O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 90 de 119

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O Conde de Monte Cristo

11. O insulto

Albert voltou-se.

— Cavalheiro — disse a Danglars —, espero que entenda que esta não é uma despedida definitiva. Preciso saber se suas incriminações são procedentes; irei me inteirar disso junto ao conde de Monte Cristo.

E, cumprimentando o banqueiro, saiu com Beauchamp, sem aliás parecer dar atenção a Cavalcanti.

Danglars acompanhou-os até a porta. Lá chegando, renovou a Albert as garantias de que nenhum motivo de ódio pessoal animava-o contra o sr.

conde de Morcerf.

 

11. O insulto

A porta do banqueiro, Beauchamp deteve Morcerf.

— Escute — ele lhe disse —, por acaso acabo de lhe sugerir, na casa do sr. Danglars, que é ao sr. de Monte Cristo que você deve pedir uma explicação?

— Sim, e estamos indo à casa dele.

— Um instante, Morcerf. Antes de ir à casa do conde, reflita.

— Em que deseja que eu reflita?

— Na gravidade de sua iniciativa.

— Seria ela mais grave do que ir à casa do sr. Danglars?

— Sim. O sr. Danglars é um homem do mundo financeiro, e, como sabe, os homens desse mundo conhecem melhor que ninguém o capital que arriscam num duelo, e não o fazem com facilidade. O outro, ao contrário, é um fidalgo, pelo menos aparentemente. Ora, você não teme, sob o fidalgo, encontrar o bravo?

— Temo apenas uma coisa, é encontrar um homem que não se bata.

— Oh, fique tranqüilo — disse Beauchamp —, este se baterá. Tenho inclusive medo de que o faça bem demais. Tome cuidado!

— Amigo — disse Morcerf, com um belo sorriso —, não peço outra coisa, e o que pode me acontecer de melhor é ser morto em nome do meu pai: isso nos salvará a todos.

— Sua mãe morrerá!

— Minha pobre mãe! — suspirou Albert, passando a mão sobre os olhos. — Sei muito bem, mas é preferível ela morrer assim a morrer de vergonha.

— Quer dizer que está decidido, Albert?

— Estou.

— Então, vamos! Mas julga que iremos encontrá-lo?

— Ele voltaria poucas horas depois de mim, e decerto já deve ter chegado. Entraram no coche e rumaram à avenida dos Champs-Élysées, no30. Beauchamp queria ir sozinho, mas Albert observou que aquele episódio, saindo das regras de praxe, permitia-lhe afastar-se da etiqueta do duelo.

O rapaz agia em tudo isso por uma causa tão sagrada que Beauchamp não tinha outra coisa a fazer senão render-se a todas as suas vontades.

Cedeu então a Morcerf e contentou-se em segui-lo.

Albert precisou apenas de um pulo da guarita do porteiro até a escada da entrada. Foi Baptistin quem o recebeu.

O conde efetivamente acabava de chegar, mas estava no banho e não queria receber absolutamente ninguém.

— Mas, e depois do banho? — perguntou Morcerf.

— O patrão jantará.

— E depois do jantar?

— O patrão dormirá uma hora.

— E depois?

— Depois irá ao Opéra.

— Tem certeza disso? — perguntou Albert.

— Certeza absoluta. O patrão pediu os cavalos para as oito em ponto.

— Excelente — replicou Albert —, é tudo que eu queria saber. Depois, voltando-se para Beauchamp:

— Se tem alguma coisa a fazer, Beauchamp, faça-o imediatamente; se tem algum compromisso para esta noite, adie-o para amanhã. Percebe que conto com você para ir ao Opéra. Se puder, traga Château-Renaud.

Beauchamp aproveitou a brecha e se despediu de Albert após haver prometido vir pegá-lo às quinze para as oito.

De volta em casa, Albert mandou avisar Franz, Debray e Morrel do desejo que tinha de vê-los aquela noite mesmo no Opéra.

Em seguida, foi visitar a mãe, que, desde os acontecimentos da véspera, fechara suas portas e recolhera-se no quarto. Encontrou-a na cama, esmagada pela dor da humilhação pública.

A presença de Albert produziu em Mercedes o efeito que imaginamos: ela apertou a mão do filho e explodiu em soluços. Essas lágrimas, porém, a consolaram.

Albert permaneceu por um instante de pé e mudo diante do semblante da mãe. Via-se por sua palidez e em sua testa franzida que a decisão de vingança sedimentava-se cada vez mais em seu coração.

— Mamãe — perguntou Albert —, conhece algum inimigo do sr. de Morcerf?

