O Conde de Monte Cristo
20. A estrada da Bélgica
3 Boileau: Nicolas Boileau-Despréaux (1636-1711), crítico e poeta francês. Órfão de mãe com apenas dois anos de idade, e de constituição frágil, era entretanto dono de grande verve, tendo crescido, segundo suas palavras, com uma paixão que explicava todos os seus atos: “o desprezo pelo livros estúpidos”. Autor de sátiras, tratados, livros epistolares etc.
4 Quaerens quem devoret: em latim: “Procurando alguém para devorar” , Epístolas, I, 8; nesta passagem, são Pedro refere-se ao demônio.
20. A estrada da Bélgica
Alguns instantes depois do turbilhão deflagrado nos salões do sr.
Danglars pela aparição inesperada do oficial de polícia e pela revelação daí decorrente, o vasto palacete esvaziara-se com uma rapidez análoga à que teria provocado o anúncio, entre os convidados, de um caso de peste ou cólera-morbo. Em poucos minutos, por todas as portas, por todas as escadas, por todas as saídas, todos haviam se precipitado, ou melhor, fugido, pois esta era uma das circunstâncias em que não convém sequer tentar dizer as consolações banais que nas grandes catástrofes tornam tão importunos os melhores amigos.
Só ficaram na casa do banqueiro: Danglars, fechado em seu gabinete e dando seu depoimento ao oficial da gendarmeria; a sra. Danglars, aterrada, na alcova que conhecemos; e Eugénie, que, olhar altivo e lábio desdenhoso, retirara-se para o seu quarto com sua inseparável companheira, a srta. Louise d’Armilly.
Quanto aos numerosos criados, ainda mais numerosos esta noite que de costume, pois a eles se haviam somado, em função da festa, os sorveteiros, os cozinheiros e os maîtres do Café de Paris, voltando contra seus patrões a raiva pelo que chamavam uma afronta, estacionavam por grupos na copa, nas cozinhas, em seus quartos, pouco se preocupando com o serviço, que aliás se achava naturalmente interrompido.
Desses diferentes personagens, palpitando por interesses diversos, apenas dois merecem nossa atenção: a srta. Eugénie Danglars e a srta.
Louise d’Armilly.
A jovem noiva, como dissemos, retirara-se com seu olhar altivo, lábio desdenhoso e o andar de uma rainha ultrajada, seguida por sua companheira, mais pálida e perturbada do que ela.
Ao chegar ao seu quarto, Eugénie trancou a porta por dentro, enquanto Louise desabava numa cadeira.
— Oh, meu Deus, meu Deus! Que coisa horrível! — exclamou a jovem musicista. — E quem podia imaginar uma coisa dessas? O sr. Andrea Cavalcanti... um assassino... um foragido da cadeia... um homem condenado a trabalhos forçados!
Um sorriso irônico crispou os lábios de Eugénie.
— Na verdade, eu estava predestinada — disse ela. — Só escapei do Morcerf para cair no Cavalcanti.
— Oh! Não confunda um com o outro, Eugénie.
— Cale-se, todos os homens são infames, e estou feliz de poder fazer mais que detestá-los. Agora, desprezo-os.
— O que vamos fazer? — perguntou Louise.
— O que vamos fazer?
— É.
— Ora, o que faríamos daqui a três dias... partir.
— Quer dizer que, mesmo sem casar, você continua querendo?
— Escute, Louise, tenho horror a essa vida do mundo organizado, cadenciado, governado como nossa pauta musical. O que sempre desejei, ambicionei, quis, foi a vida de artista, a vida livre, independente, em que só dependemos de nós, em que só contamos conosco. Ficar, para fazer o quê? Para que tentem, daqui a um mês, me casar de novo? E com quem?
Com o sr. Debray, talvez, como já havia sido sugerido uma vez. Não, Louise, não. A aventura desta noite servirá como desculpa. Não planejei, nem pedi. Foi a vontade de Deus, ela é bem-vinda.
