O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 37 de 119

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O Conde de Monte Cristo

14. A mazzolata

23 Guzla: instrumento musical, de uma ou duas cordas, em forma de violão, muito usado nos Bálcãs.

14. A mazzolata

Senhores — disse o conde de Monte Cristo ao entrar —, recebam todas as minhas desculpas pelo bilhete retardatário, mas receei ser indiscreto vindo mais cedo a seus aposentos. Aliás, os senhores comunicaram-me que viriam, e fiquei à sua disposição.

— Franz e eu, meu caro conde, temos mil agradecimentos a lhe fazer —

disse Albert. — O senhor está efetivamente tirando-nos de um grande apuro, e estávamos em vias de criar os coches mais fantásticos no momento em que seu gracioso convite nos chegou às mãos.

— Ora, meu Deus, cavalheiros — replicou o conde, fazendo sinal aos dois rapazes para sentarem-se num divã —, é culpa desse imbecil do Pa4strini se os deixei aflitos esse tempo todo! Ele não me falou uma palavra a respeito do transtorno dos senhores, a mim que, sozinho e isolado como estou, não procurava senão uma oportunidade para conhecer meus vizinhos. Ao saber que lhes podia ser útil em alguma coisa, agarrei prontamente a oportunidade para lhes apresentar meus cumprimentos.

Os dois rapazes fizeram uma mesura. Franz ainda não achara uma palavra para dizer; ainda não conseguira saber o que fazer e, como nada indicava no conde uma disposição de reconhecê-lo, ou um desejo de ser reconhecido por ele, não sabia se devia, por uma palavra qualquer, fazer alusão ao passado ou deixar o futuro lhe trazer novas provas. Além disso, se por um lado estava certo de que era ele no camarote na véspera, por outro não era capaz de responder tão categoricamente se fora ele que vira no Coliseu na antevéspera; resolveu então deixar as coisas correrem sem dar uma deixa mais explícita para o conde. Até porquê, Franz tinha ascendência sobre ele, era senhor de seu segredo, ao passo que o conde, ao contrário, não exercia a menor pressão sobre ele, que nada tinha a esconder.

Mesmo assim o jovem resolveu levar a conversa para um ponto que podia, entrementes, lançar alguma luz sobre certas dúvidas.

— Sr. conde — disse ele —, o senhor nos ofereceu lugar em seu coche e em suas janelas do Palácio Ruspoli; poderia agora nos

dizer como conseguir um poste1 qualquer, como se diz na Itália, na praça del Popolo?

— Ah, sim, é verdade — disse o conde, com um ar distraído e observando Morcerf detidamente —, não vai acontecer, na praça del Popolo, alguma espécie de execução?

— Sim — respondeu Franz, vendo que Monte Cristo chegara sozinho aonde ele desejava levá-lo.

— Espere, espere, creio ter dito ontem ao meu intendente para cuidar desse assunto; quem sabe eu não possa lhes prestar esse outro favorzinho?

Esticou a mão para um cordão de campainha e puxou três vezes.

— Por acaso alguma vez o senhor já se preocupou — dirigiu-se ele a Franz — com o emprego do tempo e o meio de simplificar as idas e vindas dos criados? Eu, da minha parte, fiz um estudo: quando toco uma vez, é para o meu camareiro; duas vezes, para o meu mestre-cuca; três vezes, para o meu intendente. Dessa forma, não perco nem um minuto, nem uma palavra. Vejam, aqui está o nosso homem.

Viu-se então entrar um indivíduo de quarenta a quarenta e cinco anos, que pareceu a Franz assemelhar-se, como se parecem duas gotas d’água, ao contrabandista que o introduzira na caverna, mas este não deu o menor sinal de reconhecê-lo. Percebeu então que a senha estava dada.

— Sr. Bertuccio — disse o conde —, ocupou-se ontem, como lhe ordenei, de obter uma janela com vista para praça del Popolo?

— Sim, Excelência — respondeu o intendente —, mas já era muito tarde.

— Como! — disse o conde, franzindo o cenho. — Não lhe disse que eu queria uma?

— E Vossa Excelência tem uma, a que estava alugada ao príncipe Lobanieff; mas fui obrigado a pagar por ela cem...

— Ótimo, ótimo, sr. Bertuccio, poupe a estes cavalheiros os detalhes domésticos; conseguiu a janela, é tudo que preciso. Dê o endereço da casa ao cocheiro e permaneça na escada para nos conduzir. Isso é tudo, vá.

O intendente saudou e deu um passo para se retirar.

