O Conde de Monte Cristo
19. O contrato
Três dias depois da cena que acabamos de narrar, por volta das cinco horas da tarde do dia marcado para a assinatura do contrato de casamento entre a srta. Eugénie Danglars e Andrea Cavalcanti, a quem o banqueiro continuava obstinado a conferir o título de príncipe, uma brisa fresca arrepiava todas as folhas do pequeno jardim situado em frente à casa do conde de Monte Cristo, no momento em que este se preparava para sair e enquanto seus cavalos o esperavam batendo as patas, contidos pela mão do cocheiro já sentado há quinze minutos na boléia, quando um elegante faeton, que já vimos várias vezes, com destaque para aquela noite em Auteuil, veio fazer rapidamente a curva da porta de entrada e arremessou, mais que depositou, nos degraus da escada, o sr. Andrea Cavalcanti, tão dourado e radiante como se estivesse prestes a casar com uma princesa.
Ele se informou acerca da saúde do conde com aquela intimidade que lhe era peculiar e, escalando rapidamente o primeiro andar, encontrou-o pessoalmente no topo da escada.
Ao ver o rapaz, o conde se deteve. Quanto a Andrea Cavalcanti, estava desabalado, e quando estava desabalado, nada o detinha.
— Olá! Bom-dia, caro sr. de Monte Cristo — ele disse ao conde.
— Ah, sr. Andrea! — fez este com sua voz semi-irônica. — Como vai, me caro?
— Às mil maravilhas, como pode ver. Tenho milhares de coisas para discutir consigo. Mas, antes de tudo, está saindo ou entrando?
— Estava de saída, cavalheiro.
Quando um elegante faeton arremessou, mais que depositou, nos degraus da escada, o sr.
Andrea Cavalcanti.
— Então, para não se atrasar, entrarei, se me permitir, em sua caleche, e Tom nos seguirá, conduzindo meu faeton a reboque.
— Não — disse com um imperceptível sorriso de desprezo o conde, que não desejava ser visto na companhia do rapaz. — Não, prefiro conceder-lhe uma audiência aqui, caro sr. Andrea. Conversa-se melhor entre quatro paredes, onde não há cocheiro para fisgar nenhuma palavra.
Em seguida, o conde entrou num pequeno salão que fazia parte do primeiro andar, sentou-se e fez, cruzando as pernas, sinal ao rapaz para que também sentasse.
Andrea assumiu seu ar mais risonho.
— Sabia, caro conde — disse ele —, que a cerimônia será realizada esta noite? Às nove horas assinaremos o contrato na casa do meu sogro.
— É mesmo? — disse Monte Cristo.
— Como assim! Isso é uma novidade para o senhor? Não foi avisado da solenidade pelo sr. Danglars?
— Claro que sim — disse o conde —, recebi uma carta sua ontem, mas creio que a hora não estava indicada.
— É possível, meu sogro deve ter contado com a notoriedade pública.
— Muito bem! — disse Monte Cristo. — Pronto, ei-lo feliz, sr.
Cavalcanti. É uma aliança das mais convenientes a que o senhor contrai; e depois, a srta. Danglars é bonita.
— Exatamente — respondeu Cavalcanti, num tom cheio de modéstia.
— É sobretudo riquíssima, pelo menos acredito — disse Monte Cristo.
— Riquíssima, acha? — repetiu o rapaz.
— Provavelmente. Dizem que o sr. Danglars esconde pelo menos metade da fortuna.
— E admite quinze ou vinte milhões — acrescentou Andrea, com um olhar faiscante de alegria.
— Sem contar — acrescentou Monte Cristo — que ele está prestes a entrar num gênero de especulação já um pouco desgastado nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas absolutamente inédito na França.
— Sim, sim, sei do que vai falar: a ferrovia cuja concessão ele acaba de obter, não é?
— Precisamente! Ele ganhará pelo menos, é a opinião geral, dez milhões nesse negócio.
— Dez milhões! Acha mesmo? Que fábula — regozijou Cavalcanti, que embriagando-se com aquele barulho metálico de palavras douradas.
— Sem contar — continuou Monte Cristo — que toda essa fortuna lhe caberá, e que isso é justo, uma vez que a srta. Danglars é filha única. Aliás, sua fortuna pessoal, pelo menos foi o que seu pai me disse, é quase igual à de sua noiva. Mas deixemos um pouco de lado os assuntos de dinheiro.
