O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 67 de 119

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O Conde de Monte Cristo

8. Cena conjugal

— Ora, você é jovem, ao passo que eu começo a envelhecer; até outra hora, Benedetto!

E enfiou-se na ruela, onde então desapareceu.

— É muito azar! — disse Andrea, soltando um suspiro. — Não se pode ser completamente feliz neste mundo!

1 Nil admirari: “Não se comover com nada” , inspirada em Horácio, citação das Epístolas, I, 6, verso 1.

2 Var: fronteira entre a França e o Piemonte.

3 Barreira dos Bons Homens: também chamada barreira de Passy ou ainda barreira da Conferência.

4 Chefe de claque: o encarregado de sentir o clima do espetáculo e do público, fazendo este último reagir de acordo com as circunstâncias.

5 “sr. Bossuet”: referência ao talento oratório de Jacques-Bénigne Bossuet (ver Parte I, cap.16, nota 80). Caderousse parece estar ironizando a elegância verbal de Andrea.

8. Cena conjugal

Os três rapazes haviam se separado na praça Luís XV, isto é, Morrel tomara a direção dos bulevares, Château-Renaud a da ponte da Revolução e Debray seguira o cais.

Morrel e Château-Renaud, segundo toda probabilidade, encaminharam-se para seus lares domésticos, como ainda dizem na tribuna da Câmara, nos discursos bem-feitos, e no teatro da rua

Richelieu1, nas peças bem escritas; mas o mesmo não se deu com Debray. Ao chegar à portinhola do Louvre, ele quebrou à esquerda, atravessou o Carroussel a passos largos, enveredou pela rua Saint-Roch, saiu na rua Michodière e alcançou a porta do sr. Danglars, exatamente no mesmo instante em que o landau do sr. de Villefort, após tê-lo deixado, a si e sua esposa, no faubourg Saint-Honoré, parava para deixar a baronesa em casa.

Debray, sendo íntimo da casa, entrou primeiro no pátio, jogou as rédeas nas mãos de um criado, depois voltou ao portão para receber a sra.

Danglars, a quem ofereceu o braço antes de se dirigirem aos seus aposentos.

Uma vez fechado o portão, com a baronesa e Debray ainda no pátio, ele perguntou:

— Que há com você, Hermine? Por que passou mal com aquele episódio, ou melhor, com aquela fábula que o conde contou?

— Porque estava pessimamente disposta esta noite, meu amigo —

respondeu a baronesa.

— Não, Hermine — replicou Debray —, não vai me convencer disso.

Ao contrário, você estava na melhor das disposições quando chegou à casa do conde. O sr. Danglars estava de fato um tanto casmurro; mas sei muito bem o quanto você liga para o mau humor dele. Alguém lhe fez alguma coisa. Pode me contar; sabe que nunca vou admitir que lhe façam uma impertinência.

— Está enganado, Lucien, eu lhe asseguro — respondeu a sra. Danglars.

— E as coisas aconteceram como eu lhe disse, além do mau humor que você percebeu e sobre o qual achei que não valia a pena falar.

Era evidente que a sra. Danglars estava sob a influência de uma dessas irritações nervosas de que freqüentemente as próprias mulheres não se dão conta, ou então, como presumira Debray, que ela dissimulava alguma comoção inconfessável. Como homem acostumado a considerar os calores um dos elementos da vida feminina, ele não insistiu, esperando o momento oportuno, fosse para uma nova indagação, fosse para

uma confissão motu proprio2. À porta de seu quarto, a baronesa encontrou a srta. Cornélie. Esta era a camareira de confiança da baronesa.

— O que minha filha está fazendo? — perguntou a sra. Danglars.

— Estudou a noite inteira — respondeu a srta. Cornélie — e depois foi se deitar.

— Entretanto tenho a impressão de ouvi-la ao piano?

— É a srta. Louise d’Armilly que toca enquanto a senhorita está na cama.

— Muito bem — disse a sra. Danglars. — Venha me despir.

