O Conde de Monte Cristo
15. O suicídio
Enquanto isso, Monte Cristo também voltara à cidade com Emmanuel e Maximilien.
A volta foi alegre. Emmanuel não dissimulava sua alegria por ter visto a paz suceder a guerra, admitindo altivamente suas inclinações filantrópicas.
Morrel, num canto do coch deixava a alegria do cunhado evaporar-se em palavras e reservava para si uma alegria igualmente sincera, mas que brilhava apenas em seu olhar.
Na barreira do Trono, encontraram Bertuccio: esperava ali, imóvel como uma sentinela em seu posto.
Monte Cristo passou a cabeça pela portinhola, trocou com ele algumas palavras em voz baixa e o intendente desapareceu.
— Sr. conde — disse Emmanuel ao chegarem na altura da Place Royale
—, deixe-me aqui, por favor, na minha porta, a fim de que minha mulher não tenha um instante de preocupação nem pelo senhor nem por mim.
— Se não fosse ridículo exibir seu triunfo — disse Morrel —, eu o convidaria para entrar conosco. Mas o sr. conde decerto tem corações aflitos para sossegar. Aqui estamos, Emmanuel, cumprimentemos nosso amigo e deixemos que ele continue seu caminho.
— Um momento — disse Monte Cristo —, não me privem assim de uma tacada dos meus dois companheiros. Volte para junto de sua encantadora mulher, a quem o encarrego de apresentar todas as minhas homenagens, e me acompanhe até os Champs-Élysées, Morrel.
— Excelente — disse Morrel —, aproveito que tenho um compromisso no seu bairro, conde.
A barreira do Trono.
— Devemos esperá-lo para o almoço? — perguntou Emmanuel.
— Não — foi a resposta do rapaz.
A portinhola se fechou, o coche seguiu seu caminho.
— Veja como eu lhe trouxe felicidade — disse Morrel quando ficou a sós com o conde. — Não pensou nisso?
— Realmente — disse Monte Cristo —, é por isso que pretendo tê-lo sempre ao meu lado.
— É um milagre! — continuou Morrel, respondendo ao seu próprio pensamento.
— Ora, o quê?
— O que acaba de acontecer.
— Sim — respondeu o conde com um sorriso —, você falou bem, Morrel, é um milagre!
— Afinal de contas — prosseguiu Morrel —, Albert é corajoso.
— Muito corajoso — disse Monte Cristo —, já o vi dormir com o punhal sobre a cabeça.
— E sei que ele duelou duas vezes, e muito bem — acrescentou Morrel.
— Vá conciliar isso com seu comportamento de hoje de manhã...
— Sua influência, de novo — replicou Monte Cristo, sorrindo.
— Sorte de Albert não ser soldado — disse Morrel.
— Por quê?
— Desculpas no campo de batalha! — fez o jovem capitão, balançando a cabeça.
— Por favor — admoestou o conde, com ternura —, não vá cair nos preconceitos dos homens comuns, hem, Morrel? Não concorda que, uma vez que Albert é corajoso, não pode ser covarde? Que é preciso que ele tenha tido algum motivo para agir como fez esta manhã e que portanto seu comportamento é mais heróico que qualquer outra coisa?
— Pode ser, pode ser — respondeu Morrel. — Mas eu diria, como o espanhol: “Ele foi menos bravo hoje que ontem.”
— Almoça comigo, não é, Morrel? — perguntou o conde, mudando de assunto.
— Impossível, preciso sair às dez horas.
— Seu compromisso era então para almoçar? Morrel sorriu e balançou a cabeça.
— Mas, afinal, você acabará almoçando em algum lugar.
— E se porventura eu não tiver fome? — perguntou o moço.
— Oh — fez o conde —, só conheço duas sensações que causam esse tipo de perda de apetite: o sofrimento, e como felizmente o vejo alegre, não é isso; ou o amor. Ora, pelo que me disse a respeito do seu coração, julgo poder acreditar....
— Pela minha honra, conde — replicou alegremente Morrel —, não vou negar.
