O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 64 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

5. Os fantasmas

1 Arganaz (Muscardinus avellanarius): roedor arborícola de hábitos noturnos, alimenta-se de frutas, flores, sementes e nozes.

2 Barreira do Inferno: construções feitas na forma de grandes portais, ou propileus, que na Paris moderna tornaram-se a praça Denfert-Rochereau.

3 “Delacroix, nosso Rubens moderno”: Eugène Delacroix (1798-1863), pintor e um dos mais importantes nomes do Romantismo francês; Peter Paul Rubens (1577-1640), pintor flamengo barroco.

4 Petrônio: escritor romano (c.27-66), autor do Satiricon, a que alude Monte Cristo, mais especificamente à passagem do festim de Trimalquião, embora os arganazes não sejam nomeados.

5 “Don Carlos fugiu de Bourges e entrou na Espanha”: nova referência às Guerras Carlistas, em torno da disputa do trono da Espanha. O infante Carlos (1788-1855), que se refugiara na França, apenas voltou à Espanha em 16 de setembro de 1839, ou seja, anos depois do momento em que a ação se desenrola. Ver também Parte III, cap.1, notas 17-20.

5. Os fantasmas

À primeira vista, e examinada de fora para dentro, a casa de Auteuil nada tinha de esplêndido, nada do que se podia esperar de uma morada destinada ao magnífico conde de Monte Cristo; mas tal simplicidade devia-se à vontade do dono, que efetivamente ordenara que nada se mudasse no exterior; para se convencer disso, bastava considerar o interior. De fato, assim que a porta se abria, o espetáculo mudava.

O sr. Bertuccio superara-se no bom gosto dos móveis e na rapidez da execução; da mesma forma que uma noite o duque d’Antin mandara abater uma aléia de árvores que atrapalhava a visão de

Luís XIV1, em três dias o sr. Bertuccio mandara plantar um pátio antes inteiramente descampado, e belos álamos, além de sicômoros vindos com seus enormes blocos de raízes, assombreavam a fachada da casa, diante da qual, em vez de lajes dissimuladas pelo capim, estendia-se um gramado cujas placas haviam sido instaladas naquela mesma manhã e que formava um vasto tapete sobre o qual ainda rebrilhava a água com que fora regado.

Naturalmente, as ordens emanavam do conde; ele mesmo entregara a Bertuccio um mapa onde indicara a quantidade e o lugar das árvores a serem plantadas, a forma e o espaço do gramado que devia suceder a área calçada.

Vista assim, a casa tornara-se irreconhecível, e o próprio Bertuccio bradava que não a conhecia mais, agora encaixada em sua moldura verde.

O intendente não teria ficado aborrecido, enquanto estava por ali, em fazer algumas transformações no jardim; mas o conde proibira taxativamente que tocassem em alguma coisa. Bertuccio compensou isso espalhando flores pelos vestíbulos, escadas e lareiras.

O que comprovava a extrema habilidade do intendente e a profunda ciência do patrão, um para servir, o outro para ser servido, é que essa casa, deserta por vinte anos, na véspera ainda tão escura e triste, impregnada com esse cheiro de bolor que podemos chamar de cheiro do tempo, adquirira em um dia, com o impacto da vida, os perfumes prediletos de seu dono, como se fosse o seu dia mais querido. É que o conde, ao chegar, tinha ali, à mão, seus livros e suas armas; sob os olhos, seus quadros preferidos; nos vestíbulos, os cães cujas carícias ele amava, os pássaros de quem amava o cantar; é que toda essa casa, despertada de seu longo sono como o palácio da Bela Adormecida, vivia, cantava, desabrochava, como

uma dessas casas por muito tempo queridas e nas quais, quando por infelicidade são abandonadas, deixamos involuntariamente uma parte da nossa alma.

Criados iam e vinham alegres pelo belo pátio. Uns, supervisores das cozinhas, deslizando, como se morassem desde sempre na casa, por escadarias restauradas na véspera. Outros ocupavam as garagens, onde as equipagens, numeradas e classificadas, pareciam instaladas há cinqüenta anos, e as estrebarias, onde os cavalos no cocho respondiam relinchando aos cavalariços, que lhes falavam com infinitamente mais respeito que muitos criados ao patrão.

