O Conde de Monte Cristo
10. O pequeno gabinete das Tulherias
Villefort, após ter recebido a carta do sr. de Salvieux, beijado Renée nas duas faces, beijado a mão da sra. de Saint-Méran e apertado a do marquês, fazia os cavalos correrem pela estrada de Aix.
O velho Dantès morria de sofrimento e preocupação. Quanto a Edmond, sabemos o que lhe aconteceu.
1 Brutus: Lucius Junius Brutus, fundador da república na Roma antiga, viveu no séc.VI a.C. e presidiu, como magistrado, a execução de seus dois filhos, por estes haverem conspirado pelo restabelecimento da monarquia.
2 Virgílio: citação da Eneida, canto IV, 70-74: “Tal como uma cerva imprudente, atingida pela flecha que a feriu de longe nos bosques de Creta, lançada pelo pastor que a persegue, carrega, sem o saber, o rápido dardo.”
3 Hoffmann: Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (1776-1822), escritor, compositor, caricaturista e pintor alemão. É um dos maiores nomes da literatura fantástica mundial e um dos expoentes do movimento romântico.
10. O pequeno gabinete das Tulherias
Deixemos Villefort na estrada de Paris, onde, graças aos três guias que contratara, ele queima etapas em seu caminho, e penetremos, através de dois ou três salões que o precedem, naquele pequeno gabinete das Tulherias, de janela cimbrada, tão bem conhecido por ter sido o gabinete favorito de Napoleão e de Luís XVIII e por ser
atualmente o de Luís Filipe1.
Aqui, neste gabinete, sentado diante de uma mesa de nogueira que trouxera de Hartwell e pela qual, por um desses caprichos típicos dos grandes personagens, demonstrava afeição especial, o rei Luís XVIII escutava distraidamente um homem de cinqüenta a cinqüenta e dois anos, de cabelos grisalhos, semblante aristocrático e trajar escrupuloso, enquanto examinava paralelamente um volume de
Horácio, edição de Gryphius2, bastante incorreta embora valiosa, e que se prestava perfeitamente às sagazes observações filológicas de Sua Majetade.
— O senhor então dizia... — falou o rei.
— Que estou preocupadíssimo, sire.
— Realmente? Teria visto em sonho sete vacas gordas e sete vacas magras?
— Não, sire, pois isso nos anunciaria sete anos de prosperidade e sete de escassez, e, com um rei tão previdente quanto o é Vossa Majestade, a escassez não deve ser temida.
— De que outro flagelo então se trata, meu caro Blacas3?
— Sire, tenho todos os motivos para crer que uma tempestade está em vias de se formar para as bandas do Midi.
— Ora, meu caro duque — respondeu Luís XVIII —, julgo-o mal-informado, pois sei com certeza que, ao contrário, faz um belíssimo tempo por aquelas bandas.
Embora inteligente como era, Luís XVIII gostava da piada fácil.
— Sire — disse o sr. de Blacas —, nem que seja apenas para tranqüilizar um fiel servidor, Vossa Majestade não poderia enviar ao Languedoc, à Provence e ao Dauphiné alguns homens de confiança que lhe fizessem um relatório acerca do estado de espírito dessas três províncias?
— Canimus surdis4 — respondeu o rei, continuando a anotar seu Horácio.
— Sire — respondeu o cortesão rindo, para fingir que entendera o
hemistíquio do poeta de Venusa5 —, é possível que Vossa Majestade tenha inteira razão ao contar com as boas disposições da França, mas creio não estar totalmente enganado ao temer alguma iniciativa desesperada.
— De quem?
— De Bonaparte, ou pelo menos de seu partido.
— Meu caro Blacas — disse o rei —, seus terrores não me deixam trabalhar.
— E vossa segurança, sire, não me deixa dormir.
— Espere, meu caro, espere, imaginei uma nota muito feliz a
respeito do Pastor qeum traheret6; espere e continuará depois.
Fez-se um instante de silêncio, durante o qual Luís XVIII redigiu, com uma letra que ele fazia a menor possível, uma nova nota à margem de seu Horácio; depois dessa nota inscrita:
— Continue, meu caro duque — disse ele, levantando-se com o ar satisfeito de um homem que julga ter tido uma idéia quando comenta a idéia de outro. — Continue, sou todo ouvidos.