— Como você é forte e corajosa! — disse a moça loura e franzina à sua companheira morena.
— Ainda não me conhece? Bom, Louise, vamos organizar as coisas. O
coche para a viagem.
— Felizmente, está comprado há três dias.
— Mandou levá-lo para o local aonde vamos embarcar?
— Sim.
— Nosso passaporte?
— Aqui está!
E Eugénie, com a desenvoltura de sempre, desdobrou o papel e leu: “Sr.
Léon d’Armilly, vinte anos, profissão artista, cabelos pretos, olhos pretos, viajando com a irmã.”
— Perfeito! Com quem arranjou esse passaporte?
— Quando fui pedir ao sr. de Monte Cristo cartas para os diretores dos teatros de Roma e de Nápoles, exprimi-lhe meus temores de viajar como mulher. Ele os compreendeu perfeitamente, pôs-se à minha disposição para me arranjar um passaporte de homem e, dois dias depois, recebi este, a que acrescentei do meu punho: Viajando com a irmã.
— Perfeito! — disse alegremente Eugénie. — Temos apenas que fazer nossas malas. Partiremos na noite da assinatura do contrato em vez de partir na noite de núpcias, só isso.
— Reflita bem, Eugénie.
— Oh, todas as minhas reflexões estão feitas. Estou cansada de só ouvir falar de relatórios, de fins de mês, de alta, de baixa, de títulos espanhóis, de papéis haitianos. Em vez disso, Louise, veja bem, o ar livre, a liberdade, o canto dos passarinhos, as planícies da Lombardia, os canais de Veneza, os palácios de Roma, a praia de Nápoles. Quanto temos, Louise?
A jovem interrogada tirou de uma escrivaninha marchetada uma pequena pasta fechada com cadeado, que ela abriu e na qual contou vinte e três cédulas de dinheiro.
— Vinte e três mil francos — respondeu ela.
— E pelo menos outro tanto em pérolas, diamantes e jóias — disse Eugénie. — Estamos ricas. Com quarenta e cinco mil francos, temos com que viver como princesas durante dois anos, ou convenientemente durante quatro.
“Mas, antes de seis meses, você com a sua música, eu com a minha voz, teremos dobrado nosso capital. Vamos, cuide do dinheiro, eu cuido do cofre de jóias. Se porventura uma de nós perder seu tesouro, a outra continuará com o seu. Agora, o baú, rápido, o baú!
— Espere — disse Louise, indo escutar na porta da sra. Danglars.
— O que receia?
— Que nos surpreendam.
— A porta está trancada.
— Que nos mandem abri-la.
— Podem falar o que quiserem, não abriremos.
— Você é uma autêntica amazona, Eugénie.
E as duas moças puseram-se, numa prodigiosa atividade, a juntar num baú todos os utensílios de viagem que julgavam necessários.
— Agora — disse Eugénie —, enquanto troco de roupa, feche o baú.
Louise apoiou com toda a força suas pequenas mãos brancas sobre a tampa do baú.
— Mas não consigo — disse ela —, não tenho força. Feche você.
— Ah, está bem — disse Eugénie rindo —, eu estava esquecendo
que sou Hércules e você tão-somente a pálida Ônfala1.
E a moça, apoiando o joelho sobre o baú, retesou seus braços brancos e musculosos até que os dois compartimentos do baú se juntassem e a srta.
d’Armilly passasse o gancho do cadeado por entre as duas argolas.
Terminada a operação, Eugénie abriu uma cômoda cuja chave tinha consigo e tirou uma manta de viagem feita de seda violeta acolchoada.
— Pronto — disse ela —, está vendo que pensei em tudo. Com essa manta você não sentirá frio.
— Mas, e você?
— Oh, você sabe muito bem que nunca sinto frio; aliás, com essas roupas masculinas...
— Vai se vestir aqui?
— Certamente.
