O Conde de Monte Cristo
5. O almoço de noivado
— Ótimo, ótimo — murmurou Danglars —, acho que agora a coisa está bem encaminhada, e não há mais nada a fazer além de deixá-la andar com as próprias pernas.
1 “Procura e acharás”: Mateus, VIII, 7-8.
2 “Todos os maus ...” : terceiro couplet de uma canção moral composta por Louis-Phillippe Ségur (1753-1830), entre outras coisas marido da conhecida escritora de livros infantis Condessa de Ségur.
3 Campanário das Accoules: construído, em Marselha, no séc.XVIII. Uma torre românica, pesada e maciça, tudo que restava da antiga igreja de Notre-Dame de las Accoas, destruída durante a Revolução Francesa.
5. O almoço de noivado
No dia seguinte, o tempo estava radiante. O sol nasceu limpo e resplandecente, e os primeiros raios de um vermelho-púrpura matizavam com seus rubis as cristas espumantes das ondas.
O almoço foi preparado no primeiro andar do mesmo La Réserve, onde ficava o mesmo caramanchão com o qual já travamos conhecimento. Era uma sala grande iluminada por cinco ou seis janelas, acima de cada uma das quais (quem puder que explique o fenômeno!) estava escrito o nome de uma das grandes cidades da França.
Uma balaustrada, de madeira como o resto do estabelecimento, estendia-se ao longo de todas as janelas.
Embora o almoço estivesse marcado somente para o meio-dia, desde as onze da manhã aquela balaustrada achava-se apinhada de visitantes impacientes. Eram os marujos mais graduados do Pharaon e alguns soldados, amigos de Dantès. Para homenagear os noivos, todos haviam tirado suas melhores roupas do armário. Circulava o rumor, entre os futuros comensais, de que os armadores do Pharaon iriam honrar com a sua presença o almoço de bodas do imediato; mas isso seria uma honra tão grande concedida a Dantès que ninguém ainda ousava acreditar.
Danglars, porém, ao chegar com Caderousse, confirmou a notícia. Ele próprio havia estado com o sr. Morrel pela manhã e este lhe dissera que viria almoçar no La Réserve.
Com efeito, um instante depois, foi a vez de o sr. Morrel fazer sua entrada naquele aposento, sendo saudado pelos marujos do Pharaon com gritos e aplausos unâNîmes. A presença do armador era para eles a confirmação do boato que já corria segundo o qual Dantès seria nomeado capitão; e, como Dantès era muito querido a bordo, aquela brava gente agradecia dessa forma ao armador pelo fato de uma vez na vida sua escolha estar em harmonia com os anseios gerais. Assim que o sr. Morrel entrou, Danglars e Caderousse foram escolhidos por consenso e despachados para junto do noivo; sua missão era avisá-lo da chegada do importante personagem, cuja visão produzira tão viva sensação, e dizerlhe que se apressasse.
Danglars e Caderousse saíram correndo, mas não deram cem passos e, na altura da loja de pólvora, avistaram um pequeno grupo chegando.
Esse grupo compunha-se de quatro moças amigas de Mercedes e catalãs como ela, que acompanhavam a noiva à qual Edmond dava o braço. Perto da futura nora caminhava o pai Dantès, e atrás deles vinha Fernand, com seu sorriso maligno.
Nem Mercedes nem Edmond percebiam esse sorriso maligno de Fernand. Os jovens, coitados, estavam tão felizes que não viam senão a si próprios e ao bonito céu que os abençoava.
Danglars e Caderousse executaram sua missão de emissários; em seguida, após trocarem um aperto de mão vigoroso e muito amistoso com Edmond, aderiram ao grupo; Danglars, tomando lugar junto a Fernand, Caderousse, encaixando-se ao lado do pai Dantès, centro da atenção geral.
O velho usava seu belo traje de tafetá trabalhado, tendo como enfeites grandes botões de aço, lapidados em facetas. Suas pernas magras, mas nervosas, findavam em magníficas meias de algodão pintalgadas, que cheiravam a contrabando inglês a uma légua de distância. Do seu chapéu-de-três-bicos pendia uma maçaroca de fitas brancas e azuis. Por fim, apoiava-se num cajado de madeira
retorcido e encurvado no topo como o pedum1 antigo. Parecia um daqueles monarquistas excêntricos que desfilavam em 1796 nos jardins reabertos do Luxemburgo e das Tulherias.