Entraram no quarto. Debray estendeu-se num grande sofá e a sra.

Danglars entrou em seu toucador com a srta. Cornélie.

— Meu caro sr. Lucien — principiou a sra. Danglars através da portinhola do toucador —, ainda censura Eugénie por não lhe dar a honra de lhe dirigir a palavra?

— Senhora — disse Lucien, brincando com o cãozinho da baronesa, o qual, reconhecendo sua qualidade de amigo da casa, tinha o hábito de lhe fazer mil carícias —, não sou o único a recriminá-la, e outro dia creio ter ouvido Morcerf queixar-se pessoalmente à senhora por não conseguir arrancar uma palavra da noiva.

— É verdade — disse a sra. Danglars —, mas acho que uma dessas manhãs tudo vai mudar e o senhor verá Eugénie entrar em seu gabinete.

— No meu gabinete, comigo?

— Isto é, no do ministro.

— E por que isso?

— Para lhe pedir um emprego no Opéra3! Na verdade, nunca vi um entusiasmo como esse para a música. É ridículo para uma pessoa da sociedade!

Debray sorriu.

— Pois bem! — disse ele. — Que ela venha com o consentimento do barão e o seu, nós lhe daremos esse emprego e cuidaremos para que seja segundo seu mérito, embora sejamos muito pobres para pagar um talento tão grande quanto o dela.

— Pode ir, Cornélie — disse a sra. Danglars —, não preciso mais de você. Cornélie desapareceu e, depois de um instante, a sra. Danglars saiu de seu toucador num encantador négligé, vindo sentar-se perto de Lucien.

Em seguida, pensativa, começou a acariciar o cãozinho. Lucien fitou-a por um instante, em silêncio.

— Vamos, Hermine — ele disse enfim —, responda francamente: alguma coisa a aflige, não é?

— Não é nada — repetiu a baronesa.

Apesar disso, como estava sentindo calor, levantou-se, tentou respirar e foi mirar-se num espelho.

— Estou de meter medo esta noite — disse ela.

Debray, sorrindo, fazia menção de se levantar para tranqüilizar a baronesa com relação à sua aparência, quando, de repente, a porta se abriu.

O sr. Danglars apareceu; Debray voltou a sentar-se.

Com o barulho da porta, a sra. Danglars voltou-se e olhou para o marido com uma perplexidade que sequer se deu ao trabalho de dissimular.

— Boa-noite, senhora — disse o banqueiro —, boa-noite, sr. Debray.

A baronesa provavelmente julgou que a visita inesperada significava alguma coisa, talvez um desejo de reparar as palavras amargas que haviam escapado ao barão durante o dia.

Ela se armou com uma expressão digna e, voltando-se para Lucien sem responder ao marido, pediu-lhe:

— Leia alguma coisa para mim, sr. Debray.

Debray, a quem de início aquela visita preocupara, recobrou-se com a calma da baronesa e esticou a mão para um livro marcado no meio por uma espátula com lâmina de madrepérola incrustada de ouro.

— Perdão — disse o banqueiro —, mas assim vai se cansar, baronesa, permanecendo acordada até tarde; são onze horas, e o sr. Debray mora muito longe.

Debray ficou atônito, não em absoluto que o tom de Danglars não fosse perfeitamente calmo e cortês; mas, afinal, através daquela calma e cortesia, percebeu certa veleidade inusitada de contrariar a vontade da mulher aquela noite.

A baronesa também ficou surpresa e registrou seu espanto com um olhar que provavelmente deu o que pensar ao marido, se o marido não tivesse os olhos grudados num jornal, no qual procurava o fechamento dos juros.

Daí resultou que aquele olhar tão altivo foi desperdiçado, perdendo completamente seu efeito.

— Sr. Lucien — disse a baronesa —, afirmo-lhe que não estou com a mínima vontade de dormir, que tenho mil coisas a lhe contar esta noite e que o senhor vai passar a noite me escutando, ainda que precise dormir sentado.

— Às suas ordens, senhora — respondeu Lucien, fleugmaticamente.