— Mas será que você vai ter tempo?
— Não se preocupe, covarde. Todo o nosso pessoal está ocupado com o grande escândalo. Além do mais, o que há de tão espantoso? Vão pensar no meu suposto desespero, no meu isolamento, não acha?
— É verdade, você me tranqüiliza.
— Venha, ajude-me.
E, da mesma gaveta de onde retirara a manta que acabava de entregar a srta. d’Armilly e com a qual esta já cobrira os ombros, Eugénie retirou um traje masculino completo, desde as botinas até o redingote, com uma provisão de roupa branca em que nada havia de supérfluo, mas da qual fazia parte todo o necessário.
Então, com uma presteza que indicava não ser a primeira vez que se disfarçava com roupas de outro sexo, Eugénie calçou suas botinas, enfiou uma calça comprida, deu um laço na gravata, abotoou até o pescoço um colete com colarinho e rematou com um redingote que desenhava sua cintura fina e redonda.
— Oh, está ótimo! Na verdade, está excelente — elogiou Louise, olhando-a com admiração. — Mas esses belos cabelos negros, essas tranças que faziam todas as mulheres suspirar de inveja, irão resistir sob um chapéu de homem como o que vejo ali?
— Você vai ver — disse Eugénie.
Apertando com a mão esquerda a trança espessa sobre a qual seus dedos esguios mal se fechavam, ela pegou com a direita um par de longas tesouras e quase no mesmo instante o aço guinchou no meio daquela rica e esplêndida cabeleira, que caiu inteirinha aos pés da moça, curvada para trás a fim de proteger o redingote.
Em seguida, desbastada a trança superior, Eugénie passou para a de suas têmporas, que podou sucessivamente, sem deixar escapar o menor
arrependimento. Ao contrário, seus olhos brilharam, ainda mais petulantes e alegres que de costume, sob aquelas sobrancelhas negras como o ébano.
— Oh, as lindas madeixas!
— Oh, as lindas madeixas! — lamentou-se Louise.
— Puxa! Não estou cem vezes melhor assim? — exclamou Eugénie, alisando os esparsos cachos de seu penteado agora todo masculino. — Não gostou do resultado?
— Oh, está linda, continua linda! — exclamou Louise. — E agora, para onde vamos?
— Para Bruxelas, se concordar. É a fronteira mais próxima. Faremos Bruxelas, Liège, Aix-la-Chapelle; subiremos o Reno até Estrasburgo, atravessaremos a Suíça e desceremos para a Itália
pelo Saint-Gothard2.
Está bom para você?
— Claro.
— O que está olhando?
— Estou olhando você. É verdade, está adorável desse jeito. Vão achar que está me raptando.
— Ora essa! E terão razão?
— Oh, você não tinha jurado, Eugénie?
E as duas moças, que qualquer um teria imaginado mergulhadas em lágrimas, uma por problemas pessoais, a outra por dedicação à amiga, caíram na gargalhada, ao mesmo tempo em que davam sumiço nos vestígios mais visíveis da desordem que naturalmente acompanhara os preparativos daquela evasão.
Em seguida, tendo assoprado suas lamparinas, com o olho interrogador, o ouvido à espreita e o pescoço retesado, as duas fugitivas abriram a porta de um toucador que dava para uma escada de serviço, a qual, por sua vez, desembocava no pátio. Eugénie já na frente, carregando com uma das mãos o baú que, pela alça oposta, a srta. d’Armilly sofria para erguer com as duas.
O pátio estava vazio. Soava a meia-noite. A luz do porteiro ainda estava acesa.
Eugénie aproximou-se sorrateiramente e viu o digno suíço dormindo no fundo de sua guarita, estendido na poltrona.
Voltou-se para Louise, pegou novamente o baú, que descansara no chão, e ambas, seguindo a sombra projetada pela parede, chegaram à abóbada.
