O Conde de Monte Cristo
5. Valentine
— E agora, até breve, minha filha.
5. Valentine
A lamparina continuava a queimar sobre a lareira de Valentine, consumindo as últimas gotas de azeite que ainda boiavam na água. À
medida que um círculo mais avermelhado coloria o alabastro da redoma, a chama mais viva deixava escapar suas últimas crepitações, que nos seres inanimados são como as últimas convulsões da agonia tantas vezes comparadas às das pobres criaturas humanas. Um dia fechado e sinistro acabava de matizar com um reflexo de opala o cortinado branco e os lençóis da rapariga.
Todos os barulhos da rua extinguiram-se definitivamente dessa vez, e o silêncio do lado de dentro era assustador.
A porta do quarto de Édouard então abriu-se, e uma cabeça que vimos antes apareceu no espelho oposto à porta. Era a sra. de Villefort, retornando para verificar o efeito da beberagem.
Ela parou na soleira da porta, escutou o crepitar da lamparina, único ruído perceptível naquele quarto que julgaríamos deserto, e então avançou sorrateiramente até a mesinha-de-cabeceira para ver se o copo de Valentine estava vazio.
Ainda continha um quarto, como dissemos.
A sra. de Villefort pegou-o e foi esvaziá-lo nas cinzas, que ela remexeu para facilitar a absorção do líquido. Em seguida, enxaguou cuidadosamente o cristal, enxugou-o com seu próprio lenço e foi recolocá-lo na mesinha-de-cabeceira.
Alguém cujo olhar mergulhasse no interior do quarto naquele momento teria visto a hesitação da sra. de Villefort ao fixar seus olhos em Valentine e aproximar-se de sua cama.
A iluminação lúgubre, o silêncio, a terrível poesia da noite vinham provavelmente mesclar-se à monstruosa poesia de sua consciência. A envenenadora tinha medo de sua obra.
Finalmente recobrou-se, afastou o cortinado, apoiou-se na cabeceira da cama e observou Valentine.
A moça não respirava mais, seus dentes semicerrados não deixavam escapar nenhum átomo do sopro que subjaz à vida; seus lábios esbranquecidos haviam cessado de vibrar; seus olhos, afogados num vapor violeta que parecia perpassar sua pele, formavam uma protuberância mais
branca no lugar onde o globo ocular intumescia a pálpebra, e seus longos cílios negros riscavam uma pele já macilenta como cera.
A sra. de Villerfort contemplou aquele rosto de expressão tão eloqüente em sua imobilidade, tomou coragem e, levantando a coberta, pousou a mão no coração da rapariga.
Estava mudo e gelado.
O que pulsava sob sua mão eram as artérias de seus dedos. Ela recolheu a mão com um arrepio.
O braço de Valentine pendia para fora da cama. Esse braço, desde a articulação do ombro até o cotovelo, parecia modelado como o de
uma das Graças de Germain de Pilon1. O antebraço, porém, achava-se ligeiramente deformado por uma contração, e o pulso, graciosamente torneado, apoiavase, hirto e com os dedos entreabertos, na madeira avermelhada.
A raiz das unhas estava azulada.
Para a sra. de Villefort, não havia mais dúvida: estava tudo acabado, a obra terrível, a última a ser encetada, estava enfim consumada.
A envenenadora nada mais tinha a fazer naquele quarto. Ela recuou com tamanha precaução que era visível seu receio de fazer com os pés qualquer barulho sobre o tapete. Mas enquanto recuava, mantinha o cortinado erguido, absorvendo o espetáculo da morte, que possui uma irresistível atração enquanto a morte não é decomposição, apenas imobilidade, enquanto permanece mistério e não ainda nojo.
Os minutos corriam. A sra. de Villefort não conseguia largar o cortinado, que mantinha suspenso como uma mortalha acima da cabeça de Valentine. Pagou seu tributo ao devaneio; o devaneio do crime só pode ser o remorso.
Nesse momento, as crepitações da lamparina intensificaram-se.
Ela recolheu a mão com um arrepio.
A sra. de Villefort, diante desse rumor, estremeceu e deixou o cortinado cair.
No mesmo instante, a lamparina se apagou e o quarto mergulhou numa terrível escuridão.
Em meio a essa escuridão, o pêndulo do relógio sobressaltou-se e bateu quatro e meia da madrugada.
A envenenadora, apavorada com aquelas comoções sucessivas, voltou tateando até a porta e dirigiu-se a seus aposentos com o suor da angústia na fronte.
A escuridão ainda persistiu por duas horas.
Então, pouco a pouco, um dia baço invadiu o quarto, atravessando as lâminas das persianas; então, pouco a pouco, expandindo-se, imprimiu cor e forma aos objetos e aos corpos.