— Meu caro sr. Debray — disse por sua vez o banqueiro —, não se mate, por favor, ouvindo as loucuras da sra. Danglars esta noite, pois as ouvirá amanhã do mesmo jeito; esta noite é minha, reservo-a, e a dedicarei, se fizer a gentileza de me permitir, a uma conversa com a minha mulher em torno de graves interesses.

Dessa vez, o golpe era tão direto e caía tão em cheio que deixou Lucien e a baronesa aturdidos; ambos se interrogaram com os olhos, a fim de obter forças um no outro contra aquela agressão; mas o irresistível poder do dono da casa triunfou e a força ficou com o marido.

— Não pense nem um pouco que estou lhe expulsando, meu caro Debray

— continuou Danglars. — Em absoluto: uma circunstância imprevista me obriga a desejar ter esta noite mesma uma conversa com a baronesa: isso me acontece muito raramente para que me guarde rancor.

Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu

esbarrando nas quinas, como Nathan em Athalie4.

— É incrível — disse ele, quando a porta voltou a se fechar — como esses maridos, que não obstante achamos tão ridículos, tomam a dianteira com facilidade!

Depois que Lucien se foi, Danglars instalou-se em seu lugar no sofá, fechou o livro que permanecera aberto e, assumindo uma pose horrivelmente pretensiosa, continuou a brincar com o cãozinho. Mas como o cão, que não tinha por ele a mesma simpatia que por Debray, quis mordê-lo, ele o agarrou pela pele do pescoço e o atirou, do outro lado do quarto, sobre uma espreguiçadeira.

 

Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu ...

O animal lançou um ganido que atravessou o recinto; porém, ao chegar à sua destinação, encolheu-se atrás de uma almofada e, estupefato com aquele tratamento ao qual não estava acostumado, quedou-se mudo e sem movimento.

— Sabia, cavalheiro — disse a baronesa, sem piscar —, que está fazendo progressos? Em geral é apenas grosseiro; esta noite, está sendo brutal.

— É porque hoje à noite estou num mau humor pior que o de costume

— respondeu Danglars.

Hermine olhou para o banqueiro com um supremo desdém. Em geral, aqueles trejeitos de seu olhar exasperavam o orgulhoso Danglars; mas naquela noite ele mal pareceu prestar atenção.

— Acha que ligo para os seus humores? — respondeu a baronesa, irritada diante da impassibilidade do marido. — Acha que essas coisas me dizem respeito? Guarde seus humores em seu quarto ou registre-os em

seus arquivos; e, uma vez que tem empregados remunerados, descarregue neles sua irritação!

— De forma alguma — respondeu Danglars. — A senhora se engana em seus conselhos; portanto, não os seguirei. Meus

escritórios são meu Pactolo5, como diz, acho, o sr. Desmoutier6, e não quero atormentar seu curso e sua calma. Meus empregados são gente honesta, que ganham minha fortuna para mim e a quem pago uma soma infinitamente abaixo do que merecem, se os avalio pelo que me proporcionam; portanto, não descarregarei neles a minha raiva, mas contra as pessoas que comem meus jantares, que dilaceram meus cavalos e dilapidam meu caixa.

— E quem são essas pessoas que dilapidam seu caixa? Explique-se mais claramente, cavalheiro, por favor.

— Oh, fique tranqüila, embora fale por enigmas, não pretendo fazê-la ruminar a resposta por muito tempo — replicou Danglars. — As pessoas que dilapidam meu caixa são aqueles que retiram de lá quinhentos mil francos no espaço de uma hora.

— Não compreendo, senhor — disse a baronesa, tentando dissimular ao mesmo tempo a perturbação da voz e o rubor do rosto.

— Pelo contrário, compreende muito bem — disse Danglars —, mas, caso sua má vontade persistir, direi que acabo de perder setecentos mil francos sobre o empréstimo espanhol.

— Ah, e essa agora! — zombou a baronesa. — E é a mim que vem culpar por essa perda?

— Por que não?

— É minha culpa se perdeu setecentos mil francos?

