O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 114 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

15. A partida

— Não tem mais nada a fazer aqui? — perguntou Morrel.

— Não — respondeu Monte Cristo —, e Deus queira que não tenha feito em excesso.

— Também não é aqui, também não é aqui.

1 Túnica de Nesso: ver Parte II, cap.12, nota 85.

2 Titãs: na mitologia grega, os Titãs eram os doze filhos dos primitivos senhores do universo, Gaia (a Terra) e Urano (o Céu). Seis eram do sexo masculino — Oceano, Ceo, Crio, Hipérion, Jápeto e Cronos — e seis do feminino – Téia, Réia, Têmis, Mnemosina, Febe e Tétis. Unindo-se contra Urano, os Titãs aclamaram rei a Cronos e deram origem a divindades menores. Cronos e Réia produziram descendência mais numerosa: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posêidon e Zeus, a primeira geração de deuses olímpicos. Avisado de que os filhos o destituiriam, Cronos engoliu todos eles exceto Zeus, salvo por um ardil da mãe. Ao tornar-se adulto, Zeus fez Cronos beber uma poção que o forçou a vomitar os filhos, e uniu-se aos irmãos, os deuses olímpicos, na luta contra os Titãs. Esse conflito culminou com a derrota de Cronos e dos Titãs, confinados por Zeus no Tártaro, o equivalente ao inferno na mitologia grega. O mito dos Titãs parece ser a descrição simbólica da decadência das crenças pré-helênicas. Eles seriam divindades primitivas, talvez de remota origem oriental.

3 Ajax: na mitologia grega, também chamado o Pequeno, filho de Oileu, o rei da Lócrida, na Grécia Central. Pequeno e magro, era veloz e muito ágil no manejo da espada e da lança. Tomou parte na guerra de Tróia, contra os gregos, e, após a derrota, profanou o templo de Atena, puxando a profetisa Cassandra do altar da deusa, fazendo com que ela quebrasse uma estátua e depois estuprando-a. Como castigo, Atena fez com que a nau de Ajax naufragasse e ele morresse afogado. Sua morte é descrita por por Homero na Odisséia, IV, 499-510.

15. A partida Os acontecimentos recentes preocupavam Paris inteira. Emmanuel e a mulher comentavam-nos, com uma surpresa toda espontânea, em sua sala da rua Meslay, fazendo aproximações entre as três catástrofes, tão súbitas quanto inesperadas, de Morcerf, Danglars e Villefort.

Maximilien, que viera fazer-lhes uma visita, escutava-os, ou melhor, assistia àquela conversa, mergulhado em sua indiferença costumeira.

— Na verdade — dizia Julie —, não lhe parece, Emmanuel, que todas essas pessoas ricas, ontem tão felizes, esqueceram-se, no cálculo a partir do qual construíram fortuna, felicidade e prestígio, do papel do gênio mau, e que este, como as cruéis fadas dos contos de

Perrault1, não convidadas para uma boda ou um batismo, apareceu de repente para vingar-se do esquecimento fatal?

— Quantas tragédias! — dizia Emmanuel, pensando em Morcerf e Danglars.

— Quanto sofrimento! — dizia Julie, lembrando-se de Valentine, que por instinto feminino ela não queria designar pelo nome perante o irmão.

— Se foi Deus que os golpeou — dizia Emmanuel —, foi porque Deus, a suprema bondade, não descobriu nada no passado dessas pessoas digno de atenuar-lhes a pena. É porque essas pessoas eram malditas.

— Não está sendo demasiadamente temerário em seu julgamento, Emmanuel? — contemporizou Julie. — Quando meu pai, com a pistola na mão, estava prestes a estourar os miolos, se alguém como você lhe houvesse dito naquela hora: “Esse homem mereceu sua pena”, esse alguém não se teria enganado?

— Sim, mas Deus não permitiu que nosso pai sucumbisse, assim

como não permitiu que Abraão sacrificasse seu filho2. Ao patriarca, como a nós, ele enviou um anjo que ceifou as asas da morte no meio do caminho.

