O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 96 de 119

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O Conde de Monte Cristo

17. A confissão

— Sim! — exclamou Morrel. — Pelo amor de Deus! E não demore.

Enquanto você não for minha, continuarei a achar que pode me escapar.

— Oh! — respondeu Valentine, com um gesto convulsivo. — Oh! Na verdade, Maximilien, você é medroso demais para um oficial, para um soldado que dizem jamais ter conhecido o medo. Há, há, há!

E caiu numa risada estridente e sofrida. Seus braços enrijeceram-se e se contorceram, sua cabeça caiu na poltrona e ela perdeu os movimentos.

O grito de terror que Deus acorrentava nos lábios de Noirtier irrompeu do seu olhar.

Morrel compreendeu: era preciso chamar por socorro.

O rapaz pendurou-se no cordão da campainha. A camareira que estava no quarto de Valentine e o criado que substituíra Barrois acudiram simultaneamente.

Valentine estava tão pálida, tão fria, tão inanimada, sem escutar o que lhe diziam, que o medo que velava incessantemente naquela casa maldita os arrebatou e eles se lançaram pelos corredores clamando por socorro.

A sra. Danglars e Eugénie estavam justamente de saída e ainda puderam informar-se da causa de todo aquele barulho.

— Eu bem que lhe avisei! — exclamou a sra. de Villefort. —

Pobrezinha!

17. A confissão

No mesmo instante, ouviram a voz do sr. de Villefort, que, do seu gabinete, gritava:

— O que está havendo?

Com os olhos, Morrel consultou Noirtier, que acabava de recuperar todo o seu sanguefrio e num relance apontou-lhe o gabinete ond numa circunstância bem parecida, o rapaz já se refugiara uma vez.

Ele teve apenas o tempo de pegar seu chapéu e, ofegante, atirar-se ali.

Os passos do procurador do rei ecoaram no corredor.

Villefort precipitou-se no quarto, correu para Valentine e tomoua nos braços.

— Um médico! Um médico...! O sr. d’Avrigny! — gritou Villefort.

— É melhor eu mesmo ir.

E lançou-se para fora do apartamento. Pela outra porta, lançava-se Morrel.

Acabava de ter o coração atingido por uma pavorosa lembrança. Aquela conversa entre Villefort e o médico, que ouvira na noite da morte da sra.

de Saint-Méran, voltava-lhe à memória. Aqueles sintomas, numa intensidade menor, eram os mesmos que haviam precedido a morte de Barrois.

Ao mesmo tempo, parecera-lhe ouvir murmurar em seu ouvido a voz de Monte Cristo dizendo-lhe, nem duas horas antes:

— Qualquer coisa que precisar, Morrel, procure-me, tenho grandes poderes.

Mais rápido que o pensamento, correu então do faubourg SaintHonoré até a rua Matignon, e da rua Matignon até a avenida ChampsÉlysées.

Nesse ínterim, o sr. de Villefort chegava, num fiacre, à porta do sr.

d’Avrigny. Tocou a campainha com tanta violência que o criado abriu assustado. Villefort arrojou-se pela escada, sem forças para falar. O criado conhecia-o e o deixou passar, apenas gritando:

— No gabinete, sr. procurador do rei, no gabinete! Villefort já empurrava, ou melhor, arrombava a porta.

— Ah — espantou-se o médico —, é o senhor!

— Sim — disse Villefort, fechando a porta atrás de si —, sim, doutor, agora é minha vez de perguntar se estamos completamente a sós. Doutor, minha casa é uma casa amaldiçoada!

— O quê! — disse este, aparentemente com frieza, mas com uma profunda emoção íntima. — Outro doente?

— Sim, doutor! — exclamou Villefort, agarrando com a mão convulsiva um punhado de cabelos. — Sim!

O olhar de d’Avrigny significou:

— Eu avisei.

Então seus lábios acentuaram lentamente estas palavras:

— Bom, quem vai morrer agora em sua casa e que nova vítima irá nos acusar de fraqueza perante Deus?

Um soluço doloroso escapou do coração de Villefort, que, aproximando do médico e, agarrando-lhe o braço, disse:

— Valentine! É a vez de Valentine!

