O Conde de Monte Cristo
7. Beauchamp
Durante quinze dias o único assunto em Paris foi aquela tentativa de roubo empreendida com tanta audácia na casa do conde. O moribundo assinara uma declaração apontando Benedetto como seu assassino. A polícia foi intimada a lançar todos os seus agentes no rastro do facínora.
A faca de Caderousse, a lamparina fosca, o molho de gazuas e as roupas, menos o colete, que não pôde ser encontrado, foram recolhidos pelo tribunal; o corpo foi transportado para o necrotério.
A todos, o conde respondia que a aventura acontecera enquanto ele estava em sua casa de Auteuil e que, por conseguinte, sabia apenas o que lhe dissera o abade Busoni, o qual, aquela noite, pelo maior dos acasos, pedira-lhe hospedagem a fim de consultar alguns livros raros em sua biblioteca.
Apenas Bertuccio empalidecia todas as vezes que o nome Benedetto era pronunciado em sua presença; mas não havia nenhum motivo para que alguém percebesse a palidez de Bertuccio.
Villefort, chamado para constatar o crime, reivindicara o caso e conduzia a investigação com aquele ardor apaixonado que imprimia em todas as causas criminais em que era convidado a emitir sua opinião.
Mas três semanas já se haviam passado sem nenhum progresso nas minuciosas investigações; a sociedade começava a esquecer a tentativa de roubo empreendida na casa do conde, e o assassinato do ladrão pelo seu cúmplice, para se ocupar do casamento próximo da srta. Danglars com o conde Andrea Cavalcanti.
Mal o casamento fora declarado, o rapaz passou a ser recebido na casa do banqueiro sob o título de noivo.
Haviam escrito ao sr. Cavalcanti pai, que aprovara com entusiasmo o casamento e que, exprimindo todas as desculpas pelo fato de suas ocupações o impedirem absolutamente de deixar Parma, onde estava, declarava consentir em dar o capital equivalente a cento e cinqüenta mil libras de renda.
Estava convencionado que os três milhões seriam depositados no estabelecimento de Danglars, que os investiria. Algumas pessoas bem que haviam tentado suscitar no rapaz dúvidas acerca da solidez da posição do seu futuro sogro, que, já há algum tempo, sofria na Bolsa reiteradas perda, mas o rapaz, com um desinteresse e uma confiança sublimes, rechaçou
todos esses alertas, a respeito dos quais teve a delicadeza de não dizer uma única palavra ao barão.
Da mesma forma, o barão adorava o conde Andrea Cavalcanti.
Não se dava o mesmo com a srta. Eugénie Danglars. Em seu ódio instintivo contra o casamento, ela acolhera Andrea como um meio de afastar Morcerf; mas, agora que Andrea se aproximava excessivamente, começava a sentir uma forte repulsa por ele.
Talvez esse fato não passasse desapercebido ao barão. No entanto, como só podia atribuir tal repulsa a um capricho, ele simplesmente fingiu que não percebera nada.
Enquanto isso, o prazo pedido por Beauchamp estava quase esgotado.
Em todo caso, Morcerf pudera apreciar o valor do conselho de Monte Cristo, quando este recomendara-lhe deixar as coisas correrem por si mesmas. Ninguém percebera a nota sobre o general, muito menos tivera o tino de reconhecer no oficial que entregara o castelo de Janina o nobre conde com assento na Câmara dos Pares.
Nem por isso Albert achava-se menos insultado, pois a intenção da ofensa estava óbvia nas poucas linhas que o haviam melindrado. Além do mais, a maneira como Beauchamp terminara a conversa deixara um lembrança amarga em seu coração. Acariciava em seu espírito, portanto, a idéia daquele duelo, do qual esperava, se Beauchamp se dispusesse a encará-lo, esconder a causa real, até mesmo a suas testemunhas.
Quanto a Beauchamp, não fora visto novamente desde o dia da visita que Albert lhe fizera. A todos que perguntavam por ele, respondia-se que se ausentara para uma viagem de alguns dias.
Onde estava? Ninguém sabia.
Certa manhã, Albert foi despertado pelo seu criado de quarto, que lhe anunciava Beauchamp.
Albert esfregou os olhos, ordenou que deixassem Beauchamp esperando no pequeno fumoir do rés-do-chão, vestiu-se agilmente e desceu.
Encontrou Beauchamp andando de um lado para o outro; percebendo-o, Beauchamp parou.
— A iniciativa que o senhor toma ao se apresentar em minha casa espontaneamente, e sem esperar a visita que eu pretendia lhe fazer hoje, parece-me de bom augúrio, cavalheiro — disse Albert. — Vejamos, responda rápido, devo estender-lhe a mão dizendo: “Beauchamp, admite o
erro e continua meu amigo?” Ou devo simplesmente perguntar: “Quais são as suas armas?”