Mercedes estremeceu ao reparar que o rapaz não dissera “do meu pai”.

— Querido — ela disse —, as pessoas na posição do conde têm muitos inimigos que elas próprias ignoram. Aliás, os inimigos que conhecemos não são, de forma alguma, você sabe, os mais perigosos.

— Sim, sei disso, de toda forma apelo à sua perspicácia. Mãe, a senhora é uma mulher tão superior que nada lhe escapa!

— Por que está me dizendo isso?

— Porque a senhora observou, por exemplo, que na noite do baile que demos, o sr. de Monte Cristo não quis comer nada do que foi servido em nossa casa.

Mercedes ergueu-se toda trêmula, apoiada em seu braço ardente de febre:

— O sr. de Monte Cristo! — ela exclamou. — E que relação isso tem com a pergunta que me fez?

— A senhora sabe, mamãe, o sr. de Monte Cristo é quase um homem do Oriente, e os orientais, a fim de preservar toda a liberdade para sua vingança, nunca comem nem bebem na casa dos inimigos.

— O sr. de Monte Cristo, nosso inimigo, é isso que está dizendo, Albert?

— reagiu Mercedes, ficando mais pálida que o lençol com o qual se cobria.

— Quem lhe disse uma coisa dessas? Por quê? Você está louco, Albert.

O sr. de Monte Cristo foi só gentilezas para nós. O sr. de Monte Cristo salvou sua vida, foi você mesmo quem nos apresentou a ele. Oh, por favor, meu filho, se está com essa idéia na cabeça, afaste-a, e, se tenho uma recomendação a lhe fazer, digo mais, se tenho uma súplica a lhe dirigir, é: não brigue com ele.

— Minha mãe — replicou o rapaz, com um olhar taciturno —, a senhora parece ter suas razões ao recomendar que eu aja assim com esse homem.

— Eu! — exclamou Mercedes, ruborizando com a mesma rapidez com que empalidecera e voltando a ficar quase imediatamente ainda mais pálida que antes.

— Sim, sem dúvida, e esta razão não seria — emendou Albert — que esse homem pode nos fazer mal?

Mercedes sentiu um calafrio. Dirigindo ao filho um olhar penetrante, ela disse:

— Você está falando de um modo estranho, Albert, e com singulares prevenções, me parece. Que lhe fez o conde? Há três dias você estava com ele na Normandia; há três dias eu o via e você também o via como seu melhor amigo.

Um sorriso irônico aflorou nos lábios de Albert. Mercedes percebeu esse sorriso e, com seu duplo instinto de mulher e de mãe, adivinhou tudo.

Porém, prudente e forte, escondeu sua perturbação e seus tremores.

Albert deixou a conversa morrer. No fim de um instante, a condessa reatou-a:

— Você vinha me perguntar como eu estava me sentindo. Respondo-lhe francamente, querido. Não me sinto bem. Você poderia instalar-se aqui, Albert, fazer-me companhia. Não quero ficar sozinha.

— Querida mãe — disse o rapaz —, eu estaria às suas ordens, e a senhora sabe com que felicidade, se um caso urgente e importante não me obrigasse a deixá-la por toda a noite.

— Ah, que bom! — respondeu Mercedes, suspirando. — Vá, Albert, não me cabe transformá-lo num escravo da sua piedade filial.

Albert fingiu não ouvir, cumprimentou a mãe e saiu.

Mal o rapaz fechou a porta, Mercedes mandou chamar um criado de confiança e ordenou-lhe que seguisse Albert por todos os lugares aonde ele fosse à noite e voltasse para lhe prestar contas prontamente.

Em seguida, convocou a criada de quarto e, mesmo muito fraca, vestiu-se, de modo a estar preparada para qualquer acontecimento.

A missão dada ao lacaio não era difícil de executar. Albert foi até seus aposentos e vestiu-se com uma espécie de apuro severo. Às dez para as oito Beauchamp chegou; estivera com Château-Renaud, que prometera estar na platéia antes de o pano se abrir. Ambos entraram no cupê de Albert, que, não tendo razão para esconder aonde ia, disse bem alto:

— Ao Opéra!

Em sua impaciência, antecipara-se ao abrir do pano. Château-Renaud estava na frisa. Avisado de tudo por Beauchamp, Albert não precisava lhe dar nenhuma explicação. O comportamento desse filho que procurava vingar o pai era tão simples que Château-Renaud não tentou sequer por um instante dissuadi-lo, contentando-se em lhe renovar seus préstimos.

Debray ainda não chegara, mas Albert sabia que ele raramente perdia um espetáculo no Opéra. Albert vagou pelo teatro até o abrir do pano.