— Sua filha! — exclamou d’Avrigny, tomado de dor e surpresa.

— Como vê, o senhor estava enganado — murmurou o magistrado. — Vá examiná-la e, em seu leito de sofrimento, peça-lhe perdão por ter suspeitado dela.

— Todas as vezes que o senhor mandou me chamar — disse d’Avrigny

—, era tarde demais. Mas está bem, irei até lá. Contudo, rápido, senhor, com os inimigos que atacam sua casa, não há tempo a perder.

— Oh, dessa vez, doutor, não terá que me censurar pela minha fraqueza.

Dessa vez irei descobrir o assassino e agarrá-lo.

— Tentemos salvar a vítima antes de pensar em vingança — disse d’Avrigny, justamente no momento em que, por sua vez, Morrel batia à porta de Monte Cristo.

O conde estava em seu gabinete e, preocupadíssimo, lia um bilhete que Bertuccio acabava de entregar com urgência.

Ao ouvir Morrel ser anunciado, Morrel que o deixara mal fazia duas horas, o conde ergueu a cabeça.

Assim como o conde, ele também passara por muita coisa durante aquelas duas horas, pois o rapaz, que se despedira de Monte Cristo com um sorriso nos lábios, voltava com a fisionomia transtornada.

O conde levantou-se e foi na direção de Morrel.

— O que houve, Maximilien? — perguntou-lhe. — Você está pálido e suando em bicas.

Morrel mais desabou que sentou numa poltrona.

— Sim — ele disse —, vim correndo, preciso falar-lhe.

— Está tudo bem com sua família? — perguntou o conde, num tom de benevolência afetuosa, cuja sinceridade não deixaria dúvidas a ninguém.

— Obrigado, conde, obrigado — disse o rapaz, visivelmente embaraçado, para dar início à conversa. — Sim, na minha família estão todos bem.

— Melhor assim. Mas tem alguma coisa a me contar? — continuou o conde, cada vez mais inquieto.

— Sim — disse Morrel —, é verdade. Acabo de sair de uma casa aonde a morte acabava de entrar, para correr até o senhor.

— Então está vindo da casa do sr. de Morcerf? — perguntou Monte Cristo.

— Não — disse Morrel. — Alguém morreu na casa do sr. de Morcerf?

— O general acaba de estourar os miolos — respondeu Monte Cristo.

— Oh! Que desgraça terrível! — exclamou Maximilien.

— Não para a condessa, não para Albert — disse Monte Cristo. — Mais vale um pai morto e um esposo morto que um pai e um esposo desonrado; o sangue lavará a honra.

— Pobre condessa! — disse Maximilien. — É sobretudo com ela que me solidarizo, uma mulher tão nobre!

— Solidarize-se também com Albert, é o digno filho da condessa. Mas voltemos ao senhor. O senhor correu para minha casa, como dizia; terei a honra de que precise da minha ajuda?

— Sim, preciso do senhor, isto é, como um insensato julguei que o senhor podia me ajudar numa circunstância em que apenas Deus pode me socorrer.

— Continue — respondeu Monte Cristo.

— Oh — exasperou-se Morrel —, na verdade não sei se posso revelar tal segredo a ouvidos humanos, mas a fatalidade me obriga a isso, a necessidade me obriga a isso, conde.

Morrel parou, hesitante.

— Acredita que gosto do senhor? — disse Monte Cristo, pegando afetuosamente a mão do rapaz entre as suas.

— Oh, o senhor me dá coragem, e depois algo me diz — Morrel pôs a mão no coração — que não devo guardar segredos entre nós.

— Tem razão, Morrel, é Deus que fala ao seu coração, e é o seu coração que lhe fala. Repita para mim o que lhe disse o coração.

— Conde, pode me fazer o obséquio de mandar Baptistin pedir, da sua parte, notícias de alguém que o senhor conhece?

— Se estou à sua disposição, imagine meus criados.

— Oh, é que não viverei enquanto não tiver certeza de que ela está melhor!

— Quer que eu chame Baptistin?