— Albert — disse Beauchamp com uma tristeza que deixou o moço estarrecido —, antes vamos sentar e conversar.
— Mas me parece, ao contrário, cavalheiro, que antes de sentar o senhor me deve uma resposta...
— Albert — disse o jornalista —, há circunstâncias em que a dificuldade está justamente na resposta.
— Vou facilitá-la para o senhor, repetindo a pergunta: “Irá retratar-se?
Sim ou não?”
— Morcerf, não basta responder sim ou não a perguntas que envolvem a honra, a posição social e a vida de um homem como o sr. tenente-general conde de Morcerf, par de França.
— O que se deve fazer então?
— Deve-se fazer o que estou fazendo, Albert; dizer: “O dinheiro, o tempo e o cansaço não são nada quando se trata da reputação e dos interesses de toda uma família”; dizer: “É preciso mais que probabilidades, é preciso certezas para aceitar um duelo mortal com um amigo”; dizer: “Se eu cruzar a espada, ou se apertar o gatilho de uma pistola contra um homem cuja mão apertei durante três anos, preciso saber pelo menos por que estou fazendo isso, a fim de que chegue no terreno com o coração apaziguado e a consciência tranqüila indispensável ao homem quando este depende do seu braço para salvar sua vida.”
— Muito bem, muito bem! — impacientou-se Morcerf. — O que significa isso?
— Significa que estou chegando de Janina.
— De Janina? O senhor!
— Sim, eu.
— Impossível!
— Meu caro Albert, aqui está o meu passaporte; observe os vistos: Genebra, Milão, Veneza, Trieste, Delvino, Janina. Você daria fé às
polícias de uma república, de um reino e de um império1?
Albert lançou os olhos para o passaporte e os reergueu, assustados, para Beauchamp.
— Esteve em Janina? — perguntou.
— Albert, se você fosse um estrangeiro, um desconhecido, um simples lorde como aquele inglês que veio pedir satisfações a mim há três ou
quatro meses e que matei para dele me desvencilhar, você compreende que não teria me dado esse trabalho. Mas achei que lhe devia essa nota de consideração. Levei uma semana para ir, uma semana para voltar, mais quatro dias de quarentena e quarenta e oito horas de estadia; isso dá umas boas três semanas. Cheguei esta noite, aqui estou.
— Meu Deus, meu Deus! Quanto rodeio, Beauchamp, para me dizer o que espero do senhor!
— É que, na verdade, Albert...
— Você parece hesitar.
— Sim, estou com medo.
— Está com medo de confessar que seu correspondente se enganou? Oh!
Nada de amor-próprio, Beauchamp; admita, sua coragem não pode ser posta em dúvida.
— Oh, não é nada disso — murmurou o jornalista —, ao contrário...
Albert empalideceu terrivelmente: tentou falar, mas a palavra expirou em seus lábios — Meu amigo — disse Beauchamp, no tom mais afetuoso —, acredite em mim, seria uma felicidade apresentar-lhe minhas desculpas, e essas desculpas, eu as pediria do fundo do coração; mas, infelizmente...!
— Mas o quê?
— A notícia estava correta, meu amigo.
— Como assim! Esse oficial francês...
— Sim.
— Esse Fernand?
— Sim.
— Esse traidor que entregou os castelos do homem a serviço de quem...
— Perdoe-me por dizer o que digo, amigo: esse homem é seu pai!
Albert fez um movimento furioso para se lançar sobre Beauchamp, mas este o reteve muito mais com o olhar apiedado que com a mão estendida.
— Pegue, meu amigo — disse ele, tirando um papel do bolso —, eis a prova.
Albert abriu o papel; era um atestado de quatro moradores notáveis de Janina, atestando que o coronel Fernand Mondego, coronel instrutor a serviço do vizir Ali Tebelin, entregara o castelo de Janina mediante dois mil escudos.
As assinaturas eram autenticadas pelo cônsul. Albert vacilou e caiu esmagado numa poltrona.
Não havia do que duvidar dessa vez, o nome da família estava ali, com todas as letras.
Assim, após um momento de silêncio mudo e doloroso, seu coração inflou-se, as veias de seu pescoço saltaram, uma torrente de lágrimas jorrou de seu rosto.
Albert fez um movimento furioso para se lançar sobre Beauchamp.
Beauchamp, que contemplara com profunda piedade aquele rapaz cedendo ao paroxismo da dor, aproximou-se dele.
— Albert — disse-lhe —, compreende-me agora, não é? Eu quis ver tudo, julgar tudo por mim mesmo, na esperança de que a explicação fosse favorável ao seu pai e eu pudesse fazer-lhe toda a justiça. Mas, ao contrário, as informações colhidas atestam que esse oficial instrutor, que esse Fernand Mondego, promovido por Ali Paxá à patente de general-governador, não é outro senão o conde Fernand de Morcerf; então retornei, pensando na honra que sinto em ser admitido como seu amigo, e corri para você.
