O Conde de Monte Cristo
6. A mão de Deus
Caderousse quis gritar mais uma vez, porém não conseguiu emitir senão um gemido, fazendo correr, enquanto gemia, os três riachos de sangue que saíam de seus três ferimentos.
O assassino, vendo que ele não gritava mais, soergueu-lhe a cabeça pelos cabelos. Caderousse tinha os olhos fechados e a boca retorcida. O
assassino julgou-o morto, deixou a cabeça tombar e desapareceu.
Então Caderousse, ao perceber que ele se afastava, apoiou-se no cotovelo e, com uma voz agônica, gritou num supremo esforço:
— Peguem o assassino, estou morrendo! Socorro, sr. abade, socorro!
Esse lúgubre apelo trespassou a penumbra da noite. A porta da escada secreta se abriu, depois o portãozinho do jardim, e Ali e seu patrão acorreram com luzes.
1 “Fiesco com o mouro que quisera assassiná-lo”: referência à segunda peça do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805), A conjura de Fiesco, de 1783, uma tragédia em cinco atos.
2 “na pose do antigo amolador de facas”: estátua de mármore que integra o acervo do Palácio Uffizzi, em Florença.
3 Place de Grève: local onde os suplícios públicos eram realizados.
4 Saint-Mandrier: hospital construído pelos condenados a trabalhos forçados.
6. A mão de Deus
Caderousse continuava a gritar com uma voz lamentosa:
— Sr. abade, socorro! Socorro!
— Que houve? — perguntou Monte Cristo.
— Socorro! — repetiu Caderousse. — Fui esfaqueado!
— Estamos aqui! Coragem!
— Ah, é o fim! O senhor chega tarde demais; chega para me ver morrer.
Que golpes! Quanto sangue!
E desmaiou.
Ali e seu patrão pegaram o ferido e o transportaram para um quarto. Lá chegando, Monte Cristo fez sinal para que Ali o despisse e examinou seus três terríveis ferimentos.
— Meu Deus — disse ele —, vossa vingança às vezes se faz esperar, mas creio que nunca desceu do céu mais completa do que neste momento.
Ali olhou para o patrão, perguntando-lhe o que fazer.
— Vá chamar o sr. Villefort, procurador do rei, que mora no faubourg Saint-Honoré, e traga-o aqui. Ao passar, acorde o porteiro e diga-lhe para ir chamar um médico.
Ali obedeceu e deixou o falso abade a sós com Caderousse, ainda desmaiado. Quando o infeliz abriu os olhos, o conde, sentado a alguns passos dele, observava-o com uma sombria expressão de piedade, e seus lábios, que se agitavam, pareciam murmurar uma prece.
— Um cirurgião, sr. abade, um cirurgião! — rogou Caderousse.
— Foram chamá-lo — respondeu o abade.
— Sei muito bem que é inútil para me salvar a vida, mas talvez me dê forças, preciso de tempo para fazer minha declaração.
— Sobre o quê?
— Sobre o meu assassino.
— Conhece-o então?
— Se o conheço! Claro que conheço, é Benedetto.
— O jovem corso?
— Ele mesmo.
— Seu amigo.
— Justamente. Depois de me entregar a planta da casa do conde, esperando provavelmente que eu o matasse e assim ele se tornasse seu
herdeiro, ou que o conde me matasse e assim se livrasse de mim, ele me esperou na rua e me esfaqueou.
— Além de mandar chamar o médico, mandei chamar o procurador do rei.
— Ele chegará tarde demais, ele chegará tarde demais — lamentou Caderousse —, sinto que estou perdendo sangue.
— Espere — disse Monte Cristo.
Saiu e voltou cinco minutos depois com um frasco.
Durante sua ausência, os olhos do moribundo, assustadores pela fixidez, não haviam se desgrudado um instante da porta, pela qual adivinhava instintivamente que um socorro iria chegar.
— Rápido, sr. abade, rápido! — ele suplicou. — Sinto que vou desmaiar de novo.