A biblioteca era dividida em duas alas, de ambos os lados da parede, e continha cerca de dois mil volumes. Uma seção inteira destinava-se aos romances modernos, e o que fora recentemente publicado já estava arrumado em seu lugar, exibindo suas encadernações vermelhas e douradas.

Do outro lado da casa, simetricamente à biblioteca, ficava a estufa, abastecida com plantas raras e uma profusão de grandes porcelanas japonesas. No meio da estufa, maravilha para a visão e o olfato, um bilhar que diríamos abandonado há no máximo uma hora pelos jogadores, que haviam deixado as bolas morrerem no feltro.

Apenas um único quarto fora respeitado pelo magnífico Bertuccio.

Diante desse quarto, situado no ângulo esquerdo do primeiro andar, acessível através da grande escadaria e do qual se podia sair pela escada secreta, os criados passavam com curiosidade e Bertuccio, com terror.

Às cinco horas em ponto, o conde chegou, acompanhado por Ali, diante da casa de Auteuil. Bertuccio aguardava essa chegada num misto de impaciência e preocupação; esperava alguns elogios, embora temesse um franzir de cenho.

Monte Cristo apeou no pátio, percorreu a casa inteira e inspecionou o jardim, calado e sem esboçar qualquer sinal de aprovação ou descontentamento.

Apenas quando entrou em seu quarto pessoal, situado do lado oposto ao quarto fechado, estendeu a mão para a gaveta de um movelzinho em pau-rosa que ele já notara em sua primeira visita.

— Isso só pode servir para guardar luvas — disse.

— Com efeito — respondeu Bertuccio, entusiasmado —, abra e o senhor encontrará luvas.

Nos outros móveis, o conde também encontrou o que esperava encontrar: licores, charutos, jóias.

— Ótimo! — acrescentou.

E o sr. Bertuccio retirou-se gratificado, tão grande, poderosa e real era a influência daquele homem sobre tudo que o rodeava.

Às seis horas em ponto, ouviu-se um trote de cavalo aproximar-se da porta de entrada. Era o nosso capitão dos spahis que chegava montando Medeah.

Monte Cristo aguardava-o na escada, sorriso nos lábios.

— Primeiro a chegar, eu tinha certeza! — Morrel gritou para ele. — Fiz de propósito para tê-lo um instante só para mim antes de todo mundo.

Julie e Emmanuel desejam-lhe tudo de bom. Ah, mas sabia que aqui é magnífico?! Diga-me, conde, será que o seu pessoal cuidará bem do meu cavalo?

— Fique tranqüilo, meu caro Maximilien, são especialistas.

— É que ele precisa ser escovado. Se soubesse o ritmo em que veio! Um verdadeiro raio!

— Ora, acredito piamente, um cavalo de cinco mil francos! — exclamou Monte Cristo, no tom de um pai que falasse ao filho.

— Está arrependido? — perguntou Morrel, com seu sorriso franco.

— Eu! Deus me livre! — respondeu o conde. — Não. Me arrependeria apenas se o cavalo não fosse bom.

— É tão bom, meu caro conde, que neste momento o sr. de ChâteauRenaud, o maior perito da França, e o sr. Debray, que monta os árabes do Ministério, correm atrás de mim, e estão um pouco distantes, como vê, sendo além disso seguidos de perto pelos cavalos da baronesa Danglars, que num trote fazem meros trinta quilômetros por hora!

— Então eles o seguiam?

— Veja, aí estão.

Com efeito, no mesmo instante, um cupê com a parelha fumegante e dois cavalos de sela arfantes chegaram ao portão da casa, que se abriu à frente deles. Imediatamente o cupê descreveu seu círculo e foi parar junto aos degraus da entrada, seguido pelos dois cavaleiros.

Num instante, Debray apeou e dirigiu-se à portinhola. Ofereceu a mão à baronesa, que lhe fez, ao descer, um gesto imperceptível para todos com exceção de Monte Cristo.

Mas o conde não perdia nada, e naquele gesto viu reluzir um bilhetinho branco tão imperceptível quanto o gesto, e que passou, com um desembaraço que indicava prática nessa manobra, da mão da sra. Danglars para a do secretário do ministro.

