O Conde de Monte Cristo
12. O pai e o filho
3 General Quesnel: a inspiração para o personagem de Flavien de Quesnel parece vir de Louis Quesnel (1770-1815), oficial da guarda napoleônica que, ao retornar da Rússia, onde havia sido feito prisioneiro, aliou-se a Luís XVIII. Assim como o personagem, Louis Quesnel terminou assassinado por seus antigos companheiros bonapartistas.
12. O pai e o filho
O sr. Noirtier, pois era efetivamente ele quem acabava de entrar, seguiu com os olhos o criado até que este tivesse fechado a porta; depois, provavelmente temendo que o escutassem no vestíbulo, foi abri-la novamente. A precaução não era inútil, e a rapidez com que Germain se retirou mostrou que ele não estava imune ao pecado que desgraçou nossos primeiros pais. O sr. Noirtier deu-se então ao trabalho de ir fechar ele mesmo a porta do vestíbulo, voltou para fechar a do dormitório, empurrou os ferrolhos e estendeu a mão para Villefort, que acompanhara todos esses movimentos com uma surpresa de que ainda não se recobrara.
— Ora vejam! Sabia, meu caro Gérard — disse ele ao rapaz, fitando-o com um sorriso cuja expressão era bem difícil de definir —, que você não parece muito feliz em me ver?
— Pelo contrário, meu pai — disse Villefort —, estou encantado; mas estava tão longe de esperar sua visita que ela me deixou um pouco aturdido.
— Pois sinto-me inclinado a dizer a mesma coisa, meu caro amigo —
continuou o sr. de Noirtier, sentando-se. — O senhor me anuncia seu noivado em Marselha para o 1o de março e no dia 5 está em Paris?
— Se aqui estou, pai — disse Gerard, aproximando-se do sr. Noirtier —, não reclame, pois foi pelo senhor que vim, e essa viagem talvez seja sua salvação.
— Ah, não diga! — disse o sr. Noirtier, esticando-se displicentemente na poltrona onde estava sentado. — Não diga! Então me conte, sr.
magistrado, deve ser interessante.
— Meu pai, ouviu falar de algum clube bonapartista sediado na rua Saint-Jacques?
— Número 53? Sim, sou seu vice-presidente.
— Pai, seu sangue-frio me dá calafrios.
— Que quer, meu caro? Quando se foi proscrito pelos montagnards, quando se deixou Paris numa carroça de feno, quando se foi encurralado nas planícies de Bordeaux pelos capangas de Robespierre, é fácil se acostumar com muitas coisas. Portanto, continue. E então? O que aconteceu nesse clube da rua Saint-Jacques?
— Aconteceu que atraíram para lá o general Quesnel, e o general Quesnel, que saíra às nove horas da noite de casa, foi encontrado dois dias depois no Sena.
— E quem lhe contou essa bela história?
— O próprio rei, senhor.
— Pois muito bem! Eu, em retribuição à sua história — replicou Noirtier —, vou lhe contar uma novidade.
— Creio saber o que vai me dizer.
— Ah! Já sabe do desembarque de Sua Majestade o imperador?
— Silêncio, pai, por favor, em primeiro lugar pelo senhor, e depois por mim. Sim, eu sabia da novidade, e soube dela antes mesmo do senhor, pois há quatro dias corro pelas estradas, de Marselha a Paris, com raiva de não poder lançar mil quilômetros à minha frente o pensamento que incendeia o meu cérebro.
— Há quatro dias! Está maluco! Há quatro dias o imperador não havia embarcado.
— Não interessa, eu sabia do plano.
— E como?
— Por uma carta enviada ao senhor da ilha de Elba.
— A mim?
— Ao senhor, e que descobri na pasta do mensageiro. Se essa carta houvesse caído nas mãos de outro qualquer, a esta hora talvez estivesse fuzilado, meu pai.
O pai de Villefort começou a rir.
— Não exagere — disse ele —, parece que a Restauração aprendeu com o Império a forma de se livrar agilmente dos problemas... Fuzilado! Como anda rápido, meu caro! E essa carta, onde está? Conheço-o muito bem para temer que a tenha perdido por aí.