Monte Cristo aproximou-se e despejou nos lábios roxos do ferido três ou quatro gotas da bebida no frasco.
Caderousse deu um suspiro.
— Oh! — disse ele. — É a vida que o senhor me dá; mais... mais...
— Duas gotas mais o matariam — respondeu o abade.
— Oh, que chegue então alguém a quem eu possa denunciar o miserável!
— Quer que eu tome o seu depoimento por escrito? O senhor o assinará.
— Sim... sim... — disse Caderousse, cujos olhos brilhavam diante da idéia daquela vingança póstuma.
Monte Cristo escreveu: “Morro assassinado pelo corso Benedetto, meu companheiro de masmorra em Toulon sob o no59.”
— Rápido, rápido! — angustiou-se Caderousse. — Ou não poderei mais assinar.
Monte Cristo apresentou a pena a Caderousse, que reuniu suas forças, assinou e tombou na cama, dizendo:
— O senhor contará o resto, sr. abade. Dirá que ele se faz passar por Andrea Cavalcanti, que se hospeda no Hotel des Princes, que... Ah! Ah!!
Meu Deus! Meu Deus! Pronto, estou morrendo!
E Caderousse desmaiou pela segunda vez.
O abade fez ele inalar o aroma do frasco; o ferido reabriu os olhos. Seu desejo de vingança não o abandonara durante o desmaio.
— Ah, o senhor dirá tudo isso, não é, sr. abade?
— Tudo, claro, e muitas outras coisas mais.
— O que o senhor dirá?
— Direi que ele provavelmente forneceu-lhe a planta dessa casa na esperança de que o conde o matasse. Direi que ele avisou o conde por um bilhete; direi que, estando o conde ausente, fui eu quem recebi esse bilhete e que não dormi para esperá-lo.
— E ele será guilhotinado, não é? — perguntou Caderousse. — Será guilhotinado, promete? Vou morrer com essa esperança, isso vai me ajudar a morrer.
— Direi — continuou o conde — que ele chegou depois do senhor; que o espreitou o tempo todo; que, quando o ouviu sair, correu para o canto do muro e se escondeu.
— O senhor viu tudo isso?
— Lembre-se das minhas palavras: “Se você chegar são e salvo em casa, acreditarei que Deus o perdoou e o perdoarei também.”
— E não me avisou? — exclamou Caderousse, tentando erguer-se apoiado sobre o cotovelo — O senhor sabia que eu ia ser morto ao sair daqui, e não me avisou!
— Não, pois na mão de Benedetto eu via a justiça de Deus e julgaria cometer um sacrilégio opondo-me aos desígnios da Providência.
— A justiça de Deus! Nem me fale, sr. abade. Se houvesse uma justiça de Deus, o senhor sabe melhor que ninguém que há pessoas que seriam punidas e que não o são.
— Paciência! — disse o abade, num tom que fez estremecer o moribundo. Paciência!
Caderousse fitou-o perplexo.
— E depois — continuou o abade —, Deus é cheio de misericórdia para com todos, como foi para com você: é pai antes de ser juiz.
— Ah, então o senhor acredita em Deus? — perguntou Caderousse.
— Se tivesse a infelicidade de não ter acreditado até o presente — disse Monte Cristo —, passaria a acreditar vendo você.
Caderousse levantou seu punho crispado para cima.
— Escute — disse o abade, estendendo a mão sobre o ferido como se pedisse-lhe para ter fé —, eis o que ele fez por você, esse Deus que você se recusa a reconhecer em seu último momento: ele lhe deu saúde, força, um trabalho garantido, até amigos, a vida enfim tal como deve apresentar-se ao homem para este ficar em paz com sua consciência e satisfeito com seus desejos naturais. Em vez de tirar proveito dessas graças do Senhor,
tão raramente concedidas por ele em sua plenitude, eis o que você fez: entregou-se à indolência, à bebedeira e, bêbado, traiu um de seus melhores amigos.