— Ah — prosseguiu o conde —, faça-me a gentileza de perguntar a Pastrini se ele recebeu a tavoletta e se pode me enviar o programa da execução.

— Isso é desnecessário — interveio Franz, sacando sua caderneta do bolso. — Tive essas tabuinhas diante dos olhos, copiei-as e aqui estão.

— Muito bem; nesse caso, sr. Bertuccio, pode se retirar, não preciso mais do senhor. Avise-nos apenas quando o almoço estiver servido. Os cavalheiros — continuou, voltando-se para os dois amigos — me dariam a honra de almoçar comigo?

— Na verdade, sr. conde — disse Albert —, não queríamos abusar.

— Ao contrário, será um grande prazer, um dia os senhores me retribuirão tudo isso em Paris, um ou outro e, talvez, ambos. Sr. Bertuccio, mande colocar três lugares à mesa.

Pegou a caderneta das mãos de Franz.

— Dizíamos então — continuou, no mesmo tom em que leria os classificados — que “serão executados na praça del Popolo, por decreto do tribunal de La Rota, os assim designados Andrea Rondolo, culpado de assassinato sobre a pessoa mui respeitável e venerável de don César Terlini, cônego da igreja de São João de Latrão, e o assim designado Peppino, vulgo ‘Rocca Priori’, culpado de cumplicidade com o detestável bandoleiro Luigi Vampa e os homens de seu bando...”. Hum! “O primeiro será mazzolato, o segundo, decapitato.” Sim, com efeito — prosseguiu o conde —, era exatamente assim que a coisa devia acontecer a princípio; mas creio que ontem houve alguma mudança na ordem e nas formalidades da cerimônia.

— Bah! — reclamou Franz.

— Sim, ontem na casa do cardeal Rospigliosi, onde passei o serão, discutiam algo como um indulto concedido a um dos condenados.

— A Andrea Rondolo? — perguntou Franz.

— Não... — respondeu o conde displicentemente — ao outro... — ele deu uma olhada na caderneta, como que para se lembrar do nome — a Peppino, vulgo “Rocca Priori”. Isso os priva de uma guilhotinada, mas resta-lhes a mazzolata, um suplício bastante curioso quando visto pela primeira vez, e até mesmo na segunda; enquanto o outro, que devem conhecer aliás, é muito simples e

monótono: não acontece nada de inesperado. A mandaia2 não se engana, não treme, não resvala, não é preciso repetir trinta vezes

como o soldado que cortava a cabeça do conde de Chalais3, ao qual, em todo caso, Richelieu talvez houvesse recomendado a vítima. Por favor — acrescentou o conde num tom desdenhoso —, não me venham falar dos europeus no que se refere a suplícios, eles não entendem nada disso, achando-se na verdade na infância, ou melhor, na velhice da crueldade.

— Na verdade, senhor conde — respondeu Franz —, parece que o senhor fez um estudo comparado dos suplícios nos diferentes povos do mundo.

— São poucos os que não vi — replicou friamente o conde.

— E sentiu prazer ao assistir a esses horríveis espetáculos?

— Minha primeira reação foi de repulsa, a segunda, de indiferença, a terceira, de curiosidade.

— Curiosidade! Palavra terrível, não acha?

— Por quê? Na vida não há senão uma preocupação grave: a morte. Pois bem! Não é curioso estudar as diferentes maneiras pelas quais a alma pode sair do corpo, e como, dependendo das características, dos temperamentos e até mesmo dos costumes do país, os indivíduos suportam essa suprema passagem do ser ao nada? Quanto a mim, defendo um ponto de vista: quanto mais se viu morrer, mais se torna fácil morrer. Logo, do meu ponto de vista, a morte talvez seja um suplício, mas não uma expiação.

— Não o compreendo muito bem — disse Franz. — Explique-se, pois o que diz excita minha curiosidade além de todas as medidas.

— Ouça — disse o conde, e seu rosto instilou-se de fel, como o rosto de outro homem se tinge de sangue. — Se um homem causou a morte, fazendo uso de torturas impensáveis, em meio a tormentos sem fim, do seu pai, da sua mãe, da sua amante, enfim, de uma dessas criaturas que, quando extirpadas do coração de alguém, deixam nele um vazio eterno e uma chaga sempre sangrenta, os senhores acham suficiente a reparação que a sociedade outorga a esse alguém, só porque o ferro da guilhotina atravessou a base do occipital e os músculos trapézios do assassino, e porque o homem que os fez sentir anos de sofrimentos morais sentiu dores físicas por alguns segundos?

— Sim, eu sei — replicou Franz —, a justiça humana deixa a desejar como consoladora: derrama sangue em troca de sangue, resumindo; temos que lhe pedir o que ela pode e não outra coisa.

