O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 59 de 119

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O Conde de Monte Cristo

19. O cercado de alfafa

— Na verdade, eis dois grandes miseráveis. Pena que não sejam efetivamente pai e filho!

1 Antony: no drama em cinco atos, estreado em 1831 e escrito pelo próprio Alexandre Dumas, o personagem-título é um bastardo.

2 “pegar um ar em Toulon” : referência à prisão de trabalhos forçados que existia nesta cidade.

3 “Blain ou Vérenique”: alfaiates parisienses da época.

19. O cercado de alfafa

Convém que nossos leitores nos permitam reconduzi-los àquele cercado anexo à casa do sr. de Villefort. Para além da cerca invadida por castanheiras, encontraremos nossos velhos conhecidos.

Dessa vez Maximilien chegou primeiro.

Foi ele quem colou o olho nas tábuas, espreitando, no jardim profundo, uma sombra entre as árvores e o rangido de uma botinha de seda sobre a areia das aléias.

Finalmente, o rangido tão desejado se fez ouvir, porém, em vez de uma, foram duas sombras que se aproximaram. O atraso de Valentine fora ocasionado por uma visita da sra. Danglars e de Eugénie, visita que se estendera para além da hora em que Valentine era esperada. Portanto, a fim de não faltar ao encontro, a moça sugerira à srta. Danglars um passeio pelo jardim, querendo mostrar a Maximilien sua ausência de culpa naquele atraso, que certamente o fazia sofrer.

O rapaz entendeu tudo com aquela intuição rápida característica dos apaixonados, e seu coração sossegou. Aliás, sem chegar ao alcance da voz, Valentine orientou seu passeio de maneira a que Maximilien pudesse vê-la passar e repassar; a cada vez que ela passava e repassava, um olhar secreto de sua companheira, lançado para o outro lado da cerca e recolhido pelo rapaz, dizia-lhe:

— Tenha paciência, amigo, está vendo que a culpa não é minha.

E Maximilien, com efeito, exercitava sua paciência ao mesmo tempo que admirava o contraste entre as duas moças: entre a loura de cabelos lânguidos e a postura vergada como um belo salgueiro e a morena de olhos orgulhosos e o porte ereto como um pinheiro; bem, é escusado dizer que, nessa comparação entre duas naturezas tão opostas, toda a vantagem, pelo menos no coração do rapaz, ia para Valentine.

Após meia hora de passeio, as duas moças se afastaram. Maximilien compreendeu que a visita da srta. Danglars chegara ao fim.

Com efeito, um instante depois, Valentine reapareceu sozinha. Com medo de que um olhar indiscreto seguisse o seu retorno, vinha lentamente; e, em vez de avançar diretamente para a cerca, foi sentar-se num banco, após haver, sem afetação, interrogado cada tufo de folhagem e mergulhado seu olhar no fundo de todas as aléias.

Tomadas essas precauções, correu para a cerca.

— Bom-dia, Valentine — disse uma voz.

— Bom-dia, Maximilien; fiz-lhe esperar, mas viu a causa?

— Sim, reconheci a srta. Danglars; não julgava você tão ligada a essa jovem.

— Quem disse que éramos ligadas, Maximilien?

— Ninguém; mas me pareceu que isso se depreendia da maneira como vocês se davam o braço, da maneira como conversavam; eram como duas colegas de internato trocando confidências.

— Com efeito, trocávamos confidências — disse Valentine. — Ela me confessava sua repugnância ao seu casamento com o sr. de Morcerf e eu lhe confessava da minha parte que via como uma infelicidade meu casamento com o sr. d’Épinay.

— Querida Valentine!

— Eis por que, meu amigo — prosseguiu a rapariga —, você viu essa aparência de entrega entre mim e Eugénie; era porque, enquanto eu falava do homem que não posso amar, pensava no homem que amo.

— Como você é boa em todas as coisas, Valentine, e tem dentro de si uma coisa que a srta. Danglars jamais terá: o encanto indefinido que é, para a mulher, o que o perfume é para a flor, o que o sabor é para a fruta; pois não basta a uma flor ser bela, não basta a uma fruta ser bela.

— É o seu amor que me faz ver as coisas assim, Maximilien.