Caderousse levantou seu punho crispado para cima.
— Socorro! — exclamou Caderousse. — Não preciso de um padre, mas de um médico. Talvez eu não esteja ferido mortalmente, talvez ainda não morra, talvez possam me salvar.
— Você está tão mortalmente ferido que, sem as três gotas da bebida que lhe dei agorinha, já teria expirado. Então escute!
— Oh — murmurou Caderousse —, que padre estranho o senhor é, tirando a esperança dos moribundos, em vez de os consolar.
— Escute — continuou o abade —, quando você traiu seu amigo, Deus começou não a castigá-lo, mas a avisá-lo. Você ficou pobre e sentiu fome.
Passou a cobiçar um pouco da vida que podia ter levado, e já pensava no crime ao dar a si mesmo a desculpa da necessidade, quando Deus fez um
milagre para você, um milagre; quando Deus, pelas minhas mãos, enviou, para o âmago da sua miséria, uma fortuna, exuberante para você, desgraçado, que nunca nada possuíra. Mas essa fortuna inesperada, imprevista, inaudita, não lhe bastou mais a partir do momento em que você botou as mãos nela. Quis dobrá-la. Como? Com um assassinato. Você a dobra, e então Deus a arranca de volta, conduzindo-o perante a justiça humana.
— Não fui eu — disse Caderousse — quem teve a idéia de matar o judeu, foi a Carconte.
— Sim — disse Monte Cristo. — Dessa forma, Deus sempre, não direi justo dessa vez, pois sua justiça lhe teria proporcionado a morte, mas Deus, sempre misericordioso, permitiu que seus juízes ficassem tocados pelas suas palavras e lhe poupassem a vida.
— O quê! Para depois me mandar para a prisão perpétua. Excelente misericórdia!
— Essa misericórdia, desgraçado, você considerou efetivamente uma misericórdia quando lhe foi concedida. Seu coração covarde, que tremia diante da morte, pulou de alegria ao anúncio de uma vergonha perpétua, pois você ruminou, como todos os condenados: “Uma cadeia tem sempre uma porta, o que não acontece num túmulo.” E você tinha razão, pois a porta da cadeia se abriu para você de maneira inesperada: um inglês, de passagem por Toulon, tinha feito a promessa de tirar dois homens da infâmia: a escolha dele recai em você e em seu companheiro. Uma segunda fortuna cai do céu em seu colo, você encontra ao mesmo tempo dinheiro e tranqüilidade, pode recomeçar a viver a vida de todos os homens. Você, que fora condenado a viver a dos trabalhadores forçados.
Então, miserável, você parte para tentar a Deus pela terceira vez. “Não tenho o suficiente”, você disse, quando tinha mais do que nunca possuíra antes, e comete um terceiro crime, sem razão, sem desculpas. Deus se cansou. Deus o castigou.
Caderousse enfraquecia a olhos vistos.
— Alguma coisa para beber — ele disse. — Tenho sede... estou ardendo!
Monte Cristo deu-lhe um copo d’água.
— Benedetto, celerado — praguejou Caderousse, devolvendo o copo.
— Ele, entretanto, vai escapar!
— Ninguém irá escapar, sou eu que lhe digo, Caderousse... Benedetto será castigado.
— Então o senhor também será punido — disse Caderousse —, pois não cumpriu seu dever de sacerdote... devia ter impedido Benedetto de me matar.
— Eu! — disse o conde, com um sorriso que gelou de terror o moribundo. — Eu, impedir Benedetto de matá-lo, quando o senhor acabava de entortar sua faca na cota de malha que cobria o meu peito!
Sim, se o tivesse encontrado humilde e arrependido, eu teria, quem sabe, impedido Benedetto de matá-lo, mas vi-o orgulhoso e sanguinário, e permiti que a vontade de Deus se realizasse!
— Não acredito em Deus! — berrou Caderousse. — Você também não acredita... está mentindo... está mentindo...!
