O Conde de Monte Cristo
8. Cena conjugal
— Ora, você é jovem, ao passo que eu começo a envelhecer; até outra hora, Benedetto!
E enfiou-se na ruela, onde então desapareceu.
— É muito azar! — disse Andrea, soltando um suspiro. — Não se pode ser completamente feliz neste mundo!
1 Nil admirari: “Não se comover com nada” , inspirada em Horácio, citação das Epístolas, I, 6, verso 1.
2 Var: fronteira entre a França e o Piemonte.
3 Barreira dos Bons Homens: também chamada barreira de Passy ou ainda barreira da Conferência.
4 Chefe de claque: o encarregado de sentir o clima do espetáculo e do público, fazendo este último reagir de acordo com as circunstâncias.
5 “sr. Bossuet”: referência ao talento oratório de Jacques-Bénigne Bossuet (ver Parte I, cap.16, nota 80). Caderousse parece estar ironizando a elegância verbal de Andrea.
8. Cena conjugal
Os três rapazes haviam se separado na praça Luís XV, isto é, Morrel tomara a direção dos bulevares, Château-Renaud a da ponte da Revolução e Debray seguira o cais.
Morrel e Château-Renaud, segundo toda probabilidade, encaminharam-se para seus lares domésticos, como ainda dizem na tribuna da Câmara, nos discursos bem-feitos, e no teatro da rua
Richelieu1, nas peças bem escritas; mas o mesmo não se deu com Debray. Ao chegar à portinhola do Louvre, ele quebrou à esquerda, atravessou o Carroussel a passos largos, enveredou pela rua Saint-Roch, saiu na rua Michodière e alcançou a porta do sr. Danglars, exatamente no mesmo instante em que o landau do sr. de Villefort, após tê-lo deixado, a si e sua esposa, no faubourg Saint-Honoré, parava para deixar a baronesa em casa.
Debray, sendo íntimo da casa, entrou primeiro no pátio, jogou as rédeas nas mãos de um criado, depois voltou ao portão para receber a sra.
Danglars, a quem ofereceu o braço antes de se dirigirem aos seus aposentos.
Uma vez fechado o portão, com a baronesa e Debray ainda no pátio, ele perguntou:
— Que há com você, Hermine? Por que passou mal com aquele episódio, ou melhor, com aquela fábula que o conde contou?
— Porque estava pessimamente disposta esta noite, meu amigo —
respondeu a baronesa.
— Não, Hermine — replicou Debray —, não vai me convencer disso.
Ao contrário, você estava na melhor das disposições quando chegou à casa do conde. O sr. Danglars estava de fato um tanto casmurro; mas sei muito bem o quanto você liga para o mau humor dele. Alguém lhe fez alguma coisa. Pode me contar; sabe que nunca vou admitir que lhe façam uma impertinência.
— Está enganado, Lucien, eu lhe asseguro — respondeu a sra. Danglars.
— E as coisas aconteceram como eu lhe disse, além do mau humor que você percebeu e sobre o qual achei que não valia a pena falar.
Era evidente que a sra. Danglars estava sob a influência de uma dessas irritações nervosas de que freqüentemente as próprias mulheres não se dão conta, ou então, como presumira Debray, que ela dissimulava alguma comoção inconfessável. Como homem acostumado a considerar os calores um dos elementos da vida feminina, ele não insistiu, esperando o momento oportuno, fosse para uma nova indagação, fosse para
uma confissão motu proprio2. À porta de seu quarto, a baronesa encontrou a srta. Cornélie. Esta era a camareira de confiança da baronesa.
— O que minha filha está fazendo? — perguntou a sra. Danglars.
— Estudou a noite inteira — respondeu a srta. Cornélie — e depois foi se deitar.
— Entretanto tenho a impressão de ouvi-la ao piano?
— É a srta. Louise d’Armilly que toca enquanto a senhorita está na cama.
— Muito bem — disse a sra. Danglars. — Venha me despir.
Entraram no quarto. Debray estendeu-se num grande sofá e a sra.