— Apresento-lhes outro caso, agora material — continuou o conde, em que a sociedade, atacada em sua base de sustentação pela morte de um indivíduo, vinga a morte com a morte; mas não existem milhões de dores capazes de rasgar as entranhas de um homem sem que a sociedade dê a mínima, sem que lhe ofereça o meio de vingança insuficiente ainda há pouco mencionado? Não existem crimes para os quais o empalamento dos turcos, os afogamentos dos persas, os nervos esmigalhados dos iroqueses seriam suplícios demasiadamente brandos e que, no entanto, a sociedade indiferente deixa sem castigo... ? Responda, não existem esses crimes?

— Sim — respondeu Franz —, e é para puni-los que o duelo é tolerado.

— Ah, o duelo — exclamou o conde —, maneira delicada, penso eu, de alcançar seu objetivo, quando este é a vingança! Um homem raptou sua

amada, um homem seduziu sua mulher, um homem desonrou sua filha; de uma vida inteira, que tinha o direito de esperar de Deus o quinhão de felicidade que Ele prometeu a todo ser humano ao criá-lo, um homem fez uma existência de dor, miséria e infâmia, e o senhor se julga vingado porque nesse homem, que instilou o delírio em seu espírito e o desespero em seu coração, o senhor deu uma estocada de espada no peito ou alojou uma bala na cabeça? Faça-me o favor! Sem contar que é ele que não raro sai triunfante da luta, limpo aos olhos do mundo e, de certa forma, absolvido por Deus. Não, não — continuou o conde —, se eu tivesse que me vingar, não seria assim que me vingaria.

— Quer dizer que desaprova o duelo? Quer dizer que não se bateria num duelo? — perguntou Albert, perplexo ao ouvir tão estranha teoria.

— Oh, mas claro que sim! — exclamou o conde. — Vamos esclarecer: eu me bateria em duelo por uma ninharia, por um insulto, por um desmentido, por uma bofetada, e isso tão despreocupadamente, graças à destreza que desenvolvi em todos os exercícios do corpo e ao paulatino hábito que adquiri do perigo, que teria quase certeza de matar o meu homem. Oh, claro que sim! Eu me bateria em duelo por tudo isso; mas, no caso de uma dor lenta, profunda, infinita, eterna, eu daria em troca, se fosse possível, uma dor semelhante à que me havia sido causada: olho por olho, dente por dente, como dizem os orientais, nossos mestres em todas as coisas, esses eleitos da Criação que souberam construir para si uma vida de sonhos e um paraíso de realidades.

— Mas — disse Franz ao conde —, com essa teoria que o constitui juiz e carrasco em causa própria, seria difícil manter, por si só, um equilíbrio em que se escapasse da força da lei por toda a eternidade. O ódio é cego, a raiva atordoa, e aquele que serve a vingança arrisca-se a beber uma bebida amarga.

— Sim, se for pobre e desastrado; não, se for milionário e habilidoso.

Aliás, a pior coisa que lhe pode acontecer é esse último suplício de que falávamos ainda há pouco, o qual a filantrópica Revolução Francesa instituiu no lugar do esquartejamento e da roda. Muito bem! O que é o suplício, se ele se vingou? Na verdade, estou quase lamentando que, segundo toda a probabilidade, esse miserável Peppino não venha a ser decapitato, como eles dizem, o senhor veria o tempo que a coisa dura e se é realmente o caso de falar sobre ela. Mas, pela minha honra, cavalheiros, que assunto para um dia de Carnaval! Como surgiu? Ah, agora me lembro!

O senhor solicitou-me um lugar na minha janela; pois bem, o senhor o terá; mas passemos à mesa primeiro, pois eis que nos anunciam que estamos servidos.

Com efeito, um criado abriu uma das quatro portas do salão e pronunciou as palavras sacramentais:

— Al suo commodo! 4

Os dois rapazes levantaram-se e passaram à sala de jantar.

Durante o almoço, que estava excelente e foi servido com um requinte infinito, os olhos de Franz procuraram os de Albert a fim de ler a impressão que, sem dúvida, teriam produzido nele as palavras do anfitrião; porém, fosse porque em sua despreocupação habitual ele não lhes tivesse dado muita atenção, fosse porque a concessão que o conde de Monte Cristo lhe fizera a respeito do duelo o tivesse reconciliado com ele, fosse enfim porque os antecedentes que relatamos, conhecidos apenas por Franz, houvessem bastado para potencializar apenas dentro de si o efeito das teorias do conde, ele não sentiu seu companheiro preocupado com coisa alguma; muito pelo contrário, fazia as honras à refeição como homem havia quatro ou cinco meses condenado à culinária italiana, isto é, a uma das

piores culinárias do mundo. 5 Quanto ao conde, mal roçava os pratos; parecia que, ao se pôr à mesa com seus convidados, cumpria um mero dever de polidez e que esperava sua partida para pedir algum prato exótico ou exclusivo.