Eugénie fez Louise esconder-se no ângulo da porta, de maneira a que o porteiro, se porventura acordasse, visse apenas uma pessoa.
Depois, oferecendo-se ela mesma à plena irradiação do poste que iluminava o pátio, gritou com sua mais bela voz de contralto, batendo no vidro:
— O portão!
O porteiro levantou-se como Eugénie previra, dando inclusive alguns passos para identificar a pessoa que saía. Contudo, ao ver um rapaz fustigando impacientemente sua calça com uma chibata, abriu prontamente.
Instantaneamente Louise insinuou-se como uma cobra pela porta entreaberta e passou com ligeireza para o lado de fora. Eugénie, aparentemente calma, embora, segundo toda a probabilidade, seu coração contasse mais pulsações que numa situação normal, saiu também.
Um carregador passava, entregaram-lhe o baú, indicaram-lhe como destino daquela corrida a rua de La Victoire e o número 36 dessa rua.
Caminharam atrás desse homem, cuja presença tranqüilizava Louise.
Quanto a Eugénie, era forte como uma Judite ou uma Dalila3. Chegaram ao número indicado. Eugénie ordenou ao carregador que pousasse o baú, deu-lhe umas moedas e, após ter batido no postigo, dispensou-o.
Esse postigo em que Eugénie batera era o de uma modesta lavadeira avisada com antecedência. Ela ainda não se deitara, abriu.
— Senhorita — disse Eugénie —, mande o porteiro tirar a caleche da garagem e mande buscar os cavalos no Hotel de Postes. Aqui estão cinco francos pelo trabalho que lhe damos.
— Realmente — disse Louise —, você é admirável e tem todo o meu respeito.
A lavadeira olhava com espanto, mas como estava combinado que receberia vinte luíses, não fez a menor observação.
Quinze minutos depois, o porteiro voltava trazendo o postilhão e os cavalos, os quais, com um safanão, foram atrelados ao coche, onde o porteiro acomodou o baú com a ajuda de uma corda e um torniquete.
— Aqui está o passaporte — disse o postilhão. — Qual é a estrada que o nosso jovem burguês vai pegar?
— A estrada de Fontainebleau — respondeu Eugénie, com uma voz quase masculina.
— Ora essa! O que diz? — perguntou Louise.
— Estou despistando — disse Eugénie. — Essa mulher a quem demos vinte luíses pode nos trair por quarenta. No bulevar, mudamos de direção.
E a moça precipitou-se para o briska esplendidamente adaptado para o pernoite, sem quase tocar no estribo.
— Como sempre, você tem razão, Eugénie — disse a professora de canto ao tomar assento ao lado da amiga.
Quinze minutos depois, o postilhão, agora no caminho correto, atravessava, fazendo estalar seu chicote, a cancela da barreira Saint-Martin.
— Ah — exclamou Louise respirando —, finalmente saímos de Paris!
— Sim, minha querida, e o rapto está definitivamente consumado —
disse Eugénie.
— Sim, mas sem violência — acrescentou Louise.
— Vou considerar isso como circunstância atenuante — respondeu Eugénie.
Essas palavras perderam-se no estrépito que fazia o coche rolando pelo calçamento de La Villete.
O sr. Danglars não tinha mais filha.
1 Ônfala: rainha legendária da Lídia, que comprou de Hermes, o deus mensageiro, um escravo que vinha a ser Hércules, o herói semideus. Segundo os latinos, Hércules afeiçoou-se tanto a ela que, esquecendo-se de si mesmo, ficava a seus pés fiando lã, como uma escrava.
2 Saint-Gothard: uma das rotas de travessia dos Alpes.
3 “uma Judite ou uma Dalila”: Judite, personagem bíblica cuja maior façanha foi cortar a cabeça de Holofernes, general de Nabucodonosor que ameaçava seu povo; Dalila, também na Bíblia, a mulher de Sansão, que o privou de sua grande força cortando-lhe os cabelos.