Saiba, sr. Andrea, que conduziu todo esse negócio com bastante rapidez e habilidade!
— Não foi nada mal, nada mal — congratulou-se o rapaz —, nasci para ser diplomata.
— Com certeza! Alguém o fará entrar na diplomacia; a diplomacia, como sabe, não se aprende: é uma coisa de instinto... Quer dizer que roubaram seu coração?
— Na verdade, estou com medo — respondeu Andrea, no tom com
que ele vira Dorante ou Valére responder a Alceste1 no Théâtre Français.
— Não gostam muito do senhor?
— Devem gostar — respondeu Andrea, com um sorriso triunfante —, uma vez que estão me casando. Mas apesar disso não esqueçamos um ponto central.
— Qual?
— É que fui singularmente ajudado em tudo isso.
— Bah!
— Isso é óbvio.
— Pelas circunstâncias?
— Não, pelo senhor.
— Por mim? Nem pense nisso, príncipe — disse Monte Cristo, enfatizando o título com afetação. — Que pude fazer pelo senhor? Será que seu nome, sua posição social e seu mérito não bastavam?
— Não — insistiu Andrea —, não; e não adianta me dizer isso, sr.
conde, sustento, de minha parte, que a posição de um homem como o senhor fez mais que meu nome, minha posição e meu mérito.
— O senhor está se menosprezando inteiramente, cavalheiro — rebateu Monte Cristo, que percebeu a hábil perfídia do rapaz e compreendeu o alcance de suas palavras. — Minha proteção só lhe foi dispensada depois que eu soube da influência e da fortuna do senhor seu pai. Afinal, quem me proporcionou, a mim que nunca o vira, nem ao senhor nem ao ilustre autor de seus dias, a felicidade de o conhecer? Foram dois bons amigos meus, lorde Wilmore e o abade Busoni. Quem me encorajou, não a lhe servir de garantia, mas a patrociná-lo? Foi o nome do seu pai, tão conhecido e tão honrado na Itália. Pessoalmente, não conheço o senhor.
Essa calma, esse total desembaraço fizeram Andrea compreender que, por ora, estava estrangulado por mão mais musculosa que a sua, e que o estrangulamento não podia ser facilmente afrouxado.
— E essa agora! Mas então — disse ele — meu pai possui realmente uma grande fortuna, sr. conde?
— Parece que sim, cavalheiro — respondeu Monte Cristo.
— Sabe se chegou o dote que ele me prometeu?
— Recebi a carta de aviso.
— Mas e os três milhões?
— Os três milhões estão a caminho, ao que tudo indica.
— Vou recebê-los de verdade?
— Mas, ora essa! — replicou o conde. — Parece-me que até agora, senhor, dinheiro não lhe faltou!
Andrea ficou tão surpreendido que não se conteve e devaneou por um momento.
— Então — disse, saindo do devaneio —, só me resta, senhor, fazer-lhe um pedido, e este o senhor compreenderá ainda que lhe pareça desagradável.
— Fale — comandou Monte Cristo.
— Travei relações, graças à minha fortuna, com muitas pessoas distintas, e tenho, pelo menos por enquanto, um punhado de amigos.
Porém, ao me casar como o faço, perante toda a sociedade parisiense, devo ser sustentado por um nome ilustre e, na falta da mão paterna, é uma mão poderosa que deve conduzir-me ao altar. Ora, meu pai não vem de forma alguma a Paris, certo?
— Ele está velho, cheio de achaques e sofre mortalmente, segundo diz, sempre que viaja.
— Compreendo. Pois bem! Venho fazer-lhe um pedido.
— A mim?
— Sim, ao senhor.
— E qual é, meu Deus?!
— Ora! Substituí-lo.
— O quê? Ah, meu caro senhor! Já tivemos muitos encontros auspiciosos, será que me conhece tão mal assim para me fazer um pedido desses?
“Peça meio milhão emprestado e, embora um empréstimo desse vulto seja bastante raro, palavra de honra!, o senhor será menos inoportuno.
Saiba portanto, eu julgava já tê-lo dito, que o conde de Monte Cristo nunca deixou de manifestar os escrúpulos, eu diria mais, as superstições de um homem do Oriente em relação à sua participação, moral sobretudo, nas coisas deste mundo.