Isso lembrava a Franz, contra sua vontade, o pavor que o conde inspirara à condessa G..., e a convicção em que a deixara, de que o conde, o homem por ele apontado no camarote defronte ao seu, era um vampiro.

No fim do almoço, Franz sacou seu relógio.

— Ora! — disse-lhe o conde. — O que houve?

— O senhor vai nos desculpar, meu caro conde — respondeu Franz —, mas ainda temos mil coisas a fazer.

— Por exemplo?

— Não temos fantasias e hoje a fantasia é de rigor.

— Então não se preocupe com isso. Temos, ao que sei, na praça del Popolo, um quarto particular; mandarei levar para lá as fantasias que se dispuserem a me indicar, e nos fantasiaremos na hora.

— Depois da execução? — exclamou Franz.

— Provavelmente depois, durante ou antes, como quiserem.

— Em frente ao cadafalso?

— O cadafalso faz parte da festa.

— Veja, sr. conde, estive pensando — disse Franz —, realmente fico grato por sua gentileza, mas vou me contentar em aceitar um lugar no seu coche e um lugar na janela do Palácio Ruspoli, deixando-o livre para dispor do meu lugar na janela da praça del Popolo.

— Mas vai perder, aviso-o, algo muito interessante — argumentou o conde.

— O senhor me contará depois — respondeu Franz —, e estou convencido de que em sua boca o relato me impressionará quase tanto quanto a visão o poderia fazer. Aliás, mais de uma vez eu já tentei me forçar a assistir a uma execução e nunca pude me decidir a fazê-lo; e você, Albert?

— Eu — respondeu o visconde — vi executarem Castaing6; mas acho que eu estava um pouco bêbado nesse dia. Era o dia da minha formatura, e havíamos passado a noite em não sei qual cabaré.

— Aliás, esta não é uma razão, só porque não fez uma coisa em Paris não significa que não deva fazê-la no estrangeiro: quando viajamos, é para nos instruir, quando mudamos de lugar, é para ver. Imagine a cara que faria se lhe perguntassem: “Como eles executam em Roma?”, e o senhor respondesse: “Não sei”. Afinal, dizem que o condenado é um bandido infame, um maluco que matou a golpes de grelha de lareira um bondoso cônego que o criara como um filho. Que diabos! Quando se mata um homem da Igreja, usa-se uma arma mais digna que uma grelha, sobretudo quando esse homem da Igreja é talvez nosso pai. Se forem à Espanha, assistirão às touradas, não é? Muito bem! Suponha que é um combate que vamos ver; lembrem-se dos antigos romanos do circo, das caçadas em que se matavam trezentos leões e uma centena de homens. Lembrese então daqueles oitenta mil espectadores que aplaudiam, daquelas comportadas matronas que levavam até lá suas filhas para casar e daquelas encantadoras vestais de mãos brancas que faziam com o polegar um encantador sinalzinho que queria dizer: “Vamos, nada de preguiça!

Acabem com esse homem que já está quase morto.”

— Você vai, Albert? — perguntou Franz.

— Ora se vou, meu caro! Eu estava como você, mas a eloqüência do conde me decidiu.

— Então vamos, uma vez que você quer — concedeu Franz. — Mas, a caminho da praça del Popolo, tenho que passar na rua do Corso, isso é

possível, sr. conde?

— A pé, sim; de coche, não.

— Pois irei a pé.

— Precisa realmente passar na rua do Corso?

— Sim, tenho uma coisa para ver lá.

— Muito bem! Passemos pela rua do Corso, mandaremos o coche nos esperar na praça del Popolo, pela rua del Babuino; é até bom que eu passe pela rua do Corso para ver se as ordens que dei foram executadas.

— Excelência — interrompeu o criado, abrindo a porta —, um homem vestido de penitente pede para lhe falar.

— Ah, sim — respondeu o conde —, sei do que se trata. Senhores, queiram voltar ao salão; encontrarão na mesa de centro excelentes charutos de Havana, junto-me aos senhores num instante.