Esperava encontrar Monte Cristo, fosse no corredor, fosse na escada. A campainha o chamou ao seu lugar, e ele foi sentar-se na platéia, entre Château-Renaud e Beauchamp.

Mas seus olhos não desgrudavam daquele camarote entre colunas que, durante todo o primeiro ato, parecia obstinado em permanecer fechado.

Enfim, quando Albert, pela centésima vez, interrogava seu relógio, no começo do segundo ato, a porta do camarote se abriu e Monte Cristo, vestido de preto, entrou e se apoiou no corrimão para examinar a sala.

Morrel o seguia, procurando com os olhos sua irmã e seu cunhado.

Avistou-os num camarote da segunda fileira e acenou para eles.

O conde, circulando a sala num golpe de vista, percebeu uma cabeça pálida e olhos faiscantes, que pareciam atrair avidamente seus olhares.

Reconheceu efetivamente Albert, mas a expressão que observou naquele rosto transtornado decerto aconselhou-o a fazer como se não o tivesse visto. Sem fazer nenhum movimento que desvendasse seu pensamento, sentou-se, retirou seus binóculos do estojo e mirou para outro lado.

Porém, sem parecer avistar Albert, o conde não o perdia de vista.

Quando o pano caiu, no fim do segundo ato, seu relance infalível e certeiro seguiu o rapaz deixando a platéia acompanhado de seus dois amigos.

Em seguida, a mesma cabeça reapareceu na sacada de um primeiro camarote, em frente ao seu. O conde sentia a tempestade chegando. Ao ouvir a chave girando na fechadura do seu camarote, embora conversasse nesse exato momento com Morrel com a expressão mais risonha, já sabia com o que lidava, e estava pronto para tudo.

A porta se abriu.

Só então Monte Cristo voltou-se e percebeu Albert, lívido e trêmulo.

Atrás dele estavam Beauchamp e Château-Renaud.

— Ora! — exclamou, com aquela benevolente polidez que distinguia em geral seu cumprimento das banais civilidades sociais —, eis que o meu cavaleiro chega ao seu objetivo! Boa-noite, sr. de Morcerf.

E a fisionomia desse homem, tão singularmente senhor de si, exprimia a mais franca cordialidade.

Só então Morrel se lembrou da carta que recebera do visconde, na qual, sem maiores explicações, este lhe pedia para comparecer ao Opéra, e compreendeu que alguma coisa terrível estava para acontecer.

— Não viemos aqui para trocar mesuras hipócritas ou falsos gestos de cordialidade — disse o rapaz. — Viemos pedir-lhe satisfações, sr. conde.

A voz trêmula do rapaz mal atravessava seus dentes cerrados.

— Satisfações, no Opéra? — perguntou o conde, com o tom calmo e o olhar penetrante pelos quais reconhecemos o homem eternamente seguro de si. — Por menos familiares que me sejam os costumes parisienses, eu

não podia imaginar, cavalheiro, que este fosse o lugar para satisfações serem tiradas.

— Entretanto, quando as pessoas se confinam — retrucou Albert —, quando não se consegue chegar até elas sob o pretexto de que estão no banho, à mesa ou na cama, não há outro jeito senão ir até onde elas se encontram.

— Não sou difícil de encontrar — disse Monte Cristo —, pois ainda ontem, cavalheiro, se não me falha a memória, o senhor estava na minha casa.

— Ontem, meu caro — disse o rapaz, cuja cabeça se embaralhava —, eu estava em sua casa porque ignorava quem era o senhor.

E, ao pronunciar estas palavras, Albert erguera a voz de maneira a que pessoas instaladas nos camarotes vizinhos o ouvissem, bem como as que passavam pelo corredor. Assim, os ocupantes dos camarotes se voltaram, e os que passavam pelo corredor detiveram-se, atrás de Beauchamp e ChâteauRenaud, ao rumor dessa altercação.

— De onde está vindo, senhor? — disse Monte Cristo, sem a menor emoção visível. — Parece que não está em seu perfeito juízo.

— Sensatez para mim, senhor, é compreender suas perfídias e conseguir fazer-lhe entender que pretendo vingar-me delas — rebateu Albert, furioso.

— Não o entendo, cavalheiro — replicou Monte Cristo —, e, ainda que o entendesse, nem por isso o senhor deixa de estar falando alto demais.

Aqui é minha casa, cavalheiro, e apenas eu tenho direito de erguer a voz acima dos outros. Saia, cavalheiro!

E Monte Cristo apontou a porta para Albert com um admirável gesto de autoridade.