— Em todo caso, minha não é.

— De uma vez por todas, senhor — reagiu acerbamente a baronesa —, já lhe disse para não me falar de caixa; é uma língua que não aprendi na casa dos meus pais e nem na do meu primeiro marido.

— Tenho certeza disso — replicou Danglars —, nenhum dos dois tinha um tostão furado.

— Uma razão a mais para eu não ter aprendido na casa deles o jargão bancário, que aqui me dilacera os ouvidos o dia inteiro; esse barulho de escudos sendo contados e recontados é odioso para mim, somente o som da sua voz pode me ser ainda mais desagradável.

— Mas que coisa estranha! — disse Danglars. — E eu que acreditava que a senhora tinha o mais vivo interesse pelas minhas operações!

— Eu! E quem lhe fez acreditar nessa tolice?

— A senhora mesma.

— Ah! Logo quem!

— Sem dúvida.

— Eu gostaria que me dissesse em que ocasião?

— Oh, meu Deus, nada mais fácil! No último mês de fevereiro, a senhora foi a primeira a me falar dos investimentos no Haiti; havia sonhado que um navio entrava no porto do Havre e trazia notícia de um pagamento, supostamente adiado para as calendas gregas, que se iria realizar. Conheço a lucidez do seu sono; então mandei comprar abaixo do preço todos os títulos que pude encontrar da dívida do Haiti, e ganhei quatrocentos mil francos, dos quais cem mil lhe foram religiosamente entregues. A senhora fez deles o que bem quis, isso não me interessa.

“Em março, tratava-se de uma concessão de ferrovia. Três companhias se apresentavam, oferecendo as mesmas garantias. A senhora me disse que seu instinto, e, embora se pretenda alheia às especulações, acredito ao contrário que seu instinto é bastante aguçado em certas matérias, a senhora me disse que seu instinto a fazia crer que o privilégio seria concedido à companhia designada como do Midi.

“Inscrevi-me na mesma hora para adquirir dois terços das ações dessa companhia. O privilégio foi-lhe de fato concedido; como a senhora previra, o valor das ações triplicou, faturei um milhão, do qual duzentos e cinqüenta mil francos foram entregues à senhora a título de comissão.

Como empregou esses duzentos e cinqüenta mil francos? Isso não é da minha conta.”

— Mas aonde quer chegar, cavalheiro? — exclamou a baronesa, arrepiada pelo despeito e pela impaciência.

— Paciência, senhora, logo entenderá.

— Que alegria!

— Em abril, a senhora jantou na casa do ministro; falou-se da Espanha, e a senhora escutou uma conversa sigilosa; tratava-se da expulsão de don Carlos; comprei títulos espanhóis. A expulsão aconteceu, e ganhei seiscentos mil francos no dia em que Carlos V

transpôs o Bidassoa7.

Desses seiscentos mil francos, a senhora recebeu cinqüenta mil escudos; eles lhe pertenciam, a senhora dispôs deles ao seu capricho, e não lhe peço satisfações; mas nem por isso deixa de ser verdade que recebeu quinhentas mil libras este ano.

— Muito bem, e daí, senhor?

— Ah, sim, e daí! Pois é justamente nesse momento que a coisa toda se degrada.

— O senhor tem um jeito de falar... realmente...

— Ele ilustra a minha idéia, é tudo que preciso... Afinal, esse momento deu-se há três dias. Há três dias, portanto, a senhora conversou sobre política com o sr. Debray, e julgou perceber pelas palavras dele que don Carlos voltara à Espanha; então eu vendo meus títulos, a notícia se espalha, não vendo mais, dou; no dia seguinte, verifica-se que a notícia era falsa e que, em virtude dessa falsa notícia, perdi setecentos mil francos.

— E daí?

— E daí! Considerando que lhe dou um quarto do que ganho, é portanto um quarto que me deve quando perco; um quarto de setecentos mil francos, isso dá cento e setenta e cinco mil francos.

