você sabe como”: segundo Stendhal, em seu livro Passeios em Roma, de 1829, o qual é citado por Alexandre Dumas em Crimes célebres, o envenenamento de Alexandre VI havia sido acidental. Na verdade, era ele quem pretendia envenenar seu convidado, o cardeal Adriano de Corneto. Marcando o jantar para uma residência papal fora da cidade do Vaticano, o papa enviara ao local o vinho secretamente envenenado, com instruções para que a garrafa fosse servida apenas quando ele ordenasse. Um criado, no entanto, teria servido a bebida mortal desavisadamente.
19. A terceira crise
Agora que aquele tesouro, havia tanto tempo objeto das meditações do abade, podia proporcionar a felicidade futura daquele a quem Faria amava genuinamente como filho, ele dobrara de valor aos seus olhos; todos os dias insistia no montante do tesouro, explicando a Dantès tudo que um homem em nossos tempos modernos podia fazer de bem a seus amigos com uma fortuna de treze ou quatorze milhões; nessas horas o semblante de Dantès cobria-se de sombras, pois o juramento de vingança que fizera reapresentava-se ao seu pensamento e ele imaginava, por sua vez, quanto em nossos tempos modernos também um homem com uma fortuna de treze ou quatorze milhões podia fazer de mal a seus inimigos.
O abade não conhecia a ilha de Monte Cristo, mas Dantès, sim. Passara freqüentemente diante dela, que ficava a vinte e cinco
milhas da Pianosa1,
entre a Córsega e a ilha de Elba; inclusive lá fizera escala certa vez. Essa ilha era, sempre fora e ainda é completamente deserta; não passa de um rochedo em forma quase cônica, que parece ter emergido, graças a algum cataclismo vulcânico, do fundo do abismo até a superfície do mar.
Dantès fazia o mapa da ilha para Faria, e Faria dava conselhos a Dantès sobre os meios que deveria empregar para descobrir o tesouro.
Mas Dantès estava longe de ser tão entusiasta e sobretudo tão confiante quanto o velho. Naturalmente tinha agora a certeza de que Faria não estava louco, e a maneira como ele chegara à descoberta que lhe dera a fama de louco fortalecia ainda mais sua admiração por ele; mas ao mesmo tempo não conseguia acreditar que aquela jazida, supondo que tivesse existido, ainda existisse, e, quando não considerava quimérico o tesouro, via-o pelo menos como ausente.
Entretanto, como se o destino quisesse arrancar a última esperança dos prisioneiros e fazê-los compreender que estavam condenados à prisão perpétua, uma nova desgraça os vitimou: a galeria do lado do mar, que há muito tempo ameaçava cair, fora reconstruída; haviam reparado as bases e vedado com enormes quadrados de rocha o buraco já fechado pela metade por Dantès. Sem tal precaução, que havia sido sugerida, todos se lembram, ao rapaz pelo abade, a calamidade teria sido ainda mais grave, pois descobririam sua tentativa de evasão e os separariam indubitavelmente.
Uma nova porta, mais resistente, mais inexorável que as outras, viera então fechar-se sobre eles.
— O senhor percebe — dizia o rapaz ao abade, com uma doce tristeza
— que Deus quer me tirar até o mérito do que o senhor chama de meu devotamento pela sua pessoa. Prometi ficar eternamente ao seu lado, e agora não tenho liberdade nem para descumprir minha promessa; nem eu nem o senhor possuiremos mais o tesouro, e tampouco sairemos daqui. De toda forma, meu verdadeiro tesouro, acredite, meu amigo, não é o que me esperava sob as escuras rochas de Monte Cristo; é, a despeito dos nossos carcereiros, a sua presença, o nosso convívio de cinco ou seis horas por dia; são esses raios de inteligência que o senhor pôs em meu cérebro, essas línguas que plantou na minha memória e que ali crescem com todas as suas ramificações filológicas. Essas ciências diversas que tornou tão fáceis para mim pela profundidade do conhecimento que tem delas e pela nitidez dos princípios a que as reduziu; eis o meu tesouro, amigo, eis em que o senhor me fez rico e feliz. Creia em mim e console-se, isso é mais valioso para mim que toneladas de ouro e caixas de diamantes, as quais, ainda por cima, são problemáticas, como essas nuvens que vemos flutuar pela manhã sobre o mar, que tomamos por terras firmes mas se evaporam, volatilizam e somem à medida que nos aproximamos. Têlo perto de mim o máximo de tempo possível, escutar sua voz eloqüente ornando o meu espírito, dando nova têmpera à minha alma, fazendo-me por inteiro capaz de grandes e terríveis coisas se um dia eu for livre, expandindo o meu ser de modo que o desespero ao qual eu estava prestes a me abandonar quando o conheci não encontre mais lugar, eis a minha fortuna; esta não é nada quimérica; graças ao senhor ela é bastante concreta, e todos os soberanos da terra, mesmo os César Bórgia, não conseguiriam me roubá-la.