— Sire — disse Blacas, que por um instante tivera a esperança de usar Villefort em proveito próprio —, sou obrigado a vos dizer que não são simples boatos destituídos de fundamento, simples notícias lançadas ao léu, que me preocupam. Foi um homem esclarecido, que merece toda a minha confiança, e encarregado por mim de vigiar o Midi — o duque hesitou ao pronunciar estas palavras —, que chegou com urgência para dizer: “Um grande perigo ameaça o rei.” Então, acorri, sire.
— Mala ducis avi domum 7 — continuou Luís XVIII, anotando.
— Vossa Majestade me ordena não insistir mais neste assunto?
— Não, meu caro duque, mas que estique a mão.
— Qual?
— A que quiser, até ali, à esquerda.
— Aqui, sire?
— Estou dizendo à esquerda e o senhor procura à direita; é à minha esquerda que me refiro: aí, isso mesmo; o senhor deve encontrar o relatório do ministro da Polícia, com data de ontem... Mas, veja, aqui
está o próprio sr. Dandré8. .. Não é isso, você disse Dandré? — interrompeu Luís XVIII, dirigindo-se ao mordomo, que, de fato, acabava de anunciar o ministro da Polícia.
— Sim, sire, o sr. barão Dandré — disse o mordomo.
— É verdade, barão... — comentou Luís XVIII, com um sorriso imperceptível. — Entre, barão, e conte ao duque o que sabe de mais recente sobre o sr. de Bonaparte. Não esconda nada da situação, por mais grave que seja. Vejamos, a ilha de Elba é um vulcão, será que entrará em erupção uma guerra flamejante e
selvagem: bella, horrida bella9?
O sr. Dandré equilibrou-se com muita elegância no espaldar de uma poltrona em que apoiava as duas mãos e disse:
— Vossa Majestade dignou-se a consultar o relatório de ontem?
— Sim, sim; mas conte ao próprio duque, que não consegue encontrá-lo, o que continha esse relatório; esmiúce para ele o que faz o usurpador em sua ilha.
— Senhor — disse o barão a duque —, todos os servidores de Sua Majestade devem regozijar-se com as recentes notícias que nos chegam da ilha de Elba. Bonaparte...
O sr. Dandré olhou para Luís XVIII, que, ocupado em escrever uma nota, sequer levantou a cabeça.
— Bonaparte — continuou o barão — entedia-se mortalmente; passa dias inteiros admirando o trabalho de seus mineradores de Porto Longone.
— E se coça para se distrair — disse o rei.
— Se coça? — perguntou o duque. — Que quer dizer Vossa Majestade?
— Sim, meu caro duque; o senhor esquece que esse grande homem, esse herói, esse semideus é vítima de uma doença de pele
que o devora, prurigo10?
— E tem mais, sr. duque — continuou o ministro da Polícia —, estamos quase certos de que, em breve, o usurpador estará louco.
— Louco?
— Louco de pedra: sua cabeça vai se debilitando, ora chora lágrimas de fogo, ora ri às gargalhadas; outras vezes passa horas à beira-mar, arremessando pedras na água, e, quando a pedra ricocheteia cinco ou seis vezes, parece tão satisfeito quanto se houvesse vencido outra Marengo ou uma nova Austerlitz. Estes são, o senhor há de convir, sinais de loucura.
— Ou de sabedoria, sr. barão, ou de sabedoria — gracejou Luís XVIII.
— Era arremessando pedras ao mar que os grandes capitães da
Antigüidade se divertiam; consulte Plutarco11, na biografia de Cipião o Africano.
O sr. de Blacas permaneceu pensativo entre aquelas duas indiferenças.
Villefort, que não quisera lhe contar tudo para não ver a recompensa por
seu segredo integralmente confiscada, contara-lhe entretanto o suficiente para lhe causar graves preocupações.
— Vamos, vamos, Dandré — disse Luís XVIII —, Blacas ainda não se convenceu; passe à conversão do usurpador.
O ministro da Polícia inclinou-se.
— Conversão do usurpador! — murmurou o duque, observando o
rei e Dandré, que se alternavam como dois pastores de Virgílio12. — O
usurpador se converteu?
— Isso mesmo, meu caro duque.
— Aos bons princípios; explique isso, barão.
— É o seguinte, sr. duque — disse o ministro, com a maior seriedade do mundo —, ultimamente Napoleão andou fazendo uma pesquisa e, como dois ou três de seus velhos resmungões, como ele os chama, manifestavam desejo de regressar à França, ele os liberou, exortando-os a servirem ao seu bondoso rei; foram suas próprias palavras, sr. duque, tenho certeza disso.