Para perto dele, como dissemos, esgueirara-se Caderousse. Este, que se reconciliara com os Dantès diante da expectativa de um bom almoço; Caderousse, em cuja memória permanecia uma vaga lembrança do que acontecera na véspera, como ao despertarmos pela manhã descobrimos em nossa mente a sombra do sonho que tivemos durante o sono.
Danglars, aproximando-se de Fernand, havia lançado um olhar profundo para o pretendente desapontado. Fernand — andando atrás dos futuros esposos, completamente esquecido por Mercedes, que no egoísmo juvenil e cheio de encantos do amor não tinha olhos senão para o seu Edmond —
estava pálido, mas ruborizava devido a calores súbitos, que então desapareciam para dar lugar, a cada vez, a uma crescente palidez. De vez em quando voltava os olhos para as bandas de Marselha, e então um tremor nervoso e involuntário arrepiava todos os seus membros. Fernand parecia esperar, ou pelo menos pressentir, algum grande acontecimento.
Dantès vestia-se com simplicidade. Como pertencia à marinha mercante, usava uma roupa que se situava entre o uniforme militar e o terno civil; e sob essa roupa, sua fisionomia franca, que realçava ainda a alegria e a beleza da noiva, era perfeita.
Mercedes estava bela como uma grega de Chipre ou Quios2, com olhos de ébano e lábios de coral. Caminhava naquele passo desenvolto e firme com que caminham as arlesianas e andaluzas. Uma moça da cidade talvez tivesse tentado esconder sua alegria sob um véu ou pelo menos sob o veludo das pálpebras, mas Mercedes sorria e olhava para todos que a rodeavam, e seu sorriso e seu olhar diziam tão francamente quanto o fariam as seguintes palavras: “Se vocês são meus amigos, rejubilem-se comigo, pois, realmente, estou muito feliz!”
Assim que os noivos e seus acompanhantes chegaram ao alcance da visão do La Réserve, o sr. Morrel desceu e avançou por sua vez para diante deles, seguido pelos marujos e soldados com os quais se agrupara e aos quais renovara a promessa, já feita a Dantès, de que este sucederia o capitão Leclère. Ao vê-lo vir em sua direção, Edmond pegou o braço de sua noiva e o passou para o do sr. Morrel. O armador e a moça deram então o exemplo, subindo na frente o primeiro lance da escada de madeira que levava ao recinto onde o almoço seria servido e que rangeu durante cinco minutos sob os passos pesados dos convivas.
— Papai — disse Mercedes, parando no meio da mesa —, o senhor à minha direita, por favor; já à minha esquerda vou colocar aquele que foi como um irmão para mim — concluiu ela, com uma delicadeza que penetrou no cerne do coração de Fernand qual uma punhalada.
Seus lábios ficaram lívidos, e sob a tez morena de seu rosto viril ainda se pôde ver mais uma vez o sangue retirar-se pouco a pouco para afluir rumo ao coração.
Nesse ínterim, Dantès executara a mesma manobra; à sua direita colocara o sr. Morrel; à sua esquerda, Danglars. Em seguida, fez sinal com a mão para cada um sentar-se como lhe aprouvesse.
Já corriam em torno da mesa os salames de Arles, de carne marrom e aroma acentuado, as lagostas com a couraça reluzente, os mariscos de concha rosada, os ouriços-do-mar, que parecem castanhas fechadas num invólucro eriçado, os caracóis, que têm a pretensão de substituir com superioridade, para os gourmets do
Midi3, as ostras do Norte; enfim, todas essas iguarias delicadas que a onda rola para a praia e que os pescadores gratos designam sob o nome genérico de frutos-do-mar.
— Que belo silêncio! — exclamou o velho, saboreando um copo de vinho amarelo como topázio, que seu Pamphile em pessoa acabava de
colocar à frente de Mercedes. — Eu diria que aqui estão trinta pessoas que não pedem senão para rir.
— Ei, mas um marido nem sempre é alegre! — disse Caderousse.
— O fato é — disse Dantès — que estou feliz demais agora para estar alegre. Se é o que quer dizer, vizinho, tem razão! A alegria às vezes provoca um efeito estranho, afligindo como o sofrimento.
Danglars observou Fernand, cuja natureza impressionável absorvia e transparecia cada emoção.
— Então, qual é o problema? — ele perguntou ao noivo. — Será que receia alguma coisa? Parece-me, ao contrário, que tudo caminha segundo seus desejos!
