O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 116 de 119

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O Conde de Monte Cristo

17. Peppino

A história de Ganimedes5 não é uma fábula, Maximilien, é uma alegoria.

— Quando parte?

— Agora mesmo. O vapor me espera, daqui a uma hora estarei longe.

Não vai me acompanhar até o porto, Morrel?

— Estou à sua disposição, conde.

— Abrace-me.

Morrel escoltou o conde até o porto. A fumaça já saía, como um imenso penacho, do tubo negro que a lançava aos céus. O vapor não demorou a partir e, uma hora depois, como dissera Monte Cristo, aquela mesma pluma de fumaça esbranquiçada riscava, quase invisível, o horizonte oriental, escurecido pelas primeiras brumas da noite.

1 Revolução de Julho: ver Parte III, cap.3, nota 69.

2 Mirabeau: Honoré-Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau, (1749-91), jornalista, escritor, político e grande orador parlamentar francês. Foi um destacado participante da Revolução Francesa. De vida aventurosa, teve múltiplas passagens pela prisão, entre elas uma no castelo de If, em 1774.

3 “E honestidade”: citação de Shakespeare, em Hamlet, ato III, cena 1.

4 Eurus: figura mitológica que personificava o vento leste-sudeste.

5 Ganimedes: príncipe troiano, cuja beleza seduziu o próprio Zeus, o qual, metamorfoseado em águia, raptou-o e levou-o para o monte Olimpo, tornando-o seu amante.

17. Peppino No exato momento em que o barco a vapor do conde desaparecia por trás do cabo Morgiou, um homem, viajando pela diligência na estrada que liga Florença a Roma, acabava de deixar para trás a cidadezinha de Aquapendente. Ele fazia o carro andar rápido o suficiente para cobrir muita distância sem com isso despertar suspeitas.

Vestindo um redingote, ou melhor, um sobretudo que a viagem castigara drasticamente, mas que deixava aparente, nova e brilhante, uma fita da Legião de Honra, a qual estava repetida na lapela, esse homem, não apenas pelo duplo sinal, mas também pelo tom com que se dirigia ao postilhão, só podia ser um francês. Outra prova de que nascera no país da língua universal é que as únicas palavras italianas suas conhecidas eram as usadas em letras de

música, capazes, como o goddam1 de Fígaro, de substituir todas as filigranas de uma língua específica.

— Allegro! — dizia ele aos postilhões a cada embarque.

— Moderato! — dizia a cada desembarque.

E Deus sabe quantos embarques e desembarques há de Florença a Roma pela estrada de Aquapendente!

Essas duas palavras, em todo caso, faziam rir às gargalhadas as simpáticas pessoas a quem eram dirigidas.

Diante da Cidade Eterna, isto é, ao chegar a La Storta, ponto de onde se avista Roma, o forasteiro não experimentou em absoluto o sentimento de curiosidade entusiasta que faz com que todos os estrangeiros se levantem do fundo de seu assento para tentar ver a famosa cúpula de São Pedro, que se avista antes de qualquer outra coisa. Não, ele apenas puxou uma carteira do bolso e, dessa carteira, um papel dobrado em quatro, que desdobrou e voltou a dobrar com um misto de atenção e respeito, contentando-se em dizer:

— Ótimo, continua aqui.

A diligência passou pela porta del Popolo, tomou a esquerda e parou defronte ao Hotel da Espanha.

Mestre Pastrini, nosso velho conhecido, recebeu o forasteiro na soleira da porta e de chapéu na mão.

O forasteiro desceu, pediu um bom jantar e solicitou o endereço da Casa Thomson & French, o qual lhe foi indicado, pois esse estabelecimento é um dos mais conhecidos de Roma.

Ficava à rua dei Banchi, perto de São Pedro.

Em Roma, como em todos os lugares, a chegada de uma diligência de viagem é um acontecimento. Dez guris descendentes de Mário e

dos Gracos2, descalços, cotovelos ralados, mas com uma das mãos nos quadris e o outro braço pitorescamente curvado acima da cabeça, observavam o viajante, a diligência e os cavalos. A esses moleques da cidade por excelência se haviam juntado uns cinqüenta basbaques dos Estados de Sua Santidade, daqueles que fazem círculos cuspindo no Tibre do alto da ponte dos Santos Anjos, quando o Tibre está com água.