Albert, ainda largado na poltrona, mantinha as duas mãos sobre os olhos, como se quisesse impedir que o dia chegasse até ele.
— Corri para você — continuou Beauchamp — a fim de lhe dizer: Albert, os erros dos nossos pais, naqueles tempos de ação e reação, não podem atingir os filhos. Albert, muito poucos atravessaram essas revoluções em meio às quais nascemos sem que alguma nódoa de lama ou sangue tenha manchado seu uniforme de soldado ou sua toga de juiz.
Albert, ninguém no mundo, agora que estou de posse de todas as provas, agora que detenho o seu segredo, pode me obrigar a um combate que a sua consciência, tenho certeza disso, repeliria como um crime. Mas o que você não pode mais exigir de mim, eu venho lhe oferecer. Essas provas, essas revelações, esses atestados que apenas eu possuo, deseja que eles desapareçam? Quer que esse segredo terrível fique entre nós? Sob o selo da minha palavra de honra, ele nunca sairá da minha boca. Fale, Albert, é isso que deseja? É isso que deseja, meu amigo?
Albert lançou-se no pescoço de Beauchamp.
— Ah, nobre coração! — exclamou.
— Pegue — disse Beauchamp, entregando os papéis a Albert.
Albert agarrou-os com a mão convulsiva, apertou-os, amassou-os, pensou em rasgá-los; porém, temendo que um pedacinho qualquer carregado pelo vento voltasse um dia para golpeá-lo na testa, foi até a vela ainda acesa para os charutos e eliminou até o último fragmento.
— Querido amigo, excelente amigo! — murmurou Albert, enquanto queimava os papéis.
— Que tudo isso seja esquecido como um pesadelo — disse Beauchamp
—, que se apague como essas últimas fagulhas que correm sobre o papel enegrecido, que tudo evapore como essa última fumaça escapando das cinzas mudas.
— Sim, sim — disse Albert —, e que reste apenas a eterna amizade que dedico ao meu salvador, amizade que os meus filhos transmitirão aos seus, amizade que sempre me lembrará que o sangue das minhas veias, a vida do meu corpo, a honra do meu nome, eu os devo a você; pois, se uma coisa dessas se espalhasse, oh, Beauchamp, juro a você, eu daria um tiro na cabeça; ou melhor, não, coitada da minha mãe, não gostaria de matá-la ao mesmo tempo, ou me expatriava.
— Querido Albert! — disse Beauchamp.
Mas o rapaz logo saiu dessa alegria inopinada e, por assim dizer, artificial, recaindo mais profundamente em sua tristeza.
— E então! — perguntou Beauchamp. — O que há agora?
— Há — disse Albert —, que meu coração está partido. Admita, Beauchamp, ninguém abandona num piscar de olhos o respeito, a confiança e o orgulho que inspira a um filho o nome sem mácula do pai.
Oh, Beauchamp, Beauchamp! Como vou falar com o meu agora? Recuarei a minha fronte, quando ele aproximar seus lábios, minha mão, quando ele aproximar a sua? Ouça, Beauchamp, sou o mais infeliz dos homens. Ah, minha mãe — suspirou Albert, contemplando, através de seus olhos afogados pelas lágrimas, o retrato da condessa de Morcerf —, se a senhora soube desses fatos, deve ter sofrido muito!
— Calma — disse Beauchamp, pegando-lhe as duas mãos —, coragem, amigo!
— Mas qual a origem da primeira notícia inserida em seu jornal? —
exclamou Albert. — Há, por trás disso tudo, um ódio desconhecido, um inimigo invisível.
— Pois bem — disse Beauchamp —, mais uma razão. — Coragem, Albert! Não deixe sua emoção transparecer. Carregue esse sofrimento como a nuvem carrega a ruína e a morte, segredo fatal que só compreendemos quando a tempestade desaba. Vamos, amigo, guarde suas forças para o momento em que o trovão rebentar.
— Oh, mas então acha que não terminamos com isso? — perguntou Albert, aterrado.
— Eu não acho nada, meu amigo; mas, enfim, tudo é possível. A propósito...
— O quê? — perguntou Albert, vendo que Beauchamp hesitava.
— Continua de pé seu casamento com a srta. Danglars?
— Por que tal pergunta num momento como este, Beauchamp?
— Porque, na minha cabeça, o rompimento ou a consumação desse casamento relaciona-se com o objeto de que nos ocupamos neste momento.
— Como! — exclamou Albert, com a fronte inflamada. — Acredita que o sr. Danglars...
— Pergunto-lhe apenas em que pé está seu casamento. Que diabos! Não veja em minhas palavras coisas que elas não trazem e não lhes dê a importância que elas não têm.
— Não — disse Albert —, o casamento está rompido.
— Entendo — disse Beauchamp.