— Não, Valentine, juro que não. Veja, eu observava vocês duas ainda há pouco e, pela minha honra, embora fazendo justiça à beleza da srta.

Danglars, não entendia como um homem poderia se apaixonar por ela.

— É porque, como você dizia, Maximilien, eu estava aqui e minha presença o fazia injusto.

— Não... mas cá entre nós... uma questão de simples curiosidade e que emana de certas idéias que formei sobre a srta. Danglars.

— Oh, muito injustas, sem que eu saiba exatamente quais são. Quando vocês nos julgam, a nós, pobres mulheres, não devemos esperar indulgência.

— Com a ressalva de que, entre vocês, vocês são justíssimas umas com as outras!

— Porque, quase sempre, há paixão em nossas opiniões. Mas volte à sua pergunta.

— Será porque a srta. Danglars ama um outro que ela hesita em casar-se com o sr. de Morcerf?

— Maximilien, eu lhe disse que não era amiga de Eugénie.

— Ora, meu Deus — disse Morrel —, sem serem amigas, moças trocam confidências; admita que lhe fez algumas perguntas quanto a isso. Ah, vejo que sorri!

— Sendo assim, Maximilien, não precisamos ter essa cerca de tábuas entre nós.

— Vamos, o que disse ela?

— Ela me disse que não amava ninguém — respondeu Valentine. —

Disse que tinha horror ao casamento; que sua maior alegria teria sido levar uma vida livre e independente; e que chegava a desejar que seu pai perdesse a fortuna para tornar-se artista, como sua amiga, a srta. Louise d’Armilly.

— Ah, está vendo?!

— Ora! O que isso prova? — perguntou Valentine.

— Nada — respondeu Maximilien sorrindo.

— Então — disse Valentine —, por que está sorrindo?

— Ah — disse Maximilien —, agora é você que está olhando, Valentine.

— Quer que eu me afaste?

— Oh, não! De forma alguma! Mas voltemos a falar de você.

— Ah, é verdade, pois mal temos dez minutos para ficarmos juntos.

— Meu Deus! — exclamou Maximilien, consternado.

— Sim, Maximilien, você tem razão — disse Valentine com melancolia

—, e você tem aqui uma namorada infeliz. Que existência vou obrigá-lo a suportar, pobre Maximilien, você, tão propenso à felicidade! Censuro-me amargamente por isso, acredite em mim.

— Ora, Valentine, que importância tem isso? Se me sinto feliz assim; se essa espera infinita me parece compensada, da minha parte, por cinco minutos de sua presença, por duas palavras de sua boca e por essa convicção profunda, eterna, de que Deus não criou dois corações tão harmoniosos como os nossos, e não os reuniu quase milagrosamente, para depois separá-los.

— Obrigado, espere por nós dois, Maximilien: isso me fará feliz pela metade.

— O que está acontecendo, Valentine, para você me deixar tão cedo?

— Não sei; a sra. de Villefort me pediu para passar em seus aposentos para uma comunicação da qual depende, ela mandou me dizer, parte da minha fortuna. Ora, meu Deus, que eles peguem a minha fortuna, sou

muito rica; e que, depois de a pegarem, deixem-me tranqüila e livre; você me amará mesmo pobre, não é, Morrel?

— Oh, vou amá-la para sempre! Que me importa riqueza ou pobreza, se a minha Valentine ficar perto de mim e eu tiver certeza de que ninguém poderá roubá-la! Mas essa comunicação, Valentine, não acha que pode ser alguma notícia relativa ao seu casamento?

— Não creio.

— Mesmo assim, escute, Valentine, e não tenha medo, pois, enquanto eu viver, não serei de nenhuma outra.

— Acha que me tranqüiliza dizendo isso, Maximilien?

— Desculpe! Tem razão, sou um grosseirão. Pois bem! Então eu queria lhe dizer que outro dia estive com o sr. de Morcerf.

— E daí?

— O sr. Franz é amigo dele, como sabe.

— Sim; e daí?

— E daí! Ele recebeu uma carta de Franz, anunciando-lhe seu retorno em breve.

Valentine empalideceu e apoiou a mão na cerca.

— Ah, meu Deus — ela disse —, se for isso! Mas não, a comunicação não viria da parte da sra. de Villefort.

— Por que não?