Os dois rapazes levantaram-se e saíram por uma porta, enquanto o conde, após ter renovado suas desculpas, saía pela outra. Albert, que era um grande aficcionado e que, desde que estava na Itália, não considerava sacrifício menor ver-se privado dos charutos do Café de Paris, aproximou-se da mesa e soltou um grito de alegria ao perceber charutos da mais alta qualidade.

— E então — perguntou-lhe Franz —, que acha do conde de Monte Cristo?

— O que acho!? — exclamou Albert, visivelmente espantado diante da pergunta de seu companheiro. — Acho que é um homem encantador, que faz magnificamente as honras da casa, que viu muito, estudou muito, refletiu muito, que é, como Brutus, da escola estóica, e que —

acrescentou, soltando amorosamente uma baforada de fumaça que subiu em espiral para o teto —, acima de tudo isso, possui excelentes charutos.

Era esta a opinião de Albert sobre o conde; ora, como Franz sabia que Albert tinha a pretensão de só formar uma opinião sobre os homens e as coisas depois de maduras reflexões, não tentou mudá-la em nada.

— Porém — disse ele —, notou uma coisa estranha?

— Qual?

— A atenção com que ele olhava para você.

— Para mim?

— É, para você. Albert refletiu.

— Ah — disse ele, suspirando —, não há nada de espantoso nisso. Estou ausente de Paris há mais de um ano, devo estar com modos do outro mundo. O conde me terá tomado por um provinciano; explique-lhe, caro amigo, e diga, por favor, na primeira oportunidade, que não é nada disso.

Franz sorriu; um instante depois, o conde voltou.

— Aqui estou, cavalheiros — disse ele —, e à sua disposição. As ordens estão dadas: o coche vai para o lado da praça del Popolo, e nós para o nosso, se assim preferem, pela rua do Corso. Ora, pegue alguns charutos, sr. de Morcerf.

— Puxa, com grande satisfação — disse Albert —, pois os charutos italianos são ainda piores que os produzidos na França pelo monopólio estatal. Quando o senhor for a Paris, retribuirei tudo isso.

— Longe de mim recusá-lo; espero ir lá algum dia e, já que o permite, irei bater à sua porta. Vamos, senhores, vamos, não temos tempo a perder; é meio-dia e meia, partamos.

Desceram todos os três. Então o cocheiro recebeu as últimas ordens de seu patrão e seguiu pela rua del Babuino, enquanto os pedestres voltavam pela praça di Spagna e pela rua Frattina, que ia do Palácio Fiano até o Palácio Ruspoli.

Todos os olhares de Franz dirigiram-se para as janelas deste último palácio; ele não esquecera o sinal combinado no Coliseu entre o homem do casaco e o do Trastevere.

— Quais são as suas janelas? — perguntou ao conde, no tom mais natural possível.

— As três últimas — respondeu ele, com uma displicência que nada tinha de afetado, pois não podia adivinhar com que propósito a pergunta lhe era feita.

Os olhos de Franz dirigiram-se rapidamente para as três janelas. As janelas laterais estavam com cortinas de damasco amarelo e a do meio, com cortinas de damasco branco com uma cruz vermelha.

O homem do casaco cumprira o prometido ao do Trastevere, e não havia mais dúvida, o homem do casaco era de fato o conde.

As três janelas ainda estavam vazias.

Enquanto isso, por todos os lados, preparativos eram feitos; colocavam-se cadeiras, instalavam-se cadafalsos, enfeitavam-se as janelas. As máscaras estavam proibidas, os coches só podiam circular ao som do sino; mas percebiam-se as máscaras atrás de todas as janelas, os coches atrás de todas as portas.

Franz, Albert e o conde continuaram a descer a rua do Corso. À medida que se aproximavam da praça del Popolo, a multidão tornava-se mais densa; acima das cabeças dessa multidão, viam-se despontar duas coisas: o obelisco encimado por uma cruz, que indica o centro da praça e, antes do obelisco, precisamente no ponto de correspondência visual das três ruas del Babuino, del Corso e di Ripetta, as duas traves supremas do cadafalso, entre as quais brilhava o ferro abaulado da mandaia.

Na esquina da rua encontraram o intendente do conde à espera do patrão.

A janela, alugada pelo preço com certeza exorbitante que o conde não quisera revelar aos seus convidados, pertencia ao segundo andar do grande palácio, situado entre a rua del Babuino e o monte Pincio; era, como dissemos, uma espécie de quarto de vestir contíguo a um quarto de dormir; ao fechar a porta do segundo, os locatários do primeiro estavam em seu espaço; sobre as cadeiras estavam depositadas fantasias de palhaço em seda branca e azul das mais elegantes.

