O Conde de Monte Cristo
18. O tesouro
2 Etrúria: território dos antigos etruscos (correspondente à Toscana atual), foi um reino criado por Napoleão em 1801 com o objetivo de dar um trono a Luís de Bourbon-Parma, parente dos Bourbon espanhóis. Em 1803, seu filho, Carlos, assume o trono. Em 12 de dezembro de 1807, Napoleão dissolve a Etrúria, forçando Carlos a abdicar.
18. O tesouro
Quando, na manhã seguinte, Dantès entrou novamente na cela do seu colega de cativeiro, encontrou Faria sentado, e a calma em seu rosto.
Sob o raio que se insinuava pelo exíguo vão de sua cela, ele segurava, aberto em sua mão esquerda — a única, lembremos, na qual os movimentos lhe restaram —, um pedaço de papel, ao qual o hábito de ficar enrolado imprimira a forma de um cilindro minúsculo rebelde a se esticar.
Sem dizer nada, Faria apontou o papel para Dantès.
— Que é isto? — este perguntou.
— Olhe bem — disse o abade, sorrindo.
— Estou olhando com toda a atenção — disse Dantès —, e não vejo senão um papel queimado pela metade e no qual estão traçados caracteres góticos com uma tinta peculiar.
— Este papel, meu amigo — disse Faria —, é, agora posso lhe confessar tudo, pois já testei sua fidelidade, este papel é o meu tesouro, cuja metade, a partir de hoje, lhe pertence.
Um suor frio brotou da testa de Dantès. Até aquele dia, e quanto tempo isso representava!, evitara falar com Faria daquele tesouro, fonte da acusação de loucura que pesava sobre o infeliz abade; com sua delicadeza instintiva, Edmond preferira não tocar naquela corda dolorosamente vibrante; e, por sua vez, Faria se calara. Dantès tomara o silêncio do velho como um retorno à razão; agora, aquelas poucas palavras, que Faria deixara escapar após uma crise complicada, pareciam anunciar uma grave recaída de alienação mental.
— Seu tesouro? — balbuciou Dantès. Faria sorriu.
— Sim — disse ele. — O senhor é um coração nobre em todos os aspectos, Edmond, e compreendo, por sua palidez e seus calafrios, o que se passa na sua cabeça neste momento. Não, fique tranqüilo, não estou louco.
O tesouro existe, Dantès, e se me não foi dado possuí-lo, o senhor o possuirá, o senhor: ninguém quis me escutar nem acreditar em mim porque me julgavam louco; mas o senhor, que deve saber que não o sou, escute-me e acredite em mim depois, se quiser.
— Ai de mim! — murmurou Edmond consigo mesmo. — Uma recaída!
Essa era a última tristeza que faltava.
Em seguida, em voz alta, ele disse a Faria:
— Meu amigo, sua crise talvez o tenha cansado um pouco, não quer descansar? Amanhã, se desejar, ouvirei sua história, mas hoje quero cuidar do senhor, apenas isso. A propósito — continuou, sorrindo —, um tesouro, será que isso é urgente para nós?
— Urgentíssimo, Edmond! — respondeu o velho. — Quem sabe se amanhã, talvez depois de amanhã, eu não serei vítima de uma nova crise?
Pense que tudo estaria terminado então! Sim, é verdade, freqüentemente pensei com um amargo prazer, nessas riquezas, que fariam a fortuna de dez famílias, perdidas para os meus perseguidores. Essa idéia me servia como vingança, e eu a saboreava lentamente na noite da minha masmorra e no desespero do meu cativeiro. Mas agora que perdoei o mundo por amor ao senhor, agora que o vejo jovem e cheio de futuro, agora que penso em tudo o que pode resultar para o senhor de felicidade em conseqüência dessa revelação, estremeço com qualquer adiamento, e aflijo-me por talvez não proporcionar a proprietário tão digno, como o senhor o é, a posse de tantas riquezas enterradas.
Edmond desviou a cabeça suspirando.