Danglars entrou em seu toucador com a srta. Cornélie.
— Meu caro sr. Lucien — principiou a sra. Danglars através da portinhola do toucador —, ainda censura Eugénie por não lhe dar a honra de lhe dirigir a palavra?
— Senhora — disse Lucien, brincando com o cãozinho da baronesa, o qual, reconhecendo sua qualidade de amigo da casa, tinha o hábito de lhe fazer mil carícias —, não sou o único a recriminá-la, e outro dia creio ter ouvido Morcerf queixar-se pessoalmente à senhora por não conseguir arrancar uma palavra da noiva.
— É verdade — disse a sra. Danglars —, mas acho que uma dessas manhãs tudo vai mudar e o senhor verá Eugénie entrar em seu gabinete.
— No meu gabinete, comigo?
— Isto é, no do ministro.
— E por que isso?
— Para lhe pedir um emprego no Opéra3! Na verdade, nunca vi um entusiasmo como esse para a música. É ridículo para uma pessoa da sociedade!
Debray sorriu.
— Pois bem! — disse ele. — Que ela venha com o consentimento do barão e o seu, nós lhe daremos esse emprego e cuidaremos para que seja segundo seu mérito, embora sejamos muito pobres para pagar um talento tão grande quanto o dela.
— Pode ir, Cornélie — disse a sra. Danglars —, não preciso mais de você. Cornélie desapareceu e, depois de um instante, a sra. Danglars saiu de seu toucador num encantador négligé, vindo sentar-se perto de Lucien.
Em seguida, pensativa, começou a acariciar o cãozinho. Lucien fitou-a por um instante, em silêncio.
— Vamos, Hermine — ele disse enfim —, responda francamente: alguma coisa a aflige, não é?
— Não é nada — repetiu a baronesa.
Apesar disso, como estava sentindo calor, levantou-se, tentou respirar e foi mirar-se num espelho.
— Estou de meter medo esta noite — disse ela.
Debray, sorrindo, fazia menção de se levantar para tranqüilizar a baronesa com relação à sua aparência, quando, de repente, a porta se abriu.
O sr. Danglars apareceu; Debray voltou a sentar-se.
Com o barulho da porta, a sra. Danglars voltou-se e olhou para o marido com uma perplexidade que sequer se deu ao trabalho de dissimular.
— Boa-noite, senhora — disse o banqueiro —, boa-noite, sr. Debray.
A baronesa provavelmente julgou que a visita inesperada significava alguma coisa, talvez um desejo de reparar as palavras amargas que haviam escapado ao barão durante o dia.
Ela se armou com uma expressão digna e, voltando-se para Lucien sem responder ao marido, pediu-lhe:
— Leia alguma coisa para mim, sr. Debray.
Debray, a quem de início aquela visita preocupara, recobrou-se com a calma da baronesa e esticou a mão para um livro marcado no meio por uma espátula com lâmina de madrepérola incrustada de ouro.
— Perdão — disse o banqueiro —, mas assim vai se cansar, baronesa, permanecendo acordada até tarde; são onze horas, e o sr. Debray mora muito longe.
Debray ficou atônito, não em absoluto que o tom de Danglars não fosse perfeitamente calmo e cortês; mas, afinal, através daquela calma e cortesia, percebeu certa veleidade inusitada de contrariar a vontade da mulher aquela noite.
A baronesa também ficou surpresa e registrou seu espanto com um olhar que provavelmente deu o que pensar ao marido, se o marido não tivesse os olhos grudados num jornal, no qual procurava o fechamento dos juros.
Daí resultou que aquele olhar tão altivo foi desperdiçado, perdendo completamente seu efeito.
— Sr. Lucien — disse a baronesa —, afirmo-lhe que não estou com a mínima vontade de dormir, que tenho mil coisas a lhe contar esta noite e que o senhor vai passar a noite me escutando, ainda que precise dormir sentado.
— Às suas ordens, senhora — respondeu Lucien, fleugmaticamente.