Assim estes foram, para os dois desafortunados, se não dias felizes, pelo menos dias que passaram tão rapidamente quanto os dias que viriam depois. Faria, após tantos longos anos mantendo-se em silêncio sobre o tesouro, agora voltava ao assunto em todas as oportunidades. Como previra, ficara paralítico do braço direito e da perna esquerda, perdendo quase toda a esperança de um dia usufruí-lo pessoalmente; mas continuava a sonhar com uma libertação, ou uma evasão, para seu jovem companheiro, e rejubilava-se por ele. Com medo de que a carta se perdesse ou extraviasse, obrigara Dantès a aprendê-la de cor, e Dantès a memorizara da primeira à última palavra. Destruíra então a segunda parte, certo de que podiam descobrir e confiscar a primeira sem decifrar seu verdadeiro sentido. Às vezes Faria levava horas inteiras dando instruções a
Dantès, instruções que deviam lhe servir para o dia de sua liberdade.
Portanto, uma vez livre, a partir do dia, da hora, do momento em que estivesse livre, teria apenas um único pensamento: alcançar Monte Cristo por um meio qualquer, ali permanecer sozinho sob um pretexto que não levantasse suspeitas, e, uma vez lá, uma vez sozinho, tratar de descobrir as cavernas maravilhosas e escavar no lugar indicado. O lugar indicado, todos se lembram, é o ângulo mais afastado da segunda abertura.
Enquanto isso, as horas se escoavam, se não rápidas, ao menos suportáveis. Faria, como dissemos, sem ter recuperado os movimentos da mão e do pé, recobrara toda a lucidez de sua inteligência, e pouco a pouco, além dos conhecimentos morais que esmiuçamos, ensinou ao seu jovem companheiro o ofício paciente e sublime do prisioneiro, que, a partir do nada, sabe fazer tudo. Ocupavam-se então incessantemente, Faria com medo de envelhecer, Dantès com medo de rememorar seu passado quase apagado, o qual flutuava no mais recôndito de sua memória como uma luz distante perdida na noite; tudo caminhava assim como nessas existências que o infortúnio nada abalou e que transcorrem mecânicas e serenas sob o olhar da Providência.
Porém, sob essa serenidade artificial, talvez medrassem no coração do rapaz e no do velho impulsos reprimidos, suspiros abafados, que surgiam quando Faria ficava sozinho e quando Edmond voltava para sua cela.
Uma noite Edmond acordou sobressaltado, julgando que alguém o chamava.
Abriu os olhos e tentou penetrar a densidade da escuridão.
Seu nome, ou melhor, uma voz queixosa tentando articular seu nome, chegou até ele.
Dantès levantou-se da cama, com o suor da angústia em sua fronte, e escutou. Não restava dúvida, o gemido vinha da masmorra do seu companheiro.
— Deus misericordioso! — murmurou Dantès. — Será que...?
Então ele removeu a cama, puxou a pedra, enfiou-se no túnel e chegou à extremidade oposta; a laje estava erguida.
À luz informe e vacilante da lamparina da qual já falamos, Edmond viu o ancião pálido, ainda de pé e se agarrando ao estrado da cama. Seus traços estavam desfigurados pelos sintomas que ele já conhecia e que o assustavam tanto quanto o haviam assustado ao se manifestarem pela primeira vez.
— Muito bem, meu amigo! — disse Faria, resignado. — Compreende, não é? Não preciso lhe dizer nada.
Edmond soltou um grito doloroso e, perdendo completamente a cabeça, lançou-se para a porta gritando:
— Socorro! Socorro!
Faria ainda teve forças para segurá-lo pelo braço.
— Silêncio — disse ele —, ou estará perdido! Pensemos agora apenas no senhor, amigo, em tornar o seu cativeiro suportável ou sua fuga possível. O senhor levaria anos para refazer sozinho tudo que fiz até agora, e que seria destruído no exato momento em que nossos vigias soubessem da nossa combinação. Aliás, fique tranqüilo, amigo, a masmorra que vou deixar não permanecerá muito tempo vazia, algum outro desgraçado virá ocupar o meu lugar. Aos olhos desse outro, o senhor será um anjo salvador.