— Porque... não tenho certeza... mas me parece que a senhora de Villefort, ao mesmo tempo em que não se opõe francamente, não nutre simpatia por esse casamento.

— Que bom! Valentine, parece que vou adorar esta sra. de Villefort.

— Oh, não se apresse, Maximilien! — disse Valentine, com um sorriso triste.

— Ora, se ela é contra esse casamento, para rompê-lo talvez esteja aberta a alguma outra proposta.

— Não acredite nisso, Maximilien; não são os maridos que a sra. de Villefort repele, é o casamento.

— Como? O casamento! Se ela detesta tanto o casamento, por que ela se casou?

— Você não está entendendo, Maximilien. Veja, quando, há um ano, eu mencionei a ela minha intenção de me retirar para um convento, ela, apesar das observações que se julgou obrigada a me fazer, adotou minha sugestão com alegria. Instigado por ela, tenho certeza, meu pai também

consentira; apenas o coitado do meu avô me deteve. Não pode imaginar, Maximilien, que expressão esse velho desafortunado tem nos olhos, ele, que só ama a mim no mundo e que, Deus me perdoe se for uma blasfêmia, só é amado por mim. Se você soubesse, quando ele tomou conhecimento da minha decisão, como me olhou, o quanto havia de crítica naquele olhar e de desespero naquelas lágrimas que rolavam sem queixas, sem suspiros, ao longo de suas faces imóveis! Ah, Maximilien, senti uma espécie de remorso; lancei-me aos seus pés gritando: “Perdão, perdão, meu avô!

Façam de mim o que quiserem, mas não o deixarei!” Então ele levantou os olhos para o céu! Maximilien, posso sofrer muito; aquele olhar do meu velho avô me pagou antecipadamente pelo que vou sofrer.

— Querida Valentine! Você é um anjo. Esgrimindo à direita e à esquerda contra beduínos, a menos que Deus não os tenha julgado infiéis, não sei o que fiz para merecer essas confidências. Mas enfim, raciocinemos, Valentine, qual será então o interesse da sra. Villefort em que você não se case?

— Não ouviu eu lhe dizer agora mesmo que era rica, Maximilien, muito rica? Tenho, pelo lado da minha mãe, cerca de cinqüenta mil libras de renda; meu avô e minha avó, o marquês e a marquesa de Saint-Méran, devem me deixar outro tanto; o sr. Noirtier tem visivelmente a intenção de me fazer sua única herdeira. Daí resulta, portanto, que, comparativamente, meu irmão Édouard, que não espera, da parte da sra. de Villefort, nenhuma fortuna, é pobre. Ora, a sra. de Villefort ama essa criança com adoração e, se eu tivesse me tornado uma religiosa, toda a minha fortuna, concentrada no meu pai, que herdava do marquês, da marquesa e de mim, caberia a seu filho.

— Oh, como é estranha essa cobiça numa jovem e bela mulher!

— Observe que não é por ela, Maximilien, mas para o seu filho, e que o que você recrimina-lhe como um defeito, do ponto de vista do amor materno, é quase uma virtude.

— Mas, e se você deixasse uma parte dessa fortuna para esse filho, Valentine? — perguntou Maximilien.

— Como fazer uma proposta dessas — disse Valentine —, principalmente à mulher que só tem na boca a palavra “desinteresse”?

— Valentine, meu amor continua sagrado para mim, e, como toda coisa sagrada, cobri-o o com o véu do meu respeito e o encerrei no coração; ninguém no mundo, nem mesmo minha irmã, desconfia então desse amor,

que não revelei a quem quer que fosse neste mundo. Valentine, permita-me falar desse amor com um amigo.

Valentine estremeceu.

— Com um amigo? — disse ela. — Oh, meu Deus! Maximilien, fico arrepiada ouvindo-o falar assim! Com um amigo? E quem seria esse amigo?

— Escute, Valentine: já sentiu por alguém uma dessas simpatias irresistíveis, dessas que, embora vendo a pessoa pela primeira vez, você julga conhecêla há muito tempo, e fica se perguntando onde e quando a viu, de modo que, incapaz de lembrar o lugar e a época, chega a acreditar que foi num mundo anterior ao nosso e que essa simpatia é apenas uma lembrança despertada?

— Já.

— Pois bem! Senti isso na primeira vez que vi esse homem extraordinário.