— Persiste em sua incredulidade, Edmond — prosseguiu Faria. —
Minha voz não o convenceu? Vejo que lhe faltam provas. Pois bem! Leia este papel, que não mostrei a ninguém.
— Amanhã, meu amigo — disse Edmond —, recusando-se a se render à loucura do velho. — Eu achava que havíamos combinado só falar disso amanhã.
— Falaremos apenas amanhã, mas leia este papel hoje. “Não vamos irritá-lo”, pensou Edmond.
E, pegando aquele papel cuja metade faltava, consumida que fora provavelmente por algum acidente, leu:
Esse tesouro, que pode chegar a dois
escudos romanos no ângulo mais af
da segunda abertura, o qual
lego e cedo integ
deiro.
25 de abril de 149
— E então? — Faria perguntou, quando o rapaz terminou a leitura.
— Mas — respondeu Dantès —, não vejo aí senão linhas truncadas e palavras sem sentido; os caracteres são interrompidos pela ação do fogo e permanecem ininteligíveis.
— Para o senhor, meu amigo, que as lê pela primeira vez, mas não para mim, que me consumi em cima delas noites a fio, que reconstruí cada frase e completei cada pensamento.
— E acredita ter descoberto esse sentido misterioso?
— Tenho certeza que sim, o senhor julgará por si mesmo; mas primeiro escute a história desse papel.
— Silêncio! — exclamou Dantès. — Passos! Alguém se aproxima... vou embora... Adeus.
E Dantès, feliz por escapar da história e da explicação que não teriam deixado de lhe confirmar a infelicidade do amigo, insinuou-se como uma cobra pelo túnel estreito, enquanto Faria, impulsionado pelo terror a uma espécie de atividade, empurrava com o pé a laje, que cobriu com um pano a fim de esconder aos olhos a solução de continuidade que não tivera tempo de eliminar.
Era o diretor, que, tendo tomado conhecimento do acidente de Faria por intermédio do carcereiro, vinha constatar pessoalmente sua gravidade.
Faria recebeu-o sentado, evitou qualquer atitude comprometedora e conseguiu esconder do diretor a paralisia que já matara metade de sua pessoa. Seu temor era que o diretor, tomado de compaixão por ele, quisesse transferilo para uma prisão menos insalubre e assim o separasse de seu jovem companheiro; mas felizmente não foi assim, e o diretor retirou-se convencido de que seu desafortunado louco, por quem sentia certo apego no fundo do coração, fora tão-somente vítima de uma ligeira indisposição.
Enquanto isso, Edmond, sentado na cama com a cabeça nas mãos, tentava juntar seus pensamentos; tudo era tão racional, tão grandioso e tão lógico em Faria desde que o conhecia, que não podia compreender aquela suprema sabedoria acerca de todas as coisas aliada à desrazão em um único ponto: será que Faria estava enganado a respeito do seu tesouro, ou será que todos se enganavam a respeito de Faria?
Dantès permaneceu em sua cela o dia inteiro, não ousando ir até o amigo. Tentava adiar assim o momento em que teria certeza de que o abade estava louco. Essa convicção seria terrível para ele.
Porém, à noite, passada a hora da visita diária, Faria, não vendo o rapaz voltar, tentou transpor o espaço que o separava dele. Edmond ficou arrepiado ao ouvir os esforços dolorosos que o velho fazia para se arrastar.
Sua perna estava inerte, e ele não conseguia mais fazer uso do braço.
Edmond foi obrigado a puxá-lo para si, pois nunca teria conseguido sair sozinho pela estreita abertura que desembocava na cela de Dantès.
— Aqui estou inflexivelmente obstinado no seu encalço — disse o abade, com um sorriso que irradiava benevolência. — Julgou que podia escapar à minha generosidade, mas não será assim. Escute então.
Edmond viu que não podia recuar; fez o velho sentar em sua cama e instalou-se perto dele em seu banquinho.