— E é justamente isso que me apavora — disse Dantès. — Acho que o homem não é feito para ser feliz com tanta facilidade! A felicidade é como aqueles palácios das ilhas encantadas, cujas portas são vigiadas por dragões. É preciso lutar para conquistá-la, e eu, na verdade, não sei por que mereci a felicidade de ser o marido de Mercedes.
— O marido, o marido — disse Caderousse rindo —, ainda não, meu capitão, tente fazer valer seus direitos de marido para ver como será recebido!
Mercedes corou.
Fernand atormentava-se em sua cadeira, estremecia ao menor rumor, e de vez em quando enxugava grandes placas de suor que brilhavam em sua testa como as primeiras gotas de uma tempestade.
— Ora, compreenda — disse Dantès —, vizinho Caderousse, acho que não preciso me desmentir por tão pouco. Mercedes ainda não é minha mulher, é verdade... — ele sacou o relógio. — Mas, daqui a uma hora e meia, ela será!
Todos soltaram um grito de surpresa, à exceção do pai Dantès, cujo largo sorriso mostrou dentes ainda belos. Mercedes sorriu e não corou mais. Fernand apertou convulsivamente o cabo de sua faca.
— Daqui a uma hora! — disse Danglars, empalidecendo por sua vez. —
Como é possível?
— Sim, meus amigos — respondeu Dantès —, graças ao crédito do sr.
Morrel, o homem a quem mais devo no mundo depois do meu pai, todas as dificuldades foram aplainadas. Publicamos os banhos e às duas e meia o prefeito de Marselha estará à nossa espera na prefeitura. Ora, como acaba
de dar uma e quinze, não julgo me enganar muito dizendo que dentro de uma hora e trinta minutos Mercedes passará a se chamar senhora Dantès.
Fernand fechou os olhos: uma nuvem de fogo queimou suas pálpebras; apoiou-se na mesa para não desfalecer, e, apesar de todos os esforços, não conseguiu represar um gemido abafado que se perdeu no rumor das risadas e felicitações dos presentes.
— Isso é que é botar mãos à obra, não é mesmo? — disse o pai Dantès.
— Não se pode dizer que houve perda de tempo, você não acha? Chegou ontem de manhã, estará casado hoje às três da tarde! Nada melhor que um marujo para fazer as coisas andarem.
— Mas, e as outras formalidades? — objetou timidamente Danglars. —
O contrato, as certidões...?
— O contrato — disse Dantès rindo —, o contrato está redigido: Mercedes não possui nada, tampouco eu. Casamo-nos em regime de comunhão de bens, e pronto! Não custou nada para escrever e não será caro para pagar.
Aquela pilhéria provocou uma nova explosão de alegria e bravos.
— Então o que considerávamos um almoço de noivado — disse Danglars — é na verdade um almoço de bodas.
— Ainda não — disse Dantès —, vocês não perderão nada com isso, fiquem tranqüilos. Amanhã de manhã parto para Paris. Quatro dias para ir, quatro para voltar, um para cumprir conscienciosamente a missão que me confiaram, e no dia 9 de março estou de volta; portanto, no dia 10 teremos o verdadeiro almoço de bodas.
Essa perspectiva de um novo festim redobrou a hilaridade a ponto de o pai Dantès, que no começo do jantar queixava-se do silêncio, agora fazer, em meio à conversa geral, vãos esforços para introduzir seu voto de prosperidade aos futuros esposos.
Dantès adivinhou o pensamento de seu pai e a ele respondeu com um sorriso cheio de amor. Mercedes começou a olhar a hora no cuco da sala e fez um sinalzinho para Edmond.
Reinavam em torno da mesa aquela euforia ruidosa e aquela liberdade individual que acompanham, nas pessoas de condição inferior, o fim das refeições. Os que estavam descontentes com seus lugares haviam se levantado da mesa e procurado outras companhias. Todo mundo começava a falar ao mesmo tempo e ninguém se preocupava em responder ao que seu interlocutor lhe dizia, mas apenas aos próprios pensamentos.
A palidez de Fernand quase se transferira para a face de Danglars; quanto ao próprio Fernand, não vivia mais, parecendo um
amaldiçoado num lago de fogo4. Foi um dos primeiros a se levantar, e passeava de um lado para o outro da sala, tentando isolar seus ouvidos do barulho das canções e do retinir dos copos em colisão.