Atrás de sua esposa desceu o banqueiro, pálido como se saísse do sepulcro, e não de um cupê.

A sra. Danglars lançou à sua volta um olhar rápido e exploratório que apenas Monte Cristo pôde compreender, e com o qual ela alcançou o pátio, o peristilo, a fachada da casa. Em seguida, reprimindo uma ligeira perturbação, que decerto traduziu-se em seu rosto, se a esse rosto fosse permitido empalidecer, ela subiu a escada ao mesmo tempo em que dizia a Morrel:

— Cavalheiro, se fôssemos mais íntimos eu lhe perguntaria se o seu cavalo está à venda.

Morrel fez um sorriso parecido com uma careta e voltou-se para Monte Cristo, quase pedindo que o tirasse daquele embaraço.

O conde compreendeu.

— Ah, senhora — ele respondeu —, por que não dirige essa pergunta a mim?

— Com o senhor, cavalheiro, não temos o direito de desejar nada, pois já temos a certeza prévia de obter. Daí a pergunta ao sr. Morrel.

— Infelizmente — replicou o conde —, sou testemunha de que o sr.

Morrel não pode ceder seu cavalo, tendo comprometido sua honra em nome de preservá-lo.

— Como assim?

— Ele apostou que domava Medeah num período de seis meses. A senhora agora compreende, baronesa, que, se ele se desfizesse do animal antes do prazo fixado pela aposta, não apenas a perderia, como seria acusado de medroso; e um capitão dos spahis, ainda que para satisfazer o capricho de uma bela mulher, o que, na minha opinião, é uma das coisas mais sagradas do mundo, não pode deixar correr um boato desse tipo.

— Compreende, senhora... — reforçou Morrel, ao mesmo tempo em que lançava um sorriso de gratidão ao conde.

— Aliás, me parece — disse Danglars num tom áspero, mal disfarçado pelo sorriso pegajoso — que a senhora já passou dos limites em matéria de cavalos.

A sra. Danglars não tinha o hábito de deixar passar ataques desse gênero sem dar o troco, porém, para grande espanto dos rapazes, ela fingiu não ouvir e não respondeu nada.

Monte Cristo sorria diante de tal silêncio, que denunciava uma humildade não habitual, enquanto mostrava à baronesa dois imensos vasos de porcelana chinesa, nos quais serpenteavam vegetações marinhas de tal espessura e ourivesaria que apenas a natureza podia ter aquela opulência, aquela seiva e aquele espírito.

A baronesa parecia deslumbrada.

— Nossa! Poderíamos plantar aí dentro uma castanheira das Tulherias!

— exclamou ela. — Como podem ter sido cozidas essas enormidades?

— Ah, senhora — disse Monte Cristo —, não devemos perguntar

isso a nós mesmos, fabricantes de estatuetas e vidro musselina2; é um trabalho de outras eras, uma espécie de obra dos gênios da terra e do mar.

— Como assim? E de que época pode ser?

— Não sei; apenas ouvi dizer que um imperador da China mandara construir um forno especial; e, nesse forno, uns depois dos outros, foram cozidos doze vasos iguais a este. Dois se quebraram ao calor do fogo; os outros dez foram descidos a cem braças no fundo do mar. O mar, sabendo o que dele se pedia, sobre os vasos lançou seus cipós, retorceu seus corais, incrustou suas conchas; este conjunto ganhou aderência após duzentos anos sob profundidades inauditas, pois uma revolução derrubou o imperador que empreendera esse experimento e deixou apenas os autos, que relatavam o cozimento dos vasos e sua descida ao fundo do mar. Dois séculos mais tarde, os autos foram descobertos e planejou-se a retirada dos vasos. Mergulhadores partiram, em máquinas especiais, para explorar a baía aonde haviam sido lançados; mas dos dez encontraram apenas três, os demais tendo sido espalhados e quebrados pelas ondas. Amo esses vasos, em cujo fundo às vezes imagino que monstros informes, assustadores, misteriosos e semelhantes aos que apenas mergulhadores vêem, gravaram com perplexidade seu olhar opaco e frio, e onde dormiram miríades de peixes, que neles se refugiavam para fugir da perseguição dos inimigos.