— Já sabe — disse o abade — que eu era secretário e amigo íntimo do cardeal Spada, o último dos príncipes deste nome. Devo a esse digno senhor tudo que desfrutei de felicidade nesta vida. Ele não era rico, embora as riquezas de sua família fossem proverbiais e eu tivesse ouvido dizer muitas vezes: “Rico como um Spada.” Mas ele, assim como o rumor popular, vivia dessa reputação de opulência. Seu palácio foi meu paraíso.
Instruí seus sobrinhos, que morreram, e, quando ele ficou sozinho no mundo, retribuí-lhe, com uma submissão absoluta às suas vontades, tudo que ele fizera por mim durante dez anos.
“A casa do cardeal logo não teve mais segredos para mim; eu vira muitas vezes monsenhor trabalhando a compilar livros antigos e a explorar avidamente empoeirados manuscritos de família. Certo dia em que eu o criticava por suas inúteis vigílias e a espécie de prostração que as sucedia, ele me fitou sorrindo amargamente e abriu um livro à minha frente, que era a história da cidade de Roma. Nele, no vigésimo capítulo da Vida do papa Alexandre VI, havia as seguintes linhas, que jamais pude esquecer: As grandes guerras da Romanha estavam terminadas. César Bórgia, que terminara sua conquista, precisava de dinheiro para comprar o resto da Itália. O papa, seu pai, também precisava de dinheiro para destruir Carlos VIII, rei da França, ainda terrível apesar de seus reveses recentes. Tratava-se então de fazer uma boa especulação, o que se tornava difícil naquela Itália esgotada.
Sua Santidade teve uma idéia. Resolveu fazer dois cardeais.
“Ao escolher dois grandes personagens de Roma, dois ricos sobretudo, eis o que o Santo Padre lucrava com a especulação: em primeiro lugar, podia vender os cargos e os empregos magníficos ocupados por esses dois futuros cardeais; além disso, podia contar com um preço espetacular pela venda daqueles dois chapéus para os dois escolhidos.
“Faltava uma terceira parte da especulação, que logo irá aparecer.
“O papa e César Bórgia primeiro selecionaram os dois futuros cardeais: Júlio Rospigliosi, que detinha sozinho quatro das mais altas dignidades da
Santa Sé, e César Spada, um dentre os romanos mais nobres e ricos.
Ambos sabiam o preço daquele favor do papa. Eram ambiciosos. Encontrados estes, César logo arranjou compradores para seus cargos, que haviam ficado vagos.
“Daí resultou que Rospigliosi e Spada pagaram para ser cardeais e que outros oito pagaram para ser o que eram antes os dois cardeais recém-criados. Entraram oitocentos mil escudos nos cofres dos especuladores.
“É hora de passarmos à última parte da especulação. Depois que o papa cumulou Rospigliosi e Spada de gentilezas, depois que lhes conferiu as insígnias do cardinalato, certo de que ambos tinham sido obrigados, para quitarem a dívida não fictícia de sua gratidão, a aportar e investir suas fortunas em Roma, onde residiriam, o papa e César Bórgia convidaram os dois para jantar.
“Isso foi causa de uma desavença entre o Santo Padre e seu filho. César achava que deviam utilizar um daqueles recursos que colocavam sempre à disposição de seus amigos íntimos, a saber: em primeiro lugar, a famosa chave com a qual ele pedia para determinadas pessoas abrirem determinado armário. Essa chave possuía uma pequena ponta de ferro, resultante da falta de capricho do artesão. Quando alguém forçava para abrir o armário, cuja fechadura era difícil, espetava-se naquela pequena ponta e morria no dia seguinte. Mas havia também o anel com cabeça de leão, que César usava no dedo quando dava determinados apertos de mão.
O leão mordia a epiderme dessas mãos escolhidas, e a mordida era mortal ao cabo de vinte e quatro horas.