“Eu, que tenho um harém no Cairo, um em Esmirna e um em Constantinopla, presidir um casamento? Jamais!”
— Então recusa?
— Taxativamente. Ainda que o senhor fosse meu filho, ou meu irmão, recusaria da mesma forma.
— Oh, quem diria! — exclamou Andrea, desapontado. — Mas como fazer agora?
— O senhor mesmo disse que tem cem amigos.
— Exato, mas foi o senhor quem me apresentou na casa do sr. Danglars.
— Em absoluto! Vamos restabelecer os fatos em toda a sua verdade: fui eu quem o fiz jantar com ele em Auteuil, e foi o senhor quem se
apresentou por conta própria. Diabos!, é completamente diferente.
— Sim, mas meu casamento: o senhor ajudou...
— Eu! Em absolutamente nada, peço-lhe que acredite. Será que não se lembra do que eu lhe respondi quando o senhor veio me solicitar para fazer o pedido: “Oh! nunca patrocino casamentos, meu caro príncipe, é um princípio inarredável para mim?”
Andrea mordeu o beiço.
— Mas, enfim — disse ele —, pelo menos estará lá?
— Toda Paris estará?
— Oh, com certeza!
— Pois bem, estarei lá como toda Paris — afirmou o conde.
— Assinará o contrato?
— Oh, não vejo nenhum inconveniente nisso, e meus escrúpulos não chegam a esse ponto.
— Enfim, uma vez que não quer me dar mais, devo contentar-me com o que me dá. Só uma última palavra, conde.
— Como assim?
— Um conselho.
— Tome cuidado; um conselho é pior que um favor.
— Oh, este o senhor pode me dar sem se comprometer.
— Fale.
— O dote da minha mulher é de quinhentas mil libras.
— Foi a cifra que o sr. Danglars disse a mim também.
— Devo recebê-la ou deixá-la nas mãos do tabelião?
— Eis, em geral, como as coisas acontecem quando se quer que sejam galante. Por ocasião do contrato, seus dois tabeliães marcam um encontro para o dia seguinte ou dois dias depois. No dia seguinte ou dois dias depois, eles trocam os dotes, passando recibo um para o outro. Em seguida, celebrado o casamento, põem os milhões à sua disposição, como líder da união.
— É que — disse Andrea, com uma certa inquietude mal dissimulada
—, creio ter ouvido meu sogro comentando que tinha intenção de investir nossos fundos nesse maldito negócio de ferrovia que o senhor mencionava agorinha mesmo.
— Ótimo! É — continuou Monte Cristo —, pelo que todos dizem, um meio de os senhores triplicarem seu capital num ano. O sr. barão Danglars é bom pai e sabe somar.
— Então — disse Andrea — está tudo bem, exceto sua recusa, que muito me entristece.
— Não a atribua senão a escrúpulos mais que naturais numa circunstância como esta.
— Vá lá — disse Andrea —, que seja feita a sua vontade. Até esta noite, às nove horas.
— Até a noite.
E, apesar de uma ligeira resistência de Monte Cristo, cujos lábios empalideceram, mas que não obstante conservou seu sorriso de cerimônia, Andrea pegou a mão do conde, apertou-a, pulou para dentro do seu faeton e desapareceu.
As quatro ou cinco horas que lhe restavam até as nove, Andrea empregou-as em compras, em visitas destinadas a interessar esses amigos, de quem falara, a aparecerem na casa do banqueiro com todo o luxo de seus aparatos, deslumbrando-os com aquelas promessas de ações que, desde então, viraram a cabeça de muita gente, e cuja iniciativa, naquele momento, pertencia a Danglars.
Com efeito, às oito e meia, o grande salão de Danglars, a galeria contígua a esse salão e os outros três salões do mesmo andar estavam tomados por uma multidão perfumada que despertava pouquíssima simpatia, mas muito essa irresistível necessidade de se estar num lugar onde se sabe que há novidade.
Um acadêmico diria que as noites da sociedade são coleções de flores que atraem borboletas volúveis, abelhas famintas e vespas atordoantes.
Desnecessário dizer que os salões estavam resplandecentes de velas, a luz rolava aos borbotões pelos objetos de ouro sobre as toalhas de seda, e todo o mau gosto daqueles móveis, que só tinha a seu favor a riqueza, brilhava em todo seu esplendor.
