O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 46 de 119

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O Conde de Monte Cristo

6. A vendetta

— E que tinha no sistema judiciário a reputação do magistrado mais honesto, mais severo, mais rigoroso?

— Pois bem, senhor! — exclamou Bertuccio. — Esse homem de reputação inatacável...

— Sim.

— Era um canalha.

— Bah! — fez Monte Cristo. — Impossível!

— Entretanto, é como lhe digo.

— Jura? — duvidou Monte Cristo. — E tem uma prova disso?

— Pelo menos, tinha.

— E a perdeu, cabeça-de-vento?

— Perdi; mas procurando bem, podemos encontrar.

— Sério?! — disse o conde. — Conte-me isso, sr. Bertuccio! Pois isso começa a me interessar de verdade.

E o conde, cantarolando uma pequena ária da Lucia1, foi sentar-se num banco, enquanto Bertuccio o seguia ruminando suas lembranças.

Bertuccio ficou de pé à sua frente.

1 “uma ária da Lucia”: subentende-se Lucia de Lammermoor, ópera de Donizetti.

6. A vendetta

De que ponto o sr. conde quer que eu comece a contar? — perguntou Bertuccio.

— Ora, do ponto que quiser — disse Monte Cristo —, uma vez que não sei absolutamente nada.

— Porém, eu julgava que o sr. abade Busoni contara à Vossa Excelência...

— Sim, alguns detalhes possivelmente, mas sete ou oito anos se passaram desde então, e esqueci tudo.

— Quer dizer que posso, sem receio de aborrecer Vossa Excelência...

— Comece, sr. Bertuccio, comece, vai ser para mim como o jornal vespertino.

— Os fatos remontam a 1815.

— Ah, ah! — disse Monte Cristo. — Isso não é ontem, 1815.

— Não, senhor, e no entanto os menores detalhes estão presentes em minha memória, como se estivéssemos hoje no dia seguinte. Eu tinha um irmão, um irmão mais velho, que estava a serviço do imperador. Ele era tenente num regimento formado inteiramente por corsos. Esse irmão era o meu único amigo; tínhamos ficado órfãos, eu aos cinco anos, ele aos dezoito; ele me criara como se fosse seu filho. Em 1814, sob os Bourbon, havia se casado; o imperador voltou da ilha de Elba, meu irmão logo retomou o serviço militar e, levemente ferido em Waterloo, retirou-se com o exército para o outro lado do Loire.

— Mas é a história dos Cem Dias que está a me contar, sr. Bertuccio —

interrompeu o conde —, e ela já se acha escrita, se não me engano.

— Perdão, Excelência, mas esses primeiros detalhes são necessários, e o senhor me prometeu paciência.

— Em frente! Em frente! Minha palavra é uma só.

— Um dia, recebemos uma carta; preciso lhe dizer que morávamos na pequena aldeia de Rogliano, na ponta do cabo corso; essa carta era do meu irmão; ele nos dizia que o exército fora dispersado e que estava retornando por Châteauroux, Clermont-Ferrand, Le Puy e Nîmes; se eu tivesse algum dinheiro, ele me pediria que o deixasse à sua disposição em Nîmes, com um estalajadeiro nosso conhecido, com quem eu mantinha algumas relações.

— De contrabando — comentou Monte Cristo.

— Ora, meu Deus, sr. conde, temos que sobreviver.

— Naturalmente; continue então.

— Eu gostava muito do meu irmão, já lhe disse Excelência; assim, resolvi, não apenas lhe enviar o dinheiro, mas levá-lo pessoalmente. Eu possuía mil francos, deixei quinhentos para Assunta, minha cunhada; peguei os outros quinhentos e pus-me a caminho de Nîmes. Era coisa fácil, eu tinha meu barco, um carregamento a fazer no mar; tudo favorecia o meu plano. Porém, feito o carregamento, o vento virou, de maneira que ficamos quatro ou cinco dias sem condições de entrar no Ródano.

Finalmente conseguimos; subimos até Arles; deixei o barco entre Bellegarde e Beaucaire, tomando o rumo de Nîmes.

— Estamos chegando, pois não?

— Sim, senhor: desculpe, mas como Vossa Excelência verá, menciono apenas detalhes absolutamente necessários. Pois bem,

era a época dos violentos massacres no Midi1. Havia por lá dois ou três salteadores conhecidos como Trestaillon, Truphemy e Graffan, que degolavam nas ruas todos os suspeitos de bonapartismo. O sr. conde provavelmente há de ter ouvido falar desses assassinatos?

— Vagamente, eu estava muito longe da França nessa época. Continue.

— Ao entrar em Nîmes marchava-se literalmente em sangue; a cada passo, um monte de cadáveres: os assassinos, organizados em bandos, matavam, saqueavam e incendiavam.

“Diante dessa carnificina, senti um calafrio, não por mim; eu, simples pescador corso, não tinha muita coisa a temer; ao contrário, aqueles eram bons tempos para nós, contrabandistas, mas pelo meu irmão, meu irmão soldado do Império, retornando do exército do Loire com seu uniforme e suas dragonas, o qual, por conseguinte, tinha tudo a temer.

“Corri até o nosso estalajadeiro. Meus pressentimentos não me haviam enganado: meu irmão chegara na véspera a Nîmes e, precisamente na porta daquele a quem acabava de pedir hospitalidade, fora assassinado.

“Fiz o diabo para identificar os assassinos, mas ninguém se atreveu a dizer seus nomes, tanto medo tinham. Pensei então naquela justiça francesa, de que tanto me haviam falado, que por sua vez não teme nada, e me apresentei ao procurador do rei.”

— E esse procurador do rei chamava-se Villefort? — perguntou distraidamente Monte Cristo.

— Sim, Excelência: ele vinha de Marselha, onde havia sido substituto.

Seu zelo levou-o a ser promovido. Fora um dos primeiros, pelo que se dizia, a anunciar ao governo a partida da ilha de Elba.

— Então — volveu Monte Cristo —, o senhor se apresentou na casa dele.

— Senhor, eu lhe disse, meu irmão foi assassinado ontem nas ruas de Nîmes; não sei quem cometeu o crime, mas é sua missão descobri-lo. O

senhor é o chefe da justiça daqui, e cabe à justiça vingar os que ela não soube defender.

“— E o que fazia o seu irmão? — perguntou o procurador do rei. “—

Era tenente no batalhão corso.

“— Um soldado do usurpador, então? “— Um soldado dos exércitos franceses.

“— Que seja! — ele replicou. — Fez uso da espada e pereceu pela espada. “— Está enganado, senhor; pereceu pelo punhal.

“— Que quer que eu faça? — indagou o magistrado. “— Mas já lhe disse: quero que o vingue.

“— E de quem?

“— De seus assassinos.

“— E porventura os conheço? “— Mande-os procurar.