Ora, como os moleques e os basbaques de Roma, mais felizes que os de Paris, compreendem todas as línguas, em especial a língua francesa, compreenderam quando o forasteiro pediu um apartamento, um jantar e, por fim, o endereço da Casa Thomson & French.

Daí resultou que, quando o recém-chegado saiu do hotel com o indefectível cicerone, um homem destacou-se dos grupo dos curiosos e, sem ser notado pelo forasteiro, sem parecer ser notado pelo guia, caminhou a pouca distância do estrangeiro, seguindo-o com tanta habilidade quanto o teria feito um agente da polícia parisiense.

O francês estava tão apressado para fazer sua visita à Thomson & French que não tinha tempo para esperar que os cavalos fossem atrelados.

A diligência ficou de pegá-lo no caminho ou esperá-lo à porta do banqueiro.

Chegou antes que a diligência o alcançasse.

 

São Pedro de Roma.

O francês entrou, deixando na sala de espera o seu guia, que logo entabulou conversa com dois ou três desses industriais sem indústria, ou melhor, donos de mil indústrias, que se quedam em Roma na porta dos bancos, das igrejas, das ruínas, dos museus e dos teatros.

Simultaneamente ao francês, o homem que se destacara do grupo dos curiosos entrou também. O francês bateu à porta dos escritórios e entrou na primeira sala. Sua sombra fez o mesmo.

— Os srs. Thomson e French? — perguntou o estrangeiro.

Uma espécie de lacaio levantou-se ao sinal de um contínuo de confiança, guardião solene do primeiro escritório.

— A quem devo anunciar? — perguntou o lacaio, preparando-se para caminhar até o estrangeiro.

— Sr. barão Danglars — respondeu o forasteiro.

— Siga-me — disse o lacaio.

Uma porta se abriu. O lacaio e o barão desapareceram por essa porta. O

homem que entrara depois de Danglars sentou-se num banco de espera.

O contínuo permaneceu escrevendo algo em torno de cinco minutos; durante esse tempo, o homem sentado manteve o mais profundo silêncio e a mais rigorosa imobilidade.

Logo a pena do contínuo parou de guinchar no papel. Ele ergueu a cabeça, observou atentamente à sua volta e, depois de certificar-se de que estavam a sós, disse:

— Ah, ah! É você, Peppino?

— Sim — este respondeu laconicamente.

— Farejou alguma coisa boa nesse homem gordo?

— Não foi nenhum grande mérito neste caso, fomos avisados.

— Então sabe o que ele vem fazer aqui, seu curioso.

— Ora bolas, vem sacar. Resta saber quanto.

— Irá saber daqui a pouquinho.

— Excelente, mas não vá me passar uma informação falsa como no outro dia.

— O que está dizendo e de quem está falando? Seria do inglês que outro dia levou daqui três mil escudos?

— Não, este tinha realmente os três mil escudos, e os encontramos.

Estou falando daquele príncipe russo.

— E daí?

— E daí! Você tinha falado trinta mil libras, e só encontramos vinte e duas mil.

— Não devem ter procurado direito.

— Foi Luigi Vampa quem fez pessoalmente a revista.

— Nesse caso, ou ele tinha quitado suas dívidas...

— Um russo?

— Ou gastado seu dinheiro.

— É possível, enfim.

— Com certeza. Mas deixe-me ir até o meu posto de observação, o francês pode efetuar a transação sem que eu consiga saber a cifra real.

Peppino fez um sinal afirmativo e, puxando um terço do bolso, começou a resmungar alguma oração, enquanto o contínuo desaparecia pela mesma porta que dera passagem ao lacaio e ao barão.

Transcorridos cerca de dez minutos, o contínuo voltou radiante.

— E então? — perguntou Peppino a seu amigo.

— Alerta, alerta! — disse o contínuo. — A soma é redonda.

— Cinco a seis milhões, não é?

— Isso mesmo. Sabia o montante?

— Por um recibo de Sua Excelência o conde de Monte Cristo.

— Conhece o conde?

— Sacáveis em Roma, Veneza e Viena.

— Precisamente! — exclamou o contínuo. — Como pode estar tão beminformado?

— Já lhe disse que fomos avisados com antecedência.

— Então por que veio atrás de mim?

— Para ter certeza de que é de fato o homem com quem temos negócios.

— Claro que é... cinco milhões. Bela soma, hein, Peppino!