A srta. Eugénie apresentava-se com a simplicidade mais elegante: um vestido de seda branca bordada em branco, e uma rosa branca entremeada nos cabelos negros como o azeviche, compunha todo seu aparato, que não era valorizado por uma jóia que fosse.
Entretanto, era possível ler em seus olhos aquela segurança plena destinada a desmentir o que aquela cândida toalete tinha de vulgarmente virginal a seus próprios olhos.
A sra. Danglars, a trinta passos dela, conversava com Debray, Beauchamp e Château-Renaud. Debray fizera sua rentrée na casa para
aquela grande solenidade, mas como os demais, sem nenhum privilégio especial.
O sr. Danglars, rodeado por deputados e homens de finanças, explicava uma teoria de contribuições novas que ele pretendia implantar quando a força das circunstâncias obrigasse o governo a chamá-lo para o Ministério.
Andrea, de braços dados com um dos mais borboleteantes dândis do Opéra, explicava-lhe com bastante impertinência, visto que precisava ser atrevido para parecer à vontade, seus projetos para o futuro, e os progressos de luxo que esperava fazer na moda parisiense com suas cento e setenta e cinco mil libras de renda.
A multidão vagava pelos salões tal qual um fluxo e refluxo de turquesas, rubis, esmeraldas, opalas e diamantes.
Como em toda parte, observava-se que eram as mulheres mais velhas as mais enfeitadas, e as mais feias as que se mostravam com mais obstinação.
Se havia algum belo lírio branco, alguma rosa suave e perfumada, era preciso procurá-la e descobri-la, escondida em algum canto por uma mãe de turbante ou uma tia emplumada feito uma ave do paraíso.
A todo instante, em meio àquela balbúrdia, aquele zumbido, aquelas risadas, a voz dos arautos lançava um nome conhecido nas finanças, respeitado no exército ou ilustre nas letras. Então um débil meneio dos grupos acolhia aquele nome.
Porém, para um que detivesse o privilégio de fazer fremir aquele oceano de vagas humanas, quantos não passavam acolhidos pela indiferença ou o escárnio do desdém!
No instante em que o ponteiro do imponente relógio, cujo pêndulo
representando Endimião adormecido2, marcava nove horas em seu quadrante de ouro, e quando o gongo, fiel reprodutor do pensamento da máquina, soava nove vezes, o nome do conde de Monte Cristo soou por sua vez, e todos os presentes voltaram-se para a porta, como que impelidos por uma centelha elétrica.
O conde estava de preto, com a simplicidade habitual. Seu colete branco desenhava-lhe o peito vasto e nobre; sua gola preta parecia especialmente reluzente, tanto contrastava com a palidez viril de sua pele; suas jóias resumiam-se a uma corrente de colete tão fina que o tênue cordão de ouro mal aparecia sobre a faixa branca.
Na mesma hora formou-se um círculo em torno da porta.
O conde, num relance, percebeu a sra. Danglars numa extremidade do salão, o sr. Danglars na outra e a srta. Eugénie à sua frente.
Aproximou-se em primeiro lugar da baronesa, que conversava com a sra. de Villefort, que viera sozinha, pois Valentine continuava doente. E, sem desviar, de tal forma o caminho abria-se à sua frente, passou da baronesa a Eugénie, a quem cumprimentou em termos tão rápidos e reservados que a orgulhosa artista ficou perplexa.
Perto dela estava a srta. Louise d’Armilly, que agradeceu ao conde pelas cartas de recomendação que lhe dera tão amavelmente para a Itália, e das quais ela contava, segundo lhe disse, fazer uso constante Ao deixar essas damas, ele girou o corpo e viu-se perto de Danglars, que se aproximara para estender-lhe a mão.
Cumpridos esses três deveres sociais, Monte Cristo deteve-se, passeando à sua volta um olhar seguro, marcado por aquela expressão típica das pessoas de um certo mundo e sobretudo de uma certa importância, o qual parece dizer: “Fiz o que tinha que fazer; agora, que os outros façam a sua parte.”
Andrea, que estava num salão contíguo, sentiu aquela espécie de frêmito que Monte Cristo imprimira à multidão e correu para cumprimentar o conde.