— Um homem extraordinário?

— Sim.

— Que o senhor então conhece há muito tempo?

— Há oito ou dez dias, se tanto.

— E você chama de amigo um homem a quem conhece há oito dias? Oh, Maximilien, eu o julgava mais avaro no uso dessa bela palavra “amigo”.

— Teoricamente, você tem razão, Valentine; mas diga o que disser, nada me fará reconsiderar esse sentimento instintivo. Acredito que esse homem estará misturado a tudo de bom que me acontecer no futuro, o qual às vezes seu olhar profundo parece conhecer e sua mão poderosa, dirigir.

— É então um adivinho? — perguntou Valentine, sorrindo.

— Puxa — disse Maximilien —, freqüentemente sou levado a crer que ele adivinha... sobretudo quando é para o bem.

— Oh — disse Valentine com tristeza —, apresente-me a esse homem, Maximilien, que eu saiba por seu intermédio se serei suficientemente amada para me indenizar por tudo que sofri!

— Minha querida! Mas você o conhece!

— Eu?

— É aquele que salvou a vida da sua madrasta e do filho dela.

— O conde de Monte Cristo?

— Ele mesmo.

— Oh — exclamou Valentine —, ele nunca será meu amigo, já é amigo demais da minha madrasta.

— O conde, amigo da sua madrasta, Valentine? Meu instinto não falharia a esse ponto; tenho certeza de que está enganada.

— Oh, se você soubesse, Maximilien! Mas já não é Édouard que reina na casa, é o conde: é o queridinho da sra. de Villefort, que vê nele a síntese dos conhecimentos humanos; admirado, ouça, admirado pelo meu pai, que diz nunca ter ouvido alguém formular idéias tão elevadas com tanta eloqüência; idolatrado por Édouard, que, apesar do medo dos grandes olhos negros do conde, corre para ele assim que o vê chegar e lhe abre as mãos, nas quais sempre é depositado algum brinquedo admirável. Quando o sr. de Monte Cristo não está com o meu pai, ou quando o sr. de Monte Cristo não está com a sra. de Villefort, o sr. de Monte Cristo com ele.

— Muito bem! Querida Valentine, se as coisas são assim, você já deve ter sentido ou em breve sentirá os efeitos de sua presença. Ele conheceu Albert de Morcerf na Itália, foi para tirá-lo das mãos de bandidos; encontrou a sra. Danglars, foi para lhe oferecer um presente régio; sua madrasta e seu irmão passara diante da sua porta, foi para que seu núbio lhes salvasse a vida. Esse homem tem evidentemente o poder de influenciar as coisas. Nunca vi gostos mais simples aliados a tão grande magnificência. Seu sorriso é tão doce, quando o dirige a mim, que esqueço como os outros julgam seu sorriso amargo. Oh, fale, Valentine, ele já lhe sorriu assim? Se o fez, você será feliz.

— A mim! — espantou-se a moça. — Oh, meu Deus, Maximilien, ele não apenas não olha para mim, ou melhor, se passo por acaso, ele desvia os olhos de mim. Oh, ele não é generoso! Ou não tem esse olhar profundo que lê no coração, e que você lhe atribui erradamente; pois, se fosse generoso, ao ver-me sozinha e triste naquele casarão, teria me protegido com essa influência que ele exerce; e, já que ele desempenha, como você sugere, o papel de sol, teria aquecido meu coração com um de seus raios.

Acredita que ele goste de você, Maximilien; ora, o que sabe sobre isso? Os homens fazem um semblante gracioso para um grão-oficial de quase dois metros de altura como você, com um longo bigode e um grande sabre, mas julgam poder esmagar sem receio uma pobre moça que chora.

— Oh, Valentine! Está enganada, juro.

— Se não é assim, Maximilien, se ele me tratasse diplomaticamente, isto é, como homem que, de uma forma ou de outra, quer se insinuar na

casa, ele teria, nem que fosse uma única vez, me honrado com esse sorriso que você tanto enaltece; mas não, ele me viu infeliz, compreendeu que não lhe posso ser útil para nada e não dá a mínima para mim. Quem sabe inclusive se, para cortejar meu pai, a sra. de Villefort ou meu irmão, ele não me perseguirá na medida em que seu poder o permitir? Vamos, francamente, não sou uma mulher que merece ser desprezada assim sem motivo; você mesmo disse isso. Ah, desculpe — continuou a moça, vendo a impressão que essas palavras produziam em Maximilien —, sou má, e estou dizendo sobre esse homem coisas que sequer sabia carregar no coração. Veja, não nego a existência desse poder mencionado por você, e que ele o exerça até mesmo sobre mim; mas, caso ele o exerça, é de uma maneira danosa, corruptora, como pode ver, dos bons pensamentos.