Caderousse aproximou-se dele no momento em que Danglars, que parecia fugir, acabava de se juntar a Fernand num canto da sala.
— Na verdade — disse Caderousse, em quem a afabilidade de Dantès e sobretudo o bom vinho do seu Pamphile haviam tragado todos os restos do ódio cujos germes a felicidade inesperada de Dantès havia lançado em sua alma —, na verdade Dantès é um ótimo rapaz e, quando o vejo sentado perto de sua noiva, digo comigo que teria sido injusto lhe pregar a peça que vocês maquinavam ontem.
— Ao mesmo tempo — disse Danglars —, você viu que a coisa não foi adiante; esse coitado do sr. Fernand estava tão transtornado que no início me causara pena; mas a partir do momento em que toma partido, a ponto de ser o primeiro pajem das bodas de seu rival, não há mais nada a dizer.
Caderousse olhou para Fernand, que estava lívido.
— O sacrifício é ainda maior — continuou Danglars —, considerando que a moça é realmente bonita. Raios! Que malandrinho sortudo este meu futuro capitão; gostaria de me chamar Dantès apenas por doze horas.
— Vamos? — perguntou a voz suave de Mercedes. — Vai dar duas horas, e somos esperados às duas e quinze.
— Sim, sim, vamos! — disse Dantès, levantando-se prontamente.
— Vamos! — repetiram em coro todos os convidados.
No mesmo instante, Danglars, que não perdia Fernand de vista no parapeito da janela, viu-o abrir dois olhos ferozes, levantar-se como por um movimento convulsivo e recair sentado naquele apoio; quase simultaneamente, um barulho surdo ressoou na escada; a batida de um passo pesado, um rumor confuso de vozes misturadas a um retinir de armas cobriram as exclamações dos convidados, por mais ruidosas, e atraíram a atenção geral, que se manifestou no mesmo instante por um silêncio inquieto.
O barulho se aproximou: três batidas ressoaram no painel da porta; cada um olhou para seu vizinho de mesa com um ar espantado.
— Em nome da lei! — gritou uma voz vibrante, à qual ninguém respondeu. Logo a porta se abriu e um comissário, inteiramente
uniformizado, entrou na sala, seguido por quatro soldados armados e liderados por um major.
A preocupação deu lugar ao terror.
— Qual é o problema? — perguntou o armador, postando-se diante do comissário, a quem conhecia. — Com toda a certeza, cavalheiro, deve ser um engano.
— Se há engano, sr. Morrel — respondeu o comissário —, asseguro-lhe que será prontamente reparado. Enquanto isso, sou portador de um mandado de prisão e, embora seja com pesar que cumpro esta missão, nem por isso posso deixar de cumpri-la; qual dos senhores, cavalheiros, é Edmond Dantès?
Todos os olhares voltaram-se para o rapaz, que, muito emocionado mas mantendo a dignidade, deu um passo à frente e disse:
— Sou eu, cavalheiro, que deseja de mim?
— Edmond Dantès — disse o comissário —, em nome da lei, o senhor está preso!
— Preso! — exclamou Edmond com uma ligeira palidez. — Mas por que motivo?
— Ignoro-o, cavalheiro, mas ficará sabendo no primeiro interrogatório.
O sr. Morrel compreendeu que nada havia a fazer contra a
inflexibilidade da situação: um comissário inteiramente uniformizado não é mais um homem, é a estátua da lei, fria, surda e muda.
O velho, ao contrário, precipitou-se para o oficial; há coisas que o coração de um pai ou de uma mãe nunca irá compreender.
Pediu e suplicou. Lágrimas e rogos de nada adiantaram; entretanto, seu desespero era tão grande que o comissário se comoveu.
— Tranqüilize-se, cavalheiro — disse ele. — Talvez seu filho tenha negligenciado alguma formalidade alfandegária ou do departamento sanitário, e há grandes chances de que, quando tivermos recebido dele as informações devidas, ele seja recolocado em liberdade.
— Edmond Dantès, em nome da lei, o senhor está preso!
— E essa agora! Que significa isso? — perguntou Caderousse, franzindo o cenho, a Danglars, que simulava surpresa.
— E eu lá sei! — disse Danglars. — Estou como você: vejo o que acontece e não entendo nada, estou perplexo.
Caderousse procurou Fernand com os olhos: este havia sumido.