— Não, eu mesmo falo com ele.

Morrel saiu, chamou Baptistin e disse-lhe umas palavras baixinho. O

criado saiu imediatamente.

— E então! Tudo certo? — perguntou Monte Cristo, vendo Morrel de volta.

— Sim, ficarei um pouco mais tranqüilo.

— Bem, sou todo ouvidos.

— Sim, falarei. Preste atenção: uma noite eu estava num jardim, escondido atrás de um arvoredo, ninguém suspeitava da minha presença.

Duas pessoas passaram perto de mim; permita que eu omita provisoriamente os seus nomes; apesar de conversarem em voz baixa, eu tinha tamanho interesse em ouvir suas palavras que não perdia uma sílaba do que diziam.

— Isso anuncia-se lugubremente, a crer na sua palidez e no seu tremor, Morrel.

— Oh, sim, assaz lugubremente, amigo! Acabava de morrer alguém na casa do dono do jardim onde eu me achava. Uma das duas pessoas cuja conversa eu ouvia era o dono do jardim, o outro era médico. Ora, o primeiro contava ao segundo seus temores e suas mazelas, pois era a segunda vez em um mês que a morte abatia-se, rápida e inesperada, sobre aquela casa, que julgaríamos designada por algum anjo exterminador à cólera de Deus.

— Ah, ah! — exclamou Monte Cristo, olhando fixamente para o rapaz e virando sua poltrona, num movimento imperceptível, de maneira a se colocar na sombra, ao passo que a luz do dia incidia sobre o rosto de Maximilien.

— Sim — continuou este —, em um mês a morte entrara duas vezes naquela casa.

— E qual era a opinião do médico? — perguntou Monte Cristo.

— A opinião do médico... o médico dizia que essa morte não era natural, que devia ser atribuída...

— A quê?

— A um envenenamento!

— Verdade?! — disse Monte Cristo com aquele pigarro que, nos momentos de grande emoção, usava para disfarçar fosse o rubor, fosse a palidez, fosse a própria atenção com que escutava. — Tem certeza, Maximilien, que ouviu essas coisas?

— Sim, caro conde, ouvi-as, e o médico acrescentou que, na hipótese de a mesma coisa ocorrer novamente, ele se veria obrigado a avisar a polícia.

Monte Cristo escutava ou parecia escutar com a maior calma.

— Pois bem! — disse Maximilien. — A morte atacou pela terceira vez, e nem o dono da casa nem o médico falaram nada. É possível que a morte ataque pela quarta vez. Conde, a que julga que o conhecimento desse segredo me obriga?

— Meu caro amigo — disse Monte Cristo —, o senhor parece contar um enredo que todos nós sabemos de cor. A casa onde o senhor ouviu isso, eu a conheço, ou pelo menos conheço uma similar. Uma casa onde há um jardim, um pai de família, um médico, uma casa onde houve três mortes estranhas e súbitas. Pois bem! Olhe para mim, para mim que não interceptei confidências e que no entanto sei disso tudo tão bem quanto o senhor, será que tenho escrúpulos de consciência? Não! Nada disso tem relação comigo. O senhor diz que um anjo exterminador parece apontar essa casa à cólera de Deus. Pois bem! Quem lhe diz que sua suposição não é uma realidade? Não enxergue as coisas que não querem enxergar aqueles que têm interesse em enxergá-las. Se for a justiça, e não a cólera de Deus, que ronda essa casa, Maximilien, desvie a cabeça e deixe imperar a justiça de Deus.

Morrel ficou arrepiado. Havia, ao mesmo tempo, alguma coisa de lúgubre, solene e terrível no tom do conde.

— Aliás — continuou ele, com uma mudança de voz tão marcada que estas últimas palavras nos pareceriam não ter saído da boca do mesmo homem —, aliás, quem diz que isso irá repetir-se?

— Está se repetindo, conde! — exclamou Morrel. — E é por isso que vim até aqui!

— Muito bem! Que quer que eu faça, Morrel? Quer que eu avise ao sr.

procurador do rei?