Encontrou-o completamente cercado. Suas palavras eram disputadas, como sempre acontece com as pessoas que falam pouco e nunca dizem uma palavra sem valor.
Os tabeliães fizeram sua entrada nesse momento, e foram instalar seus papéis garatujados sobre o veludo bordado a ouro que cobria a mesa preparada para a assinatura, de madeira também dourada.
Um dos tabeliães sentou-se, o outro permaneceu de pé.
Ia-se proceder a leitura do contrato, que metade de Paris, presente na solenidade, deveria assinar.
Todos tomaram seus lugares, ou melhor, as mulheres formaram um círculo, ao passo que os homens, mais indiferentes ao estilo
enérgico, como diz Boileau3, fizeram seus comentários sobre a agitação febril de Andrea, sobre a concentração do sr. Danglars, sobre a impassibilidade de Eugénie e sobre a maneira lesta e desenvolta com que a baronesa tratava esse importante assunto.
O contrato foi lido em meio a um profundo silêncio. Porém, assim que a leitura terminou, o rumor recomeçou nos salões, duplicado. As somas
opulentas, aqueles milhões rolando no futuro dos dois jovens e vindo complementar a exposição que fora montada, num quarto exclusivamente dedicado a isso, do enxoval da noiva e dos diamantes da jovem mulher, haviam repercutido com todo seu prestígio na invejosa assembléia.
Os encantos da srta. Danglars redobravam aos olhos dos jovens e, naquele momento, ofuscavam o brilho do sol.
Quanto às mulheres, desnecessário dizer que, embora invejassem aqueles milhões, não julgavam precisar deles para ficarem bonitas.
Andrea, assediado por seus amigos, cumprimentado, adulado, começando a acreditar na realidade do sonho que vivia, estava a ponto de perder a cabeça.
O tabelião tomou solenemente da pena, ergueu-a acima da cabeça e disse:
— Senhores, vamos assinar o contrato.
O barão devia assinar primeiro, em seguida o procurador do sr. Cavalcanti pai, depois a baronesa, depois os futuros cônjuges, como se diz nesse abominável estilo que impera no papel timbrado.
O barão pegou da pena e assinou, depois o procurador.
A baronesa aproximou-se, de braços dados à sra. de Villefort.
— Querida amiga — disse ela, pegando da pena —, não é uma coisa desesperadora? Uma reviravolta inesperada, ocorrida no caso do assassinato e roubo de que o sr. conde de Monte Cristo quase foi vítima, priva-nos de ter o sr. de Villefort.
— Oh, meu Deus! — fez Danglars, no mesmo tom com que teria dito:
“Quer saber? Isso me é totalmente indiferente!”
— Nem me fale! — disse Monte Cristo aproximando-se. — Tenho muito medo de ser a causa involuntária dessa ausência.
— Como! O senhor, conde? — disse a sra. Danglars, assinando. — Se for verdade, preste atenção, nunca irei perdoá-lo.
Andrea esticou os ouvidos.
— Não foi entretanto em absoluto culpa minha — disse o conde —, e faço questão de comprová-lo.
Escutavam avidamente: Monte Cristo, que tão raro descerrava os lábios, ia falar.
— Lembram-se — disse o conde, em meio ao mais profundo silêncio —
que na minha casa morreu o infeliz ladrão, o qual, antes, ao sair de lá, foi mortalmente ferido, segundo se sabe, por um cúmplice?
— Sim — respondeu Danglars.
— Pois bem! Para socorrê-lo, despiram-no e atiraram suas roupas num canto, as quais a justiça recolheu. Mas a justiça, ao confiscar o paletó e a calça, esqueceu-se do colete.
Andrea empalideceu visivelmente e deslizou sutilmente para o lado da porta. Ele via uma nuvem despontar no horizonte, e essa nuvem parecia-lhe encerrar a tempestade em seu bojo.
— Pois bem! Esse mísero colete foi encontrado hoje todo coberto de sangue e com um buraco no lugar do coração.
As damas deram um grito, e duas ou três prepararam-se para desmaiar.
— Trouxeram-no para mim. Ninguém podia presumir de onde vinha aquele farrapo. Apenas eu conjecturei ser provavelmente o colete da vítima. De repente, meu mordomo, vasculhando com asco e precaução essa fúnebre relíquia, sentiu um papel no bolso e dele o retirou: era uma carta. Dirigida a quem? Ao senhor, barão.