— E não me conta nada, Maximilien? — cobrou o conde, de maneira tão veemente que se via todo o seu interesse em conhecer aquele segredo.
— Acho que hoje de manhã mostrei que eu tinha um coração, não foi, conde?
Como resposta, Monte Cristo estendeu a mão ao rapaz.
— Pois bem — continuou Maximilien —, uma vez que esse coração não está mais com o senhor no Bois de Vincennes, ele está em outro lugar, onde irei encontrá-lo.
— Vá — disse lentamente o conde —, vá, querido amigo. Mas, por misericórdia, caso esbarre em qualquer obstáculo, lembre-se de que tenho
algum poder neste mundo, que fico feliz em usar esse poder em benefício das pessoas amigas, e você é meu amigo, Morrel.
— Ótimo — disse o rapaz —, vou me lembrar disso como as crianças egoístas lembram-se dos pais quando precisam deles. Quando eu precisar do senhor, e talvez isso venha a acontecer, eu o procurarei, conde.
— Ótimo, tenho a sua palavra. Então, adeus.
— Até logo.
Haviam chegado à porta da casa dos Champs-Élysées. Monte Cristo abriu a portinhola. Morrel saltou na calçada.
Bertuccio esperava na escada da entrada.
Morrel desapareceu pela avenida de Marigny, Monte Cristo foi na direção de Bertuccio em passo rápido.
— E então? — perguntou ele.
— E então!? — respondeu o intendente. — Ela vai deixar a casa.
— E o filho?
— Florentin, seu criado de quarto, acha que vai fazer a mesma coisa.
— Venha.
Monte Cristo levou Bertuccio até o seu gabinete, escreveu a carta que conhecemos e a entregou ao intendente.
— Vá — disse ele — e se apresse. A propósito, mande avisar Haydée que estou de volta.
— Aqui estou— disse a moça, que descera ao barulho do coche, e cujo rosto irradiava alegria ao ver o conde são e salvo.
Bertuccio saiu.
Todas as efusões de uma filha ao reencontrar o pai querido, todos os delírios da amante ao rever um homem adorado, Haydée sentiu-os nos primeiros instantes desse retorno aguardado com tanta impaciência.
Embora menos expansiva, nem por isso era menor a alegria de Monte Cristo. Alegria, para os corações que sofreram longamente, é igual ao orvalho para as terras calcinadas pelo sol: coração e terra absorvem essa chuva benfazeja que cai sobre eles, sem nada deixar evidente do lado de fora. Alguns dias atrás Monte Cristo compreendera uma coisa em que há muito tempo não mais ousava acreditar, isto é, que havia duas Mercedes no mundo, que ele ainda podia ser feliz.
Seu olhar flamejante de felicidade mergulhava avidamente nos olhos úmidos de Haydée, quando de repente a porta se abriu. O conde franziu o cenho.
— O sr. de Morcerf! — disse Baptistin, como se esta única palavra bastasse para se justificar.
Com efeito, a fisionomia do conde iluminou-se.
— Qual? — perguntou. — O visconde ou o conde?
— O conde.
— Meu Deus! — exclamou Haydée. — Então isso ainda não terminou?
— Não sei se terminou, querida filha — disse Monte Cristo, tomando as mãos da moça —, mas sei que você nada tem a temer.
— Oh, mesmo assim é o miserável...
— Esse homem nada pode contra mim, Haydée. — tranqüilizou-a Monte Cristo. — Foi quando tive problemas com seu filho que era preciso temer.
— O que eu sofri — disse a moça —, o meu amo nunca saberá. Monte Cristo sorriu.
— Pelo túmulo do meu pai — disse Monte Cristo, estendendo a mão sobre a cabeça da rapariga —, juro que se alguma desgraça acontecer, não será por minha causa.
— Acredito, meu amo, como se fosse Deus me falando — jurou a moça, oferecendo sua testa ao conde.
Monte Cristo depositou naquela fronte tão pura e bela um beijo que fez seus dois corações dispararem, um com violência, o outro surdamente.