“— Para quê? Seu irmão deve ter arrumado alguma discussão e sido morto num duelo. Todos esses soldados veteranos são levados por excessos que, se lhes valiam louvores sob o Império, agora depõem contra eles; ora, nossa gente do Midi não gosta nem dos soldados, nem dos excessos.

“— Senhor — insisti —, não é por mim que peço. Eu, posso chorar ou me vingar, e pronto; mas o coitado do meu irmão deixou uma mulher. Já se me acontecer algum infortúnio, essa pobre criatura morrerá de fome, pois ela só tinha o trabalho do meu irmão para sobreviver. Consiga uma pensãozinha do governo para ela.

“— Cada revolução tem suas catástrofes — respondeu o sr. de Villefort

—, seu irmão foi vítima desta, é uma fatalidade, e o governo não deve nada à sua família por isso. Se tivéssemos que julgar todas as vinganças que os partidários do usurpador praticaram contra os partidários do rei quando, por sua vez, detinham o poder, seu irmão hoje talvez fosse condenado à morte. O que aconteceu foi algo absolutamente corriqueiro, pois é a lei da represália.

“— Ora, senhor! — exclamei. — Como pode falar assim comigo, o senhor, um magistrado...!

“— Todos os corsos são loucos, palavra de honra! — respondeu o sr. de Villefort. — Continuam a acreditar que seu compatriota é imperador. O

senhor errou de época, meu caro; devia ter me dito isso dois meses atrás.

Hoje é tarde demais; saia, portanto, e, se não sair, chamo alguém para tirá-lo daqui. “Olhei para ele por um instante para ver se com uma nova súplica haveria alguma esperança. Aquele homem era de pedra.

Aproximei-me dele:

“— Pois bem — eu lhe disse a meia-voz —, uma vez que conhece os corsos, deve saber que eles cumprem com sua palavra. O senhor julga terem agido corretamente matando meu irmão, que era bonapartista, porque o senhor é monarquista; pois bem! Eu, que também sou bonapartista, declarolhe uma coisa: é que vou matá-lo, ao senhor. A partir deste momento eu lhe anuncio a vendetta; portanto, preste bem atenção e cuide-se tanto quanto puder, pois, na primeira vez em que nos virmos cara a cara, sua última hora terá chegado.

“E, com essas palavras, antes que ele se recuperasse da surpresa, abri a porta e escapei.”

— Ah, ah! — admirou-se Monte Cristo. — Com a sua cara honesta o senhor faz uma coisa dessas, senhor Bertuccio, e com um procurador do rei ainda por cima! Mas que coisa! E ele pelo menos sabia o que significava essa palavra, vendetta?

— Sabia tão bem que a partir daquele momento não saiu mais sozinho e se trancou em casa, ordenando que me procurassem por toda parte.

Felizmente, eu estava tão bem escondido que ele não conseguiu me encontrar. Então, foi invadido pelo medo; tremeu ao pensar que ainda tinha de permanecer em Nîmes por um longo tempo; solicitou sua transferência e, como era de fato um homem influente, foi nomeado para Versalhes; mas, como o senhor sabe, não existe distância para um corso que jurou vingança contra o inimigo, e seu coche, por mais bem conduzido que fosse, nunca teve mais de meio dia de vantagem à minha frente, que, não obstante, o seguia a pé.

“O importante não era matá-lo, tive cem oportunidades para isso, mas matá-lo sem ser desmascarado e, sobretudo, sem ser preso. Daí em diante eu não me pertencia mais; tinha que proteger e alimentar minha cunhada.

Durante três meses espionei o sr. de Villefort; durante três meses ele não

deu um passo, uma saída, um passeio que meu olhar não o seguisse aonde ele fosse. Acabei descobrindo que ele vinha misteriosamente a Auteuil: segui-o mais uma vez e o vi entrar nesta casa onde estamos; porém, em vez de entrar como todo mundo pela porta da rua, ele vinha, seja a cavalo, seja de coche, deixava coche ou cavalo no albergue e entrava por esse portãozinho que o senhor está vendo.”

Monte Cristo fez um sinal com a cabeça, demonstrando que, em meio à escuridão, distinguia efetivamente a passagem indicada por Bertuccio.

— Eu não tinha mais o que fazer em Versalhes, fixei-me em Auteuil e me informei. Se quisesse pegá-lo, era aqui, e evidentemente, aqui que eu devia preparar minha armadilha.

“— A casa pertencia, como o caseiro disse à Vossa Excelência, ao sr. de Saint-Méran, sogro de Villefort. O sr. de Saint-Méran morava em Marselha; por conseguinte, essa casa de campo era inútil para ele. Dessa forma, eu soube que ele acabava de alugá-la para uma jovem viúva, conhecida apenas pelo título de baronesa.

“Com efeito, uma noite, observando por cima do muro, vi uma mulher jovem e esbelta passeando sozinha nesse jardim, que não era devassado por nenhuma janela estranha; ela olhava freqüentemente para o lado do portãozinho, e compreendi que naquela noite esperava o sr. de Villefort.

Quando ficou suficientemente perto de mim para que, a despeito da escuridão, eu pudesse distinguir seus traços, vi uma bela rapariga de dezoito a dezenove anos, alta e loura. Como ela não vestia senão um penhoar e nada distorcesse seu perfil, pude observar que estava grávida e que sua gravidez parecia inclusive bastante avançada.

“Instantes depois, o portãozinho foi aberto; um homem entrou; a moça correu o mais rápido que pôde ao seu encontro; atiraram-se nos braços um do outro, beijaram-se carinhosamente e voltaram juntos para a casa.

“Esse homem era o sr. de Villefort. Presumi que, ao sair, sobretudo se saísse à noite, ele devia atravessar sozinho o jardim em todo o seu comprimento.”

— E — perguntou o conde — soube o nome dessa mulher depois disso?

— Não, Excelência — respondeu Bertuccio. — Como verá, não tive tempo de saber.

— Continue.

— Eu poderia até ter matado o procurador do rei aquela noite —

continuou Bertuccio —, mas ainda não conhecia o jardim suficientemente

bem em todos os seus detalhes. Fiquei com medo de não matá-lo de uma vez só e, caso alguém acorresse aos seus gritos, não conseguir fugir. Adiei o plano para o encontro seguinte. Para que nada me escapasse, aluguei um quartinho com vista para a rua que passava defronte ao muro do jardim.

“Três dias depois, por volta das sete da noite, vi, saindo da casa, um criado a cavalo, o qual se pôs a galope pelo caminho que dá na estrada de Sèvres; presumi que tomava o rumo de Versalhes. Eu não estava enganado.

Três horas mais tarde, o homem voltou coberto de poeira; havia entregue a mensagem.

“Dez minutos depois, outro homem a pé, envolvido num casaco, abriu o portão do jardim, que se fechou atrás dele.

“Desci rapidamente. Embora não tivesse visto o rosto de Villefort, reconheci-o pelas batidas do meu coração. Atravessei a rua e fui até um poste situado na extremidade do muro, com a ajuda do qual eu espionara o jardim da primeira vez.