— É.

— Nunca teremos tanto.

— Pelo menos — respondeu filosoficamente Peppino —, teremos algumas migalhas.

— Scchh! Eis o nosso homem.

O contínuo pegou novamente da pena e Peppino, seu terço. Um escrevia, o outro rezava, quando a porta voltou a se abrir.

Danglars apareceu radiante e acompanhado pelo banqueiro, que o acompanhou até a porta.

Atrás de Danglars, saiu Peppino.

Como combinado, a diligência que devia buscar Danglars esperava em frente à Thomson & French. O cicerone segurava sua portinhola aberta; o cicerone é uma criatura subserviente, a quem se pode solicitar qualquer coisa.

Danglars pulou para a diligência, leve como um rapaz de vinte anos. O

cicerone fechou a portinhola e subiu para o lado do cocheiro. Peppino subiu para o assento de trás.

— Sua Excelência quer ver São Pedro? — perguntou o cicerone.

— Para quê? — respondeu o barão.

— Ora! Para ver.

— Não vim a Roma para ver — disse Danglars bem alto, e depois acrescentou baixinho, com seu sorriso cúpido: — Vim para sacar.

E apalpou a carteira, na qual acabava de guardar uma carta.

— Então Sua Excelência vai para...?

— Para o hotel.

— Casa Pastrini — disse o cicerone ao cocheiro.

E a diligência partiu, veloz como um transporte particular.

Dez minutos depois, o barão estava de volta ao seu apartamento, e Peppino instalava-se no banco defronte ao hotel, após ter dito algumas palavras ao ouvido de um daqueles descendentes de Mário e dos Gracos que mencionamos no início deste capítulo, o qual por sua vez tomou a direção do Capitólio, correndo com todas as suas pernas.

Danglars apareceu radiante.

Peppino tinha tempo: jogou morra3 com uns facchini4, perdeu três escudos e, para se consolar, bebeu uma garrafa de vinho de Orvietto.

No dia seguinte, Danglars acordou tarde, embora tivesse dormido cedo.

Fazia cinco ou seis noites que dormia muito mal, quando dormia.

Comeu copiosamente, e indiferente, como dissera, às belezas da Cidade Eterna, pediu seus cavalos de viagem para o meio-dia.

Mas Danglars não contara com as formalidades da polícia e a lerdeza do responsável pelos animais.

 

Ancona.

Os cavalos chegaram apenas às duas, e o cicerone só trouxe o passaporte com o visto às três.

Todos esses preparativos haviam atraído um bando de curiosos à porta de mestre Pastrini.

Os descendentes dos Gracos e de Mário não podiam perder aquilo.

O barão atravessou triunfalmente esses grupos, que o chamavam

de Excelência para ganharem um bajocco5.

Como até aquele momento Danglars, homem do povo, como sabemos, contentara-se em ser chamado de barão e ainda não havia sido tratado de Excelência, este título lisonjeou-o e ele

distribuiu uma dúzia de pauls6

àquela ralé, disposta, por outros doze pauls, a tratá-lo até de Alteza.

— Que estrada? — perguntou o cocheiro em italiano.

— Estrada de Ancona — respondeu o barão.

Mestre Pastrini traduziu a pergunta e a resposta, e a diligência partiu no galope.

Na verdade, Danglars pretendia passar em Veneza e lá sacar uma parte de sua fortuna, depois, de Veneza, ir até Viena, onde realizaria o restante.

Sua intenção era radicar-se nessa última cidade, que lhe haviam garantido ser uma cidade de prazeres.

Mal fizera quinze quilômetros pelos campos de Roma, a noite começou a cair; Danglars não julgara estar partindo tão tarde, caso contrário teria ficado. Perguntou ao postilhão quanto faltava para chegar à cidade seguinte.

— Non capisco7 — respondeu o cocheiro.

Danglars fez um movimento com a cabeça que queria dizer:

— Ótimo!

A diligência continuou seu caminho.

— Durmo na primeira parada — Danglars pensou.

Ele ainda sentia um resquício do bem-estar da véspera, que lhe proporcionara noite tão boa. Estava relaxadamente acomodado numa boa viatura inglesa com amortecedores duplos. Sentia-se arrastado pelo galope de dois bons cavalos. A parada ficava a trinta e cinco quilômetros, ele sabia. Que fazer quando se é um banqueiro afortunadamente falido?