— E então, Blacas, que acha disso? — disse o rei triunfante, cessando por um instante de manusear o volumoso escoliasta aberto diante de si.
— Acho, sire, que ou o sr. ministro da Polícia ou eu estamos enganados; porém, como é impossível que seja o ministro da Polícia, visto que ele zela pela saúde e honra de Vossa Majestade, é provável que seja eu a cometer o engano. Entretanto, sire, no lugar de Vossa Majestade, eu interrogaria a pessoa de quem lhe falei; inclusive, insisto para que Vossa Majestade lhe conceda essa honra.
— Com prazer, duque, sob seus auspícios receberei quem o senhor quiser; mas quero recebê-lo de armas na mão. O sr. ministro teria um relatório mais recente? Pois este traz a data de 20 de fevereiro, e estamos em 5 de março!
— Não, sire, mas aguardo um a qualquer momento. Estou fora desde a manhã, talvez tenha chegado em minha ausência.
— Vá até a Chefatura e, se não tiver chegado, que diabos, que diabos —
riu Luís XVIII —, faça um. Não é assim que as coisas funcionam?
— Oh, sire! — disse o ministro. — Graças a Deus, sob esse aspecto, não precisamos inventar nada; todos os dias nosso gabinete é assediado com denúncias das mais circunstanciadas, provenientes de uma massa de pobresdiabos que esperam um pouco de gratidão por serviços que não prestam, mas que gostariam de prestar. Eles apostam no acaso, esperando
que um dia algum acontecimento inesperado confira uma espécie de realidade aos seus vaticínios.
— Muito bem; vá, senhor — disse Luís XVIII —, e lembre-se de que o aguardo.
— É questão de ir e vir, sire; em dez minutos estarei de volta.
— Pois eu, sire — disse o sr. de Blacas —, vou convocar o meu mensageiro.
— Ora, fique mais um pouco — disse Luís XVIII. — A propósito, Blacas, precisa mudar seu brasão; vou lhe providenciar uma águia de asas abertas, tendo nas garras uma presa que em vão tenta lhe
escapar, com a seguinte divisa: Tenax13.
— Estou às ordens, sire — disse o sr. de Blacas, roendo as unhas de impaciência.
— Gostaria de consultá-lo sobre essa passagem: Molli fugiens
anhelitu14; o senhor sabe, trata-se do cervo fugindo do lobo. Não é caçador e superintendente real das caçadas? Com esse título duplo, que acha do molli anhelitu?
— Admirável, sire; mas meu mensageiro é como o cervo de que falais, pois acaba de fazer mil quilômetros em marcha acelerada, e isso em apenas quatro dias.
— Isso é querer se cansar e arranjar preocupação, meu caro duque, pois temos o telégrafo que leva apenas três ou quatro horas, e isso sem exigir nada do fôlego de ninguém.
— Ah!, sire, recompensais muito mal esse pobre rapaz que chega de tão longe e com tanto ardor para dar à Vossa Majestade um aviso útil. Nem que seja pelo sr. de Salvieux, que mo recomenda, peço que o receba, por favor.
— O sr. de Salvieux, o camarista do meu irmão?
— Ele mesmo.
— De fato, ele está em Marselha.
— Foi de lá que me escreveu.
— E também fala dessa conspiração?
— Não, mas recomenda o sr. de Villefort e me encarrega de introduzi-lo junto à Vossa Majestade.
— O sr. de Villefort? — exclamou o rei. — Esse mensageiro então se chama sr. de Villefort?
— Sim, sire.
— E é ele quem chega de Marselha?
— Em pessoa.
— Por que não me disse seu nome imediatamente! — retrucou o rei, deixando um começo de preocupação transparecer em seu rosto .
— Sire, julgava ser este nome desconhecido de Vossa Majestade. — Não, não, Blacas; é um moço sério, educado, acima de tudo
ambicioso; e, por Deus, sabe o nome do pai dele?
— O pai?
— Sim, Noirtier.
— Noirtier, o girondino? Noirtier, o senador?
— Sim, precisamente.
— E Vossa Majestade deu emprego para o filho de um homem desses?
— Blacas, meu amigo, o senhor não entende nada disso; eu lhe disse que Villefort era ambicioso: para brilhar, Villefort é capaz de sacrificar tudo, inclusive o pai.