— Meu caro sr. Debray — disse por sua vez o banqueiro —, não se mate, por favor, ouvindo as loucuras da sra. Danglars esta noite, pois as ouvirá amanhã do mesmo jeito; esta noite é minha, reservo-a, e a dedicarei, se fizer a gentileza de me permitir, a uma conversa com a minha mulher em torno de graves interesses.
Dessa vez, o golpe era tão direto e caía tão em cheio que deixou Lucien e a baronesa aturdidos; ambos se interrogaram com os olhos, a fim de obter forças um no outro contra aquela agressão; mas o irresistível poder do dono da casa triunfou e a força ficou com o marido.
— Não pense nem um pouco que estou lhe expulsando, meu caro Debray
— continuou Danglars. — Em absoluto: uma circunstância imprevista me obriga a desejar ter esta noite mesma uma conversa com a baronesa: isso me acontece muito raramente para que me guarde rancor.
Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu
esbarrando nas quinas, como Nathan em Athalie4.
— É incrível — disse ele, quando a porta voltou a se fechar — como esses maridos, que não obstante achamos tão ridículos, tomam a dianteira com facilidade!
Depois que Lucien se foi, Danglars instalou-se em seu lugar no sofá, fechou o livro que permanecera aberto e, assumindo uma pose horrivelmente pretensiosa, continuou a brincar com o cãozinho. Mas como o cão, que não tinha por ele a mesma simpatia que por Debray, quis mordê-lo, ele o agarrou pela pele do pescoço e o atirou, do outro lado do quarto, sobre uma espreguiçadeira.
Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu ...
O animal lançou um ganido que atravessou o recinto; porém, ao chegar à sua destinação, encolheu-se atrás de uma almofada e, estupefato com aquele tratamento ao qual não estava acostumado, quedou-se mudo e sem movimento.
— Sabia, cavalheiro — disse a baronesa, sem piscar —, que está fazendo progressos? Em geral é apenas grosseiro; esta noite, está sendo brutal.
— É porque hoje à noite estou num mau humor pior que o de costume
— respondeu Danglars.
Hermine olhou para o banqueiro com um supremo desdém. Em geral, aqueles trejeitos de seu olhar exasperavam o orgulhoso Danglars; mas naquela noite ele mal pareceu prestar atenção.
— Acha que ligo para os seus humores? — respondeu a baronesa, irritada diante da impassibilidade do marido. — Acha que essas coisas me dizem respeito? Guarde seus humores em seu quarto ou registre-os em
seus arquivos; e, uma vez que tem empregados remunerados, descarregue neles sua irritação!
— De forma alguma — respondeu Danglars. — A senhora se engana em seus conselhos; portanto, não os seguirei. Meus
escritórios são meu Pactolo5, como diz, acho, o sr. Desmoutier6, e não quero atormentar seu curso e sua calma. Meus empregados são gente honesta, que ganham minha fortuna para mim e a quem pago uma soma infinitamente abaixo do que merecem, se os avalio pelo que me proporcionam; portanto, não descarregarei neles a minha raiva, mas contra as pessoas que comem meus jantares, que dilaceram meus cavalos e dilapidam meu caixa.
— E quem são essas pessoas que dilapidam seu caixa? Explique-se mais claramente, cavalheiro, por favor.
— Oh, fique tranqüila, embora fale por enigmas, não pretendo fazê-la ruminar a resposta por muito tempo — replicou Danglars. — As pessoas que dilapidam meu caixa são aqueles que retiram de lá quinhentos mil francos no espaço de uma hora.
— Não compreendo, senhor — disse a baronesa, tentando dissimular ao mesmo tempo a perturbação da voz e o rubor do rosto.
— Pelo contrário, compreende muito bem — disse Danglars —, mas, caso sua má vontade persistir, direi que acabo de perder setecentos mil francos sobre o empréstimo espanhol.
— Ah, e essa agora! — zombou a baronesa. — E é a mim que vem culpar por essa perda?
— Por que não?
— É minha culpa se perdeu setecentos mil francos?