Ele será talvez jovem, forte e paciente como o senhor, e poderá ajudá-lo em sua fuga, enquanto eu o atrapalhava. Não terá mais um meio cadáver amarrado a si, paralisando seus movimentos. É inquestionável, finalmente Deus fez alguma coisa pelo senhor: devolve-lhe mais do que lhe tira e, cá entre nós, já é hora de eu morrer.
Edmond só conseguiu juntar as mãos em súplica e exclamar:
— Oh, meu amigo, meu amigo, cale-se!
Em seguida, recuperando as forças, por um instante abaladas por esse golpe imprevisto, e a coragem, subjugada pelas palavras do velho, disse:
— Oh, já o salvei uma vez, posso muito bem salvá-lo uma segunda!
E ergueu o pé da cama e dali tirou a garrafinha que ainda continha um terço da poção vermelha.
— Tome — ele ordenou —, ainda temos um resto dessa beberagem salvadora. Rápido, rápido, diga-me o que preciso fazer dessa vez; alguma instrução nova? Fale, meu amigo, sou todo ouvidos.
— Não há esperança — respondeu Faria, balançando a cabeça. — Mas, não importa; Deus quer que o homem que Ele criou, e em coração cujo enraizou tão profundamente o amor pela vida, faça tudo que puder para conservar essa existência às vezes tão penosa, sempre tão prezada.
— Oh, sim, sim! — exclamou Dantès. — E eu o salvarei, repito!
— Muito bem, então tente! O frio toma conta de mim; sinto o sangue afluindo ao cérebro; esse horrível tremor que faz meus dentes baterem e parece separar meus ossos começa a sacudir todo o meu corpo; em cinco minutos, o mal explodirá, em um quarto de hora não restará mais de mim senão um cadáver.
— Oh! — exclamou Dantès, com o coração ferido de dor.
— O senhor fará como da primeira vez, apenas não espere tanto tempo.
Todas as reservas de vida estão bastante deterioradas a essa altura, e a morte — ele continuou, mostrando o braço e a perna paralisados — não terá senão metade do trabalho pela frente. Se depois de pingar doze gotas em minha boca, em vez de dez, o senhor perceber que não retorno, então pingará o restante. Agora me carregue para a cama, pois não consigo mais ficar de pé.
Edmond pegou o velho em seus braços e o depositou na cama.
— Agora, amigo — disse Faria —, único consolo da minha vida miserável, o senhor que o céu me deu um pouco tarde, mas enfim me deu, presente inestimável e pelo qual agradeço, no momento em que me separo do senhor para sempre, desejo-lhe toda a felicidade e prosperidade que merece: meu filho, eu o abençôo!
O rapaz se atirou de joelhos, apoiando a cabeça na cama do velho.
— Mas, acima de tudo, escute bem o que lhe digo neste momento supremo: o tesouro dos Spada existe. Deus permita que não haja mais para mim nem distância nem obstáculo. Vejo-o no fundo da segunda caverna; meus olhos penetram as profundezas da terra e estão deslumbrados com tantas riquezas. Se conseguir fugir, lembre-se de que o infeliz abade que todos julgavam louco não o era. Corra para Monte Cristo, desfrute de nossa fortuna, desfrute-a, o senhor sofreu muito.
Uma violenta convulsão interrompeu o velho. Dantès levantou a cabeça e viu o vermelho injetando-se naqueles olhos; era como uma onda de sangue que acabava de subir-lhe do peito para a testa.
— Adeus! Adeus! — murmurou o velho, apertando convulsivamente a mão do rapaz. — Adeus!
— Oh, ainda não, ainda não! — exclamou Dantès. — Não nos abandone; oh, meu Deus! Socorra-o... ajude-o... ajude-me...
— Silêncio! Silêncio! — murmurou o moribundo. — Para não nos separarem se o senhor me salvar!
— Tem razão. Oh, sim, sim, fique tranqüilo, vou salvá-lo! Aliás, embora sofra muito, parece sofrer menos que da primeira vez.
— Oh, não se iluda! Sofro menos porque há menos força para sofrer. Na sua idade, temos fé na vida, é privilégio da mocidade acreditar e ter
esperança; mas os velhos vêem a morte com mais lucidez. Oh! Ei-la... está chegando... acabou... estou perdendo a visão... minha razão escapa... Sua mão, Dantès. Adeus! Adeus...
E soerguendo-se num último esforço, no qual reuniu todas as suas faculdades:
— Monte Cristo! Não se esqueça de Monte Cristo! E voltou a cair na cama.
A ilha de Monte Cristo.
A crise foi terrível: membros descontrolados, pálpebras inchadas, uma espuma vermelha, um corpo sem movimento, eis o que restou no leito doloroso da criatura inteligente que ali se deitara um instante antes.
