O Conde de Monte Cristo
17. O encontro
5 Catacumbas de São Sebastião (ou cemitério de São Calisto): originalmente, longos corredores escavados para a retirada da areia do local. Mais tarde, foram aumentados e utilizados pelos cristãos, que lá se escondiam e enterravam seus mortos.
6 Circo de Caracala: construção de grandes dimensões, em formato oblongo, conhecida por esse nome até 1825, quando então passou a ser conhecida como Circo de Maxêncio.
17. O encontro
No dia seguinte, a primeira frase de Albert ao se levantar foi para sugerir a Franz uma visita ao conde. Já lhe agradecera na véspera, mas julgava que um favor como o que ele lhe prestara merecia muito bem dois agradecimentos.
Franz, que um misto de atração e terror impelia para o conde de Monte Cristo, não quis deixar Albert sozinho na companhia daquele homem e o acompanhou; ambos foram introduzidos na sala de estar: cinco minutos depois, o conde surgiu.
— Sr. conde — disse-lhe Albert, caminhando em sua direção —, permita-me repetir esta manhã o que disse ontem de maneira débil: nunca esquecerei em que circunstância o senhor me socorreu, sempre me lembrarei que lhe devo a vida, ou quase isso.
— Meu caro vizinho — respondeu o conde rindo —, o senhor exagera em suas cortesias para com a minha pessoa. Sua dívida não passa de uma economia de cerca de vinte mil francos em seu orçamento de viagem, e isso é tudo; portanto, não falemos mais nisso. Por outro lado, receba todos os meus cumprimentos, seu comportamento altivo e tranqüilo faz jus a elogios.
— Não foi nada de mais, conde! — disse Albert. — Imaginei que tivesse me metido numa confusão e que um duelo tivesse se seguido, e quis mostrar uma coisa àqueles bandidos: é que se duela em todos os países do mundo, mas apenas os franceses duelam rindo. Todavia, como nem por isso minha gratidão é menor, venho lhe perguntar se, por meu intermédio, dos meus amigos e conhecidos, não lhe posso ser útil em alguma coisa. Meu pai, o conde de Morcerf, que é de origem espanhola, ocupa uma posição privilegiada na França e na Espanha; venho me colocar, a mim e a todas as pessoas que me amam, a seu dispor.
— Não foi nada de mais, conde! Imaginei que tivesse me metido numa confusão e que um duelo tivesse se seguido.
— Perfeito! — disse o conde. — Admito, sr. de Morcerf, que esperava sua oferta e aceito-a de bom grado. Tenho uma coisa em vista e gostaria de lhe pedir um imenso favor.
— Qual?
— Nunca estive em Paris; não conheço Paris...
— Verdade?! — exclamou Albert. — Conseguiu viver até hoje sem ver Paris? É inacreditável!
— Entretanto, é assim; mas sinto, como o senhor, que ignorar por mais tempo a capital do mundo inteligente é coisa impossível. E tem mais: talvez eu já tivesse feito essa viagem indispensável tempos atrás se houvesse conhecido alguém para me introduzir nesse mundo onde não tenho quaisquer relações.
— Oh, um homem como o senhor! — exclamou Albert.
— É muita bondade sua; mas, como não me atribuo outro mérito senão o de poder competir, na condição de milionário, com o sr. Aguado ou o sr.
Rothschild1, e como não vou a Paris para jogar na Bolsa, essa pequena circunstância me refreou. Agora sua oferta me faz decidir. Vejamos, compromete-se, meu caro sr. de Morcerf — o conde acompanhou essas palavras com um sorriso singular —, compromete-se, quando eu for à França, a me abrir as portas desse mundo onde causarei tanta espécie quanto um hurão ou um cochinchinês?
— Oh, quanto a isto, sr. conde, deliciado e de coração aberto! —
respondeu Albert. — Nada mais a propósito por sinal (meu caro Franz, não goze com a minha cara), visto que fui chamado a Paris por uma carta que recebi justamente esta manhã, cujo teor é a minha aliança com uma família muito simpática e com as melhores relações na sociedade parisiense.
— Aliança por casamento? — disse Franz rindo.