— Então, sire, devo fazê-lo entrar?
— Imediatamente, duque. Onde ele está?
— Deve estar à minha espera lá embaixo, no meu coche.
— Traga-o até mim.
— Apresso-me a fazê-lo.
O duque saiu com a vivacidade de um garoto; o ardor do seu
monarquismo sincero dava-lhe vinte anos.
Luís XVIII ficou a sós, passando os olhos em seu Horácio
entreaberto e murmurando: Justum et tenacem propositi virum 15.
O sr. de Blacas subiu com a mesma rapidez com que descera; porém, na antecâmara, foi obrigado a invocar a autoridade do rei. O casaco empoeirado de Villefort, sua roupa, que em nada correspondia à etiqueta de corte, melindrara a suscetibilidade do sr.
de Brézé16, que ficou espantadíssimo ao descobrir no rapaz a pretensão de aparecer vestido daquela forma perante o rei. Mas o duque varreu todas as dificuldades com as simples palavras: “Ordem de Sua Majestade”; e apesar das ressalvas que o chefe do cerimonial continuou a fazer, para ser fiel ao princípio, Villefort foi introduzido O rei estava sentado no mesmo lugar onde o duque o deixara. Quando a porta se abriu, Villefort achou-se exatamente à sua frente: o primeiro impulso do magistrado foi deter-se.
— Entre, sr. de Villefort — disse o rei —, entre.
Villefort saudou-o e deu alguns passos à frente, esperando que o rei o interrogasse.
— Sr. de Villefort — continuou Luís XVIII —, aqui está o duque de Blacas, que sugere ter o senhor algo importante a nos dizer.
— Entre, sr. de Villefort, entre.
— Sire, o sr. duque tem razão, e espero que Vossa Majestade também o reconheça.
— Em primeiro lugar e antes de qualquer coisa, senhor, o mal é assim tão grande, no seu entender, quanto me querem fazer crer?
— Sire, julgo-o premente; porém, graças às minhas diligências, não é irreparável, espero.
— Fale o quanto quiser, senhor — disse o rei —, que começava a se deixar arrastar pela emoção que transtornara o rosto do sr. de Blacas e alterava a voz de Villefort. — Fale e, por favor, comece pelo começo; gosto de ordem em todas as coisas.
— Sire — disse Villefort —, farei à Vossa Majestade um relato fiel, mas de antemão peço-vos desculpas se porventura a aflição em que me
encontro lançar alguma obscuridade às minhas palavras.
Uma olhadela lançada para o rei após esse insinuante exórdio tranqüilizou Villefort quanto à benevolência do seu augusto ouvinte, e ele continuou:
— Sire, vim o mais rápido que pude a Paris para informar à Vossa Majestade que, no exercício de minhas funções, descobri não um desses complôs vulgares e sem conseqüências, tramados todos os dias nas últimas fileiras do povo e do Exército, mas uma autêntica conspiração, uma tempestade que ameaça nada menos que o trono de Vossa Majestade. Sire, o usurpador está armando três brigues; concebe algum plano, louco talvez, mas talvez também terrível, por mais louco que seja. A esta hora, deve ter deixado a ilha de Elba... para ir para onde? Ignoro-o, mas seguramente para tentar um desembarque seja em Nápoles, seja nas costas da Toscana, talvez até na França. Vossa Majestade não ignora que o soberano da ilha de Elba manteve contatos com a Itália e a França...
— Sim, senhor, tenho ciência — disse o rei impressionadíssimo —, e ainda recentemente fomos informados de reuniões bonapartistas sendo realizadas na rua Saint-Jacques; mas, continue, por favor. Como obteve esses detalhes?
— Sire, eles resultam de um interrogatório a que submeti um homem de Marselha que há muito tempo eu vigiava e que mandei prender no mesmo dia de minha partida. Esse homem, marujo arruaceiro e de um bonapartismo que não me escapou, foi secretamente à ilha de Elba; lá, esteve com o grãomarechal, que o encarregou de uma missão verbal junto a um bonapartista de Paris, cujo nome nunca pude fazê-lo dizer; mas essa missão era encarregar tal bonapartista de preparar os ânimos para um regresso — observai que é o interrogatório que revela isso, sire —, para um regresso que só pode estar muito próximo.
— E onde está esse homem? — perguntou Luís XVIII.
— Na prisão, sire.
— E a coisa lhe pareceu grave?