— Oh, meu Deus — murmurou o conde —, permitiríeis então que eu ainda pudesse amar...! Faça entrar o conde de Morcerf no salão — ordenou ele a Baptistin, enquanto conduzia a bela grega até uma escada secreta.
Uma pequena explicação sobre essa visita, talvez esperada por Monte Cristo, mas provavelmente inesperada por nossos leitores.
Enquanto Mercedes, como dissemos, fazia em seus aposentos o mesmo tipo de inventário que Albert fizera nos seus; enquanto classificava suas jóias, fechava suas gavetas, juntava suas chaves, a fim de deixar todas as coisas numa ordem impecável, ela não havia percebido que uma cabeça pálida e sinistra surgira na vidraça de uma porta através da qual o dia entrava no corredor. Dali era não apenas possível ver, como ouvir. Aquele que assim via, segundo toda a probabilidades sem ser visto nem ouvido, viu e ouviu então tudo que acontecia no quarto da sra. de Morcerf.
Daquela porta envidraçada, o homem de rosto pálido deslocou-se até o quarto do conde de Morcerf e, lá chegando, ergueu com a mão contraída a cortina de uma janela que dava para o pátio. Assim permaneceu por dez
minutos, imóvel, mudo, escutando as batidas do próprio coração. Para ele, dez minutos era uma enormidade.
Foi então que Albert, voltando de seu duelo, percebeu o pai, que espreitava seu retorno atrás de uma cortina, e desviou o rosto.
O olho do conde dilatou: sabia que o insulto de Albert a Monte Cristo havia sido terrível, que um insulto daquele, em todos os países do mundo, acarretava um duelo mortal. Ora, Albert voltava são e salvo, logo o conde estava vingado.
Um relâmpago de indescritível alegria iluminou seu rosto lúgubre, como faz um último raio de sol antes de se perder nas nuvens que parecem menos seu leito que seu túmulo.
Mas, como dissemos, esperou em vão que o rapaz subisse a seus aposentos para lhe comunicar triunfo. Que seu filho, antes de lutar, não tivesse querido ver o pai cuja honra ia vingar, isso era compreensível; mas, vingada a honra do pai, por que esse filho não vinha se atirar em seus braços?
Foi então que o conde, sem conseguir uma entrevista com Albert, mandou chamar seu criado. Sabemos que Albert autorizara-o a nada ocultar do conde.
Dez minutos depois, o general de Morcerf surgiu na escada da entrada vestindo um redingote preto, com gola militar, uma calça preta, luvas pretas. Dera, ao que parece, ordens prévias, pois, mal tocara o último degrau da escada, seu coche todo atrelado saiu da garagem e foi parar à sua frente.
O criado de quarto veio então jogar dentro do coche uma jaqueta militar, enrijecida pelas duas espadas que embrulhava. Depois, fechando a portinhola, sentou-se ao lado do cocheiro.
O cocheiro inclinou-se diante da caleche para pedir ordens:
— Rumo aos Champs-Élysées — disse o general —, para a casa do conde de Monte Cristo. Rápido!
Os cavalos deram um pulo sob a chicotada que os surpreendeu; cinco minutos depois, pararam em frente à casa do conde.
O próprio sr. de Morcerf abriu a portinhola, e, com o coche ainda em movimento, pulou como um rapazola na aléia paralela, tocou e, com seu criado, passou pela porta aberta.
Um segundo depois, Baptistin anunciava ao sr. de Monte Cristo o conde de Morcerf, e Monte Cristo, despedindo-se de Haydée, deu a ordem que
fez o conde de Morcerf entrar no salão. O general percorria pela terceira vez o salão em todo o seu comprimento, quando, voltando-se, percebeu Monte Cristo de pé na porta.
— Ora, é o sr. de Morcerf — disse tranqüilamente Monte Cristo. —
Achei que houvesse escutado mal.
— Sim, sou eu mesmo — respondeu o conde, com uma pavorosa contração dos lábios, que o impedia de articular com clareza.
— Então agora só me resta saber — continuou Monte Cristo — a causa que me proporciona o prazer de ver o sr. conde de Morcerf tão cedo.
