O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 50 de 119

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O Conde de Monte Cristo

10. Ideologia

PS: Faça com que eu encontre de uma maneira ou de outra o conde de Monte Cristo em sua casa, faço questão absoluta de revê-lo. Em todo caso, acabo de obter do sr. de Villefort a promessa de que irá lhe fazer uma visita; espero, claro, que ele a retribua.

 

À noite, a peripécia de Auteuil era o assunto de todas as conversas: Albert a relatava à sua mãe, Château-Renaud, no Jockey Club, Debray, no salão do ministro; o próprio Beauchamp concedeu ao conde, em seu jornal, uma nota de vinte linhas, que tratou o nobre estrangeiro como herói de todas as mulheres da aristocracia.

Muita gente procurou a casa da sra. Villefort com o intuito de renovar sua visita em melhor momento, para então ouvir de sua boca todos os detalhes da pitoresca aventura.

Quanto ao sr. de Villefort, como dissera Héloïse, ele vestiu um casaco preto, luvas brancas, sua mais bela libré, e subiu na charrete que foi, no dia seguinte pela manhã, estacionar à porta do no30 da casa dos ChampsÉlysées.

1 Boucher: François Boucher (1703-70), pintor francês, talvez o maior artista decorativo de sua época.

2 “seus trinta e seis anos”: segundo as informações já fornecidas pelo autor, ela a essa altura deveria ter quarenta anos.

3 Émile: referência ao livro Emílio, ou Da educação, escrito em 1762, pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-78).

4 Ranelagh: parque público parisiense cujo nome deriva de lorde Ranelagh, irlandês idealizador de bailes ao ar livre em Dublin.

10. Ideologia

Se o conde de Monte Cristo freqüentasse há mais tempo a sociedade parisiense, teria dado o devido valor ao gesto a ele dispensado pelo do sr.

de Villefort.

À vontade na corte, fosse o rei no trono do ramo primogênito ou do ramo caçula, fosse o ministro governante doutrinário, liberal ou conservador; reputado hábil por todos, como geralmente são reputados os que nunca experimentaram fracassos políticos; odiado por muitos, mas calorosamente protegido por uns poucos sem todavia ser amado por ninguém, o sr. de Villefort ocupava um alto cargo na magistratura e mantinha-se nessas alturas como um

Harlay ou um Molé1. Seu salão, regenerado por uma jovem mulher e por uma filha de seu primeiro casamento que mal fizera dezoito anos, nem por isso deixava de ser um desses salões austeros de Paris, em que são observados o culto às tradições e a religião da etiqueta. Polidez fria, fidelidade absoluta aos princípios governamentais, desprezo profundo pelas teorias e pelos teóricos, ódio profundo aos ideólogos, eram estes os elementos da vida íntima e pública exibidos pelo sr. de Villefort.

O sr. de Villefort não era apenas um magistrado, era quase um diplomata. Suas relações com a antiga corte, da qual falava sempre com dignidade e deferência, faziam-no respeitar a nova, e ele sabia tanta coisa que não apenas era sempre poupado, como ainda algumas vezes, consultado. Poderia não ter sido assim, caso houvessem conseguido se desembaraçar do sr. de Villefort, mas este habitava, como os senhores feudais rebeldes a seu suserano, uma fortaleza inexpugnável. Tal fortaleza era seu cargo de procurador do rei, cujas vantagens, sem exceção, ele explorava maravilhosamente, e do qual só sairia para ser eleito deputado, substituindo dessa forma a neutralidade pela oposição.

Em geral, o sr. de Villefort fazia ou retribuía poucas visitas. Sua mulher visitava para ele: era um costume aceito na sociedade, que punha na conta das graves e numerosas ocupações do magistrado o que na realidade não passava de orgulho calculado, uma quintessência de aristocracia, enfim, uma aplicação do axioma: Finge valorizar-te e serás valorizado, que é cem vezes mais útil em nossa sociedade que o axioma grego: Conhece-te a ti mesmo, substituído em nossos dias pela arte menos difícil e mais vantajosa de conhecer os outros.

Para seus amigos, o sr. de Villefort era um protetor poderoso; para seus inimigos, um adversário discreto, mas encarniçado; para os indiferentes, a estátua da lei personificada num homem: altivo, de fisionomia impassível, olhar opaco e baço, ou insolentemente penetrante e escrutador, era este o homem cujo pedestal fora construído, e depois cimentado, por quatro revoluções habilmente sobrepostas umas às outras.