Foi nesse momento que o pigarro da enfermeira ressoou na escada e essa mulher, com uma xícara na mão, entrou no quarto de Valentine.
Para um pai, para um amante, o primeiro olhar teria sido definitivo, Valentine estava morta. Para aquela assalariada, Valentine estava apenas
dormindo.
— Bom — disse ela, aproximando-se da mesinha-de-cabeceira —, a menina bebeu uma parte de sua poção, o copo está quase vazio.
Em seguida, foi até a lareira, reavivou o fogo, instalou-se em sua poltrona e, embora houvesse acabado de acordar, aproveitou-se do sono de Valentine para tirar mais um cochilo.
O relógio despertou-a quando tocou as oito horas.
Intrigada então com o sono em que a moça permanecia, assustada com o braço pendido para fora, e com o fato de a lamparina não estar ao seu lado, avançou até a cama. Foi apenas nesse instante que percebeu aqueles lábios frios e peito gelado.
Quis levar o braço para junto ao corpo, mas o braço só obedeceu com aquela rigidez apavorante que não engana uma enfermeira.
Soltou então um grito horrível. Depois correu até a porta:
— Socorro! Socorro!
— Como, socorro?! — respondeu, ao pé da escada, a voz do sr.
d’Avrigny.
Era a hora em que o médico costumava chegar.
— Como, socorro?! — exclamou nesse momento a voz de Villefort, que saía precipitadamente de seu gabinete. — Não ouviu um grito de socorro, doutor?
— Sim, sim, vamos subir. — respondeu d’Avrigny. — Rápido, para o quarto de Valentine.
Antes porém que o médico e o pai lá chegassem, haviam entrado os criados que se encontravam no mesmo andar, nos quartos ou nos corredores, e que, vendo Valentine pálida e imóvel na cama, erguiam as mãos para os céus e vacilavam, parecendo tomados por uma vertigem.
— Chamem a sra. de Villefort! Acordem a sra. de Villefort! — gritou o procurador do rei, da porta do quarto no qual não se atrevia a entrar.
Mas os criados, em vez de responderem, olhavam para o sr. d’Avrigny, que por sua vez entrara, correra para Valentine e a soerguia nos braços.
— Ela também... — murmurou, deixando-a cair. — Oh, Deus, quando vos cansareis?
Villefort projetou-se pelo quarto adentro.
— O que está dizendo, meu Deus? — exclamou, erguendo as duas mãos para os céus. — Doutor...! Doutor...!
— Estou dizendo que Valentine está morta! — respondeu d’Avrigny, com uma voz solene e terrível em sua solenidade.
O sr. de Villefort desabou com a cabeça na cama de Valentine como se lhe faltassem pernas.
Diante das palavras do médico e dos gritos do pai, os criados, aterrorizados, deixaram o quarto com surdas imprecações. Ouviram-se pelas escadas e corredores seus passos precipitados, depois um grande movimento nos pátios, e foi só. O barulho extinguiu-se; do primeiro ao último, todos haviam desertado da casa maldita.
Nesse momento, a sra. de Villefort, o braço atravessado pela metade em seu penhoar matinal, entreabriu o reposteiro. Por um instante, permaneceu no umbral, parecendo interrogar os presentes e chamando em seu socorro algumas lágrimas rebeldes.
De repente, deu um passo, ou melhor, um pulo para frente, os braços apontados para a mesa-de-cabeceira.
Acabava de ver d’Avrigny debruçar-se curiosamente sobre essa mesinha e pegar o copo que ela tinha certeza de haver esvaziado à noite.
O copo estava cheio em um terço, exatamente como estava quando ela jogara seu conteúdo nas cinzas.
O espectro de Valentine diante da envenenadora não teria produzido menor efeito sobre ela.
De fato, a beberagem tinha exatamente a mesma cor da que ela despejara no copo de Valentine e que Valentine bebera. Era aquele veneno que não enganava o olho do sr. d’Avrigny e que o sr. d’Avrigny examinava com atenção. Era claramente um milagre de Deus para que subsistisse, a despeito das precauções do assassino, um vestígio, uma prova, uma denúncia do crime.
Nesse ínterim, enquanto a sra. de Villefort permanecia imóvel como a estátua do Terror, enquanto Villefort, com a cabeça escondida nos lençóis do leito fúnebre, não via nada do que acontecia à sua volta, d’Avrigny aproximava-se da janela para examinar melhor o conteúdo do copo e provar uma gota capturada na ponta do dedo.
— Ah! — murmurou —, não é mais brucina agora. Verifiquemos do que se trata.
Correu então até um dos armários do quarto de Valentine, transformado em farmácia, e, retirando de seu escaninho de prata um vidrinho de ácido
nítrico, verteu algumas gotas na cor de opala do líquido, que logo veio a se transformar em meio copo de sangue dourado.