Monte Cristo articulou estas últimas palavras com tanta clareza e com uma ênfase tão vibrante que Morrel, levantando-se subitamente, gritou:

— Conde! Conde! Sabe de quem estou falando, não é?

— Ora, perfeitamente, meu bom amigo, e vou prová-lo botando os pingos nos is, ou melhor, dando nome às pessoas. O senhor estava passeando uma noite no jardim do sr. de Villefort. Pelo que me disse, presumo que era a noite da morte da sra. de Saint-Méran. Ouviu o sr. de Villefort conversar com o sr. d’Avrigny sobre a morte do sr. de Saint-Méran e sobre a não menos espantosa morte da marquesa. O sr. d’Avrigny dizia que acreditava num envenenamento e até mesmo em dois envenenamentos. E aqui está o senhor, homem honesto por excelência, desde esse momento ocupado em apalpar seu coração, a investigar sua consciência para saber se convém revelar esse segredo ou calá-lo. Não estamos mais na Idade Média, caro amigo, e não existe mais santa Vehme, não

existem mais juízesfrancos1; que diabos vai pedir a essas pessoas?

Consciência, que queres de mim?, como diz Sterne2. Ora, meu caro, deixe-os dormir, se é que dormem, deixe-os empalidecer em suas insônias, se é que têm insônias, e, pelo amor de Deus, durma o senhor, que não tem remorsos que o impeçam de dormir.

Um terrível sofrimento desenhava-se nos traços de Morrel. Agarrou a mão de Monte Cristo.

— Mas está se repetindo! Estou lhe dizendo!

— Ótimo! — disse o conde, perplexo com aquela insistência da qual nada compreendia e fitando Morrel fixamente. — Deixe que se

repita: é uma família de Átridas3. Deus condenou-os, eles amargarão a sentença.

Irão todos desaparecer como esses castelos que as crianças fabricam com cartas dobradas e que caem umas sobre as outras ao sopro de seu criador, ainda que haja duzentas. Era o sr. de Saint-Méran há três meses, a sra. de Saint-Méran há dois meses, Barrois outro dia, hoje é o velho Noirtier e a jovem Valentine.

— O senhor sabia? — gritou Morrel, num tal paroxismo de terror que Monte Cristo estremeceu, ele que a queda dos céus teria encontrado impassível. — Sabia de tudo e não me contou?

— Ora, qual a importância disso? — continuou Monte Cristo dando de ombros. — E eu lá conheço essas pessoas para matar uma e salvar outra?

Óbvio que não, pois, entre o culpado e a vítima, não tenho preferência.

— Mas e eu, e eu! — exclamou Morrel num uivo de dor. — Eu a amo!

— Ama quem? — exclamou Monte Cristo, dando um pulo e agarrando as duas mãos que Morrel levantava, contorcendo-as, para os céus.

— Amo apaixonadamente, amo como um demente, amo como um homem que daria todo o seu sangue para poupar-lhe uma lágrima; amo Valentine de Villefort, que está sendo assassinada neste exato momento, escute bem! Amo-a e pergunto a Deus e ao senhor como posso salvá-la!

Monte Cristo soltou um grito selvagem, do qual apenas podem fazer idéia aqueles que ouviram o rugido de um leão ferido.

— Infeliz! — exclamou, contorcendo por sua vez as mãos. — Infeliz!

Você ama Valentine! Ama essa filha de uma raça maldita!

Nunca Morrel vira expressão como aquela. Nunca olho tão terrível flamejara diante de seu rosto, nunca o gênio do terror, que ele vira aparecer tantas vezes, seja nos campos de batalha, seja nas noites homicidas da Argélia, disparara sobre ele fogos mais sinistros.

— Infeliz! Ama essa filha de uma raça maldita!

O jovem recuou apavorado.

Quanto a Monte Cristo, após essa explosão, fechou os olhos por um momento, como que ofuscado por relâmpagos interiores. Durante esse instante, recolheu-se com tanta força que, pouco a pouco, via-se amenizar

o movimento ondulante de seu peito inflado por tempestades, como vemos depois da nuvem fundirem-se sob sol as vagas turbulentas e espumantes.