— Está bem, Valentine — disse Morrel com um suspiro —, não falemos mais nisso; não lhe direi nada.

— Ai de mim! Meu amigo — lamentou Valentine —, eu o atormento, posso perceber. Oh, como gostaria de apertar sua mão para lhe pedir perdão! Mas tudo que peço é para ser persuadida; conte-me, o que o conde de Monte Cristo fez por você?

— Admito que você me deixa constrangido, Valentine, ao me perguntar o que o conde fez por mim; nada de exuberante, sei muito bem. Da mesma forma, como já lhe disse, minha afeição por ele é toda instintiva e nada tem de racional. Será que o sol me afetou? Não, ele me aquece e, à sua luz, vejo a você, isso é tudo. Será que este ou aquele perfume me influenciou?

Não, seu cheiro recria agradavelmente um dos meus sentidos. Não tenho outra coisa a dizer quando me perguntam por que enalteço esse perfume.

Minha amizade por ele é estranha como a dele por mim. Uma voz secreta me adverte que há mais que acaso nessa amizade imprevista e recíproca.

Descubro alguma correlação até mesmo entre seus atos mais simples, até mesmo entre seus mais recônditos pensamentos, e as minhas ações e os meus pensamentos. Você vai rir de mim de novo, Valentine, mas, desde que conheci esse homem, ocorre-me a idéia absurda de que tudo que me acontece emana dele. Por outro lado, vivi trinta anos sem precisar desse protetor, não é mesmo? Não importa, vamos a um exemplo: ele me convidou para jantar no sábado, nada mais natural no ponto em que estamos, não acha? Pois bem! Que vim a saber mais tarde? Seu pai está convidado para esse jantar, sua mãe estará lá. Vou encontrar-me com eles, e quem sabe o que resultará desse contato no futuro? São circunstâncias

aparentemente muito simples; entretanto, da minha parte, vejo nelas alguma coisa que me impressiona, que me dá uma confiança estranha.

Digo para mim mesmo que o conde, esse homem singular que adivinha tudo, quis me colocar na presença do sr. e da sra. de Villefort, e às vezes, juro, procuro ler em seus olhos se ele adivinhou o meu amor.

— Meu querido — disse Valentine —, eu o tomaria por um visionário, e teria efetivamente medo pelo seu bom senso, se ouvisse de sua boca apenas raciocínios desse gênero. Imagine! Vê realmente algo mais que uma coincidência nesse encontro? Por favor, reflita. Meu pai, que nunca sai de casa, esteve dez vezes a ponto de recusar esse convite à sra. de Villefort, que, ao contrário, arde de desejo de ver esse nababo extraordinário em seus próprios domínios, e foi com grande dificuldade que arrancou de meu pai a promessa de acompanhá-la. Não, não, acredite; não tenho, afora você, Maximilien, outra pessoa nesse mundo a quem pedir socorro, a não ser o meu avô, um cadáver!, ou outro apoio ao qual recorrer, a não ser minha pobre mãe, uma sombra!

— Sinto que você tem razão, Valentine, e que a lógica está do seu lado

— admitiu Maximilien —, mas sua doce voz, sempre tão poderosa sobre mim, hoje não me convence.

— Tampouco a sua — retrucou Valentine —, e confesso que, se não tem outro exemplo a apresentar...

— Tenho um — insistiu Maximilien, hesitando. — Mas, na verdade, Valentine, eu mesmo sou obrigado a confessá-lo, é ainda mais absurdo que o primeiro.

— Tanto pior — disse Valentine sorrindo.

— E, não obstante — continuou Morrel —, não deixa de ser menos conclusivo para mim, homem todo inspiração e sentimento, que algumas vezes, nesses dez anos de exército, deveu a vida a esses lampejos íntimos, que ditam a você um movimento para frente ou para trás, a fim de que a bala que devia matá-lo passe ao seu lado.