Mal terminava de pronunciar estas palavras, a sineta tocou. Era o sinal dado pelo porteiro de que uma visita chegava.

Quase no mesmo instante a porta da sala se abriu e o conde de Monte Cristo apareceu na soleira.

Foi um duplo grito de alegria por parte dos dois jovens. Maximilien levantou a cabeça e deixou-a cair novamente.

— Maximilien — disse o conde, sem parecer notar as diferentes impressões que sua presença produzia nos hóspedes —, venho buscá-lo.

— Buscar-me? — disse Morrel, como que saindo de um sonho.

— Sim — respondeu Monte Cristo —, não estava combinado que eu o levaria, e não o avisei para ficar preparado?

— Aqui estou — disse Maximilien —, para me despedir.

— E aonde vai, sr. conde? — perguntou Julie.

— À Marselha primeiro, senhora.

— Marselha? — repetiram em uníssono os dois jovens.

— Sim, e levo seu irmão.

— Ai de mim, sr. conde! Traga-o de volta curado! Morrel esquivou-se para esconder seu rubor.

— Então perceberam que ele está doente? — perguntou o conde.

— Sim — respondeu a moça —, e receio que se entedie conosco.

— Irei entretê-lo — respondeu o conde.

— Estou pronto, cavalheiro — disse Maximilien. — Adeus, meus bons amigos. Adeus, Emmanuel, adeus, Julie!

— Como, adeus!? — exclamou Julie. — Vão sair assim, imediatamente, sem preparativos, sem passaportes?

— As delongas redobram a dor das separações — disse Monte Cristo —, e Maximilien, tenho certeza, deve ter providenciado tudo com antecedência. Recomendei-lhe que o fizesse.

— Meu passaporte está comigo e minhas malas estão feitas — afirmou Morrel, com monótona tranqüilidade.

— Excelente — respondeu Monte Cristo, sorrindo —, nada melhor que a pontualidade do bom soldado.

— E estão indo desse jeito — disse Julie —, neste instante? Não nos concedem um dia, uma hora?

— Meu coche aguarda na porta, senhora. Preciso estar em Roma dentro de cinco dias.

— Mas, Maximilien vai a Roma? — indagou Emmanuel.

— Irei aonde aprouver ao conde levar-me — disse Morrel com um sorriso triste. — Sou dele por um mês ainda.

— Oh, meu Deus! Veja como ele diz isso, sr. conde!

— Maximilien estará ao meu lado — respondeu o conde com sua persuasiva afabilidade —, portanto, tranqüilizem-se quanto ao seu irmão.

— Adeus, irmã! — repetiu Morrel. — Adeus, Emmanuel!

— Essa indiferença dilacera o meu coração — disse Julie. — Oh, Maximilien, Maximilien, está nos escondendo alguma coisa!

— Não ligue! — disse Monte Cristo. — Irão vê-lo voltar alegre, risonho e fagueiro.

Maximilien lançou para Monte Cristo um olhar quase desdenhoso, quase irritado.

— Vamos! — disse o conde.

— Antes que se vá, sr. conde — disse Julie —, permita-me dizer-lhe tudo que outro dia...

— Senhora — replicou o conde, tomando-lhe as duas mãos —, tudo que a senhora me diria não valerá nunca o que leio em seus olhos, o que seu coração pensou, o que o meu sentiu. Como os heróis de romances, eu deveria ter viajado sem revê-la, mas essa virtude estava acima das minhas forças, pois sou um homem fraco e vaidoso, pois o olhar úmido, alegre e carinhoso dos meus semelhantes me faz bem. Parto agora, e abuso do meu egoísmo, dizendo-lhes: não me esqueçam, meus amigos, pois provavelmente nunca mais irão me ver de novo.

— Nunca mais! — exclamou Emmanuel, enquanto duas grandes lágrimas rolavam sobre as faces de Julie. — Nunca mais! Mas então não é um homem, então é um deus que nos abandona, e esse deus vai subir aos céus depois de aparecer na terra para fazer o bem.