O sr. de Villefort tinha a reputação de ser o homem menos curioso e menos banal da França; dava um baile todos os anos e só aparecia nele por quinze minutos, isto é, quarenta e cinco minutos a menos que o rei nos seus; nunca era visto nem nos teatros, nem nos concertos, nem em qualquer local público; às vezes, raramente, jogava uma partida de uíste, sendo preciso nessas ocasiões reunir parceiros dignos dele: algum embaixador, arcebispo, príncipe, presidente ou, finalmente, alguma duquesa viúva.

Este era o homem dono do coche que acabava de estacionar à porta de Monte Cristo.

O mordomo anunciou o sr. de Villefort no momento em que o conde, debruçado sobre uma grande mesa, seguia num mapa o itinerário de São Petersburgo até a China.

O procurador do rei entrou com o mesmo passo grave e cadenciado com que entrava no tribunal; era de fato o mesmo homem, ou melhor, a continuação do mesmo homem que víramos outrora substituto em Marselha. A natureza, coerente com seus princípios, nele não mudara em nada o curso que devia seguir. De esguio passara a magro, de pálido, a amarelo, seus olhos embutidos tornaram-se cavos, e seus óculos, com hastes de ouro, ao pousarem em suas órbitas, pareciam fazer parte do rosto; exceto pela gravata branca, o restante de seu figurino era completamente preto, e essa cor fúnebre contrastava apenas com o sutil debrum do cordão vermelho imperceptivelmente atravessado em sua lapela, como a linha de sangue ali desenhada por um pincel.

 

De esguio passara a magro, de pálido, a amarelo...

Por mais senhor de si que fosse, Monte Cristo examinou o magistrado com visível curiosidade, retribuindo-lhe o cumprimento, enquanto Villefort, desconfiado por hábito e pouco crédulo, sobretudo quanto às maravilhas sociais, dispunha-se a ver no nobre estrangeiro — como Monte Cristo já era conhecido — mais um arrivista vindo explorar um novo teatro, ou um malfeitor saído da prisão, que um príncipe da Santa Sé ou um sultão das Mil e uma noites.

— Senhor — disse Villefort no tom esganiçado que os magistrados afetam em seus períodos oratórios e do qual não conseguem, ou não querem, se desfazer na conversa —, o notável favor que prestou ontem à minha mulher e ao meu filho obriga-me ao dever de agradecê-lo. Venho, portanto, cumprir esse dever e exprimir-lhe toda a minha gratidão.

Ao pronunciar essas palavras, o olhar severo do magistrado nada perdera de sua arrogância habitual. As palavras que acabava de dizer foram articuladas por sua voz de procurador-geral, com aquela rigidez inflexível

de pescoço e de ombros que, repetimos, fazia seus bajuladores o apontarem como a estátua viva da lei.

— Cavalheiro — replicou o conde, por sua vez com uma frieza glacial

—, fico muito feliz de ter podido proteger um filho para sua mãe, pois dizem que o sentimento da maternidade é de todos o mais sagrado. Essa felicidade que me invade o dispensaria, senhor, de cumprir um dever cuja execução sem dúvida me honra, pois sei que o sr. de Villefort não é pródigo na homenagem que me faz, a qual, porém, por mais preciosa que seja, não se iguala à minha satisfação pessoal.

Villefort, perplexo com essa réplica inesperada, estremeceu como um soldado que sente o golpe infligido sob sua armadura, e um vinco em seu lábio indicou desdenhosamente que desde já não considerava o conde de Monte Cristo um fidalgo muito civilizado.

Então lançou os olhos à sua volta, procurando alguma coisa capaz de ressuscitar a conversa que morrera e parecia já estar enterrada.

Viu o mapa que Monte Cristo examinava quando ele entrara, e disse:

— O senhor se interessa por geografia? É um estudo estimulante, ainda mais para alguém que, segundo afirmam, viu tantos países quanto os impressos nesse atlas.

