O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 16 de 119

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O Conde de Monte Cristo

14. O prisioneiro furioso e o prisioneiro louco

1 “o girondino de 93 e o senador de 1806”: 1793 foi o ano em que os jacobinos tomaram o poder dos girondinos (ver nesta Parte, cap.6, nota 22); 1806, no caso, deve ser entendido como um ponto alto do Primeiro Império napoleônico (1804-14). Em 1805, apesar da derrota para os ingleses em Trafalgar, Napoleão havia sido entronizado rei da Itália, ocupara Viena e obtivera importante vitória na batalha de Austerlitz. Em janeiro de 1806, retornou à França e, ao longo do ano, anexou os rei nos de Nápoles e da Holanda. Tamanho poderio permitiu-lhe a criação da Confederação do Reno, formada por dezesseis estados alemães sob sua influência, e a emissão do decreto que criava o Bloqueio Continental, numa tentativa de fechar as portas do comércio europeu à Inglaterra. Sendo assim, a expressão chama atenção para os altos e baixos da vida política.

2 Fenestrelle, Pignerol e ilhas Sainte-Marguerite: fortalezas usadas como prisão pelos governos franceses. Fenestrelle e Pignerol localizam-se na Itália, uma no Piemonte e a outra ao sudoeste de Turim. Ambas deixaram de pertencer aos franceses após 1814. Como esta cena se passa durante os chamados Cem Dias, último período de Napoleão no poder, entre março e junho de 1815, ou Villefort está simplesmente despistando o sr. Morrel ou houve um engano por parte do autor. As ilhas Sainte-Marguerite situam-se no sudeste da França, próximas a Cannes.

3 Waterloo: nome da última batalha perdida por Napoleão, que marcou a derrocada final de seu império. Aconteceu em 18 de junho de 1815, na localidade de Waterloo, na Bélgica. A coalizão reunida contra o exército francês incluía Prússia, Inglaterra, Rússia e Áustria.

14. O prisioneiro furioso e o prisioneiro louco Cerca de um ano depois do retorno de Luís XVIII, aconteceu uma visita do sr. inspetor-geral das prisões.

Do fundo de sua masmorrra, Dantès ouviu o rolar e ranger de todos aqueles preparativos que em cima faziam grande estard lhaço, mas que, embaixo, eram ruídos imperceptíveis a qualquer ouvido que não o de um prisioneiro acostumado a escutar, no silêncio da noite, a aranha tecendo sua teia e a queda periódica de uma gota d’água que leva uma hora para se formar no teto.

Presumiu que alguma coisa de inusual estava acontecendo no mundo dos vivos: habitava há tanto tempo um túmulo que podia muito bem se considerar um defunto.

Com efeito, o inspetor visitava, um atrás do outro, os alojamentos, celas e masmorras. Diversos prisioneiros foram interrogados; eram aqueles cuja submissão ou estupidez recomendavam à benevolência da administração.

O inspetor perguntou-lhes como eram alimentados e quais reivindicações tinham a fazer.

Responderam unanimemente que a comida era execrável e

reivindicaram a liberdade.

O inspetor perguntou se tinham outra coisa a lhe comunicar.

Eles balançaram a cabeça. Que outro bem prisioneiros podem reivindicar senão a liberdade?

O inspetor voltou-se sorrindo e disse ao diretor:

— Não sei por que nos obrigam a fazer essas inspeções inúteis. Quem vê um prisioneiro, vê cem; quem ouve um prisioneiro, ouve mil; é sempre a mesma coisa: mal alimentados e inocentes. O senhor tem mais?

— Sim, temos os prisioneiros perigosos ou loucos, que mantemos na masmorra.

— Vamos a eles — disse o inspetor com um ar de profunda lassidão —, cumpramos nossa missão até o fim e desçamos às masmorras.

— Espere — disse o diretor —, precisamos uma escolta de no mínimo dois homens; às vezes os prisioneiros cometem, até mesmo por desilusão com a vida e para serem condenados à morte, atos de desespero inúteis. O

senhor poderia ser vítima de um desses atos.