Dantès pegou a lamparina e colocou-a na cabeceira da cama, sobre uma pedra saliente, de onde sua luz bruxuleante iluminava com um reflexo
estranho e fantástico aquele rosto desfeito e aquele corpo inerte e rijo.
Com os olhos fixos, esperou corajosamente o momento de ministrar o remédio salvador.
Quando julgou chegado o momento, pegou a faca, descerrou os dentes, os quais ofereceram menos resistência que da primeira vez, contou doze gotas uma depois da outra e esperou; o frasco ainda continha aproximadamente o dobro do que ele pingou.
Esperou dez minutos, quinze, meia hora, nenhum movimento. Trêmulo, de cabelo em pé, a fronte gelada de suor, contava os segundos pelas batidas do próprio coração.
Julgou então que era hora de fazer a última tentativa: aproximou o frasco dos lábios roxos de Faria e, sem precisar descerrar os maxilares que haviam permanecido abertos, derramou todo o líquido restante.
O remédio produziu um efeito galvanizante, um tremor violento sacudiu os membros do velho, seus olhos reabriram-se de modo assustador, ele soltou um suspiro semelhante a um grito, depois, pouco a pouco, o corpo inteiro arrepiado voltou à imobilidade.
Apenas os olhos permaneceram abertos.
Meia hora, uma hora, uma hora e meia se passaram. Durante essa hora e meia de angústia, Edmond, debruçado sobre o amigo, a mão pousada em seu coração, sentiu sucessivamente aquele corpo esfriar e aquele coração interromper sua pulsação cada vez mais cava e profunda.
Enfim, nada restou; o último frêmito do coração se extinguiu e as faces tornaram-se lívidas; os olhos permaneceram abertos, mas o olhar ficou baço.
Eram seis horas da manhã, o dia começava a nascer, e seu raio fosco, ao invadir a masmorra, fazia empalidecer a luz agonizante da lamparina.
Reflexos estranhos manifestavam-se no rosto do cadáver, dando-lhe de tempos em tempos uma aparência de vida. Enquanto durou essa luta entre o dia e a noite, Dantès ainda pôde duvidar, mas, com o triunfo do dia, compreendeu que estava sozinho com um cadáver.
Um terror profundo e indescritível apoderou-se dele então. Não ousou mais apertar aquela mão que pendia para fora da cama, não ousou mais deter os olhos naqueles olhos inertes e brancos que tentou por diversas vezes mas inutilmente fechar, e que sempre voltavam a se abrir. Dantès apagou a lamparina, escondeu-a cautelosamente e foi embora, recolocando da melhor forma possível a laje acima de sua cabeça.
Aliás, bem a tempo, pois o carcereiro estava para chegar.
Dessa vez ele começou a visita por Dantès; ao sair de sua masmorra, passaria na do abade, para quem levava o desjejum e roupa de cama.
Aliás, nada sugeria naquele homem que tivesse conhecimento do incidente ocorrido. Saiu.
Dantès foi tomado por uma indizível impaciência para saber o que ia se passar na masmorra do seu desventurado amigo; voltou então a entrar na galeria subterrânea e chegou a tempo de ouvir as exclamações do carcereiro, que pedia ajuda.
Logo os outros carcereiros entraram; em seguida ouviu-se aquele passo pesado e ritmado característico dos soldados, mesmo quando não estão em serviço. Atrás dos soldados, chegou o diretor.
Edmond ouviu o barulho da cama sobre a qual inspecionavam o cadáver; ouviu a voz do diretor, ordenando que jogassem água no rosto dele e, ao constatar que, malgrado o banho, o prisioneiro não voltava a si, mandando chamar o médico.
O diretor saiu; algumas palavras de compaixão chegaram aos ouvidos de Dantès, misturadas a risos trocistas.
— Vejam só — dizia um —, o louco foi ao encontro dos seus tesouros, boa viagem!
— Com todos os seus milhões, não tem com que pagar a própria mortalha — dizia outro.
— Oh — interveio uma terceira voz —, as mortalhas do castelo de If não custam caro!
— Talvez — disse um dos primeiros interlocutores —, como é um homem de igreja, gastem alguns cobres com ele.
— Quer dizer que ele terá as honrarias do saco.
Edmond escutava, não perdia uma palavra, mas não compreendia muita coisa de tudo aquilo. Em pouco tempo as vozes desapareceram e pareceulhe que os coadjuvantes deixavam a cela.
Ainda assim, não ousou voltar: poderiam ter deixado algum carcereiro na companhia do morto.