— Sim — respondeu o conde —, quis fazer com a espécie humana, como um todo, o que o senhor pratica diariamente com as exceções, isto é, um estudo fisiológico. Depois, pensei que seria mais fácil passar do conjunto para a parte, do que da parte para o conjunto. É um axioma algébrico que dita que se proceda do conhecido para o desconhecido, e não do desconhecido para o conhecido... Mas, sente-se, cavalheiro, faça o obséquio.

E Monte Cristo apontou uma poltrona ao procurador do rei, que foi obrigado a puxá-la para si, ao passo que o conde precisou apenas voltar a se jogar naquela sobre a qual estava ajoelhado quando o procurador do rei entrara. Ao fazê-lo, ficou de perfil para o seu visitante, de costas para a janela e com o cotovelo apoiado no mapa geográfico que constituía, por ora, o objeto da conversa, conversa esta que assumia, como o fizera nas casas de Morcerf e Danglars, um estilo inteiramente compatível, se não com a situação, pelo menos com os personagens.

— Ah, está a filosofar — replicou Villefort, após um breve instante de silêncio, durante o qual, como um atleta que encontra um adversário indigesto, recompusera suas forças. — Pois bem! Palavra de honra! Se,

como o senhor, eu nada tivesse para fazer, procuraria um passatempo menos triste.

— É verdade — devolveu Monte Cristo —, o homem é uma feia lagarta para quem o estuda ao microscópio solar. Mas, como acaba de dizer, não tenho nada para fazer. Vejamos, será que por acaso tem alguma coisa para fazer, cavalheiro? Ou, falando mais claramente, julga que o que faz merece ser chamado de alguma coisa?

A perplexidade de Villefort duplicou após esse segundo golpe tão incisivamente desferido por aquele estranho adversário. Havia muito tempo que o magistrado não fora alvo de um disparate dessa força, ou melhor, para ser mais preciso, era a primeira vez que ouvia algo assim.

O procurador do rei deu tratos à bola para responder.

— Cavalheiro — disse —, o senhor é estrangeiro e, como afirma, creio, uma parte de sua vida transcorreu nos países orientais; não sabe, portanto, o quanto a justiça humana, sumária nessas regiões bárbaras, adota em nosso país procedimentos cautelosos e compassados.

— Perfeito, perfeito; é o pede claudo2 antigo. Sei tudo isso, pois foi sobretudo à justiça de todos os países que me dediquei; foi o processo penal de todas as nações que comparei à justiça natural; e, devo dizê-lo, cavalheiro, foi precisamente essa lei dos povos

primitivos, isto é, a lei de talião3, que julguei mais de acordo com o coração de Deus.

— Se tal lei fosse adotada, senhor — disse o procurador do rei —, ela simplificaria bastante os nossos códigos e faria com que nossos magistrados não tivessem mais, como o senhor dizia há pouco, muita coisa para fazer.

— Quem sabe isso não pode vir a acontecer? — especulou Monte Cristo.

— O senhor sabe que as invenções humanas caminham do composto para o simples, e que o simples é sempre a perfeição.

— Enquanto isso, senhor — disse o magistrado —, nossos códigos subsistem com seus artigos contraditórios, extraídos dos costumes gauleses, das leis romanas, das tradições francas; ora, há de concordar que não se adquire o conhecimento de todas essas leis sem longos trabalhos, fazendo-se necessário um estudo profundo para adquirir esse conhecimento e, adquirido esse conhecimento, uma grande força mental para não esquecê-lo.

— Sou dessa opinião, cavalheiro; mas tudo o que o senhor sabe, de sua parte, a respeito do código francês, sei eu, da minha, não apenas a respeito desse código, mas a respeito dos códigos de todas as nações: as leis inglesas, turcas, japonesas e hindus me são tão familiares quanto as francesas; portanto, eu tinha razão ao dizer que, relativamente, pois saiba que tudo é relativo, cavalheiro, que relativamente a tudo que fiz, o senhor tem muito pouca coisa a fazer, e que, relativamente ao que aprendi, ainda tem muita coisa a aprender.

— Mas com que objetivo aprendeu tudo isso? — indagou Villefort, espantado.

Monte Cristo sorriu.

— Bem, cavalheiro — disse ele —, vejo que, a despeito da reputação que criou de homem superior, o senhor vê todas as coisas do ponto de vista material e vulgar da sociedade, começando no homem e terminando no homem, isto é, do ponto de vista mais limitado e tacanho permitido à inteligência humana abraçar.