— Oh, meu Deus, sim! Portanto, quando voltar a Paris vai me encontrar um homem ponderado e talvez pai de família. O que combina bastante com a minha gravidade natural, não é mesmo? Em todo caso, conde, repito, eu e os meus estamos à sua disposição de corpo e alma.
— Aceito — disse o conde —, pois juro que só me faltava uma oportunidade como esta para concretizar planos que há muito venho ruminando.
Franz não duvidou um único instante de que esses planos eram os mesmos acerca dos quais o conde deixara escapar uma pista na caverna de Monte Cristo, e olhou para o conde enquanto ele dizia essas palavras, tentando captar em sua fisionomia alguma revelação dos planos que o levavam a Paris; mas era muito difícil perscrutar a alma daquele homem, sobretudo quando ele a cobria com o véu de um sorriso.
— Agora, falando sério, conde — disse Albert, encantado pela oportunidade de ciceronear um homem como Monte Cristo —, esses planos não seriam daqueles que se esfumam, como os que fazemos mil quando viajamos e que, construídos com areia, são carregados pela primeira brisa?
— Não, palavra de honra — prometeu o conde. — Quero ir a Paris, preciso ir.
— E quando será isso?
— Ora, quando o senhor mesmo estará por lá?
— Eu — disse Albert —, oh, meu Deus! Dentro de quinze dias ou três semanas no mais tardar; o tempo de voltar.
— Muito bem! — disse o conde. — Dou-lhe três meses; como vê, doulhe bastante folga.
— E daqui a três meses — exclamou Albert com alegria — o senhor baterá à minha porta?
— Quer um encontro com dia e hora marcados? — perguntou o conde.
— Aviso-lhe que sou de uma pontualidade desesperadora.
— Dia e hora marcados — disse Albert. — Para mim, está ótimo.
— Pois seja — ele esticou a mão até um calendário pendurado perto do espelho. — Estamos, hoje, em 21 de fevereiro — ele sacou o relógio —, são dez e meia da manhã. Quer me esperar no dia 21 de maio próximo, às dez e meia da manhã?
— Perfeitamente! — disse Albert. — O almoço estará pronto.
— O senhor mora...
— Na rua du Helder no27.
— Não vou importuná-lo em sua casa?
— Moro na casa do meu pai, mas num pavilhão independente no fundo do quintal.
— Ótimo.
O conde pegou sua agenda e escreveu: “Rua du Helder no27, 21 de maio, às dez e meia”.
— E agora — disse o conde, guardando de volta a agenda no bolso —, fique tranqüilo, o ponteiro do seu relógio não será tão preciso quanto o meu.
— Ainda o vejo antes de partir? — perguntou Albert.
— Depende: quando irá partir?
— Amanhã, às cinco da tarde.
— Nesse caso, despeço-me agora. Tenho um compromisso em Nápoles e só estarei de volta aqui no sábado ou na manhã de domingo. E o senhor —
perguntou a Franz —, também está de partida, sr. barão?
— Sim.
— Para a França?
— Não, para Veneza. Ainda fico um ou dois anos na Itália.
— Então não nos veremos em Paris?
— Receio não ter essa honra.
— Muito bem, cavalheiros, boa viagem — disse o conde aos dois amigos, estendendo a cada um uma das mãos.
Era a primeira vez que Franz tocava na mão daquele homem; estremeceu, pois era gelada como a de um defunto.
— Pela última vez — disse Albert —, a combinação está valendo, o senhor me deu sua palavra de honra, não foi? Rua du Helder no27, 21 de maio, às dez e meia da manhã?
— 21 de maio, às dez e meia da manhã, rua du Helder no27 — repetiu o conde.
Ao que os dois rapazes cumprimentaram o conde e saíram.
— O que há com você? — disse Albert a Franz ao chegarem no hotel.
— Parece preocupado.
— Sim — disse Franz —, admito, o conde é um homem singular, e vejo com preocupação esse encontro marcado em Paris.
— Esse encontro... com preocupação! Que coisa! Está maluco, meu caro Franz? — exclamou Albert.