— Não digam isso — replicou energicamente Monte Cristo —, nunca digam isso, meus amigos. Os deuses nunca fazem o mal, os deuses detêm-se onde querem deter-se. O acaso não é mais forte que eles, e são eles, ao contrário, que dominam o acaso. Não; sou um homem, Emmanuel, e sua admiração é tão injusta quanto sacrílegas suas palavras.

E, comprimindo em seus lábios a mão de Julie, que se precipitara em seus braços, estendeu a outra mão para Emmanuel. Em seguida, subtraindo-se dolorosamente daquela casa, doce ninho cuja anfitriã era a felicidade, fez um sinal para Maximilien, apático, indiferente e prostrado, como estava desde a morte de Valentine.

— Devolva a alegria a meu irmão! — pediu Julie ao ouvido de Monte Cristo.

Monte Cristo apertou sua mão como a havia apertado nove anos antes, na escada que levava ao gabinete de Morrel.

— Ainda confia em Simbad, o marujo? — perguntou ele, sorrindo.

— Oh, sim!

— Ótimo, então durma na paz e na confiança do Senhor.

Como dissemos, a diligência aguardava. Quatro cavalos vigorosos eriçavam as crinas e pisoteavam o calçamento com impaciência.

No pé da escada aguardava Ali, com o rosto reluzente de suor, parecendo chegar de uma longa caminhada.

— E então! — perguntou-lhe o conde, em árabe. — Esteve na casa do velho?

Ali fez um sinal afirmativo.

— E desdobrou a carta diante dos olhos dele, como eu ordenara?

— Sim — repetiu respeitosamente o escravo.

— E o que ele lhe disse, ou melhor, o que fez?

Ali instalou-se sob a luz, de modo a que seu amo o pudesse ver.

Imitando com sua inteligência tão devotada a fisionomia do velho, fechou os olhos como fazia Noirtier quando queria dizer: “Sim.”

— Bem, ele aceita — disse Monte Cristo. — Partamos!

Mal deixara escapar essas palavras, o coche já arrancava e os cavalos faziam subir das pedras do calçamento uma poeira de faíscas. Maximilien acomodou-se no seu canto sem dizer uma palavra.

Meia hora se passou. A caleche parou de repente. O conde acabava de puxar o cordãozinho de seda que correspondia ao dedo de Ali.

O núbio desceu e abriu a portinhola.

A noite resplandecia de estrelas. Estavam no topo da subida de Villejuif, no mirante de onde Paris, como um mar escuro, agita seus milhões de luzes que parecem ondas fosforescentes, ondas reais, ondas mais ruidosas, mais apaixonadas, mais volúveis, mais furiosas, mais ávidas que as do oceano raivoso, ondas que não conhecem a calmaria como as do vasto mar, ondas que não cessam de colidir, de espumar, de tragar!

O conde ficou sozinho e, a um sinal de sua mão, o coche avançou mais um pouco.

Monte Cristo então contemplou longamente, de braços cruzados, aquela fornalha aonde vinham se fundir, contorcer e modelar todas as idéias que se projetam do abismo fervilhante para irem sacudir o mundo. Em seguida, após concentrar seu olhar poderoso nessa Babilônia que faz sonhar tanto os poetas religiosos quanto os iconoclastas materialistas:

— Metrópole! — murmurou, inclinando a cabeça e juntando as mãos como se rezasse. — Não faz seis meses que transpus tuas portas. Acredito que foi o espírito de Deus que me conduziu a ti e agora me acompanha de volta, triunfante. O segredo da minha presença dentro dos teus muros,

confiei-o a Deus, o único capaz de ler o meu coração. Ele sabe que me retiro sem ódio e sem orgulho, mas não sem remorsos. Só Ele sabe que não fiz uso, nem em meu benefício, nem por causas vãs, do poder que Ele me atribuiu. Oh, metrópole! Foi em teu seio palpitante que encontrei o que eu procurava. Minerador paciente, revirei tuas entranhas para delas extirpar o mal. Agora, minha obra está realizada, minha missão está concluída; agora não podes mais oferecerme nem alegrias, nem dores.