— Teve um encontro com meu filho esta manhã, cavalheiro? —
perguntou o general.
— Está a par disso? — rebateu o outro.
— E também de que o meu filho tinha bons motivos para desejar duelar com o senhor e tudo fazer para matá-lo.
— Com efeito, senhor, ele os tinha excelentes! Mas veja que, a despeito desses motivos, não me matou, e tampouco me enfrentou. — E no entanto o considerava a causa da desonra de seu pai, a causa da pavorosa catástrofe que, neste momento, abate-se sobre a minha casa.
— É verdade, senhor — admitiu Monte Cristo, com sua calma aterradora —, causa secundária, digamos, e não principal.
— O senhor deve ter-lhe pedido desculpas ou dado alguma explicação...
— Não lhe dei explicação alguma, e foi ele quem me pediu desculpas.
— Mas a que atribui essa atitude?
— Provavelmente à convicção de que havia, em tudo isso, um homem mais culpado que eu.
— E quem era esse homem?
— Seu pai.
— Muito bem! — disse o conde, empalidecendo. — Mas fique sabendo que o culpado não gosta de ter sua culpa apontada.
— Sei disso... Aliás, eu já esperava o que está acontecendo neste momento.
— Esperava que meu filho fosse um covarde! — exclamou o conde.
— O sr. Albert de Morcerf não é covarde — disse Monte Cristo.
— Um homem que segura uma espada na mão, um homem que, ao alcance dessa espada, tem um inimigo mortal, esse homem, se não luta, é um covarde! Pena que ele não esteja aqui para eu lhe dizer isso.
— Cavalheiro — respondeu Monte Cristo friamente —, presumo que não tenha vindo me ver para contar suas mazelas familiares. Vá dizer isso ao sr. Albert, talvez ele possa responder-lhe.
— Oh, não, não — replicou o general, com um sorriso imediatamente extinto assim que esboçado —, não, tem razão, não vim para isso! Vim para dizer-lhe que também o vejo como inimigo! Vim para dizer-lhe que o odeio por instinto! Que me parece que sempre o conheci, que sempre o odiei! E que, finalmente, se a mocidade deste século não duela mais, cabe a nós fazê-lo... É dessa opinião, cavalheiro?
— Perfeitamente. Entretanto, quando lhe disse que previra o que está acontecendo, era da honra de sua visita que eu queria falar.
— Tanto melhor... preparou-se então?
— Estou preparado sempre, cavalheiro.
— Fique sabendo que lutaremos até a morte de um de nós dois... —
ameaçou o general, rangendo os dentes de raiva.
— Até a morte de um de nós dois — repetiu o conde de Monte Cristo, fazendo, com a cabeça, um ligeiro movimento de cima para baixo.
— Vamos então, não precisamos de testemunhas.
— Com efeito — disse Monte Cristo —, isso é inútil, conhecemo-nos tão bem!
— Ao contrário — disse o conde —, é justamente porque não nos conhecemos.
— Será mesmo? — exclamou Monte Cristo, com a mesma fleugma aflitiva. — Vamos raciocinar. O senhor não é o soldado Fernand que desertou na véspera da batalha de Waterloo? Não é o tenente Fernand que serviu de guia e espião no exército francês na Espanha? Não é o coronel Fernand que traiu, vendeu e assassinou seu benfeitor Ali? E todos esses Fernand reunidos não fizeram o tenente-general conde de Morcerf, par de França?
— Oh! — exclamou o general, marcado por essas palavras como por um ferro em brasa. — Oh, miserável, que me aponta minha vergonha talvez no momento em que vai me matar, não, eu não disse que lhe era desconhecido. Sei muito bem, demônio, que você penetrou na noite do passado, e que nela você leu, ignoro à luz de que archote, cada página da minha vida! Mas talvez ainda haja mais honra em mim, no meu opróbrio, do que em você sob sua aparência pomposa. Não, não, você me conhece, sei disso, sou eu que não o conheço, aventureiro abarrotado de ouro e
pedras preciosas! Em Paris, você se intitulou conde de Monte Cristo; na Itália, Simbad o marujo; em Malta... já esqueci. Mas é o seu nome real que exijo saber, e não os seus cem disfarces, a fim de pronunciá-lo no local do duelo no momento em que enfiar minha espada no seu coração.