“Dessa vez não me contentei em espionar; tirei minha faca do bolso, certifiquei-me de que a ponta estava bem afiada e pulei o muro.

“Minha primeira preocupação foi correr até a porta; ele deixara a chave do lado de dentro, tomando a simples precaução de dar duas voltas na fechadura. “Nada impedia, portanto, minha fuga por aquele lado. Pus-me a estudar os espaços. O jardim formava um quadrado comprido, um gramado de finas folhas inglesas estendia-se no meio, nos cantos desse gramado ficavam arvoredos frondosos e entremeados por flores outonais.

“Para ir da casa até o pequeno portão, ou dele até a casa, entrando ou saindo, o sr. de Villefort era obrigado a passar rente a um desses arvoredos.

“Estávamos no fim de setembro; o vento soprava com força; uma réstia de lua pálida, e velada a cada instante por grossas nuvens que deslizavam rapidamente pelo céu, embranquecia o cascalho das aléias que levavam à casa, mas não conseguia atravessar a escuridão daqueles arvoredos frondosos, onde um homem podia ficar de tocaia sem temor de ser detectado.

“Escondi-me naquele mais próximo ao percurso provável de Villefort; assim que me instalei, em meio às lufadas de vento que vergavam as árvores acima da minha cabeça, julguei distinguir algo semelhante a gemidos. Mas, o senhor sabe, ou melhor, não sabe, sr. conde, que aquele que espera o momento de cometer um assassinato julga sempre ouvir

gritos roucos no ar. Duas horas se passaram, durante as quais, por diversas vezes, julguei ouvir os mesmos gemidos. Deu meia-noite.

“Quando o último som ainda vibrava, feito um eco lúgubre, percebi uma luminosidade nas janelas da escada secreta pela qual descemos há pouco.

“A porta se abriu e o homem do casaco reapareceu. Chegara o momento terrível; mas eu me preparara tão intensamente para aquele momento que nada esmoreceu dentro de mim; puxei a faca, preparei-a e fiquei a postos.

“O homem do casaco veio em linha reta na minha direção; porém, à medida que avançava no descampado, julguei notar que tinha uma arma na mão direita; tive medo, não de uma luta, mas de um insucesso. Quando ele ficou a apenas alguns passos de mim, percebi que o que eu tomara por uma arma não passava de uma pá.

“Eu ainda não fora capaz de adivinhar com que objetivo o sr. de Villefort tinha uma pá nas mãos, quando ele se deteve na orla do arvoredo, lançou um olhar em volta e começou a cavar um buraco na terra. Foi então que percebi que havia alguma coisa dentro de seu casaco, o qual ele acabava de depositar no gramado para ter maior liberdade de movimento.

“Então, confesso, uma certa curiosidade insinuou-se no meu ódio: quis ver o que Villefort acabava de fazer; permaneci imóvel, sem fôlego; esperei.

“Logo a seguir uma idéia me ocorreu, a qual se confirmou quando vi o procurador do rei tirar de dentro do casaco uma pequena arca de sessenta centímetros de comprimento e quinze a vinte centímetros de largura.

“Deixei-o colocar a arca no buraco, que ele tapou com a terra retirada; em seguida, ele pisoteou aquela terra remexida para fazer desaparecer os vestígios do trabalho noturno. Pulei em cima dele e lhe enfiei a faca no peito, dizendo-lhe:

“— Sou Giovanni Bertuccio! Sua morte pelo meu irmão e seu tesouro pela viúva: como pode ver, a minha vingança é mais completa do que eu mesmo esperava.

“Não sei se ele ouviu essas palavras; não acredito, pois tombou sem soltar um grito; senti os respingos de sangue esquentando as minhas mãos e o meu rosto; mas eu estava bêbado, delirava; aquele sangue refrescava em vez de queimar. Num segundo, desenterrei a arca com a ajuda da pá; em seguida, para que não vissem o que eu levara, tapei por minha vez o buraco, joguei a pá por cima do muro e corri para a porta, que fechei dando duas voltas pelo lado de fora e cuja chave levei comigo.

— Bom! — disse Monte Cristo. — Trata-se, pelo que vejo, de um pequeno assassinato seguido de roubo.

— Não, Excelência — respondeu Bertuccio —, era uma vendetta seguida de restituição.

— E a soma era gorda, pelo menos?

— Não era dinheiro.

— Ah, sim, agora me lembro — disse Monte Cristo —, o senhor não falou de uma criança?

— Justamente, Excelência. Corri até o rio, sentei na ribanceira e, ansioso para saber o que continha a arca, arrebentei a fechadura com a minha faca.

“Num cueiro de cambraia estava embrulhado um bebê recém-nascido; seu rosto arroxeado, suas mãos violeta sugeriam que devia ter sucumbido a uma asfixia causada por cordões naturais enrolados em volta de seu pescoço; entretanto, como ele ainda não estava frio, hesitei em atirá-lo na água que corria aos meus pés. Com efeito, ao cabo de um instante, julguei sentir uma leve batida na região do coração; removi do pescoço o cordão que o apertava e, como eu havia sido enfermeiro no hospital de Bastia, fiz o que poderia ter feito um médico naquela circunstância, isto é, insuflei-lhe corajosamente ar nos pulmões, os quais, depois de quinze minutos de esforço, vi respirar, e ouvi um grito escapar de seu peito.

“Quanto a mim, também lancei um grito, mas um grito de alegria.

‘Deus, não me amaldiçoou’ — pensei —, ‘uma vez que permite que eu restitua a vida a uma criatura humana em troca da vida que tirei de outra!’”

— E que fez com a criança? — perguntou Monte Cristo. — Era uma bagagem problemática para um homem que precisava fugir.

— Ora, não me passou pela cabeça ficar com ela. Mas eu sabia que em Paris existia uma instituição onde essas infelizes criaturas são acolhidas.

Ao passar pela barreira, declarei ter encontrado a criança na estrada, e me informei. A arca reforçava o que eu dizia; o cueiro de cambraia sugeria que o bebê era de pais ricos; o sangue que manchava minhas roupas podia tanto pertencer à criança quanto a outro indivíduo qualquer. Não fizeram nenhuma objeção; encaminharam-me para a instituição, que ficava no finzinho da rua d’Enfer. Após ter tomado a precaução de cortar o cueiro em dois, de maneira a que uma das duas letras nele estampadas continuasse a envolver o corpo da criança, depositei meu fardo na roda,

 

toquei a campainha e corri o mais rápido que pude. Quinze dias depois, eu estava de volta a Rogliano e dizia a Assunta:

“— Console-se, minha irmã; Israel morreu, mas eu o vinguei.

— Num cueiro de cambraia estava embrulhado um bebê recém-nascido ...

