O Conde de Monte Cristo
4. O sr. Bertuccio
Nesse ínterim, o conde chegara à sua casa; levara seis minutos no percurso.
Esses seis minutos foram suficientes para que fosse admirado por vinte rapazes, que, cientes do preço da parelha que eles próprios não puderam comprar, haviam esporeado suas montarias para vislumbrar o esplêndido senhor que se proporcionava cavalos de dez mil francos cada.
A casa escolhida por Ali, e que devia servir de moradia urbana para Monte Cristo, situava-se à direita subindo os Champs-Élysées, entre um pátio e um jardim. Um arvoredo frondoso, que se erguia no meio do pátio, escondia uma parte da fachada. Em torno desse arvoredo avançavam, semelhantes a dois braços, duas aléias que, estendendo-se à direita e à esquerda, levavam os coches, a partir do portão gradeado, até uma dupla escada, que a cada degrau exibia um vaso de porcelana cheio de flores.
Essa casa, isolada no centro de um amplo espaço, tinha, além da entrada principal, outra entrada, que dava para a rua de Ponthieu.
Antes mesmo de o cocheiro berrar pelo porteiro, o maciço portão gradeado deslizou sobre os gonzos; o conde fora avistado e, em Paris como em Roma, bem como por toda parte, atendiam-no com a rapidez de um raio. Então o cocheiro entrou e descreveu o semicírculo sem diminuir a velocidade. O portão já tornara a ser fechado quando as rodas ainda rangiam no cascalho da aléia.
O coche parou no lado esquerdo da escada de entrada; dois homens apareceram junto à portinhola. Um era Ali, que sorriu para o patrão com um incrível sorriso de franca alegria, e que se viu recompensado com um simples olhar de Monte Cristo.
O outro cumprimentou humildemente e ofereceu seu braço ao conde para ajudá-lo a apear do coche.
— Obrigado, senhor Bertuccio — disse o conde, pulando ligeiramente os três degraus do estribo. — E o tabelião?
— Está no salão menor, Excelência — respondeu Bertuccio.
— E os cartões de visita que eu lhe disse para mandar gravar assim que tivesse o número da casa?
— Estão prontos, sr. conde. Fui ao melhor gravador do Palais-Royal, que executou a chapa na minha frente; o primeiro cartão impresso foi levado agora mesmo, conforme suas ordens, ao sr. barão Danglars,
deputado, rua de la Chaussée-d’Antin no7; os demais estão sobre a lareira do quarto de Vossa Excelência.
— Ótimo. Que horas são?
— Quatro horas.
Monte Cristo entregou suas luvas, seu chapéu e sua bengala ao mesmo lacaio francês que se precipitara ao vestíbulo do conde de Morcerf para anunciar o coche, depois passou para o salão menor, conduzido por Bertuccio, que lhe mostrou o caminho.
— Atenção para os mármores desse vestíbulo, que são medíocres —
disse Monte Cristo —, espero que tirem logo tudo isso daqui.
Bertuccio inclinou-se.
Como dissera o intendente, o tabelião esperava no salão menor.
Tinha o rosto honesto de um amanuense de Paris, elevado à dignidade intransponível de tabelião do bairro.
— É o senhor o tabelião encarregado de vender a casa de campo que quero comprar? — perguntou Monte Cristo.
— Sim, sr. conde — respondeu o tabelião.
— A escritura de venda está pronta?
— Sim, sr. conde.
— Trouxe-a consigo?
— Aqui está.
— Perfeito. E onde fica essa casa que estou comprando? — perguntou displicentemente Monte Cristo, dirigindo-se um pouco a Bertuccio e um pouco ao tabelião.
O intendente fez um gesto que significava: “Não sei.” O tabelião olhou para Monte Cristo, incrédulo:
— Como — disse ele —, o sr. conde não sabe onde fica a casa que está comprando?
— Não, palavra de honra — disse o conde.
— O senhor não a conhece?
— E como diabos a conheceria? Cheguei de Cádiz esta manhã, jamais estive em Paris, é inclusive a primeira vez que ponho os pés na França.
— Então é diferente — respondeu o tabelião —, a casa comprada pelo sr. conde fica em Auteuil.
A essas palavras, Bertuccio empalideceu visivelmente.
— E onde fica Auteuil? — perguntou Monte Cristo.
— A dois passos daqui, sr. conde — disse o tabelião —, um pouco depois de Passy, num sítio encantador, no meio do Bois de Boulogne.
— Tão perto assim! — disse Monte Cristo. — Mas isso não é o campo.
Como, diabos, pôde escolher uma casa nas portas de Paris, senhor Bertuccio?