— A mim? — bradou Danglars.
— Ora, meu Deus, sim, ao senhor! Consegui ler o seu nome sob o sangue que manchava o bilhete — respondeu Monte Cristo, em meio às expressões de surpresa geral.
— Mas — perguntou a sra. Danglars, fitando seu marido com preocupação —, por que isso impediu o sr. de Villefort...?
— É muito simples, senhora — respondeu Monte Cristo. — Esse colete e essa carta são o que é conhecido como provas materiais; carta e colete, enviei tudo ao sr. procurador do rei. O senhor compreende, meu caro barão, o caminho da lei é o mais seguro em matéria penal: talvez fosse alguma maquinação contra o senhor.
Andrea olhou fixamente para Monte Cristo e desapareceu no segundo salão.
— É possível — disse Danglars. — Esse homem assassinado não era um ex-presidiário?
— Sim — respondeu o conde —, um ex-presidiário chamado Caderousse. Danglars empalideceu ligeiramente. Andrea saiu do segundo salão e alcançou o vestíbulo.
— Mas, vamos, assine, assine! — disse Monte Cristo. — Percebo que meu relato deixou a todos atordoados e peço humildemente desculpas à senhora, baronesa, e à srta. Danglars.
A baronesa, que acabava de assinar, devolveu a pena ao tabelião.
— Sr. príncipe Cavalcanti — disse o tabelião —, sr. príncipe Cavalcanti, onde está o senhor?
— Andrea! Andrea! — repetiram diversas vozes de jovens que já haviam alcançado, com esse nobre italiano, o grau de intimidade para chamá-lo pelo prenome.
— Chame então o príncipe, avise-lhe que é a vez dele! — gritou Danglars a um meirinho.
Porém, no mesmo instante, a massa dos presentes refluiu, aterrada, para o salão principal, como se algum monstro terrível houvesse
entrado nos aposentos, quaerens quem devoret4.
Havia com efeito ante o que recuar, com que se assustar, por que gritar.
Um oficial de polícia instalava dois homens na porta de cada salão e avançava para Danglars, precedido por um comissário de polícia envolvido em seu cachecol.
A sra. Danglars deu um grito e desmaiou.
Danglars, que se julgava ameaçado (algumas consciências nunca estão em paz), ofereceu aos olhos de seus convidados um semblante desfeito pelo terror.
— O que houve, senhor? — perguntou Monte Cristo, adiantando-se em direção ao comissário.
— Qual dos senhores, cavalheiros — perguntou o magistrado sem responder ao conde —, chama-se Andrea Cavalcanti?
Um grito de estupor partiu de todos os cantos do salão. Procuraram, interrogaram.
— Mas quem será esse tal de Andrea Cavalcanti? — perguntou Danglars, quase desvairado.
— Um ex-presidiário evadido da prisão de Toulon.
— E que crime ele cometeu?
— Ele é acusado — disse o comissário, com sua voz impassível — de ter assassinado o assim chamado Caderousse, seu ex-companheiro de corrente, no momento em que este saía da casa do conde de Monte Cristo.
Monte Cristo lançou um olhar rápido ao redor. Andrea havia desaparecido.
— Qual dos senhores chama-se Andrea Cavalcanti?
1 Dorante, Valére, Alceste: personagens de Molière nas peças O misantropo, O burguês fidalgo e Tartufo. Dorante é o protótipo da amante infeliz, e as outras duas, de amantes felizes. O diálogo entre eles, portanto, é apenas hipotético.
2 “Endimião adormecido”: na mitologia grega, jovem pastor de beleza excepcional, que dormia eternamente. Selene, a deusa que personificava a lua, apaixonando-se por ele, visitava-o todas as noites assim que Endimião adormecia numa caverna. Ela lhe daria cinqüenta filhas, mas colocou-o para dormir eternamente, de modo que ele lhe pertencesse para sempre. Outra versão do mito dá explicação diferente para o sono eterno de Endimião: Zeus lhe teria oferecido qualquer coisa que desejasse, e ele escolhido um sono perpétuo no qual permanecesse jovem para sempre. Por fim, numa terceira versão do mito, seu sono perpétuo era um castigo infligido por Zeus por ter ousado apaixonar-se por sua esposa, Hera.