— Cale-se — disse o abade —, pois está desperdiçando suas últimas gotas de sangue... Ah, não acredita em Deus e morre golpeado por Deus!
Ah, não acredita em Deus, e Deus mesmo assim pede apenas uma prece, uma palavra, uma lágrima para perdoar... Deus que podia dirigir o punhal do assassino de maneira a que você expiasse na hora... Deus lhe deu quinze minutos para se arrepender... Caia em si, desgraçado, e arrependa-se!
— Não — insistiu Caderousse —, não me arrependo. Deus não existe, a Providência não existe, o que existe é apenas o acaso.
— Existe uma Providência, existe um Deus — disse Monte Cristo —, e a prova é que aí jaz você, desesperado, negando a Deus, e eu, por minha vez, estou de pé à sua frente, rico, feliz, são e salvo, juntando as mãos perante esse Deus no qual você tenta não acreditar e no qual, entretanto, acredita no fundo do coração.
— Mas afinal quem é o senhor? — perguntou Caderousse, fixando os olhos agonizantes no conde.
— Olhe bem para mim — disse Monte Cristo, pegando a vela e aproximando-a do rosto.
— Ora essa! O abade... o abade Busoni...
Monte Cristo tirou a peruca que o desfigurava e deixou cair a bonita cabeleira negra que emoldurava tão harmoniosamente seu pálido semblante.
— Oh — disse Caderousse, apavorado —, se não fosse pelo cabelo preto, eu diria que o senhor é lorde Wilmore!
— Não sou o abade Busoni, nem lorde Wilmore — disse Monte Cristo.
— Olhe bem, olhe mais longe, olhe para suas primeiras recordações.
Havia nessas palavras do conde uma vibração magnética que reavivou pela última vez os sentidos do miserável.
— Oh, com efeito — disse ele —, acho que já vi o senhor, que já o conheci em outros tempos.
— Sim, Caderousse, sim, você me viu, sim, você me conheceu.
— Mas quem afinal é o senhor? E por que, se me viu, se me conheceu, por que me deixa morrer?
— Porque nada pode salvá-lo, Caderousse, porque seus ferimentos são mortais. Se pudesse ser salvo, eu teria visto nisso uma última misericórdia do Senhor, e ainda teria tentado, juro pelo túmulo do meu pai, devolvê-lo à vida e ao arrependimento.
— Pelo túmulo do seu pai! — disse Caderousse, reanimado por uma suprema centelha e se erguendo para ver mais de perto o homem que acabava de lhe fazer aquele juramento sagrado para todos os homens. —
Quem é você afinal?
O conde não cessara de acompanhar o progresso da agonia.
Compreendeu que aquele sopro de vida era o último; aproximou-se do moribundo e, cobrindo-o com um olhar calmo e triste ao mesmo tempo, disse-lhe no ouvido:
— Eu sou... sou...
E seus lábios, entreabertos, deram passagem a um nome pronunciado tão baixo que o próprio conde parecia temer ouvi-lo.
Caderousse, que se erguera sobre seus joelhos, estendeu os braços, fez um esforço para recuar, depois, juntando as mãos e levantando-as com um supremo esforço, exclamou:
— Oh, meu Deus, meu Deus, perdão por vos haver renegado. Vós existis claramente, vós sois o pai dos homens no céu e o juiz dos homens na terra.
Meu Deus, Senhor, ignorei-o por muito tempo! Meu Deus, Senhor, perdoaime! Meu Deus, Senhor, recebei-me!
E Caderousse, fechando os olhos, caiu para trás dando um último grito e um último suspiro.
O sangue estancou imediatamente nos lábios de seus graves ferimentos.
Estava morto.
— Um! — disse misteriosamente o conde, os olhos fitos no cadáver já desfigurado por aquela morte terrível.
Dez minutos depois, o médico e o procurador do rei chegaram, um trazido pelo porteiro, o outro, por Ali, e foram recebidos pelo abade
Busoni, que rezava junto ao morto.