— Tome então suas precauções — disse o inspetor.

Com efeito, dois soldados foram chamados e todos começaram a descer por uma escada tão nauseabunda, fétida e úmida que bastava alguém passar por aquele lugar para ter agredidos simultaneamente a visão, o olfato e a respiração.

— Oh! — disse o inspetor, parando no meio da descida. — Que desgraçado consegue viver aqui?

— Um conspirador dos mais perigosos e que nos é particularmente recomendado como um homem capaz de tudo.

— Está sozinho?

— Decerto.

— Há quanto tempo está aqui?

— Há mais ou menos um ano.

— E está nessa masmorra desde que chegou?

— Não, senhor, só depois que tentou matar o carcereiro encarregado de lhe trazer a comida.

— Quis matar o carcereiro?

— Sim, senhor, este mesmo que nos ilumina o caminho. Não é verdade, Antoine? — perguntou o diretor.

— Ele tentou me matar de tudo que foi jeito — respondeu o carcereiro.

— Não é possível! Mas então este homem é louco.

— Pior que isso — disse o carcereiro —, é um demônio.

— Quer que façamos queixa dele? — perguntou o inspetor ao diretor.

— Inútil, senhor, ele está suficientemente castigado dessa forma; por sinal, no momento, está quase louco e, pela experiência que nossas observações nos proporcionam, antes de um ano estará completamente alienado.

— Bom Deus, melhor para ele — disse o inspetor. — Uma vez completamente louco, sofrerá menos.

Era, como vemos, um homem cheio de bondade esse inspetor, e muito digno das funções filantrópicas que exercia.

— Tem razão — disse o diretor —, e essa reflexão atesta que o senhor estudou profundamente a matéria. Assim, temos, numa masmorra separada desta por meros seis metros, e para a qual descemos por outra escada, um velho abade, antigo líder subversivo na Itália, que está aqui desde 1811, o qual perdeu o juízo no finzinho de 1813; desde então, não é fisicamente identificável: chorava, agora ri; emagrecia, agora engorda.

Talvez prefira vê-lo a este daqui; sua loucura é divertida e não o entristecerá.

— Verei a ambos — disse o inspetor —, dessa forma cumpriremos conscienciosamente nossa missão. Entremos então na cela deste aqui primeiro — acrescentou.

— Como o senhor desejar — respondeu o diretor. E fez sinal para o carcereiro, que abriu a porta.

Ao ranger dos maciços ferrolhos, ao grito das charneiras enferrujadas girando sobre seus eixos, Dantès, de cócoras num canto de sua masmorra, onde recebia com uma alegria indescritível o tênue raio de sol que escoava através de um estreito respiradouro gradeado, ergueu a cabeça. Ao ver um homem desconhecido, iluminado por dois carcereiros com archotes, e a quem o diretor falava com o chapéu na mão, acompanhado por dois soldados, Dantès adivinhou do que se tratava e, vendo enfim apresentar-se uma oportunidade de implorar a uma autoridade superior, pulou para a frente com as mãos postas.

Acreditando que o prisioneiro investia contra o diretor com más intenções, os soldados cruzaram imediatamente as baionetas.

O próprio inspetor deu um passo para trás.

Dantès viu que o haviam apresentado como alguém a ser temido.

Então reuniu em seu olhar tudo o que o coração de um homem pode conter de mansidão e humildade e, exprimindo-se com uma espécie de eloqüência piedosa que surpreendeu os espectadores, tentou comover a alma de seu visitante.

O inspetor escutou o discurso de Dantès até o fim; em seguida, dirigindo-se ao diretor:

— Este se voltará para a religião — disse a meia-voz —, já está inclinado a sentimentos mais delicados. Veja, o medo deu resultado; ele recuou diante das baionetas; ora, um louco não recua diante de

nada; fiz observações curiosas a esse respeito em Charenton1.

Voltando-se então para o prisioneiro:

— Em suma, qual é o seu pedido?

— Peço que me digam o crime que cometi; peço que designem juízes para mim; peço que o meu processo seja formalizado; peço finalmente que me fuzilem se eu for culpado, mas também que me ponham em liberdade se for inocente.