“Então ela me pediu que explicasse essas palavras e contei-lhe o acontecido. “— Giovanni — Assunta me disse —, você devia ter trazido a criança, poderíamos ter substituído os pais que ela perdeu, teríamos lhe dado o nome de Benedetto e, como reconhecimento por essa boa ação, Deus nos teria abençoado definitivamente.

“Como resposta, entreguei-lhe a metade do cueiro que eu conservara, a fim de poder reivindicar a criança se ficássemos mais ricos.”

— E com que letras esse cueiro estava marcado? — perguntou Monte Cristo.

— Com um H e um N encimados por um diadema de barão.

— Percebo, Deus me perdoe!, que o senhor está usando termos técnicos para descrever um brasão, sr. Bertuccio! Onde diabos fez seus estudos heráldicos?

— No seu serviço, sr. conde, no qual se aprende de tudo.

— Continue, estou curioso para saber duas coisas.

— Quais, meu senhor?

— O paradeiro desse garotinho; não me disse que era menino, sr.

Bertuccio?

— Não, Excelência; não me lembro de ter dito isto.

— Ah, eu julgava ter ouvido, devo ter me enganado.

— Não, não se enganou; pois era efetivamente um menino; mas Vossa Excelência desejava, como dizia, saber duas coisas: qual é a segunda?

— A segunda é o crime de que o senhor era acusado quando pediu um confessor e, a essa solicitação, o abade Busoni foi encontrá-lo na prisão de Nîmes.

— Será um relato possivelmente longo, Excelência.

— Que importa? São apenas dez horas, o senhor sabe que eu não durmo, e suponho que, da sua parte, também não esteja com muita vontade de dormir.

Bertuccio inclinou-se e retomou sua narração.

— Em parte para expulsar as lembranças que me assediavam, em parte para prover as necessidades da pobre viúva, voltei com força ao trabalho de contrabandista, nessa época facilitado pelo relaxamento das leis que sempre acontece após as revoluções. O litoral do Midi, sobretudo, achava-se mal vigiado, em virtude dos eternos motins que ocorriam, ora em Avignon, ora em Nîmes, ora em Uzes. Aproveitamos essa espécie de trégua que nos era concedida pelo governo para fazermos contato em todo o litoral. Depois do assassinato de meu irmão nas ruas de Nîmes, eu me negara a voltar a essa cidade. Daí resultou que o estalajadeiro com quem fazíamos negócios, percebendo que não o procurávamos mais, veio à nossa procura e nos informou que abrira uma filial de sua estalagem na estrada que liga Bellegarde a Beaucaire, cuja tabuleta estampava: “Ponte do Gard”. Tínhamos também, fosse do

lado de Aigues-Mortes, fosse nas Martigues, fosse em Bouc2, uma dúzia de entrepostos nos quais armazenávamos as mercadorias e nos quais, em caso de necessidade, encontrávamos refúgio contra agentes alfandegários e policiais. O

contrabando é uma profissão que rende muito quando nela aplicamos

alguma inteligência, secundada por certo vigor; quanto a mim, vivia nas montanhas, tendo agora uma dupla razão para temer policiais e agentes da alfândega, visto que qualquer comparecimento perante os juízes podia gerar um inquérito, que esse inquérito é sempre uma incursão no passado, e que no meu passado podia-se descobrir agora uma coisa mais grave que charutos introduzidos por contrabando ou barris de aguardente circulando sem autorização. Assim, preferindo mil vezes a morte à prisão, fiz coisas espantosas, que, mais de uma vez, me provaram ser o excessivo apego que dispensamos ao corpo, na prática, o único obstáculo ao êxito de projetos que exigem decisão rápida e execução vigorosa e determinada. Com efeito, depois que sacrificamos nossas vidas, deixamos de ser iguais aos outros homens, ou melhor, os outros homens deixam de ser nossos iguais, e qualquer um que tomou essa resolução sente, na mesma hora, suas forças decuplicarem e seu horizonte se ampliar.

— Filosofia, sr. Bertuccio! — interrompeu o conde. — Quer dizer que fez de tudo um pouco na vida?

— Oh, perdão, Excelência!

— Não! Não! É que filosofia às dez e meia da noite é um pouco demais.

Mas não tenho outra observação a fazer, na medida em que a considero correta, o que não se pode dizer de todas as filosofias.

— Minhas empreitadas tornaram-se então cada vez mais longas, cada vez mais frutíferas. Assunta era dona-de-casa, e nossa pequena fortuna aumentava. Um dia, quando eu partia para uma incursão:

“— Vá — disse ela —, e na volta lhe prepararei uma surpresa.

“Interroguei-a inutilmente: ela não quis me dizer nada e parti.

“A incursão durou cerca de seis semanas; estivemos em Lucca para carregar azeite e em Livorno para pegar algodão inglês; nosso desembarque se deu sem contrariedade, realizamos nossos lucros e voltamos todos satisfeitos.

“Ao entrar em casa, a primeira coisa que vi no lugar mais visível do quarto de Assunta, num berço suntuoso comparado ao restante dos aposentos, foi uma criança de sete a oito meses. Soltei um grito de alegria.

Os únicos momentos de tristeza por que passei depois do assassinato do procurador do rei decorriam do abandono daquela criança. Não preciso dizer que, remorsos pelo assassinato em si, não senti nenhum.

“A coitada da Assunta adivinhara tudo: aproveitara-se da minha ausência e, munida da metade do cueiro, havendo escrito, para não

esquecer, dia e hora precisos em que a criança fora entregue no albergue, tomara o rumo de Paris e fora ela própria reclamá-lo. Nenhuma objeção lhe havia sido feita e a criança lhe fora devolvida.

“Ah, confesso, sr. conde, que, ao ver aquela criaturinha dormindo no berço, meu peito estufou e lágrimas saíram dos meus olhos!

“— Na verdade, Assunta — exclamei —, você é uma mulher digna, e a Providência irá abençoá-la!”

— Isso — disse Monte Cristo — é menos correto que a sua filosofia; não passa de fé.

— Ai de mim, Excelência! — prosseguiu Bertuccio. — O senhor tem toda a razão, e foi essa mesma criança que Deus encarregou da minha punição. Nunca natureza mais perversa declarou-se tão precocemente; entretanto, não se pode dizer que tenha sido mal educado, pois minha cunhada o tratava como o filho de um príncipe; era um menino de rosto encantador, olhos azul-claros como aqueles tons de porcelana chinesa que se harmonizam tão bem com o branco lácteo do tom geral; por outro lado, seus cabelos, de um louro muito vivo, davam à sua fisionomia um caráter estranho, duplicado pela vivacidade de seu olhar e pela malícia de seu sorriso. Infelizmente, há um provérbio que diz que o ruivo ou é completamente bom ou completamente mau; o provérbio não mente com relação a Benedetto; desde pequeno ele se revelou mau dos pés à cabeça. É

também verdade que o carinho da mãe estimulou seus primeiros pendores; a criança, para a qual a minha pobre cunhada ia ao mercado da cidade, distante vinte ou vinte e cinco quilômetros, comprar as frutas mais frescas e os doces mais delicados, preferia, às laranjas de Palma e às conservas de Gênova, as castanhas roubadas do vizinho, passando por cima de cercas vivas, ou as maçãs secas guardadas em seu celeiro, muito embora tivesse à sua disposição as castanhas e maçãs do nosso pomar.