— Como deixaram por minha conta a escolha das fantasias — disse o conde aos dois amigos —, mandei preparar estas para os senhores.

Primeiro, é o que está mais na moda este ano; depois, é o que há de mais cômodo para os confetes, considerando que a farinha desaparece sobre o tecido.

Franz não ouviu senão muito imperfeitamente as palavras do conde, e talvez não houvesse estimado em seu justo valor essa nova gentileza, pois toda a sua atenção fora atraída pelo espetáculo que se desenrolava na praça del Popolo e pelo instrumento terrível que constituía naquele instante seu principal ornamento.

Era a primeira vez que Franz via uma guilhotina; dizemos guilhotina, pois a mandaia romana segue mais ou menos o padrão do nosso instrumento de morte. O cutelo, que tem a forma de um crescente que cortasse pela parte convexa, cai de uma altura menor, apenas isso.

Dois homens, sentados na tábua removível onde deitam o condenado, almoçavam durante a espera, comendo, pelo que Franz pôde ver, pão e salsichas; um deles levantou a tábua, tirou dali uma garrafa de vinho, deu um gole e passou a garrafa para o colega; esses dois homens eram os ajudantes do carrasco!

Só de pensar nisso, Franz sentiu o suor brotar na raiz dos seus cabelos.

Os condenados, transportados na noite da véspera dos Carceri Nuove para a pequena igreja de Santa Maria del Popolo, tinham passado a noite

assistidos cada um por dois padres, numa capela de velório gradeada, diante da qual passeavam sentinelas rendidas de hora em hora.

Uma dupla fileira de carabinieri, disposta de ambos os lados da porta da igreja, estendia-se até o cadafalso, em torno do qual se abria, deixando livre uma passagem de aproximadamente três metros de largura e, em torno da guilhotina, uma área de uns cem passos de circunferência. Todo o resto da praça estava apinhado de cabeças de homens e mulheres. Muitas mulheres carregavam os filhos nos ombros. Essas crianças, que ultrapassavam a multidão em um torso, estavam admiravelmente bem localizadas.

O monte Pincio parecia um vasto anfiteatro com todas as arquibancadas tomadas pelos espectadores; as sacadas das duas igrejas que fazem esquina nas ruas del Babuino e di Ripetta regurgitavam de curiosos privilegiados; os degraus dos peristilos pareciam uma maré movediça e multicolorida, que uma onda incessante empurrava contra o pórtico: cada saliência da muralha que pudesse abrigar um homem tinha sua estátua viva.

O que dizia o conde era então verdade: o espetáculo da morte é o que há de mais curioso na vida.

E, não obstante, em vez do silêncio que a solenidade do espetáculo parecia exigir, um intenso burburinho emergia daquela multidão, burburinho composto de risadas, apupos e gritos de alegria; era evidente também, como dissera o conde, que aquela execução não passava, para o povo, do começo do Carnaval.

De repente o burburinho cessou como que por encanto, a porta da igreja acabava de se abrir.

Uma confraria de penitentes, cada membro vestindo um saco cinza, furado apenas nos olhos, e segurando uma vela acesa nas mãos, apareceu primeiro; à frente caminhava o chefe da confraria.

Atrás dos penitentes vinha um homem de estatura elevada. O homem estava nu, a não ser por uma ceroula de malha, em cujo lado esquerdo, escondida em sua bainha, estava uma grande faca; ele carregava uma pesada maça de ferro no ombro direito. Esse homem era o carrasco.

Atrás dos penitentes vinha um homem de estatura elevada.

Além disso, calçava sandálias amarradas em tiras nas canelas.

Atrás do carrasco, marchavam, na ordem em que deviam ser executados, à frente Peppino, depois Andrea.

Cada um estava acompanhado por dois padres. Nenhum dos dois tinha os olhos vendados.

Peppino caminhava num passo bem firme; provavelmente fora avisado dos preparativos.

Andrea era amparado sob cada braço por um padre.

Ambos beijavam de vez em quando o crucifixo apresentado pelo seu confessor.

A essa simples visão, Franz sentiu as pernas bambearem; ele observou Albert. Este achava-se pálido como sua camisa e, num gesto mecânico, atirou longe o charuto, embora não tivesse fumado senão metade dele.

O conde era o único a parecer impassível. Apenas uma leve cor rubra ameaçava aflorar na palidez lívida de suas faces.

Seu nariz dilatava-se como o de um animal feroz que fareja sangue, e seus lábios, ligeiramente entreabertos, revelavam dentes brancos, pequenos e pontiagudos como os de um chacal.