— Que posso fazer — disse Franz —, maluquice ou não, é assim.
— Escute — replicou Albert —, e fico feliz por esta oportunidade de lhe dizer isso, mas você sempre me pareceu muito frio com o conde, que, por sua vez, ao contrário, sempre achei perfeito conosco. Tem alguma coisa específica contra ele?
— Talvez.
— Já o havia encontrado em algum lugar antes de o encontrar aqui?
— Exatamente.
— Onde isso?
— Promete não repetir uma palavra do que vou lhe contar?
— Prometo.
— Palavra de honra?
— Palavra de honra.
— Ótimo. Então escute.
E Franz pôs-se a contar a Albert sua expedição à ilha de Monte Cristo, como encontrara uma tripulação de contrabandistas e, no meio dessa tripulação, dois bandidos corsos. Deteve-se em todas as circunstâncias da hospitalidade feérica que o conde lhe proporcionara em sua gruta das Mil e uma noites; contou-lhe a ceia, o haxixe, as estátuas, a realidade e o sonho, e como, ao despertar, nada mais restava como prova e lembrança de todos aqueles acontecimentos, a não ser o pequeno iate fazendo velas ao horizonte, rumo a Porto Vecchio.
Passou então a Roma, à noite do Coliseu, à conversa que ouvira entre ele e Vampa, relativa a Peppino e durante a qual o conde prometera obter o indulto para o bandido, promessa que tão bem cumprira, como nossos leitores puderam avaliar.
Chegou em seguida à aventura da noite precedente, ao embaraço em que se vira ao constatar que lhe faltavam seiscentas ou setecentas piastras para completar o resgate e, finalmente, à idéia que tivera de se dirigir ao conde, idéia que deu ao mesmo tempo resultado tão pitoresco e satisfatório.
Albert escutava Franz com todos os ouvidos.
— E daí!? — exclamou quando ele terminou. — Onde vê nisso tudo alguma coisa a ser censurada? O conde é um viajante, o conde é proprietário de um barco, uma vez que é rico. Vá a Portsmouth ou a Southampton, verá os portos apinhados de iates pertencentes a ricos ingleses que têm o mesmo capricho. Para ter onde pernoitar nessas viagens, para não comer essa pavorosa cozinha que nos envenena, eu, há quatro meses, você há quatro anos; para não deitar nessas camas abomináveis nas quais não se consegue dormir, nada melhor que equipar um ninho em Monte Cristo. Após equipar seu ninho, ele teme que o governo toscano o despeje e que seus gastos tenham sido vãos, então compra a ilha e assume seu nome. Meu caro, procure na memória, e digame quantos conhecidos seus apropriam-se do nome de propriedades que nunca possuíram.
— Mas — disse Franz a Albert — e os bandidos corsos em meio à tripulação?
— Ora, o que há de espantoso nisso? Sabe melhor que ninguém, é ou não é?, que os bandidos corsos não são ladrões, mas pura e simplesmente fugitivos que alguma vendetta exilou de sua cidade ou aldeia; podemos portanto conhecê-los sem nos comprometer; quanto a mim, declaro que se um dia for a Córsega, antes de me apresentar ao chefe de polícia e ao governador, vou me apresentar
aos bandidos de Colomba2, se é que é possível encontrá-los; eles me parecem encantadores.
— Mas Vampa e seu bando — retorquiu Franz —, estes são bandidos que atacam para roubar; espero que não negue isso. Que me diz da influência do conde sobre esses homens?
— Digo, meu caro, que, como segundo toda a probabilidade devo a vida a essa influência, não me cabe criticá-la intempestivamente. Portanto, em vez de considerá-la, como faz você, um crime capital, você deve
compreender que eu a desculpe, se não por ter salvo a minha vida, o que talvez seja um pouco exagerado, pelo menos por me haver feito poupar quatro mil piastras, o que significa simplesmente vinte e quatro mil libras na nossa moeda, soma que ninguém estima que eu valha na França; o que prova — acrescentou Albert, rindo — que ninguém é profeta em sua terra.