Esse silêncio, esse recolhimento, essa luta duraram cerca de vinte segundos. O conde então ergueu sua fronte pálida.

— Aprecie — disse ele, com uma voz imperceptivelmente alterada —, caro amigo, como Deus sabe punir com sua indiferença os homens mais fanfarrões e mais frios diante dos terríveis espetáculos que lhes proporciona. Eu, que observava, assistindo impassível e curioso, eu, que observava o desenvolvimento dessa lúgubre tragédia, eu, que, semelhante ao anjo mau, ria da crueldade que fazem os homens, protegidos pelo sigilo, e o sigilo é fácil de manter para os ricos e poderosos, eis que chegou a minha vez de ser mordido por essa serpente cuja marcha tortuosa eu observava, e mordido no coração!

Morrel soltou um gemido abafado.

— Vamos, vamos — continuou o conde —, basta de lamúrias desse tipo.

Seja homem, seja forte, tenha esperança, pois aqui estou, e velo pelo senhor.

Morrel balançou tristemente a cabeça.

— Estou lhe dizendo para ter esperanças! Compreende isso? — exclamou Monte Cristo. — Saiba que nunca minto, que nunca me engano.

É meio-dia, Maximilien, dê graças aos céus por ter vindo ao meio-dia, em vez de vir amanhã de manhã. Escute então o que vou lhe dizer, Morrel: é meiodia; se Valentine ainda não morreu a esta hora, não morrerá mais.

— Oh, Deus, Deus! — exclamou Morrel. — E eu, que a deixei agonizante! Monte Cristo apoiou uma das mãos na testa.

O que passou naquela cabeça tão atormentada por terríveis segredos? Só Deus sabe!

Monte Cristo ergueu mais uma vez e, dessa vez, o semblante estava calmo como a criança que desperta.

— Maximilien — disse ele —, volte tranqüilamente para sua casa.

Ordeno-lhe que não dê um passo, não esboce uma iniciativa, não deixe flutuar em seu rosto a sombra de uma preocupação. Eu lhe darei notícias; vá.

— Minha nossa! — disse Morrel. — O senhor me assusta com esse sangue-frio, conde. Pode então alguma coisa contra a morte? É mais que um homem? É um anjo? É um Deus?

E o rapaz, que perigo algum fizera recuar um passo, recuava diante de Monte Cristo, tomado por um terror inexprimível.

Mas Monte Cristo olhou para ele com um sorriso ao mesmo tempo tão melancólico e meigo que Maximilien sentiu lágrimas nascerem em seus olhos.

— Eu posso muito, meu amigo — respondeu o conde. — Vá, preciso ficar sozinho.

Morrel, subjugado por aquela prodigiosa ascendência que Monte Cristo exercia sobre tudo que o cercava, sequer tentou esquivar-se dela. Apertou a mão do conde e saiu.

Entretanto, na porta, parou para esperar Baptistin, a quem acabava de ver aparecer na esquina da rua Matignon e que voltava correndo.

Enquanto isso, Villefort e d’Avrigny haviam se apressado. Ao chegarem, Valentine ainda estava desfalecida e o médico examinara a doente com os cuidados exigidos pela circunstância e com uma profundidade que deixava transparecer o conhecimento do segredo.

Villefort, em suspense diante daquele olhar e daqueles lábios, aguardava o resultado do exame. Noirtier, mais pálido que a moça, mais ansioso por uma solução que o próprio Villefort, também aguardava, e tudo nele fazia-se inteligência e sensibilidade.

Finalmente, d’Avrigny deixou escapar lentamente:

— Ainda vive.

— Ainda! — exclamou Villefort. — Oh, doutor, que palavra terrível!

— Sim — disse o médico —, repito minha frase: ainda vive, e estou muito surpreso com isso.

— Mas está salva? — perguntou o pai.

— Sim, uma vez que está viva.

Nesse momento o olhar de d’Avrigny encontrou o olho de Noirtier, que faiscava de uma alegria tão extraordinária, de um pensamento tão rico e fecundo que impressionou o médico.