— Está sendo bem alimentado? — perguntou o inspetor.

— Acho que sim, não sei. Mas isso pouco importa; o que importa, não apenas para mim, desafortunado prisioneiro, mas também para todos os funcionários tributários da justiça, mas também para o rei que nos governa, é um inocente ser vítima de uma denúncia infame e morrer trancafiado amaldiçoando seus carrascos.

— O senhor parece bastante humilde hoje — disse o diretor. — Nem sempre foi assim. Seus modos eram outros, caro amigo, no dia em que tentou atacar o seu carcereiro.

— É verdade, senhor — disse Dantès —, e muito humildemente peço perdão por isso a este homem, que sempre foi bom para mim... Mas, que quer? Eu estava louco, eu estava furioso.

— E não está mais?

— Não, senhor, o cativeiro me dobrou, arrebentou, destruiu... Faz tanto tempo que estou aqui!

— Tanto tempo...? Em que época foi preso? — perguntou o inspetor.

— Em 1o de março de 1815, às duas horas da tarde. O inspetor calculou.

— Estamos em 30 de julho de 1816; que me diz disso? Está preso há apenas dezessete meses.

— Apenas dezessete meses! — exclamou Dantès. — Ah, senhor, não sabe o que são dezessete meses de prisão; dezessete anos, dezessete séculos; sobretudo para um homem que, como eu, roçava a felicidade; para um homem que, como eu, ia esposar a mulher amada; para um homem que via abrir-se à sua frente uma carreira honrosa e a quem tudo falta no momento; que, do meio do dia mais belo cai na noite mais profunda, que vê sua carreira destruída, que não sabe se aquela que o amava continua a amá-lo, que ignora se seu velho pai está vivo ou morto.

Dezessete meses de prisão, para um homem acostumado ao ar marinho, à independência do marujo, ao espaço, à imensidão, ao infinito! Senhor, dezessete meses de prisão é mais do que merecem todos os crimes designados pelos nomes mais odiosos da língua humana. Tenha portanto piedade de mim, senhor, e suplique por mim não a indulgência, mas o rigor; não a misericórdia, mas o tribunal; juízes, senhor, peço apenas juízes; não se podem recusar juízes a um acusado.

— Muito bem — disse o inspetor —, veremos. Depois, dirigindo-se ao diretor:

— Na verdade, o pobre-diabo dá pena. Quando subirmos, o senhor me mostrará os autos.

— Pois não — disse o diretor —, mas creio que encontrará observações terríveis contra ele.

— Senhor — prosseguiu Dantès —, sei que não pode me fazer sair daqui por decisão própria; mas pode transmitir meu pedido à autoridade, pode instaurar um inquérito; pode, enfim, me levar a julgamento. Um julgamento é tudo que peço; que eu saiba o crime que cometi e a pena a que estou condenado; pois, há de convir, a incerteza é o pior de todos os suplícios.

— Ilumine o caminho — disse o inspetor.

— Senhor — exclamou Dantès —, pelo som de sua voz percebo que está emocionado. Senhor, diga-me para ter esperanças.

— Não posso lhe dizer isso — respondeu o inspetor —, posso apenas prometer examinar seu dossiê.

— Oh, então, estou livre, estou salvo!

— Quem o mandou prender? — perguntou o inspetor.

— O sr. de Villefort — respondeu Dantès. — Procure-o e fale com ele.

— O sr. de Villefort saiu de Marselha há um ano, está em Nêmes.

— Ah! Isso não me espanta nada — murmurou Dantès. — Meu único protetor está longe.

— O sr. de Villefort tinha algum motivo para odiá-lo? — perguntou o inspetor.

— Nenhum, senhor; e inclusive foi benevolente comigo.

— Posso então confiar nas observações que ele deixou sobre o senhor ou que ele me fornecerá?

— Plenamente, senhor.

— Muito bem, espere.

Dantès caiu de joelhos, erguendo as mãos para o céu e murmurando uma prece na qual recomendava a Deus aquele homem que descera até a sua prisão, como um salvador vindo para libertar as almas do inferno.