Danglars pensou durante dez minutos na esposa em Paris, dez outros minutos em sua filha correndo o mundo com a srta. d’Armilly; concedeu outros dez minutos mais a seus credores e à maneira como empregaria o dinheiro deles. Depois, não havendo mais nada em que pensar, fechou os olhos e adormeceu.

Às vezes, porém, sacudido por uma pedra mais dura que as outras, Danglars abria por um momento os olhos. Então continuava a sentir-se carregado com a mesma velocidade através daqueles mesmos campos de Roma, atravessados por aquedutos em ruínas, que pareciam gigantes de granito petrificados enquanto cumpriam seu trajeto. Mas a noite estava fria, escura, chuvosa, e era muito mais confortável para um homem assonado permanecer no fundo do coche, de olhos fechados, do que colocar a cabeça na portinhola para perguntar onde estava a um cocheiro que não sabia responder outra coisa a não ser: “Non capisco.”

Danglars então continuou a dormir, dizendo-se que ainda faltava muito até chegar à parada.

A diligência estacionou. Danglars supôs que finalmente chegara ao destino tão desejado.

Abriu os olhos e, através do vidro, esperou ver o centro de alguma cidade, ou pelo menos de algum vilarejo, mas não viu nada a não ser uma espécie de choupana isolada e três ou quatro homens que iam e vinham como sombras.

Danglars aguardou um instante o cocheiro que encerrara seu turno vir cobrar-lhe o dinheiro do percurso. Desejava aproveitar a oportunidade para pedir algumas informações ao seu novo condutor, mas os cavalos foram desatrelados e substituídos sem que ninguém viesse cobrar o passageiro.

Danglars, surpreso, abriu a portinhola, mas uma mão vigorosa rechaçou-a prontamente, e a diligência arrancou.

O barão, estupefato, acordou totalmente.

— Ei! — gritou ao cocheiro. — Ei, mio caro!

Era outro italiano de romança que Danglars memorizara quando sua filha cantava duetos com o príncipe Cavalcanti.

Mas mio caro não respondeu.

Danglars contentou-se então a abrir o vidro.

— Ei, amigo! Aonde vamos afinal? — disse, passando a cabeça pelo vão.

— Dentro la testa! — gritou uma voz grave e imperiosa, acompanhada por um gesto de ameaça.

Danglars compreendeu o que dentro la testa significava: “Cabeça para dentro.” Fazia, como vemos, rápidos progressos no italiano.

Obedeceu, não sem preocupação. Como tal preocupação aumentava de minuto em minuto, ao cabo de alguns instantes seu espírito, em vez do vazio que assinalamos no momento em que se pusera a caminho e que lhe dera sono, viu-se ocupado por um enxame de pensamentos, uns mais propensos que outros a deixar um viajante em alerta, e sobretudo um viajante na situação de Danglars.

Nas trevas, seus olhos ganharam aquele grau de acuidade que as emoções fortes proporcionam num primeiro momento e que se atenua mais tarde por terem sido sobrecarregados. Antes de sentir medo, enxergamos com precisão; enquanto estamos com medo, enxergamos em dobro, depois que o medo passa, enxergamos com dificuldade.

Danglars viu um homem encasacado galopando junto à portinhola direita.

— Algum policial — concluiu ele. — Será que fui assinalado pelo telégrafo francês para as autoridades pontifícias?

Resolveu sair daquela ansiedade.

— Para onde me leva? — perguntou?

— Dentro la testa! — repetiu a mesma voz, com idêntico tom de ameaça. Danglars voltou-se para a portinhola da esquerda.

Outro homem a cavalo galopava junto a ela.

— Inegavelmente — disse Danglars, suando na testa —, fui pego.

E atirou-se no fundo do coche, dessa vez não para dormir, mas para pensar. Passado um instante, a lua nasceu.

Do fundo da diligência, Danglars mergulhou o olhar nos campos. Voltou a perceber então aqueles grandes aquedutos, fantasmas de pedra que observara ao passar. Entretanto, em vez de tê-los à direita, agora tinha-os à esquerda.

Compreendeu que haviam feito meia-volta e o levavam outra vez a Roma.

— Oh, estou perdido! — murmurou. — Devem ter conseguido a extradição!