Toda a cena da véspera desenrolou-se então em seu espírito com uma terrível lucidez.
Parecia que a catástrofe acabava de levantar o véu que a embriaguez da véspera lançara entre ele e sua memória.
— Oh! Oh! — disse ele com uma voz rouca. — Seria isto a continuação da brincadeira de que você falava ontem, Danglars? Nesse caso, maldito seja quem a tiver maquinado, pois ela é bem triste.
— De jeito nenhum! — exclamou Danglars. — Você sabe muito bem que, pelo contrário, rasguei o papel.
— Não rasgou — disse Caderousse —, jogou-o num canto, só isso.
— Cale-se, você não viu nada, estava bêbado.
— Onde está Fernand? — perguntou Caderousse.
— E como eu vou saber! — respondeu Danglars. — Cuidando da vida, provavelmente. Mas, em vez de nos preocuparmos com isso, vamos ajudar os pobres aflitos.
Com efeito, durante essa conversa, Dantès apertara sorrindo a mão de todos os seus amigos e se constituíra prisioneiro, declarando:
— Fiquem tranqüilos, o engano vai ser desfeito e não devo ir sequer para a prisão.
— Oh, com toda a certeza! Respondo por isso — disse Danglars, que, naquele momento, aproximava-se, como disséramos, do grupo principal.
Dantès desceu a escada, precedido do comissário de polícia e cercado pelos soldados. Um coche, cuja portinhola estava aberta, esperava na porta; ele entrou, dois soldados e o comissário seguiram-no; a portinhola se fechou e o coche tomou a estrada de Marselha.
— Adeus, Dantès! Adeus Edmond! — gritou Mercedes, agarrando-se na balaustrada.
O prisioneiro ouviu esse último grito, uma espécie de soluço que saiu do coração dilacerado de sua noiva; ele passou a cabeça pela portinhola e gritou: “Até breve, Mercedes!” e desapareceu em um dos ângulos do forte Saint-Nicolas.
— Esperem-me aqui — disse o armador —, vou embarcar no primeiro coche que encontrar, correr a Marselha e lhes trazer notícias.
— Vá! — gritaram todas as vozes. — Vá! E volte rápido!
Depois dessa dupla partida, reinou um momento de terrível estupor entre todos os que haviam ficado.
O velho e Mercedes permaneceram um tempo isolados, cada um com seu sofrimento. Por fim seus olhos se encontraram e, reconhecendo-se como duas vítimas atingidas pelo mesmo golpe, lançaram-se nos braços um do outro.
Nesse ínterim, Fernand voltou, serviu-se de um copo d’água, bebeu-o e foi sentar numa cadeira.
O acaso fez com que fosse na cadeira ao lado daquela em que Mercedes houve por bem se acomodar ao sair dos braços do velho.
Fernand, num gesto instintivo, recuou sua cadeira.
— Foi ele — disse Caderousse a Danglars, que não perdera o catalão de vista.
— Não acredito — respondeu Danglars —, ele estava idiotizado demais; em todo caso, que a tramóia recaia sobre quem a engendrou.
— Não está se referindo a quem o aconselhou — disse Caderousse.
— Ora — disse Danglars —, se todos fôssemos responsáveis por tudo que lançamos no ar!
— E somos, quando o que lançamos no ar cai como um punhal.
Enquanto isso, os grupos comentavam a detenção sob todos os aspectos.
— E o senhor, Danglars — disse uma voz —, qual sua opinião acerca desse incidente?
— Pode ser — disse Danglars — que ele tenha trazido algumas trouxas de mercadorias proibidas.
— Mas se fosse isso, o senhor deveria saber, sr. Danglars, já que o senhor era o contador.
— É verdade; mas o contador tem ciência apenas dos pacotes
declarados. Sei que estamos carregando algodão, e só; que embarcamos a carga em Alexandria, com o sr. Pastret, e em Esmirna, com o sr. Pascal; não me pergunte mais.
— Oh, agora me lembro — murmurou o desafortunado pai, agarrandose àquele fio de esperança —, ontem ele me disse que trouxera uma caixa de café e uma caixa de tabaco para mim.
— Aí está — disse Danglars —, é isso: durante a nossa ausência a aduana deve ter feito uma visita a bordo do Pharaon e descoberto o “vaso de flores”.
Mercedes não acreditava em nada disso; até aquele momento represado, seu sofrimento explodiu subitamente em soluços.