A porta voltou a se fechar; mas a esperança descida com o inspetor permaneceu encerrada na masmorra de Dantès.

— Quer ver os autos imediatamente — perguntou o diretor — ou passar para a masmorra do abade?

— Vamos terminar de uma vez com as masmorras — respondeu o inspetor. — Se eu subir de novo para a luz, talvez perca a coragem para continuar minha triste missão.

— Ah, este é um prisioneiro completamente diferente dos outros, e sua loucura, por sua vez, é menos lastimável que a razão de seu vizinho.

— E qual é a loucura dele?

— Oh, uma loucura estranha: julga-se proprietário de um imenso tesouro. No primeiro ano de cativeiro, mandou oferecer um milhão se o diretor se dispusesse a libertá-lo; no segundo ano, dois milhões, no terceiro, três milhões, e assim progressivamente. Está no quinto ano de cativeiro: vai pedir para lhe falar em particular e lhe oferecer cinco milhões.

— Ah, ah! Curioso, com efeito — disse o inspetor —, e como se chama esse milionário?

— Abade Faria.

— Número 27 — disse o inspetor.

— É aqui. Abra, Antoine.

O carcereiro obedeceu, e o olhar curioso do inspetor mergulhou na masmorra do abade louco.

Era assim que em geral tratavam o prisioneiro.

No meio da cela, num círculo traçado no chão com um pedaço de gesso arrancado da parede, estava deitado um homem quase nu, de tal forma suas roupas haviam se degradado em farrapos. Desenhava linhas geométricas bem nítidas nesse círculo, e parecia tão ocupado em resolver um problema quanto Arquimedes ao ser

assassinado por um soldado de Marcelo2. Assim, sequer se mexeu ao ouvir o barulho provocado pela porta da masmorra que se abria, e pareceu não voltar a si senão quando a luz dos archotes iluminou com um brilho incomum o solo úmido sobre o qual trabalhava. Então voltou-se e viu com espanto o numeroso grupo que acabava de descer à sua masmorra.

Levantou-se prontamente, pegou uma coberta jogada ao pé do seu catre miserável e cobriu-se precipitadamente, de modo a parecer mais decente aos olhos de estranhos.

— Qual é o seu pedido? — perguntou o inspetor, sem variar a fórmula.

— Meu, senhor? — disse o abade com um ar espantado. — Não peço nada.

— Não está compreendendo — disse o inspetor. — Sou agente do governo, minha missão é descer nas prisões e escutar as reclamações dos prisioneiros.

 

— Oh, então, senhor, é diferente — exclamou animadamente o abade

—, e espero que cheguemos a um acordo!

— Eu não disse? — sussurrou o diretor. — Não está começando como previ?

— Senhor — continuou o prisioneiro —, sou o abade Faria, nascido em Roma; fui por vinte anos secretário do cardeal Spada; fui preso, e não sei bem o motivo, no começo do ano de 1808; desde então reivindico minha liberdade às autoridades italianas e francesas.

O abade Faria.

— Por que às autoridades francesas? — perguntou o diretor.

— Porque fui preso em Piombino e presumo que, como Milão e Florença, Piombino tenha se transformado na capital de algum departamento francês.

O inspetor e o diretor entreolharam-se rindo.

— Pena, meu caro — disse o inspetor —, suas notícias da Itália não são recentes.

— Elas datam do dia em que fui preso, senhor — respondeu o abade Faria. — E, como Sua Majestade o imperador havia criado o reino de Roma para o filho que o céu acabava de lhe mandar, presumo que, dando seqüência à sua série de conquistas, tenha realizado o sonho de Maquiavel e de César Bórgia, que era unificar toda a Itália num único reino.

— Cavalheiro — disse o inspetor —, felizmente a Providência deu uns retoques nesse gigantesco plano do qual o senhor me parece que era um partidário entusiasmado.

— É o único meio de fazer da Itália um Estado forte, independente e feliz — respondeu o abade.