A diligência continuou correndo a uma velocidade assustadora. Uma hora terrível se passou, pois a cada novo indício lançado à sua passagem o fugitivo constatava, irrefutavelmente, que o faziam seguir seus próprios rastros. Enfim, viu um bloco escuro contra o qual pareceu-lhe que o coche ia colidir. Mas o coche desviou, contornando o tal bloco escuro, que não era outra coisa senão o cinturão de muralhas que cerca Roma.

— Oh, oh! — murmurou Danglars. — Não entramos na cidade, então não é a justiça que me detém. Meu Deus! Outra hipótese seria...

Ficou de cabelo em pé.

Lembrou-se daquelas curiosas histórias de bandoleiros romanos, tão escarnecidas em Paris, e que Albert de Morcerf contara à sra. Danglars e a Eugénie, quando o jovem visconde ainda deveria tornar-se filho de uma e marido da outra.

— Ladrões, talvez! — murmurou Danglars.

De repente o coche passou sobre alguma coisa mais dura que o chão de uma estrada de saibro. Danglars relanceou para os dois lados da estrada, percebendo monumentos de forma estranha, e seu pensamento, preocupado com a narrativa de Morcerf, que agora desfilava à sua frente em todos os seus detalhes, disse-lhe que ele devia estar na via Ápia.

À esquerda da diligência, numa espécie de vale, via-se uma escavação circular.

Era o circo de Caracala.

A uma palavra do homem que galopava na portinhola da direita, a diligência parou.

Ao mesmo tempo, a portinhola da esquerda se abriu.

— Scendi8 ! — ordenou uma voz.

Danglars desceu imediatamente. Ainda não falava italiano, mas já o entendia.

Mais morto que vivo, o barão olhou à sua volta. Quatro homens o cercavam, sem contar o cocheiro.

— Di quà9 — disse um dos quatro homens, enveredando por um atalho que ia da via Ápia até o meio daquelas aberturas desiguais dos campos de Roma.

Sem discussão, Danglars foi atrás do guia e não viu necessidade de se voltar para saber que era escoltado por mais três homens.

Entretanto, pareceu-lhe que aqueles homens detinham-se como sentinelas a distâncias quase iguais.

Após caminharem por cerca de dez minutos, durante os quais Danglars não trocou uma única palavra com seu guia, ele se viu entre um cômoro e uma moita de capim alto. Três homens de pé e calados formavam um triângulo do qual o banqueiro era o centro.

Ele quis falar, sua língua embaralhou-se.

— Avanti — disse a mesma voz lacônica e imperativa.

Nesse momento Danglars compreendeu duas vezes, pela palavra e pelo gesto, pois o homem que caminhava atrás dele empurrou-o tão brutalmente que ele esbarrou em seu guia.

O guia era nosso amigo Peppino, que se embrenhou no capim alto por uma brecha que apenas fuinhas e lagartos seriam capazes de identificar como uma trilha aberta.

Peppino parou em frente a uma rocha dominada pela mata fechada. Essa rocha, entreaberta como uma pálpebra, abriu passagem ao rapaz, que desapareceu por ali como desaparecem em seus alçapões os diabos dos nossos contos de fadas.

A voz e o gesto daquele que seguia Danglars obrigaram o banqueiro a fazer o mesmo. Não havia mais espaço para dúvida, o francês falido estava às voltas com salteadores romanos.

Danglars comportou-se como um homem colocado entre dois perigos terríveis, e a quem o medo dá coragem. A despeito de sua barriga, inadequada para penetrar nos covis dos campos romanos, infiltrou-se atrás de Peppino e, escorregando de olhos fechados, caiu de pé.

 

Ao tocar o solo, reabriu os olhos.

O atalho era largo, mas escuro. Peppino, sem temer a exposição, agora que estava em casa, fez fogo e acendeu um archote.

Outros dois homens desceram atrás de Danglars, formando uma retaguarda. Empurrando-o quando eventualmente parava, por uma descida suave fizeram-no chegar ao centro de uma encruzilhada de aparência macabra.

... essa rocha, entreaberta como uma pálpebra, abriu passagem.

Com efeito, as paredes das muralhas, escavadas como ataúdes superpostos uns aos outros, pareciam, no meio das pedras brancas, abrir olhos negros e profundos qual vemos nas cabeças dos defuntos.

Uma sentinela bateu contra sua mão esquerda a braçadeira10 de sua carabina.

— Quem vem lá? — indagou a sentinela.