“Um dia, Benedetto devia ter uns cinco ou seis anos, o vizinho Wasilio, que, fiel às tradições do lugar, não trancava nem sua bolsa nem suas jóias, pois, como o sr. conde sabe melhor do que ninguém, na Córsega não há ladrões, veio queixar-se a nós de que um luís desaparecera de sua bolsa.

Achamos que ele havia errado na conta, mas ele afirmava ter certeza do que dizia. Nesse dia, Benedetto estava fora de casa desde cedo, e foi uma grande preocupação quando, à noite, o vimos voltar arrastando um macaco que encontrara, ele dizia, acorrentado ao pé de uma árvore.

“Havia um mês, a paixão da perversa criança, que não sabia mais o que inventar, era ter um macaco. Provavelmente fora um saltimbanco, de passagem por Rogliano, com vários desses animais cujas piruetas o haviam encantado, que lhe inspirara aquele infeliz capricho.

“— Não existem macacos nos nossos bosques — eu lhe disse. — Ainda mais macaco acorrentado; portanto, confesse como arranjou este.

“Benedetto sustentou sua mentira, e a fez acompanhar de detalhes que honravam mais sua imaginação que sua honestidade; eu fiquei irritado, ele começou a rir; eu o ameacei, ele deu dois passos atrás.

“— Não pode me espancar — ele disse —, não tem esse direito, você não é o meu pai.

“Nunca soubemos quem lhe contara esse fatal segredo, que lhe havíamos escondido com tantas precauções; de toda forma, essa resposta, na qual a criança revelou-se por inteiro, me pegou de surpresa, meu braço erguido caiu realmente, sem tocar o culpado; a criança triunfou, e essa vitória deu-lhe tamanha audácia que a partir desse momento todo o dinheiro de Assunta, cujo amor por ele parecia aumentar à medida que ele o garoto se tronava menos digno desse amor, foi desviado para caprichos que ela não sabia combater, loucuras que ela não tinha coragem de impedir. Quando eu estava em Rogliano, as coisas ainda corriam razoavelmente bem; porém, assim que eu partia, Benedetto tornava-se o chefe da casa e tudo degringolava. Com onze anos incompletos, escolhia todos os seus colegas entre rapazes de dezoito ou vinte anos, os

piores elementos de Bastia e de Corte3, e já nessa época, por algumas traquinices que mereciam nome mais severo, a justiça nos admoestara.

“Fiquei assustado; qualquer informação podia ter conseqüências funestas. Justamente nesse momento eu fui obrigado a me afastar da Córsega para uma expedição importante. Refleti longamente e, antecipando-me a fim de evitar novas tragédias, resolvi levar Benedetto comigo. Eu esperava que a vida ativa e rude de contrabandista, a disciplina severa a bordo, mudasse aquele caráter prestes a se corromper, se é que já não estava terrivelmente corrompido.

“Chamei então Benedetto à parte e lhe propus que me acompanhasse, cercando essa proposta de todas as promessas capazes de seduzir uma criança de doze anos.

“Ele me deixou terminar, e, quando terminei, caiu na risada:

“— Está maluco, tio? — disse ele, que me chamava assim quando estava de bom humor. — Eu, trocar a vida que levo pela que o senhor leva, minha boa e excelente preguiça pelo horrível trabalho que o senhor se impôs! Passar a noite no frio, o dia no calor; ficar escondido o tempo todo; ser baleado se puser o nariz para fora, e tudo isso para ganhar um dinheirinho! Dinheiro, tenho o quanto quiser! É só pedir, e mamãe Assunta me dá. Como vê, eu seria um completo imbecil se aceitasse o que me propõe.

“Eu fiquei estupefato com aquela audácia e aquele raciocínio. Benedetto voltou para brincar com seus colegas e o flagrei me apontando para eles como um idiota.”

— Que criança encantadora! — ironizou Monte Cristo.

— Oh, se ele fosse meu — respondeu Bertuccio —, se ele fosse meu filho, ou pelo menos meu sobrinho, eu o teria colocado no caminho reto, pois a consciência dá forças. Mas a idéia de que iria espancar uma criança cujo pai eu matara tornava impossível qualquer corretivo. Dei bons conselhos à minha cunhada, que, nas nossas conversas, tomava incessantemente a defesa do coitadinho, e, como ela admitiu que somas consideráveis haviam sumido por diversas vezes, indiquei-lhe um lugar onde pudesse esconder nosso pequeno tesouro. Quanto a mim, minha decisão estava tomada. Benedetto sabia ler, escrever e contar perfeitamente, pois, quando calhava de se aplicar no trabalho, aprendia em um dia o que os outros levavam uma semana. Minha decisão, dizia eu, estava tomada: iria empregá-lo como secretário em alguma nau de longo curso, e, sem o avisar de nada, raptá-lo uma manhã e transportá-lo para bordo; dessa forma, recomendando-o ao capitão, todo seu futuro dependia dele. Decidido esse plano, parti para a França.

“Dessa vez, todas as nossas operações deviam ser executadas no golfo de Lion, e essas operações tornavam-se cada vez mais difíceis, pois estávamos em 1829. A calma havia sido plenamente restabelecida e, por conseguinte, o policiamento do litoral se regularizara, mais severo do que nunca. A vigilância, ainda por cima, fora momentaneamente intensificada em virtude da feira de Beaucaire, que acabava de começar.

“O início da expedição não encontrou obstáculo. Amarramos nossa barca, que possuía um fundo falso no qual escondíamos nossas mercadorias de contrabando, em meio a uma quantidade de embarcações que atravessavam as margens do Ródano, de Beaucaire até Arles. Ao

chegarmos ali, começamos o descarregamento noturno de nossas mercadorias proibidas e sua introdução na cidade, por intermédio de pessoas que mantinham relações conosco ou de estalajadeiros cujos estabelecimentos usávamos como depósitos. Seja porque o sucesso nos tornou imprudentes, seja porque fomos traídos, uma tarde, por volta das cinco horas, quando íamos comer alguma coisa, nosso grumete apareceu todo esbaforido dizendo que avistara um destacamento de agentes alfandegários dirigindo-se para o nosso lado. Não era precisamente o destacamento que nos assustava — companhias inteiras, sobretudo naquele momento, rondavam ininterruptamente as margens do Ródano —, eram, nas palavras do moço, as precauções que aquele destacamento tomava para não ser detectado. Num instante nos pusemos de pé, mas já era tarde demais; nosso barco, objeto evidente das buscas, estava cercado.