Este acomodou novamente a moça na poltrona. Seus lábios mal se desenhavam, tão pálidos e brancos estavam, em conformidade com o restante da fisionomia, e ele permaneceu imóvel, olhando para Noirtier, por quem qualquer atitude do médico era esperada e comentada.

— Por favor, sr. Villefort — pediu então d’Avrigny —, chame a camareira da srta. Valentine.

Villefort largou a cabeça da filha, a quem amparava, e correu pessoalmente para chamar a camareira.

Assim que Villefort fechou a porta, d’Avrigny aproximou-se de Noirtier e perguntou:

— O senhor tem alguma coisa a me dizer?

O velho piscou expressivamente os olhos. Era, lembramos, o sinal afirmativo que ele usava.

— Apenas a mim?

— Sim — fez Noirtier.

— Bem, ficarei com o senhor.

Nesse momento, Villefort retornou, seguido pela camareira. Atrás dela vinha a sra. de Villefort.

— Mas o que fez essa querida criança? — exclamou a dona da casa. —

Saiu do meu quarto, queixando-se de uma indisposição, mas eu não acreditei ser sério.

E a jovem mulher, com lágrimas nos olhos e todas as marcas de afeição de uma verdadeira mãe, aproximou-se de Valentine, pegando sua mão.

D’Avrigny continuou a olhar para Noirtier, viu os olhos do velho se dilatarem e arregalarem, suas faces empalidecerem e estremecerem. O

suor brilhava em sua testa.

— Ah — fez ele involuntariamente, seguindo a direção do olhar de Noirtier, isto é, pousando os olhos na sra. de Villefort, que repetia:

— Essa pobre criança ficará melhor na cama dela. Venha, Fanny, vamos deitá-la.

O sr. d’Avrigny, que via naquele oferecimento um meio de ficar a sós com Noirtier, fez sinal com a cabeça de que era efetivamente o que havia de melhor a se fazer, mas com a recomendação que ela só ingerisse alguma coisa quando ele ordenasse.

Foi então providenciada a transferência de Valentine, que voltara a si, mas ainda incapaz de agir e quase de falar, tanto seus membros achavam-se doloridos pelo abalo que acabava de sofrer. Entretanto, teve forças para acenar com o olho para seu avô, cuja alma parecia ter sido arrancada quando a levaram.

D’Avrigny acompanhou a doente, terminou suas prescrições, ordenou a Villefort que chamasse um cabriolé, fosse pessoalmente ao farmacêutico para que este preparasse à sua frente as poções receitadas, trouxesse-as pessoalmente e o esperasse no quarto de Valentine.

Em seguida, após ter repetido a ordem para não deixarem Valentine ingerir nada, desceu novamente para o quarto de Noirtier, fechou cuidadosamente as portas e, após ter se certificado de que ninguém escutava, disse:

Foi então providenciada a transferência de Valentine, que voltara a si.

— Vejamos, sabe alguma coisa sobre a doença de sua neta?

— Sim — fez o velho.

— Escute, não temos tempo a perder, vou interrogá-lo e o senhor me responde.

Noirtier fez sinal de que estava pronto a responder.

— O senhor tinha previsto o acidente que aconteceu hoje com Valentine?

— Sim.

D’Avrigny refletiu por um instante. Depois, reaproximando-se de Noirtier:

— Perdoe-me pelo que lhe direi — acrescentou —, mas nenhum indício deve ser desprezado na situação terrível em que estamos. Assistiu à morte

do infeliz Barrois?

Noirtier ergueu os olhos para o céu.

— Sabe a causa de sua morte? — perguntou d’Avrigny, colocando a mão no ombro de Noirtier.

— Sim — respondeu o velho.

— Acha que a morte dele foi natural?

Alguma coisa como um sorriso esboçou-se nos lábios inertes de Noirtier.

— Então ocorreu-lhe que Barrois tinha sido envenenado?

— Sim.

— Acredita que esse veneno de que foi vítima destinava-se a ele?

— Não.

— Agora acredita que a mão que golpeou Barrois querendo golpear um outro é a mesma que golpeia hoje Valentine?

— Sim.

— Ela então irá sucumbir também? — perguntou d’Avrigny, fixando seu olhar profundo em Noirtier.