Nesse ínterim, Danglars, pouco afeito a curiosidades, arrancava mecânica e sucessivamente as flores de uma magnífica laranjeira. Quando terminou, dirigiu-se a um cacto, mas então o cacto, de temperamento mais difícil que a laranjeira, espetou-o ultrajantemente.

Ele então estremeceu e esfregou os olhos, como se saísse de um sonho.

— Cavalheiro — disse-lhe Monte Cristo sorrindo —, ao senhor que é um amante da pintura e que possui quadros tão magníficos, não recomendo os meus. Não obstante, aqui estão dois Hobbema, um Paul Potter, um Mieris, dois Gérard Dow, um Rafael, um Van Dyck,

um Zurbaran e dois ou três Murillo3, que são dignos de lhe ser apresentados.

— Minha nossa! — disse Debray. — Estou reconhecendo aqui um Hobbema.

— Oh! É mesmo?

— Claro, foram oferecê-lo ao museu.

— Que não tem um, creio... — atreveu-se Monte Cristo.

— Não, e que entretanto recusou-se a comprá-lo.

— Ora, por quê? — perguntou Château-Renaud.

— O senhor é uma graça; porque o governo não é tão rico assim.

— Queira me desculpar! — replicou Château-Renaud. — Ouço essas coisas todos os dias desde os oito anos de idade e ainda não me acostumei.

— Esse dia chegará... — disse Debray.

— Não acredito — respondeu Château-Renaud.

— O sr. major Bartolomeo Cavalcanti! O sr. visconde Andrea Cavalcanti!

— anunciou Baptistin.

Uma gola de cetim preto recém-saída das mãos do fabricante, uma barba nova, bigodes grisalhos, olhar firme, um casaco de major engalanado com três placas e cinco cruzes, em suma, um traje irretocável de militar veterano, assim surgiu o major Bartolomeo Cavalcanti, aquele pai carinhoso nosso conhecido.

Perto dele, paramentado por roupas reluzentemente de novas, avançava, com um sorriso nos lábios, o visconde Andrea Cavalcanti, aquele filho respeitoso também nosso conhecido.

Os três rapazes conversavam; seus olhares iam do pai para o filho, detendo-se, naturalmente, por mais tempo neste último, que esquadrinhavam.

— Cavalcanti! — exclamou Debray.

— Belo nome. — comentou Morrel. — Nossa!

— Realmente — disse Château-Renaud —, esses italianos podem saber escolher nomes, mas vestem-se muito mal.

— Não seja exigente, Château-Renaud — reprovou Debray. — Essa roupa acaba de sair das mãos de um excelente alfaiate, e são novas em

folha.

— Pois é exatamente isso que me incomoda. Esse senhor parece estar se vestindo hoje pela primeira vez na vida.

— Quem são esses cavalheiros? — perguntou Danglars ao conde de Monte Cristo.

— O senhor ouviu, os Cavalcanti.

— O que me informa apenas o nome deles, e nada mais.

— Ah, é verdade, o senhor não está familiarizado com a nobreza da Itália; quem diz Cavalcanti, diz raça de príncipes.

— Fortuna respeitável? — perguntou o banqueiro.

— Fabulosa.

— O que fazem?

— Tentam consumi-la até não mais poder. Têm, a propósito, créditos em seu banco, pelo que disseram ao me visitar anteontem. Eu os convidei inclusive pensando no senhor. Vou apresentá-lo.

— Mas eles parecem falar perfeitamente o francês — observou Danglars.

— O filho foi educado num colégio no sul da França, em Marselha, ou nas redondezas, creio. Como o senhor poderá constatar no entusiasmo do jovem.

— Com o quê? — perguntou a baronesa.

— Com as francesas, senhora. Quer absolutamente arranjar uma esposa em Paris.

— Que boa idéia! — ironizou Danglars, dando de ombros.

A sra. Danglars olhou para o marido com uma expressão que, em qualquer outro momento, teria pressagiado tempestade; pela segunda vez, porém, se calou.

— O barão parece bastante melancólico hoje — disse Monte Cristo à sra. Danglars. — Estaria porventura sendo sondado para ministro?

— Não, que eu saiba, ainda não. O principal motivo, eu creio, é que jogou na Bolsa, perdeu e não sabe como agir.