E, entretanto, apesar de tudo isso, seu rosto tinha uma expressão de delicadeza sorridente que Franz nunca vira nele; seus olhos pretos, sobretudo, transmitiam uma mansuetude e um aveludado extraordinários.

Enquanto isso, os dois condenados continuavam a avançar em direção ao cadafalso e, à medida que avançavam, era possível distinguir os traços de seus rostos. Peppino era um bonito rapaz de vinte e quatro a vinte e seis anos, tinha a pele bronzeada pelo sol e um olhar livre e selvagem. Andava de cabeça erguida e parecia farejar o vento para ver de que lado chegaria seu libertador.

Andrea era gordo e baixo; seu rosto, vilmente cruel, não indicava a idade; podia entretanto ter mais ou menos trinta anos. Na prisão, deixara a barba crescer. Sua cabeça caía num dos ombros, suas pernas vergavam; todo o seu ser parecia obedecer a um movimento mecânico em que sua vontade não se impunha.

— Se não me engano — dirigiu-se Franz ao conde —, o senhor havia me dito que teríamos apenas uma execução?

— Disse-lhe a verdade — ele respondeu friamente.

— Entretanto, vejo dois condenados.

— Sim; mas, desses dois condenados, a um cabe à morte, enquanto o outro ainda tem longos anos pela frente.

— Creio que, se o indulto tiver de vir, não há mais tempo a perder.

— Pois ei-lo que chega; observe — disse o conde.

Com efeito, no momento em que Peppino chegava ao pé da mandaia, um penitente, que parecia atrasado, atravessou uma das fileiras sem que os soldados impedissem sua passagem, e, avançando para o chefe da confraria, entregou-lhe um papel dobrado em quatro.

O olhar ardente de Peppino não perdera nenhum desses detalhes; o chefe da confraria desdobrou o papel, leu e levantou a mão.

— O Senhor seja abençoado e Sua Santidade seja louvada! — disse em voz alta e clara. — Um dos condenados foi agraciado com o indulto.

— O indulto! — exclamou o povo num único grito. — Ele recebeu um indulto!

À palavra indulto, Andrea pareceu pular e ergueu a cabeça.

— Indulto para quem? — gritou.

Peppino permaneceu imóvel, calado e arfante.

— Foi concedido o indulto da pena de morte para Peppino, vulgo Rocca Priori — disse o chefe da confraria.

E passou o papel para o capitão dos carabinieri, o qual, depois de lê-lo, devolveu-o.

— Indulto para Peppino! — exclamou Andrea, completamente recuperado do torpor em que parecia mergulhado. — Por que indulto para ele e não pra mim? Devíamos morrer juntos; prometeram-me que ele morreria antes de mim, não podem me fazer morrer sozinho, não quero morrer sozinho, não quero!

E se desvencilhou do braço dos dois padres, retorcendo-se, berrando, rugindo e fazendo tentativas insensatas de romper as cordas que lhe amarravam as mãos.

O carrasco fez sinal para seus dois ajudantes, que pularam do cadafalso e foram dominar o condenado.

— Que diabos está acontecendo? — perguntou Franz ao conde, pois, como tudo isso se dava em dialeto romano, ele não entendera muito bem.

— O que está acontecendo? — disse o conde. — Não percebe? Ora, aquela criatura humana que vai morrer está furiosa porque seu semelhante não vai morrer junto com ela; se pudesse, rasgá-lo-ia com unhas e dentes para impedir que este desfrutasse da vida de que ela vai ser privada. Oh, homens, homens! Raça de crocodilos!,

como diz Karl Moor7 — exclamou o conde, estendendo os dois punhos para aquela multidão —, que reconheço bem à minha frente e que ao longo dos tempos nunca deixam de fazer jus a si mesmos!

Com efeito, Andrea e os dois ajudantes do carrasco rolavam pelo chão; o condenado continuava a gritar: “Ele tem que morrer, quero que ele morra!

Não podem me matar sozinho!”

— Observem, observem — continuou o conde, segurando com a mão os dois rapazes — observem, pois, palavra de honra, é curioso; eis um homem que estava resignado ao seu destino, que caminhava para o cadafalso, que iria morrer como um covarde, é verdade, mas que iria, enfim, morrer sem resistência e sem recriminações: sabem o que lhe dava alguma força? Sabem o que o consolava? Sabem o que o fazia aceitar pacientemente esse suplício? Era que um outro partilhava sua angústia; era que um outro ia morrer como ele; era que um outro ia morrer antes dele!