— É possível — respondeu o inspetor —, mas não vim aqui para palestrar com o senhor sobre política transmontana, mas para lhe perguntar, o que já fiz, se tem alguma reclamação a fazer sobre a maneira como é alimentado e alojado.

— A comida é a mesma de todas as prisões, isto é, péssima —

respondeu o abade. — Quanto ao alojamento, como pode ver, é úmido e doentio, não obstante mais que adequado para uma masmorra. Porém, não é disso que se trata, mas sim da revelação da mais alta importância e do mais alto interesse que tenho a fazer à direção.

— Chegamos ao ponto — disse baixinho o diretor ao inspetor.

— Eis por que estou tão contente em vê-lo — continuou o abade —, embora o senhor tenha atrapalhado um cálculo importantíssimo, o qual, caso solucionado, talvez alterasse o sistema de Newton. Pode me conceder o favor de uma entrevista privada?

— Hein! Eu não disse? — comentou o diretor para o inspetor.

— O senhor conhece o seu pessoal — respondeu sorrindo este último.

Depois, voltando-se para Faria:

— Cavalheiro, o que me pede é impossível.

— Entretanto, senhor — continuou o abade —, e se porventura se tratasse de fazer a direção ganhar uma soma enorme, uma soma de cinco milhões, por exemplo?

— Puxa — admirou-se o inspetor, voltando-se por sua vez para o diretor

—, o senhor adivinhou até a cifra.

— Veja bem — continuou o abade, percebendo que o inspetor fazia menção de se retirar —, não precisamos ficar absolutamente a sós; o

senhor diretor poderá assistir à nossa conversa.

— Meu caro senhor — intrometeu-se o diretor —, infelizmente sabemos de antemão e de cor o que irá dizer. Trata-se de seus tesouros, não é?

Faria olhou para aquele homem escarninho com olhos em que um observador imparcial decerto teria visto, com certeza, luzir o brilho da razão e da verdade.

— Claro — disse ele —, de que quer que eu fale senão disso?

— Sr. inspetor — continuou o diretor —, posso lhe contar essa história tão bem quanto o abade, pois há quatro ou cinco anos ele me enche os ouvidos com ela.

— Isso prova, sr. diretor — disse o abade —, que o senhor é como essas pessoas de que falam as Escrituras, que têm olhos e não

vêem, que têm ouvidos e não ouvem3.

— Meu caro senhor — disse o inspetor —, o diretor é rico e, graças a Deus, não precisa do seu dinheiro; guarde-o então para o dia em que sair da prisão.

O olho do abade se dilatou; ele pegou na mão do inspetor.

— Mas e se porventura eu não sair da prisão — respondeu —, e se, contrariando toda a justiça, me retiverem nesta masmorra, e se eu aqui morrer sem haver legado meu segredo a ninguém, esse tesouro ficará perdido? Não seria melhor a direção usufruir dele e eu também? Posso chegar a seis milhões, senhor; sim, abandonarei seis milhões e me contentarei com o resto, caso me concedam a liberdade.

— Com os diabos — disse o inspetor a meia-voz —, se não soubéssemos que este homem é louco, seu tom tão convincente talvez nos persuadisse.

— Não sou louco, senhor, e digo efetivamente a verdade — retrucou Faria, que, com a sensibilidade auditiva característica dos prisioneiros, não havia perdido uma só palavra do inspetor. — Esse tesouro de que lhe falo existe de fato, e ofereço-me para assinar um pacto consigo, segundo o qual o senhor me levará até o local por mim designado; a terra será escavada sob nossos olhos e, se não encontrarmos nada, se eu for louco, como o senhor diz, pois bem!, o senhor me trará de volta para essa mesma masmorra, onde ficarei eternamente e onde morrerei sem mais nada pedir ao senhor nem a ninguém.

O diretor começou a rir.

— Fica muito longe o seu tesouro? — perguntou.

— A cerca de quinhentos quilômetros daqui — disse Faria.

— Que grande idéia — ironizou o diretor. — Se todos os prisioneiros quisessem se divertir dando um passeio de quinhentos quilômetros com seus carcereiros, e se esses carcereiros consentissem em fazer esse passeio, seria uma excelente oportunidade para os prisioneiros arranjarem um jeito de pegar a chave das celas assim que surgisse uma ocasião; e, durante uma viagem como essa, a ocasião decerto se apresentaria.