“César então sugeriu ao pai que ou mandasse os cardeais abrirem o armário, ou desse a cada um o cordial aperto de mão, mas Alexandre VI respondeu:
“— Não poupemos recursos num jantar quando se trata desses excelentes cardeais Spada e Rospigliosi. Alguma coisa me diz que vamos recuperar esse dinheiro. Aliás, está se esquecendo, César, de que uma indigestão aparece imediatamente, enquanto uma espetadela ou uma mordida só se declaram após um dia ou dois. “César curvou-se àquele raciocínio. Eis por que os cardeais foram convidados para jantar.
“A mesa foi posta no vinhedo que o papa possuía perto de San Pietro in Vincoli, logradouro encantador que os cardeais conheciam muito de nome.
“Rospigliosi, aturdido com sua nova dignidade, preparou seu estômago e
sua melhor cara. Spada, homem prudente e que amava unicamente seu sobrinho, jovem e promissor capitão, pegou papel, uma pena e fez seu testamento.
“Em seguida mandou dizer àquele sobrinho que o esperasse nos arredores do vinhedo, mas parece que o criado não o encontrou.
“Spada conhecia o costume dos convites. Depois que o cristianismo, eminentemente civilizador, levara seus progressos até Roma, não era mais um centurião que chegava da parte do tirano para lhe
dizer: ‘César quer que você morra’; era um emissário a latere1, que vinha, com um sorriso nos lábios, dizer-lhe da parte do papa: ‘Sua Santidade quer que jante com ela.’ “Spada partiu por volta da duas horas para o vinhedo de San Pietro in Vincoli; o papa o aguardava. A primeira fisionomia a golpear os olhos de Spada foi a de seu sobrinho, todo paramentado, todo formoso, a quem César Bórgia prodigalizava afagos. Spada empalideceu; e César, que lhe desferiu um olhar cheio de ironia, deixou transparecer que tudo previra, que a armadilha estava bem montada.
“Jantaram. A única pergunta de Spada ao sobrinho foi: ‘Recebeu minha mensagem?’ O sobrinho respondeu que não e compreendeu perfeitamente o sentido daquela pergunta; tarde demais, pois acabava de beber um copo de excelente vinho selecionado para ele pelo sommelier do papa. Nesse momento Spada viu aproximar-se outra garrafa, que lhe foi oferecida com liberalidade. Uma hora depois o médico declarava ambos envenenados por cogumelos mortalmente tóxicos. Spada morria no limiar do vinhedo, o sobrinho expirava na porta de sua casa fazendo um sinal que a esposa não compreendeu.
“César e o papa correram para verificar a herança, sob o pretexto de procurar os papéis dos defuntos. Mas a herança consistia nisto: um pedaço de papel em que Spada escrevera: ‘Lego ao meu bem-amado sobrinho meus cofres, meus livros, entre os quais um bonito breviário com cantoneiras de ouro, desejando que ele guarde essa lembrança do seu tio querido.’ “Os herdeiros procuraram por toda parte, admiraram o breviário, surrupiaram os móveis, e qual não foi sua surpresa ao constatarem que Spada, homem rico, era na verdade o mais miserável dos tios; tesouros, nenhum, a não ser tesouros de ciência, guardados na biblioteca e nos laboratórios.
“Isso foi tudo. César e seu pai procuraram, vasculharam e espionaram, nada foi encontrado, ou, quando muito, pouquíssimas coisas: talvez mil
escudos em jóias, e quase a mesma coisa em dinheiro vivo; mas o sobrinho, ao voltar para casa, tivera tempo de dizer à sua mulher: ‘Procure entre os papéis do meu tio, existe um testamento de verdade.’ “Procuraram talvez ainda mais intensamente do que haviam feito os augustos herdeiros.
Em vão: restaram dois palácios e um vinhedo atrás do Palatino. Mas naquela época os bens imobiliários tinham um valor medíocre: os dois palácios e o vinhedo ficaram então com a família, como indignos da rapacidade do papa e de seu filho.