Levem dois carneiros para o açougue, dois bois para o matadouro, e tente

 

explicar a um deles que seu companheiro não morrerá, o carneiro balirá de alegria, o boi mugirá de prazer; mas o homem, o homem, que Deus fez à sua imagem, o homem, a quem Deus impôs como primordial, como única, como suprema lei o amor pelo próximo, o homem, a quem Deus conferiu a voz para exprimir seu pensamento, qual será seu primeiro grito ao saber que seu companheiro está salvo? Uma blasfêmia. Glória ao homem, essa obra-prima da natureza, esse rei da criação!

Enquanto isso, os dois condenados continuavam a avançar em direção ao cadafalso.

E o conde caiu na risada, mas uma risada terrível, que indicava que devia ter sofrido muito para rir assim.

Enquanto isso, a luta continuava, e era uma coisa pavorosa de se ver. Os dois ajudantes do carrasco conduziam Andrea para o cadafalso; o povo tomara partido contra ele, e vinte mil vozes gritavam num único grito: “À

morte! À morte!”

Franz deu um passo para trás; mas o conde pegou novamente seu braço e o manteve diante da janela.

— Que está fazendo? — disse-lhe. — Piedade? Tal piedade, acredite, é bem despropositada! Se o senhor ouvisse o uivo de um cão raivoso, o senhor pegaria seu fuzil, se precipitaria para a rua, mataria sem misericórdia e à queima-roupa o pobre animal, que, no fim das contas, seria culpado apenas de ter sido mordido por outro cão e ter retribuído o que lhe fizeram: e aí está o senhor nutrindo piedade por um homem que nenhum outro homem mordeu, e que, entretanto, matou seu benfeitor, e que agora, não podendo mais matar porque está com as mãos amarradas, quer a todo custo assistir à morte do seu companheiro de cativeiro, do seu companheiro de infortúnio! Não, não, observe, observe.

A recomendação tornara-se quase desnecessária, Franz estava fascinado pelo horrível espetáculo. Os dois ajudantes haviam trazido o condenado para o cadafalso, e ali, apesar de seus esforços, suas mordidas, seus gritos, haviamno obrigado a pôr-se de joelhos. Enquanto isso, o carrasco postara-se ao lado com o cutelo imóvel; então, a um sinal, os ajudantes afastaram-se. O condenado tentou levantar-se, mas, antes que tivesse tempo, o cutelo abateu-se sobre sua têmpora esquerda; ouviu-se um barulho surdo e seco, a vítima caiu como um boi, o rosto na terra, depois, num solavanco, virou-se de barriga para cima. Então o carrasco largou seu cutelo, tirou a faca do cinto, com único golpe rasgou-lhe a garganta e, subindo imediatamente depois sobre seu corpo, começou a pisoteá-lo.

A cada pressão, um jato de sangue esguichava do pescoço do condenado.

Nesse momento, Franz não agüentou mais; recuou num ímpeto e foi cair numa poltrona quase desmaiado.

Albert, de olhos fechados, permaneceu ereto, mas agarrado às cortinas da janela.

O conde mantinha-se de pé e triunfante como o anjo da maldade.

1 Poste: um assento.

2 Mandaia: modelo primitivo de guilhotina, utilizada no Midi francês e na Itália do séc. XVI.

3 Conde de Chalais: Henri de Tayllerand, conde de Chalais, alto-funcionário de Luís XIII e amante da duquesa de Chevreuse, conspirou contra a vida do cardeal de Richelieu, principal força política no governo depois do rei. Foi condenado à morte e decapitado, em 1626, mas como um seu aliado seqüestrou o carrasco, outro condenado (e não um soldado), inexperiente em execuções, foi encarregado de executá-lo.

4 Al suo commodo: em italiano, algo como “Quando os senhores desejarem” .

5 Dumas tinha implicância com a comida italiana e espanhola, como atesta em seu Grande dicionário de culinária (Jorge Zahar, 2006): “A Itália é um feliz meio-termo entre a França e a Espanha, pois lá, onde se come mal, os bons hotéis proclamam: ‘Temos cozinheiro francês’; já na Espanha, onde se come abominavelmente, os grandes hotéis alardeiam: ‘Temos cozinheiro italiano.’”

6 Castaing: Edme-Samuel Castaing (1796-1823), médico e químico especialista em venenos impossíveis de detectar, foi acusado e condenado por ter envenenado toda uma família, com vistas a herdar sua fortuna. Sua execução ocorreu em 1823. Há aqui um pequeno anacronismo do autor, pois Albert de Morcerf, por sua idade, deve ter nascido em torno de 1817, e mesmo que tivesse, ainda criança, assistido a uma execução, dificilmente poderia estar bêbado ou ser freqüentador de cabarés.