Permaneceu então mudo, imóvel e prendendo a respiração.
No fim de uma hora, aproximadamente, o silêncio foi invadido por um débil ruído, que foi crescendo.
Era o diretor que voltava: seguido pelo médico e por vários funcionários. Fez-se um momento de silêncio: era óbvio que o médico
aproximava-se da cama e examinava o cadáver.
Logo começaram as perguntas.
O médico analisou a doença a que o prisioneiro sucumbira e o declarou morto.
Perguntas e respostas eram feitas com uma displicência que indignava Dantès; no seu entender, todo mundo devia sentir pelo infeliz abade uma parte da afeição que lhe dedicava.
— Fico triste com a notícia que o senhor me está dando — disse o governador, respondendo à certeza manifestada pelo médico de que o velho estava realmente morto. — Era um prisioneiro manso, inofensivo, divertindo a todos com sua loucura e sobretudo fácil de vigiar.
— Oh — disse o carcereiro —, não precisávamos sequer vigiá-lo, ele passaria cinqüenta anos aqui, garanto, sem fazer uma única tentativa de evasão.
— Entretanto — replicou o diretor —, creio ser urgente, apesar de sua convicção, não que duvide de sua ciência, mas por ser minha responsabilidade, nos certificarmos de que o prisioneiro está realmente morto.
Houve um momento de silêncio absoluto, durante o qual Dantès, ainda de ouvidos atentos, supôs que o médico examinava e apalpava o cadáver pela segunda vez.
— O senhor pode ficar tranqüilo — disse então o médico —, ele está morto, garanto.
— Saiba, cavalheiro — disse o diretor, insistindo —, que não nos contentamos, em casos como este, com um simples exame; apesar de todas as aparências, queira ter a bondade de terminar seu trabalho, cumprindo as formalidades prescritas pela lei.
— Aqueçam os ferros — disse o médico —, mas, na verdade, é uma precaução totalmente desnecessária.
Aquela ordem para aquecer os ferros provocou um calafrio em Dantès.
Ouviram-se passos apressados, o ranger da porta, algumas idas e vindas na cela e, instantes depois, um atendente entrou, dizendo:
— Eis o braseiro com um ferro.
Fez-se então um instante de silêncio, depois ouviu-se o frêmito das carnes queimando, cujo odor denso e nauseabundo atravessou até mesmo a parede atrás da qual Dantès escutava horrorizado.
Àquele cheiro de carne humana carbonizada, o suor brotou da testa do rapaz e ele achou que ia desmaiar.
— Como pode constatar, senhor, ele está efetivamente morto — disse o médico. — Essa queimadura no tornozelo é decisiva: o pobre louco está curado da sua loucura e livre do seu cativeiro.
— Ele não se chamava Faria? — perguntou um dos funcionários que acompanhavam o diretor.
— Sim, senhor, e, segundo ele, era um nome antigo. Aliás, era muito sábio e inclusive bastante razoável a respeito de qualquer assunto que não se referisse ao seu tesouro; mas em relação a este, temos que admitir, era incorrigível.
— É o distúrbio que denominamos monomania — explicou o médico.
— Nunca teve queixa dele? — perguntou o diretor ao carcereiro encarregado de levar comida ao abade.
— Nunca, sr. diretor — respondeu o carcereiro. — Nunca, jamais! Ao contrário: antigamente inclusive ele me divertia muito contando histórias; um dia, quando a minha mulher ficou doente, ele até me deu uma receita que a curou.
— Ah, ah! — disse o médico. — Eu ignorava estar lidando com um colega; espero, sr. diretor — acrescentou rindo —, que ele seja tratado como tal.
— Sim, sim, fique tranqüilo, será decentemente sepultado no saco mais novo que encontrarmos; está satisfeito?
— Temos que cumprir esta última formalidade diante do senhor? —
perguntou um atendente.
— Naturalmente, mas se apressem; não posso ficar o dia inteiro nesta cela.
Novas idas e vindas se fizeram ouvir; um instante depois, um barulho de lona amarrotada chegou aos ouvidos de Dantès, as molas da cama rangeram, um passo pesado, como o de um homem que carrega um fardo, percutiu sobre a laje, depois a cama rangeu de novo sob o peso que lhe imprimiam.
— Até a noite — disse o diretor.
— Haverá uma missa? — perguntou um dos funcionários.
— Impossível — respondeu o diretor. — Ontem o capelão do castelo veio me pedir licença para uma pequena viagem de uma semana a Hyères.
Disse-lhe que responderia por todos os prisioneiros durante esse tempo; se o pobre abade não houvesse se apressado tanto, teria tido o seu réquiem.