E esperou o efeito dessa frase no velho.

— Não — respondeu este, com um ar de triunfo capaz de derrubar as conjecturas do mais hábil adivinho.

— Então tem esperanças? — perguntou d’Avrigny, surpreso.

O velho deu a entender com os olhos que não podia responder.

— Ah, sim, é verdade! — murmurou d’Avrigny. Em seguida, dirigindo-se a Noirtier:

— Acha que o assassino se cansará? — perguntou.

— Não.

— Mas acha que o veneno não terá efeito sobre Valentine?

— Sim.

— Pois não lhe digo nada de novo — acrescentou d’Avrigny — ao dizer que acabam de tentar envenená-la, não é mesmo?

O velho fez sinal com os olhos de que não tinha nenhuma dúvida a esse respeito.

— Então como espera que Valentine escape?

Noirtier manteve os olhos voltados obstinadamente para o mesmo lado.

D’Avrigny seguiu a direção de seus olhos e viu que estavam grudados numa garrafa que continha a poção que lhe traziam todas as manhãs.

— Ah, ah! — disse d’Avrigny, arrebatado por uma idéia súbita. — Então o senhor teria tido a idéia de...

Noirtier não o deixou terminar.

— Sim — fez ele.

— De imunizá-la contra o veneno...

— Sim.

— Habituando-a pouco a pouco...

— Sim, sim, sim — fez Noirtier, feliz por ser compreendido.

— Por acaso me ouviu dizer que entrava brucina nas poções que lhe dou?

— Sim.

— E, acostumando-a a essa poção, o senhor quis neutralizar os efeitos de um veneno?

Mesma alegria triunfante de Noirtier.

— E foi de fato muito bem-sucedido! — exclamou d’Avrigny. — Sem essa precaução, Valentine teria sido assassinada hoje, assassinada sem socorro possível, assassinada sem misericórdia. O choque foi muito violento, mas apenas a abalou, e pelo menos dessa vez Valentine não morrerá.

Uma alegria sobre-humana desabrochava nos olhos do velho, erguidos para o céu com uma expressão de gratidão infinita.

Nesse momento, Villefort entrou.

— Pronto, doutor — disse ele —, aqui está o que me havia pedido.

— Essa poção foi preparada diante dos seus olhos?

— Sim — respondeu o procurador do rei.

— Não saiu das suas mãos?

— Não.

D’Avrigny pegou a garrafa, despejou algumas gotas da beberagem que ela continha na concha da mão e as engoliu.

— Ótimo — disse ele —, vamos subir até o quarto de Valentine, lá darei minhas instruções a todo mundo, e o senhor mesmo zelará, sr. de Villefort, para que ninguém as desrespeite.

No momento em que d’Avrigny entrava no quarto de Valentine, acompanhado por Villefort, um sacerdote italiano, de aspecto severo, palavras calmas e decididas, alugava para uso próprio a casa contígua ao palacete habitado pelo sr. de Villefort.

Impossível saber em virtude de que negociação os três locatários dessa casa mudaram-se duas horas depois, mas o rumor que correu por todo o bairro foi de que a casa não tinha alicerces sólidos e ameaçava desmoronar, o que não impediu o novo locatário de nela se estabelecer com seu modesto mobiliário naquele mesmo dia, por volta das cinco horas.

O contrato foi firmado para três, seis ou nove anos pelo novo locatário, que, segundo o hábito consagrado pelos proprietários, pagou seis meses antecipadamente. Esse novo locatário, que, como dissemos, era italiano, chamava-se signor Giacomo Busoni.

Operários foram imediatamente contratados e, naquela mesma noite, os raros passantes que se quedavam na extremidade do faubourg viam com surpresa os mestres-de-obras e pedreiros ocupados em restaurar a instável morada.

1 “não existe mais santa Vehme, não existem mais juízes-francos”: a Vehme, na Alemanha medieval, consistia num tribunal secreto. As cortes vehmicas — o tribunal dos juízes francos que, segundo a tradição, remontava a Carlos Magno — desapareceram no séc.XVI.