Dentre os agentes da alfândega, percebi alguns policiais; e, tão tímido à visão destes quanto era normalmente destemido à visão de qualquer outro corpo militar, desci ao porão e, passando por uma escotilha, deixei o rio me carregar, depois nadei entre as margens, respirando apenas a longos intervalos, de modo que alcancei, sem ser visto, uma trincheira que acabavam de escavar, comunicando o Ródano com o canal que vai de Beaucaire a Aigues-Mortes. Se eu chegasse lá, estava salvo, pois poderia seguir pela trincheira, novamente sem ser visto. Alcancei então esse canal sem acidentes. Não era por acaso nem sem premeditação que eu seguira aquele caminho; já mencionei para Vossa Excelência um estalajadeiro de Nîmes que tocava um hotelzinho na estrada de Bellegarde para Beaucaire.”

— Sim — disse Monte Cristo —, lembro-me perfeitamente. Esse homem digno, se não me engano, era inclusive seu comparsa.

— Isso mesmo — respondeu Bertuccio —, porém, havia sete ou oito anos que ele cedera seu estabelecimento para um velho alfaiate de Marselha, o qual, arruinado em sua profissão, cogitara fazer fortuna em outra. Não preciso dizer que os pequenos acordos que tínhamos com o primeiro proprietário foram mantidos com o segundo; era então a esse homem que eu pretendia pedir proteção.

— E como se chamava esse homem? — perguntou o conde, que parecia voltar a mostrar algum interesse pelo relato de Bertuccio.

— Chamava-se Gaspard Caderousse, era casado com uma mulher de Carconte e de quem não conhecíamos outro nome afora o de sua aldeia; a

mulher era uma coitada, vítima da febre balaustre, que morria aos pouquinhos. Quanto ao homem, era um sujeito forte, entre quarenta e quarenta e cinco anos, que mais de uma vez nos dera, em circunstâncias difíceis, provas de presença de espírito e coragem.

— E está me dizendo — perguntou Monte Cristo — que essas coisas se passaram no ano de...

— 1829, sr. conde.

— Em que mês?

— Junho.

— No começou ou no fim?

— Dia 3, à tardinha.

— Ah! — exclamou Monte Cristo. — 3 de junho de 1829... Bem, continue.

— Portanto, era a Caderousse que eu pretendia pedir proteção; mas, como de hábito, inclusive em circunstâncias normais, não entrávamos em seu estabelecimento pela porta que dava para a estrada, e resolvi não infringir esse costume; pulei a cerca do jardim, passei rastejando por entre as oliveiras raquíticas e as figueiras-bravas, receando que Caderousse tivesse algum forasteiro em sua estalagem, até alcançar uma espécie de desvão, no qual mais de uma vez passara a noite tão bem quanto na melhor cama. Esse desvão era separado do saguão da estalagem apenas por uma divisória de tábuas, na qual brechas haviam sido abertas especialmente para nós, a fim de que dali pudéssemos espreitar o momento oportuno de sinalizar que estávamos nas proximidades. Minha intenção era, se Caderousse estivesse sozinho, avisá-lo da minha chegada, terminar em seu estabelecimento a refeição interrompida com o surgimento dos agentes, e me aproveitar da tempestade que se preparava para voltar às margens do Ródano e me certificar do paradeiro da barca e dos seus ocupantes. Enfiei-me portanto no desvão e ainda bem, pois justamente nesse momento Caderousse entrava com um desconhecido.

“Fiquei quieto e esperei, não em absoluto na intenção de surpreender os segredos do meu anfitrião, mas porque não podia fazer de outro jeito; aliás, a mesma coisa já acontecera antes umas dez vezes.

“O homem que acompanhava Caderousse era manifestamente um forasteiro no Midi da França; era um desses negociantes ambulantes que vêm vender jóias na feira de Beaucaire e que, durante esse mês de feira,

para a qual afluem vendedores e compradores de todas as parte da Europa, às vezes fazem até cem ou cento e cinqüenta mil francos em negócios.

“Caderousse entrou impetuosamente na frente. Em seguida, vendo a sala de baixo vazia como de costume e tranqüilamente vigiada pelo seu cão, chamou a mulher.

“— Ei, Carconte — disse ele —, aquele digno abade não nos enganou; o diamante era verdadeiro.

“Uma exclamação alegre fez-se ouvir; quase imediatamente, a escada estalou sob um passo afligido pela fraqueza e a doença.

“— Que está dizendo? — perguntou a mulher, mais pálida que uma defunta.

“— Estou dizendo que o diamante era verdadeiro, não me deixa mentir aqui o cavalheiro, um dos primeiros joalheiros de Paris, que está disposto a nos dar cinqüenta mil francos por ele. Entretanto, para ter certeza de que o diamante de fato nos pertence, ele pede que você lhe conte, como eu já fiz, de que maneira milagrosa o diamante veio parar em nossas mãos.

Enquanto isso, senhor, sente-se, por favor; como está muito abafado, vou buscar alguma coisa para refrescá-lo.

“O joalheiro examinava com atenção o interior da estalagem e a pobreza bem visível daqueles que iam lhe vender um diamante que parecia saído do escrínio de um príncipe.

“— Conte-me, madame — ele disse —, querendo provavelmente aproveitar-se da ausência do marido para que nenhum sinal da parte deste influenciasse a mulher e para verificar se os dois relatos encaixariam um com o outro.

“— Minha nossa! — disse a mulher com volubilidade. — É uma bênção do céu pela qual estávamos longe de esperar. Imagine, meu caro senhor, que, lá por 1814 ou 1815, meu marido era colega de um marujo chamado Edmond Dantès: esse infeliz rapaz, que Caderousse esquecera completamente, não o esqueceu por sua vez, deixando-lhe, moribundo, o diamante que acaba de ver.

“— Mas como ele se tornou proprietário desse diamante? — perguntou o joalheiro. — Já o possuía antes de entrar na prisão?

— “Não, senhor — respondeu a mulher —, mas encarcerado ele conheceu, ao que parece, um inglês riquíssimo; como na prisão seu companheiro de cela caiu doente e Dantès cuidou dele como se fosse um irmão, o inglês, quando se viu livre do cativeiro, deixou para o desafortunado Dantès, que, menos feliz que ele, morreu na prisão, esse diamante, que por sua vez nos legou ao morrer, encarregando o digno abade, que aqui esteve de manhã, de entregá-lo a nós.

“— É exatamente a mesma história — murmurou o joalheiro —, e, no fim das contas, pode ser verdadeira, por mais inverossímil que pareça à primeira vista. O único problema é o preço, sobre o qual não concordamos.

“— Como? Não concordamos! — disse Caderousse. — Pensei que tivesse aceitado o preço que lhe pedi.

“— Quer dizer... — disse o joalheiro —, ofereci quarenta mil francos por ele.