— Amigo, amigo! — anunciou Peppino. — Onde está o capitão?

— Ali — respondeu a sentinela, apontando por cima do ombro uma espécie de salão escavado na rocha, cuja luminosidade refletia-se na galeria através de amplos vãos em forma de arco.

— Peixe graúdo, capitão, peixe graúdo — disse Peppino em italiano.

E, agarrando Danglars pela gola do redingote, conduziu-o por uma abertura semelhante a uma porta, pela qual penetrava-se na sala que o capitão parecia ter adaptado para servir de moradia.

— É esse o homem? — perguntou o capitão, que lia atentamente a Vida de Alexandre, em seu Plutarco.

— O próprio, capitão, o próprio.

— Ótimo. Quero ver a cara dele.

A essa ordem insolente, Peppino aproximou tão bruscamente seu archote do rosto de Danglars que este, por instinto, recuou, para não ter as sobrancelhas queimadas.

Aquele rosto transtornado sugeria todos os sintomas de um lívido e hediondo terror.

— Esse homem está cansado — disse o capitão —, levem-no para sua cama.

“Oh!”, assustou-se Danglars. “Essa cama é provavelmente um dos ataúdes incrustados na muralha. Esse sono é a morte que um dos punhais que vi brilhar na penumbra irá me proporcionar.”

Com efeito, nas profundezas sombrias da sala imensa, viam-se soerguer, sobre leitos de ervas secas ou peles de lobos, os companheiros daquele homem que Albert de Morcerf encontrara lendo os Comentários de César e que Danglars encontrara lendo a Vida de Alexandre.

O banqueiro emitiu um surdo gemido e foi atrás do guia. Não tentava nem rezar nem gritar. Não tinha mais força, nem vontade, nem poder, nem sentimento; seguia adiante porque o arrastavam.

Tropeçou num degrau, e compreendeu que tinha uma escada à sua frente. Abaixou-se instintivamente para não bater a cabeça e se viu numa cela esculpida em plena rocha.

A cela era bem limpa, embora vazia, seca e localizada numa profundidade incomensurável.

Uma cama de capim seco, forrada com pele de cabras, estava, não propriamente feita, mas jogada num canto da cela. Danglars, percebendo-a, julgou ver o símbolo radioso de sua salvação.

— Oh, Deus seja louvado! — murmurou. — É uma cama de verdade.

Era a segunda vez, em uma hora, que invocava o nome de Deus, invocação que não lhe ocorrera nos últimos dez anos.

— Ecco11 — disse o guia.

Empurrando Danglars na cela, ele fechou a porta atrás do prisioneiro.

Um ferrolho rangeu. Danglars era prisioneiro.

Aliás, ainda que não houvesse ferrolho, teria sido preciso ser são Pedro e ter por guia um anjo celeste para atravessar a guarnição que dominava as catacumbas de São Sebastião, acampando em torno de seu chefe, em quem nossos leitores decerto reconheceram o célebre Luigi Vampa.

Danglars também reconhecera o fora-da-lei, em cuja existência negara-se a acreditar quando Morcerf havia tentado divulgá-lo na França. Não reconhecera apenas ele, mas também a cela na qual Morcerf fora mantido em cativeiro e que, segundo toda probabilidade, era o pouso dos forasteiros.

Essas lembranças, nas quais não obstante Danglars estendia-se com certa alegria, devolviam-lhe a tranqüilidade. A partir do momento em que não o mataram sumariamente, os bandidos não tinham nenhuma intenção de matá-lo.

Haviam-no capturado para roubá-lo e, como ele só tinha consigo alguns luíses, pediriam um resgate.

Lembrou que Morcerf tinha sido cotado em algo em torno de quatro mil escudos. Como atribuía-se um status muito mais importante que o de Morcerf, fixou por conta própria seu resgate em oito mil escudos.

Oito mil escudos equivaliam a quarenta e oito mil libras.

Ainda lhe restava alguma coisa como cinco milhões e quinhentos mil francos.

Com essa quantia, qualquer um pode safar-se de qualquer situação em qualquer lugar.

Por conseguinte, quase certo de que ia escapar, visto que o resgate de um homem jamais chegou a custar cinco milhões e cinqüenta mil libras, Danglars estirou-se em sua cama, onde, após revirar-se duas ou três vezes, dormiu com a serenidade do herói cuja história Luigi Vampa estudava.