— Explique-se, senhor — disse Villefort, cada vez mais perplexo —, não o compreendo... muito bem.

— Afirmo, cavalheiro, que, com os olhos pregados na organização social das nações, o senhor vê apenas as molas da máquina, e não o operário sublime que a faz funcionar; afirmo que o senhor não reconhece à sua frente e à sua volta senão os titulares dos postos cujos diplomas foram assinados por ministros ou por um rei, e que os homens colocados por Deus acima dos titulares, dos ministros e dos reis, com uma missão a cumprir em vez de um posto a ocupar, estes escapam à sua visão curta.

Isso é típico da fraqueza humana, de órgãos débeis e incompletos.

Tobias4

tomava o anjo que lhe fora devolver a visão por um rapaz comum.

As nações tomavam Átila5, que devia destruí-las, por um conquistador como todos os conquistadores, e foi preciso que ambos revelassem suas missões celestes para que fossem reconhecidos; foi preciso que um dissesse: “Eu sou o anjo do Senhor”; e o outro: “Eu sou o flagelo de Deus”, para que a essência divina de ambos fosse revelada.

— Então — disse Villefort, cada vez mais perplexo e julgando falar com um ser iluminado, ou um louco —, o senhor se vê como uma dessas criaturas extraordinárias que acaba de citar?

— Por que não? — respondeu friamente Monte Cristo.

— Perdão, cavalheiro — continuou Villefort, embasbacado —, o senhor vai me desculpar se, ao me apresentar em sua casa, eu ignorava estar me apresentando na casa de um homem cujos conhecimentos e inteligência vão muito além dos conhecimentos triviais e da inteligência normal dos homens. Não é costume entre nós franceses, desafortunados corruptos da civilização, fidalgos como o senhor, possuidores de uma fortuna imensa, pelo menos é o que afirmam, observe que não interrogo, apenas repito, não é costume, eu dizia, esses privilegiados pela riqueza perderem seu tempo com especulações sociais, com sonhos filosóficos, em geral concebidos para consolar aqueles a quem a sorte deserdou dos bens da terra.

— Ora, cavalheiro — replicou o conde —, quer dizer que alcançou a situação eminente de que desfruta sem admitir, e sequer encontrar, exceções? Nunca exercita seu olhar, muito embora tão necessitado de perspicácia e segurança, adivinhando num relance a natureza do homem sobre o qual seu olhar recaiu? Um magistrado não deveria ser, não o melhor aplicador da lei, não o mais astucioso intérprete das obscuridades da chicana, mas uma sonda metálica a explorar os corações, uma pedra de toque a detectar o ouro de que toda alma é sempre feita com mais ou menos liga?

— Juro que o senhor me confunde — disse Villefort —, nunca ouvi ninguém falar dessa maneira.

— É porque está constantemente enclausurado no círculo das condições gerais e nunca ousou abrir suas asas rumo às esferas superiores que Deus povoou com criaturas invisíveis ou excepcionais.

— E admite, senhor, que essas esferas existem e que as criaturas excepcionais e invisíveis misturam-se a nós?

— Por que não? Por acaso vê o ar que respira e sem o qual não poderia viver?

— Então não vemos essas criaturas que menciona?

— Ao contrário, vemo-las quando Deus permite que se materializem; o senhor as toca, esbarra com elas, fala com elas e elas lhe respondem.

— Ah! — exclamou Villefort, sorrindo. — Confesso que gostaria de ser avisado se uma dessas criaturas entrasse em contato comigo.

— Seu desejo foi atendido, cavalheiro, pois foi avisado ainda há pouco, e agora, mais uma vez, repito o aviso.

— Quer dizer que faz parte delas?

— Sou uma dessas criaturas excepcionais, sim, senhor, e creio que, até o dia de hoje, homem algum viu-se numa posição igual à minha. Os domínios dos reis são limitados, seja por montanhas, seja por rios, seja por uma mudança de costumes, seja por uma língua diferente. Meu reino, por sua vez, é do tamanho do mundo, pois não sou nem italiano, nem francês, nem hindu, nem americano, nem espanhol: sou cosmopolita. Nenhum país pode dizer que me viu nascer. Somente Deus sabe que torrão há de me ver morrer. Adoto todos os costumes, falo todas as línguas. Julga-me francês, não é mesmo?, pois falo o francês com tanta facilidade e pureza quanto o senhor... Pois bem! Ali, meu núbio, julga-me árabe; Bertuccio, meu intendente, julga-me romano; Haydée, minha escrava, julga-me grego.