O conde de Monte Cristo empalideceu de maneira terrível. Seu olho feroz foi tomado por um fogo devorador. Ele arremeteu em direção ao gabinete contíguo ao quarto e, em menos de um segundo, arrancando a gravata, o redingote e o colete, vestiu um modesto uniforme e um chapéu de marujo, sob o qual se desenrolaram seus longos cabelos pretos.
Voltou dessa forma, assustador, implacável, caminhando com os braços cruzados até diante do general, que nada compreendera de seu sumiço, que o esperou e que, batendo os dentes e vendo suas pernas bambearem, recuou um passo e só se deteve ao encontrar numa mesa um ponto de apoio para sua mão crispada.
— Fernand! — o conde gritou. — Dos meus cem nomes preciso dizerlhe apenas um para fulminá-lo, mas você pode adivinhar esse nome, não é? Ou melhor, pode se lembrar? Pois, apesar de todos os meus sofrimentos, todas as torturas que sofri, mostro-lhe hoje um rosto que a felicidade da vingança rejuvenesce, um rosto que você deve ter visto com bastante freqüência em seus sonhos depois do seu casamento... com Mercedes, minha noiva!
O general, com a cabeça jogada para trás, as mãos esticadas, o olhar estagnado, devorou em silêncio aquele terrível espetáculo. Em seguida, buscando a parede para se escorar, deslizou lentamente até a porta pela qual saiu aos recuos, deixando escapar apenas este grito lúgubre, lamentoso, dilacerante:
— Edmond Dantès!
Em seguida, com suspiros que nada tinham de humano, arrastou-se até o peristilo da casa, atravessou o pátio como um bêbado e caiu nos braços do seu criado de quarto, murmurando apenas, com uma voz ininteligível:
— Para casa! Para casa!
No caminho, o ar frio e a vergonha que lhe suscitava a atenção das pessoas deixaram-no em condições de juntar os pensamentos, mas o trajeto foi curto e, à medida que se aproximava de sua residência, o conde sentia as aflições se renovarem.
A alguns passos de casa, mandou parar e desceu. O portão do palacete estava escancarado. Um fiacre, pasmo por ter sido chamado àquela
magnífica residência, estacionava no meio do pátio. O conde olhou para aquele fiacre com pavor, mas sem ousar interrogar ninguém, e correu para os seus aposentos.
Duas pessoas desciam a escada, teve o tempo justo para evitá-las invadindo seu gabinete.
Era Mercedes que deixava a casa na companhia do filho, em cujo braço se apoiava.
Passaram a dois milímetros do infeliz, que, escondido atrás do reposteiro de damasco, foi roçado pelo vestido de seda de Mercedes e sentiu no rosto o bafejo quente destas palavras pronunciadas pelo filho:
— Coragem, mãe! Vamos, vamos, esta não é mais a nossa casa.
As palavras extinguiram-se, os passos se afastaram.
O general reordenou suas forças, agarrando com as mãos crispadas o reposteiro de damasco. Represava o mais horrível soluço já saído do peito de um pai, abandonado ao mesmo tempo pela mulher e pelo filho.
Não demorou a ouvir a portinhola de ferro do fiacre bater, depois a voz do cocheiro, o chacoalhar do pesado equipamento sacudindo os vidros.
Então disparou para o seu quarto a fim de ver mais uma vez tudo que amara no mundo, mas o fiacre partiu sem que a cabeça de Mercedes ou a de Albert aparecesse na portinhola para dispensar à casa solitária, para dispensar ao pai e esposo abandonado, o último olhar, o adeus e o remorso, isto é, o perdão.
Assim, no exato momento em que as rodas do fiacre castigavam o calçamento da rotunda, um disparo reverberou, e uma fumaça escura saiu por uma das vidraças daquela janela do quarto, estilhaçada pela força da explosão.