“Meses e anos se passaram. Alexandre VI morreu envenenado,
você sabe como2; César, envenenado simultaneamente, escapou dessa para, como uma serpente, mudar de pele e ganhar uma nova, na qual o veneno deixara manchas semelhantes às que vemos na pele do tigre. Por fim, obrigado a deixar Roma, foi morrer obscuramente numa escaramuça noturna e quase esquecida pela história.
“Após a morte do papa, após o exílio de seu filho, a maioria das pessoas esperava ver a família retomar o estilo de vida que levava na época do cardeal Spada; mas não foi assim. Os Spada permaneceram numa abastança duvidosa e um mistério eterno pairou sobre esse negócio sombrio, com o rumor público propagando que César, melhor político que o pai, roubara do papa a fortuna dos dois cardeais; digo dos dois porque o cardeal Rospigliosi, que não tomara nenhuma precaução, foi totalmente depenado.
“— Até agora — interrompeu Faria sorrindo —, não lhe parece sem pé nem cabeça, não é mesmo?”
— Oh, meu amigo — disse Dantès —, ao contrário, parece-me que leio uma crônica cheia de interesse. Continue, por favor.
— Continuo:
“A família acostumou-se àquela obscuridade. Os anos se passaram; entre os descendentes, uns foram soldados, outros, diplomatas; estes, homens de igreja, aqueles, banqueiros; uns enriqueceram, outros terminaram de se arruinar. Chego ao último da família, àquele de quem fui secretário, ao conde Spada.
“Como eu o ouvira muitas vezes queixar-se da desproporção de sua fortuna em relação ao seu status, aconselhei-o a investir os poucos bens que lhe restavam em rendas vitalícias; ele seguiu esse conselho e assim dobrou seus rendimentos.
“O famoso breviário permanecera na família, e era o conde Spada seu proprietário. Havia sido transmitido de pai para filho, pois a estranha cláusula do único testamento encontrado fazia dele uma verdadeira relíquia guardada com supersticiosa veneração na família. Era um livro iluminado com as mais belas figuras góticas, e tão pesado de ouro que um criado o carregava sempre à frente do cardeal nos dias de grande solenidade.
“Diante de papéis de todos os tipos, títulos, contratos e pergaminhos guardados nos arquivos da família, todos provenientes do cardeal envenenado, comecei por minha vez, a exemplo de vinte criados, vinte intendentes e vinte secretários que me haviam precedido, a compilar os imensos maços de papéis. Apesar da atividade e dedicação das minhas pesquisas, não encontrei absolutamente nada. Nesse ínterim eu lera, e também escrevera, uma história exata e efemerídica da família Bórgia, com o único objetivo de me certificar se alguma fortuna extra chegara às mãos daqueles príncipes com a morte do antepassado de meu cardeal César Spada, e não observara senão o acréscimo dos bens do cardeal Rospigliosi, seu companheiro de infortúnio.
Apesar da atividade e dedicação das minhas pesquisas, não encontrei absolutamente nada.
“Eu portanto tinha praticamente certeza de que a herança não beneficiara nem os Bórgia nem à família, permanecendo sem dono como aqueles tesouros dos contos árabes que dormem no seio da terra sob a vigilância de um gênio. Eu explorava, calculava, avaliava mil e uma vezes seus rendimentos e as despesas da família ao longo de trezentos anos: foi tudo inútil, permaneci em minha ignorância e o conde de Spada, em sua miséria.
“Meu patrão morreu. Além de sua renda vitalícia, ele tinha, afora seus papéis de família, uma biblioteca, composta de cinco mil volumes, e seu famoso breviário. Legou-me tudo isso, com mil escudos romanos que possuía em dinheiro vivo, sob a condição de eu mandar dizer missas anuais e fazer uma árvore genealógica e uma história de sua casa, o que fielmente executei...