Portanto, compreenda, não sendo de país algum, não pedindo proteção a governo algum, não reconhecendo homem algum como irmão, nem um único dos escrúpulos que detêm os poderosos ou paralisam os fracos me paralisa ou detém. Tenho apenas dois adversários; não direi vencedores, pois, com persistência os subjugo: a distância e o tempo. O terceiro, e o mais terrível, é a minha condição de homem mortal. Apenas esta pode deter-me no caminho que trilho e antes de alcançar o objetivo ao qual me proponho: todo o resto eu já tenho sob controle. O que os homens chamam de circunstâncias do destino, isto é, a ruína, a mudança, o fortuito, está inteiramente previsto; e se algumas podem me atingir, nenhuma pode me derrubar. A menos que morra, serei sempre o que sou; eis por que lhe digo coisas que o senhor nunca ouviu, sequer da boca dos reis, pois os reis precisam do senhor e os outros homens o temem. Quem é que não diz consigo, numa sociedade tão ridiculamente organizada como a nossa:

“Quem sabe um dia não precisarei do procurador do rei?”

— Mas, cavalheiro, o senhor mesmo não poderia vir a dizer uma coisa dessas? Pois, a partir do momento em que mora na França, acha-se automaticamente submetido às leis francesas.

— Sei disso, cavalheiro — respondeu Monte Cristo. — Mas quando pretendo visitar determinado país, começo a estudar, por meus próprios meios, todos os homens de quem posso ter algo a esperar ou a temer, e acontece de eu conhecê-los tão bem quanto eles se conhecem, e talvez melhor. O resultado disso é que o procurador do rei com quem eu tiver de lidar, seja ele quem for, ficará certamente mais embaraçado que eu mesmo.

— O que significa — disse Villefort com hesitação — que, sendo a natureza humana fraca, todo homem, de acordo com o senhor, cometeu...

erros?

— Erros... ou crimes — respondeu displicentemente Monte Cristo.

— E que apenas o senhor, dentre os homens, os quais não reconhece como irmãos, foram suas palavras — replicou Villefort, com uma voz ligeiramente alterada —, apenas o senhor é perfeito?

— Perfeito, não — respondeu o conde —, impenetrável, só isso. Mas, se a conversa o desagrada, paremos por aqui, cavalheiro; sou tão ameaçado pela sua justiça quanto o senhor pelo meu sexto sentido.

— Não, não, cavalheiro! — pediu Villefort com veemência, provavelmente temendo dar a impressão de que recuava. — Não! Com sua conversa brilhante e, quase sublime, o senhor alçou-me acima dos parâmetros triviais; não estamos mais conversando, estamos dissertando.

Ora, sabe muito bem que às vezes os catedráticos de teologia da Sorbonne, ou os filósofos em suas querelas, desferem-se verdades cruéis; suponha que estamos fazendo teologia social e filosofia teológica, e eu lhe direi esta, por mais rude que seja: meu irmão, estás incorrendo no orgulho; estás acima dos outros, mas acima dos outros, está Deus.

— Acima de todos, cavalheiro! — enfatizou Monte Cristo, com uma entonação tão profunda que Villefort foi percorrido por um calafrio involuntário. — Peco por orgulho em relação aos homens, serpentes sempre prontas a se erguerem contra quem as olha de cima sem esmagá-las com o pé. Mas deposito esse orgulho perante Deus, que me tirou do nada para fazer de mim o que sou.

— Vamos, sr. conde, admiro-o — disse Villefort, que pela primeira vez nesse estranho diálogo acabava de empregar a fórmula aristocrática para tratar o forasteiro que até então chamara apenas de senhor. — Sim, digo-lhe, se for realmente forte, realmente superior, realmente santo ou impenetrável, o que, tem razão, vem a dar praticamente no mesmo, seja soberbo, cavalheiro; é a lei das dominações. Mas, não obstante, deve ter uma ambição qualquer...

— Tenho uma, senhor.

— Qual?