— Eu! — exclamou o intendente com uma estranha ansiedade. — Não, por favor, não foi a mim que o sr. conde encarregou de escolher essa casa; que o sr. conde faça a gentileza de se lembrar, procurar na memória, interrogar suas lembranças.
— Ah, está certo — disse Monte Cristo —, agora me lembro. Li esse anúncio num jornal e me deixei seduzir pelo título mentiroso: “casa de campo.”
— Ainda há tempo — disse vivamente Bertuccio —, e, se Vossa Excelência quiser me encarregar de procurar em qualquer outro lugar, encontrarei o que houver de melhor, seja em Enghien, seja em Fontenay-aux-Roses, seja em Bellevue.
— Não, não precisa — disse despreocupadamente Monte Cristo. — Já que tenho esta, ficarei com ela.
— E o senhor tem razão — disse ansiosamente o tabelião, que temia perder seus honorários. — É uma propriedade encantadora: água corrente, bosques frondosos, moradia confortável, embora abandonada há algum tempo; sem falar no mobiliário, o qual, por mais velho que seja, tem valor, sobretudo hoje quando todos estão atrás de antigüidades. Perdão, mas creio que o sr. conde tem o gosto de sua época.
— Dito assim — ponderou Monte Cristo —, então é conveniente.
— Ah, senhor, é melhor que isso, é magnífica!
— Caramba! Não vamos perder uma oportunidade dessas — disse Monte Cristo. — A escritura, por favor, sr. tabelião...
E assinou rapidamente, após ter verificado no documento a passagem onde estavam mencionados a localização da casa e os nomes dos proprietários.
— Bertuccio — disse ele —, poderia entregar cinqüenta e cinco mil francos ao cavalheiro?
O intendente saiu num passo inquieto e voltou com um maço de letras de câmbio; que o tabelião contou como um homem acostumado a receber seu dinheiro apenas depois da purga legal.
— E agora — perguntou o conde —, estão cumpridas todas as formalidades?
— Todas, sr. conde.
— Está com as chaves?
— Estão nas mãos do zelador que toma conta da casa; mas aqui está a ordem que lhe dei para instalar o cavalheiro em sua propriedade.
— Excelente.
E Monte Cristo fez um sinal com a cabeça para o tabelião que queria dizer: “Não preciso mais do senhor, vá embora.”
— Mas — atreveu-se o honesto tabelião —, me parece que o sr. conde se enganou; são apenas cinqüenta mil francos, tudo incluído.
— E os seus honorários?
— Estão incluídos nesta soma, sr. conde.
— Mas não veio de Auteuil até aqui?
— Sim, sem dúvida.
— Pois bem, preciso pagar pelo seu incômodo — disse o conde. E
dispensou-o com um gesto.
O tabelião saiu recuando e saudando até o chão; era a primeira vez, desde o dia em que obtivera sua matrícula, que encontrava um cliente daqueles.
— Acompanhe o cavalheiro — disse o conde a Bertuccio. E o intendente saiu atrás do tabelião.
Assim que ficou sozinho, o conde tirou do bolso uma pequena agenda com fechadura, abrindo-a com uma chavezinha amarrada no seu pescoço e que nunca o abandonava.
Depois de ter procurado por um instante, deteve-se numa folha rabiscada com algumas anotações, confrontou essas anotações com a escritura de venda na mesa e, ruminando suas lembranças, disse consigo:
— Auteuil, rua de la Fontaine no28; não há dúvida, é essa. Devo agora acrescentar a isso uma confissão arrancada por meio do terror religioso ou do terror físico? Seja como for, daqui a uma hora saberei de tudo.
Bertuccio!
— gritou ele, batendo com uma espécie de martelinho com cabo dobrável numa campainha que devolveu um som agudo e prolongado, semelhante ao de um gongo oriental. — Bertuccio!
O intendente apareceu no umbral.
— Sr. Bertuccio — disse o conde —, não me disse uma vez que tinha viajado pela França?
— Por determinadas regiões da França, sim, Excelência.
— Conhece os arrabaldes de Paris, sem dúvida?
— Não, Excelência, não — respondeu o intendente, com uma espécie de tremor nervoso que Monte Cristo, perito em emoções, atribuiu com razão a uma viva preocupação.
— É uma pena — disse ele — que nunca tenha visitado os arrabaldes de Paris, pois quero visitar minha propriedade esta noite mesmo, e, como vai me acompanhar, eu contava com algumas informações úteis de sua parte.
— A Auteuil? — exclamou Bertuccio, cuja tez acobreada tornou-se quase lívida. — Eu, ir a Auteuil?