Adeus, Paris! Adeus!

Seu olhar ainda passeou pela vasta planície, como o de um gênio noturno. Em seguida, passando a mão na testa, voltou a embarcar no coche, que se fechou instantaneamente e desapareceu do outro lado da subida, num turbilhão de poeira e estrépito.

— Adeus, Paris! Adeus!

Percorreram duas léguas sem pronunciar uma única palavra. Morrel devaneava, Monte Cristo observava-o em seu devaneio.

— Morrel — disse-lhe o conde —, estaria arrependido de ter vindo comigo?

— Não, sr. conde, mas deixar Paris...

— Se eu achasse que a felicidade o esperava em Paris, Morrel, tê-lo-ia deixado lá.

— É em Paris que Valentine repousa, e deixar Paris é perdê-la uma segunda vez.

— Maximilien — disse o conde —, os amigos que perdemos não repousam na terra, estão enterrados em nosso coração, e foi Deus que assim quis, para que estivéssemos sempre acompanhados. Quanto a mim, tenho dois amigos que me acompanham sempre. Um é o que me deu a vida, o outro, o que me deu a inteligência. O espírito de ambos vive em mim. Consulto-os na dúvida e, se pratico algum bem, isso se deve a seus conselhos. Consulte a voz do coração, Morrel, e pergunte-lhe se deve continuar a fazer essa cara horrível para mim.

— Meu amigo — respondeu Maximilien —, a voz do meu coração está tristíssima e só me anuncia desgraças.

— É típico dos espíritos fracos verem todas as coisas através do luto. É

a alma que desenha por si só seus horizontes. Sua alma está escura, é ela que lhe impõe um céu tempestuoso.

— Pode ser que tenha razão — admitiu Maximilien. E voltou a seu devaneio.

A viagem foi feita com a impressionante rapidez que era a marca registrada do conde. As cidades passavam como sombras em seu caminho, as árvores, sacudidas pelos primeiros ventos do outono, pareciam surgir à frente deles como gigantes desgrenhados, fugindo assim que as alcançavam. Na manhã seguinte, chegaram a Châlons, onde os esperava o barco a vapor do conde. Sem perder um instante, o coche foi levado a bordo; os dois viajantes já haviam embarcado.

O barco era esculpido para a velocidade, lembrando uma piroga indígena. Suas duas rodas eram como duas asas com as quais ele roçava a água feito uma ave migratória. O próprio Morrel experimentava aquela espécie de embriaguez da velocidade. Ocasionalmente, o vento que fustigava seus cabelos parecia, por um instante, prestes a dissipar as nuvens de seu rosto.

Quanto ao conde, à medida que se afastava de Paris, uma serenidade quase sobre-humana parecia envolvê-lo como uma auréola. Dir-se-ia que era um exilado voltando à pátria.

Dali a pouco, Marselha, branca, tépida, viva; Marselha, a irmã caçula de Tiro e Cartago, sua sucessora no controle do Mediterrâneo; Marselha, sempre mais jovem à medida que envelhece, surgiu a seus olhos. Eram, para ambos, aspectos fecundos em lembranças aquela torre redonda, aquele forte de Saint-Nicolas, aquela prefeitura de Puget, aquele porto com cais de tijolos onde haviam brincado, crianças.

Assim, de comum acordo, fizeram escala na Canebière.

Um paquete estava de partida para Argel. As bagagens e passageiros, amontoados no convés, a multidão dos parentes, dos amigos que se despediam, gritavam e choravam, espetáculo sempre emocionante mesmo para quem o assiste diariamente, nada foi capaz de distrair Maximilien de uma idéia que o arrebatara assim que pusera os pés nas grandes pedras do cais.

— Veja — disse ele, pegando o braço de Monte Cristo —, este é o lugar de onde meu pai assistiu à entrada do Pharaon no porto. Aqui, o bravo homem que o senhor salvava da morte e da desonra jogou-se nos meus braços. Ainda sinto o toque de suas lágrimas no meu rosto, e ele não era o único a chorar, muita gente também chorava ao nos ver.