— É um recurso conhecido — disse o inspetor —, e o cavalheiro não tem sequer o mérito da invenção.

Depois, voltando-se para o abade.

— Eu lhe perguntei: é bem alimentado?

— Senhor — respondeu Faria —, jure por Cristo que vai me tirar daqui se eu lhe disser a verdade e eu revelarei o lugar onde o tesouro está enterrado.

— O senhor não está respondendo à minha pergunta — retrucou o inspetor com impaciência.

— Nem o senhor ao meu pedido! — exclamou o abade. — Seja então amaldiçoado como os outros insensatos que não querem acreditar em mim! Não querem meu ouro, vou guardá-lo; recusam-me a liberdade, Deus ma enviará. Vão embora, não tenho mais nada a dizer.

E o abade, desfazendo-se de sua coberta, recolheu seu pedaço de gesso e foi novamente sentar no meio do círculo, onde continuou com suas linhas e seus cálculos.

— Que faz ele? — perguntou o inspetor ao se retirar.

— Contabiliza seus tesouros — caçoou o diretor.

Faria respondeu a esse sarcasmo com uma piscadela que significava supremo desprezo.

Saíram. O carcereiro fechou a porta atrás deles.

— Pode ser que realmente tenha possuído alguns tesouros — disse o inspetor subindo a escada.

— Ou sonhado que os possuía — respondeu o diretor —, e no dia seguinte acordou louco.

— Com efeito — disse o inspetor com a ingenuidade da corrupção —, se fosse realmente rico, não estaria na prisão.

Assim terminou a aventura para o abade Faria. Ele continuou prisioneiro e sua reputação de louco pitoresco, em decorrência dessa visita, aumentou ainda mais.

Calígula ou Nero, esses grandes caçadores de tesouros, esses cobiçadores do impossível, teriam dado ouvidos às palavras daquele coitado e lhe teriam concedido o ar que desejava, o espaço que estimava a um preço tão valioso, e a liberdade pela qual se dispunha a pagar tão caro.

Mas os reis dos nossos dias, cerceados no limite do plausível, não possuem mais a audácia da vontade; temem o ouvido que escuta a ordem que decretam, o olho que perscruta suas ações; não sentem mais a superioridade de sua essência divina; são homens coroados, nada mais.

Antigamente julgavam-se, ou pelo menos diziam ser, filhos de Júpiter, e conservavam alguma coisa das maneiras do deus seu pai — não se controla facilmente o que acontece além das nuvens. Atualmente, os reis deixam-se facilmente imitar. Ora, como sempre repugnou ao governo despótico mostrar à luz do dia os efeitos da prisão e da tortura; como há poucos exemplos de uma vítima das inquisições ter conseguido ressuscitar com seus ossos moídos e feridas ensangüentadas, da mesma forma a loucura, essa úlcera nascida na franja das masmorras, em conseqüência das torturas morais, esconde-se quase sempre caprichosamente no lugar onde nasceu, ou, se dele sair, vai enterrar-se em algum hospital escuro, onde os médicos não reconhecem nem o homem nem o pensamento no escombro informe que lhes entrega seu carcereiro fatigado.

O abade Faria, que enlouquecera na cadeia, estava condenado, por sua própria loucura, à prisão perpétua.

Quanto a Dantès, o inspetor cumpriu o prometido. Ao subir para os aposentos do diretor, pediu para ver os autos. A observação referente ao prisioneiro estava assim concebida.

Edmond Dantès:

Bonapartista radical; teve participação importante no retorno da ilha de Elba. A ser mantido confinado sob grande sigilo e sob a mais rigorosa vigilância.

Esta observação estava com uma letra e uma tinta diferentes do resto do auto, o que provava ter sido acrescentada depois do encarceramento de Dantès.

A acusação era demasiado direta para alguém tentar combatê-la. O

inspetor escreveu então embaixo do adendo:

“Nada a fazer.”