— Eu também, como acontece com todo homem uma vez na vida, fui levado por Satã até a mais alta montanha da Terra; lá chegando, ele me apontou o mundo inteiro e, como dissera outrora a Cristo, disse a mim:

“Pronto, filho dos homens, o que queres para me adorar?” 6 Refleti então longamente, pois havia muito tempo uma terrível ambição de fato devorava o meu coração; em seguida, respondi-lhe: “Escuta, sempre ouvi falar da Providência, entretanto nunca a vi, nem nada que a ela se assemelhe; quero ser a Providência, pois o que sei de mais belo, de maior e de mais sublime no mundo é recompensar e punir.” Mas Satã abaixou a cabeça e soltou um suspiro: “Estás enganado” disse ele, “a Providência existe; não a vês porque, filha de Deus, ela é invisível como o pai. Não viste nada que se lhe assemelhe porque ela procede por desígnios ocultos e caminha por sendas obscuras; tudo que posso fazer por ti é tornar-te um agente dessa Providência.” O negócio foi fechado, e nele talvez eu perca minha alma, mas não importa — disse Monte Cristo. — Se tivesse que fazer de novo, eu faria.

Villefort olhava para Monte Cristo com um espanto sublime.

— Sr. conde — disse ele —, tem parentes?

— Não, senhor, sou sozinho no mundo.

— Que pena!

— Por quê? — perguntou Monte Cristo.

— Porque poderia ter visto um espetáculo capaz de quebrar o seu orgulho. Não teme senão a morte, não é o que diz?

— Não digo que a temo, digo que somente ela pode me deter.

— E a velhice?

— Minha missão estará cumprida antes que eu envelheça.

— E a loucura?

— Não consegui enlouquecer, e o senhor conhece o axioma: non

bis in idem7; é um axioma penal, e, por conseguinte, da sua alçada.

— Cavalheiro — replicou Villefort —, há outra coisa a temer além da morte, da velhice ou da loucura: há, por exemplo, a apoplexia, esse raio que o atinge sem destruí-lo, e depois do qual, todavia, tudo acaba.

Continua-se a mesma pessoa mas todavia não se é mais a mesma pessoa; aquele que, como Ariel, se aproximava do anjo, não passa

mais senão de uma massa inerte que, como Caliban8, se aproxima da besta; isso, como eu disse, na língua dos homens é chamado, simplesmente, uma apoplexia.

Venha, por favor, continuar esta conversa em minha casa, sr. conde, no dia em que sentir vontade de encontrar um adversário capaz de o compreender e ávido para o refutar; eu lhe apresentarei o meu

pai, o sr. Noirtier de Villefort, um dos jacobinos9 mais ardorosos da Revolução Francesa, isto é,

a mais esplêndida audácia posta a serviço da mais vigorosa organização; um homem que, como o senhor, talvez não tenha visto todos os reinos da terra, mas que ajudou a abalar um dos mais poderosos; um homem que, como o senhor, julgava-se um dos

enviados, não de Deus, mas do Ser Supremo10, não da Providência, mas da Fatalidade. Pois bem, senhor! O

rompimento de um vaso sanguíneo no lóbulo cerebral acabou com tudo, não em um dia, não em uma hora, mas em um segundo. Na véspera, o sr.

Noirtier, ex-jacobino, ex-senador, ex-carbonário, zombava da guilhotina, zombava do canhão, zombava do punhal, o sr. Noirtier jogava com as revoluções, o sr. Noirtier, para quem a França não passava de um vasto tabuleiro do qual piões, torres, cavalos e rainhas deviam desaparecer, contanto que o rei fosse posto em xeque; o sr. Noirtier, tão temível, um dia depois era o pobre sr. Noirtier, velho paralítico, submetido às vontades da criatura mais fraca da casa, isto é, sua neta Valentine; um cadáver mudo e gelado, enfim, que vive sem sofrer apenas para dar tempo à matéria de atingir sem percalços sua inteira decomposição.

— Lamentavelmente — disse Monte Cristo —, esse espetáculo não é estranho nem para os meus olhos nem para o meu pensamento; sou um pouco médico e, como meus confrades, mais de uma vez procurei a alma na matéria viva e na matéria morta; e, como a Providência, ela permaneceu invisível aos meus olhos, embora presente no meu coração.