Monte Cristo sorriu.

— Eu estava ali — disse, apontando para Morrel a esquina de uma rua.

Enquanto dizia isso, e na direção indicada pelo conde, ouviu-se um gemido angustiado e viu-se uma mulher fazendo sinal para um passageiro do paquete prestes a partir. Essa mulher estava de véu. Monte Cristo seguiu-a com os olhos com uma emoção que Morrel teria facilmente notado se, ao contrário do conde, seus olhos se houvessem detido na embarcação.

— Oh, meu Deus! — exclamou Morrel — É ele mesmo! Aquele homem que cumprimenta com o chapéu, aquele homem de uniforme, é Albert de Morcerf!

— Sim — disse Monte Cristo —, eu tinha visto.

— Como é possível? Estava olhando para o lado oposto... O conde sorriu, como fazia quando não queria responder.

E seus olhos dirigiram-se para a mulher de véu, que desapareceu na esquina da rua.

Então, voltou-se.

— Caro amigo — disse a Maximilien —, não tem uma coisa especial a fazer por aqui?

— Chorar no túmulo do meu pai — respondeu cavamente Morrel.

— Muito bem, então faça-o, e me espere lá. Irei ao seu encontro.

— É uma despedida?

— Sim... também tenho uma visita piedosa a fazer.

Morrel deixou sua mão cair na mão que o conde lhe estendia. Em seguida, com um meneio da cabeça cuja melancolia seria impossível exprimir, despediu-se e partiu para a zona leste da cidade.

Monte Cristo deixou Maximilien se afastar, permanecendo no mesmo lugar até que ele desaparecesse, então encaminhou-se para a rua das Allées de Meilhan a fim de encontrar o pequeno edifício que o começo desta história deve ter tornado familiar aos nossos leitores.

Esse prédio ainda se erguia à sombra da grande aléia de tílias que serve de passeio para os marselheses ociosos, revestida por vastas cortinas de parreiras que emaranhavam, acima da pedra amarelecida pelo sol incandescente do Midi, seus braços encardidos e desbastados pela idade.

Dois degraus de pedra, gastos pela passagem dos pés, conduziam à porta de entrada, porta feita de três tábuas que jamais, a despeito de suas separações anuais, haviam conhecido a resina e a pintura, esperando pacientemente que a umidade retornasse para aproximá-las.

Esse prédio, encantador apesar do ar vetusto, alegre apesar da visível miséria, era exatamente o mesmo em que morava antigamente o velho Dantès. A única diferença era que o ancião morava na mansarda, e o conde pusera todos os andares à disposição de Mercedes.

Ali havia entrado a mulher de véu que Monte Cristo vira afastar-se do paquete enquanto este deixava o porto. Como ela fechava a porta no exato momento em que ele surgia da esquina de uma rua, viu-a desaparecer mal a avistou.

Para ele, os degraus gastos eram velhos conhecidos. Sabia melhor que ninguém abrir aquela velha porta, cuja tramela era erguida por um prego de cabeça grande.

Portanto, entrou sem bater, sem avisar, como um amigo, como um hóspede.

Na extremidade de uma aléia com piso de tijolos abria-se, prenhe de calor, de sol e de luz, um jardinzinho, o mesmo no qual, no lugar indicado, Mercedes encontrara a soma guardada por vinte e quatro anos graças à delicadeza do conde. Do umbral do portão da rua, percebiam-se as primeiras árvores desse jardim Ao chegar a esse umbral, Monte Cristo

ouviu um suspiro semelhante a um soluço. Tal suspiro guiou seu olhar e, sob o dossel de um jasmineiro com folhagens espessas, flores compridas, roxas, avistou Mercedes sentada, inclinada e chorando.

Ela erguera o véu. Sozinha perante os céus, o rosto escondido pelas duas mãos, dava livre curso a seus suspiros e soluços, por tanto tempo reprimidos pela presença do filho.