— Queimei-a, com medo que restasse um único fragmento dela: pois essa carta era sua condenação.
— E a ruína do seu futuro — respondeu friamente Noirtier. —
Compreendo-o muito bem; mas nada tenho a temer, uma vez que o senhor me protege.
— Faço melhor que isso, senhor, salvo-o.
— Ah, diabos! A coisa está ficando mais dramática; explique-se.
— Senhor, quero voltar ao assunto desse clube da rua Saint-Jaques.
— Os cavalheiros da polícia parecem gostar muito desse clube. Por que não procuraram melhor? Teriam-no encontrado.
— Não o encontraram, mas estão no rastro.
— É o que dizem sempre, sei muito bem disso: quando a polícia falha, diz que está no rastro, e o governo espera tranqüilamente o dia em que ela vem lhe dizer, com o rabo entre as pernas, que perdeu esse rastro.
— Sim, mas encontraram um cadáver; o general Quesnel foi morto, e em todos os países do mundo isso se chama assassinato.
— O senhor disse um assassinato? Mas nada prova que o general tenha sido vítima de um assassinato: todos os dias encontram-se pessoas no Sena que nele se lançaram por desespero, que se afogaram sem saber nadar.
— Meu pai, o senhor sabe muito bem que o general não se afogou por desespero, e que ninguém se banha no Sena, pelo menos no mês de fevereiro. Não, não, não se iluda, essa morte é claramente qualificada como assassinato.
— E quem assim a qualificou?
— O próprio rei.
— O rei! Eu o julgava suficientemente filósofo para compreender que não existe assassinato em política. Em política, meu caro, sabe tão bem quanto eu, não existem homens, mas idéias; não existem sentimentos, mas interesses; em política, ninguém mata um homem: suprime-se um obstáculo, ponto final. Quer saber como as coisas se deram? Pois bem, vou lhe contar. Achávamos que podíamos contar com o general Quesnel; ele nos tinha sido recomendado da ilha de Elba; um de nós foi à casa dele, convidou-o a participar de uma assembléia na rua Saint-Jacques, onde encontraria amigos; ele foi e ali pusemos-lhe a par de todo o plano, a partida da ilha de Elba, o desembarque planejado; em seguida, depois de escutar tudo, entender tudo, de não haver mais nada que não soubesse, ele anunciou que era realista, então todos se entreolharam; fizeram-lhe prestar juramento, ele prestou, mas com tanta má vontade que era tentar a Deus jurar daquela maneira. Muito bem, apesar disso, deixamos o general sair livre, completamente livre. Ele não voltou para casa, que quer, meu caro?
Despediu-se da gente, deve ter errado de caminho, só isso. Assassinato! Na verdade, o senhor me surpreende, Villefort, o sr. substituto do procurador do rei, ao levantar uma acusação fundamentado em provas tão débeis. Será que alguma vez tentei lhe dizer, quando o senhor exercia sua profissão de realista e mandou cortar a cabeça de um dos meus: “Meu filho, o senhor
cometeu um assassinato!” Não, eu disse: “Muito bem, o senhor lutou vitoriosamente; amanhã teremos a revanche.”
— Mas pai, cuidado, essa revanche será terrível quando chegar.
— Não compreendo.
— O senhor conta com a volta do usurpador.
— Admito que sim.
— Está enganado, pai, ele não fará cinqüenta quilômetros dentro da França sem ser perseguido, encurralado, capturado como um animal feroz.
— Meu caro amigo, o imperador encontra-se neste momento na estrada de Grenoble, no dia 10 ou 12 estará em Lyon e no 20 ou 25, em Paris.
— O povo irá se rebelar...
— Para ir se apresentar a ele.
— Ele tem muito poucos homens, enviaremos exércitos contra ele.