— Ah, pode estar certo de que o farei sair de casa! — replicou Albert, espremendo a luva em suas mãos convulsivas, gesto que o conde não perdia de vista.

— Bem, bem! — disse fleugmaticamente Monte Cristo. — Vejo que o senhor quer briga comigo, cavalheiro. Apenas um conselho, visconde, e guarde-o bem: é um péssimo hábito fazer escândalos durante uma provocação. O escândalo não é do gosto de todos, sr. de Morcerf.

A esse nome, um murmúrio de perplexidade atravessou como um calafrio os espectadores daquela cena. Desde a véspera o nome de Morcerf estava em todas as bocas.

Albert, melhor que ninguém, e antes de qualquer um, compreendeu a alusão e fez um gesto para atirar-lhe a luva à cara. Morrel, porém, agarrou seu pulso, enquanto Beauchamp e Château-Renaud, temendo que a cena ultrapassasse os limites de uma provocação, seguravam-no por trás.

— Aqui é minha casa. Saia, cavalheiro!

Monte Cristo, por sua vez, sem se levantar e inclinando sua cadeira, apenas esticou a mão e, agarrando entre os dedos crispados do rapaz a luva úmida e amarfanhada, disse num tom terrível:

— Senhor, considero sua luva como atirada, e lha devolverei enrolada numa bala. Agora saia dos meus domínios, ou chamo meus criados e mando escorraçá-lo.

Exaltado, transtornado, Albert deu dois passos para trás. Morrel aproveitou para fechar a porta.

Monte Cristo pegou seus binóculos e voltou a apontá-los para a sala, como se nada de extraordinário houvesse acontecido.

Aquele homem tinha um coração de bronze e um semblante de mármore. Morrel debruçou-se no seu ouvido.

— Que fez a ele? — perguntou.

— Eu? Nada, pessoalmente pelo menos — disse Monte Cristo.

— Mas será que essa cena estranha não tem uma causa?

— A peripécia do conde de Morcerf exaspera o infeliz rapaz.

— O senhor tem alguma coisa a ver com isso?

— Foi por Haydée que a Câmara foi informada da traição do pai.

— Realmente — comentou Morrel —, foi o que me disseram, mas eu não quis acreditar que essa escrava grega, que vi com o senhor aqui neste mesmo camarote, era a filha de Ali Paxá.

— No entanto, é verdade.

— Oh, meu Deus — disse Morrel —, agora compreendo tudo, e essa cena era premeditada!

— Como assim?

— Sim, Albert me escreveu para que eu viesse esta noite ao Opéra. Era para que eu fosse testemunha do insulto que ia dirigir-lhe.

— Provavelmente — disse Monte Cristo, com imperturbável tranqüilidade.

— Mas que fará com ele?

— Com quem?

— Com Albert.

— Com Albert? — replicou Monte Cristo no mesmo tom. — O que farei com ele, Maximilien? Tão certo quanto o senhor estar aqui e eu apertar sua mão, vou matá-lo amanhã antes das dez da manhã. Eis o que farei.

Morrel, por sua vez, pegou a mão de Monte Cristo nas suas, e tremeu sentindo aquela mão fria e calma.

— Ah, conde — disse ele —, o pai dele o ama tanto!

— Não me fale uma coisa dessas! — exclamou Monte Cristo, no primeiro sentimento de cólera que pareceu experimentar. — Irei fazê-lo sofrer!

Morrel, estupefato, deixou a mão de Monte Cristo cair.

— Conde, conde! — disse ele.

— Querido Maximilien — interrompeu o conde —, escute como é adorável Duprez cantando esta frase: “Oh, Mathilde, ídolo da

minh’alma1” . A propósito, fui o primeiro a descobrir Duprez em Nápoles, e o primeiro a aplaudi-lo. Bravo! Bravo!

Morrel compreendeu que não havia mais nada a dizer, e esperou.

O pano, que se abrira ao final da cena de Albert, caiu quase imediatamente. Bateram à porta.

— Entre — disse Monte Cristo sem que sua voz revelasse a menor emoção. Beauchamp apareceu.

— Boa-noite, sr. Beauchamp — cumprimentou Monte Cristo, como se estivesse se encontrando com o jornalista pela primeira vez na noite —, sente-se.

Beauchamp cumprimentou, entrou e sentou-se.

— Senhor — disse ele a Monte Cristo —, eu acompanhava ainda há pouco, como pôde ver, o sr. de Morcerf.

— O que significa — replicou Monte Cristo, rindo — que provavelmente acabam de jantar juntos. É uma satisfação vê-lo, sr.

Beauchamp, que seja mais sóbrio que ele.