“Acalme-se, meu caro Edmond, estamos nos aproximando do fim. “Em 1807, um mês antes da minha prisão e quinze dias depois da morte do conde Spada, em 25 do mês de dezembro, logo se explicará por que a data desse dia memorável permaneceu na minha memória, eu relia pela
milésima vez aqueles papéis que organizava, pois, com o palácio agora pertencendo a um estranho, eu iria deixar Roma para me estabelecer em Florença, carregando as mil e duzentas libras que possuía, minha biblioteca e meu famoso breviário, quando, cansado daquele estudo assíduo, indisposto por um almoço pesado demais, deixei minha cabeça cair entre minhas mãos e adormeci: eram três horas da tarde.
“Acordei quando o pêndulo dava seis horas.
“Levantei a cabeça, estava na mais profunda escuridão. Toquei para que me trouxessem luz, não veio ninguém; resolvi então eu mesmo providenciála. Era aliás uma atitude de filósofo que eu precisaria assumir.
Com uma das mãos peguei uma vela e, com a outra, procurei, na falta dos fósforos ausentes de sua caixa, um papel que esperava acender com um último resíduo de chama que dançava na lareira; porém, temendo pegar um papel valioso na escuridão em vez de um papel inútil, hesitei, quando me lembrei de ter visto, no famoso breviário que se encontrava na mesa ao meu lado, um papel velho e todo amarelecido, que parecia ter servido de marcador e que atravessara os séculos, mantido em seu lugar pela veneração dos herdeiros. Procurei, às apalpadelas, essa folha inútil, encontrei-a, torci-a e, apresentando-a à chama agonizante, acendi-a.
“Entretanto, sob meus dedos, como por magia, à medida que o fogo subia, vi caracteres amarelados saírem do papel branco e surgirem sobre a folha; fiquei então apavorado: apertei o papel nas mãos, abafei o fogo, acendi diretamente a vela na lareira, reabri com emoção indescritível a carta amassada e percebi que uma tinta misteriosa e benfazeja traçara aquelas letras visíveis apenas ao contato com o calor. Um pouco mais de um terço do papel fora consumido pela chama: é o papel que o senhor leu esta manhã. Releia-o, Dantès, e mais tarde, quando o tiver lido, completarei, por minha vez, as frases interrompidas e o sentido incompleto.”
Faria, interrompendo-se, ofereceu o papel a Dantès, que dessa vez releu avidamente as seguintes palavras, traçadas com uma tinta avermelhada, semelhante à ferrugem:
Neste dia de 25 de abril de 1498, ten
Alexandre VI, e receando que, não
queira herdar de mim e me re
e Bentivoglio, mortos envenenados,
meu legatário universal, que ent
por tê-lo visitado comigo, isto é, nas
ilha de Monte Cristo, tudo que eu pos
drarias, diamantes, jóias; que apenas
pode chegar a aproximadamente dois mi encontrará levantando a vigésima roch
enseada do Leste em linha reta. Duas abertu
nessas cavernas: o tesouro está no ângulo mais af
o qual tesouro lego e cedo integ
único herdeiro.
25 de abril de 1498
CÉS
— Agora, continuou o abade, leia este outro papel.
E apresentou a Dantès uma segunda folha com outros fragmentos de linhas.
Dantès pegou e leu:
do sido convidado para jantar por sua Santidade
satisfeito em ter me feito pagar pelo chapéu,
serve o destino dos cardeais Crapara
declaro ao meu sobrinho Guido Spada,
errei num lugar que ele conhece,
cavernas da pequena
suía em lingotes, ouro em moeda, pe
eu conheço a existência desse tesouro, que
lhões de escudos romanos, e que ele
a, a partir da pequena
ras foram feitas
astado da segunda,
ralmente ao meu
AR † SPADA.
Faria acompanhava-o com olhos de fogo.
— E agora — disse ele, quando viu que Dantès chegara à última linha
—, aproxime os dois fragmentos e julgue por si só.