Monte Cristo deu alguns passos à frente. O cascalho rangeu sob seus pés. Mercedes ergueu a cabeça e deu um grito de pavor ao ver um homem à sua frente.

— Senhora — disse o conde —, não está mais no meu alcance propiciarlhe a felicidade, mas ofereço-lhe o consolo: pode aceitá-lo como vindo de um amigo?

— Estou realmente muito infeliz — respondeu Mercedes —, sozinha no mundo... Tinha apenas o meu filho, e ele me deixou.

— Ele fez bem, senhora — replicou o conde —, e é um nobre coração.

Compreendeu que todo homem deve um tributo à pátria. Uns, com seus talentos; outros, com sua habilidade. Estes, seus guardiões; aqueles, seu sangue. Se permanecesse aqui, arrastaria uma vida já inútil ao seu lado, não se acostumaria com seu sofrimento. Iria tornar-se ressentido por impotência. Ele se tornará grande e forte lutando contra sua adversidade, a qual transformará em fortuna. Deixe-o reconstituir o futuro de ambos, senhora. Atrevo-me a garantir que ele está em boas mãos.

— Oh — disse a pobre mulher, balançando tristemente a cabeça —, essa fortuna de que o senhor tanto fala, e que suplico a Deus que lhe conceda, eu não desfrutarei dela. Tantas coisas despedaçaram-se em mim e à minha volta que me sinto perto do túmulo. Fez bem, sr. conde, em me reaproximar do lugar onde fui tão feliz. É onde se foi feliz que se deve morrer.

— Infelizmente — disse Monte Cristo —, todas as suas palavras, senhora, caem amargas e ferventes no meu coração, ainda mais amargas e ferventes na medida em que tem motivos para me odiar. Fui eu quem causei todos os seus males. Por que não me lastima em vez de me acusar?

A senhora me faria ainda mais infeliz...

— Odiá-lo, acusá-lo, a você, Edmond... Odiar, acusar o homem que salvou a vida do meu filho, pois, afinal, sua intenção, fatal e sanguinária, não era matar o filho de que o sr. de Morcerf tinha tanto orgulho? Oh, olhe para mim, e veja se há em mim a expressão de uma censura!

O conde ergueu o olhar e deteve-o em Mercedes, que, quase de pé, estendia as duas mãos para ele.

— Oh, olhe para mim! — ela continuou, com um sentimento de profunda melancolia. — Hoje é possível suportar o fogo dos meus olhos, não é mais a época em que eu vinha sorrir para Edmond Dantès, que me esperava lá em cima, na janela da mansarda onde morava seu velho pai...

Desde essa época muitos dias dolorosos se passaram, que escavaram como um abismo entre mim e essa época. Acusá-lo, Edmond, odiá-lo, meu amigo! Não, é a mim que acuso e odeio! Oh, como sou miserável! —

exclamou, juntando as mãos em súplica e erguendo os olhos para o céu. —

E fui punida! Eu possuía a religião, a inocência e o amor, essas três bem-aventuranças que forjam os anjos e, miserável que sou, duvidei de Deus!

Monte Cristo deu um passo em sua direção e, silenciosamente, estendeulhe a mão.

— Não — disse ela, retirando a sua com delicadeza —, não meu amigo, não toque em mim. Você me poupou e, no entanto, de todos a quem golpeou, eu era a mais culpada. Todos os demais agiram por ódio, por cupidez, por egoísmo; eu, agi por covardia. Eles eram ambiciosos, eu tive medo. Não, não aperte a minha mão, Edmond. Você está a meditar alguma palavra afetuosa, eu pressinto, não a diga. Guarde-a para uma outra, não sou mais digna dela. Veja... — e Mercedes descobriu totalmente o rosto

—, veja como a desventura deixou meus cabelos grisalhos. Meus olhos derramaram tantas lágrimas que estão cingidos por veias roxas, meu rosto ganhou rugas. Você, ao contrário, Edmond, você continua jovem, bonito, altivo. É porque teve fé, porque teve força, porque se entregou a Deus e Deus o amparou. Quanto a mim, fui covarde, reneguei-o. Então Deus me abandonou e aqui estou.