— Pois justamente! Qual é a terra do conde? Que língua ele fala? Quais são seus meios de subsistência? De onde vem sua imensa fortuna? Qual foi essa primeira parte de sua vida, misteriosa e desconhecida, que tingiu a segunda com essa tonalidade sombria e misantrópica? Eis, no seu lugar, o que eu gostaria de saber.
— Meu caro Franz — replicou Albert —, quando, ao receber a minha carta, você percebeu que precisávamos da influência do conde, você deve ter dito a ele: “Albert de Morcerf, meu amigo, corre perigo, ajude-me a livrá-lo desse perigo”! Não foi assim?
— Foi.
— Terá ele lhe perguntado: Quem é esse sr. Albert de Morcerf? Qual a origem desse nome? De onde lhe vem sua fortuna? Quais são seus meios de subsistência? Onde nasceu? Ele lhe perguntou tudo isso? Responda!
— Não, admito.
— Ele foi até lá, sem rodeios. Livrou-me das garras do sr. Vampa, onde apesar da minha atitude cheia de desenvoltura, como você diz, eu não fazia um belo papel, confesso. Pois bem, meu caro, quando em troca desse favor ele me pede para fazer por ele o que fazemos todos os dias para o primeiro príncipe russo ou italiano que passa por Paris, isto é, apresentá-lo à sociedade, quer que eu me negue! Há de convir que enlouqueceu.
Vale ressaltar que dessa vez, excepcionalmente, toda a razão estava do lado de Albert.
— Enfim — disse Franz com um suspiro —, faça como quiser, meu caro visconde; pois tudo que me diz é muito apropriado, tenho que admitir; mas nem por isso deixa de ser verdade que o conde de Monte Cristo é um homem estranho.
— O conde de Monte Cristo é um filantropo. Ele não lhe contou com que objetivo vai a Paris. Pois bem, ele vai para concorrer aos
prêmios Montyon3; e, se bastar a minha voz para que os obtenha, e
a influência desse cavalheiro tão feio4 para isso se concretizar, ótimo! Eu lhe dou uma e lhe asseguro a outra. Chega desse assunto, meu caro Franz, vamos comer e depois façamos uma última visita a São Pedro.
Fizeram como dizia Albert, e, no dia seguinte, às cinco horas da tarde, os dois rapazes se despediam, Albert de Morcerf para voltar a Paris, Franz d’Épinay para passar quinze dias em Veneza.
Porém, antes de entrar no coche, Albert ainda entregou ao contínuo do hotel, tamanho era seu receio de que seu convidado faltasse ao encontro, um cartão para o conde de Monte Cristo, no qual, acima destas palavras:
“Visconde Abert de Morcerf ”, ele escrevera a lápis:
21 de maio, às dez e meia da manhã,
rua du Helder no 27
1 “sr. Aguado ou sr. Rothschild”: Alejandro-Maria Aguado (1784-1842), marquês de Marimas del Guadalquivir, agente financeiro espanhol, radicado na França desde 1815; James Mayer de Rothschild (1792-1868), fundador do braço francês da célebre casa bancária de sua família.
2 Colomba: novela de Prosper Merimée (1803-70), que entretanto seria publicada apenas em 1840, ou seja, dois anos depois do episódio narrado neste capítulo.
3 “prêmios Montyon”: prêmios concedidos post-mortem pelo grande filantropo AntoineJean-Baptiste-Robert Auget, barão de Montyon (1733-1820), que legou sua fortuna para ser distribuída, anualmente, nos seguintes prêmios: pelo aperfeiçoamento de processos mecânicos visando a segurança dos trabalhadores; pelo aperfeiçoamento de processos mecânicos em geral; pelo livro de maior contribuição à humanidade; o “prêmio virtude”, para o ato mais corajoso realizado por um francês pobre; além de prêmios para as academias de estudo e de uma doação para os hospitais de Paris.
4 “desse cavalheiro tão feio” : possível referência a Charles-Guillaume Étienne (1777-1845), jornalista, fundador do jornal Constitutionnel, escritor de sucesso, adversário dos escritores românticos, entre eles Alexandre Dumas, e que presidiu o júri dos prêmios Montyon em 1839.