— Em todo caso, minha não é.
— De uma vez por todas, senhor — reagiu acerbamente a baronesa —, já lhe disse para não me falar de caixa; é uma língua que não aprendi na casa dos meus pais e nem na do meu primeiro marido.
— Tenho certeza disso — replicou Danglars —, nenhum dos dois tinha um tostão furado.
— Uma razão a mais para eu não ter aprendido na casa deles o jargão bancário, que aqui me dilacera os ouvidos o dia inteiro; esse barulho de escudos sendo contados e recontados é odioso para mim, somente o som da sua voz pode me ser ainda mais desagradável.
— Mas que coisa estranha! — disse Danglars. — E eu que acreditava que a senhora tinha o mais vivo interesse pelas minhas operações!
— Eu! E quem lhe fez acreditar nessa tolice?
— A senhora mesma.
— Ah! Logo quem!
— Sem dúvida.
— Eu gostaria que me dissesse em que ocasião?
— Oh, meu Deus, nada mais fácil! No último mês de fevereiro, a senhora foi a primeira a me falar dos investimentos no Haiti; havia sonhado que um navio entrava no porto do Havre e trazia notícia de um pagamento, supostamente adiado para as calendas gregas, que se iria realizar. Conheço a lucidez do seu sono; então mandei comprar abaixo do preço todos os títulos que pude encontrar da dívida do Haiti, e ganhei quatrocentos mil francos, dos quais cem mil lhe foram religiosamente entregues. A senhora fez deles o que bem quis, isso não me interessa.
“Em março, tratava-se de uma concessão de ferrovia. Três companhias se apresentavam, oferecendo as mesmas garantias. A senhora me disse que seu instinto, e, embora se pretenda alheia às especulações, acredito ao contrário que seu instinto é bastante aguçado em certas matérias, a senhora me disse que seu instinto a fazia crer que o privilégio seria concedido à companhia designada como do Midi.
“Inscrevi-me na mesma hora para adquirir dois terços das ações dessa companhia. O privilégio foi-lhe de fato concedido; como a senhora previra, o valor das ações triplicou, faturei um milhão, do qual duzentos e cinqüenta mil francos foram entregues à senhora a título de comissão.
Como empregou esses duzentos e cinqüenta mil francos? Isso não é da minha conta.”
— Mas aonde quer chegar, cavalheiro? — exclamou a baronesa, arrepiada pelo despeito e pela impaciência.
— Paciência, senhora, logo entenderá.
— Que alegria!
— Em abril, a senhora jantou na casa do ministro; falou-se da Espanha, e a senhora escutou uma conversa sigilosa; tratava-se da expulsão de don Carlos; comprei títulos espanhóis. A expulsão aconteceu, e ganhei seiscentos mil francos no dia em que Carlos V
transpôs o Bidassoa7.
Desses seiscentos mil francos, a senhora recebeu cinqüenta mil escudos; eles lhe pertenciam, a senhora dispôs deles ao seu capricho, e não lhe peço satisfações; mas nem por isso deixa de ser verdade que recebeu quinhentas mil libras este ano.
— Muito bem, e daí, senhor?
— Ah, sim, e daí! Pois é justamente nesse momento que a coisa toda se degrada.
— O senhor tem um jeito de falar... realmente...
— Ele ilustra a minha idéia, é tudo que preciso... Afinal, esse momento deu-se há três dias. Há três dias, portanto, a senhora conversou sobre política com o sr. Debray, e julgou perceber pelas palavras dele que don Carlos voltara à Espanha; então eu vendo meus títulos, a notícia se espalha, não vendo mais, dou; no dia seguinte, verifica-se que a notícia era falsa e que, em virtude dessa falsa notícia, perdi setecentos mil francos.
— E daí?
— E daí! Considerando que lhe dou um quarto do que ganho, é portanto um quarto que me deve quando perco; um quarto de setecentos mil francos, isso dá cento e setenta e cinco mil francos.