— O sr. e sra. de Villefort! — bradou Baptistin.

As duas pessoas anunciadas entraram. O sr. de Villefort, apesar de seu poder de autocontenção, estava nitidamente perturbado. Ao tocar sua mão, Monte Cristo sentiu que ela tremia.

“Decididamente, só as mulheres para saberem dissimular” — disse Monte Cristo consigo mesmo, olhando para a sra. Danglars, que sorria

para o procurador do rei e beijava sua mulher.

Após os primeiros cumprimentos, o conde percebeu Bertuccio, ocupado até aquele momento para os lados da copa, insinuando-se num pequeno salão vizinho àquele em que todos estavam.

O intendente veio em sua direção.

— Que deseja, sr. Bertuccio? — perguntou-lhe Monte Cristo.

— Sua Excelência não me disse o número de convidados.

— Ah, é verdade!

— Quantos talheres?

— Conte o senhor mesmo.

— Já chegou todo mundo, Excelência?

— Sim.

Bertuccio espreitou pela porta entreaberta. Monte Cristo observava-o avidamente.

— Ah, meu Deus! — ele exclamou.

— Que houve? — perguntou o conde.

— Aquela mulher...! Aquela mulher...!

— Qual?

— A de vestido branco e cheio de diamantes! A loura!

— A sra. Danglars?

— Não sei o nome dela. Mas é ela, senhor, é ela!

— Ela quem?

— Mas é ela, senhor, é ela!

— A mulher do jardim! A que estava grávida! A que passeava enquanto esperava...! Enquanto esperava...!

Bertuccio mantinha-se boquiaberto, pálido e de cabelo em pé.

— Enquanto esperava quem?

Bertuccio, sem responder, apontou Villefort com o dedo, fazendo um

gesto similar ao de Macbeth para Banquo4.

— Oh! Oh! — murmurou finalmente. — O senhor está vendo?

— O quê? Quem?

— Ele!

— Ele...! O sr. procurador do rei, de Villefort? Claro, estou vendo.

— Mas então eu não o matei?

— Ah, agora acho que está ficando louco, meu caro sr. Bertuccio —

disse o conde.

— Mas então ele não morreu?

— Claro que não! Não morreu, como pode ver; em vez de golpeá-lo entre a sexta e sétima vértebra esquerda, como seus compatriotas costumam fazer, o senhor deve ter golpeado mais acima, ou mais abaixo; e

essas pessoas da justiça têm a alma aparafusada no corpo, ou então nada do que o senhor me contou é verdade, foi um sonho da sua imaginação, uma alucinação do seu espírito. O senhor dormiu digerindo mal sua vingança, esta lhe pesou no estômago, o senhor teve um pesadelo, apenas isso. Vamos, acalme-se e conte: o sr. e a sra. de Villefort, dois; o sr. e a sra.

Danglars, quatro; o sr. de Château-Renaud, o sr. Debray, o sr. Morrel, sete; o sr. major Bartolomeo Cavalcanti, oito.

— Oito! — repetiu Bertuccio.

— Espere um pouco! Espere um pouco! Está com muita pressa, que diabos! Está se esquecendo de um dos meus convidados. Chegue um pouquinho para a esquerda... isso... O sr. Andrea Cavalcanti, aquele moço de preto que está admirando a Virgem de Murillo e se volta para cá agora.

Dessa vez Bertuccio esboçou um grito que o olhar de Monte Cristo extinguiu nos seus lábios.

— Benedetto! — murmurou baixinho. — Que fatalidade!

— São seis e meia, sr. Bertuccio — disse severamente o conde. — Foi a hora que determinei para o jantar; sabe que não gosto de esperar.

E Monte Cristo adentrou novamente o salão onde seus convidados o aguardavam, enquanto Bertuccio voltava à sala de jantar, escorando-se nas paredes.

Cinco minutos depois, as duas portas do salão foram abertas.

Bertuccio apareceu e, fazendo, como Vatel em Chantilly5, um último e heróico esforço, disse:

— O sr. conde está servido.

Monte Cristo ofereceu o braço à sra. de Villefort.

— Sr. de Villefort — disse ele —, por favor, faça companhia à sra.

Danglars.

Villefort obedeceu, e passaram à sala de jantar.