— Que o escoltarão para entrar na capital. Na verdade, meu caro Gérard, o senhor ainda não passa de uma criança. Julga-se bem-informado porque um telégrafo lhe diz, quatro dias depois do desembarque: “O usurpador desembarcou em Cannes com alguns homens; estamos em seu encalço.”
Mas onde está ele? Que faz ele? Os senhores não sabem de nada: estamos no seu encalço, é tudo que sabem. Ora! Vão persegui-lo assim até Paris sem disparar um tiro.
— Grenoble e Lyon são cidades fiéis e lhe oporão uma barreira intransponível.
— Grenoble lhe abrirá as portas com entusiasmo, Lyon inteira irá recebêlo. Acredite em mim, somos tão bem-informados quanto os senhores, e nossa polícia equivale à sua: quer uma prova? O senhor queria me esconder sua viagem e mesmo assim eu sabia dela meia hora depois que o senhor passou pela barreira. O senhor deu seu endereço apenas ao postilhão, pois bem, sei seu endereço, e a prova disso é que chego à sua casa justamente quando o senhor vai se pôr à mesa; toque então, e peça um segundo talher, jantaremos juntos.
— Com efeito — respondeu Villefort, observando o pai com espanto —, com efeito, o senhor me parece bem-informado.
— Meu Deus, a coisa é muito simples; os senhores, que detêm o poder, os senhores contam apenas com os recursos fornecidos pelo dinheiro; quanto a nós, que o esperamos, contamos com os fornecidos pelo devotamento.
— O devotamento? — desdenhou Villefort, rindo.
— Sim, o devotamento; é assim que chamamos, em bom francês, a ambição que espera.
E o próprio pai de Villefort esticou a mão para o cordão da campainha a fim de chamar o criado que o filho não chamava.
Villefort segurou seu braço.
— Um momento, meu pai — disse o jovem —, mais uma palavrinha.
— Fale.
— Por mais desastrada que seja a polícia realista, ela sabe no entanto de uma coisa terrível.
— Qual?
— As características do homem que, na manhã do dia em que o general Quesnel desapareceu, apresentou-se na casa dele.
— Ah, ela sabe isso, essa excelente polícia: e quais são essas características?
— Pele morena, suíças e olhos pretos, redingote azul abotoado até o queixo, roseta de oficial da Legião de Honra na lapela, chapéu de abas largas e bengala de junco.
— Ora, ora! Ela sabe isso? — disse Noirtier. — Nesse caso, por que ela não capturou o homem?
— Porque o perdeu de vista, ontem ou anteontem, na esquina da rua Coq-Héron.
— Não lhe disse que sua polícia era uma lástima?
— Sim, mas de uma hora para outra ela pode encontrá-lo.
— Talvez — disse Noirtier, olhando despreocupadamente à sua volta —, se esse homem não for esperto, mas ele o é; e — acrescentou sorrindo —
ele vai mudar de rosto e de roupa.
A essas palavras levantou-se, tirou fora o redingote e a gravata, foi até uma mesa na qual estavam preparados todos os itens necessários à toalete do filho, pegou uma navalha, ensaboou o rosto e com a mão perfeitamente firme abateu aquelas suíças comprometedoras que davam à polícia pista tão preciosa.
Villefort observava-o fazer aquilo com um terror não isento de admiração. Extirpadas as suíças, Noirtier deu outro aspecto aos cabelos; substituiu a gravata preta pela gravata colorida que aflorava na superfície de uma mala aberta; vestiu, no lugar do redingote azul e abotoado, um redingote de Villefort, marrom e afunilado; experimentou em frente ao espelho o chapéu de aba revirada do rapaz, pareceu satisfeito com a
aparência que lhe dava e, deixando a bengala de junco no canto da lareira, fez assobiar em sua mão ágil uma pequena haste de bambu, com a qual o elegante substituto dava ao seu andar a desenvoltura que era uma de suas principais qualidades.
— Que tal? — perguntou ele, voltando-se para o filho estupefato, quando aquela espécie de metamorfose ao vivo foi operada. — Acha que a polícia me reconheceria agora?
— Não, meu pai — balbuciou Villefort —, espero que não.