— Tão grave, sire, que, ao ser pego de surpresa por esse incidente durante uma festa familiar, justamente no dia do meu noivado, abandonei tudo, noiva e amigos, e a tudo adiei para vir depositar aos pés de Vossa Majestade os temores de que fui assaltado e dar testemunho de minha fidelidade.
— É verdade — lembrou-se Luís XVIII —, não havia um projeto de união entre o senhor e a srta. de Saint-Méran?
— A filha de um dos mais fiéis servidores de Vossa Majestade.
— Sim, sim; mas voltemos a esse complô, sr. de Villefort.
— Sire, receio que seja mais que um complô, receio que seja uma conspiração.
— Uma conspiração nos dias de hoje — disse o rei sorrindo — é coisa fácil de planejar, porém mais difícil de levar a cabo, justamente porque, restaurado ontem no trono dos nossos ancestrais, temos os olhos abertos ao mesmo tempo para o passado, o presente e o futuro; há dez meses meus ministros vêm redobrando a vigilância para que o litoral do Mediterrâneo esteja bem guardado. Se Bonaparte desembarcasse em Nápoles, a coalizão inteira estaria a postos antes mesmo que ele pusesse os pés em Piombino; se desembarcasse na Toscana, pisaria em terras inimigas; se desembarcar na França, será com um punhado de homens, e acabaremos com eles facilmente, execrado como ele é pela população. Sossegue, senhor; mas nem por isso conte menos com a gratidão real.
— Ah! Aqui está o sr. Dandré! — exclamou o duque de Blacas.
Nesse momento apareceu efetivamente na soleira da porta o sr. ministro da Polícia, pálido, trêmulo, e cujo olhar vacilava como se golpeado por uma alucinação.
Villefort fez menção de se retirar; mas um aperto de mão do sr. de Blacas o reteve.
1 Luís Filipe: Luís Filipe I (1773-1850), duque d’Orléans, duque de Valois, depois duque de Chartres, rei da França de 1830 a 1848, foi cognominado o Rei Burguês ou Rei Cidadão. A composição de O conde de Monte Cristo terminou em 1844.
2 Gryphius: Sébastien Gryph, ou Gryphius, era um famoso impressor de Lyon do séc.XVI.
Caracterizava-se por seus livros de pequeno formato e pela excelência de suas edições dos clássicos da Antigüidade.
3 Blacas: Pierre-Louis-Jean Casimir (1771-1839), duque de Blacas, ainda relativamente jovem, em 1814, tornou-se ministro da Casa do rei Luís XVIII, de quem era aliado desde os tempos de exílio do então conde de Provence.
4 Canimus surdis: “Cantamos para os surdos”. Possível paráfrase de Virgílio, nas Bucólicas, X, v.8, onde se lê Non canimus surdis. Contudo, nesse caso o autor teria se confundido, ao atribuir este verso, logo em seguida, a Horácio.
5 Poeta de Venusa: refere-se ao poeta grego Horácio, nascido na cidade atualmente chamada Venosa, localizada na antiga região da Lucânia, hoje Basilicata, na Itália.
6 Pastor qeum traheret: “O pastor que transportava”; citação de Horácio, nas Odes, I, 15, v.1.
7 Mala ducis avi domum: “Infeliz, o presságio sob o qual tu conduzes a tua casa”; citação de Horácio, nas Odes, I, 15, v.5.
8 Dandré: Antoine-Balthazar-Joseph André de Bellevue (1759-1825), ou simplesmente Dandré, foi ministro da Polícia a partir de 1814 e até o retorno de Napoleão.
9 Bella, horrida bella: “Guerras, horríveis guerras”; citação de Virgílio, na Eneida, canto IV, v.86.
10 Prurigo: sintoma essencial das prurigens, designação genérica das dermatoses, em geral relacionado a uma coceira, uma comichão.
11 Plutarco: o livro A vida de Cipião, de Plutarco, não chegou até nossos dias. Mas em Cícero, Do orador, II, 22, lê-se: “Freqüentemente escutei meu avô contar que Laelius, de quem ele era genro, partiu voluntariamente para a guerra com Cipião ... . Eles apanhavam pequenas conchas e pequenos seixos ao pé de sua villa de Gaeta ou na praia Laurentina e, sem se conter, não temiam se rebaixar aos jogos mais pueris.”
12 Dois pastores de Virgílio: Títiro e Coridão, nas Bucólicas, 7.
13 Tenax: “Que tem punho forte.”