— Vamos, vamos, esperança! — disse, sem saber muito o que dizia, o pai Dantès.
— Esperança! — repetiu Danglars.
— Esperança — Fernand tentou murmurar.
Mas essa palavra o estrangulava; seus lábios se agitaram, nenhum som saiu da sua boca.
— Senhores! — gritou um dos convivas que permanecera de vigia na balaustrada. — Senhores, um coche! Ah, é o sr. Morrel! Coragem, coragem! Provavelmente nos traz boas novas.
Mercedes e o velho pai correram na direção do armador, que encontraram na porta. O sr. Morrel estava muito pálido.
— E então? — gritaram em coro.
— E então, meus amigos — respondeu o armador balançando a cabeça
—, a coisa é mais grave do que pensamos.
— Oh, senhor — exclamou Mercedes —, ele é inocente!
— Acredito — respondeu o sr. Morrel —, mas está sendo acusado...
— De quê, afinal? — perguntou o velho Dantès.
— De ser um agente bonapartista.
Aqueles dos meus leitores que viveram na época em que se passa esta história irão se lembrar que terrível acusação representava então a que acabara de formular o sr. Morrel.
Mercedes soltou um grito; o velho deixou-se cair numa cadeira.
— Ah! — murmurou Caderousse. — O senhor me enganou e a armadilha foi estendida; mas não vou deixar esse velho e essa moça morrerem de dor, e vou contar tudo.
— Cale-se, desgraçado! — rugiu Danglars, segurando a mão de Caderousse.
— Ou não respondo sequer por você; quem lhe disse que Dantès não é realmente culpado? O paquete fez escala na ilha de Elba, ele desembarcou, permaneceu um dia inteiro em Porto Ferraio; e, se por acaso encontrarem com ele alguma carta comprometedora, os que o tiverem defendido serão considerados cúmplices.
Caderousse, com o instinto rápido do egoísmo, compreendeu toda a solidez desse raciocínio; com o olhar esgazeado de medo e dor, observou Danglars e, se um passo dera para a frente, deu então dois para trás.
— Nesse caso vamos esperar — murmurou.
— Sim, vamos esperar — disse Danglars —. Se for inocente, será posto em liberdade; se for culpado, é inútil comprometer-se por um conspirador.
— Então vamos embora, não consigo ficar muito tempo por aqui.
— Sim, venha — disse Danglars, encantado por encontrar um companheiro de debandada —, vamos deixar que o tirem de lá como puderem.
Partiram. Fernand, que voltara a ser o arrimo da moça, tomou Mercedes pela mão e levou-a até os catalães. Os amigos de Dantès, por sua vez, acompanharam o velho quase desmaiado até sua casa na rua das Allées de Meilhan.
Não demorou muito para que o rumor da prisão de Dantès como agente bonapartista se espalhasse por toda a cidade.
— Consegue acreditar numa coisa dessas, meu caro Danglars? —
perguntou o sr. Morrel, juntando-se ao seu contador e a Caderousse, pois ele próprio voltava para a cidade a toda pressa, a fim de obter alguma notícia de Edmond diretamente pelo substituto do procurador do rei, o sr.
de Villefort, a quem conhecia de vista. — Consegue acreditar numa coisa dessas?
— Deus me perdoe — respondeu Danglars —, mas eu lhe havia dito que Dantès, sem motivo algum, fizera escala na ilha de Elba, e que essa escala, o senhor sabe, me parecera suspeita.
— Mas o senhor chegou a revelar essas suspeitas para alguém além de mim?
— Fui muito discreto, senhor — acrescentou baixinho Danglars. — O
senhor sabe muito bem que por causa do seu tio, o sr. Policar Morrel, que serviu sob o outro e que não esconde seus pensamentos, o senhor é suspeito de sentir saudades de Napoleão; fiquei com medo de causar problemas para Edmond e, depois, para o senhor; há coisas que é dever de um subordinado dizer ao seu armador e esconder severamente dos demais.
— Muito bem, Danglars! Muito bem! — disse o armador. — O senhor é um bom rapaz; eu também tinha pensado no senhor, no caso de o coitado do Dantès ter se tornado capitão do Pharaon.
— Como assim, senhor?
— Sim, a primeira coisa que fiz foi perguntar a Dantès o que ele achava do senhor e se teria alguma repugnância em mantê-lo em seu posto; pois, não sei por quê, julguei notar certa frieza entre os senhores.