Mercedes desfez-se em lágrimas. O coração da mulher despedaçava-se com o choque das lembranças.

Monte Cristo pegou sua mão e beijou-a respeitosamente, porém a própria Mercedes sentiu que o beijo era sem calor, como o que o conde teria pousado na mão de mármore da estátua de uma santa.

— Há — ela continuou — existências predestinadas, cujo primeiro erro esfacela todo o futuro. Eu o julgava morto, mas eu é que deveria ter morrido, pois, afinal de que serviu ter carregado eternamente o seu luto no meu coração? Para fazer de uma mulher de trinta e nove anos uma mulher de cinqüenta, só isso. Única dentre todos a tê-lo reconhecido, de que serviu

salvar meu filho? Não devia também ter salvado o homem, por mais culpado que fosse, que eu aceitara como marido? Apesar disso, permiti que ele morresse. O que estou dizendo, meu Deus! Contribuí para sua morte com a minha covarde insensibilidade, meu desdém, não me lembrando, não querendo me lembrar de que fora por mim que ele se tornara perjuro e traidor! Enfim, de que serviu ter acompanhado meu filho até aqui, uma vez que agora o abandono, uma vez que o deixo partir sozinho, entregando-o a essa terra devoradora que é a África? Oh, fui covarde, repito! Reneguei meu amor e, como os renegados, espalho o infortúnio aonde quer que eu vá!

— Não, Mercedes — disse Monte Cristo —, não. Reconsidere a opinião que faz de si própria. Não; você é uma nobre e santa mulher e me havia desarmado com sua dor. No entanto, atrás de mim, invisível, desconhecido, irritado, havia Deus, do qual eu não era senão representante e que não quis deter o raio que eu lançara. Oh, clamo a Deus, aos pés do qual me prosterno todos os dias há dez anos, e peço Seu testemunho: sacrifiquei minha vida a você, junto com a minha vida os planos a ela ligados. Mas, digo com orgulho, Mercedes, Deus precisava de mim, e sobrevivi. Examine o passado, examine o presente, tente adivinhar o futuro, e veja se não sou o instrumento do Senhor. As desgraças mais terríveis, os sofrimentos, o abandono de todos que me amavam, a perseguição por parte de quem não me conhecia, esta é a primeira parte da minha vida. Então, de repente, depois do cativeiro, da solidão e da miséria, o ar livre, a liberdade, uma fortuna tão magnífica, tão prestigiosa, tão descomunal que, a menos que eu fosse cego, fui obrigado a pensar que Deus destinavaa a mim com grandes desígnios. Desde então, essa fortuna pareceu-me um sacerdócio; desde então, não tinha mais nenhum pensamento para essa vida de cujas delícias você, pobre mulher, chegou a usufruir. Nenhuma hora de calma, nenhuma. Eu me sentia impelido como a nuvem de fogo que atravessa o céu para incendiar cidades malditas.

Como esses capitães aventureiros que embarcam para uma perigosa viagem, que meditam uma arriscada expedição, eu preparava os víveres, carregava as armas, coligia os recursos de ataque e de defesa, acostumando meu corpo aos exercícios mais violentos, minha alma aos choques mais rudes, instruindo meu braço a matar, meus olhos a ver sofrer, minha boca a sorrir diante dos cenários mais terríveis. De generoso, confiante e despreocupado que eu era, tornei-me vingativo, dissimulado,

cruel, ou melhor, impassível, como a surda e cega fatalidade. Lancei-me então no caminho que se abrira à minha frente, transpus o espaço, acertei o alvo. Maldição àqueles a quem encontrei pelo caminho!

— Basta! — disse Mercedes. — Basta, Edmond! Saiba que aquela que foi a única a reconhecê-lo também foi a única a compreendê-lo. Juro, Edmond, aquela que o reconheceu, que o compreendeu, esta, se você a encontrasse no caminho e a quebrasse como vidro, esta ainda o admiraria, Edmond! Assim como há um abismo entre mim e o passado, há um abismo entre você e os outros homens, e minha mais cruel tortura é fazer tal comparação, pois não há nada no mundo igual a você, nada que chegue perto. Agora, diga-me adeus, Edmond, e separemo-nos.