— Ah! — fez d’Avrigny, com o horror do juiz a quem a verdade é revelada e a alegria do cientista que soluciona um problema.
A sra. de Villefort deu um rodopio sobre si mesma. Seus olhos chisparam fogo, depois se apagaram. Ela procurou, cambaleante, a porta com a mão, e sumiu.
Um intante depois, ouviu-se o barulho distante de um corpo caindo no assoalho, mas ninguém deu atenção a isso. A enfermeira estava ocupada examinando a análise química, Villefort continuava aniquilado.
Apenas o sr. d’Avrigny acompanhara com os olhos a sra. de Villefort e observara sua saída intempestiva.
Tendo erguido o reposteiro do quarto de Valentine, seu olhar atravessou o quarto de Édouard e mergulhou nos aposentos da sra. de Villefort, a quem viu estendida inerte no chão.
— Vá socorrer a sra. de Villefort — ordenou à enfermeira. — A sra. de Villefort não está bem.
— Mas, e a srta. Valentine...? — ela balbuciou.
— A srta. Valentine não necessita mais de cuidados — disse d’Avrigny
—, uma vez que a srta. Valentine está morta.
— Morta! Morta! — suspirou Villefort, no paroxismo de uma dor tanto mais dilacerante na medida em que era nova, desconhecida, inaudita para aquele coração de bronze.
— Morta! Foi isso que ouvi? — exclamou uma terceira voz. — Quem disse que Valentine está morta?
— Morta! Foi isso que ouvi? Quem disse que Valentine está morta?
Os dois homens voltaram-se e, na porta, viram Morrel, de pé, pálido, desvairado, terrível.
Eis o que havia acontecido: na sua hora habitual, e pela portinha que levava até os aposentos de Noirtier, Morrel se apresentara.
Como sempre, encontrara a porta aberta e, portanto, não precisou tocar, entrou.
No vestíbulo, esperou por instantes, chamando um criado qualquer para que o conduzisse até o velho Noirtier.
Mas ninguém respondera. Os criados, como sabemos, haviam abandonado a casa.
Até esse dia Morrel não tinha nenhum motivo de preocupação. Tinha a promessa de Monte Cristo de que Valentine viveria e até aquele momento a promessa fora fielmente cumprida. Não houve noite em que o conde não lhe desse boas notícias, confirmadas pelo próprio Noirtier no dia seguinte.
Nem por isso deixou de achar estranho aquele deserto. Chamou mais uma vez, uma terceira: o mesmo silêncio.
Então decidiu subir.
A porta de Noirtier estava aberta, bem como as outras.
A primeira coisa que viu foi o velho em sua poltrona, no lugar de costume. Seus olhos dilatados pareciam exprimir um pavor íntimo, confirmado ainda pela estranha palidez espalhada em seus traços.
— Como vai, senhor? — perguntou o rapaz, não sem um aperto no coração.
— Bem! — fez o velho com seu piscar de olhos. — Bem! Mas sua fisionomia pareceu crescer em inquietação.
— O senhor está preocupado — indagou Morrel —, precisa de alguma coisa. Deseja que eu chame um criado?
— Sim — fez Noirtier.
Morrel foi até o cordão da campainha, mas em vão puxou-o até quase rasgá-lo, ninguém se apresentou.
Voltou-se para Noirtier. A palidez e a angústia iam crescendo no rosto do velho.
— Oh, meu Deus, meu Deus! — exclamou Morrel — Por que ninguém aparece? Será que há alguém doente na casa?
Os olhos de Noirtier estavam prestes a saltar das órbitas.
— Mas, afinal, o que está sentindo? — continuou Morrel. — Assim o senhor me assusta. Valentine! Valentine!
— Sim! Sim! — fez Noirtier.
Maximilien abriu a boca para falar, mas sua boca foi incapaz de articular um som que fosse. Vacilou e apoiou-se na madeira da parede.
Em seguida, esticou a mão para a porta.
— Sim, sim, sim! — continuou o velho.
Maximilien precipitou-se pela escadinha, que transpôs em dois pulos, enquanto Noirtier parecia gritar-lhe com os olhos:
— Mais rápido! Mais rápido!
Um minuto foi o suficiente para o rapaz atravessar vários quartos, desertos como o resto da casa, e chegar ao de Valentine.
Não precisou empurrar a porta, estava escancarada.
Um soluço foi o primeiro ruído que percebeu. Então viu, como através de uma nuvem, uma silhueta escura ajoelhada e perdida num monte confuso de lençóis brancos. O medo, o tenebroso medo pregava-o na soleira.
Foi quando ouviu uma voz, que dizia:
— Valentine está morta!
E uma segunda voz, que, como um eco, respondia:
— Morta! Morta!