“— Quarenta mil! — exclamou a Carconte. — Por esse preço, nem pensar, nunca o venderemos ao senhor. O abade nos disse que valia cinqüenta mil francos, e ainda sem a ourivesaria.

“— E como se chamava esse abade? — perguntou o incansável interrogador.

“— Abade Busoni — respondeu a mulher. “— Era então um estrangeiro?

“— Um italiano dos arredores de Mântua, creio.

“— Mostre-me de novo esse diamante — volveu o joalheiro — para que eu o observe melhor; freqüentemente avaliamos mal as pedras num primeiro exame.

“Caderousse tirou do bolso um estojinho de couro preto, abriu-o e o passou ao joalheiro. À visão do diamante, que era do tamanho de uma avelã, lembro-me como se fosse agora, os olhos da Carconte faiscaram de ganância.”

— E que pensava acerca de tudo isso, senhor intrometido? — perguntou Monte Cristo. — Acreditava nessa fábula?

— Sim, Excelência; eu não via Caderousse como um mau sujeito, julgava-o mesmo incapaz de haver cometido um crime, sequer um roubo.

— Isso enobrece mais o seu coração que a sua experiência, senhor Bertuccio. Conhecia esse Edmond Dantès, o homem em questão?

— Não, Excelência, nunca tinha ouvido falar em tal pessoa até aquele momento e nunca ouvi falar de novo deste então, a não ser uma única vez, pelo próprio abade Busoni, quando estive com ele nas prisões de Nîmes.

— Ótimo! Continue.

— O joalheiro pegou o anel das mãos de Caderousse e tirou do bolso uma minúscula pinça de aço e um par de balanças de cobre; então,

afastando as tenazes de ouro que fixavam a pedra no anel, removeu o diamante de seu alvéolo e o pesou minuciosamente.

“— Posso chegar a quarenta e cinco mil francos — disse —, mas não dou um tostão a mais; aliás, como era este o valor do diamante, trouxe a soma exata comigo.

“— Oh, não seja por isso — disse Caderousse —, volto com o senhor a Beaucaire para pegar os outros cinco mil francos.

“— Não — retrucou o joalheiro, devolvendo o diamante a Caderousse.

— Não vale mais que isso e já estou arrependido de lhe ter oferecido tal soma, visto que há um defeito na pedra o qual me passara desapercebido; mas não interessa, tenho apenas uma palavra, eu disse quarenta e cinco mil francos, não me desdigo.

“— Pelo menos recoloque o diamante no anel — disse a Carconte, acidamente.

“— Muito bem — disse o joalheiro. “E recolocou a pedra no engaste.

“— Bom, bom, bom — disse Caderousse, guardando o estojo no bolso

—, vamos procurar outro comprador.

“— Sim — replicou o joalheiro —, mas não vai ser assim tão fácil com outro qualquer; ninguém irá contentar-se com as informações que me deu.

Não é normal um homem como o senhor possuir um diamante de cinqüenta mil francos; vão avisar aos magistrados, vai ser preciso encontrar o abade Busoni, e abades que distribuem diamantes de dois mil luíses são raros; a justiça vai meter o bedelho, o senhor vai parar na prisão e, se for declarado inocente e libertado, depois de três ou quatro meses de cativeiro, o anel terá se perdido no arquivo do tribunal, ou lhe entregarão uma pedra falsa que valerá três francos em vez de um diamante que vale cinqüenta mil, supostamente cinqüenta e cinco mil, mas o qual, há de convir, meu camarada, assumimos grandes riscos ao adquiri-lo.

“Caderousse e sua mulher interrogaram-se com o olhar.

“— Não — disse Caderousse — não somos ricos o bastante para desperdiçar cinco mil francos.

“— Como preferir, caro amigo — disse o joalheiro. — Em todo caso, a dinheirama está comigo.

“E tirou de um dos bolsos um punhado de ouro, que fez cintilar os olhos maravilhados do estalajadeiro, e, do outro, um maço de títulos bancários.

“Visivelmente, teve início uma luta encarniçada no íntimo de Caderousse; era evidente que aquele estojinho de couro que ele virava e revirava em sua mão não lhe parecia corresponder, como valor, à enorme soma que fascinava seus olhos. Voltou-se para a mulher:

“— Que me diz? — perguntou baixinho.

“— Aceite, aceite — disse ela. — Se o joalheiro voltar a Beaucaire sem o diamante, vai nos denunciar; e, como ele mesmo diz, quem nos garante que um dia vamos botar os olhos no abade Busoni de novo?

“— Pois muito bem, negócio fechado! — disse Caderousse. — Pegue então o diamante por quarenta e cinco mil francos, mas a minha mulher quer uma corrente de ouro e eu, um par de argolas de prata.

“O joalheiro tirou do bolso uma caixa comprida e achatada que continha várias amostras dos objetos requisitados.

“— Pegue — disse ele —, sou um homem transparente nos negócios; escolha.

“A mulher escolheu uma corrente de ouro que devia valer uns cinco luíses e o marido, um par de argolas de orelha que devia valer quinze francos.

“— Espero que não se arrependa — disse o joalheiro.

“— O abade disse que valia cinqüenta mil francos... — resmungou Caderousse.

“— Vamos, vamos, passe para cá! Que homem terrível! — disse o joalheiro, tirando-lhe o diamante das mãos. — Estou lhe dando quarenta e cinco mil francos, duas mil e quinhentas libras de renda, isto é, uma fortuna como eu mesmo queria ter, e ele ainda não está satisfeito!

“— E os quarenta e cinco mil francos — perguntou Caderousse, com uma voz rouca. — Afinal, onde estão?

“— Aqui — disse o joalheiro.

“E contou na mesa quinze mil francos em ouro e trinta mil francos em títulos bancários.

“— Espere eu acender a lamparina — disse a Carconte —, já não está tão claro e podemos nos enganar.

“Com efeito, a noite caíra durante essa negociação e, com a noite, a tempestade que ameaçava meia hora antes. A trovoada rugia ao longe, mas nem o joalheiro, nem Caderousse, nem a Carconte pareciam preocupar-se com ela, possuídos que estavam todos os três pelo demônio do lucro. Eu mesmo sentia um estranho fascínio à visão de todo aquele ouro e todos aqueles títulos. Parecia que eu estava num sonho e, como acontece num sonho, sentia-me pregado no lugar.

 

“Caderousse contou e recontou o ouro e os títulos, depois passou-os para a mulher, que também os contou e recontou.

“Enquanto isso, o joalheiro fazia o diamante refletir sob os feixes de luz da lamparina, e o diamante lançava raios que faziam esquecer aqueles que, precursores da tempestade, começavam a reboar nas janelas.

“— E então! A conta está certa? — perguntou o joalheiro.

“— Sim — disse Caderousse. — Pegue a pasta e traga uma bolsa, Carconte.