Aquela visita tinha, por assim dizer, reanimado Dantès; desde que entrara na prisão, esquecera-se de contar os dias; mas o inspetor lhe fornecera uma nova data e Dantès não a esquecera. Atrás dele, escreveu na parede, com um pedaço de reboco arrancado do teto, 30 de julho de 1816.

A partir daquele momento, fez um entalhe todos os dias, para não perder mais a noção do tempo.

Dias se passaram, depois semanas, depois meses, Dantès continuou esperando. Tinha começado por estipular sua liberdade para dali a quinze dias. Se empenhasse no acompanhamento do seu caso a metade do interesse que parecera demonstrar, quinze dias deviam ser suficientes para o inspetor. Transcorridos aqueles quinze dias, Dantès ponderou que era um absurdo de sua parte acreditar que o inspetor lhe daria atenção antes de sua volta a Paris; ora, sua volta a Paris só poderia se dar depois que sua inspeção terminasse, e sua inspeção podia durar um mês ou dois; deu-se então três meses em vez de quinze dias. Transcorridos os três meses, um outro raciocínio veio em seu socorro, que fez com que concedesse seis meses, mas transcorridos esses seis meses, enfileirando todos os dias, resultava que esperara dez meses e meio.

Durante esses dez meses, nada mudara no regime de sua prisão; nenhuma notícia consoladora chegara até ele; o carcereiro, interrogado, permanecia mudo como sempre. Dantès começou a desconfiar dos seus sentidos, a acreditar que a suposta recordação da sua memória não passava de alucinação do seu cérebro e que o anjo consolador aparecido na prisão descera nas asas de um sonho.

Um ano depois, o diretor foi substituído, tendo obtido a direção do forte de Ham; levou com ele vários de seus subordinados, entre eles o carcereiro de Dantès. Um novo diretor chegou; levou muito tempo para aprender os nomes dos prisioneiros, guardou apenas seus números. Esse horrível hotel compunha-se de cinqüenta quartos; seus habitantes passaram a ser chamados pelo número do quarto que ocupavam, e o infeliz rapaz deixou de ser interpelado por seu prenome Edmond ou pelo sobrenome Dantès, agora era o no34.

1 Charenton: hospício psiquiátrico fundado em 1645 pela ordem dos Irmãos da Caridade, em Charenton-Saint-Maurice (atual Saint-Maurice, no Val-de-Marne). Foi nessa instituição que o marquês de Sade passou seus últimos dias. Chama-se hoje em dia Hospital Esquirol.

2 “Arquimedes ao ser assassinado por um soldado de Marcelo”: o matemático grego Arquimedes (287 a.C.-212 a.C.) dirigiu, durante três anos, os trabalhos de defesa da cidade de Siracusa, ameaçada pelos romanos liderados por Marcelo. Este, ao tomar posse da cidade, deu ordens para que Arquimedes fosse poupado. O matemático, porém, estava tão entretido com uma equação que, irritando o soldado que lhe deu ordem de prisão, acabou assassinado.

3 “Que têm olhos e não vêem, que têm ouvidos e não ouvem” : paráfrase da Bíblia, em Marcos VIII, 17-24. A frase citada está incluída no seguinte trecho: “Jesus percebeu-o e disselhes: ‘Por que discutis por não terdes pão? Ainda não tendes refletido nem compreendido? Tendes olhos, não vedes? E tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais mais? Ao partir eu os cinco pães entre os cinco mil, quantos cestos recolhestes cheios de pedaços?’ Responderam-lhe: ‘Doze’. ‘E

quando eu parti os sete pães entre os quatro mil homens, quantos cestos de pedaços levantastes?’

‘Sete!’, responderam-lhe. Jesus disse-lhes: ‘Como é que ainda não entendeis?’ Chegando eles a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e suplicaram-lhe que o tocasse. Jesus tomou o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia. Pôs-lhe saliva nos olhos e respondeu: ‘Vejo os homens como árvores que andam. “Em seguida, Jesus lhe impôs as mãos nos olhos, e ele começou a ver e ficou curado.”