— Mas o que está me dizendo não faz o menor sentido, e realmente não vejo por que misturar o nome do sr. Debray nessa história toda.

— Porque, se porventura não dispuser dos cento e setenta e cinco mil francos que pleiteio, a senhora terá que pedir um empréstimo a seus amigos, e o sr. Debray é um deles.

— Que absurdo! — gritou a baronesa.

— Oh! Nada de gestos, nada de gritos, nada de drama moderno, senhora, caso contrário me obrigaria a dizer que vejo daqui o sr. Debray rindo junto às quinhentas mil libras que lhe auferiu este ano, e dizendo consigo mesmo que finalmente encontrou o que os mais hábeis jogadores nunca conseguiram, isto é, uma roleta em que se ganha sem apostar e em que não se perde quando se perde.

A baronesa quis explodir.

— Miserável! — disse ela. — Tem a audácia de dizer que não sabia do que se atreve a me recriminar hoje?

— Não estou dizendo que sabia, não estou dizendo que não sabia, o que eu digo é: observe meu comportamento de quatro anos para cá, quando deixou de ser minha mulher e eu, seu marido, e verá que foi coerente. Um pouco antes do nosso rompimento, a senhora desejou estudar música com esse famoso barítono que estreou com tanto sucesso no Teatro Italiano; quanto a mim, quis estudar dança com aquela bailarina de imensa reputação em Londres. Isso me custou, tanto no seu caso como no meu, cerca de cem mil francos. Não falei nada porque a harmonia deve reinar

entre os casais. Cem mil francos para que o homem e a mulher conheçam profundamente dança e música, não é muito caro. Não demorou muito, e eis que a senhora se cansou do canto e deu-lhe na veneta estudar diplomacia com um secretário de ministro; eu permito que o faça. A senhora compreende: que me importa, se paga as aulas com seu patrimônio? Mas hoje percebo que a senhora está tirando do meu, e que seu aprendizado pode me custar setecentos mil francos por mês. Alto lá, senhora, isso não pode continuar assim. Ou o diplomata dará aulas...

gratuitas, e o tolerarei, ou ele não porá mais o pé na minha casa; está ouvindo, senhora?

— Oh, isso é demais, cavalheiro! — gritou Hermine, sufocada. — Está passando dos limites da ignomínia.

— Mas — disse Danglars — vejo com prazer que a senhora não fica aquém e que obedeceu voluntariamente a este axioma do Código: “A mulher deve obedecer seu marido.”

— Ofensas agora!

— Tem razão: vamos nos ater aos fatos e raciocinemos friamente.

Nunca me intrometi nos seus negócios a não ser para o seu bem; aja da mesma maneira. Meu caixa não lhe diz respeito, segundo me disse? Então mexa no seu, mas não encha nem esvazie o meu.

Aliás, quem sabe se tudo isso não é um golpe de Jarnac político8; se o ministro, furioso por me ver na oposição, e com inveja das simpatias populares que desperto, não está de conluio com o sr. Debray para me arruinar?

— É muito provável!

— Mas claro; quem já viu uma coisa dessas... uma falsa notícia telegráfica, isto é, o impossível, ou quase; sinais completamente diferentes transmitidos pelos dois últimos telégrafos...! Foi uma coisa armada expressamente contra mim, na verdade.

— Senhor — disse a baronesa com mais humildade —, julgo que não ignora que esse empregado foi demitido, que inclusive falou-se em processá-lo, que a ordem havia sido para prendê-lo e que essa ordem teria sido executada caso ele não houvesse se esquivado às primeiras investigações com uma fuga que prova ou sua loucura ou sua culpa... Está cometendo um erro.

— Sim, que faz rir os simplórios, que tira o sono de uma noite do ministro, que escurece as folhas de papel dos srs. secretários de Estado, mas que a mim custa setecentos mil francos.

— Mas, cavalheiro — disse subitamente Hermine —, uma vez que tudo isso, segundo suas palavras, é culpa do sr. Debray, por quê, em vez de dizêlo diretamente ao sr. Debray, vem dizê-lo a mim? Por que acusa o homem e desconta na mulher?