— Querido Maximilien, por que não atribuir esse desvio das balas às minhas orações? Quando você está em combate, não é mais para mim que rezo a Deus e minha mãe, é para você.

— Isso, depois que a conheci — disse Morrel, sorrindo —, mas e antes de eu a conhecer, Valentine?

— Muito bem, já que você prefere não me dever nada, malvado, vamos ao exemplo que você mesmo confessa ser absurdo.

— Pois bem! Olhe por entre as tábuas, e veja lá embaixo, naquela árvore, o cavalo novo que me trouxe.

— Oh, que animal magnífico! — exclamou Valentine. — Por que não o trouxe para perto do portão? Eu teria lhe falado, e ele, me entendido.

— É realmente, como vê, um animal muito caro — disse Maximilien.

— Ora, você sabe que a minha fortuna é limitada, Valentine, e que sou o que se chama de um homem razoável. Muito bem! Eu tinha visto, num negociante de cavalos, esse magnífico Medeah, é assim que o chamo.

Perguntei quanto custava: responderam-me quatro mil e quinhentos francos. Tive que me abster, como pode compreender; admirei-o por mais tempo e parti, confesso, com o coração apertado, pois o cavalo olhara para mim carinhosamente, me afagara com sua cabeça e rodopiara à minha volta da maneira mais provocante e encantadora. Nessa mesma noite, eu tinha alguns amigos em casa. O sr. de Château-Renaud, o sr. Debray e cinco ou seis outros maus sujeitos que você tem a felicidade de não conhecer, sequer de nome. Sugeriram uma bouillote; eu nunca jogo, pois não sou rico o suficiente para perder, nem pobre o suficiente para desejar ganhar. Mas eu estava em casa, você compreende, e não tinha outra a coisa a fazer senão mandar trazerem o baralho, e foi o que fiz.

— Pois bem! Olhe por entre as tábuas, e veja lá embaixo, naquela árvore, o cavalo novo que me trouxe.

“Quando íamos para a mesa, o sr. de Monte Cristo chegou. Ocupou seu lugar, jogamos, e ganhei; mal ouso confessar-lhe, Valentine, ganhei cinco mil francos. Despedimo-nos à meia-noite. Não consegui mais me conter, chamei um cabriolé e ordenei que me levasse ao negociante de cavalos.

Palpitante, febril, toquei; quem abriu deve ter me tomado por um louco.

Precipitei-me para dentro mal a porta se abriu. Penetrei nas cavalariças, olhei no cocho. Oh, felicidade! Medeah mascava seu feno. Corro para uma sela, eu mesmo a ponho em seu dorso, passo-lhe a rédea, Medeah presta-se com imensa graciosidade a essa operação! Em seguida, depositando os quatro mil e quinhentos francos nas mãos do negociante estupefato, retorno, ou melhor, passeio a noite inteira pelos Champs-Élysées. Pois bem! Vejo luz na janela do conde, pareceu-me perceber sua sombra por trás das cortinas. Agora, Valentine, eu juraria que o conde soube que eu desejava esse cavalo e que perdeu expressamente para me fazer ganhá-lo.

— Meu querido Maximilien — disse Valentine —, realmente você é muito fantasioso... não me amará por muito tempo... Um homem que faz

poesia desse jeito não sentiria prazer perecendo numa paixão monótona como a nossa... Mas, Deus do céu! Preste atenção, estão me chamando...

consegue ouvir?

— Oh, Valentine! — disse Maximilien pela pequena fresta da cerca. —

Seu dedo, o menor, para eu beijá-lo.

— Maximilien, havíamos declarado sermos duas vozes, duas sombras, um para o outro!

— Como desejar, Valentine.

— Ficará feliz se eu fizer o que pede?

— Oh, sim!

Valentine subiu num banco e passou, não seu dedo mínimo através do vão, mas sua mão inteira por cima da cerca.

Maximilien soltou um grito e, projetando-se por sua vez sobre o marco do terreno, agarrou aquela mão adorada e nela aplicou seus lábios ardentes; mas assim que a mãozinha deslizou nas suas, o rapaz viu Valentine fugir, talvez assustada com a sensação que acabava de experimentar!