— Pois bem, meu caro Gérard — continuou Noirtier —, confio na sua prudência para dar um fim a todos os objetos que deixo aos seus cuidados.
— Oh, fique tranqüilo, pai! — enfatizou Villefort.
— Claro, claro! E agora creio que você tem razão e que pode muito bem, de fato, ter salvado a minha vida; mas fique tranqüilo, vou retribuir em breve.
Villefort balançou a cabeça.
— Não está convencido?
— Pelo menos espero que esteja enganado.
— Voltará a estar com o rei?
— Talvez.
— Quer passar por profeta aos olhos dele?
— Os profetas da desgraça não são bem-vindos na corte, meu pai.
— Sim, mas um dia ou outro alguém lhe faz justiça; e suponha uma segunda Restauração, nesse caso você será tratado como um herói.
— Resumindo, que devo dizer ao rei?
— Diga-lhe o seguinte: “Sire, estais sendo enganado acerca das inclinações da França, da opinião das cidades, do estado de espírito do exército; este que em Paris chamais de ogro da Córsega, também conhecido como usurpador em Nevers, já é chamado Bonaparte em Lyon e imperador em Grenoble. Vós o julgais encurralado, perseguido, em fuga; mas ele marcha, rápido como uma águia, refletindo sua imagem. Os soldados que julgais mortos de fome, esmagados pelo cansaço, prontos a desertar, multiplicamse como flocos em torno da bola da neve que se precipita. Sire, parti; abandonai a França ao seu verdadeiro soberano, àquele que não a comprou, mas conquistou; parti, sire, não que correis qualquer perigo, vosso adversário é suficientemente forte para ser misericordioso, mas porque seria humilhante para um
neto de São Luís dever a vida ao homem de Arcoli1, de Marengo e de Austerlitz.” Diga-lhe
isto, Gérard; ou melhor, deixe, não diga nada; dissimule sua viagem; não se gabe do que veio fazer e do que fez em Paris; embarque novamente em seu coche; se cortou caminho para vir, devore o espaço para voltar; chegue em Marselha à noite; entre em sua casa por uma porta dos fundos e lá permaneça, quietinho, bem humilde, bem discreto, sobretudo bem inofensivo, pois dessa vez, juro a você, agiremos com a força de quem conhece seus inimigos. Vá, meu filho, vá, meu caro Gérard, e, mediante essa obediência às ordens paternas, ou, se preferir, essa deferência para com os conselhos de um amigo, o manteremos em seu posto. Isso será —
acrescentou Noirtier sorrindo — uma maneira de o senhor me salvar uma segunda vez, se a gangorra política um dia o recolocar em cima e a mim embaixo. Adeus, caro Gérard; na próxima viagem, hospede-se lá em casa.
E a essas palavras Noirtier saiu, com a tranqüilidade que não o deixara um só instante enquanto havia durado essa difícil entrevista.
Villefort, pálido e agitado, correu até a janela, entreabriu a cortina e o viu passar calmo e impassível no meio de dois ou três homens com cara de poucos amigos, emboscados na esquina vigiada e no ângulo das ruas, que talvez estivessem ali para prender o homem de suíças pretas, redingote azul e chapéu de abas largas.
Villefort permaneceu assim, de pé e ofegante, até seu pai desaparecer no cruzamento Bussy. Avançou então para os objetos abandonados por ele, colocou no fundo da mala a gravata e o redingote azul, torceu o chapéu, que enfiou embaixo de um armário, quebrou a bengala de junco em três pedaços, os quais lançou ao fogo, pôs um gorro de viagem, chamou seu criado de quarto, proibindo-lhe com um olhar as mil perguntas que este sentia vontade de fazer, pagou a conta do hotel, pulou dentro de seu coche, que o esperava já atrelado, soube em Lyon que Bonaparte acabava de entrar em Grenoble e, em meio ao tumulto que reinava ao longo de todo o percurso, chegou a Marselha, às voltas com todas as inquietações que invadem o coração do homem junto com a ambição e as primeiras honras.