— Por acaso eu conheço o sr. Debray? — replicou Danglars. — Por acaso desejo conhecê-lo? Por acaso quero saber dos seus conselhos? Por acaso quero segui-los? Acha que estou brincando? Não, é a senhora que faz tudo isso, não eu!

— Mas me parece, uma vez que usufrui deles... Danglars deu de ombros.

— Criaturas loucas, realmente, essas mulheres que se julgam geniais porque urdiram uma ou dez intrigas e conseguiram passar desapercebidas em toda Paris! Pois saiba que, ainda que tivesse escondido seus desregramentos do seu próprio marido, o que é o abecê da arte, pois na maior parte do tempo os maridos não querem enxergar, a senhora não passaria de uma pálida cópia do que faz metade de suas amigas, mulheres da sociedade. Mas comigo, não; enxerguei e continuo enxergando; em dezesseis anos, mais ou menos, a senhora talvez tenha conseguido esconder de mim um pensamento ou outro, mas não um procedimento, uma ação, um erro. Ao passo que a senhora, por sua vez, aplaudiase por sua habilidade e acreditava piamente me enganar. Qual foi o resultado disso? Graças à minha pretensa ignorância, do sr. de Villefort ao sr.

Debray, não há amigo seu que não tenha tremido à minha frente. Não há um que não me tenha tratado como dono da casa, minha única pretensão junto à senhora; não há um, enfim, que lhe tenha ousado dizer sobre mim o que hoje eu mesmo lhe digo. Permito que a senhora me torne odioso, mas não que me torne ridículo, e, acima de tudo, proíbo-a, com todas as letras, de me levar à falência.

Até o momento em que o nome de Villefort foi pronunciado, a baronesa conseguira se comportar; a esse nome, porém, empalideceu, levantando-se como movida por uma mola, esticou o braço como se conjurasse uma aparição e deu três passos em direção ao marido, como para lhe arrancar o fim do segredo que ele conhecia ou que talvez, em virtude de algum plano odioso, como eram todos os planos de Danglars, não queria deixar escapar completamente.

— O sr. de Villefort? Que significa isso? Que está sugerindo?

— Isso significa, senhora, que o sr. de Nargonne, seu primeiro marido, não sendo nem um filósofo, nem um banqueiro, ou talvez sendo ambos, e

vendo que não havia nenhuma vantagem a tirar de um procurador do rei, morreu de sofrimento ou de raiva por tê-la encontrado grávida de seis meses após uma ausência de nove. Sou brutal, não somente sei disso, como disso me gabo: é um dos meus métodos bem-sucedidos nas minhas transações comerciais. Por quê, em vez de matar, ele se matou? Porque não tinha fortuna para salvar. Quanto a mim, porém, tenho compromissos com o meu caixa. O sr. Debray, meu sócio, me faz perder setecentos mil francos, pois que assuma sua parte na perda e toquemos nossos negócios.

Caso contrário, que me trapaceie nessas cento e setenta e cinco mil libras e aja como agem os trapaceiros, que desapareça. Claro, é um rapaz simpático, sei disso, quando suas informações estão corretas; porém, quando não estão, há cinqüenta no mundo que valem mais que ele.

A sra. Danglars estava aterrada. Mesmo assim, fez um esforço supremo para responder a esse último ataque. Afundou numa poltrona, pensando em Villefort, na cena do jantar, naquela estranha série de tragédias que havia alguns dias abatia-se sucessivamente sobre sua casa e transformava em escandalosas discussões a calma acolchoada do seu lar. Danglars sequer a olhava, embora ela fizesse de tudo para desmaiar. Ele puxou a porta do quarto sem acrescentar uma palavra e voltou para seus aposentos; de maneira que a sra. Danglars, ao voltar do seu desmaio de araque, chegou a crer que tivera um pesadelo.

1 “teatro da rua Richelieu”: ou seja, a Comédie Française.

2 Motu proprio: latim para “por movimento próprio” .