— Antes que eu me vá, o que deseja, Mercedes? — perguntou Monte Cristo.

— Só desejo uma coisa, Edmond: que o meu filho seja feliz.

— Reze ao Senhor, único a deter a vida dos homens em Suas mãos, para afastá-lo da morte, que eu me encarregarei do resto.

— Obrigado, Edmond.

— Mas e você, Mercedes?

— Não preciso de nada, vivo entre dois túmulos: um é o de Edmond Dantès, há muito falecido; eu o amava! Essa palavra não combina mais com meu lábio murcho, mas meu coração ainda se lembra, e por nada no mundo eu gostaria de perder essa memória do coração. A outra é a de um homem que Edmond Dantès matou. Aprovo o assassinato, mas minha obrigação é orar pelo morto.

— Seu filho será feliz, senhora — repetiu o conde.

— Então serei tão feliz quanto eu puder sê-lo.

— Mas... afinal... o que fará? Mercedes sorriu tristemente.

— Se lhe dissesse que viverei aqui como a Mercedes de antigamente, isto é, trabalhando, você não acreditaria. Agora só sei rezar, mas não preciso trabalhar. O pequeno tesouro enterrado por você estava no lugar indicado. Irão procurar saber quem eu sou, perguntar o que faço, ignorar como vivo, que importa! É um assunto entre Deus, você e eu.

— Mercedes — disse o conde —, não a censuro por isso, mas você exagerou no sacrifício abandonando toda a fortuna amealhada pelo sr. de Morcerf e cuja metade cabia por direito à sua economia e vigilância.

— Percebo o que vai me propor, mas não posso aceitar, Edmond. Meu filho me proibiria.

— Então evitarei fazer qualquer coisa por você que não tenha a aprovação do sr. Albert de Morcerf. Saberei suas intenções e a elas me submeterei. Mas, se ele aceitar o que pretendo fazer, irá imitá-lo sem repugnância?

— Você sabe, Edmond, que não sou mais uma criatura pensante.

Decisões, só a de não mais tomá-las. Deus sacudiu-me tanto em Suas tempestades que perdi a vontade. Estou em Suas mãos como um passarinho nas garras da águia. Ele não quer que eu morra, pois estou viva.

Se Ele me enviar socorro, será porque é Sua vontade, e aceitarei.

— Cuidado, Mercedes — disse Monte Cristo —, não é assim que se adora a Deus! Deus quer que O compreendamos e que discutamos Sua força. Foi por isso que nos concedeu o livre-arbítrio.

— Infeliz! — exclamou Mercedes. — Não fale assim comigo. Se eu acreditasse que Deus me concedeu o livre-arbítrio, o que me restaria então para me salvar do desespero!

Monte Cristo empalideceu ligeiramente e abaixou a cabeça, esmagado sob a veemência daquela dor.

— Não quer me dizer até breve? — perguntou, estendendo a mão.

— Ao contrário, eu lhe digo até breve — replicou Mercedes, apontando para o céu com solenidade. — Isso é uma prova de que ainda tenho esperanças.

E, após ter tocado a mão do conde com sua mão trêmula, Mercedes lançou-se pela escada e desapareceu.

Monte Cristo então saiu lentamente do edifício e tomou o caminho de volta ao porto.

Porém, embora estivesse na janela do quartinho do pai de Dantès, Mercedes não o viu enquanto se afastava. Com os olhos, procurava ao longe o paquete que carregava seu filho para o vasto mar.

Nem por isso deixa de ser verdade que sua voz, como que à sua revelia, murmurava baixinho:

— Edmond!

1 Perrault: Charles Perrault (1628-1703), escritor francês do séc.XVII, famoso por seus contos infantis, entre eles a história do Chapeuzinho Vermelho.