— Senhor — disse Beauchamp —, Albert errou, admito, ao se exaltar, venho por conta própria pedir-lhe desculpas. Agora que minhas desculpas estão pedidas, as minhas, entenda, sr. conde, velho dizer-lhe que o julgo suficientemente galante para se negar a me dar alguma explicação a respeito de suas relações com as pessoas de Janina. Em seguida, acrescentarei uma palavrinha sobre essa jovem grega.

Monte Cristo fez com os lábios e os olhos um ligeiro esgar que impunha silêncio.

— Pronto! — acrescentou ele rindo. — Eis todas as minhas esperanças destruídas.

— Como assim? — perguntou Beauchamp.

— O senhor deve ter, açodadamente, construído a meu respeito uma reputação de excentricidade. Sou, na sua opinião, um Lara, um Manfred, um lorde Ruthwen. Agora, passado o momento de me ver como excêntrico, o senhor cansa desse gênero, tenta fazer de mim um homem banal. Quer-me comum, vulgar; pede-me explicações, em suma. Ora, convenhamos, sr. Beauchamp, quer me fazer rir!

— Não obstante — replicou Beauchamp com altivez —, há ocasiões em que a probidade impõe...

— Sr. Beauchamp — interrompeu o estranho homem —, o que impõe ao sr. conde de Monte Cristo é o sr. de Monte Cristo. Portanto, nem mais uma palavra a esse respeito, por favor. Faço o que quero, sr. Beauchamp, e acredite, é sempre muito bem-feito.

— Cavalheiro — respondeu o rapaz —, pessoas honestas não recebem esse tipo de moeda; exigem garantias à honra.

— Senhor, sou uma garantia viva — replicou Monte Cristo impassível, mas com os olhos se inflamando com trovões ameaçadores. — Ambos temos nas veias sangue que estamos com vontade de derramar, eis a nossa garantia mútua. Leve essa resposta ao visconde e diga-lhe que amanhã, antes das dez, terei visto a cor do seu.

— Só me resta então — disse Beauchamp — fixar as normas do combate.

— Isso me é completamente indiferente, senhor — disse o conde de Monte Cristo. — Portanto, foi inútil vir perturbar-me durante o espetáculo por tão pouca coisa. Na França, duela-se com espada ou pistola; nas colônias, usa-se a carabina; na Arábia, temos o punhal. Diga a seu afilhado que, embora insultado, para ser excêntrico até o fim, deixo-lhe a escolha das armas e aceitarei tudo sem discussões, sem contestações; tudo, está me escutando? Tudo, até o duelo por sorteio, o que é sempre estúpido. Mas há outra coisa: tenho certeza da minha vitória.

— Certeza! — repetiu Beauchamp, observando o conde com um olhar estupefato.

— Claro — disse Monte Cristo, balançando ligeiramente os ombros. —

Sem isso eu não duelaria com o sr. de Morcerf. Vou matá-lo, é preciso, assim será. Peço apenas que, num bilhete para minha casa esta noite, indique a arma e a hora. Não gosto de esperar.

— Pistola, oito horas da manhã, no Bois de Vincennes — disse Beauchamp, desconcertado, não sabendo se estava às voltas com um fanfarrão presunçoso ou uma criatura sobrenatural.

— Muito bem, cavalheiro — disse Monte Cristo. — Agora que está tudo acertado, deixe-me assistir ao espetáculo, por favor, e diga a seu amigo Albert que não volte esta noite. Ele se prejudicaria com tantas vulgaridades de mau gosto. Que vá para casa e durma.

Beauchamp saiu espantadíssimo.

— Agora — disse Monte Cristo, voltando-se para Morrel —, conto com o senhor, não é mesmo?

— Naturalmente — disse Morrel —, e pode dispor de mim, conde.

Entretanto...

— O quê?

— Seria importante, conde, que eu conhecesse a verdadeira causa...

— Quer dizer que me recusa?

— De forma alguma.

— A verdadeira causa, Morrel? — disse o conde. — Até mesmo esse rapaz caminha às cegas e não a conhece. A verdadeira causa só é conhecida por mim e por Deus. Mas dou-lhe a minha palavra de honra, Morrel, que Deus, justamente por conhecê-la, estará do nosso lado.

— Isso basta, conde — disse Morrel. — Quem é sua segunda testemunha?

— Não conheço ninguém em Paris a quem eu queira fazer essa honra, a não ser o senhor, Morrel, e seu cunhado, Emmanuel. Acredita que Emmanuel estaria disposto a prestar-me esse serviço?

— Respondo por ele como se fosse por mim, conde.