Cem autores, desde Sócrates, desde Sêneca, desde santo

Agostinho, desde Gall11, fizeram em prosa ou em verso a aproximação que o senhor acaba de fazer; ainda assim, compreendo que os sofrimentos de um pai possam operar grandes mudanças no espírito do filho. Irei, senhor, uma vez que acaba de me comprometer, vislumbrar, em benefício da minha humildade, esse terrível espetáculo que deve entristecer imensamente a sua casa.

— O que sem dúvida ocorreria se Deus não me houvesse dado uma ampla compensação. Diante do velho que desce rastejando para o túmulo, estão duas crianças entrando na vida: Valentine, uma filha do meu primeiro casamento com a srta. Renée de Saint-Méran, e Édouard, esse filho cuja vida o senhor salvou.

— E que conclui dessa compensação? — perguntou Monte Cristo.

— Concluo, cavalheiro — respondeu Villefort —, que meu pai, desatinado pelas paixões, cometeu alguns desses erros que escapam à justiça humana, embora sejam da alçada da justiça de Deus! E que Deus, não querendo punir senão uma única pessoa, escolheu-o como vítima.

Monte Cristo, com um sorriso nos lábios, soltou do fundo do coração um rugido que teria colocado Villefort para correr, se este o tivesse podido ouvir.

— Adeus, cavalheiro — disse o magistrado, que já havia algum tempo se levantara e falava de pé. — Despeço-me levando do senhor uma lembrança de estima que, espero, poderá ser-lhe útil quando me conhecer melhor, pois não sou em absoluto um homem banal, longe disso. A propósito, o senhor conquistou, na sra. Villefort, uma amiga eterna.

O conde cumprimentou e contentou-se em acompanhar Villefort apenas até a porta de seu gabinete, o qual se dirigiu para seu coche precedido por dois lacaios. A um sinal do patrão, eles correram para abrir a portinhola.

Em seguida, quando o procurador do rei desapareceu:

— Basta — disse Monte Cristo, extraindo com esforço um sorriso do seu peito opresso —, basta, chega desse veneno. Agora que o meu coração está impregnado por ele, vamos procurar o antídoto.

Dando um toque no gongo:

— Subo aos aposentos da senhora — disse a Ali. — Prepare um coche para daqui a trinta minutos!

1 “como um Harlay ou um Molé”: o autor pode estar se referindo a Nicolas de Harlay (1546-1629), senhor de Sancy, militar e diplomata francês, ou a seu filho, Achille Harlay de Sancy, bispo de Saint-Malo (1581-1646), e também diplomata, intelectual e lingüista, ambos com trajetórias marcadas pela capacidade de sobrevivência política em circunstâncias de instabilidade institucional; conde Louis-Mathieu Molé (1781-1855), político francês, feito ministro da Justiça por Napoleão I e, mais tarde, servidor de vários gabinetes durante o reinado de Luís XVIII.

2 Pede claudo: a citação completa é pede paena claudo, ou “o castigo manco”, último verso das Odes, de Horácio.

3 Lei de talião: do latim lex talionis, lex sendo lei e talis, tal, parelho. Também dita pena de talião, consiste na rigorosa reciprocidade entre o crime e a pena, apropriadamente chamada retaliação.

Esta lei é freqüentemente expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”. É uma das mais antigas existentes. Os primeiros indícios da lei de talião foram encontrados no Código de Hamurábi, em 1730 a.C., na Babilônia.

4 Tobias: referência bíblica, Tobias, XII, 15: “Sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos a penetrar na glória do Senhor.”

5 Átila: rei dos hunos (406-53), que governou o maior império europeu de seu tempo, cujas possessões estendiam-se da Europa Central até o mar Negro, do Danúbio até o Báltico. Durante seu reinado, foi um dos maiores inimigos dos impérios romanos oriental e ocidental. Em grande parte da Europa, é tido como paradigma de crueldade.

6 “Pronto, filho dos homens, o que queres para me adorar?” : referência bíblica, Mateus, IV, 8-9:

“Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles./ E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.”

7 Non bis in idem: axioma jurídico segundo o qual a pessoa julgada por um fato não pode ser perseguida uma segunda vez pelo mesmo fato.

8 Caliban: criatura meio-homem meio-besta, que habita a ilha que serve de cenário à peça A tempestade, de Shakespeare.

9 “um dos jacobinos mais ardorosos”: ver Parte I, cap.6, nota 22.