— Mas o que está me dizendo não faz o menor sentido, e realmente não vejo por que misturar o nome do sr. Debray nessa história toda.
— Porque, se porventura não dispuser dos cento e setenta e cinco mil francos que pleiteio, a senhora terá que pedir um empréstimo a seus amigos, e o sr. Debray é um deles.
— Que absurdo! — gritou a baronesa.
— Oh! Nada de gestos, nada de gritos, nada de drama moderno, senhora, caso contrário me obrigaria a dizer que vejo daqui o sr. Debray rindo junto às quinhentas mil libras que lhe auferiu este ano, e dizendo consigo mesmo que finalmente encontrou o que os mais hábeis jogadores nunca conseguiram, isto é, uma roleta em que se ganha sem apostar e em que não se perde quando se perde.
A baronesa quis explodir.
— Miserável! — disse ela. — Tem a audácia de dizer que não sabia do que se atreve a me recriminar hoje?
— Não estou dizendo que sabia, não estou dizendo que não sabia, o que eu digo é: observe meu comportamento de quatro anos para cá, quando deixou de ser minha mulher e eu, seu marido, e verá que foi coerente. Um pouco antes do nosso rompimento, a senhora desejou estudar música com esse famoso barítono que estreou com tanto sucesso no Teatro Italiano; quanto a mim, quis estudar dança com aquela bailarina de imensa reputação em Londres. Isso me custou, tanto no seu caso como no meu, cerca de cem mil francos. Não falei nada porque a harmonia deve reinar
entre os casais. Cem mil francos para que o homem e a mulher conheçam profundamente dança e música, não é muito caro. Não demorou muito, e eis que a senhora se cansou do canto e deu-lhe na veneta estudar diplomacia com um secretário de ministro; eu permito que o faça. A senhora compreende: que me importa, se paga as aulas com seu patrimônio? Mas hoje percebo que a senhora está tirando do meu, e que seu aprendizado pode me custar setecentos mil francos por mês. Alto lá, senhora, isso não pode continuar assim. Ou o diplomata dará aulas...
gratuitas, e o tolerarei, ou ele não porá mais o pé na minha casa; está ouvindo, senhora?
— Oh, isso é demais, cavalheiro! — gritou Hermine, sufocada. — Está passando dos limites da ignomínia.
— Mas — disse Danglars — vejo com prazer que a senhora não fica aquém e que obedeceu voluntariamente a este axioma do Código: “A mulher deve obedecer seu marido.”
— Ofensas agora!
— Tem razão: vamos nos ater aos fatos e raciocinemos friamente.
Nunca me intrometi nos seus negócios a não ser para o seu bem; aja da mesma maneira. Meu caixa não lhe diz respeito, segundo me disse? Então mexa no seu, mas não encha nem esvazie o meu.
Aliás, quem sabe se tudo isso não é um golpe de Jarnac político8; se o ministro, furioso por me ver na oposição, e com inveja das simpatias populares que desperto, não está de conluio com o sr. Debray para me arruinar?
— É muito provável!
— Mas claro; quem já viu uma coisa dessas... uma falsa notícia telegráfica, isto é, o impossível, ou quase; sinais completamente diferentes transmitidos pelos dois últimos telégrafos...! Foi uma coisa armada expressamente contra mim, na verdade.
— Senhor — disse a baronesa com mais humildade —, julgo que não ignora que esse empregado foi demitido, que inclusive falou-se em processá-lo, que a ordem havia sido para prendê-lo e que essa ordem teria sido executada caso ele não houvesse se esquivado às primeiras investigações com uma fuga que prova ou sua loucura ou sua culpa... Está cometendo um erro.
— Sim, que faz rir os simplórios, que tira o sono de uma noite do ministro, que escurece as folhas de papel dos srs. secretários de Estado, mas que a mim custa setecentos mil francos.
— Mas, cavalheiro — disse subitamente Hermine —, uma vez que tudo isso, segundo suas palavras, é culpa do sr. Debray, por quê, em vez de dizêlo diretamente ao sr. Debray, vem dizê-lo a mim? Por que acusa o homem e desconta na mulher?