— E o que ele respondeu?
— Que acreditava efetivamente ter tido, numa circunstância que não me revelou, uns probleminhas com o senhor, mas que confiava em todos que contavam com a confiança do patrão.
— Hipócrita — sussurrou Danglars.
— Pobre Dantès! — disse Caderousse. — É com certeza um excelente rapaz.
— Sim, mas enquanto isso — disse o sr. Morrel —, eis o Pharaon sem capitão.
— Oh! — disse Danglars. — De toda forma temos que esperar, uma vez que só podemos levantar ferros daqui a três meses; de agora até lá, Dantès será libertado.
— Provavelmente, mas e até lá?
— Ora! Até lá aqui estou eu, sr. Morrel — disse Danglars. — O senhor sabe que conheço o manejo de um navio tão bem quanto qualquer capitão de longo curso; isso lhe dará inclusive uma vantagem, pois, ao utilizar os meus serviços, o senhor não ficará em débito com ninguém quando Edmond sair da prisão: ele reassumirá o seu posto e eu o meu, ponto final.
— Obrigado, Danglars — disse o armador —, realmente, isso concilia tudo. Tem a minha autorização para assumir o comando, e supervisione o desembarque: por maior que seja a catástrofe individual, os negócios nunca devem ser prejudicados.
— Fique tranqüilo, senhor; mas será que pelo menos poderemos visitar o bom Edmond?
— Vou lhe dizer isso daqui a pouco, Danglars; tentarei falar com o sr. de Villefort e interceder junto a ele em favor do prisioneiro. Sei muito bem que ele é um monarquista fervoroso, mas, que diabos!, por mais realista e procurador do rei que seja, não deixa de ser um homem, e não acredito que seja mau.
— Não — disse Danglars —, mas ouvi dizer que é ambicioso, e isto realmente parece ser verdade.
— Enfim — disse o sr. Morrel, com um suspiro —, veremos. Vá para bordo, encontro o senhor daqui a pouco.
E deixou os dois amigos para tomar o caminho do Palácio de Justiça.
— Percebe o rumo que a coisa está tomando? — disse Danglars a Caderousse. — Continua com vontade de defender Dantès agora?
— Não, claro que não; mas não deixa de ser uma coisa terrível quando uma brincadeira tem tais conseqüências.
— Ora essa! Quem a planejou? Não fomos nem eu nem você, não é mesmo? Foi Fernand. Quanto a mim, sabe muito bem que joguei o papel fora: julgava inclusive tê-lo rasgado.
— Não, não — disse Caderousse. — Tenho certeza absoluta: vejo-o no canto do caramanchão, todo amassado, amarfanhado, e gostaria inclusive que continuasse lá onde o vejo!
— Que se pode fazer? Fernand deve tê-lo recolhido, Fernand deve tê-lo copiado ou mandado copiar, Fernand talvez sequer se tenha dado a esse trabalho; e acho... meu Deus! Será que ele usou minha própria letra!
Felizmente disfarcei minha caligrafia.
— Mas então você sabia que Dantès era um conspirador?
— Eu não sabia de absolutamente nada. Como disse, achei que estava fazendo uma brincadeira, não outra coisa. Ao que parece, como Arlequim, eu disse a verdade fazendo uma piada.
— Tanto faz — continuou Caderousse —, eu daria tudo para que esse negócio não tivesse acontecido, ou pelo menos para não ter nada a ver com ele. Isso ainda vai nos trazer infelicidade, Danglars!
— Se trouxer infelicidade para alguém, será para o verdadeiro culpado, e o verdadeiro culpado é Fernand, e não nós. Que infelicidade quer que nos aconteça? Só temos de ficar quietos, sem dizer uma palavra sobre coisa alguma, e a tempestade passará sem que o raio caia.
— Amém! — disse Caderousse, fazendo um aceno de despedida para Danglars e dirigindo-se para a rua das Allées de Meilhan, balançando a cabeça e falando sozinho, como em geral o fazem as pessoas preocupadas.
— Bom! — disse Danglars. — As coisas vão tomando a forma que eu previra: eis-me capitão interino e, se esse imbecil do Caderousse conseguir ficar de bico fechado, capitão em definitivo. A não ser que a justiça liberte Dantès... Oh — acrescentou com um sorriso —, mas a justiça é a justiça, e coloco-me em suas mãos!