Dantès obedeceu; os dois fragmentos aproximados davam o seguinte conjunto:
Neste dia de 25 de abril de 1498, ten... do sido convidado para jantar por sua Santidade Alexandre VI, receando que, não... satisfeito em me ter feito pagar pelo chapéu, queira herdar de mim e me re... serve o destino dos cardeais Crapara e Bentivoglio, mortos envenenados,... declaro ao meu sobrinho Guido Spada, meu legatário universal, que ent...
errei num lugar que ele conhece, por tê-lo visitado comigo, isto é, nas... cavernas da pequena ilha de Monte Cristo, tudo que eu pos... suía em lingotes, ouro em moeda,
pedrarias, diamantes, jóias; que... apenas eu conheço a existência desse tesouro, que pode chegar a aproximadamente dois mi... lhões de escudos romanos, e que ele... encontrará levantando a vigésima roch... a, a partir da pequena enseada do Leste em linha reta. Duas abertu... ras foram feitas ... nessas cavernas: o tesouro está no ângulo mais a... fastado da segunda, o qual tesouro lego e cedo integ... ralmente ao meu único herdeiro.
25 de abril de 1498
CÉS... AR † SPADA.
— E então! Compreende afinal? — disse Faria.
— Seria a declaração do cardeal Spada e o testamento procurado ao longo dos séculos? — perguntou Edmond ainda incrédulo.
— Sim, mil vezes sim.
— Quem reconstituiu isso?
— Eu, que, com a ajuda do fragmento restante, presumi o que faltava calculando o comprimento das linhas pelo do papel e penetrando o sentido oculto por meio do sentido visível, como nos guiamos num subterrâneo por uma fímbria de luz que vem do alto.
— E o que fez quando julgou ter adquirido essa convicção?
— Quis partir e parti na mesma hora, levando comigo o começo do meu grande trabalho sobre a unificação política da Itália; mas havia muito tempo a polícia imperial, que, naquele tempo, ao contrário do que Napoleão depois pretendeu quando teve um filho, queria a divisão das províncias, estava de olho em mim. Minha partida precipitada, cuja causa ela estava longe de imaginar, despertou suspeitas e, quando eu embarcava em Piombino, fui preso.
— Agora — continuou Faria, olhando para Dantès com uma expressão quase paterna —, meu amigo, o senhor sabe tanto quanto eu: se um dia escaparmos juntos, metade do tesouro é sua; se eu morrer aqui e o senhor escapar sozinho, ele lhe pertence integralmente.
— No entanto — perguntou Dantès hesitante —, esse tesouro não teria algum proprietário mais legítimo do que nós neste mundo?
— Não, não, tranqüilize-se, a família está completamente extinta, o último conde Spada, por sinal, me fez seu herdeiro; ao me legar aquele breviário simbólico, legou-me seu conteúdo; não, não, tranqüilize-se. Se pusermos a mão nessa fortuna, poderemos usufruir dela sem remorsos.
— E disse que esse tesouro consiste em...
— Dois milhões de escudos romanos, treze milhões aproximadamente na nossa moeda.
— Impossível! — disse Dantès, assustado pela enormidade da soma.
— Impossível! E por quê? — replicou o velho. — A família Spada era uma das mais antigas e poderosas do século XV. Aliás, naquela época, em que não havia nem especulação nem indústria, essas aglomerações de ouro e jóias não eram raras; ainda hoje existem famílias romanas morrendo de fome ao lado de um milhão em diamantes ou jóias transmitidos por morgadio, e no qual não podem tocar.
Edmond julgava estar sonhando: oscilava entre a incredulidade e a alegria.
— Só ocultei por tanto tempo o segredo do senhor — continuou Faria
—, primeiro para testá-lo, depois para surpreendê-lo; se tivéssemos fugido antes do meu acesso de catalepsia, eu o levaria até Monte Cristo; agora —
acrescentou ele com um sorriso —, será o senhor que vai me levar. E
então, Dantès, não me agradece?
— Esse tesouro lhe pertence, meu amigo — disse Dantès —, pertencelhe exclusivamente e não tenho nenhum direito a ele: não sou seu parente.