— Por acaso eu conheço o sr. Debray? — replicou Danglars. — Por acaso desejo conhecê-lo? Por acaso quero saber dos seus conselhos? Por acaso quero segui-los? Acha que estou brincando? Não, é a senhora que faz tudo isso, não eu!
— Mas me parece, uma vez que usufrui deles... Danglars deu de ombros.
— Criaturas loucas, realmente, essas mulheres que se julgam geniais porque urdiram uma ou dez intrigas e conseguiram passar desapercebidas em toda Paris! Pois saiba que, ainda que tivesse escondido seus desregramentos do seu próprio marido, o que é o abecê da arte, pois na maior parte do tempo os maridos não querem enxergar, a senhora não passaria de uma pálida cópia do que faz metade de suas amigas, mulheres da sociedade. Mas comigo, não; enxerguei e continuo enxergando; em dezesseis anos, mais ou menos, a senhora talvez tenha conseguido esconder de mim um pensamento ou outro, mas não um procedimento, uma ação, um erro. Ao passo que a senhora, por sua vez, aplaudiase por sua habilidade e acreditava piamente me enganar. Qual foi o resultado disso? Graças à minha pretensa ignorância, do sr. de Villefort ao sr.
Debray, não há amigo seu que não tenha tremido à minha frente. Não há um que não me tenha tratado como dono da casa, minha única pretensão junto à senhora; não há um, enfim, que lhe tenha ousado dizer sobre mim o que hoje eu mesmo lhe digo. Permito que a senhora me torne odioso, mas não que me torne ridículo, e, acima de tudo, proíbo-a, com todas as letras, de me levar à falência.
Até o momento em que o nome de Villefort foi pronunciado, a baronesa conseguira se comportar; a esse nome, porém, empalideceu, levantando-se como movida por uma mola, esticou o braço como se conjurasse uma aparição e deu três passos em direção ao marido, como para lhe arrancar o fim do segredo que ele conhecia ou que talvez, em virtude de algum plano odioso, como eram todos os planos de Danglars, não queria deixar escapar completamente.
— O sr. de Villefort? Que significa isso? Que está sugerindo?
— Isso significa, senhora, que o sr. de Nargonne, seu primeiro marido, não sendo nem um filósofo, nem um banqueiro, ou talvez sendo ambos, e
vendo que não havia nenhuma vantagem a tirar de um procurador do rei, morreu de sofrimento ou de raiva por tê-la encontrado grávida de seis meses após uma ausência de nove. Sou brutal, não somente sei disso, como disso me gabo: é um dos meus métodos bem-sucedidos nas minhas transações comerciais. Por quê, em vez de matar, ele se matou? Porque não tinha fortuna para salvar. Quanto a mim, porém, tenho compromissos com o meu caixa. O sr. Debray, meu sócio, me faz perder setecentos mil francos, pois que assuma sua parte na perda e toquemos nossos negócios.
Caso contrário, que me trapaceie nessas cento e setenta e cinco mil libras e aja como agem os trapaceiros, que desapareça. Claro, é um rapaz simpático, sei disso, quando suas informações estão corretas; porém, quando não estão, há cinqüenta no mundo que valem mais que ele.
A sra. Danglars estava aterrada. Mesmo assim, fez um esforço supremo para responder a esse último ataque. Afundou numa poltrona, pensando em Villefort, na cena do jantar, naquela estranha série de tragédias que havia alguns dias abatia-se sucessivamente sobre sua casa e transformava em escandalosas discussões a calma acolchoada do seu lar. Danglars sequer a olhava, embora ela fizesse de tudo para desmaiar. Ele puxou a porta do quarto sem acrescentar uma palavra e voltou para seus aposentos; de maneira que a sra. Danglars, ao voltar do seu desmaio de araque, chegou a crer que tivera um pesadelo.
1 “teatro da rua Richelieu”: ou seja, a Comédie Française.
2 Motu proprio: latim para “por movimento próprio” .