“A Carconte foi até um armário e voltou trazendo uma velha pasta de couro, da qual foram retiradas algumas cartas sebentas em cujo lugar foram colocadas as notas, e uma bolsa na qual estavam guardados dois ou três escudos de seis libras, que provavelmente compunham toda a fortuna do miserável casal.

“— Agora — disse Caderousse —, embora o senhor nos tenha subtraído uns dez mil francos, quem sabe não gostaria de cear conosco? É de coração.

“— Obrigado, está ficando tarde e preciso voltar para Beaucaire; minha mulher ficaria preocupada — disse o joalheiro, tirando um relógio de bolso.

— Caramba! Vai dar nove horas, não chegarei a Beaucaire antes da meianoite. Adeus, minhas crianças; se outros abades Busoni aparecerem por aqui, lembrem-se de mim.

“— Daqui a uma semana o senhor não estará mais em Beaucaire —

disse Caderousse —, uma vez que a feira termina semana que vem.

“— É verdade, mas isso não quer dizer nada; escreva para o meu endereço em Paris, aos cuidados do sr. Joannès, no Palais-Royal, Galerie de Pierre no45; virei imediatamente, caso o negócio valha a pena.

“Uma trovoada rugiu, acompanhada de um relâmpago tão violento que quase ofuscou a claridade da lamparina.

“— Oh, oh! — admirou-se Caderousse. — Vai embora mesmo com esse temporal?

“— Oh! Não tenho medo de trovão — disse o joalheiro.

“— E dos ladrões? — perguntou a Carconte. — A estrada nunca é segura durante a feira.

“— Oh, quanto aos ladrões — disse Joannès, como se chamava o joalheiro —, eis o que lhes aguarda!

“E sacou do bolso um par de pequenas pistolas carregadas até a boca.

“— Isto aqui — continuou ele — são cães que ladram e mordem ao mesmo tempo: são para os dois primeiros que cobiçarem o meu diamante,

‘seu’ Caderousse.

“Caderousse e a mulher trocaram um olhar sombrio, como se tivessem pensado a mesma coisa ao mesmo tempo.

“— Então, boa viagem! — despediu-se Caderousse. “— Obrigado! —

agradeceu o joalheiro.

“Ele então pegou a bengala que havia deixado junto a um velho baú e saiu. No momento em que abriu a porta, entrou uma lufada de vento tão forte que quase apagou a lamparina.

“— Oh! — disse o homem. — Vai ser um temporal daqueles e tenho duas léguas de terra a percorrer!

“— Fique — disse Caderousse —, pode dormir aqui.

“— Sim, fique — disse a Carconte com uma voz trêmula —, cuidaremos do senhor.

“— Impossível, preciso dormir em Beaucaire. “Caderousse foi lentamente até a soleira da porta.

“— Não se vê nem céu nem terra — disse o joalheiro, já fora da casa.

— É para a direita ou a esquerda?

“— Para a direita — disse Caderousse. — Não há como errar, a estrada tem árvores dos dois lados.

“— Bom, lá vou eu — disse a voz quase perdida na distância.

“— Então feche a porta — disse a Carconte —, não gosto de portas abertas quando troveja.

“— E quando há dinheiro na casa, não é? — respondeu Caderousse, dando duas voltas na fechadura.

“Ele entrou, foi até o armário, retirou a bolsa e a pasta, e ambos começaram a contar pela terceira vez seu ouro e suas notas. Nunca vi expressão igual à daqueles dois rostos, cuja cupidez era iluminada pela tênue luminosidade. A mulher, principalmente, era hedionda; duplicara-se o tremor febril que em geral a animava. Seu semblante, de pálido, ficou lívido; seus olhos cavados chamejavam.

“— Agora me conte — perguntou ela com uma voz abafada —, por que lhe ofereceu pousada?

“— Ora — respondeu Caderousse, estremecendo —, para... para que ele não enfrentasse esse tempo até Beaucaire.

“— Ah, bom! — disse a mulher, com uma expressão impossível de reproduzir. — Eu cá comigo achava que era para outra coisa.

“— Mulher, mulher! — exclamou Caderousse. — Como pode ter semelhantes idéias e por que não as guarda consigo?

“— Tanto faz — disse a Carconte, após um instante de silêncio. — Você não é homem.

“— Como assim? — reagiu Caderousse.

“— Se tivesse sido homem, ele não teria saído daqui. “— Mulher!

“— Ou não chegaria a Beaucaire... “— Mulher!

“— A estrada faz um cotovelo, e ele é obrigado a seguir a estrada, ao passo que ao longo do canal corre um atalho.

“— Mulher, está a ofender o bom Deus. Veja, escute...

“Com efeito, escutaram um raio terrível ao mesmo tempo em que um clarão azulado iluminou toda a sala, e a descarga, minguando lentamente, pareceu afastar-se arrependida da casa maldita.

“— Jesus! — disse a Carconte, fazendo o sinal da cruz.

“Naquele instante, e em meio ao silêncio de terror que normalmente sucede as trovoadas, ouviram alguém bater à porta.

“Caderousse e a mulher estremeceram e se entreolharam, apavorados.

“— Quem vem lá? — berrou Caderousse, levantando-se e juntando num único monte o ouro e os títulos espalhados na mesa e que ele cobria com as duas mãos.

“— Eu! — disse uma voz. “— Eu quem?

“— Ora, meu Deus, Joannès, o joalheiro!

“— E agora?! Você dizia — continuou a Carconte, com um sorriso assustador — que eu estava a ofender o bom Deus! Eis que o bom Deus nos envia ele de volta.

“Caderousse desmoronou pálido e ofegante em sua cadeira. A Carconte, ao contrário, levantou-se, dirigiu-se com um passo firme até a porta e a abriu.

“— Entre, entre, caro sr. Joannès — disse ela.

“— Minha nossa! — disse o joalheiro, todo molhado de chuva. —

Parece que o diabo não quer que eu volte para Beaucaire esta noite. As menores loucuras são as melhores, meu caro sr. Caderousse; o senhor me ofereceu hospitalidade, aceito-a e volto para pernoitar em sua casa.

“Caderousse balbuciou algumas palavras enxugando o suor que corria em sua testa. A Carconte deu duas voltas na fechadura após a entrada do

 

joalheiro.”

— Jesus!

1 “violentos massacres no Midi”: após a retirada das forças partidárias de Napoleão II — então uma criança de quatro anos —, os realistas, liderados por Trestaillon, Truphemy e Graffan, promoveram um verdadeiro massacre na região, pilhando as propriedades e realizando execuções sumárias, entre julho e agosto de 1815.

2 “fosse nas Martigues, fosse em Bouc”: Martigues, cidade francesa situada no departamento de Bouches-du-Rhône entre a laguna de Berre e o Mediterrâneo, os quais são ligados pelo canal de Carconte; Bouc é um canal secundário do canal que liga Marselha ao Reno; o porto de Bouc é uma localidade às margens daquele.